segunda-feira, 4 de março de 2024

Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo - Parte V - Seções I-VII - Final

Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo


Por Edmund Burke


Seção anterior


Parte V


[246]Seção I Das Palavras


Os objetos naturais afetam-nos através das leis daquela conexão que a Providência estabeleceu entre certos movimentos e configurações dos corpos, e certos sentimentos consequentes em nossa mente. A pintura afeta da mesma maneira, mas com o prazer de imitação superadicionado. A arquitetura afeta através das leis da natureza e da razão; a partir dessa segunda resultam as regras da proporção, as quais fazem uma obra ser elogiada ou censurada, no todo ou em alguma parte, quando o fim para o qual ela é projetada é ou não apropriamente satisfeito. Mas quanto às palavras; elas parecem afetar-nos de uma maneira muito diferente daquela pela qual nós somos afetado por objetos naturais, ou pela pintura ou arquitetura; todavia, as palavras têm uma parte considerável em excitar as ideias da beleza e do sublime como muitas daquelas, e, algumas vezes, uma muito maior do que qualquer uma delas; portanto, uma investigação da maneira pela qual elas excitam semelhantes emoções está longe de ser desnecessária em um discurso deste tipo.


Seção II Os Efeitos Comuns da Poesia, não através da Geração de Ideias de Coisas


A noção comum do poder da poesia e eloquência, assim como aquela das palavras na [247]conversa ordinária, é que elas afetam a mente gerando nela as ideias daquelas coisas que o costume as escolheu para representar. Para examinar a verdade dessa noção, pode ser necessário observar que as palavras podem ser divididas em três tipos. O primeiro é tal como representa muitas ideias simples unidas por natureza para formar uma composição determinada, como homem, cavalo, árvore, castelo, etc. Essas eu chamo de palavras agregadas. O seguindo é tal que elas representam uma ideia simples de tais composições, e não mais; como vermelho, azul, redondo, círculo e semelhantes. Essas eu chamo de palavras abstratas simples. O terceiro é daquelas que são formadas por uma união, uma união arbitrária de ambas as outras, e das várias relações entre elas em graus maiores ou menores de complexidade; como virtude, honra, persuasão, magistrado e semelhantes. Essas eu chamo de palavras abstratas compostas. Eu estou ciente de que as palavras podem ser classificadas em distinções mais curiosas; mas essas parecem ser naturais, e suficientes para o nosso propósito; e elas estão dispostas naquela ordem na qual elas são comumente ensinadas, e na qual a mente obtém as ideias pelas quais elas são substituídas. Eu deverei começar com o terceiro tipo de palavras; abstratas compostas, tais como virtude, honra, persuasão, docilidade. Dessas eu estou convencido de que, qualquer que seja o poder que elas podem ter sobre as paixões, elas não derivam a partir de nenhuma representação gerada na mente das coisas que elas representam. Como composições, elas não são essências reais, e dificilmente, eu acredito, causem quaisquer ideias reais. Eu acredito que ninguém, imediatamente ao ouvir os sons, virtude, liberdade ou honra, conceba quaisquer noções precisas dos modos particulares de ação e pensamento, junto com as ideias mistas e simples, e a várias relações delas, pelas quais essas [248]palavras são substituídas; tampouco ele tem nenhuma ideia geral composta por elas; pois se ele tivesse, então, algumas daquelas particulares, embora indistintas, talvez, e confusas, poderiam logo chegar a ser percebidas. Mas isso, eu aceito, dificilmente alguma vez é o caso. Pois, coloque a si mesmo para analisar uma dessas palavras, e você tem de reduzir a partir de um conjunto de palavras gerais a outro e, em seguida, as palavras simples e agregadas, em uma série muito mais longa do que inicialmente pode ser imaginada, antes que qualquer ideia emerja à luz, antes que você chegue a descobrir qualquer coisa como os primeiros princípios de tais composições; e quando você fez uma semelhante descoberta das ideias originais, o efeito da composição está completamente perdido. Uma sucessão de pensamento desse tipo é longa demais para ser perseguida nas maneiras ordinárias de conversação; nem, de qualquer maneira, é necessário que ela deva ser. Tais palavras são na verdade meros sons; mas elas são sons que, sendo usados em ocasiões particulares, nas quais nós recebemos algum bem, ou sofremos algum mal; ou vemos outros afetados por algum bem ou mal; ou que nós ouvimos aplicadas a outras coisas ou outros eventos interessantes; e sendo aplicado em uma variedade tão grande de casos, que nós podemos prontamente conhecer pelo hábito a quais coisas elas pertencem, elas produzem na mente, sempre que elas forem subsequentemente mencionadas, efeitos similares àqueles das suas ocasiões. Os sons sendo frequentemente usados sem referência a nenhuma ocasião particular, e ainda portando suas primeiras impressões, finalmente eles perdem completamente a conexão deles com as ocasiões particulares que deram origem a eles; contudo o som, sem nenhuma noção anexada, continua a operar como antes.


[249]Seção III Palavras Gerais antes de Ideias


O sr. Locke de alguma maneira observou, com a sua sagacidade usual, que a maioria das palavras gerais, aquelas pertencentes à virtude e ao vício, bem e mal especialmente, são ensinadas antes que os modos particulares de ação aos quais elas pertencem sejam apresentadas à mente; e com elas, o amor ao primeiro, e a aversão ao segundo; pois as mentes das crianças são tão maleáveis, que uma cuidadora, ou qualquer pessoa ao redor da criança, ao parecer agradada ou desagrada com qualquer coisa, ou mesmo qualquer palavra, pode conceder à disposição da criança um curso similar. Subsequentemente, quando as várias ocorrências na vida chegam a ser aplicadas àquelas palavras, e que aquilo que é agradável frequentemente aparece sob o nome de mal; e o que é desagradável por natureza é chamado de bom e virtuoso; uma estranha confusão de ideias e afeições surgem nas mentes de muitos; e uma aparência de contradição não pequena entre suas noções e suas ações. Há muitos quem amam a virtude e detestam o vício, e isso não a partir de hipocrisia e afetação, quem, não obstante, muito frequentemente, agem mal e perversamente em particulares sem o menor remorso; porque essas ocasiões particulares nunca chegaram à compreensão quando as paixões sobre o lado da virtude eram tão calorosamente afetadas por certas palavras aquecidas pela respiração de outros; e por essa razão é difícil repetir certos conjuntos de palavras, embora inoperantes devido a si mesmos, sem ser de alguma maneira afetado; especialmente em um tom caloroso e comovente de voz acampanha-os, como supõem,


Sábio, valente, generoso, bom e grandioso.


[250]Essas palavras, não tendo aplicação, deveriam ser inoperantes; mas quando palavras comumente sagradas para grandes ocasiões são usadas, nós somos afetados por elas mesmo sem as ocasiões. Quando as palavras que geralmente têm sido aplicadas são combinadas sem nenhuma visão racional, ou de tal maneira que elas não concordam corretamente umas com as outras, o estilo é chamado de bombástico. E ele requer, em várias ocasiões, muito bom senso e experiência para ser protegido contra a força de tal linguagem; pois, quando a propriedade é negligenciada, um número maior dessas palavras comoventes pode ser tomado em serviço, e uma variedade maior pode ser tolerada na combinação delas.


Seção IV O Efeito das Palavras


Se as palavras têm toda a extensão possível de poder, três efeitos surgem na mente do ouvinte. O primeiro é o som; o segundo, a figura (picture), ou a representação da coisa significada pelo som; o terceiro é a afeição da alma produzida por uma ou por ambas dos acima mencionados. Palavras abstratas compostas, das quais nós temos estado falando, (honra, justiça, liberdade e semelhantes,) produzem o primeiro e o último desses efeitos, mas não o segundo. Abstratas simples são usadas para significar alguma única ideia simples sem chamar muita atenção para outras que podem mudar para a acompanhar, como azul, verde, quente, frio e similares; essas são capazes de afetar todos os três propósitos das palavras; como as palavras agregadas, homem, castelo, cavalo, etc, são em um grau ainda mais alto. Mas eu sou da opinião que o efeito mais geral, mesmo dessas palavras, [251]não surge a partir delas formarem figuras das várias coisas que elas representariam na imaginação; porque, em um exame muito diligente da minha própria mente, e conseguindo com que os outros examinassem as deles, eu não encontro que uma vez em vinte vezes qualquer figura semelhante seja formada, e quando ela é, há mais comumente um esforço particular da imaginação para esse propósito. Mas as palavras agregadas operam, como eu disse das abastratas-compostas, não apresentando qualquer imagem para a mente, mas tendo, a partir do uso, o mesmo efeito sendo mencionado, que o original teve quando ele é visto. Suponha que nós devêssemos ler uma passagem para este efeito: “O rio Danúbio surge em um solo úmido e montanhoso no coração da Alemanha, onde, serpenteando para lá e para cá, ele irriga várias principados, até que, voltando-se para dentro da Áustria, e lavando as muralhas de Viena, ele passa para dentro da Hungria; ali, com uma enchente vasta, aumentado pelo Save e o Drava, ele deixa a Cristandade, e através dos países bárbaros que fazem fronteira com a Tartária, ele entra através de muitas bocas no Mar Negro.” Nessa descrição muitas coisas são mencionadas, como montanhas, rios, cidades, o mar, etc. Mas, que qualquer um examine a si mesmo, e veja se ele foi impressionado em quaisquer figuras de um rio, montanha, solo aguado, Alemanha etc. De fato, é impossível, na rapidez e sucessão apressada de palavras na conversação, ter ideias tanto do som quanto da palavra, e da coisa representada; além disso, algumas palavras, expressando essências reais, estão tão misturadas com outras de uma importância geral e nominal, que é impraticável saltar do sentido (sense) para o pensamento, dos particulares para os gerais, das coisas para as palavras, de uma maneira tal quanto a responder aos propósitos da vida; nem é necessário que nós deveríamos.


[252]Seção V Exemplos de que Palavras podem Afetar sem Gerar Imagens


Eu considero muito difícil persuadir várias pessoas de que as paixões delas são afetadas por palavras das quais elas não têm nenhuma ideia; e ainda mais difícil convencê-las de que, no curso ordinário de conversação, nós somos suficientemente entendidos sem gerar nenhuma imagem das coisas relativas as quais nós falamos. Parece ser um estranho assunto de debate com qualquer homem, se ele tem ideias em sua mente ou não. Sobre isso, à primeira vista, todo homem, em seu foro próprio, deveria julgar sem apelo. Mas, estranho como isso pode parecer, nós frequentemente ficamos desorientados para sabermos que ideias nós temos das coisas, ou, de qualquer maneira, se nós temos ideias sobre alguns assuntos. Até se requer uma grande quantidade de atenção para se estar completamente satisfeito sobre essa categoria. Desde que eu escrevi esses artigos, eu encontrei duas instâncias muito impressionantes de que um homem pode ouvir palavras sem ter nenhuma ideia das coisas que elas representam, e, contudo, subsequentemente, ser capaz de as retornar a outros, combinadas de uma nova maneira, e com grande propriedade, energia e instrução. A primeira instância é aquela do sr. Blacklock, um poeta cego desde o nascimento, poucos homens abençoados com a visão mais perfeita podem descrever objetos visuais com mais espírito e justeza do que esse homem cego; o que possivelmente não pode ser atribuído a ele ter uma concepção mais clara das coisas que ele descreve do que é comum a outras pessoas. O sr. Spence, em um prefácio elegante que ele escreveu para as obras desse poeta, raciocina muito engenhosamente e, eu imagino, pela maior parte, muito corretamente, sobre a causa desse [253]fenômeno extraordinário; mas eu não posso concordar completamente com ele, de que algumas impropriedades na linguagem e no pensamento, as quais ocorrem nesses poemas, originaram-se a partir da imperfeita concepção de objetos visuais pelo poeta cego, uma vez que tais impropriedades, e muito maiores, podem ser encontradas em escritores até de uma classe superior àquela do sr. Blacklock, e quem, a despeito disso, possuíam a faculdade de ver em sua perfeição completa. Aqui está um poeta sem dúvida tão afetado por suas próprias descrições quanto qualquer um que as leia pode estar; e contudo, ele é afetado com esse entusiasmo estranho por coisas das quais ele não tem, nem possivelmente pode ter, nenhuma ideia adicional do que o simples som: e por que não podem aqueles que leem seus trabalhos serem afetados da mesma maneira que ele foi; com tão pouco de quaisquer ideias reais das coisas descritas? A segunda instância é do sr. Sanderson, professor de matemática na Universidade de Cambridge. Esse homem instruído tinha adquirido grande conhecimento em filosofia natural, em astronomia e em quaisquer outras ciências dependentes da habilidade matemática. O que era o mais extraordinário e o principal para o meu propósito, ele proferia preleções excelentes sobre luz e cores; e esse homem ensinava a outros a teoria daquelas ideias que eles tinham e as quais, indubitavelmente, ele não tinha. Mas é provável que as palavras vermelho, azul, verde respondiam-lhe tão bem quanto as ideias das cores mesmas; pois as ideias de graus menor e maior de refrangibilidade sendo aplicadas àquelas palavras, e o homem cego sendo instruído em quais outros aspectos elas foram consideradas concordar ou discordar, era tão fácil para ele raciocinar sobre as palavras como se ele tivesse estado em domínio completo das ideias. De fato, deve ser admitido que ele não poderia realizar novas descobertas no caminho do experimento. Ele [254]não fazia nada exceto o que nós fazemos todos os dias no discurso comum. Quando eu escrevi a última sentença, e usei as palavras todos os dias (every day) e discurso comum (common discourse), eu não tinha imagens na minha mente de nenhuma sucessão de tempo; nem de homens em conferência uns com os outros; nem eu imagino que o leitor terá alguma dessas ideias ao lê-la. Nem quando eu falei de vermelho, ou azul, e verde, assim como refrangibilidade, tinha eu dessas várias cores, ou dos raios de luz passando para dentro de um meio diferente, e aí desviados a partir do seu curso, pintadas diante mim na forma de imagens. Eu sei muito bem que a mente possui a faculdade de gerar tais imagens à vontade; mas então um ato de vontade é necessário para isso; e, em conversação ou leitura ordinárias, é muito raramente que qualquer imagem, de qualquer maneira, é excitada na mente. Se eu disser, “Eu deverei ir à Itália no próximo verão,” eu sou bem entendido. Contudo, eu acredito que, por causa disso, ninguém pintou em sua imaginação a figura exata do falante passando por terra ou por água, ou ambos; algumas vezes a cavalo, algumas vezes em uma carruagem: com todos os particulares da jornada. Ainda menos tem qualquer ideia da Itália, o país ao qual eu me propus a ir; ou do verdor (greenness) dos campos, o amadurecimento dos frutos, e o calor do ar, com a mudança para isso a partir de uma estação diferente, o que são as ideias pelas quais a palavra verão (summer) é substituída; mas a uma extensão melhor tem qualquer imagem da palavra próximo (next); pois essa palavra representa a ideia de muitos verões, com a exclusão de todos, exceto um: e certamente o homem quem diz próximo verão (next summer) não tem imagens de uma sucessão semelhante, e de uma exclusão semelhante. Em resumo, não são apenas aquelas ideias que são comumente chamadas de abstratas, e das quais nenhuma imagem pode ser formada, mas mesmo dos seres particulares, reais, que nós conversamos sem ter [255]nenhuma delas excitada na imaginação; como certamente aparecerá em um exame diligente das nossas próprias mentes. De fato, a poesia depende tão pouco para o seu efeito do poder de gerar imagens sensíveis, que eu estou convencido que ela perderia uma parte muito considerável da sua energia, se essa devesse ser o resultado necessário de toda descrição. Por que essa união de palavras comoventes, as quais são os mais poderosos de todos os instrumentos poéticos, frequentemente perderia sua força junto com sua propriedade e consistência, se as imagens sensíveis fossem sempre excitadas. Talvez não haja na Eneida inteira uma passagem mais grandiosa e laborada do que a descrição da caverna de Vulcano no Etna, e as obras que ali são levadas a cabo. Virgílio demora-se particularmente na formação do trovão, o qual ele descreve como inacabado sob os martelos dos ciclopes. Mas quais são os princípios dessa composição extraordinária?


Tres imbris torti radios, tres nubis aquosæ

Addiderant; rutili tres ignis, et alitis austri:

Fulgores nunc terrificos, sonitumque, metumque

Miscebant operi, flammisque sequacibus iras.


Isso me parece admiravelmente sublime: contudo, se nós prestarmos atenção friamente ao tipo de imagens sensíveis que uma combinação de ideias desse tipo tem de formar, as quimeras dos loucos não podem aparecer mais selvagens e absurdas do que uma semelhante figura. “Três raios de aguaceiros (showers) torcidos, três nuvens úmidas, três de fogo, e três do vento sul alado; então misture eles na obra de relâmpagos terríveis, e som, e medo, e raiva, com chamas perseguidoras.” Essa composição estranha é formada em um corpo grosseiro; ela é martelada pelos ciclope, está em parte polida, e em parte continua grosseira. A verdade é, se a poesia concede-nos uma nobre coleção de [256]palavras correspondendo a muitas ideias nobres, as quais são conectadas por circunstâncias de tempo ou lugar, ou relacionadas umas com as outras como causa e efeito, ou associadas de qualquer maneira natural, elas podem ser moldadas juntas em qualquer forma, e perfeitamente satisfazerem ao fim delas. A conexão pitoresca não é demandada; porque nenhuma figura é formada; nem é o efeito da descrição, de qualquer maneira, menor em consequência dessa consideração. O que se diz de Helena por Príamo e o ancião do seu conselho, é geralmente considerado conceder-nos a ideia mais elevada possível daquela beleza fatal.


Οὐ νέμεσις, Τρὢας καὶ ἐὔκνήμιδας 'Αχ-αιοὺς

Τοιἣδ' ἀμφὶ γυναικὶ πολὺν χρόνον ἄλγεα πάσχ-ειν.

Αἰνὢς ἀθανάτησι θεἣς εἰς ὦπα ἔοικεν.

Ele choraram, Não surpreende que tais encantos celestes

Por nove anos inteiros levaram o mundo às armas;

Que graças vencedoras! Que semblante majestático!

Ela move-se como uma deusa, e ela parece uma rainha.”

Pope.


Aqui não há uma palavra dita dos particulares da beleza dela; nada que possa nos ajudar no mínimo com qualquer ideia precisa da ideia dela; mas ainda nós somos muito mais tocadas por essa forma de a mencionar, do que por aquelas descrições longas e laboradas de Helena, quer transmitidas por tradições, quer formadas pela imaginação, as quais devem ser encontradas em alguns autores. Eu estou certo de que isso me afeta muito mais do que a descrição minuciosa que Spencer deu de Belphebe; embora eu admita que há partes, naquela descrição, como há em todas as descrições daquele escritor excelente, extremamente finas e poéticas. A imagem terrível que Lucrécio desenhou da religião para exibir a magnanimidade do seu herói filosófico em oposição a ela, é considerada ser projetada com grande ousadia e espírito: -


[257]Humana ante oculos foedè cum vita jaceret,

In terris, oppressa gravi sub religione,

Quæ caput e coeli regionibus ostendebat

Horribili super aspectu mortalibus instans;

Primus Graius homo mortales tollere contra

Est oculos ausus.


Que ideia você deriva de uma figura tão excelente? Absolutamente nenhuma, muito certamente: tampouco o poeta disse uma única palavra que no mínimo poderia servir para marcar um único membro ou característica do fantasma, o qual ele pretendia representar em todos os horrores que a imaginação pode conceber. Na realidade, poesia e retórica não tem sucesso na descrição exata tanto quanto a pintura faz; a tarefa dela é afetar antes por simpatia do que por imitação; exibir antes o efeito de coisas sobre a mente do orador, ou de outros, do que apresentar uma ideia clara das coisas mesmas. Essa é a sua província mais extensa e essa na qual eles sucedem melhor.


Seção VI Poesia, não estritamente uma Arte Imitativa


Consequentemente, nós podemos observar que a poesia, tomada em sua acepção mais geral, não pode, com propriedade estrita, ser chamada de uma arte imitativa. De fato, ela é uma imitação até onde ela descreve as maneiras e paixões de homens que as palavras dele podem expressar; onde animi motus effert interprete lingua. Há estritamente imitação; e toda poesia meramente dramática é desse tipo. Mas a poesia descritiva opera principalmente através de substituição; através dos meios dos sons, os quais, por costume, têm o efeito de realidades. Nada é uma imitação adicional do que quando ela se assemelha a alguma outra coisa; e indubitavelmente [258]as palavras não têm o tipo de semelhança com as ideias que elas representam.


Seção VII Como Palavras influencia as Paixões


Agora, como as palavras afetam não por um poder original, mas por representação, poder-se-ia supor que a influência delas sobre as paixões deveria ser apenas leve; contudo, é bastante de outra maneira; pois nós descobrimos por experiência que a eloquência e poesia são como capazes, ou melhor, de fato, muito mais capazes, de produzirem impressões profundas e vívidas do que quaisquer outras artes, e mesmo do que a natureza mesma, em muitos casos. E isso surge principalmente a partir destas três causas. Primeiro, que nós participamos extraordinariamente nas paixões de outros, e que nós somos facilmente afetados e levados à simpatia por quaisquer símbolos que são mostrados delas; e não há símbolos que podem expressar todas as circunstâncias da maior parte das paixões tão completamente quanto as palavras; de maneira que, se uma pessoa fala sobre qualquer assunto, ela não apenas pode comunicar o assunto a você, mas, da mesma maneira, a maneira pela qual ela mesma é afetada por ele. Certo é que a influência da maioria das coisas sobre as nossas paixões não tanto a partir das coisas mesmas, como a partir das nossas opiniões relativas a elas; e, novamente, essas dependem muito das opiniões de outros homens, comunicáveis, pela maior parte, a apenas pelas palavras. Segundo, há muitas coisas que são de uma natureza muito comovente, a qual raramente pode ocorrer na realidade, mas as palavras que as representam frequentemente o fazem; e, dessa maneira, elas têm uma oportunidade de produzir uma impressão profunda e enraizarem-se na mente, enquanto a ideia da realidade era transitória; e para alguns [259]talvez nunca tenha realmente ocorrido, de qualquer maneira, para quem ela é, a despeito disso, muito comovente, como guerra, morte, fome, etc. Além disso, muitas ideias podem nunca ter estado de qualquer maneira presentes para os sentidos de quaisquer homens exceto apenas por palavras, como Deus, anjos, demônios, céu e inferno, todas as quais, contudo, têm uma grande influência sobre as paixões. Terceiro, por palavras que nós temos em nosso poder para produzir tais combinações como não possivelmente não podemos fazer de outra maneira. Através desse poder de combinação, nós somos capazes, através da adição de circunstâncias bem escolhidas, conceder uma nova vida e força ao objeto simples. Na pintura nós podemos representar qualquer figura que nós desejarmos; mas nós nunca podemos conceder a ela aqueles toques animadores que ela pode receber a partir de palavras. Para representar um anjo em uma pintura, você apenas pode desenhar um belo rapaz alado: mais que pintura pode prover alguma coisa tão grande quanto à adição de uma palavra, “o anjo do Senhor”? É verdadeiro, eu não tenho ideia clara aqui; mas essas palavras afetam a mente mais do que a imagem sensível afeta; o que é tudo pelo que eu argumento. A pintura de Príamo arrastado para o pé do altar, e ali assassinado, se ela for bem executada, indubitavelmente seria muito comovedora; mais a há várias circunstâncias agravantes, as quais ela nunca poderia representar:


Sanguine foedantem quos ipse sacraverat ignes.


Como uma instância adicional, consideremos aquelas linhas de Milton onde ele descreve as viagens dos anjos caídos através da sua habitação sombria:


Sobre muitos um vale escuro e triste

Eles passaram, e muitos uma região dolorosa;

Sobre muitos um congelado, muito ardente Alpe;

Rochas, cavernas, lagos, pântanos, brejos, grutas e sombras de morte,

Um universo de morte.”


Aqui está exibida a força da união em


[260]“Rochas, cavernas, lagos, pântanos, brejos, grutas e sombras”.


as quais, contudo, perderiam a maior parte do seu efeito se elas não fossem os


Rochas, cavernas, lagos, pântanos, brejos, grutas e sombras - de Morte,”


Essa ideia ou afeição causada por uma palavra, a qual nada exceto uma palavra poderia acrescentar às outras, gera um grau muito grande do sublime, e esse sublime é elevado ainda mais alto pelo que se segue, um “universo de morte.” Novamente aqui nós temos duas ideias não apresentáveis exceto através da linguagem, e uma união delas grandiosa e espetacular além de concepção; se elas podem apropriadamente serem chamadas de ideias que não apresentam imagens distintas para mente; mas ainda será difícil conceber como as palavras podem mover as paixões que não pertencem a objetos reais, sem representar esses objetos claramente. Isso é difícil para nós, porque nós não distinguimos suficientemente, em nossas observações sobre a linguagem, entre uma expressão clara e uma expressão forte. Essas frequentemente são confundidas uma com a outra, embora na realidade elas são extremamente diferentes. A primeira diz respeito ao entendimento, a segunda pertence às paixões. Uma descreve uma coisa como ela é, a outra a descreve como ela é sentida. Agora, como há um tom comovente de voz, uma semblante apaixonado, um gesto agitado, os quais afetam independentemente das coisas sobre as quais eles são exercidos, assim há palavras, e certas disposições de palavras, as quais sendo peculiarmente dedicadas a assuntos apaixonados, e sempre usadas por aqueles que estão sob a influência de alguma paixão, tocam e move-nos mais do que aquelas que muito mais clara e distintamente expressam o assunto. Nós podemos render à simpatia o que nós recusamos à descrição. A verdade é, toda descrição, meramente como descrição nua, [261]embora nunca tão exata, comunica uma ideia tão pobre e insuficiente da coisa descrita, que ela escassamente poderia ter o menor efeito, se o orador não convocasse em seu auxílio os modos de discurso que marcam um sentimento forte e vívido em si mesmo. Então, pelo contágio das nossas paixões, nós pegamos um fogo já acesso em outro, o qual, provavelmente nunca poderia ser sido aceso pelo objeto descrito. As palavras, ao comunicarem fortemente as paixões através daqueles meios que nós já mencionamos, compensam completamente por sua fraqueza em outros aspectos. Pode ser observado que linguagens que são muito polidas, e tal como a serem elogiadas pela sua clareza e lucidez superiores, são geralmente deficientes em força. A língua francesa tem essa perfeição e esse defeito. Aos passo que as línguas orientais e, no geral, as línguas dos povos mais incultos, têm uma grande força e energia de expressão, e isso é apenas natural. Povos incultos são apenas observadores ordinários das coisas, e não críticos em as distinguir; mas, por essa razão, eles admiram mais, e são mais afetados pelo que eles veem e, portanto, expressam a si mesmos de uma maneira mais calorosa e mais apaixonada. Se a afeição for bem comunicada, ela operará o seu efeito sem nenhuma ideia clara, frequentemente sem absolutamente nenhuma ideia clara da coisa que originalmente deu origem a ela.

Poderia ser esperado, a partir da fertilidade do assunto, que eu devesse considerar a poesia, no que ela diz respeito ao sublime e à beleza, de forma mais geral; mas deve ser observado que, nesta luz, ela já tem sido frequentemente e bem manejada. Não era meu desígnio entrar na crítica do sublime e do belo em nenhuma arte, mas tentar estabelecer aqueles princípios que podem tender a determinar, distinguir e a dar forma a um tipo [262]de padrão para elas; propósito que, eu considerei, poderia ser melhor efetuado através de uma investigação das propriedades daquelas coisas na natureza que geram amor e espanto em nós; e revelando de que maneira elas operam para produzir essas paixões. As palavras deviam apenas ser consideradas até onde quanto a revelarem em consequência de quais princípios elas eram capazes de ser representativas dessas coisas naturais, e através de quais poderes elas eram capazes de nos afetar tão fortemente quanto as coisas que elas representam e, algumas vezes, muito mais fortemente.


ORIGINAL:

BURKE, E. A Philosophical Inquiry into the Origin of our Ideas of the Sublime and Beautiful. IN:______. The Works of the Right Honorable Edmund Burke. Volume I. Boston: Little, Brown, and Company, 1877. pp. 246-262. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofrighthono01burk/page/246/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Perspectivas sobre o Humanismo Digital – É simples, é Complicado – Último Ensaio

Perspectivas sobre o Humanismo Digital


Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital


Parte XI Realizando o Humanismo Digital


Ensaio anterior


[335]É simples, é Complicado


por Julia Neidhardt, Hannes Werthner e Stefan Woltran


Resumo A história não é um processo estritamente linear; o nosso progresso é algo cheio de contradições. Isso é o que nós temos de ter em mente para encontrar respostas para os desafios urgentes relacionados a, e até causados por, a transformação digital. Neste capítulo, nós refletimos sobre os aspectos contraditórios do humanismo digital, o qual é uma abordagem para fomentar o controle e design da infraestrutura digital em concordância com valores e necessidades humanas. Soluções aparentemente simples revelam-se ser altamente complexas quando as examinando mais de perto. Focando-nos em alguns aspectos-chave como exemplos (não exaustivos) do dilema simples/complicado, nós argumentamos que, no fim, respostas políticas são requeridas.


A história é um processo dialético. Isso também é verdadeiro para a transformação digital em andamento (provavelmente muito melhor denominada de informatização, visto que ela está informatizando quase tudo). Muito desse desenvolvimento já aconteceu no passado, despercebido pela mídia de massa e pela maior parte dos tomadores de decisão na política e indústria. Hoje em dia, essa transformação aparece na superfície, deixando muitos com a impressão de um automatismo, de um processo sem controle humano, guiado por algumas forças “externas.” É por isso que a noção de humanismo digital é tão importante. Como uma abordagem para neutralizar efeitos negativos da transformação digital, ele objetiva estimular o controle e o design da infraestrutura digital de acordo com valores e necessidades humanas. Enquanto numerosas pessoas apoiam (ou, pelo menos, simpatizam com) esses fins e objetivos gerais do humanismo digital, há questões sutis quando olhando nos bastidores do que precisam ser discutidas e resolvidas. Nós deveríamos resistir à tentação das soluções triviais, as quais não prevalecerão em uma discussão séria.

O nosso progresso como sociedade é cheio de contradições e, algumas vezes, até aponta para trás. Tendo em mente tais contradições e que os processos históricos não seguem diretamente para frente linearmente, nós tentamos abordar alguns desses aspectos contraditórios do humanismo digital examinado o par entrelaçado “simples” [336]e “complicado.” O que parece ser simples é complicado, e vice-versa. Esse capítulo também reflete uma discussão entre nós, os autores: o nosso debate algumas vezes controverso pode servir como um projeto (blueprint) para um futuro processo “dialético” para encontrar concordâncias em assuntos complicados, também em um debate público. A lista seguinte, de maneira alguma exaustiva, representa algumas das questões “simples/complicadas” que o humanismo digital tem de tratar:

  • Interdisciplinaridade. O impacto da digitalização sobre as nossas vidas é óbvio, e todo mundo sente o seu poder (tanto positivo quanto negativo). Fenômenos negativos a serem tratados incluem a monopolização da Web, questões relacionadas à automatização do trabalho, problemas com respeito à IA e tomada de decisão, a emergência de bolhas de filtro, a difusão de notícias falsas, a perda de privacidade e a prevalência de vigilância digital. Embora todos esses sejam aspectos do mesmo processo disruptivo, eles manifestam-se muito diferentemente. Consequentemente, um amplo espectro de desafios tem de ser tratado. A conclusão óbvia e simples é: a interdisciplinaridade é necessária para os enfrentar, para entender a presença complicada e dar forma ao futuro digital.

    Mas é assim realmente tão simples, visto que a interdisciplinaridade traz os seus próprios desafios? Por exemplo, é muito difícil obter a mesma terminologia com os mesmos significados. Além disso, a maneira como o panorama de pesquisa está organizado ainda dificulta a interdisciplinaridade. Pesquisadores interdisciplinares (especialmente os mais jovens) frequentemente não obtêm financiamento, uma vez que eles tocam comunidades diferentes, mas não são suficientemente especializados para estarem nos seus centros, o que frequentemente conduz a análises negativas; assim, como fomentar a interdisciplinaridade para o humanismo digital em nível de conteúdo, de método e institucional? Ainda mais, como a informática – como uma disciplina-chave – frequentemente chega com uma atitude para “resolver problemas,” mas, ao mesmo tempo, nem sempre vendo o lado dos efeitos e dos impactos de longo prazo do seu trabalho. Cientistas da computação não podem ou nem mesmo deveriam ser a única força motora. Mas se assim, o papel da informática e dos seus métodos necessita de alguma clarificação. Para um fundamento sólido de humanismo digital, trocas através das várias disciplinas são necessárias por todo o processo, ou seja, quando realizando análise, quando desenvolvendo novas tecnologias e quando as adotando na prática. Olhando para trás na história, alguém vê que os artefatos criados por cientistas da computação têm impacto similar (se não ainda maior, dada a sua natureza mais universal) ao que o motor a vapor teve na Revolução industrial. Mas não foram os engenheiros quem organizaram os trabalhadores e conceberam medidas de bem-estar social; foi um esforço muito mais amplo, incluindo líderes intelectuais com origens diversas juntos com os trabalhadores e seus sindicatos.

  • Humanos decidem. Como está escrito no manifesto, “Decisões com consequências que têm o potencial para afetar direitos humanos individuais ou coletivos têm de continuar a ser tomadas por humanos” (Werthner et al. 2019). Em um mundo tornando-se mais e mais complicado e diverso, é óbvio que decisões de longo alcance e fundamentais deveriam ser tomadas por humanos. É sobre nós e nossa sociedade – dessa maneira, é nossa responsabilidade, nós somos responsáveis por nós mesmos. Isso parece ser um princípio simples.

    [337]Contudo, isso pode ser um pouco mais complicado; pesquisa empírica em psicologia e tomada de decisão humana mostra (ver Kahnemann 2011 ou Meehl 1986) que algoritmos estatísticos bastante simples (por exemplo, modelos de regressão múltipla) parecem superar humanos, mesmo os especialistas no respectivo campo de estudo, em particular quando decisões de longo prazo devem ser tomadas. Nós humanos tendemos a construir modelos causais do mundo, como uma “simplificação” para ser capazes de entender o mundo. Esse é o caso mesmo ou especialmente em casos complicados onde a aleatoriedade desempenha um papel importante. Adicionalmente, parâmetros não observados ou não considerados podem influenciar decisões humanas.1 Assim, a questão não parece ser um nem nem (either or nor), mas antes como e quando combinar humanos e máquinas – complicados!

  • TI para o bem. O humanismo digital não apenas tenta eliminar as “desvantagens das tecnologias de informação e comunicação, mas encorajar a inovação centrada no humano” (Werthener et al. 2019); o seu foco também está na criação de um mundo melhor no qual viver, para contribuir para uma sociedade melhor. Em essência, é simples quando tomando como exemplo a crise do Corona, onde a informatização tem mostrado o seu potencial positivo (tanto na pesquisa quanto na possibilitação de um funcionamento ulterior da nossa sociedade). E quanto alguém examina os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (ODS – https://sdgs.un.org/goals), alguém pode perceber que eles apenas podem ser alcançados através de pesquisa apropriada em TI e em sua aplicação.

    Mas, novamente, a realidade é um pouco mais complicada. Desde os anos de 1980, a desigualdade de renda tem aumentado em praticamente todas as principais economias avançadas, e esse é o período de contínua digitalização.2 Mas não apenas a fenda no interior da sociedade alargou-se3 - seguindo as “regras” da economia de plataforma em rede com os seu princípio de que os vencedores levam tudo (winners take it all) – também há uma crescente fenda de mercado entre companhias. Por exemplo, hoje em dia, as primeiras sete companhias mais valorizadas em bolsas de valores são companhias de plataforma de TI; de volta em 2013, apenas duas delas estavam entre as 10 no topo. Adicionalmente, o crescimento de produtividade tem desacelerado, onde alguém teria esperado um crescimento substancial, como previsto por várias companhias de relações públicas no campo da TI. Dessa forma, também o bolo de riqueza a ser distribuída não cresce para “apaziguar” a maioria da população.4 É difícil isolar as causas desse desenvolvimento socioeconômico, mas, certamente, a tecnologia desempenha um papel crucial. Assim, isso é complicado, na análise e também na descoberta de respostas tecnológicas e políticas adequadas.

  • [338]Tecnologia ética. Estando ciente do impacto dos nossos artefatos, nós reconhecemos a necessidade de desenvolver nova tecnologia ao longo de diretrizes éticas. Departamentos de informática ao redor do mundo têm incluído a ética em seus currículos, quer como cursos autônomos ou embutidos em assuntos técnicos específicos. Também a indústria tem acompanhado; algumas companhias até oferecem ferramentas específicas, e associações tais como a IEEE fornecem diretrizes para o design ético de sistemas.5 Assim, se nós seguirmos essas diretrizes, oferecermos cursos e comportarmo-nos eticamente, então isso funcionará, pelo menos a longo prazo. Isso é simples.

    Mas, novamente, a realidade pode ser um pouco mais complicada. A maior parte da pesquisa em IA, especialmente com respeito a aprendizagem de máquina, é realizada por grandes companhias de plataformas de TI. Essas companhias tentam se antecipar a regulação “demais” e argumentam em favor de autorregulação. Contudo, essa pesquisa é realmente independente, não é apenas “lavagem de ética (ethics washing),” como observado por Wagner (2018)? Casos como o Google demitindo Timnit Gebru e Margaret Mitchell fazem soar o sino de alarme.6 Mas isso não é apenas sobre independência de pesquisa, é também sobre reprodutibilidade de resultados, transparência de financiamento ou a estrutura de governança de pesquisa (ver Ebell et al. 2021). E há outros problemas sutis, nós argumentamos em favor de igualdade (fairness) em recomendação ou resultados de busca. Mas como definir igualdade, é com respeito ao provedor de informação ou produtos, é com respeito a leitores ou consumidores (e qual subgrupo), ou nós temos de definir igualdade com respeito a algum critério social geral? Um passo a mais: assumamos que todas essas questões sejam resolvidas e todos nos comportemos de acordo com o imperativo categórico de Kant; então, nós podemos garantir comportamento ético geral ou um bom resultado? Assumindo-se o conceito de coevolução tecnologia-humano, nós temos um processo de “otimização” evolucionária, o qual pode levar a um ótimo local mas não a um global (por exemplo, impedimento de estruturas automaticamente monopolistas). Ainda mais, essa evolução “não evolui e si mesma,” mas é – como em nosso contexto – governada pelas relações desiguais de poder econômicas e sociais existentes. Assim, a ética sozinha pode não ser suficiente.

  • É sobre a economia.7 A transformação digital como um processo técnico-socioeconômico tem de ser colocada em um contexto histórico. Alguém poderia aplicar a teoria econômica contemporânea para entender o que está acontecendo (a “mão invisível” de acordo com Adam Smith, ou seja, seguindo seu interesse pessoal consumidores e firmas criam uma alocação eficiente de recursos para o todo da sociedade). Contudo, o mundo econômico têm sido substancialmente mudado pela transformação digital. O valor do trabalho está no processo de ser reduzido pela automatização crescente e uma possível renda básica incondicional. Essas são simples observações, mas quais são as implicações? Qual é, em última instância, o papel dos humanos no processo de produção? [339]Ou mesmo, qual é o valor de uma companhia? Tudo isso ainda pode ser apreendido e entendido por teorias tradicionais?

    Novamente, isso é complicado, visto que os dados parecem tornar-se a característica mais distinta com a qual as pessoas podem contribuir (pelo menos, na Web) neste novo mundo. Aparentemente, é cada vez menos o excedente (surplus)(“Mehrwert”) gerado por humanos no processo de trabalho que é relevante, mas antes o valor adicionado pelo fluxo sem fim de dados, ou seja, seus traços comportamentais na Web. Esses dados são usados para desenvolver, treinar e otimizar serviços dirigidos por IA. Dessa forma, os usuários estão permanentemente realizando trabalho não pago. Portanto, um usuário é todos os três, um consumidor, um produtor e um recurso, ao mesmo tempo (Butollo e Nuss 2019). Além disso, “em vez de ter um mercado transparente no qual os preços postados levam a descoberta de valor, nós temos um mercado opaco no qual os consumidores suportam companhias de Internet via, essencialmente, um imposto invisível” (Vardi 2018). Tudo isso está relacionado ao papel central de plataformas online. Contudo, a investigação do seu domínio tecnológico e os desequilíbrios resultantes de poder pode requerer uma perspectiva analítica em rede, integrando informática, estatística e ciência política. Mas tais abordagens novas para entender as novas regras do jogo econômico e os mecanismos que conduzem a revolução digital dirigida por dados são complicadas. Contudo, até onde nós conhecemos, não há método aceito para mensurar o calor da economia dos dados, ou dos dados mesmos. Dados são o centro desse desenvolvimento e até são chamados por vários observadores de as “pepitas de ouro (gold nugget)” de hoje. Enquanto que valoração externa é difícil, as grandes plataformas online estão cientes da situação e estão investindo pesadamente. Nós necessitamos de pessoas criativas, com olhos de diferentes disciplinas, para conceberem intuições iluminadoras adicionais – tanto metodológicas quanto práticas. Lembre-se mais uma vez da Revolução Industrial: o entendimento do motor a vapor não resulta imediatamente na Critique of Political Economy de Marx.

  • E é sobre política. Já é conhecimento cotidiano que a informática continuará a causar mudanças profundas. Tudo isso parece ser um automatismo, até como uma força da natureza. Contudo, nós nem pensamos que haja um ser superior que seja responsável, nem, em uma mentalidade similar, que os desenvolvimentos seguem estritamente um “determinismo histórico.” Se nós, as pessoas, deveríamos ser a força motora, a abordagem simples seria que todas as pessoas participassem em decisões que dessem forma ao nosso futuro, seja via eleições democráticas ou via iniciativas participativas.

    Contudo, na prática, experiências são contraditórias e, dessa maneira, complicadas. Um exemplo: embora fossem as mídias sociais que alegaram estabelecer as bases para processos participativos,8 os anos recentes têm mostrado que o efeito delas está frequente e suficientemente indo na direção oposta e abastece a perda de confiança em elaboradores de política (e, dessa maneira, na democracia, a longo prazo). Adicionalmente, os elaborados de política parecem estar, pelo menos algumas vezes, sem poder contra os automatismos de mercado, os quais, por sua vez, levam à tendência de deixar as pessoas votarem em “homens fortes.” Hoje em dia, são as plataformas mesmas que tomam decisões inerentemente políticas quando, por exemplo, banem indivíduos ou grupos inteiros de opinião. Em conclusão, com a visão simplista de que a Internet [340]fomentará participação, nós terminamos em uma situação complexa que deslocou o poder das pessoas para atores globais que tomam decisões opacas. E esses quase monopolistas não apenas administram as plataformas globais “visíveis” mas, nos fundos, construíram uma infraestrutura crítica para o funcionamento da economia inteira (serviço de nuvem, serviços de aprendizagem de máquina, etc.). Alguma coisa tem de ser feita, essa é a requisição simples. Mas as opções disponíveis são todas difíceis: por exemplo, construir infraestruturas próprias (por exemplo, europeias), ou regulações, ou até a nacionalização dessas companhias. Cada uma dessas alternativas levanta questões complicadas: isso deveria ocorrer em uma escala global ou nacional ou regional? A respeito da regulação, o que deveria ser tratado, a inteira pilha de tecnologia ou apenas a camada superior de software? A respeito da nacionalização, quem mesmo teria o poder para fazer isso? Ou quem deveria operar e controlar essas infraestruturas? Não haverá respostas simples à frente, mas discussões longas e complicadas em uma escala global, as quais, frequentemente, são devastadoramente inefetivas. Como um projeto (blueprint) nós mencionamos a discussão de um Taxa de Tobin (Tobin-Tax) como uma lição aprendida a partir da crise de 2008, e que não se materializou em qualquer forma depois de 13 anos de debate.

  • Nós como acadêmicos. Retornando ao nosso papel como acadêmicos, à primeira vista, ele parece simples: especificamente, nas disciplinas técnicas nós tentamos resolver questões abertas, testar novas hipóteses, encontrar novos modelos para descrever o mundo, etc. Nossos artigos são analisados por colegas e nós apresentamos nossos resultados para a comunidade, em jornais e conferências. E, em alguns casos raros, esses resultados encontram seu caminho para o mundo real, tornando-o, afortunadamente e algumas vezes, um lugar melhor.

    Claramente a vida não é tão simples assim; nós estamos cientes de todos os efeitos das nossas contribuições? Nós temos pensado sobre a nossa responsabilidade, como formulada por Popper (1971)? Soluções técnicas científicas não são sempre para o melhor; algumas vezes essas soluções e artefatos até pioram a situação. Adicionalmente, essas soluções dependem do contexto e podem refletir estruturas e relações correntes. Quando alegações normativas entram em jogo, as coisas imediatamente tornam-se mais complicadas, e normas podem ser vistas como conflitando com a liberdade de pesquisa. Especialmente em tecnologia, cientistas podem ser relutantes, visto que pelo menos alguns frequentemente percebem suas atividades de pesquisa como separadas de valores e normas sociais. Além disso, a crise da COVID trouxe a ambígua relação entre política, ciência e pesquisa para a agenda mais uma vez, demonstrando que nós precisamos estar cientes das armadilhas e consequências quando determinado a relação delas (Habermas 1970). Nós, como pesquisadores, temos de comunicar que há dois lados da ciência, uma “ciência pronta (ready-made science)” e uma “ciência-em-criação (science-in-the-making)” (ver Denning e Johnson 2021 ou Latour 1987). A ciência também é um processo, começando com o esforço com o que nós temos de conhecer, na direção de teorias e modelos, ou seja, ciência estabelecida (settled science). Dessa maneira, em certas situações, nós não podemos fornecer respostas 100% certas, e isso tem de ser comunicado ao público, aos políticos. Um aspecto relacionado é o desenvolvimento rápido da tecnologia, constantemente (re)formando o nosso mundo, o que assusta as pessoas e cada vez mais leva à crítica da tecnologia; algumas vezes é difícil confiar no progresso tecnológico. Como um exemplo, conforme a transformação digital [341]leva a automatização e reorganização do trabalho, certos empregos desaparecerão, o que, por sua vez, levanta uma reserva intrínseca contra a tecnologia moderna (a despeito disso, tem de ser enfatizado que também poderia ser uma benção para a sociedade como um todo se certos trabalhos desaparecessem). A questão complicada é como gerenciar esse processo, com uma perspectiva social ou de mercado, apenas.

Como outros processos socioeconômicos ou sociotécnico-econômicos, a transformação digital é um empreendimento dialético, cheio de contradições, gerando questões simples e complicadas frequentemente sem soluções fáceis. Alguém necessita entender a tecnologia para construir uma infraestrutura técnica para o humano e a sociedade, mas, ao mesmo tempo, esse objetivo só é alcançável se há um amplo apoio a partir das pessoas Intuições científicas têm de ser comunicadas e a participação é requerida (“Ciência Cidadã (Citizen Science)”). As pessoas têm de entender o poder que elas (ainda) têm nesta nova sociedade, onde as regras fundamentais estão sob mudança, mas o conhecimento básico sobre essas questões frequentemente é severamente deficiente. Como um exemplo, também a crise da COVID mostrou que questões de privacidade frequentemente são levantadas de maneiras estranhas: nós temos visto imensas reservas contra aplicativos rastreadores de contato, enquanto que, ao mesmo tempo, as pessoas marcam suas consultas de vacinação em seus stories do Facebook.

O humanismo digital não é apenas sobre pesquisa fundamental e aplicada, onde disciplinas diferentes têm de cooperar, mas é também sobre tipos diferentes de atividade que têm de ser integradas, desde pesquisa até inovação, educação, instruções políticas, e comunicação com o público. Tão simples ou complicado como possa ser, são necessários caminhos adiante e soluções democráticas. Ou, para colocar simplesmente: no fim, questões tecnológicas necessitam de respostas políticas.


Referências


Butollo, F., e Nuss, S. (2019) Marx und die Roboter. Vernetzte Produktion, künstliche Intelligenz

und lebendige Arbeit. Dietz Berlin (em alemão).

Danziger, S., Levav, J., & Avnaim-Pesso, L. (2011) Extraneous factors in judicial decisions. Proceedings of the National Academy of Sciences, 108(17), 6889-6892.

Denning, P., and Johnson, J. (2021) Science Is Not Another Opinion. Communications of the ACM.

3 (64)

Ebell, C., Baeza-Yates, R., Benjamins, R. et al. (2021) Towards intellectual freedom in an AI Ethics

Global Community. AI Ethics (2021). https://doi.org/10.1007/s43681-021-00052-5

Habermas, J. (1970) “Technology and Science as ‘Ideology.’” In Toward a Rational Society: Student Protest, Science, and Politics, trad. Jeremy J. Shapiro. Boston: Beacon Press. (Artigo original: Habermas, J. (1968) Technik und Wissenschaft als “Ideologie”. Man and World 1 (4):483-523.)

Kahneman, D. (2011) Thinking, fast and slow. London: Penguin Books

Latour, B. (1987) Science in Action: How to Follow Scientists and Engineers through Society. Harvard University Press.

Meehl, P. E. (1986) Causes and effects of my disturbing little book. Journal of personality assessment, 50(3), 370-375.

Popper, K. R., (1971) The moral responsibility of the scientist. Bulletin of Peace Proposals, 2(3), 279-283

Vardi, M. (2018) How the hippies destroyed the Internet. Communications of the ACM. 7 (61).

Wagner, B. (2018) Ethics as an escape from regulation. From “ethics-washing” to ethics-shopping?

In: Emre, B., Irina, B., Liisa, J.U.A. (Hg.): Being Pro fi led: Cogitas Ergo Sum. 10 Years of ‘Profiling the European Citizen’. Amsterdam University Press, Amsterdam, pp. 84 – 88.

Werthner, H. et al. (2019) The Vienna Manifesto on Digital Humanism. https://dighum.ec.tuwien.ac.at/dighum-manifesto/


ORIGINAL:

NEIDHARDT, J.; WERTHNER, H.; WOLTRAM, S. It Is Simple, It Is Complicated. In: GHEZZI, C. et al. (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p. 335-342. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


1[337]Danzinger et al. (2011) mostra que “decisões judiciais podem ser influenciadas por variáveis estranhas que não deveriam ter influência sobre decisões legais.” Quando examinando decisões de conselhos de liberdade condicional (parole boards), os autores descobriram que a probabilidade de uma decisão favorável é maior no começo do dia de trabalho, ou antes do intervalo para comida do que depois; assim, ou antes ou depois de um intervalo do caso (break matter).

3Há até uma nova fonte de desigualdade que brota de viés nos dados, uma questão que nós não discutiremos adicionalmente aqui.

4Como um resultado, examine as respectivas eleições e o sucesso da direita populista.

5[338]IEEE P7000 – IEEE Draft Model Process for Addressing Ethical Concerns During System Design. https://standards.ieee.org/project/7000.html

7Nós omitimos “estúpido,” para não ofender o leitor.

8[339]De fato, as mídias sociais contribuíram para amplos movimentos políticos, tais como a Primavera Árabe.

Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo - Parte IV - Seções XXI-XXV

Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo


Por Edmund Burke


Seção anterior


Parte IV


[235]Seção XXI Doçura, sua Natureza


Nem é apenas no toque (touch) que corpos lisos (smooth bodies) causam prazer positivo por relaxamento. No cheiro (smell) e gosto (taste), nós encontramos todas as coisas de acordo com eles, e que são comumente chamadas de doces (sweet), serem de uma natureza lisa, e que evidentemente todas elas tendem a relaxar seus respectivos sensórios. Consideremos primeiro o gosto. Uma vez que é mais fácil investigar a propriedade de líquidos, e uma vez que todas as coisas parecem carecer de um veículo fluido para as tornar de qualquer maneira saboreadas (tasted), eu pretendo antes considerar as partes líquidas em vez das sólidas da nossa comida. Os veículos de todos os gostos são água e óleo. E o que determina o gosto é algum sal, o qual afeta variadamente de acordo com sua natureza, ou sua maneira de ser combinada com outras coisas. Água e óleo, simplesmente considerados, são capazes de conceder algum prazer ao gosto. A água, quando simples, é insípida, inodora, sem cor e lisa; ela é considerada, quando não gelada (not cold), ser uma grande resolvedora de espasmos e lubrificadora das fibras; isso provavelmente pode se deve à sua lisura (smoothness). Pois, como a fluidez (fluidity) depende, de acordo com a opinião mais geral, da rotundidade (roundness), lisura e coesão fraca das partes componentes de qualquer corpo, e como a água age meramente como um simples fluido, segue-se que a causa da sua fluidez, da mesma maneira é a causa da sua qualidade relaxante, a saber, a lisura e textura escorregaria (slippery texture) das suas partes. O outro veículo dos gostos é o óleo. Também esse, quando simples, é insípido, inodoro, sem cor e liso ao toque e gosto. Ele é mais liso do que a água e, em muitos casos, ainda mais relaxante. O óleo é em algum grau agradável para o olho, [236]o toque e o gosto, insípido como ele é. A água não é tão graciosa; o que eu não sei sobre qual princípio explicar, senão que a água não seja tão suave (soft) e lisa (smooth). Suponha que a este óleo ou a esta água foi adicionado uma certa quantidade de um sal específico, o qual teve um poder para colocar papilas nervosas da língua em um movimento vibratório gentil; como se supõem açúcar dissolvido nisso. A lisura do óleo e o poder vibratório do sal causam a sensação (sense) que nós chamamos de doçura. Em todos os corpos doces, o açúcar, ou uma substância muito pouco diferente do açúcar, é constantemente encontrada. Toda espécie de sal, examinada pelo microscópio, tem a sua própria forma distinta, regular, invariável. Aquela do salitre (nitre) é oblonga pontuda (pointed oblong); aquela do sal marinho (sea-salt), um cubo exato; aquela do açúcar, um globo perfeito. Se você tiver testado como corpos globulares, como as bolinhas de gude (marbles) com as quais os meninos se divertem, têm afetado o toque quando elas são roladas para trás e para frentes e umas sobre as outras, você facilmente conceberá como a doçura, a qual consiste em um sal de uma tal natureza, afeta o gosto; pois um único globo (embora um pouco agradável para o sentimento), contudo, pela regularidade de sua forma, e pelo o desvio um pouco súbito demais das suas partes a partir da linha reta, não está nada próximo de agradável ao toque quanto vários globos, onde a mão ergue-se gentilmente para e um cai para outro; e esse prazer é grandemente intensificado se os globos estão em movimento e deslizando uns sobre os outros; pois essa variedade suave evita aquele cansaço (weariness) que, de outra maneira, a disposição uniforme de vários globos produziria. Desse modo, em licores suaves, as partes do veículo fluido, embora muito provavelmente redondas (round), são, contudo, tão minúsculas, quanto a ocultar a figuras das suas partes componentes da investigação mais precisa do microscópio; [237]e consequentemente, sendo tão excessivamente minúsculas, elas têm um tipo de simplicidade plana (flat) para o gosto, assemelhando-se aos efeitos de planos (plain) corpos lisos ao toque; pois se um corpo for composto de partes redondas excessivamente pequenas, e empacotado bem junto, a superfície será tanto para a visão quanto para o toque como se ele fosse quase plano e liso. É claro a partir da revelação de sua figura para o microscópio, que as partículas de açúcar são consideravelmente maiores do que aquelas da água ou do óleo, e, consequentemente, que os efeitos delas a partir de sua rotundidade serão mais distintos e palpáveis para as papilas nervosas daquele delicado órgão da língua; elas induzirão aquela sensação chamada de doçura, a qual, de uma maneira fraca, nós descobrimos nos óleos, e, de uma maneira ainda mais fraca, na água; pois, insípidos como eles são, a água e o óleo são em algum grau doces; e pode ser observado que coisas insípidas de todos os tipos aproximam-se mais da natureza da doçura do que daquela de qualquer outro gosto.


Seção XXII Doçura Relaxante


Nós outros sentidos, nós temos observado que coisas lisas são relaxantes. Agora deveria parecer que coisas doces, as quais são as lisas para o gosto, também são relaxantes. É notável que em algumas linguagens macio (soft) e doce (sweet) são apenas um nome. Doux em francês significa macio e doce. O latim dulcis e o italiano dolce, em muitos casos, têm o mesmo significado duplo. Que coisas doces são geralmente relaxantes, é evidente; porque todas essas, especialmente aquelas que são mais oleosas (oily), tomadas frequentemente, ou em uma grande quantidade, debilitam demais o tom do estômago. [238]Os cheiros doces, os quais comportam uma grande afinidade com gostos doces, relaxam muito notavelmente. O cheiro de flores dispões as pessoas à sonolência (drownsiness); e esse efeito relaxante é ainda mais aparente a partir do prejuízo que as pessoas de nervos fracos recebem a partir do uso delas. Devia valer a pena examinar se os gostos desse tipo, os doces, são gostos que são causados pelos óleos lisos e um sal relaxante, não são originalmente gostos agradáveis. Para muito, os quais o uso tornou como tal, eles não eram de maneira nenhuma inicialmente agradáveis. A maneira de examinar isso é experimentar o que a natureza originalmente proporcionou para nós, o que ela, indubitavelmente, tornou originariamente agradável; e analisar essa provisão (provision). Leite (Milk) é o primeiro suporte da nossa infância. As partes componentes dele são água, óleo e um tipo de sal muito doce, chamado de açúcar do leite. Todos esses, quando misturados, têm uma grande lisura para o gosto, e uma qualidade relaxante para a pele. A próxima coisa que crianças desejam são frutas, e frutas aquelas que são principalmente doces; e todos sabem que a doçura da fruta é causada por uma óleo sútil, e um sal tal como aquele mencionado na última seção. Subsequentemente, costume, hábito, o desejo de novidade, e mil outras causas, confundiram, adulteraram e mudaram os nossos paladares (palates), de modo que não mais podemos raciocinar com qualquer satisfação sobre eles. Antes de nós deixarmos este artigo, nós temos de observar que coisas lisas são, como tais, agradáveis ao gosto, e são consideradas de uma qualidade relaxante; assim, por outro lado, coisas que são consideradas por experiência serem de uma qualidade fortalecedora (strengthening), e aptas para fortalecerem as fibras, são, quase universalmente, rugosas (rough) e pungentes para o gosto e, em muitos caso, rugosas até para o toque. Nós frequentemente aplicamos a qualidade da doçura, metaforicamente, a objetos visuais. [239]Para melhor levarmos a cabo essa analogia notável dos sentidos, nós aqui podemos de doçura a beleza do gosto.


Seção XXIII Variação, porque Bela


Outra propriedade principal dos objetos belos é que a linha das suas partes está continuamente variando sua direção; mas ela varia por um desvio muito insensível; ela nunca a varia tão rapidamente quanto a surpreender, ou, através da agudeza do ângulo, causar qualquer contração ou convulsão do nervo óptico. Nada continuado por muito da mesma maneira, nada variado muito subitamente, pode ser belo; porque ambos são opostos àquele relaxamento que é o efeito característico da beleza. É dessa maneira para todos os sentidos. Um movimento em uma linha reta é aquela maneira de se mover próxima a uma descida muito gentil, na qual nós encontramos a menor resistência; contudo, não é aquela maneira de se mover que é próxima de uma descida que nos cansa menos. O descanso (rest) certamente tende a relaxar: contudo, há uma espécie de movimento que relaxa mais do que o descanso; um movimento oscilatório gentil, um subir (rising) e descer (falling). Balançar (Rocking) adormece melhor crianças do que o descanso absoluto; de fato, escassamente há qualquer coisa, em qualquer idade, que dê mais prazer do que ser gentilmente levando (lifted up) e baixado (down); a maneira de brincar que as cuidadoras (nurses) usam com suas crianças, e a pesagem (weighing) e o balanço (swinging) usados por elas mesmas depois como um divertimento (amusement) favorito, evidenciam isso muito suficientemente. A maior parte das pessoas tem de ter observado o tipo de sensação que elas têm tido ao serem movidas rapidamente dentro de uma carruagem (coach) agradável sobre uma grama lisa, com [240]descidas e declives graduais. Isso dará uma ideia melhor do belo, e indicará a sua causa provável, melhor do que quase qualquer outra coisa. Pelo contrário, quando alguém é apressado através de uma estrada acidentada, rochosa, quebrada, a dor sentida por essas desigualdades súbitas, revela porque visões, sentimentos e sons similares são tão contrários à beleza; e com respeito ao sentimento, é exatamente o mesmo em seu efeito, ou quase aproximadamente o mesmo, se, por exemplo, eu mover minha mão ao longo da superfície de um corpo de uma certa forma, ou se tal corpo é movido ao longo da minha mão. Mas para esclarecer essa analogia dos sentidos com o olho; se um corpo apresentado àquele sentido tem uma superfície tão ondulante que os raios de luz refletidos a partir dela estão um desvio insensível contínuo do mais forte para o mais fraco (o que é sempre o caso em uma superfície gradualmente desigual), ela deve ser exatamente similar em seus efeitos sobre o olho e o toque; sobre um dos quais ela opera diretamente, sobre o outro, indiretamente. E esse corpo será belo se as linhas que compõem a sua superfície não forem contínuas, exatamente variadas, de uma maneira que possa cansar ou dissipar a atenção. A variação mesma tem de ser continuamente variada.


Seção XXIV Relativo à Pequeneza


Para evitar a mesmidade que pode surgir a partir da repetição frequente demais dos mesmos raciocínios, e de ilustrações da mesma natureza, eu não entrarei muito minuciosamente em cada particular que diz respeito à beleza, e que é encontrado na disposição da sua quantidade, ou na sua quantidade mesma. Falando-se da magnitude de [241]corpos, há uma grande incerteza, porque as ideias de grande e pequeno são termos quase inteiramente relativos às espécies dos objetos, as quais são infinitas. É verdadeiro que uma vez determinada a espécie de qualquer objeto, e as dimensões comuns aos indivíduos dessa espécie, nós podemos observar alguns que excedem, e alguns que são insuficientes em relação, o padrão ordinário: aqueles que o excedem muito, são, por esse excesso, com a condição de que a espécie mesma não seja muito pequena, antes grandes e terríveis do que belo; mas, como no mundo animal, e, em uma boa medida da mesma maneira no mundo vegetal, as qualidades que constituem a beleza possivelmente podem estar unidas a coisas de grandes dimensões; quando ela estão unidas dessa maneira, elas constituem uma espécie um pouco diferente tanto do sublime quanto do belo, a qual eu chamei antes de fino (fine); mas esse tipo, eu imagino, não tem um poder tão grande sobre as paixões, quer como corpos vastos, que são dotados com as qualidades correspondentes ao sublime; quer como as qualidades da beleza têm quando unidas em um objeto pequeno. A afeição produzida por corpos grandes adornados com os despojos da beleza é uma tensão continuamente aliviada; a qual se aproxima da natureza da mediocridade. Mas, se eu devesse dizer como me considero afetado em tais ocasiões, eu deveria deveria dizer que o sublime sofre menos ao estar unido a algumas das qualidades da beleza, do que a beleza o faz ao ser conjugado à grandeza de quantidade, ou a quaisquer outras qualidades do sublime. Há alguma coisa tão predominante (overruling) no que quer nos inspira com admiração (awe), em todas as coisas que pertencem muito remotamente ao terror, que nada mais pode se aguentar na presença delas. Ali jazem as qualidade da beleza ou mortas ou inoperantes, ou, no máximo, exercidas para acalmar o rigor e a severidade (sternness) do terror, o qual é o acompanhante natural da [242]grandeza. Além da grandeza extraordinária em cada espécie, o oposto disso, o anânico (dwarfish) e o diminutivo, deveriam ser considerados. A pequeneza (littleness), meramente como tal, não tem nada contrário à ideia de beleza. O beija-flor (humming-bird), tanto em forma quanto em coloração, não se rende a ninguém da espécie alada, da qual ele é o menor; e talvez a sua beleza seja intensificada pela sua pequeneza (smallness). Mas há animais que, quando eles são extremamente pequenos, raramente (se alguma vez) são belos. Há um tamanho anânico de homens e mulheres, o qual é quase constantemente tão bruto (gross) e massivo em comparação com a sua altura (height) que eles nos apresentam uma imagem muito degradável. Mas devesse um homem ser encontrado não acima de dois ou três pés de altura, supondo que uma tal pessoa tivesse todas as partes do corpo dela de uma delicadeza adequada a tal tamanho, e, de outra maneira, dotado com as qualidades comuns de outros corpos belos, eu estou bastante bem convencido de que uma pessoa dessa estatura poderia ser considerada como bela; poderia ser o objeto de amor; poder conceder-nos ideias muito agradáveis ao vê-lo. A única coisa que possivelmente poderia interpor-se para restringir o nosso prazer é que tais criaturas, de qualquer maneira formadas, são incomuns e, portanto, frequentemente consideradas como alguma coisa monstruosa. O grande e o gigante, embora muito compatível com o sublime, é contrário ao belo. É impossível supor um gigante o objeto de amor. Quanto nós deixamos a nossa imaginação solta em romance, as ideias que nós naturalmente anexamos àquele tamanho são aquelas de tirania, crueldade, injustiça, e toda coisa horrível e abominável. Nós retratamos o gigante devastando o país, pilhando o viajante inocente e, depois, devorando carne meio-viva; tais são Polifemo, Caco e outros, quem fazem uma figura tão grande em romances e [243]poemas heroicos. O evento que nós acompanhamos com a maior satisfação é a sua derrota e morte. Eu não me lembro, em toda a multidão de mortes com a qual a Ilíada está cheia, que a queda de qualquer homem, notável por sua grande estatura e força, tocou-nos com piedade; nem parece que o autor, tão conhecedor da natureza humana, alguma pretendeu que devesse. É Simoisius, na suave floração da juventude, arrancado dos seus pais, quem treme por uma coragem tão mal adequada para sua força; é outro apressado pela guerras dos novos abraços da sua noiva, jovem e bela, e um novato no campo de batalha, quem nos comove pelo seu destino prematuro. Aquiles, a despeito das muitas qualidades de beleza que Homero concedeu a sua forma exterior, e das muitas grandes virtudes com as quais ele adornou o caráter dele, nunca pode nos fazer amá-lo. Pode ser observado que Homero concedeu aos troianos, cujo destino ele tinha projetado para excitar a nossa compaixão, infinitamente mais das virtudes agradáveis, sociais do que ele distribuiu entre os gregos. Com respeito aos troianos, a paixão que ele escolhe excitar é a piedade (pity); a piedade é uma paixão fundada no amor; e essas virtudes menores (lesser) e, se eu posso dizer, domésticas, são certamente as mais agradáveis. Mas ele tornou os gregos muito superiores a eles nas virtudes políticas e militares. Os conselhos de Príamos são fracos, as armas de Heitor, comparativamente débeis; sua coragem, muito abaixo daquela de Aquiles. Contudo, nós amamos Príamo mais do que Agamenon, e Heitor mais do que o seu conquistador Aquiles. A admiração é a paixão que Homero excitaria em favor dos gregos, e ele fez isso ao conceder-lhes virtudes que têm pouco a ver com amor. Essa breve digressão talvez não esteja inteiramente além do nosso propósito, onde a nossa ocupação é mostrar que os objetos de [244]grandes dimensões são incompatíveis com a beleza, e mais incompatíveis conforme eles são grandes; ao passo que o pequeno, se alguma fez ele é falho quanto à beleza, essa falha não deve ser atribuída ao seu tamanho.


Seção XXV Da Cor


Com respeito à cor, a investigação é quase infinita; mas eu concebo que os princípios estabelecidos no começo desta parte são suficientes para explicar os efeitos de todas, assim como os efeitos agradáveis de corpos transparentes, quer sólidos, quer líquidos. Suponha que eu olhe para uma garrafa de licor turvo, ou de uma cor azul ou vermelha; os raios azuis e vermelhos não podem passar claramente para o olho, mas são súbita e desigualmente parados pela intervenção de pequenos corpos opacos, o que, sem preparação, muda a ideia, e muda-a também em um desacordo com a sua própria natureza, de acordo com os princípios estabelecidos na seção 24. Mas quando o raio passa sem tal oposição através do vidro ou licor, quando o vidro ou licor são bastante transparentes, a luz é algumas vezes atenuada na passagem, o que a torna mais agradável mesmo que em relação à luz; e o licor refletindo todos os raios da sua cor apropriada uniformemente, e tem um tal efeito sobre o olho, como corpos opacos lisos têm sobre o olho e o toque. De modo que o prazer aqui é composto da suavidade (softness) da luz transmitida, e da uniformidade (evenness) da refletida. Esse prazer pode ser intensificado pelos princípios comuns em outras coisas, se a forma do vidro que contém o licor transparente for tão judiciosamente variada, quanto a apresentar a cor gradual e [245]intercambiavelmente, enfraquecida e fortalecida com toda a variedade de julgamento em assuntos dessa natureza deverá sugerir. Em uma análise de tudo que tem sido dito dos efeitos, assim como das causas de ambos, parecerá que o sublime e o belo são construídos sobre princípios muito diferentes, e que as afeições deles são muito diferentes: o sublime (great) tem o terror como sua base, o qual, quando é modificado, causa aquela emoção na mente que eu tenho chamado de espanto (astonishment); o belo está fundando no mero prazer positivo, e excita na alma aquele sentimento que é chamado de amor. As causas dele foram tornadas o tema desta quarta parte.


Próxima seção


ORIGINAL:

BURKE, E. A Philosophical Inquiry into the Origin of our Ideas of the Sublime and Beautiful. IN:______. The Works of the Right Honorable Edmund Burke. Volume I. Boston: Little, Brown, and Company, 1877. pp. 235-245. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofrighthono01burk/page/235/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0