Filosofia Grega. Parte I: De Tales a Platão
Por John Burnet
Livro I O Mundo
[94]Capítulo VI Leucipo
§76 A primeira parte da nossa história termina com Leucipo, o fundador do atomismo; pois foi ele quem realmente respondeu à questão de Tales.1 Nós sabemos quase nada sobre a vida de Leucipo, e o seu livro parece ter sido incorporado aos trabalhados coletados de Demócrito. Nenhum escritor subsequente a Teofrasto parece ter sido capaz de distinguir o seu ensinamento daquele do seu discípulo mais famoso. De fato, a própria existência dele tem sido negada, embora em fundamentos inteiramente insuficientes. É certo que Aristóteles e Teofrasto ambos o consideraram como o real autor da teoria atômica, e está fora de questão que eles deveriam ter sido enganados em uma tal questão, especialmente visto que Teofrasto distinguiu o ensinamento de Leucipo daquela de Demócrito em certos pontos.
Teofrasto estava incerto se Leucipo era um nativo de Mileto ou de Eleia. Sem dúvida, a última visão é baseada na afirmação que ele tenha sido um discípulo dos eleatas e, em particular, de Zenão. Nós deveremos ver que isso é inteiramente originado pelo que sabemos da origem da doutrina dele, e nós podemos inferir com alguma probabilidade que ele foi um milesiano que tinha vindo sob a influência de Parmênides em Eleia ou em algum outro lugar. Não é provável que foi em Atenas; pois a teoria atômica não parece ter sido bem conhecida até a época de Aristóteles. Em particular, Platão não parece ter aludido a ela, embora ela certamente teria interessado a ele se ele a tivesse conhecido.
§77 Aristóteles, quem, na falta de Platão, é a nossa principal autoridade sobre o assunto do atomismo, fornece uma explicação perfeitamente clara e inteligível da maneira que ele surgiu. Quase parece como se ele estivesse ansioso para fornecer uma afirmação mais estritamente histórica do que a usual apenas porque tão pouco era conhecido do atomismo na Academia. De acordo com ele, ele originou-se na negação eleática do vazio, a partir da qual a impossibilidade da multiplicidade e do movimento tinha sido deduzida. Leucipo supôs que ele mesmo tenha descoberto uma teoria que evitaria essa consequência. Ele admitiu que não poderia haver movimento se não houvesse vazio, e ele inferiu que era errado identificar o vazio com o não existente. O que não é (τὸ μὴ ὄν), no sentido parmenidiano, é exatamente tanto quanto o que é (τὸ ὄν). Em outras palavras, Leucipo foi o primeiro filósofo a afirmar, com uma completa consciência do que ele estava fazendo, a existência do espaço vazio. O vazio pitagórico tinha sido mais ou menos identificado com o “ar,” mas o vazio de Leucipo era realmente um vácuo.2
Além do espaço havia o corpo, e a esse Leucipo atribui todas características do real eleata. Ele era “cheio” (ναστόν), ou, em outras palavras, não havia nenhum espaço vazio nele, mas ele não era um. De qualquer maneira, a suposição do espaço vazio tornou possível afirmar que havia um número infinito de tais reais, invisíveis, por causa da sua pequeneza, mas cada um possuindo todas as marcas do um real eleata, e, em particular, cada um indivisível (ἄτομον) como ele. Esses se moviam no espaço vazio, e as combinações deles davam origem às coisas que nós percebemos com os sentidos. Finalmente, o pluralismo foi formulado de uma maneira lógica e coerente. Como nós vimos (§68), Melisso já tinha sugerido [96]que, se as coisas fossem muitas, cada uma delas tem de ser tal como ele sustentava o Um ser. Ele intencionou isso como uma reductio ad absurdum do pluralismo, mas Leucipo aceitou-o, e fez disso o fundamento do seu sistema.
§78 A natureza do movimento original atribuído aos átomos por Leucipo tem sido muito discutida. Em uma data posterior, os epicuristas sustentaram que todos os átomos estão caindo eternamente para baixo através do espaço infinito, e isso tornou muito difícil para eles explicarem como eles poderiam entrar em contato uns com os outros. Não há necessidade de atribuir essa concepção não científica aos primeiros atomistas. Em primeiro lugar, como nós deveremos ver, eles não consideravam o peso como uma propriedade primária dos átomos; e, em segundo lugar, nós temos evidência de que Demócrito disse que não havia nem acima, nem embaixo, nem meio, nem fim, no vazio infinito.3 Aristóteles criticou tudo isso a partir da sua própria teoria de peso e leveza absolutos, resultando nos “movimentos naturais” dos elementos para cima e para baixo, como possa ser o caso, e, provavelmente, a doutrina epicurista é o resultado dessa crítica. Contudo, mesmo Epicuro teve a graça de dispensar a leveza absoluta de Aristóteles. Portanto, nós podemos considerar o movimento original dos átomos como ocorrendo em todas as direções, e nós deveremos ver que apenas isso explicará a formação dos mundos. Demócrito comparou os movimentos dos átomos da alma àquele das partículas no raio de sol que disparam para lá e para cá em todas s direções mesmo quando não há vento,4 e nós podemos assumir justamente que ele considerava o movimento original dos outros átomos muito da mesma maneira.
§79 Os átomos não são matematicamente indivisíveis como as mônadas pitagóricas, mas eles são fisicamente indivisíveis porque não há espaço vazio neles. Portanto, teoricamente, não há razão pela qual um átomo não deveria ser tão grande quanto um mundo. Um tal átomo seria muito a mesma coisa que a Esfera de Parmênides, não fosse pelo espaço vazio fora dele e pela pluralidade de mundos. Contudo, como uma [97]questão de fato, todos os átomos são invisíveis. É claro, isso não significa que todos eles sejam do mesmo tamanho; pois há espaço para uma variedade infinita de tamanhos abaixo do limite do mínimo visível.
Leucipo explicava o fenômeno do peso a partir do tamanho e das combinações dos átomos, mas ele não considerava o peso mesmo como uma propriedade primária dos corpos. Aristóteles distintamente diz que nenhum dos seus predecessores tinha dito nada sobre peso e leveza absolutos, mas apenas peso e leveza relativos, e Epicuro foi o primeiro a atribuir peso aos átomos. Para os primeiros atomistas, o peso é apenas um fenômeno secundário surgindo, de uma maneira a ser explicada, a partir do excesso de magnitude.5 Será observado que, nesse aspecto, os primeiros atomistas eram muito mais científicos do que Epicuro e mesmo do que Aristóteles. A concepção de peso absoluto não tem lugar em ciência, e realmente é uma das ilustrações mais impressionantes do verdadeiro instinto científico dos filósofos gregos que ninguém antes de Aristóteles nunca fez uso dela, enquanto Platão expressamente a rejeitou.
§80 As diferenças entre grupos de átomos são devidas a (1) arranjo e (2) posição. Não está claro ser a ilustração a partir das letras do alfabeto citada por Aristóteles foi dada por Leucipo ou Demócrito, mas, em qualquer caso, ela provavelmente é pitagórica em origem, pois ela explica-se satisfatoriamente pelo uso da palavra στοιχεἶον no sentido de elemento, e isso é encontrado em Platão, quem, como eu acredito, não conhecia nada de atomismo. Por mais que possa ser, os pontos de semelhança entre pitagorismo e atomismo já foram notados por Aristóteles, e ele teve conhecimento direto sobre o assunto. “Leucipo e Demócrito,” ele diz, “virtualmente também fazem todas as coisas números e produzem-nas a partir de números.” Eu não vejo como essa afirmação pode ter qualquer significado, a menos que nós consideremos os números pitagóricos como padrões ou “números figurados,” e, nesse caso, é ainda mais [98]impressionante que Demócrito chamasse os átomos de “figuras” ou “formas” (ἰδέαι). O vazio também é uma concepção pitagórica, embora, como nós temos visto, não foi formulada com precisão antes de Leucipo. Portanto, dificilmente é demais dizer que os átomos são monadas pitagóricas dotadas das propriedades da realidade parmenidiana, e que os elementos que surgem a partir das várias posições e arranjos dos átomos são, até agora, como os “números” pitagóricos. De qualquer modo, tal parece ter sido a visão de Aristóteles, embora nós devêssemos ter ficado felizes se ele tivesse explicado a si mesmo mais completamente.
§81 O primeiro efeito do movimento dos átomos é que os átomos maiores são retardados, não porque eles sejam “pesados,” mas porque eles estão mais expostos a impacto do que os menores. Em particular, átomos de uma forma irregular tornam-se emaranhados uns com os outros e formam grupos de átomos, os quais ainda estão mais expostos a impacto e, consequentemente, a retardamento. Por outro lado, os átomos menores e mais redondos preservam melhor seus movimentos originais, e esses são os átomos dos quais o fogo é composto. Será observado que é simplesmente aceito como certo que um movimento original persistirá a menos que alguma coisa aja sobre ele de modo a retardá-lo ou fazê-lo parar. Para Aristóteles, isso parecia incrível, e a verdade teve de ser redescoberta e estabelecida sobre uma base firme por Galileu e Newton. Essa realmente era a suposição de toda a filosofia grega inicial. Antes da época de Parmênides era o repouso e não o movimento que requeriam explicação, e agora que Leucipo tinha descoberto uma maneira de escapar da conclusão de Parmênides, foi possível para ele retornar à visão anterior.
§82 Em um vazio infinito no qual um número infinito de átomos de formas e tamanhos incontáveis estão constantemente colidindo uns com os outros em todas as direções, haverá um número infinito de lugares onde um movimento de vórtice é iniciado pelo movimento deles. Quando isso acontece, nós temos o começo de um mundo. Não é correto atribui isso ao acaso, como escritores posteriores fazem. Isso se segue necessariamente a partir das [99]pressuposições do sistema. O fragmento solitário de Leucipo que nós possuímos é para o efeito de que “Nada acontece por nada, mas todas as coisas a partir de um fundamento (λόγος) e de necessidade.” Será observado que a teoria do vórtice é derivada a partir daquela de Anaxágoras (§60), a qual, por sua vez, foi um desenvolvimento da doutrina jônica mais antiga. Até agora nós vemos que Leucipo foi um milesiano, mas ele pensou a matéria muito mais cuidadosamente do os seus predecessores. Anaxágoras tinha suposto que a analogia de uma funda aplicar-se-ia, e que, portanto, os corpos maiores ou “mais pesados” seriam levados para a maior distância a partir do centro. Leucipo deixou o peso completamente fora da explicação, como uma propriedade que não é primitiva, mas apenas surge quando o vórtice já foi formado. Portanto, ele olhou antes para o que acontece no caso de corpos em um redemoinho de vento ou água e viu que os corpos maiores tenderia em direção ao centro.
§83 O primeiro efeito do movimento de vórtice iniciado dessa maneira é juntar aqueles átomos que são semelhantes em forma e tamanho, e essa é a origem dos quatro “elementos,” fogo, ar, terra e água. Esse processo foi ilustrado pela imagem de um peneira que traz junto os grãos de painço, trigo e cevada. Como essa imagem também é encontrada no Timaeus (52 e) de Platão, provavelmente ela é de origem pitagórica. Outra imagem foi aquela das ondas ordenando os seixos em uma praia e empilhando pedras longas com longas e redondas com redondas. Nesse processo os átomos mais finos são forçados em direção à circunferência, enquanto que os maiores tendem ao centro. Para entender isso, nós temos de lembrar que todas as partes do vórtice entram em contato (ἐπίψαυσις) umas com as outras, e é dessa maneira que o movimento das partes mais externas é comunicado àquelas dentro delas. Os corpos maiores oferecem mais resistência (ἀντέρεισ) a esse movimento comunicado do que os menores, simplesmente porque eles são maiores e, portanto, estão mais expostos a impactos em direções diferentes que neutraliza o movimento em vórtice. Dessa maneira, eles abrem caminho para o centro, onde o movimento é mínimo, enquanto que os corpos menores são [100]apertados em direção à circunferência, onde ele é máximo. Essa é a explicação do peso, o qual não é uma “qualidade oculta,” mas surge a partir de causas puramente mecânicas.
§84 Quando chegamos aos detalhes, nós descobrimos que Leucipo se mostrou um verdadeiro jônio. Sem dúvida os seus professores eleatas advertiram-no contra a cosmologia pitagórica, mas eles não puderam lhe oferecer uma melhor. Portanto, era natural que ele devesse voltar-se para as teorias do seu distinto concidadão Anaxímenes, e o pouco que nós conhecemos do sistema dele mostra que ele fez isso, exatamente como Anaxágoras tinha feito antes dele. Ele deliberadamente rejeitou a descoberta pitagórica de que a Terra era um esfera, uma descoberta da qual ele não pode ter sido ignorante, e ensinava que ela era em forma “como um tamborim,” descansando no ar. A razão por que ela deslizava em direção ao sul era que o calor ali tornava o ar mais fino e, portanto, menos capaz de a suportar. De fato, os atomistas rejeitaram a teoria pitagórica da terra exatamente como Anaxágoras tinha feito, e foi apenas a fusão da cosmologia oriental e ocidental em Atenas que finalmente estabeleceu a nova visão. Embora a Terra de Aristóteles fosse o centro do universo, nunca ocorre a ele duvidar da sua forma esférica.
§85 Não vale a pena seguir em detalhe a aplicação da teoria atômica aos fenômenos particulares, e a explicação atômica da sensação e do conhecimento será melhor guardada até que nós cheguemos a Demócrito, a quem ela é principalmente devida. Tudo mais que nós temos de dizer aqui é que Leucipo respondeu à questão de Tales no sentido no qual Tales a tinha feito, e nenhum avanço adicional era possível sobre essas linhas. Antes que isso pudesse ocorrer, foi necessário que atenção devesse ser dirigida aos problemas irmãos do conhecimento e da conduta, e nós deveremos ver como isso aconteceu no próximo livro. A completude mesma da teoria mecânica do mundo que agora tinha sido fornecida trouxe a ciência a uma paralisação por um tempo, e também provocou uma revolta contra a cosmologia. Por um lado, isso veio a partir dos especialistas nas ciências particulares, especialmente medicina, [101]quem desgostavam das generalizações vastas dos cosmologistas, e sustentavam o direito de cada ciência para lidar com a sua própria província. O tratado hipocrático sobre Medicina Antiga (pela qual é significada a arte da medicina baseada em experiência e observação, enquanto contrastada com as teorias médicas modernas da escola de Empédocles e outros) é a melhor evidência disso. Por outro lado, houve uma revolta conta a ciência, a qual procedeu de homens cujo o interesse principal estava na vida prática. Como nós sabemos se essas coisas são verdadeiras, eles diziam, e, mesmo se elas são, o que isso importa para nós? Essas duas questões apenas podem se lidadas por uma teoria do conhecimento e uma teoria da conduta.
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ORIGINAL:
BURNET, J. Greek Philosophy. Part I Thales to Plato. London: MacMillan and Co., Limited, 1928. p. 94-101. Disponível em: <https://archive.org/details/greekphilosophyp0000burn/page/94/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1[94]E. Gr. Ph.2 §§171 sqq.
2[95]A derivação aristotélica do atomismo a partir do eleatismo tem sido contestada, especialmente por Gomperz. É claro, é verdadeiro que o milesiano Leucipo estava preocupado em vindicar a antiga cosmologia jônica, e, em particular, salvar tanto quanto ele pudesse da “filosofia de Anaxímenes.” Assim foi Anaxágoras (§61). Contudo, isso não tem influência sobre o ponto em questão. Teofrasto afirma distintamente que Leucipo tinha sido um membro da escola de Parmênides e Zenão.
3[96]Cic. De Finibus, i. 17; Diog. Laert. ix. 44.
4Aristóteles, De Anima, 403 b, 31.
5[97]Não poderia haver nenhuma questão de massa; pois a Φύσις de todos os átomos é idêntica, e cada átomos é um contínuo.