Perspectivas sobre o Humanismo Digital
Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital
Parte IV Tecnologia da Informação e as Artes
[115]Humanismo e a Grande Oportunidade de Interfaces Inteligentes de Usuário para Herança Cultural
por Oliviero Stock
Resumo No espírito do significado moderno da palavra humanismo, se a tecnologia tem como objeto o florescimento de humanos, é do maior valor empoderar cada ser humano com a capacidade para apreciar a cultura, de uma maneira inclusiva, adaptativa ao pessoal. Em particular, neste breve capítulo, argumenta-se em favor da oportunidade que interfaces de usuário inteligentes podem oferecer especificamente na área da cultura, além das vantagens infraestruturais óbvias com as quais todos nós estamos familiares. Conhecimento é fornecido sobre pesquisa que teve como objetivo o contínuo enriquecimento pessoal de indivíduos em locais culturais, aproximando-se da antiga visão humanista de nos conectar com o nosso passado cultural, agora tornada possível para todos, não apenas para uma elite.
O humanismo coloca os seres humanos no centro de interesse para todos os aspectos da vida, em termos filosóficos assim como práticos. Suas raízes estão no termo de Cícero humanitas, o qual, em substância, queria dizer o desenvolvimento de todas as formas de virtude humana e tornou-se um movimento importante na Itália do século XIV, incluindo figuras marcantes da cultura e arte, tais como o poeta Francesco Petrarca, antes de se espalhar para outras áreas na Europa. O humanismo enfatizava a conexão com a cultura clássica e, de uma maneira, oferecia-se para superar as limitações da época. Ele não era apenas tributo passivo à cultura antiga, mas conexão ativa: autores como Petrarca deram significado ao conceito de herança cultural e chegaram até a escrever cartas diretamente para autores clássicos.
Eu realmente acredito que nós estamos em um ponto histórico, um que pode guiar a relação humana com a herança cultural e outros aspectos culturais no espírito de um humanismo moderno, digital. Se a tecnologia tem por objetivo o florescimento dos humanos, é do mais alto valor empoderar cada ser humano com a capacidade para apreciar a cultura, de uma maneira inclusiva, adaptativa ao individual. Em particular, neste breve capítulo, eu gostaria de argumentar em favor da oportunidade que as interfaces de usuário inteligentes podem oferecer [116]especificamente na área da cultura, além das óbvias vantagens infraestruturais com as quais todos nós somos familiares.
No geral, nós podemos dizer que a TI e a Web, embora elas tenham oferecido oportunidades enormes para o enriquecimento cultural humano, não satisfizeram as expectativas que muitos tinham. A maior parte de nós acreditava que a tecnologia teria trazido os mesmos direitos para todos, oportunidades para avançar no nível cultural, exposição natural a pontos diferentes de vista, em suma, um aperfeiçoamento cultural em nossa sociedade. Isso aconteceu em uma extensão muito limitada.
Ao mesmo tempo, efeitos indesejados têm sido difundidos; o mundo digital trouxe com ele um perigo forte de pseudoculturas que ocultam intenções agressivas e, por outro lado, de uniformidade cultural, para não dizer de imperialismo cultural. Frequentemente, eventualmente a tecnologia tem sido usada para a difusão de conteúdos deploráveis e até tem sido a ferramenta de escolha para mensagens de ódio, sem nós fazermos muito para evitar isso. Apenas recentemente, um esforço tecnológico defensivo começou a enfrentar o discurso de ódio, e, apenas para mencionar um tema popular, as notícias falsas ainda não são fáceis de detectar e enfrentar, automatica ou semiautomaticamente. Dessa maneira, há muitos desafios adiante no lado da defesa digital, na intersecção de cultura e ética.
De uma maneira, como eu disse, aqui eu gostaria de discutir o grande potencial positivo das tecnologias inteligentes para herança cultural. A herança cultural tem muitas formas; algumas formas são consideradas serem imateriais e reprodutíveis desde o começo, como por exemplo, textos, música, ou filmes e, basicamente, teatro. Tecnologias inteligentes podem acessar e interpretar o material. Um bom exemplo são as técnicas de processamento de linguagem natural para descobrir automaticamente relações de influência na formação de conceitos entre autores diferentes (ver Van Camp e Van den Bosch 2012) ou na determinação de cadeias (causais) em eventos históricos. Aqui, contudo, eu gostaria de me focar na herança cultural física, ou na experiência incomparável de ficar diante do original artefato material, estando ele em museus, em locais históricos ou relevantes para arte, ou também, possivelmente, em outras localizações “cotidianas” não estruturadas. Para um museu, há três aspectos principais para a intervenção digital: preservação, organização e apreciação. A preservação de artefato através de tecnologias tem uma longa história e está melhorando firmemente, mas ela não é o foco deste capítulo. A organização é o trabalho clássico do curador, quem pode envolver arquitetos para conseguir o melhor a partir da combinação de exibidos com o espaço disponível. Em museus modernos, a tecnologia pode ajudar em todos os aspectos do design e da oferta básica ao público, para a segurança no museu e também para o sensoriamento em tempo real do comportamento dos visitantes a fim de melhorara a disponibilidade de recursos para os visitantes.
A perspectiva realmente nova – e aquela tratando do centro do humanismo – vem das interfaces inteligentes para a apreciação de herança cultural pelo visitante. Em abstrato, nós podemos pensar em três fases: antes da visita cultural, durante a visita e após a visita. A fase de “antes da visita,” obtendo informação e preparando-se para tirar o máximo da visita vindoura, já tem uma variedade de ferramentas disponíveis. Adicionalmente, no futuro, nós deveremos desfrutar de continuidade, de maneira que a visita atual explore o que foi explorado antes em casa, incluindo um modelo do visitante (ver Ardissono et al. 2012), adquirido antecipadamente.
[117]De fato, quando se chega à visita real, o elemento-chave é que nada deveria tomar o lugar da experiência emocional de estar diante do artefato original. A interface de computador para a cultura, e, no geral, qualquer interface, não deve colocar limites a uma experiência natural, mas deveria aumentá-la. Adicionalmente, a intervenção baseada em computador deveria conectar a eperiência corrente a um modelo de aprendizagem. Nós queremos que a interface leve em consideração o estado cognitivo, emocional e físico do visitante (onde ele/ela está, cansaço, etc.), para ser guiado pelas próprias motivações, próprios gostos e próprias preferências dele/dela, no caso, para negociar o que não deveria ser deixado passar, mas não para impor uma agenda rígida. Essa flexibilidade e adaptação ao usuário requer o modelo de visitante, o qual deve ser tão preciso quanto possível, ser continuamente atualizado no curso da visita. Portanto, as estratégias de apresentação dependem das mídias e modalidades disponíveis, mas novamente, deveriam levar em conta o movimento no espaço, e o que foi explorado anteriormente, de modo que a apresentação, a qual é necessariamente baseada em linguagem, seja apropriadamente personalizada e possa fazer referência ao que chamou a atenção do visitante anteriormente (Kuflik et al. 2011). Várias técnicas têm sido estudadas, baseadas na audição, combinação com leitura, combinação com ver imagens, até documentários dinâmicos com narração multimídia produzida automaticamente para a situação corrente (Stock et al. 2007). Também é bastante natural nesse contexto ser capaz de fornecer informação cultural a partir de pontos diferentes de vista. Descrições culturais podem ser controversas, e a crítica e os diversos pontos de vista podem acrescentar ao nosso entendimento. Do lado visual, várias formas de aprimoramento do que está sendo percebido têm sido propostas, por exemplo, reconstrução de um prédio superimposto sobre a visão do fragmento existente (Aliprnatis e Caridakis 2019).
As pessoas tendem a visitar museus e locais históricos em pequenos grupos, família ou amigos. Etnógrafos têm revelado que a conversa é um fator fundamental no sucesso da experiência cultural. Compartilhamento da emoção, discussão, crítica, alargamento da perspectiva ajudam a aprofundar-se, a aprender e a desenvolver um gosto pela experiência cultural. Interfaces inteligentes também poder ajudar nesse aspecto. Para mencionar apenas um exemplo: embora o teatro no museu tenha sido proposto por algum tempo, inspirado por uma tradição de teatro móvel que nós podemos datar da idade média, uma tecnologia original de drama, baseada em smartphone, para o museu foi recentemente criada e experimentada. O sistema inteligente de drama baseado em tecnologia concede um papel ativo aos visitantes e sutilmente induz conversação entre os membros do grupo sobre o conteúdo, enquanto eles se movem adiante em sua visita (Callaway et al. 2012). Essa abordagem está baseada em cenas dinamicamente adaptadas e requer, como tecnologia possibilitadoras, em adição ao posicionamento preciso, também a detecção de proximidade e de comportamento de grupo. Ela envolve comunicação de distância, e pode ser explorada para permitir a participação na visita de membros idosos ou portadores de deficiência do pequeno grupo, quem não podem deixar o lar.
Outro aspecto no qual a tecnologia consente é uma forma de interação através do tempo: por exemplo, deixando traços de um visita, na forma de comentários que podem ser ouvidos por netos quando acontecerá de eles estarem exatamente no lugar que você está visitando agora. Ou, mais sofisticado: entreter um diálogo com alguém que não está mais ali, através da interpretação dos proferimentos do visitante por um sistema de gerenciamento de diálogo [118]e entendimento hábil e composição de fragmentos de entrevista do falecido (Artstein et al. 2014).
O “depois da visita” do cenário é importante para o compartilhamento e reflexão do grupo sobre a visita e consolidação da experiência de grupo. Nesse momento, é óbvio que a tecnologia inteligente, tendo um registro da competência e experiência corrente do usuário, do que cada um viu, do que chamou a sua atenção, etc, pode ajudar a conversa, ajudar a reforçar a memória, e fornecer novos estímulos para o indivíduo e para intuições específicas.
É o suficiente sobre a visita ao museu, ou ao local de arte, como o ponto focal da cultura “material.” Um desafio para o futuro também é conectar todas as experiências culturais. Em primeiro lugar, a ideia é que um sistema que acompanhe você em uma visita conheça suas visitas anteriores ao museu presente ou a outros, sobre o que atraiu você; ele pode ter um modelo de quanto você pode lembrar e que conhecimento novo deveria ser integrado. Mais ambiciosa é a ideia de experiência cultural ubíqua: em todas as circunstâncias, o fato de que você estar se aproximando de um certo lugar pode levar um sistema proativo a negociar com o seu modelo individual, quanto a promover alguns aspectos culturais locais relacionados aos seus interesses, e descobrir a melhor maneira e obter a sua atenção e o tempo para explorar o local e ter uma apresentação personalizada (Kuflik et al. 2015). Nesse espírito, por exemplo, locais de eventos históricos podem estar conectados com o que foi aprendido em um museu, ou uma narração histórica pode ser expressa não apenas em relação à localizações de grandes eventos, mas também à história “de baixo para cima (bottom-up).” Para completar esse retrato, poderia estar disponível para os residentes locais, e, especialmente, para projetos escolares, projetar os conteúdo para valorizar o seu território.
Tendo falado sobre a oportunidade para apreciação da herança cultural, eu gostaria de mencionar um tema diferente, mas socialmente importante, ainda relacionado a culturas, nesse caso, querendo dizer principalmente aspectos étnicos. Eu refiro-me à proposição da tecnologia para facilitar a superação de conflito. Atenção tem sido concedida à tecnologia para ajudar a resolver conflitos ao tratar das necessidades básicas dos dois lados, suportando, dessa maneira, os tomadores de decisão. Contudo, há uma questão fundamental interessada com o leigo envolvido em um conflito, uma questão de reconhecer o outro e as atitudes em mudança. Sistemas experimentais inteligentes têm sido projetados para facilitar a criação conjunta de uma narrativa aceitável por participantes do conflito, e estudos têm sido conduzidos para mostrar que a experiência com semelhantes sistema pode ajudar a mudar a atitude de um em relação ao outro (Zancanarao et al. 2012).
Uma nota final é sobre ética em interfaces. Na maior parte das situações que eu tenho tentado descrever, o objetivo-chave é motivar indivíduos e fazê-los encontrar prazer e interesse em se aprofundarem na herança cultural. Ainda mais óbvio é o caso da atividade de grupo, incluindo o último objetivo descrito de chamar a atenção de participantes para narrativa compartilhada. A questão de quais meios sutis para influenciar e chamar a atenção através da interface são eticamente aceitáveis deve ser colocada para interfaces e comunicação. Estudos éticos sobre a aceitabilidade da comunicação persuasiva maquínica (Stock et al. 2016), possivelmente levando em consideração culturas diferentes, são um importante tema de pesquisa a ser perseguido.
Em conclusão, eu penso que nós temos uma oportunidade extraordinária com a afirmação de interfaces inteligentes de usuário para a apreciação de herança cultural. Elas requerem [119]interdisciplinaridade fundamental: elas são baseadas em IA e engenharia, mas concedem um papel central à cognição, às emoções e aos estudos sobre estética e ciências sociais. É claro, em adição a toda a riqueza dos conteúdos que dizem respeito à cultura mesma.
À época do humanismo original no século XIV, é claro, a visão da cultural era apenas para uma pequena elite. Muitos séculos depois, a tecnologia digital inteligente pode oferecer meios anteriormente impensáveis para maior apreciação da cultural e também extraordinária flexibilidade: ela pode ajudar em qualquer lugar, desde o especialista cultural até o récem-chegado, convocar a sua atitude humana interior em relação à aprendizagem, em relação à beleza e, no geral, em relação a conhecer o nosso passado (e de outros), dessa forma, potencialmente, facilitando o entendimento de tudo o que é humano. Essa oportunidade não é para a elite, ela é para todos, no espírito do significado moderno da palavra humanismo. O humanismo original foi o passo inicial que conduziu ao que veio a ser conhecido como Renascença. A oportunidade do humanismo digital será bem entendida e conduzir-nos-á a uma Renascença digital?
Referências
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ORIGINAL:
STOCK, O. Humanism and the Great Opportunity of Intelligent User Interfaces for Cultural Heritage. In: GHEZZI, C. et al. (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p.115-120. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY 4.0