Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo
Por Edmund Burke
Parte II
[130]Seção I Da Paixão causada pelo Sublime
A paixão causada pelo grande e pelo sublime na natureza, quando essas causas operam poderosamente, é espanto (astonishment): e o espanto é aquele estado da alma no qual todos os seus movimentos estão suspensos, com algum grau de horror. 1Nesse caso, a mente está tão inteiramente preenchida com o seu objeto que ela não pode receber nenhum outro, nem, por consequência, raciocinar sobre esse objeto que a emprega. Consequentemente surge o grande poder do sublime, que, muito longe de ser produzido por eles, ele antecipa os nossos raciocínios, e inquieta-nos com uma força irresistível. O espanto, como eu tenho dito, é o efeito do sublime em seu grau mais elevado; os efeitos inferiores são admiração, reverência e respeito.
Seção II Terror
Nenhuma paixão rouba tão efetivamente da mente todos os seus poderes de ação e raciocínio como o medo. 2Pois o medo sendo uma apreensão de dor ou morte, ele opera de uma maneira que se assemelha a dor real. Portanto, seja o que for que seja terrível, com respeito à visão, é também sublime, se essa causa de terror for dotada de grandezas de dimensões ou não; pois é impossível olhar para qualquer coisa tão insignificante, ou desprezível, que [131]possa ser perigosa. Há muitos animais que, embora eles estejam longe de serem grandes, contudo, são capazes de gerar as ideias do sublime, porque eles são considerados como objetos de terror. Como serpentes e animais venenosos de quase todos os tipos. E para coisas de dimensões grandes, se nós anexarmos uma ideia adventícia de terror, elas tornam-se sem comparação maiores. Uma planície nivelada de uma vasta extensão de terra, certamente, não é uma ideia mesquinha; o panorama de uma semelhante planície pode ser tão extensa como um panorama do oceano; mas, alguma vez ela pode encher a mente com qualquer coisa tão grande quanto o oceano mesmo? Isso é devido a várias causas; mas não se deve a nenhuma mais do que a esta, que o oceano é um objeto de não pequeno terror. De fato, o terror é, em todos os casos que sejam, quer mais aberta quer mais latentemente, o princípio governante do sublime. Várias línguas comportam um forte testemunho da afinidade dessas ideias. Elas frequentemente usam a mesma palavra para significar indiferentemente os modos de espanto ou admiração e aqueles de terror. Θάμβος é em grego ou medo (fear) ou maravilha (wonder); δεινός é terrível ou respeitável; αἰδέο, para reverência ou para medo. Vereor em latim é o que αἰδέο é em grego. O romanos usavam o verbo stupeo, um termo que fortemente marca o estado da mente espantada, para expressar o efeito quer do simples medo, quer do espanto; a palavra attonitus (thunderstruck (atordoado)) é igualmente expressiva da aliança dessas ideias; e o francês étonnement (espanto), o inglês astonishment (espanto) e amazement (admiração), não apontam tão claramente para as emoções aparentadas que acompanham o medo e a maravilha? Eu não duvido de que aqueles que possuem um conhecimento mais geral de linguagens poderiam produzir muito outros exemplos igualmente impressionantes.
[132]Seção III Obscuridade
No geral, para tornar qualquer coisa muito terrível, a obscuridade3 parece ser necessária. Quando nós conhecemos a extensão completa de qualquer perigo, quando nós podemos acostumar nossos olhos a ele, uma grande quantidade de apreensão desaparece. Todos serão sensíveis a isso, quem considera quão grandemente a noite acrescenta ao nosso pavor (dread), em todas os casos de perigo, e quanto as noções de fantasmas e duendes (goblins), das quais ninguém pode formar ideias claras, afeta mentes que dão crédito aos contos populares relativos a tais tipos de seres. Aqueles governos despóticos que são fundados sobre as paixões dos homens e, principalmente, sobre a paixão do medo, mantêm sua chefe, tanto quanto possível, longe do olho público. A política tem sido o mesmo, em muitos casos, que a religião. Quase todos os templos pagãos eram escuros. Mesmo nos templos bárbaros dos americanos de hoje em dia, eles mantém o seu ídolo na parte escura da cabana, a qual é consagrada à sua adoração. Também para esse propósito, os druidas realizaram todas as suas cerimônias no seio dos bosques mais escuros, e à sombra dos carvalhos mais antigos e mais espalhados. Nenhuma pessoa parece ter entendido melhor o segredo da intensificação (heightening), ou do estabelecimento, de coisas terríveis, se eu posso usar a expressão, sob sua luz mais forte, pela força de uma obscuridade judiciosa, do que Milton. A sua descrição da morte no segundo livro é admiravelmente estudada; é espantoso com que pompa sombria, com que incerteza significante e expressiva de pinceladas e coloração, ele rematou o retrato do rei dos terrores:
[133]“A outra forma,
Se de forma ela pudesse ser chamada, aquela forma tinha nenhuma
Distinguível, em parte, articulação ou membro;
Ou de substância poderia ser chamada essa sombra parecia;
Pois cada um parecia qualquer um; escura ela se levantava como a noite;
Furiosa como dez fúrias; terrível como o inferno;
E brandia um dardo mortal. O que parecia sua cabeça
A imagem de uma coroa régia tinha sobre.”
Nessa descrição, tudo é escuro, incerto, confuso, terrível e sublime ao último grau.
Seção IV Da Diferença entre Clareza e Obscuridade com respeito às Paixões
É uma coisa tornar uma ideia clara, e outra, fazê-la afetar a imaginação. Se eu faço um desenho de um palácio, ou um templo, ou uma paisagem, eu apresento uma ideia muito clara desses objetos; mas então (admitindo que o efeito seja de imitação, a qual é de alguma coisa) minha pintura pode, no máximo, afetar apenas como o palácio, o templo ou a paisagem, teriam afetado na realidade. Por outro lado, a descrição mais vívida e espirituosa que eu posso dar gera uma ideia muito obscura e imperfeita de tais objetos; mas então está em meu poder gerar uma emoção mais forte pela descrição do que eu poderia realizar através da melhor pintura. Isso a experiência constantemente evidencia. A maneira adequada de comunicar as afetos (affections) da mente de alguém para outro é através de palavras; há uma grande insuficiência em todos os outros métodos de comunicação; e tão longe está uma clareza de imaginário de ser absolutamente necessária para uma influência sobre as paixões, que se pode operar consideravelmente sobre elas, sem [134]apresentar absolutamente nenhuma imagem, por certos sons adequados àquele propósito; do qual nos temos uma prova suficiente nos efeitos reconhecidos e poderosos da música instrumental. Na realidade, uma grande clareza ajuda muito pouco na direção de afetar as paixões, visto que ela é algum tipo de inimigo para todos os entusiasmos que sejam.
Seção [IV] O Mesmo Assunto Continuado
Há dois versos em Art of Poetry de Horácio que parecem contradizer essa opinião; razão pela qual eu deverei ter mais algumas dificuldades em a esclarecer. Os versos são,
Segnius irritant animos demissa per aures,
Quam quæ sunt oculis subjecta fidelibus.
Sobre isso, o Abade du Bos encontrou uma crítica, na qual ele concede uma preferência notável à poesia sobre o movimento das paixões; principalmente por causa da maior clareza das ideias que ela representa. Eu acredito que esse excelente juiz foi conduzido a esse erro (se for um erro) pelo seu sistema; ao qual ele julgou isso mais conformável do que, eu imagino, será descoberto na experiência. Eu conheço muitos quem admiram e amam a pintura e, contudo, consideram os objetos de sua admiração nessa arte com calma suficiente em comparação àquele calor com o qual eles são animados por peças comoventes de poesia ou retórica. Entre o tipo comum de gente, eu nunca pude perceber que a pintura tinha muita influência sobre as suas paixões. É verdadeiro que os melhores tipos de pintura, assim como os melhores tipos de poesia, não são muito entendidos nessa esfera. Mas é mais certo que [135]as paixões deles são muito fortemente inflamadas por um pregador fanático, ou pelas baladas de Chevy Chase, ou os Children in the Wood, e por outros pequenos poemas e contos populares que são correntes naquela classe social. Eu não conheço nenhuma pintura, boa ou má, que produza o mesmo efeito. De maneira que a poesia, com toda a sua obscuridade, tem um domínio mais geral, assim como mais poderoso, sobre as paixões, do que as outras artes. E eu penso que há razões na natureza de porque a ideia obscura, quando propriamente comunicada, deveria ser mais comovente do que a clara. É a ignorância das coisas que causa toda a nossa admiração e, principalmente, excita as nossas paixões. O conhecimento e a familiaridade fazem as causas mais notáveis afetarem muito pouco. É dessa maneira com o vulgo; e todos os homens são como o vulgo no que eles não entendem. As ideias de eternidade e infinidade estão entre as mais comoventes que nós temos: e contudo, talvez não haja nada do qual nós entendamos tão pouco quanto da infinidade e eternidade. Em lugar nenhum nós encontramos uma descrição mais sublime do que esta justamente celebrada de Milton, na qual ele fornece o retrato de Satan com uma dignidade tão adequada ao assunto:
“Ele acima do resto
Em forma e gesto orgulhosamente eminente
Erguia-se como uma torre; a sua forma ainda não tinha perdido
Todo o seu esplendor original, nem parecia
Menos que arcanjo arruinado, e o excesso
De glória obscurecida; como quando o sol novo ascende
Parece através do ar nebuloso horizontal
Cortado por seus raios; ou a partir de trás da lua
Em crespúsculo desastroso de eclipse sombrio derrama-se
Sobre metade das nações; e com medo de mudança
Confunde monarcas.”
Aqui está um retrato muito nobre; e no que esse [136]retrato poético consiste? Em imagens de uma torre, um arcanjo, o sol ascendendo através de névoas, ou em um eclipse, a ruína de monarcas e as revoluções de reinos. A mente é perturbada por uma multidão de imagens grandes e confusas; as quais afetam por que elas estão amontoadas e confusas. Pois separe-as, e você perde muito da grandeza; e junte-as, e você inevitavelmente perde a clareza. As imagens geradas pela poesia são sempre desse tipo obscuro; embora no geral os efeitos da poesia de maneira alguma devam ser atribuídos às imagens que ela gera; ponto que nós deveremos examinar mais no geral depois.4 Mas a pintura, quando nós julgamos pelo prazer da imitação, pode apenas afetar simplesmente através das imagens que ela apresenta; e mesmo na pintura, uma obscuridade judiciosa em algumas coisas colabora para o efeito do retrato; porque as imagens na pintura são exatamente similares àquelas na natureza; e na natureza, imagens escuras, confusas, incertas, têm uma poder maior sobre a imaginação (fancy) para formar as paixões maiores, do que aquelas que são mais claras e determinadas. Mas onde e quando essa observação pode ser aplicada na prática, e até onde deverá ser estendida, será melhor deduzido a partir da natureza do assunto, e a partir da ocasião, do que de quaisquer regras que podem ser dadas.
Eu estou ciente de que essa ideia encontrou oposição, é ainda é provável de ser rejeitada por vários. Mas seja considerado que dificilmente qualquer coisa pode atingir a mente com sua grandeza, que não se aproxime de alguma forma da infinidade; o que nada pode fazer enquanto nós formos capazes de perceber os seus limites; mas ver distintamente um objeto, e [137]perceber os seus limites, são uma e mesma coisa. Portanto, uma ideia clara é outro nome para uma ideia pequena. Há uma passagem no livro de Jó supreendentemente sublime, e essa sublimidade é principalmente devida à incerteza terrível da coisa descrita: Em pensamentos das visões da noite, quando sono profundo cai sobre os homens, o medo veio sobre mim e o tremor, o qual fez todos os meus ossos tremerem. Então um espírito passou diante do meu rosto. O cabelo da minha carne ficou de pé. Ele permaneceu parado, mas eu não discernir a forma dele; uma imagem estava diante dos meus olhos; houve silêncio, e eu ouvi uma voz, - Deverá homem mortal ser mais justo do que Deus? Nós somos primeiro preparados com a máxima solenidade para a visão; nós somos primeiros terrificados, antes que nós mesmos sejamos permitidos a entrar na causa obscura da nossa emoção: mas quando essa grande causa de terror faz o seu aparecimento, o que ela é? Ela não é, envolta nas sombras da sua própria escuridão incompreensível, mais horrível, mais impressionante, mais terrível, do que a descrição mais vívida, do que a pintura mais clara, possivelmente poderia representar? Eu penso que, quando pintores tentaram nos conceder representações claras dessas ideias muito terríveis e fantasiosas, eles quase sempre falharam: na medida que eu estive perdido, em todas as pinturas que eu vi do inferno, para determinar se o pintor não pretendeu alguma coisa ridícula. Vários pintores têm manejado um assunto desse tipo como uma visão de reunir tantos fantasmas hórridos quanto a sua imaginação poderia sugerir; mas todos os desenhos que eu tive a chance de encontrar das tentações de Santo Antônio eram antes um tipo de grotescos estranhos, selvagens, do que qualquer coisa capaz de produzir uma paixão séria. Em todos esses assuntos a poesia é muito feliz. Suas aparições, suas quimeras, suas harpias, suas figuras alegóricas, são [138]grandes e comoventes; e, embora a Fama de Virgílio e a Discórdia de Homero sejam obscuras, elas são figuras magnificentes. Essas figuras na pintura seriam suficientemente claras, mas eu temo que elas poderiam se tornar ridículas.
ORIGINAL:
BURKE, E. A Philosophical Inquiry into the Origin of our Ideas of the Sublime and Beautiful. IN:______. The Works of the Right Honorable Edmund Burke. Volume I. Boston: Little, Brown, and Company, 1877. pp. 130-138. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofrighthono01burk/page/130/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1 [130]Parte I, seções 3, 4, 7.
2 Parte IV, seções 3, 4, 5, 6.
3 [132]Parte IV, seções 14, 15, 16.
4 [136]Parte V.
