Leviatã, ou A Matéria, Forma e Poder de uma Comunidade Eclesiástica e Civil.
Por Thomas Hobbes
Parte I Do Homem
[11]Capítulo III Da Consequência ou Sequência de Imaginações
Por Consequência, ou SEQUÊNCIA de pensamentos, eu compreendo aquela sucessão de um pensamento a outro, a qual é chamada, para a distinguir do discurso em palavras, de discurso mental.
Quando um homem pensa em qualquer coisa que seja, seu próximo pensamento em seguida não é tão casual quanto parece ser. Nem todo pensamento sucede indiferentemente a todo pensamento. Mas, como nós não temos imaginação, do qual nós anteriormente não tivemos sentido, em todo ou em partes; igualmente nós não temos transição de uma imaginação para outra, do que nós nunca tivemos o semelhante em nossos sentidos. A razão do qual é esta. Todas as fantasias (fancies) são movimentos no nosso interior, relíquias daqueles produzidos no sentido: e aqueles movimentos que imediatamente sucedem um ao outro no sentido, [12]também continuam juntos após o sentido: tanto quanto o primeiro retornando para ocorrer, e ser predominante, o segundo segue-se, por coerência da matéria movida, de maneira similar, como a água sob uma prancha tipográfica (plane table) é atraída da maneira [pela qual] qualquer parte dela seja guiada pelo dedo. Mas porque no sentido, a uma e a mesma coisa percebida, algumas vezes uma, algumas vezes outra, sucede, acontece no tempo que, na imaginação de uma coisa, não há certeza [sobre] o que nós devemos imaginar em seguida; apenas isto é certo, deverá ser alguma coisa que sucedeu a mesma antes, em uma ou outra ocasião.
Essa sequência de pensamentos, ou discurso mental, é de dois tipos. A primeira é não guiada, sem desígnio, e inconstante; na qual não há pensamento apaixonado para governar e dirigir aqueles que se seguem, como o fim e escopo de algum desejo, ou outra paixão: caso no qual se diz que os pensamentos vagueiam e parecem impertinentes um ao outro, como em um sonho. Assim são comumente os pensamentos de homens que não apenas estão sem companhia, mas também sem se importarem com coisa alguma; embora mesmo então os pensamentos deles estejam tão ocupados quanto em outras vezes, mas sem harmonia; como o som que um alaúde fora de afinação produz para qualquer homem; ou com afinação, para alguém que não pode tocar. E contudo, nessa selvagem variação da mente, um homem pode frequentemente perceber o sentido dela e a dependência de um pensamento de outro. Pois, em um discurso de nossa atual guerra civil, o que poderia parecer mais impertinente do que perguntar, como alguém fez, qual era o valor de um centavo romano? Contudo, a coerência para mim estava suficientemente manifesta. Pois o pensamento de guerra, introduziu o pensamento da entrega do rei aos seus inimigos; o [13]pensamento disso trouxe ao pensamento a entrega de Cristo; e esse, novamente, o pensamento dos trinta centavos, o qual foi o preço daquela traição; e, consequentemente, facilmente se seguiu aquela questão maliciosa, e tudo disso em um momento de tempo; pois o pensamento é rápido.
A segunda é mais constante; como sendo regulada por algum desejo e desígnio. Pois a impressão produzida por tais coisas como [as que] nós desejamos, ou tememos, é forte, e permanente, ou, se ela cessa por um tempo, de retorno rápido: algumas vezes é tão forte como a impedir e interromper nosso sono. Do desejo, surge o pensamento de alguns meios que nós vimos produzir o semelhante ao que nós ambicionamos; e, a partir do pensamento disso, o pensamento dos meios para aquele meio, e assim continuamente, até que nós cheguemos a algum começo dentro de nosso próprio poder. E por causa do fim, pela grandeza da impressão, surge frequentemente na mente, no caso em que nós pensamentos comecem a vaguear, [que] eles sejam rapidamente novamente reduzidos ao sentido; o qual, observado por um dos sete sábios, fê-lo dar este preceito, o qual agora está gasto, Respice finem; quer dizer, em toda as suas ações, olhe frequentemente para o que você deseja ter, como a coisa que dirige todos os seus pensamentos no caminho para a obter.
A sequência de pensamentos regulados é de dois tipos: um, quando para um efeito imaginado nós buscamos as causas, ou meios que o produzem; e essa é comum ao homem e à fera. O outro é, quando imaginando qualquer coisa que seja, nós buscamos todos os efeitos possíveis, que podem ser produzidos por ela; quer dizer, nós imaginamos o que nós podemos fazer com ela, quando nós a tivermos. Da qual em nenhuma ocasião eu vi qualquer sinal, apenas no homem somente; pois essa é uma curiosidade dificilmente relacionada [14]à natureza de qualquer criatura viva que não tenha outra paixão senão a sensual, tais como fome, sede, luxúria e raiva. Em suma, o discurso da mente, quando ele é governando pelo desígnio, nada é senão busca (seeking), ou a faculdade de invenção, a qual os latinos chamavam de sagacitas e solertia; uma caçada das causas, de algum efeito, presente ou passado, ou dos efeitos, de alguma causa presente ou passada. Algumas vezes um homem busca o que ele perdeu; e, a partir desse lugar e tempo, no qual ele sente falta dele, sua mente retorna, de lugar a lugar e tempo a tempo, e descobre onde e quanto ele o teve; quer dizer, descobre algo certo e tempo e espaço limitados, nos quais começar um método de busca (seeking). Novamente, por consequência, seus pensamentos varrem os mesmos lugares e tempos, para descobrir que ação, ou que ocasião, fê-lo perdê-lo. Isso nós chamamos de recordação (remembrance), ou trazer à mente (calling to mind): os latinos chamam-na de reminiscentia, como se fosse uma re-petição (re-conning) de nossas ações antigas.
Algumas vezes um homem conhece um lugar determinado, dentro do alcance do qual ele deve procurar; e então os pensamentos correm através de todas as partes disso, da mesma maneira como alguém varreria uma sala para encontrar uma joia; ou um spaniel varre o campo, até que ele encontre um odor; ou um homem deveria varrer o alfabeto, para começar uma rima.
Algumas vezes um homem deseja conhece o evento de uma ação; e então ele pensa em alguma ação semelhante passada, e nos eventos da mesma, um após o outro; supondo que eventos semelhantes seguir-se-ão a ações semelhantes. Como aquele que prevê o que acontecerá a um criminoso, reconhece o que antes ele tinha visto se seguir de crime semelhante; tendo esaa ordem de pensamento, o crime, o [15]oficial, a prisão, o juiz, e a forca. Tipo de pensamentos que é chamado de previsão (foresight) e prudência ou providência; e, algumas vezes, de sabedoria; embora semelhante conjectura, através da dificuldade de observar todas as circunstâncias, seja muito falaciosa. Mas isto é certo; por quão mais um homem tem mais experiência de coisas passadas do que outro, por tanto também ele é mais prudente, e as expectativas deles mais raramente lhe falham. Apenas o presente tem uma existência na natureza; coisas passadas têm uma existência apenas na memória, mas coisas por vir não tem absolutamente nenhuma existência; o futuro sendo apenas uma ficção da mente, aplicando as sequências de ações passadas às ações que são presentes; o que é feito como mais certeza por aquele que tem mais experiência, mas não, com certeza, suficiente. E, embora isso seja chamado de prudência, quando o evento corresponde à nossa expectativa, contudo, em sua própria natureza, é apenas presunção. Pois a previsão das coisas por vir, a qual é providência, pertence somente àquele por quem elas deverão vir. A partir ele, apenas e supernaturalmente, prossegue a profecia. O melhor profeta naturalmente é o melhor adivinho (guesser); e o melhor adivinho (guesser), aquele que é mais versado e estudado nos assuntos sobre os quais ele adivinha; pois ele tem mais sinais pelos quais adivinhar.
Um sinal (sign) é o antecedente evidente do consequente; e, contrariamente, o consequente do antecedente, quando as consequências semelhantes foram observadas antes: e quão mais frequentemente elas têm sido observadas, menos incerto é o sinal. E portanto, aquele que tem mais experiência em qualquer tipo de assunto, tem mais sinais por meio dos quais adivinhar o tempo futuro e, consequentemente, é o mais prudente: e tanto mais prudente do que aquele que é novo [16]naquele tipo de negócio, como a não ser igualado por qualquer vantagem de inteligência natural e extemporânea: embora, talvez, muitos jovens pensem o contrário.
No entanto, não é a prudência que distingue o homem da fera. Há feras que, com um ano de idade, observam mais e perseguem aquilo que é para o bem delas, mas prudentemente do que qualquer criança faz com dez.
Como a prudência é uma presunção do futuro, contraída a partir da experiência do tempo passado: igualmente há uma presunção de coisas passadas tomadas de outras coisas, não futuras, mas passadas. Pois aquele que viu por quais cursos e graus um estado florescente primeiro chega à guerra civil e, em seguida, à ruína; diante da visão das ruínas de qualquer outro estado, adivinhará, a guerra semelhante e os cursos semelhantes que também existiram. Mas essa conjectura, tem quase a mesma incerteza que a conjectura do futuro; ambas estando fundamentadas apenas sobre a experiência.
Não há outro ato da mente do homem, do qual eu posso lembrar, plantado nele, assim como a não necessitar de nenhuma outra coisa, para o exercício dele, apenas ser nascido um homem, e viver com o uso de seus cinco sentidos. Aquelas outras faculdades, sobre as quais eu deverei falar logo, e que parecem apropriadas apenas ao homem, são adquiridas e aperfeiçoadas pelo estudo e pela indústria; e aprendidas pela maioria dos homens por instrução e disciplina; e todas procedendo da invenção de palavras e discurso. Pois além do sentido, e dos pensamentos, e da sequência de pensamentos, a mente do homem não tem outro pensamento; embora, pelo auxílio de discurso e método, as mesmas faculdades podem ser aperfeiçoadas a um grau tal, como distinguir os homens de todas as outras criaturas vivas.
[17]O que quer que nós imaginamos é finito. Portanto, não há ideia, ou concepção, de qualquer coisa que nós possamos chamar de infinita. Nenhum homem pode ter em sua mente uma imagem de magnitude infinita; nem conceber velocidade infinta, tempo infinito, ou força infinita, ou poder infinito. Quando nós dizemos que alguma coisa é infinita, nós significamos apenas que não somos capazes de conceber os fins e limites das coisas nomeadas; não tendo concepção da coisa, mas de nossa própria incapacidade. E portanto, o nome de Deus é usado, não para nos fazer concebê-lo, pois ele é incompreensível; e sua grandeza e poder são incompreensíveis; mas para que nós possamos honrá-lo. Também porque, como eu disse antes, o que quer que nós concebamos, foi primeiro percebido pelo sentido, quer de uma vez, ou em partes; um homem não poder ter nenhum pensamento, representando qualquer coisa, não sujeito ao sentido. Portanto, nenhum homem pode conceber qualquer coisa, mas ele precisa concebê-la em algum lugar; e dotada de alguma magnitude determinada; e que pode ser divida em partes; não que qualquer coisa esteja toda neste lugar, e toda em outro lugar, ao mesmo tempo; nem que duas, ou mais coisas, possam estar em um e mesmo lugar de uma vez; pois nenhuma dessas coisas nunca foi, nem pode estar, ligada ao sentido; são apenas discursos absurdos, recebidos a crédito, absolutamente sem qualquer significado, de filósofos enganados, ou escolásticos enganados ou enganadores.
ORIGINAL:
HOBBES, T. Leviathan, or the Matter, Form, and Power of a Commonwealth Ecclesastical and Civil. IN: ______. The English Works of Thomas Hobbes of Malmesbury. Volume III. London, Scientia Allen, 1962 (Reprint of the Edition 1839). p. 11-17. Disponível em: <https://archive.org/details/englishworksofth0003hobb/page/11/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0