sábado, 4 de novembro de 2023

Perspectivas sobre o Humanismo Digital - Influências Culturais sobre a Inteligência Artificial: Ao longo da Nova Rota da Seda

Perspectivas sobre o Humanismo Digital


Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital


Parte VIII Geopolítica e Soberania Digitais


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[233]Influências Culturais sobre a Inteligência Artificial: Ao longo da Nova Rota da Seda1


por Lynda Hardman


Resumo Aplicações de IA, em particular tomada de decisão dirigida por dados, preocupam cidadãos, governos e corporações. A China foi um dos primeiros países a ter identificado a IA como uma tecnologia-chave na qual investir pesadamente e desenvolver uma estratégia nacional. Por sua vez, isso levou muitos outros países e a União Europeia (UE) a desenvolverem as suas próprias estratégias. Os investimentos sociais e as aplicações da IA são de tão longo alcance que olhar apenas para as inovações tecnológicas resultantes é insuficiente. Em vez disso, nós temos de estar cientes das implicações sociais – das quais há muitas – assim como do papel geopolítico dos atores profissionais e acadêmicos.


1 Inteligência Artificial na China


Enquanto, há vinte anos, a China ainda estava aprendendo da comunidade internacional de IA, investimentos e políticas levaram à situação corrente onde a China está rapidamente alcançando os EUA e a UE em perícia em pesquisa, educação e inovação em IA. A China tem ambições de se tornar um líder mundial em IA por volta de 2030 (ICPST 2018), elevando a frase “produzido na China (made in China)” a um ecossistema de alta tecnologia, dirigido por dados para a fabricação de bens e tecnologia. A China desenvolveu uma estratégia de IA no “Relatório para Desenvolvimento da IA na China 2018” (ICPST 2018) em conjunção com parceiros representando os interesses igualmente acadêmicos e comerciais no país, orientados pelo [234]Instituto Chinês para Política de Ciência e Tecnologia (ICPST) na Universidade de Tsinghua. Entre os objetivos políticos no relatório estão:

  • Aumentar a consciência pública

  • Promover o desenvolvimento da indústria da IA (para varejo, agricultura, logística, finanças e remodelagem da produção, por exemplo)

  • Agir como uma referência para os legisladores

Objetivos sociais para o uso da IA são:

  • Ajudar com uma população envelhecendo

  • Suportar o desenvolvimento sustentável

  • Ajudar o país a transformar-se economicamente – na direção da China como um desenvolvedor e fornecedor de alta tecnologia, em vez de consumidor

Os dois primeiros desses objetivos sociais são compartilhados pela Europa e pelos EUA, conduzindo a benefícios em colaboração. A transformação da China em um fornecedor de alta tecnologia é mais provável de levar a competição, um empreendimento válido por si mesmo, mas que resulta em competição global por talento.

O relatório é realista sobre o contexto Chinês, declarando que “Mesmo gigantes domésticos reconhecidos da IA, tais como Baidu, Alibaba e Tencent (BAT) não têm um desempenho impressionante em talento, artigos e patentes de IA, enquanto os seus competidores dos EUA, como IBM, Microsoft e Google lideram companhias de IA por todo o mundo, em todos os indicadores” (ICPST 2018, p.6).

O sumário executivo conclui com “Correntemente, a política da IA para a China tem enfatizado a promoção do desenvolvimento tecnológico e das aplicações industriais da IA e não tem concedido a atenção devida a questões tais como ética e regulação de segurança” (ICPST 2018, p.7).

A China adota uma visão de longo prazo, e isso pode ser visto em seus investimentos em pesquisa e inovação em IA e, particularmente, em seu talento tecnológico. Esforços imensos têm sido feitos para atrair de volta bem-sucedidos pesquisadores chineses de IA para o seu país natal, para continuarem a sua pesquisa internacionalmente competitiva e educarem novas gerações de talentos. A presença da China na comunidade internacional de pesquisa de IA está crescendo, como demonstrado pela porcentagem crescente de artigos nas principais conferências internacionais de IA que são de coautoria com colegas chineses, trabalhando a partir da China ou do exterior (Elsevier 2018).

O relatório ICPST também observa que as prioridades dos EUA são crescimento econômico, desenvolvimento tecnológico e segurança nacional (ICPST 2018, p. 5), ao passo que os interesses da Europa são os riscos éticos causados pela IA em questões tais como segurança, privacidade e dignidade humana (ICPST 2018, p.5). Essas políticas regionais diferentes parecem alinhadas com as diferentes culturais subjacentes entre as regiões.


[235]2 Inteligência Artificial na Europa


A UE iniciou estratégias nacionais e europeias de desenvolvimento por volta de 2018, por exemplo, estabelecendo o Grupo de Especialistas de Alto Nível sobre Inteligência Artificial2 em toda a Europa, o qual produziu as Diretrizes Éticas para IA Confiável e as correspondentes Recomendações de Política e Investimento em relação a sustentabilidade, crescimento, competitividade e inclusão (Craglia et al. 2018) e, posteriormente, publicando um Plano Coordenado sobre Inteligência Artificial.3 Esse energia para o investimento em IA também é provavelmente alimentado pelos imensos investimentos na China, criando um “medo de perder (fear of losing out),” se a Europa não for capaz de se manter competitiva. O movimento do investimento europeu não é unicamente a partir de uma perspectiva econômica, como ilustrado por aspectos diferentes do relatório, tais como sustentabilidade e inclusão.

Por volta do mesmo momento que o Grupo de Especialista de Alto Nível estava desenvolvendo o seu relatório, muitos acadêmicos e profissionais de ciência da computação estavam eles mesmos preocupados pelo impacto crescente da tecnologia de IA e as potenciais implicações negativas não intencionadas. A Europa Informática e Conselho da ACM Europa publicaram o relatório conjunto “When Computer Decide: European Recommendations of Machine-Learned Automated Decicion Making”4 em fevereiro de 2018. O relatório declara a utilidade e os perigos de decisões tomadas por processos automatizados e fornece recomendações para líderes políticos.


3 Diferenças Culturais na Aplicação da Tecnologia da Inteligência Artificial


Embora melhores e mais pesquisadores através do globo seja geralmente boas notícias para a pesquisa acadêmica, em IA nós temos de permanecer cautelosos. Os enormes investimentos da China em IA levaram a uma dominação em um conjunto restrito de subcampos em torno da aprendizagem de máquina, com uma ênfase em visão computacional e reconhecimento de linguagem. Essa dominação poderia ser percebida como causa para preocupação a partir de uma perspectiva internacional. Por exemplo, técnicas de visão computacional podem ser desenvolvidas para reconhecimento facial, para rastrear os movimentos dos cidadãos. Culturas diferentes percebem diferentemente os benefícios e perigos dessas aplicações. Usando essas mesmas técnicas para outras aplicações, tais como distinguir células cancerosas de benignas, contudo, é largamente percebido como bom.

A comunidade internacional alinhou cautelosamente objetivos em áreas de aplicação da IA tais como mudança climática, transporte, transição energética, e a saúde e o bem-estar de cidadãos idosos.

[236]Isso nos conduz a escolhas políticas e científicas que têm de ser realizadas quanto a quando e como colaborar com a China e quando educadamente declinar. Os pesquisadores em IA têm de parar toda colaboração com acadêmicos e companhias chinesas? A cessação de colaboração seria contra a cultura internacional estabelecida de abertura e diálogo.

É improvável que pesquisadores europeus de IA europeus queiram trabalhar com colegas chineses em tópicos que podem auxiliar o estado chinês em ações que não se conformam com direitos civis e valores europeus. Que há uma diferença cultural na desejabilidade atribuída aos compromissos (trade-offs) entre privacidade e segurança para aqueles vivendo na China e no Ocidente é difícil de entender em e de si mesmo, e ainda mais difícil quando os pesquisadores não são familiares com a cultura chinesa. Pesquisadores de IA não são os maiores conhecedores de diferenças culturais, nem muitos pesquisadores europeus despendem períodos extensos de tempo na China para aprender em primeira mão.

Dado o montante relativamente pequeno de financiamento de pesquisa nos países europeus e da União Europeia, a adição bem-vinda de fundos do exterior pareceria uma oportunidade de ouro. Mas as coisas não são tão fáceis quanto elas podem parecer. Primeiro – pesquisadores europeus de IA querem trabalhar com colegas chineses? Segundo – instituições acadêmicas europeias querem ser financiadas por companhias chinesas?

Atualmente, é mais comum para pesquisadores europeus colaborarem com grandes corporações baseadas nos EUA. Elas financiam colaborações de pesquisa e atraem profissionais de alto nível para trabalharem com elas. Ao mesmo tempo, elas criaram a economia de dados que levou à passagem de lei na UE para conceder aos cidadãos europeus pelo menos algum controle das dados que eles (frequentemente sem saber) cedem àquelas corporações. Para o meu conhecimento, há pouca discussão no campo acadêmico quanto a se nós deveríamos pensar cuidadosamente sobre essas companhias baseadas no EUA.


4 Talento na Inteligência Artificial: Mobilidade e Competição Global


Nós necessitamos de praticantes em IA altamente educados para desenvolverem a riqueza de aplicações uteis/valiosas através do globo. Contudo, há uma escassez global de talento de IA, incluindo talento em aprendizagem de máquina e analítica de dados. Todas as partes do globo estão procurando educar o seu próprio talento e atrair talento excelente do exterior. Isso requer investimento de um número de maneiras, tais como aumentar o número de corpo docente qualificado e aumentar a eficiência do ensino. Trabalhar para a indústria traz as suas próprias recompensas financeiras. Posições acadêmicas efetivas são atraentes por causa da oportunidade para levar a cabo pesquisa. Isso requer extenso financiamento de pesquisa, requerendo ou uma porção maior do financiamento nacional (ou europeu, na Europa) disponível ou atração de mais financiamento por companhias. Companhias através do globo estão agudamente cientes dessa escassez de talento e estão dispostas a investir em financiamento acadêmico para manter uma base ativa de pesquisadores e professores na academia. Pesquisadores excelentes atraem excelente talento jovem, e, dado o fundamento em linguagem [237]inglesa dos campos da IA e ciência da computação, o mesmo talento pode ser atraído para a China, a Europa ou os EUA.

Contudo, há diferença na boa vontade dos estudantes para deixarem o seu continente e buscarem a sua fortuna. É provável que estudantes chineses de IA e ciência da computação estudarão por algum tempo no exterior, antes de retorarem para a China, onde recursos de pesquisa são atualmente (ano de 2021) abundantes. Por outro lado, a atração do equilíbrio europeu de vida/trabalho pode desempenhar um fator.

Estudantes europeus são muito menos familiares com as culturas e a linguagem chinesa do que os estudantes chineses estão com a linguagem inglesa e as culturas americana e europeia. Isso cria uma barreira maior para se moverem para uma região onde os benefícios acadêmicos correntemente percebidos são poucos. Isso pode mudar, conforme a consciência da velocidade tecnológica de mudança e dos recursos disponíveis de pesquisa na China aumenta, criando uma atração mais forte tanto para estudantes europeus quanto americanos.

Enquanto a China é atraente para o jovem talento de alta tecnologia, as semanas de trabalho são longas, concedendo pouca oportunidade para despender tempo com família e amigos. Na Europa, não é apenas o padrão de vida de alguém que é importante, mas também a qualidade de vida de alguém. O desenvolvimento das tecnologias de IA fornece esperança de que ambos possam ser alcançados através do uso mais eficiente dos limitados recurso disponíveis.

Esforços imensos têm sido realizados para atrair pesquisadores chineses de IA bem-sucedidos de volta para o seu país natal para continuarem com sua pesquisa internacionalmente competitiva e para educarem novas gerações de talento “caseiro (home-grown).” Ambas gerações de pesquisadores trazem com elas a cultura competitiva, individualista, dirigida por risco aprendida no exterior. Exatamente como para vencer em esporte de ponta – seja ele ginástica, futebol ou tênis de mesa – duas coisas são essenciais: indivíduos com potencial e motivação intrínsecos e um ambiente que educa e afia as habilidades competitivas internacionalmente requeridas. Uma característica da bem-sucedida cultura de pesquisa ocidental é o questionamento da sabedoria recebida, o que vai contra a corrente das culturas chinesa e muitas outras asiáticas, onde a autoridade é altamente respeitada.


5 Colaboração Global na Pesquisa e Inovação em Inteligência Artificial


Então, quais são as minhas recomendações nesse quebra-cabeça complexo e algumas vezes contraditório de colaboração?

A China é um líder global em pesquisa, tecnologia e inovação em IA. Visto que o seu investimento nesse campo continua a crescer, isso somente se tornará mais pertinente. Portanto, nós não podemos ignorar a relevância da China na pesquisa e desenvolvimento da IA, mas nós podemos ser ponderados em nossa abordagem para colaborações e tomar decisões informadas em uma base caso a caso. Bekkers et al. (2019) fornece diretrizes completas sobre como abordar colaborações.

Questões de colaborações internacionais em IA e seu efeito sobre a população global são grandes e assustadoras. Aprender mais sobre os seus colaboradores e [238]colegas chineses é uma tarefa mais fácil e, definitivamente, mais agradável. Ler o livro de Lee (2018), o qual fornece intuições sobre pegar a cultura de start-up do Vale do Silício e transferi-la para a China, enquanto, ao mesmo tempo, metamorfosea-la em regras de um novo “Oriente Selvagem (Wild East).” Aprender chinês e visitar os seus colegas na China.

Pesquisa e inovação em IA estão ocorrendo ao longo da Nova Rota da Seda. Os pesquisadores europeus já estão acostumados a colaborações globais através de cultura diferentes. Uma das características da cultura de pesquisa internacional é a troca independente de opinião (feedback) crítica, ao mesmo tempo que permanecendo ciente das implicações dos resultados da pesquisa. Os pesquisadores chineses estão desenvolvendo as suas próprias estrategias de pesquisa e inovação, realizando investimentos estratégicos em educação e pesquisa acadêmicas, possibilitando a eles tornarem-se um parceiro influente no palco global em pesquisa assim como inovação. Tanto a partir da perspectiva europeia quanto da chinesa, os pesquisadores de IA têm de desenvolver um melhor entendimento das culturas nas quais nós operamos. Aprender a partir das perspectivas culturais um do outro é alguma coisa que os nossos sistemas de IA ainda não são capazes de fazer por nós.


Referências


Bekkers F., Oosterveld W. e Verhagen P. (2019) Checklist for Collaboration with Chinese Universities and Other Research Institutions. The Hague Centre for Strategic Studies, Janeiro. https://hcss.nl/report/checklist-for-collaboration-with-chinese-universities-and-other-research-institutions/

CISTP (2018) China AI Development Report 2018. China Institute for Science and Technology Policy (CISTP) at Tsinghua University. http://www.sppm.tsinghua.edu.cn/eWebEditor/UploadFile/China_AI_development_report_2018.pdf

Craglia M. et al., 2018. ‘Artificial Intelligence: A European Perspective’, Publications Office of the European Union, March. https://ec.europa.eu/jrc/en/publication/artificial-intelligence-european-perspective

Elsevier (2018) Artificial Intelligence: How knowledge is created, transferred, and used. Trends in

China, Europe, and the United States. https://www.elsevier.com/research-intelligence/resource-library/ai-report

Hardman L. (2020) Artificial Intelligence along the New Silk Road: Competition or Collaboration? Chapter in: (Van der Wende, 2020). https://ir.cwi.nl/pub/29940

Lee K.-F. (2018) AI Superpowers: China, Silicon Valley, and the New World Order. Houghton Mifflin Co., USA. https://www.aisuperpowers.com

Van der Wende M.C., Kirby W.C., Liu N.C. e Marginson S. (eds.) (2020) China and Europe on the New Silk Road: Connecting Universities across Eurasia. Oxford University Press. https://global.oup.com/academic/product/china-and-europe-on-the-new-silk-road-9780198853022


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ORIGINAL:

HARDMAN, L. Cultural Influences on Artificial Intelligence: Along the New Silk Road. In: GHEZZI, C. et al. (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p. 233-239. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


1 [233]As opiniões neste capítulo são próprias da autora e não necessariamente refletem aquelas dos seus empregadores ou das organizações que ela representa. Este capítulo está baseado no item “AI Research with China: to Collaborate or not to Collaborate – is that the Question” do blog Amsterdam Data Science e Hardman (2020). https://amsterdamdatascience.nl/ai-research-with-china-to-collaborate-or-not-to-collaborate-is-that-the-question/

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