quinta-feira, 15 de junho de 2023

Perspectivas sobre o Humanismo Digital - Humanismo e a Grande Oportunidade de Interfaces Inteligentes de Usuário para Herança Cultural

Perspectivas sobre o Humanismo Digital


Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital


Parte IV Tecnologia da Informação e as Artes


Ensaio anterior


[115]Humanismo e a Grande Oportunidade de Interfaces Inteligentes de Usuário para Herança Cultural


por Oliviero Stock


Resumo No espírito do significado moderno da palavra humanismo, se a tecnologia tem como objeto o florescimento de humanos, é do maior valor empoderar cada ser humano com a capacidade para apreciar a cultura, de uma maneira inclusiva, adaptativa ao pessoal. Em particular, neste breve capítulo, argumenta-se em favor da oportunidade que interfaces de usuário inteligentes podem oferecer especificamente na área da cultura, além das vantagens infraestruturais óbvias com as quais todos nós estamos familiares. Conhecimento é fornecido sobre pesquisa que teve como objetivo o contínuo enriquecimento pessoal de indivíduos em locais culturais, aproximando-se da antiga visão humanista de nos conectar com o nosso passado cultural, agora tornada possível para todos, não apenas para uma elite.


O humanismo coloca os seres humanos no centro de interesse para todos os aspectos da vida, em termos filosóficos assim como práticos. Suas raízes estão no termo de Cícero humanitas, o qual, em substância, queria dizer o desenvolvimento de todas as formas de virtude humana e tornou-se um movimento importante na Itália do século XIV, incluindo figuras marcantes da cultura e arte, tais como o poeta Francesco Petrarca, antes de se espalhar para outras áreas na Europa. O humanismo enfatizava a conexão com a cultura clássica e, de uma maneira, oferecia-se para superar as limitações da época. Ele não era apenas tributo passivo à cultura antiga, mas conexão ativa: autores como Petrarca deram significado ao conceito de herança cultural e chegaram até a escrever cartas diretamente para autores clássicos.

Eu realmente acredito que nós estamos em um ponto histórico, um que pode guiar a relação humana com a herança cultural e outros aspectos culturais no espírito de um humanismo moderno, digital. Se a tecnologia tem por objetivo o florescimento dos humanos, é do mais alto valor empoderar cada ser humano com a capacidade para apreciar a cultura, de uma maneira inclusiva, adaptativa ao individual. Em particular, neste breve capítulo, eu gostaria de argumentar em favor da oportunidade que as interfaces de usuário inteligentes podem oferecer [116]especificamente na área da cultura, além das óbvias vantagens infraestruturais com as quais todos nós somos familiares.

No geral, nós podemos dizer que a TI e a Web, embora elas tenham oferecido oportunidades enormes para o enriquecimento cultural humano, não satisfizeram as expectativas que muitos tinham. A maior parte de nós acreditava que a tecnologia teria trazido os mesmos direitos para todos, oportunidades para avançar no nível cultural, exposição natural a pontos diferentes de vista, em suma, um aperfeiçoamento cultural em nossa sociedade. Isso aconteceu em uma extensão muito limitada.

Ao mesmo tempo, efeitos indesejados têm sido difundidos; o mundo digital trouxe com ele um perigo forte de pseudoculturas que ocultam intenções agressivas e, por outro lado, de uniformidade cultural, para não dizer de imperialismo cultural. Frequentemente, eventualmente a tecnologia tem sido usada para a difusão de conteúdos deploráveis e até tem sido a ferramenta de escolha para mensagens de ódio, sem nós fazermos muito para evitar isso. Apenas recentemente, um esforço tecnológico defensivo começou a enfrentar o discurso de ódio, e, apenas para mencionar um tema popular, as notícias falsas ainda não são fáceis de detectar e enfrentar, automatica ou semiautomaticamente. Dessa maneira, há muitos desafios adiante no lado da defesa digital, na intersecção de cultura e ética.

De uma maneira, como eu disse, aqui eu gostaria de discutir o grande potencial positivo das tecnologias inteligentes para herança cultural. A herança cultural tem muitas formas; algumas formas são consideradas serem imateriais e reprodutíveis desde o começo, como por exemplo, textos, música, ou filmes e, basicamente, teatro. Tecnologias inteligentes podem acessar e interpretar o material. Um bom exemplo são as técnicas de processamento de linguagem natural para descobrir automaticamente relações de influência na formação de conceitos entre autores diferentes (ver Van Camp e Van den Bosch 2012) ou na determinação de cadeias (causais) em eventos históricos. Aqui, contudo, eu gostaria de me focar na herança cultural física, ou na experiência incomparável de ficar diante do original artefato material, estando ele em museus, em locais históricos ou relevantes para arte, ou também, possivelmente, em outras localizações “cotidianas” não estruturadas. Para um museu, há três aspectos principais para a intervenção digital: preservação, organização e apreciação. A preservação de artefato através de tecnologias tem uma longa história e está melhorando firmemente, mas ela não é o foco deste capítulo. A organização é o trabalho clássico do curador, quem pode envolver arquitetos para conseguir o melhor a partir da combinação de exibidos com o espaço disponível. Em museus modernos, a tecnologia pode ajudar em todos os aspectos do design e da oferta básica ao público, para a segurança no museu e também para o sensoriamento em tempo real do comportamento dos visitantes a fim de melhorara a disponibilidade de recursos para os visitantes.

A perspectiva realmente nova – e aquela tratando do centro do humanismo – vem das interfaces inteligentes para a apreciação de herança cultural pelo visitante. Em abstrato, nós podemos pensar em três fases: antes da visita cultural, durante a visita e após a visita. A fase de “antes da visita,” obtendo informação e preparando-se para tirar o máximo da visita vindoura, já tem uma variedade de ferramentas disponíveis. Adicionalmente, no futuro, nós deveremos desfrutar de continuidade, de maneira que a visita atual explore o que foi explorado antes em casa, incluindo um modelo do visitante (ver Ardissono et al. 2012), adquirido antecipadamente.

[117]De fato, quando se chega à visita real, o elemento-chave é que nada deveria tomar o lugar da experiência emocional de estar diante do artefato original. A interface de computador para a cultura, e, no geral, qualquer interface, não deve colocar limites a uma experiência natural, mas deveria aumentá-la. Adicionalmente, a intervenção baseada em computador deveria conectar a eperiência corrente a um modelo de aprendizagem. Nós queremos que a interface leve em consideração o estado cognitivo, emocional e físico do visitante (onde ele/ela está, cansaço, etc.), para ser guiado pelas próprias motivações, próprios gostos e próprias preferências dele/dela, no caso, para negociar o que não deveria ser deixado passar, mas não para impor uma agenda rígida. Essa flexibilidade e adaptação ao usuário requer o modelo de visitante, o qual deve ser tão preciso quanto possível, ser continuamente atualizado no curso da visita. Portanto, as estratégias de apresentação dependem das mídias e modalidades disponíveis, mas novamente, deveriam levar em conta o movimento no espaço, e o que foi explorado anteriormente, de modo que a apresentação, a qual é necessariamente baseada em linguagem, seja apropriadamente personalizada e possa fazer referência ao que chamou a atenção do visitante anteriormente (Kuflik et al. 2011). Várias técnicas têm sido estudadas, baseadas na audição, combinação com leitura, combinação com ver imagens, até documentários dinâmicos com narração multimídia produzida automaticamente para a situação corrente (Stock et al. 2007). Também é bastante natural nesse contexto ser capaz de fornecer informação cultural a partir de pontos diferentes de vista. Descrições culturais podem ser controversas, e a crítica e os diversos pontos de vista podem acrescentar ao nosso entendimento. Do lado visual, várias formas de aprimoramento do que está sendo percebido têm sido propostas, por exemplo, reconstrução de um prédio superimposto sobre a visão do fragmento existente (Aliprnatis e Caridakis 2019).

As pessoas tendem a visitar museus e locais históricos em pequenos grupos, família ou amigos. Etnógrafos têm revelado que a conversa é um fator fundamental no sucesso da experiência cultural. Compartilhamento da emoção, discussão, crítica, alargamento da perspectiva ajudam a aprofundar-se, a aprender e a desenvolver um gosto pela experiência cultural. Interfaces inteligentes também poder ajudar nesse aspecto. Para mencionar apenas um exemplo: embora o teatro no museu tenha sido proposto por algum tempo, inspirado por uma tradição de teatro móvel que nós podemos datar da idade média, uma tecnologia original de drama, baseada em smartphone, para o museu foi recentemente criada e experimentada. O sistema inteligente de drama baseado em tecnologia concede um papel ativo aos visitantes e sutilmente induz conversação entre os membros do grupo sobre o conteúdo, enquanto eles se movem adiante em sua visita (Callaway et al. 2012). Essa abordagem está baseada em cenas dinamicamente adaptadas e requer, como tecnologia possibilitadoras, em adição ao posicionamento preciso, também a detecção de proximidade e de comportamento de grupo. Ela envolve comunicação de distância, e pode ser explorada para permitir a participação na visita de membros idosos ou portadores de deficiência do pequeno grupo, quem não podem deixar o lar.

Outro aspecto no qual a tecnologia consente é uma forma de interação através do tempo: por exemplo, deixando traços de um visita, na forma de comentários que podem ser ouvidos por netos quando acontecerá de eles estarem exatamente no lugar que você está visitando agora. Ou, mais sofisticado: entreter um diálogo com alguém que não está mais ali, através da interpretação dos proferimentos do visitante por um sistema de gerenciamento de diálogo [118]e entendimento hábil e composição de fragmentos de entrevista do falecido (Artstein et al. 2014).

O “depois da visita” do cenário é importante para o compartilhamento e reflexão do grupo sobre a visita e consolidação da experiência de grupo. Nesse momento, é óbvio que a tecnologia inteligente, tendo um registro da competência e experiência corrente do usuário, do que cada um viu, do que chamou a sua atenção, etc, pode ajudar a conversa, ajudar a reforçar a memória, e fornecer novos estímulos para o indivíduo e para intuições específicas.

É o suficiente sobre a visita ao museu, ou ao local de arte, como o ponto focal da cultura “material.” Um desafio para o futuro também é conectar todas as experiências culturais. Em primeiro lugar, a ideia é que um sistema que acompanhe você em uma visita conheça suas visitas anteriores ao museu presente ou a outros, sobre o que atraiu você; ele pode ter um modelo de quanto você pode lembrar e que conhecimento novo deveria ser integrado. Mais ambiciosa é a ideia de experiência cultural ubíqua: em todas as circunstâncias, o fato de que você estar se aproximando de um certo lugar pode levar um sistema proativo a negociar com o seu modelo individual, quanto a promover alguns aspectos culturais locais relacionados aos seus interesses, e descobrir a melhor maneira e obter a sua atenção e o tempo para explorar o local e ter uma apresentação personalizada (Kuflik et al. 2015). Nesse espírito, por exemplo, locais de eventos históricos podem estar conectados com o que foi aprendido em um museu, ou uma narração histórica pode ser expressa não apenas em relação à localizações de grandes eventos, mas também à história “de baixo para cima (bottom-up).” Para completar esse retrato, poderia estar disponível para os residentes locais, e, especialmente, para projetos escolares, projetar os conteúdo para valorizar o seu território.

Tendo falado sobre a oportunidade para apreciação da herança cultural, eu gostaria de mencionar um tema diferente, mas socialmente importante, ainda relacionado a culturas, nesse caso, querendo dizer principalmente aspectos étnicos. Eu refiro-me à proposição da tecnologia para facilitar a superação de conflito. Atenção tem sido concedida à tecnologia para ajudar a resolver conflitos ao tratar das necessidades básicas dos dois lados, suportando, dessa maneira, os tomadores de decisão. Contudo, há uma questão fundamental interessada com o leigo envolvido em um conflito, uma questão de reconhecer o outro e as atitudes em mudança. Sistemas experimentais inteligentes têm sido projetados para facilitar a criação conjunta de uma narrativa aceitável por participantes do conflito, e estudos têm sido conduzidos para mostrar que a experiência com semelhantes sistema pode ajudar a mudar a atitude de um em relação ao outro (Zancanarao et al. 2012).

Uma nota final é sobre ética em interfaces. Na maior parte das situações que eu tenho tentado descrever, o objetivo-chave é motivar indivíduos e fazê-los encontrar prazer e interesse em se aprofundarem na herança cultural. Ainda mais óbvio é o caso da atividade de grupo, incluindo o último objetivo descrito de chamar a atenção de participantes para narrativa compartilhada. A questão de quais meios sutis para influenciar e chamar a atenção através da interface são eticamente aceitáveis deve ser colocada para interfaces e comunicação. Estudos éticos sobre a aceitabilidade da comunicação persuasiva maquínica (Stock et al. 2016), possivelmente levando em consideração culturas diferentes, são um importante tema de pesquisa a ser perseguido.

Em conclusão, eu penso que nós temos uma oportunidade extraordinária com a afirmação de interfaces inteligentes de usuário para a apreciação de herança cultural. Elas requerem [119]interdisciplinaridade fundamental: elas são baseadas em IA e engenharia, mas concedem um papel central à cognição, às emoções e aos estudos sobre estética e ciências sociais. É claro, em adição a toda a riqueza dos conteúdos que dizem respeito à cultura mesma.

À época do humanismo original no século XIV, é claro, a visão da cultural era apenas para uma pequena elite. Muitos séculos depois, a tecnologia digital inteligente pode oferecer meios anteriormente impensáveis para maior apreciação da cultural e também extraordinária flexibilidade: ela pode ajudar em qualquer lugar, desde o especialista cultural até o récem-chegado, convocar a sua atitude humana interior em relação à aprendizagem, em relação à beleza e, no geral, em relação a conhecer o nosso passado (e de outros), dessa forma, potencialmente, facilitando o entendimento de tudo o que é humano. Essa oportunidade não é para a elite, ela é para todos, no espírito do significado moderno da palavra humanismo. O humanismo original foi o passo inicial que conduziu ao que veio a ser conhecido como Renascença. A oportunidade do humanismo digital será bem entendida e conduzir-nos-á a uma Renascença digital?


Referências


Aliprantis, J. e Caridakis, G. (2019). ‘A Survey of Augmented Reality Applications in Cultural Heritage’. International Journal of Computational Methods in Heritage Science. 3, pp. 118-147.

Ardissono, L., Kuflik, T., e Petrelli, D. (2012) ’ Personalization in cultural heritage: the road travelled and the one ahead ’ User Model. User Adapt. Interact. 22(1), pp. 73 – 99.

Artstein, R., Traum, D., Alexander, O., Leuski, A., Jones, A., Georgila, K., Debevec, P., Swartout, W. e Maio, H. (2014) ‘ Time-offset interaction with a holocaust survivor ’ Proceedings of IUI-14, 19th International Conference on on Intelligent User Interfaces, Haifa.

Callaway, C., Stock, O., Dekoven, E. Noy, K., Citron, Y. e Dobrin, Y. (2012) ‘Drama and Narrative Variation as a Means to Induce Group Conversation at the Museum’ New Review of Hypermedia and Multimedia 18(1-2), pp. 37-61.

Ku fl ik, T., Stock, O., Zancanaro, M., Gorfinkel, A., Jbara, S., Kats, S., Sheidin, J. e Kashtan, N. (2011) ‘A Visitor’s Guide in an “Active Museum”: Presentations, Communications, and Reflection’ Journal on Computing and Cultural Heritage of the ACM, 3(3).

Kuflik, T., Wecker, A., Lanir, J. e Stock, O. (2015) ‘An Integrative Framework for Extending the Boundaries of the Museum Visit Experience: Linking the Pre, During and Post Visit Phases’ Journal of Information Technology and Tourism 15(1), pp. 17-47.

Stock, O., Guerini, M. e Pianesi, F. (2016) ‘Ethical dilemmas for adaptive persuasion systems’ Proceedings of AAAI-2016, Phoenix.

Stock, O., Zancanaro, M., Busetta, P., Callaway, C., Krüger, A., Kruppa, M., Kuflik, T., Not, E. e Rocchi, C. (2007) ‘Adaptive, Intelligent Presentation of Information for the Museum Visitor in PEACH’ User Modelling and User-Adapted Interaction, 17(3), pp. 257-304.

Van Camp, M. e Van den Bosch, A. (2012). ‘The socialist network’ Decision Support Systems. 53, pp. 761-769.

Zancanaro, M., Stock, O., Eisikovits, Z., Koren, C. e Weiss, P. L. (2012) ‘Co-narrating a conflict: An interactive tabletop to facilitate attitudinal shifts’ Transactions on Computer-Human Interaction (TOCHI) of the Association for Computational Machinery, 19(3), pp. 1-30.


Próximo ensaio


ORIGINAL:

STOCK, O. Humanism and the Great Opportunity of Intelligent User Interfaces for Cultural Heritage. In: GHEZZI, C. et al. (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p.115-120. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0

Perspectivas sobre o Humanismo Digital - Nós somos mais Necessários do que Nunca: Herança Cultural, Bibliotecas e Arquivos

Perspectivas sobre o Humanismo Digital


Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital


Parte IV Tecnologia da Informação e as Artes


Ensaio anterior


[109]Nós somos mais Necessários do que Nunca: Herança Cultural, Bibliotecas e Arquivos


por Anita Eichinger e Katharina Prager


Resumo Bibliotecas e arquivos como instituições de herança cultural têm uma grande história de, e uma grande experiência em, coletar, proteger, manejar e contextualizar as massas de material e dados. No contexto do humanismo digital, essas instituições poderiam tornar-se essenciais como um modelo assim como um campo de experimentação. Questionando o papel deles como porteiros (gatekeepers) e curadores, a transformação digital oferece-lhes a chance de se abrirem – através tanto de iniciativas participativas quanto de coleção inclusiva. Contudo, ao mesmo tempo, isso é uma questão de preservar a biblioteca e o arquivo como um lugar de encontro e de diálogo pessoal em uma tradição humana e humanista.


A crise do Corona deu um impulo imenso em muitas áreas, as quais tinham de ser mais desenvolvidas de uma maneira estratégica e coprojetada – sem nos subordinar às tecnologias, mas dando forma a elas. A cidade de Viena atualmente encoraja e orquestra ideias inovativas, ação colaborativa e engajamento social em sua estrutura da iniciativa de “humanismo digital.” Com Anita Eichinger, a Biblioteca da Cidade de Viena esteve envolvida desde o começo e assumiu a mentoria do grupo de trabalho sobre artes e cultura.1

A Biblioteca da Cidade de Viena,2 frequentemente descrita como “memória da cidade,” tem se desenvolvido através dos últimos 170 anos de uma biblioteca municipal discreta (fundada em 1856) para uma biblioteca municipal representativa, uma insituição cultural municipal, e um dos mais importantes arquivos eruditos sobre Viena. Ela mantém aproximadamente 6.500.000 volumes de livros sobre Viena (Viennensia e Austriaca); 1600 heranças (bequests) de habitantes importantes da cidade (tais como Franz Grillparzer, Marie von Ebner-Eschenbach, Franz Schubert, Johann Strauss, Karl Kraus or Friederike Mayröcker), [110]alguns deles parte da Memória do Mundo (Memory of World) da UNESCO; e uma das maiores coleções de pôsteres do mundo. Além desses possessões (holdings) centrais, ela também coleta recortes de jornal, fotografias históricas sermões, folhetos (leaflets), relatos de viagem, livros de receita e muito mais. Ao londo da última década tem havido um forte foco em retrodigitalização – e, embora a acessibilidade digital aos materiais permanece uma prioridade, a biblioteca está concentrando-se em pesquisa, inovação e humanismo digital nos anos por vir.

Embora a Biblioteca de Viena por si mesma não seja uma instituição de arte e cultural, ela é uma interface importante no campo cultural, com perícia na salvaguarda e mediação de ativos culturais.

Na nossa situação global – onde nós estamos lidando como a monopolização da web, a difusão de atitudes extremistas, o antifatualismo, as bolhas de filtro e câmaras de eco, a perda da privacidade, e muitos outros problemas – a importância dos arquivos e bibliotecas não pode se exagerada. Mais recentemente, o historiador Jill Lepore assinalou essas conexões e a história da evidência, da prova e do conhecimento em seu podcast “The Last Archive.”3

Rastrear (keeping track), arquivar (filing) e catalogar são ferramentas importantes no controle bibliográfico. Contudo, também são essenciais para entender criatividade, imaginação, competência social e crítica, mudança de perspectiva, inclusão, diversidade, e muito mais como conteúdos centrias de atividade cultural e artística. O supracitado grupo de trabalho sobre arte e cultura tornou claro em seu artigo de posição que arte, cultura e as competências do criativo têm de ajudar a dar forma ao humanismo digital como fatores fundamentais – uma questão que já tem sido óbvia para monopólios de tecnologia por um longo tempo, por exemplo.

Também se pode argumentar que bibliotecas e arquivos têm alguma experiência em combinar criatividade com ordem ou caos com sistemática e adaptando suas práticas às lógicas da arte e produção de conhecimento humanos ao longo dos séculos.

A Biblioteca da Cidade de Viena mantém registros históricos de uma cidade mundialmente renomada como uma cidade de cultura – e nas últimas décadas – também como um centro de inovação social, científica e tecnológica. A esse respeito, isso também pode se referir à sua lendária história intelectual: antes e depois da Primeira Guerra Mundial, fin-de-siècle Vienna e Red Vienna alcançaram significância internacional na esfera cultura e social. Depois do fim da monárquia austríaca em 1918, os líderes da cidade, junto com seus intelectuais, ousadamente “imaginaram uma nova sociedade que seria economicamente justa, cientificamente rigorosa e radicalmente democrática. ‘Red Vienna’ empreendeu experimentos em habitação pública, bem-estar e educação, enquanto mantendo uma presença de relevância mundial em ciência, música, literatura, teatro e outros campos de produção cultural” (McFarland et al. 2020). As raízes das ideias que vieram à vida na primeira república austríaca frequentemente já tinham sido estabelecidas em fin-de-siècle Vienna. Elas foram principalmente uma reação às profundas mudanças sociais, tecnológicas e midiáticas. Os campos da medicina, economia, arte e filosofia reagiram a essa agitação e buscaram novas maneiras de viver – a psicanálise de Freud, os filósofos do Círculo de Viena, [111]ou as inovações históricas na música dirigidas por Schönberg e a Escola Austríaca ainda são conhecidas até hoje. Hoje em dia, nós estamos em uma situação similar de agitação. O humanismo digital tem como objetivo encorajar as pessoas a pensarem e a darem forma ao futuro digital de uma nova maneira. Isso é o bastante para o contexto mais amplo – mas e quanto à transformação digital e ao humanismo digital envolvidos no contexto da Biblioteca da Cidade de Viena, cujo dever é preservar a herança cultural da cidade – e também para bibliotecas e arquivos no geral?

O humanismo digital demanda uma “terceira via” de digitalização. Isso significa que deve haver um caminho alternativo ao Vale do Silício e à China, um caminho sem visar ao lucro ou ao autoritarismo, mas para o beneficio da humanidade. Em 2004, o projeto Google Books começou. O Google trabalhou junto com bibliotecas e editoras ao redor do mundo para preservar livros e tornar a informação globalmente acessível para pessoas. Bibliotecas universitárias proeminentes e imensas têm colaborado com o Google desde aquele momento. Jean-Noel Jeanneney, líder da Bibliothéque nationale de France entre 2002 e 2007, advertiu contra o Google e a “americanização” e argumentou em favor de uma biblioteca digital europeia (Jeanneney 2006). Embora Jeanneney fosse polêmico em seu livro, há uma conclusão importante a ser extraída: herança cultural é um bem público, portanto, ela deveria permanecer uma propriedade pública. Digitalizar livros e outras fontes em bibliotecas e torná-las disponíveis para o público e o mundo científico tem de ser uma responsabilidade de instituições públicas não comerciais. Paralelo aos arquivos do Google, bibliotecas e museus ao redor do mundo também deram início a programas massivos não apenas para digitalizarem as suas coleções, mas também para as contextualizar e, portanto, obterem valores adicionais e novas intuições (por exemplo, projetos de ciência cidadã, plataformas de história digital, projetos de humanidades digitais). As bibliotecas estão em um ponto de inflexão. Elas têm bons pré-requisitos e qualificações, mas têm de mudar sua perspectiva sobre o que elas têm feito por milhares de anos. A Biblioteca da Cidade de Viena aceita o humanismo digital como uma chance para reposicionar a si mesma. No que se seque, nós esboçamos quatro importantes novas tarefas como parte da sua estratégia para responder aos desafios da época digital.


1 Eu/Educação


Esse termo intencionou combinar dois aspectos, a saber, a missão de educar um público mais amplo assim como a si mesmo como parte de uma biblioteca. Primeiro, deveria ser uma tarefa central das bibliotecas sistematicamente agirem contra a exclusão digital (digital gap) e treinarem usuários críticos, responsáveis, assim como designers da nossa vida digital, juntos. Habitualmente e por séculos, arquivos e bibliotecas têm lidado com massas de dados, desordem, lacunas (gaps) e processos de pesquisa e seleção. O manuseio sistemático, preciso, de dados é uma das suas competências centrais, e eles deveriam aprender a transmitir esse conhecimento, o qual é tão frequentemente um desiderato em outros lugares, para uma audiência mais ampla. No espírito do humanismo digital, isso também deveria envolver cada vez mais grupos marginalizados e desfavorecidos, para quem o conhecimento culturalmente transmitido de uma comunidade frequentemente não tem estado facilmente acessível por várias razões (linguagem, antecedentes educacionais, etc). O papel dos bibliotecário e arquivistas está mudando de porteiros reclusos de tesouros [112]escondidos para guias que ajudam usuários a navegarem sistemas de dados contraditórios. Nesse contexto, é necessário para bibliotecários adquirirem habilidades do futuro e experimentarem novas técnicas culturais. Essas incluem, entre outras, lidar com ambiguidade e incerteza; imaginação e associação; intuição; pensamento em termos de alternativas; estabelecimento de contextos não convencionais; desafios ao status quo; mudança de perspectivas.


2 Virada Participativa


Para dar início a esse eu/educação e iniciar uma “virada participativa” em arquivos e bibliotecas, a Biblioteca da Cidade de Viena tem por objetivo o lançamento de um projeto piloto no reino do humanismo digital. Sob o título de trabalho de “WE make history,” o primeiro passo será entrar em cooperação com instituições equivalentes documentando a história da cidade e ligar e visualizar todos as fontes digitalizadas e digitalizáveis. Em um segundo passo essencial, será então uma questão de investigar quem permanece visível e porquê. Como um resultado, pretende-se tornar possível enriquecer, suplementar e recontar a história multiperspectiva da cidade, a fim de oferecer a grupos que historicamente têm sido excluídos da criação de herança cultural oportunidades para contribuírem com suas histórias e suas versões da história. Por exemplo, nos históricos livros de endereço entre 1859 e 1942, apenas os chefes de família eram listados, e eles eram principalmente homens. Combinando camadas de recursos e pesquisa, nós não apenas faremos todas as outras pessoas – especialmente a metade feminina – visíveis, mas também daremos um passo adicional, quando nós pedirmos ao público vienense para enriquecer essas camadas de datas com histórias de vida, fotografias, documentos ou outras fontes. Esse projeto modelo não apenas levará a um repensamento de como a herança cultural é transmitida – ele também ajudará a repensar outra área importante – a saber, a questão do que a biblioteca coleta e como.


3 Coleções Inclusivas


Coleções em arquivos, museus e bibliotecas – isso é frequentemente afirmado – dificilmente são armazéns neutros nem objetivos, mas refletem relações de poder. A Biblioteca de Viena não era exceção quando ela coletava o material escrito publicado em Viena ao longo dos últimos 170 anos, assim como artigos de autores, músicos e figuras culturais famosas – 76% deles do gênero masculino. A coleção digital frequentemente parece ser a solução para desafiar a tradição, abrindo e expandindo estruturas seculares, mas, experimentando com métodos de coleção digital no contexto do 11 de Setembro, do Furação Katrina e, mais recentemente, da COVID-19, revelou que isso coloca novas dificuldades e abre outros lacunas (Rivard 2014). O humanismo digital será um ponto de partida central para se refletir criticamente sobre a interação entre tecnologia e política de identidade e coleção de materiais de uma maneira correspondentemente diferente. É claro, coleções inclusivas estão intrinsecamente vinculadas a uma nova autoimagem de [113]bibliotecários e arquivistas – de “guardiões do passado” para atores que estão preocupados com o presente, o futuro e a construção de memória social (ver Eu/Educação). Segundo, reposicionamento radical necessita de suporte e participação de uma ampla comunidade (ver Virada Participativa). No todo, poderia ser útil lembrar que a Biblioteca da Cidade de Viena sempre toma liberdades curatoriais quando estabelecendo as suas coleções. É importante estar ciente de que mudanças levam tempo e apenas podem ser alcançadas um passo após o outro, projeto por projeto.


4 Permanecendo um Lugar para Encontros Pessoais


Enquanto navegando através desses tempos incertos de transformação digital no espírito do humanismo digital através de eu/educação, estimulando participação e re-enquadrando as nossas coleções, é útil manter os nossos pés no chão e permanecer fisicamente no lugar. O fechamento dos arquivos e das bibliotecas, devido às restrições do COVID-19, não apenas levou a debates sobre o valor da pesquisa arquival mas também causou anseio pela atmosfera especial desses lugares. Nesse contexto, a sala de leitura não é apenas um espaço de trabalho arbitrário – embora também esses foram nostalgicamente transfigurados durante o lockdowm – mas um lugar especial que não apenas estabelece a conexão entre o material e o pesquisador, mas também entre o arquivo e o pesquisador, entre os pesquisadores mesmos, e, em último caso, entre as questões coletivas atuais e a memória coletiva.

A questão fundamental é o que restará de arquivos e bibliotecas, uma vez que efetivamente tenha sido possível tornar a herança cultural acessível digitalmente e sem barreiras para todos. Eles serão dissolvidos como localizações ou eles podem obter nova significância como pontos de encontro para debate analógico e encontros humanos – se sim, como? Esse campo de tensão está abrindo-se através da digitalização, mas, pelo menos, o humanismo digital dá pistas de respostas quanto a porque os espaços de encontros humanos permanecerão essenciais – e a experiência da pandemia confirma isso.


5 Conclusões


Bibliotecas, arquivos e a nossa atitude geral em relação à herança cultural estão em um ponto de inflexão crucial em tempos de transformação digital.

Por um lado, quanto mais digitais as nossas vidas se tornam, mais nós necessitamos de lugares como bibliotecas para discutir, interagir e inventar novas soluções inovadoras juntos. Por outro lado, a profissão do bibliotecário frequentemente é percebida como em declínio e camparada com uma espécie em breve em extinção. O contrário é o caso. Sem bibliotecários, nós abriríamos mão da nossa herança cultural e, portanto, da nossa identidade cultural. A questão do quê coletar no futuro e como preservar e proteger a herança digital apenas pode ser discutida em uma troca participativa e cooperação com cientistas (cidadãos) e – por último mas não menos importante – cientistas da computação. [114]Nesse sentido, os bibliotecários necessitam de especialistas de TI para entender que espaços eles estão abrindo e fechando no reino digital, como eles podem posicionarem a si mesmos significativamente nas interfaces e onde os dados são assegurados. Mas a TI também precisa de bibliotecários mais do que nunca, para reconhecer que práticas-chave para lidar com herança cultural já estão em uso e que, em muitos casos, elas podem ser transformada no reino digital. A coisa mais crucial é compreender que todos os desafios a frente apenas podem ser enfrentados com troca multidisciplinar e entendimento mútuo.


Referências


Jeanneney, Jean-Noel (2006) Googles Herausforderung. Für eine europäische Bibliothek. Berlin: Wagenbach.

McFarland, R. Spitaler, G. e Zechner, I. (ed.) The Red Vienna Sourcebook. London: Camden House 2020.

Rivard, C. (2014) Archiving Disaster and National Identity in the Digital Realm: The September 11 Digital Archive and the Hurricane Digital Memory Bank, in: Rak, J. e Poletti, A. (ed.) Identity Technologies: Producing Online Selves. Wisconsin: University of Wisconsin Press, pp. 132 – 143.


Próximo ensaio


ORIGINAL:

EICHINGER, A.; PRAGER, K. We Are Needed More Than Ever: Cultural Heritage, Libraries, and Archives. In: GHEZZI, C. et al. (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p.109-114. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


1 [109]Ele consiste em Gerald Bast, Daniel Löcker e Carmen Aberer (MA 7) e Irina Nalis, Elfriede Penz, Erich Prem, Eveline Wandl-Vogte Hannes Werthner assim como Anita Eichinger e Katharina Prager (MA 9) e formulou um artigo de posição sobre “Digital Humanism and Arts/Culture.”

2 Ver https://www.wienbibliothek.at/english e https://www.digital.wienbibliothek.at/.

3 [110]Ver https://www.thelastarchive.com/.

terça-feira, 13 de junho de 2023

Perspectivas sobre o Humanismo Digital - Como ser um Humanista Digital em Relações Internacionais: Desafios da Diplomacia Tecnológico-cultural do Vale do Silício

Perspectivas sobre o Humanismo Digital


Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital


Parte IV Tecnologia da Informação e as Artes


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[101]Como ser um Humanista Digital em Relações Internacionais: A Diplomacia Tecnológico-cultural desafia o Vale do Silício


por Clara Blume e Martin Rauchbauer


Resumo O humanismo digital frequentemente é visto como um antídoto para os excessos do Vale do Silício e os seus valores culturais subjacentes. Contudo, é muito míope rotular as grandes empresas de tecnologia exclusivamente como uma ameça aos nossos valores humanísticos, uma vez que elas se provaram ser uma aliada essencial, particularmente no contexto da transformação digital em andamento do sistema internacional e o seu impacto negativo sobre os direitos humanos e a privacidade. O campo emergente da diplomacia tecnológico-cultural estabeleceu um novo ponto de encontro, no centro da inovação global, entre diplomatas, legisladores, artistas e tecnologistas para positivamente darem forma ao futuro da tecnologia de acordo com as nossas nossas necessidades e o nosso potencial completo como seres humanos. Um novo humanismo digital empoderado por artistas pode servir de modo idêntico como uma bússola para diplomatas e tecnologistas para servir aos seus cidadãos e consumidores enquanto navegando através de um mundo radicalmente transformado pela inteligência artificial e biotecnologia.


A tecnologia1 tornou-se a questão mais urgente da nossa época. Quem a cria, quem a controla, quem tem acesso a ela, e quem não o faz, são os novos parâmetros que determinam as estruturas de poder emergindo ao redor do mundo. Até recentemente a maior parte dessas decisões eram tomadas unilateralmente por um punhado de empreendedores tecnológicos no Vale do Silício, e suportadas através das leis de um mercado livre e não regulado, o obscuro funcionamento interno do qual os reguladores ao redor do mundo nem entenderam nem quiseram inibir. Construído sobre esse húmus nutritivo, o Vale do Silício tem experienciado um longo período de boom econômico abastecido pelos avanços em tecnologia. Globalmente admirado por sua habilidade para atrair um influxo aparentemente sem limites de talento humano e capital de risco, a região tornou-se um símbolo do otimismo e tecnoutilitarismo [102]utópico juvenil. Isso também criou uma poderosa cultura que acredita na necessidade de desfazer o existente e criar novos mercados, no aumento de escala para crescimento exponencial, assim como na ideia de que a tecnologia pode resolver qualquer problema no mundo sem a necessidade de intervenção do governo (O’Mara 2020, pp. 30-32). De muitas maneiras, o Vale do Silício tornou-se um fenômeno cultural popular, galvanizando os sonhos e aspirações de uma geração inteira.

Contudo, a euforia e exuberância do boom tecnológico do Vale do Silício recentemente se deslocou. Através do espectro político e ideológico, as grandes empresas de tecnologia tais como Google, Facebook, Apple, Microsoft e Amazon são cada vez mais vistas com suspeitas por causa da sua influência e do seu tamanho sem precedentes, o qual, em muitos mercados, equivaleu a poder de monopólio. A soma de incidentes problemáticos constituiu a maré alta que conduziu a um declínio global na popularidade do Vale do Silício, bem como uma demanda crescente por intervenção governamental e pelo retorno do estado-nação. 2018 foi um momento divisor de águas para a indústria tecnológica, o qual erodiu a autoconfiança da indústria. Foi o ano em que o CEO do Facebook, Mark Zuckerberg primeiro teve de testemunhar diante do Congresso dos EUA e explicar aos aparentemente mal preparados legisladores que a empresa estava vendendo os dados pessoais dos seus usuários e seguia um modelo de negócio que dependia de propaganda direcionada. Na União Europeia, a admiração pelo Vale do Silício, por volta da mesma época, foi seguida por um desejo de predominar sobre grandes empresas de tecnologia, particularmente em conjunção com o seu impacto sobre direitos básicos e privacidade. Em maio de 2018, a General Data Protection Regulation (GDPR) da UE entrou em vigor, uma legislação compreensiva que forneceu aos cidadãos europeus e às empresas de tecnologia diretrizes claras para a proteção dos seus direitos de privacidade online. Por volta da mesma época, o mundo estava compreendendo como as plataformas de mídias sociais poderiam ter um papel em auxiliar o genocídio, quando as forças militares em Mianmar usaram o Facebook para lançar uma impiedosa campanha de desinformação que tinha como alvo o grupo muçulmano Ruainga, minoritário no país. A tecnologia tinha perdido a sua inocência. E os governos, particularmente na Europa, sentiram-se encorajados. O fim da era da autorregulação foi seguido por uma nova forma de diálogo entre as empresas de tecnologia e os estado-nação, baseado em uma nova humildade e na possibilidade de um respeito e entendimento mútuo.

Mas a crise corrente em torno da tecnologia também revelou quão mal equipada está a maior parte dos reguladores, políticos, legisladores e diplomatas para se engajarem em uma conversa em pé de igualdade com a indústria tecnológica. Em questões internacionais, mesmo os diplomatas e oficiais de governo mais digitalmente alfabetizados frequentemente encontram a si mesmos mal equipados para navegarem através de todos os aspectos da digitalização e dos seus efeitos sobre os cidadãos. Novas tecnologias têm impactado o nosso mundo de uma maneira muito mais profunda e permanente do que as instituições de política externa frequentemente parecem estar cientes. Campos tradicionais da diplomacia, tais como geopolítica, política de segurança, direito internacional, multilateralismo, direitos humanos, cooperação para o desenvolvimento, assuntos consulares, assim como diplomacia cultural poderiam beneficiar-se de um pouco do espírito inovador que estabeleceu o fundamento para a história de sucesso do Vale do Silício a fim de acompanharem o ritmo crescente das tecnologias emergentes. Se eles não se adaptarem, novas formas de guerra cibernética e avanços em inteligência artificial cada vez mais criarão vulnerabilidades sem precedentes para países inteiros e o sistema internacional como um todo.

[103]A comunicação é a chave. Mas frequentemente parece como se tecnologistas e legisladores não compartilhassem a mesma linguagem. A linguagem é cunhada por um contexto cultural, experiências profissionais, educação, mentalidade, e a complexa reunião de camadas que constitui cada ser humano dando forma ao nosso entendimento do mundo a nossa volta. Assim, quando um tecnologista do Vale do Silício usa terminologia tal como “tecnologia,” “verdade,” “liberdade” ou “humanidade,” ele não necessariamente atribui o mesmo significado à mesma palavra proferida por um legislador europeu. Mas essas distinções matizadas e subtextos transmitidos são cruciais e necessitam de clarificação para os legisladores trabalharem sobre o projeto humano nos anos por vir. Nós estamos em extrema necessidade de desenvolver um novo vocabulário que funcione como um linguagem universal equipada para tratar da questão do que significa ser humano na era digital. Mas a principal razão para a dissonância linguística e cognitiva entre o Vale do Silício e o resto do mundo frequentemente está enraizada em sua visão contrastante para o futuro da humanidade.

Hoje em dia, os pioneiros tecnológicos do Vale do Silício frequentemente não estão cientes das raízes de longa data da sua mentalidade famosa. Algumas características fazem referência ao frenesi da histórica corrida do outro, alinhadas com o sonho americano de excepcionalismo global e a urgência para empurrar a fronteira ocidental. O dogma da liberdade absoluta de informação e a aversão contra qualquer autoridade central, pregados por muitos dos pioneiros da internet, podem ser traçada de volta à contracultura hippie dos anos de 1960. Mas, similarmente, a indústria de tecnologia também foi formada por uma forte crença em empreendedorismo autossuficiente (Markoff 2005). Juntas com avanços científicos e tecnológicos impressionantes, essas atitudes diversas se misturaram na ideia, específica do Vale do Silício, do transhumanismo, inspirada por evangelistas tecnológicos como Raymond Kurzweil (2005) e Hans Peter Moravec (1998). Para o transhumanista, morte e velhice são vistas como meras limitações que podem ser curadas através de biotecnologia e robótica. Não há limites para o projeto humano, quando a engenharia genética pavimenta o caminho para a auto-otimização do DNA “falho” de alguém. Mesmo o nosso planeta moribundo pode ser visto como meramente outra estação ao longo da viagem da humanidade através do universo. Para alguns das elites do Vale do Silício, “ir para o oeste” pode significar, bastante literalmente, alcançar as estrelas. Portanto, os pioneiros-líderes da tecnologia como Elon Musk, Sam Altman e Jeff Bezos estão liderando uma nova elite que quer romper essa fronteira final, mas apenas para uns poucos seletos com os meios financeiros para embarcarem na jornada. A mitologia dos transhumanistas está influenciando como a tecnologia é formada para o resto da humanidade. Mas o que é mais necessário agora do que nunca é uma visão comum para uma humanidade digital que não seja exclusivamente determinada por um punhado de indivíduo com um bilhete para Marte. E, embora isso esteja junto a uma nova legião de problemas, o melhor caminho adiante para a humanidade é forjar uma aliança com empresas de tecnologia que se alinhe em torno de um certo conjunto de valores humanistas.

O conceito do humanismo digital pode ser visto como uma evolução necessária da visão transhumanista do Vale do Silício para a humanidade: um casamento da excitação dos transhumanistas sobre o imenso potencial da tecnologia e um novo humanismo que tem como objetivo restaurar a nossa dignidade online e offline. Um humanista digital entende a tecnologia como uma ferramenta que pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal, realista sobre o seu potencial para nos elevar e causar prejuízo através de uma legião de consequências não intencionadas (Nida-Rümelin e Weidenfeld 2018). Equipadas com um certo pragmatismo que não está inclinado nem na direção de um tecnoutopismo iludido nem de um alarmismo, a elaboração de políticas tecnológicas [104]e as relações internacionais baseadas em um novo humanismo digital querem criar e defender estruturas globais que preservam os nossos direitos humanos universais.

A diplomacia internacional é praticada através do seu próprio código de linguagem. Em fóruns multilaterais tais como as Nações Unidas, onde novos princípios, normas, padrões éticos e até instrumentos de direito internacional são negociados, nações diferentes dependem de palavras diferentes para camuflar suas agendas subjacentes e, algumas vezes, embelezar a realidade. Por exemplo, estados autoritários dependem intensamente de palavras de soberania (Applebaum 2020) e de não interferência para argumentarem contra quando pressionados sobre recentes violações online de direitos humanos. É através desses apitos de cachorro (dog whistles) que os direitos humanos estão cada vez mais sob ataque, não apenas na prática, mas também conceitualmente. Nós também estamos encarando um mundo cada vez mais polarizado e fragmentado, em risco de criar universos ideológicos, estruturas conceituais paralelas e uma infraestrutura digital separada para novas tecnologias (Lee 2018). Contra essa emergente divisão geopolítica, diplomatas frequentemente se esforçam para tratar dos interesses comuns que estão baseados sobre a nossa humanidade compartilhada. O humanismo digital é adequado para se tornar um conceito universalmente aceito para a diplomacia internacional que pode reunir países com diferentes sistemas políticos, culturas e histórias em torno de um certo conjunto de valores sem comprometer os direitos humanos universalmente reconhecidos. Como uma bússola político-tecnológica, ele podeira guiar estados-nações e empresas de tecnologia para trabalharem juntos na transformação digital do nosso sistema internacional. O humanismo digital poderia ser o espaço seguro onde até adversários ideológicos e competidores poderia encontra solo comum. É do interesse de todos desenvolver tecnologias que são confiadas por consumidores ao redor do mundo. Mesmo países autoritários digitais, os quais se engajam em corridas armamentistas por poder e influência globais, não têm interesse em criar sistemas rebeldes de armas autônomas sobre os quais eles mesmos podem um dia perder o controle. Empresas de tecnologia também estão em extrema necessidade de uma bússola que valorize a cultura sobre a estratégia como um ambiente necessário para inovação e crescimento. O humanismo digital poderia muito bem fornecer o kit de ferramentas para uma nova cultura corporativa das grandes e pequenas empresas de tecnologia e fornecer orientação em tempos de mudanças tectônicas globais.

O humanismo digital também pode servir como um plano para estados-nação que desejam se engajar com a indústria tecnológica global. Uma vez que os grandes jogadores em tecnologia alardeiam receitas anuais que facilmente correspondem ao PIB de estados-nação menores, a diplomacia tem de repensar o que significa ser um ator internacional na era digital. Uma tal abordagem inovadora em relações internacionais é o campo emergente da diplomacia tecnológica, aplicada por um grupo cada vez maior de estados-nação e outros atores no Vale do Silício. A iniciativa dinamarquesa de “techplomacy” foi um marco para a diplomacia internacional e recebeu atenção global. Em 2020, a Áustria seguiu o exemplo como o segundo país no mundo a nomear um Embaixador Tecnológico para o Vale do Silício. Para mediar entre governos e grandes empresas de tecnologia, a diplomacia tecnológica trata de um desequilíbrio entre informação e competência. Tradicionalmente, as empresas de tecnologias tem buscado influência (lobbied) para os seus interesses nos centros políticos de influência. Hoje em dia, os governos estão enviando diplomatas para buscar influência (lobby) para os interesses dos seus cidadãos nos centos tecnológicos de influência. É claro, a diplomacia tecnológica é recíproca e, portanto, também atraente para as empresas de tecnologia. Elas podem ver o seu prestígio e influência no sistema internacional anteriormente reconhecido ao serem incluídas em uma prática tradicionalmente apenas reservada para governos [105]soberanos. Mas as empresas de tecnologia também têm outros incentivos. Elas empregam os seus próprios diplomatas tecnológicos para mostrar ao mundo que os seus interesses de longo prazo vão além do objetivo imediato de terem lucro. Alguém poderia argumentar que os negócios delas dependem de um sistema internacional estável baseado em regras e que são fortalecidos por um conjunto compartilhado de valores e sua tecnologia sendo desenvolvida através das lentes de princípios éticos comuns.

A diplomacia tecnológica é a única maneira que governos e companhias tecnológicas interagem uns com os outros. Frequentemente, CEOs de grandes plataformas encontram-se e consultam-se diretamente com líderes de governo. Mas o impacto desses encontros raramente desce ao nível institucional de governo, carece de continuidade e, frequentemente, de uma agenda clara. Por outro lado, a diplomacia tecnológica institucionaliza o relacionamento entre a indústria de tecnologia e os governos ao criar relações e mecanismos duradouros que pode ser ativados em momentos de crise e necessidade. Para ser claro, empresas de tecnologia não são estados. Contudo, em algumas áreas, o seu poder crescente desafia os reinos tradicionais do governo (Wichwoski 2020). Países soberanos podem controlar os seus territórios, mas as grandes plataformas de tecnologia controlam os “territórios digitais” das suas comunidades online e podem definir as regras, as quais podem ter um efeito transbordante sobre a vida pública no geral. Diplomatas tecnológicos têm de funcionar como defensores dos seus cidadãos tornar as empresas de tecnologia responsáveis. Contudo, a diplomacia tecnológica também é sobre buscar alianças e solo comum onde interesses e valores alinham-se. Nesse contexto, um novo humanismo digital na diplomacia também pode levar os governos democráticos e as empresas de tecnologia que compartilhem um conjunto de princípios e crenças a colaborarem globalmente na luta contra o autoritarismo digital.

Adicionalmente, atores de política externa têm de levar em conta que há uma diferença inerente entre os seres humanos e os seus avatares digitais. As consequências da mistura do mundo real com o online, embora nós gradualmente estejamos nos tornando humanos digitais, ainda não são claras. A fim de entenderem as muitas camadas que constituem um humano digital, legisladores, empresas de tecnologia e tecnologistas têm de romper os seus respectivos silos e começar a trabalhar juntos para assegurar que os direitos básicos sejam satisfeitos independentemente dessas diferenças. O novo conceito interdisciplinar de diplomacia tecnológico-cultural teve como pioneiro o Open Austria, a representação oficial do governo austríaco no Vale do Silício. A tradicional diplomacia cultural usa arte e cultura como uma ferramenta de poder suave (Nye 1990, pp. 153-171) para influenciar outras nações-estado e os seus cidadãos através de atração em vez de coerção. Pense sobre os sucessos de Hollywood, o Rock ‘n’ Roll e David Hasselhoff inspirando os jovens alemães a “buscarem a liberdade” que ajudaram a dar fim à Guerra Fria. Combinando o imenso potencial do poder suave cultural com a diplomacia tecnológica, a missão diplomática austríaca no Vale do Silício cria um espaço seguro para o diálogo com parceiros tecnológicos, o qual está enraizado em experimentação artística. A arte é adequada para explorar tópicos que, em outras arenas, seriam propensos a conflito e precipitar controvérsias política e agendas partidárias. Ser o “tolo” que é capaz de falar a verdade tem muito mérito, especialmente no delicado funcionamento interno do sistema internacional.

Um estudo recente encomendado pela rede art + tech The Grid liderado pela Open Austria, ressalta a assimetria de poder entre artistas e companhias de tecnologia, quem estão limitando o acesso às suas tecnologias. Mas essa assimetria “obscurece o papel fundacional que a contracultura da região tem desempenhado na emergência de [106]grandes empresas de tecnologia – e os valores de tecnoutopismo, hierarquias achatadas, flexibilidade e assim por diante que têm guiado a indústria,” como o relato da autora Vanessa Chang (2020) aponta. Historicamente, artistas têm contribuído muito para a fórmula de sucesso conquistador do mundo do Vale do Silício. Não é apenas justo, é imperativo que artistas devam ser incluídos novamente no processo criativo que constitui o desenvolvimento de nova tecnologia. É essencial reatribuir valor às práticas artísticas dentro da esfera da tecnologia. Complementarmente à abordagem regulatória de cima para baixo que reage à tecnologia existente, a diplomacia tecnológico-cultural quer proativamente dar forma à tecnologia, de baixo para cima, durante a concepção, a pesquisa e o desenvolvimento de novos produtos e serviços tecnológicos. Para esse modelo ser exitosamente implementado, as empresas de tecnologia têm de se tornarem vulneráveis às artes, abrindo os seus laboratórios de P&D para artistas e filósofos que podem fornecer toda uma nova perspectiva para um velho conjunto de problemas. Os artistas, como humanistas digitais, estão unicamente equipados para explorar o potencial e as armadilhas das tecnologias de fronteira de uma maneira não convencional e experimental que tem o benefício adicional de não apenas educar tecnologistas, mas também a população mais ampla sobre o que significa ser um humano digital na era da inteligência artificial.

Em uma época de deslocamento de valores centrais, de uma aceleração da digitalização e de um sistema internacional em mudança, os diplomatas hoje em dia têm de ser ágeis e transformarem-se em humanistas digitais, afim de navegarem exitosamente através dos desafios do seu ofício (trade). A diplomacia tecnológica cultural poderia ser uma proposição vencedora que pavimenta o caminho para o futuro das relações internacionais na era digital.


Referências


Applebaum, Anne (2020), How China outsmarted the Trump administration. While the U.S. is distracted, China is rewriting the rules of the global order, Washington DC: The Atlantic, novembro de 2020.

Chang, Vanessa (2020) The Grid: Art + Tech Report 2020, San Francisco: EUNIC Silicon Valley, dezembro de 2020.

Kurzweil, Ray (2005), The Singularity Is Near: When Humans Transcend Biology, New York: Penguin.

Lee, Kai-Fu (2018), AI Superpowers: China, Silicon Valley, and the new world order, Boston: Houghton Mifflin Harcourt.

Markoff, John (2005), What the Dormouse Said: How the Sixties Counterculture Shaped the Personal Computer Industry,’ New York: Viking Press.

Moravec, Hans (1998), Robot: Mere Machine to Transcendent Mind, Oxford University Press.

Nida-Rümelin, Julian, Weidenfeld, Nathalie (2018), Digitaler Humanismus – Eine Ethik für das Zeitalter der Künstlichen Intelligenz, München: Piper Verlag GmbH.

Nye, Joseph S. Jr (1990) Soft Power, Foreign Policy, Nr. 80, Twentieth Anniversary, Outono de 1990

O ’ Mara, Margaret, (2020), Silicon Politics, Communications of the ACM, Dezembro de 2020, Vol. 63 No. 12.

Wichwoski, Alexis (2020) The information trade: how big tech conquers countries, challenges our rights, and transforms our world, New York: HarperCollins.


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ORIGINAL:

BLUME, C.; RAUCHBAUER, M. How to Be a Digital Humanist in International Relations: Cultural Tech Diplomacy Challenges Silicon Valley. In: GHEZZI, C. et al. (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p.101-107. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


1 [101]Neste artigo, “tecnologia” refere-se às tecnologias de fronteira, tais como inteligência artificial, computação quântica, blockchain, biotecnologia, e outras, que são consideradas as principais condutoras da Quarta Revolução Industrial e têm criado um ecossistema diverso de empresas de tecnologia. As empresas de tecnologia da informação (TI) são um subconjunto dessas empresas de tecnologia.

Perspectivas sobre o Humanismo Digital - Ficcionalizando o Robô e a Inteligência Artificial

Perspectivas sobre o Humanismo Digital


Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital


Parte IV Tecnologia da Informação e as Artes


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[97]Ficcionalizando o Robô e a Inteligência Artificial


por Nathalie Weidenfeld


Resumo Este texto explora a fascinação contemporânea com robôs e digitalidade, e assinala como isso distorce a nossa visão sobre o que a digitalização pode fazer por nós. Ele advoga uma visão realista e não ficcionalizada sobre robôs e inteligência artificial.


Nada em nossa cultura popular contemporânea, assim parece, tem sido mais fascinante do que a fantasia dos robôs e a ideia de uma vindoura digitalização total da nossa sociedade. Hollywood está cheia de filmes de grande sucesso (blockbuster) cheios de robôs malignos e, algumas vezes, belos robôs e sonhos de vidas eternas ou, pelo menos, alternativas possibilitadas através de meios digitais.

Contudo, filmes não são apenas expressões de medos e esperanças profundamente arraigados, eles também criam um imaginário cultural que se alimenta desses medos e esperanças, por esse meio criando um ciclo que é melhor descrito como um círculo mais ou menos fechado. Agora, criações artísticas são, ou deveriam ser, livres para fazerem muitas coisas; elas podem criar cenários irrealistas e inventar premissas dramáticas que nos fazem refletir. Os problemas apenas surgem quando os leitores ou espectadores se esquecem de interpretar esses filmes corretamente, quer dizer, metaforicamente. Tome-se um filme sobre uma sociedade na qual os robôs sejam usados como escravos pessoais para trabalhos domésticos, onde o protagonista tem de aprender a superar o prejuízo dele com relação a eles. Esse filme nos estimula a pensar sobre as nossas relações com futuros robôs? Não! Porque este não é um filme sobre robôs, mas um conto metafórico sobre humanos lidando com humanos, no qual os robôs representam humanos desprivilegiados.

Digitalização e inteligência artificial colocam muitos problemas para a sociedade e cultura. Portanto, é da maior importância interpretá-las pelo que elas são a fim de julgar os seus potenciais e perigos realisticamente. Uma “importação” inadequada da ficção para a realidade é inútil e improdutiva.

Para vermos mais claramente o que exatamente tem sido importado da ficção para a realidade, examinemos mais de perto as narrativas focadas em IA. Quando nós examinamos os filmes – particularmente aqueles nos últimos 20 anos – lidando com o tema (topos) do robô nós podemos [98]discenir dois tipos: o robô bom, inocente e, algumas vezes, até espiritual e o robô mau, demoníaco, malvado. Esses dois estereótipos são uma expressão de um paradigma que pode ser chamado de “primitivista.” O paradigma primitivista é um “reflexo cultural” da sociedade ocidental, a qual tem de construir um “Outro” que, então, pode ser usado como um espelho (Torgovnick 1990): um espelho no qual alguém pode projetar as suas próprias propriedades amadas ou odiadas. Os indígenas americanos há muito têm servido como o Outro no interior da ordem primitivista – não apenas na época do iluminismo europeu, mas também na cultura americana dos EUA: durante séculos os indígenas ou foram retratados como selvagens demoníacos sanguinários ou como povo inocente e espiritualmente superior. O indígena americano, como um tema, permanece uma obssessão para romances e filmes americanos dos EUA, começando com as narrativas do século XVII, lidando com colonos puritanos capturados por indígenas sanguinários, durante todo o século XIX, onde as narrativas do indígena nobre tornam-se populares, até a imagem de Nova Era do indígena espiritual e moralmente idealizado.

As sociedades não apenas criam um Outro imaginário a partir de pessoas existentes reais, mas também criam-no de tempos em tempos. O melhor exemplo para isso é o alienígena, quem se tornou um tema primitivista nos anos de 1980. Os alienígenas eram retratados ao longo das mesmas linhas que os indígenas anteriormente; eles eram ou malignos e sangunários ou bons e espiritualmente altamente avançados (Weidenfeld 2007a, b). Hoje em dia, os robôs tomaram o papel dos alienígenas. O modo primitivista de conceitualização dos robôs tem uma influência profunda sobre a sociedade presente. Se Elon Musk ou até Stephen Hawking advertem-nos e falam dos perigos e ameaças ocultos que os robôs colocam para a humanidade – eles servem ao mesmo cliché primitivista do Outro maligno. O que eles estão fazendo não é uma descrição adequada e realista, mas antes uma inscrição dentro de uma narrativa já existente, a qual é, ao mesmo tempo, reintroduzida no mundo.

Quando alguém olha as narrativas e imagens da digitalização, ele encontra mecanismos similares. A digitalização ou é vista como um modo de causar um paraíso ou um inferno digital. A ideia de um paraíso digital frequentemente é invocada através de imagens de claridade, um céu azul e um universo irresistível de conectividade total. O paraíso digital é um paraíso puritano: ele está baseado na ideia de transparência, clareza e pureza. Em um paraíso digital, as coisas são ou “0” ou “1”; não há ambiguidade. Também, a ideia de um desenvolvimento teleológico “natural,” frequentemente sugerida no imaginário visual que nos conta que o homem evoluiu a partir do macaco, para homo sapiens, para homo digitais – frequentemente representado como o homem portando um telefone móvel na mão. O futuro digital torna-se uma profecia milenarista cheia de esperanças e desejos utópicos, tais como o desejo de salvação e vida eterna.

Nos séculos passados, desenvolvimentos tecnológicos frequentemente têm sido acompanhados por visões utópicas irrealistas. Quando Henry Ford foi pioneiro na produção em massa do automóvel, ele estava convencido de que essa nova tecnologia causaria a paz e prosperidade para todos. “Nós estamos prestes a entrar em uma nova era, pois, quando nós tivermos tudo, a liberdade e o paraíso na terra chegarão. A nossa nova maneira de pensar trará um novo mundo para nós, um novo paraíso e uma nova terra, como profetas têm ansiado por tanto tempo desde as épocas antigas” (Ford 1919). Aproximadamente cem anos após o automóvel, é a digitalização que, supostamente, trará a salvação. CEOs no Vale do Silício carregam suas apresentações com imagens que sugerem isso..

[99]O inferno digital é representado principalmente de três maneiras possíveis: ou é um inferno digitalmente economizado, como o mundo de Bladerunner ou Minority Report, onde os meios digitais são usados para propaganda; ou um mundo facista, onde um governante usou meios digitais para erigir não apenas o seu reino, mas também uniformidade e sincronicidade absoluta; ou, pelo menos, um mundo digital de pesadelo, tal como no filme Matrix, onde os humanos perderam toda autonomia e aiutodeterminação.

Fantasias utópicas e distópicas moveram-se do reino dos filmes e romances para as nossas perspectivas diárias. Essas expectativas religiosamente motivadas tomam muita energia daquilo que é importante: discussões sobre e clarificações de problemas éticos concretos que a digitalização coloca.

Por último, há um aspecto psicológico que Rudolf Dux denominou de o “complexo de Frankenstein” (Dux 1999): o sonho de criar um ser de aspecto vivo (lifelike) que possa sentir e pensar como nós. Esse sonho animista, o qual Freud descreveu tão bem em Totem and Taboo (Freud 1974), é parte de uma fantasia regressiva, similar ao desejo de uma criança para encher de vida uma boneca a fim de se sentir poderoso e/ou não mais tão sozinho.

Desde o estudante Nathanael no conto “Der Sandmann,” de E.T.A. Hofmann, até as visões de robôs femme fatale, tais como AVA em Ex Machina, o sonho permanece o mesmo: um sonho regressivo de uma companhia semelhante à humana que nunca é completamente humana, mas que é suficientemente similar à humana para nos fazer desejar seja o que for que nós desejamos: amor total, comunhão total ou amizade total.

Consiga um relacionamento” é o slogan da crítica de robôs sexuais profa. Kathleen Richardson, quem argumenta contra o desenvolvimento de robôs femininos de aspecto vivo mais e mais sofisticados, os quais tiram a atenção dos humanos daquilo que é realmente importante, a saber, relacionamentos uns com os outros (Richardson 2022).

O humanismo digital coloca os relacionamentos humanos principais e tem como objetivo pensar e usar as tecnologias digitais instrumentalmente (Nida-Rümelin e Weidenfeld 2018). Ferramentas digitais não foram criadas nem por demônios nem por anjos, mas por humanos para humanos. É hora de manter isso em mente e parar de introduzir imaginário e temas (topoi) ficcionais em nossa linguagem e discurso cotidianos. Nós precisamos de julgamento claro e realista, desanuviado de sonhos, projeções e fantasias regressivas.


Referências


Dux, R. (eds.) (1999). Der Frankenstein-Komplex. Frankfurt: Suhrkamp.

Ford, H. (1919) Philosophie der Arbeit. Dresden, p. 47.

Freud, S. (1974). Totem und Tabu. Frankfurt: Fischer Verlag.

Nida-Rümelin, J. e Weidenfeld, N. (2018) Digitaler Humanismus: Eine Ethik für das Zeitalter der Künstlichen Intelligenz. Munich: Piper.

Richardson, K. (2022) Sex Robots: The End of Love. Cambridge: Polity Press.

Torgovnick, M. (1990). Gone Primitive. University of Chicago Press, 1990.

Weidenfeld, N.. (2007a) Entführt von Außerirdischen: Abduction Narrative als moderne.

Weidenfeld, N. (2007b) Entführt von Außerirdischen: Abduction Narrative als moderne n: Abduction Narrative als moderne Erscheinungsform puritanischer Kultur. Saarbrücken: Südwestdeutscher Verlag.


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ORIGINAL:

WEIDENFELD, N. Fictionalizing the Robot and Artificial Intelligence. In: GHEZZI, C. et al. (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p.97-100. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0