Perspectivas sobre o Humanismo Digital
Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital
Parte VIII Geopolítica e Soberania Digitais
[219]Uma Década Crítica para a Soberania Digital Europeia
por George Metakides
Resumo A década corrente será crítica para a aspiração da Europa para alcançar e manter a soberania digital, assim como para efetivamente proteger e promover seus valores humanistas no ecossistema digital em evolução. A soberania digital no contexto geopolítico corrente permanece um conceito fluido visto que ele deve depender de uma interdependência estratégica balanceada com os EUA, a China e outros atores globais. A estratégia em desenvolvimento para alcançar isso depende do uso coordenado dos três instrumentos básicos do investimento, da regulação e do acabamento do mercado digital interno. O investimento, em adição aos instrumentos da estrutura financeira multianual (2021-2027), extraíra 20% do 750 bilhões do fundo de recuperação. A regulação, em adição ao Ato da Governança Digital e ao Ato do Mercado Digital, incluirá o Ato dos Dados, a nova regulação da IA, e mais que isso está na linha de produção, tirando proveito do assim chamado de efeito de Bruxelas. De importância-chave para o sucesso desse esforço permanecem a oportunidade e o “bom encaixe (dovetailing)” das ações particulares adotadas.
Parece cada vez mais provável que a década de 2020 será crucial para o futuro do impacto global econômico, político e social das tecnologias digitais.
Ela será particularmente crítica para a aspiração da Europa para alcançar e manter a soberania digital enquanto protegendo e promovendo valores queridos que a humanidade aprimorou e filtrou, através da Atenas do século V a.C. e do Iluminismo do século XVIII d.C. até os nossos dias. A soberania digital continua um conceito fluido como analisado em Moerel e Timmers (2021). Aqui não se pretendeu dizer autarquia digital ou autonomia absoluta, mas antes uma estratégia de posicionamento que assegura uma interdependência balanceada onde uma tentativa do contestante para causar dano a outros arrisca autodano.
No começo da última década, os anos de 2010, a paisagem digital parecia decididamente … mais rosa. Ainda era uma época de “inocência digital” e grande otimismo por como, no geral, as tecnologias digitais transformariam o mundo.
[220]Houve a Primavera Árabe de 2011 e a promessa crível de que as tecnologias digitais, no geral, e o impacto da internet e de suas “máquinas sociais,” no particular, ajudariam a criar uma cidadania que, por sua vez, fomentariam e fortaleceriam a democracia e a coesão social.
Então vieram as revelações de Snowden e o escândalo da Cambridge Analytica em 2013, o referendum do Brexit e as eleições dos EUA em 2016, e uma avalanche de desenvolvimentos relacionados, de modo que agora, no começo de 2021, nós estamos olhando para desinformação, teorias da conspiração e notícias falsas aceleradas pelas plataformas de mídias sociais, tendo circulado pelo mundo muitas vezes pelo tempo que a verdade seja checada e revelada. O caso da Primavera Árabe de 2011 agora é estudado como um “Precursor da Era da Desinformação”!
Nós também estamos olhando para algoritmos de IA em rápida evolução, devoradores de dados (data-gobbling), não transparentes, os quais, combinados com os modelos de negócio usados pelas plataformas de mídias sociais, empurram as pessoas para os extremos do espectro político, dessa forma, esvaziando o “meio” aristotélico que é crucial tanto para a democracia quanto para a coesão social.
A paisagem digital rosada, e o seu contexto geopolítico do começo da década dos anos de 2010, foi substituído, no começo dos anos de 2020, por um muito diferente onde todos os tipos de luzes vermelhas estão piscando e sinais de alerta estão tocando.
A era da inocência digital e esperança desenfreada está terminada, substituída pela crença mitigada de que os avanços acelerantes em tecnologias digitais ainda possam ser uma força para o bem no geral, mas apenas na condição de que governos, indústria, academia e cidadãos individuais tomem ações que possam assegurar que essa crença seja realizada.
A maioria dessas ações correntemente propostas e debatidas são controversas e vistas diferentemente nos EUA, China e Europa e outras partes do mundo.
Isso está no coração de um complexo jogo de poder global em desenvolvimento, no contexto do qual a Europa está tentando se posicionar.
Antes de avançarmos para ver como essa nova década poderia ocorrer, e porque ela poderia ser bem crítica ao dar forma talvez a várias décadas que seguirão, demos primeiro uma olhada no contexto geopolítico em evolução.
Praticamente todos os estudos recentes inferem a mesma ordem de superpoder global como o faz no relatório Gallup de fevereiro de 2021 (Gallup International 2021), o qual pesquisou percepções sobre essa questão globa mesma.
Quer dizer, por 2030, haverá dois principais superpoderes combinando performance econômica e militar, os quais estarão manobrando pelo primeiro lugar, os EUA e a China.
Muito atrás (ainda mais do que agora) estará a UE, seguida de perto pela Rússia.
O ficar para trás da UE não surge como uma surpresa, visto que a UE não espera se aproximar dos dois gigantes sem uma política comum estrangeira e de defesa, o que, por sua vez, não se espera acontecer durante esta década.
Mas há uma descoberta adicional no supracitado relatório do Gallup. A segunda questão-chave perguntada (além de qual será o principal superpoder por 2030) perguntou quais superpoderes seriam “fatores estabilizadores” e quais seriam desestabilizadores no mundo (Fig. 1).
![]() |
[221]Fig. 1 Resposta aos poderes estabilizadores e desestabilizadores |
[221]A UE é vista como um fator estabilizador por uma maior porcentagem das pessoas ao redor do globo do que qualquer um dos grandes ou da Rússia.
Os analistas concordam que essa percepção está fortemente correlacionado com uma visão global mais geral da UE como uma poder suave não agressivo.
Isso também ajuda a explicar porque as iniciativas regulatórias da UE, como a GDPR, a qual, apesar de quaisquer deficiências reais ou putativas, trouxe a proteção de dados ao olho público e tem sido emulada bastante rapidamente ao redor do mundo por mais de 120 países. Portanto, é por isso que a UE pode socar acima do seu peso geopolítico, como um poder suave com impacto global em questões regulatórias.
Tudo isso foi analisado minuciosamente no excelente livro de Anu Bradford, The Brussels Effect (Bradford 2020), mostrando que a regulação europeia da paisagem digital tem o potencial de tornar-se um plano (blueprint) para regulação similar ao redor do mundo, em áreas tais como privacidade de dados, saúde e segurança do consumidor, antitruste e discurso de ódio online.
Por sua vez, isso permite a UE a promover globalmente um caminho europeu como uma alternativa aos caminhos libertário e autoritário de formação do ecossistema digital, correntemente seguidos nos EUA e na China, respectivamente.
Tome-se a oligarquia das Grandes Empresas de tecnologia como uma ilustração.
Foi durante a década de 2010 que a GAFAM e suas contrapartes chineses alcançaram sua dominância completa.
Agora, no começo de 2021, nós temos a GAFAM com um valor de mercado de 7,6 trilhões, fortalecida durante a pandemia e projetando uma dobra em vendas pelo fim da década.
A força econômica das gigantes encoraja o seu apetite bulímico para engolir pequenos inovadores, quer integrando-os, quer enterrando-os. Por exemplo, a Apple compra uma companhia a cada 3 ou 4 semanas e comprou mais de 100 nos últimos 5 anos.
Primeiro, o vencedor leva tudo e, em seguida, tamanho gera tamanho e poder gera poder.
[222]Foi a UE que liderou o caminho para criar uma estrutura regulatória que nivelaria o campo de jogo e criaria uma economia digital mais contestada, enquanto os EUA dependem da autorregulação voluntária e a China do seu poder autoritário.
Durante a última década, para dizer o mínimo, os EUA têm sido céticos sobre semelhante regulação à época como arriscando sufocar a inovação, mas agora as políticas também estão mudando do outro lado do Atlântico.
Questões de anticoncorrência, incluindo a possibilidade de separações empresarias (break-ups), agora estão sobre a mesa nos EUA, e questões regulatórias mais amplas são propostas. Decisões tomadas (ou não tomadas), haverá impacto crucial sobre como o inteiro ecossistema digital evolui durante a década de 2020.
A UE e os EUA permanecem em desacordo em um número de questões dizendo respeito à privacidade do cidadão, à questão relacionada da transferência de dados através do Atlântico, e a disputa em andamento sobre como taxar os oligarcas da tecnologia.
Ao mesmo tempo, especialmente após as eleições de 2020 nos EUA, tanto os EUA quanto a Europa estão desenvolvendo uma preocupação comum sobre o uso chinês das tecnologias digitais, desimpedido por preocupação éticas, de privacidade e de direitos humanos e a vantagem comparativa que isso poderia conceder a China para liderar a corrida para tecnologias de IA cada vez mais avançadas e dependentes de dados.
Seguindo o exemplo da GDPR, a UE propôs, ou está prestes a propôr, um impressionante, em escopo pelo menos, arsenal de medidas regulatórias incluindo regulação da IA, Ato de Serviços Digitais (Digital Services Act), Ato do Mercado Digital (Digital Market Act), Ato de Governança de Dados (Data Governance Act) e Ato dos Dados (Data Act) (ver também a fig. 2).
![]() |
[222]Fig. 2 Apresentação do Dr. Yvo Volman, no painel de discussão do Humanismo Digital de 23 de fevereiro de 2021 (DigHumTUWien 2021). |
A influência regulatória global constitui para a UE um passo necessário, embora de maneira nenhuma suficiente, para o alcance e a manutenção da soberania digital.
[223]Contudo, regulação complementada com investimentos e um completo mercado digital interno oferece uma estratégia mais convincente.
O investimento massivo em infraestrutura e tecnologia digital durante esta década é agora visível. Espera-se que os 150 bilhões de euros, compreendendo os 20% do fundo de recuperação de 750 bilhões acionados pela pandemia, financiem investimentos muito maiores via Bando Europeu de Investimento e outras instituições, assim como investimento tanto públicos quanto privados ao nível nacional. Como uma ilustração, um serviço de nuvem europeu-federado, de próxima geração, construído sobre a experiência de GAIA-X, seria uma alta prioridade de investimento durante a primeira metade da década corrente. Adicionais investimentos planejados avançariam na direção de dobrar a participação europeia na produção global de semicondutores por 2030, cobertura universal de 5G na UE e computação quântica.
Em paralelo, o acabamento do mercado digital interno europeu possibilitaria às companhias digitais europeias procurarem oportunidades de alcance continentais com 450 milhões de clientes potenciais como um primeiro passo na direção de se tornarem jogadores globais competitivos.
Agora é reconhecido no mais elevado nível de tomada de decisão política que a Soberania Digital Europeia é “central para a soberania europeia” e é “a capacidade que a Europa tem de ter para fazer suas próprias escolhas, baseada em seus próprios valores, respeitando suas próprias regras” (citações dos Presidentes do Conselho e da Comissão, respectivamente).
Ao mesmo tempo, a Soberania Digital Europeia é necessária para empoderar a Europa para ajudar a assegurar que a transformação digital seja inspirada, como afirmado no Tratado da União Europeia, por “a herança humanista da Europa, a partir da qual nós desenvolvemos os valores universais da inviolabilidade e da inalienabilidade dos direitos da pessoa humana, liberdade, democracia, igualdade e o governo da lei” (Conselho de Ministros da UE 2020).
Durante a década corrente, cada passo dado na direção da Soberania Digital Europeia estará inevitavelmente interagindo com o posicionamento geopolítico da UE com respeito aos outros jogadores globais e ao posicionamento da China e dos EUA, em particular.
Apenas como uma ilustração, a China anunciou no começo de março de 2021 o lançamento de um programa de 5 anos com vistas a diminuir a dependência tecnológica da China do Ocidente em 30 áreas consideradas de importância específica, tais como microprocessadores, sistema operacionais para mobiles e software para design de aeronaves. Isso surge principalmente como uma reação aos passos dados pelos EUA nos últimos 4 anos para restringir o poder dos gigantes tecnológicos chineses como a Huawei e a SMI.
Uma semana antes do movimento chinês, o governo Biden nos EUA anunciou passos para diminuir a dependência dos EUA de terras raras e outras importações afetando a cadeia de suprimentos digital.
A habilidade da Europa para alcançar e manter a soberania digital durante tal rebalanceamento contínuo da interdependência estratégica entre os atores globais, esperado durante os anos de 2020, dependerá de quão rapida e efetivamente ela age e reage em um contexto geopolítico tão dinâmico.
Em alguns casos, a autarquia europeia seletiva pode ser o movimento correto, enquanto em outros, alianças de confiança podem ser a melhor opção. Também pode haver casos onde planejar para saltar para a próxima geração de tecnologia pode ser preferível a tentar acompanhar os aplicantes da atual.
[224]Decisões rápidas e passos seguidos não são fáceis para a União Europeia, uma construção incompleta de 27 pequenos países (no contexto global) que não têm uma política externa e de defesa comuns que possa fornecer uma ferramenta para ajudar a encarar a política industrial suportada pelo estado da China e a atração de inovação por compras de defesa dos EUA.
Isso apresenta um desafio real para a soberania europeia durante está década.
Para se opor a essa deficiência herdada, em alguns casos estrategicamente selecionados, um subconjunto de países europeus potencialmente poderia avançar juntos rapidamente em uma particular área tecnológica, onde eles estejam muito avançados (por exemplo, computação quântica), com a possibilidade deixada aberta para que outros estados-membros companheiros possam juntar-se posteriormente.
Talvez movimentos rapidamente selecionados e decisivos durante esta década na Europa poderiam ser mais efetivos do que o processo inevitavelmente lento de tentar fazer sentido de uma equivalente política industrial completa primeiro.
Um mercado digital interno verdadeiramente desimpedido, regulação e investimentos são ações que constituem blocos de construção poderosos de uma potencialmente efetiva estratégia de Soberania Digital para a Europa.
Parte dessa estratégia é a ocasião (timing) da nova regulação e do novo investimento em uma área particular, de maneira que esse investimento e os jogadores envolvidos possam extrair benefício máximo como os “primeiros usuários” da regulação.
É por isso que a linha de tempo de impacto, o bom encaixe (dovetailing) das ações específicas emanando dos blocos de construção supracitados de maneira a maximizar o valor acrescido resultante da combinação deles de uma maneira oportuna e efetiva, enquanto fatorando dinamicamente em desenvolvimento no contexto geopolítico, será de significância “decisiva (make or break)” durante a década.
O sucesso para essa estratégia, complementado pelo estímulo contínuo de valores humanistas e líderes que os adotem, tornaria os anos de 2020 uma década muito boa para a Europa.
Referências
Moerel, L., Timmers, P. (2021). Reflections on Digital Sovereignty, EU CYBER DIRECT, Janeiro de
2021.
Gallup International. (2021). Superpowers in the World in Y2030. Fevereiro de 2021.
Bradford, Anu. (2020). The Brussels Effect, Oxford University Press.
DigHumTUWien. (2021). Preventing Data Colonialism without resorting to protectionism – The European strategy [vídeo online]. 23 de fevereiro de 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=O7tSwB_3a1w (Acessado em: 9 em junho de 2021).
Ministerial Council of the EU. (2020). Berlin Declaration on Digital Society and Value-based Digital Government at the ministerial meeting during the German Presidency of the Council of the European Union on 8 December 2020. Disponível em: https://ec.europa.eu/newsroom/dae/document.cfm?doc_id=75984 (Acessado em: 3 de maio de 2021)
ORIGINAL:
METAKIDES, G. A Crucial Decade for European Digital Sovereignty. In: GHEZZI, C. et al. (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p. 219-225. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY 4.0


