Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo
Por Edmund Burke
Parte V
[246]Seção I Das Palavras
Os objetos naturais afetam-nos através das leis daquela conexão que a Providência estabeleceu entre certos movimentos e configurações dos corpos, e certos sentimentos consequentes em nossa mente. A pintura afeta da mesma maneira, mas com o prazer de imitação superadicionado. A arquitetura afeta através das leis da natureza e da razão; a partir dessa segunda resultam as regras da proporção, as quais fazem uma obra ser elogiada ou censurada, no todo ou em alguma parte, quando o fim para o qual ela é projetada é ou não apropriamente satisfeito. Mas quanto às palavras; elas parecem afetar-nos de uma maneira muito diferente daquela pela qual nós somos afetado por objetos naturais, ou pela pintura ou arquitetura; todavia, as palavras têm uma parte considerável em excitar as ideias da beleza e do sublime como muitas daquelas, e, algumas vezes, uma muito maior do que qualquer uma delas; portanto, uma investigação da maneira pela qual elas excitam semelhantes emoções está longe de ser desnecessária em um discurso deste tipo.
Seção II Os Efeitos Comuns da Poesia, não através da Geração de Ideias de Coisas
A noção comum do poder da poesia e eloquência, assim como aquela das palavras na [247]conversa ordinária, é que elas afetam a mente gerando nela as ideias daquelas coisas que o costume as escolheu para representar. Para examinar a verdade dessa noção, pode ser necessário observar que as palavras podem ser divididas em três tipos. O primeiro é tal como representa muitas ideias simples unidas por natureza para formar uma composição determinada, como homem, cavalo, árvore, castelo, etc. Essas eu chamo de palavras agregadas. O seguindo é tal que elas representam uma ideia simples de tais composições, e não mais; como vermelho, azul, redondo, círculo e semelhantes. Essas eu chamo de palavras abstratas simples. O terceiro é daquelas que são formadas por uma união, uma união arbitrária de ambas as outras, e das várias relações entre elas em graus maiores ou menores de complexidade; como virtude, honra, persuasão, magistrado e semelhantes. Essas eu chamo de palavras abstratas compostas. Eu estou ciente de que as palavras podem ser classificadas em distinções mais curiosas; mas essas parecem ser naturais, e suficientes para o nosso propósito; e elas estão dispostas naquela ordem na qual elas são comumente ensinadas, e na qual a mente obtém as ideias pelas quais elas são substituídas. Eu deverei começar com o terceiro tipo de palavras; abstratas compostas, tais como virtude, honra, persuasão, docilidade. Dessas eu estou convencido de que, qualquer que seja o poder que elas podem ter sobre as paixões, elas não derivam a partir de nenhuma representação gerada na mente das coisas que elas representam. Como composições, elas não são essências reais, e dificilmente, eu acredito, causem quaisquer ideias reais. Eu acredito que ninguém, imediatamente ao ouvir os sons, virtude, liberdade ou honra, conceba quaisquer noções precisas dos modos particulares de ação e pensamento, junto com as ideias mistas e simples, e a várias relações delas, pelas quais essas [248]palavras são substituídas; tampouco ele tem nenhuma ideia geral composta por elas; pois se ele tivesse, então, algumas daquelas particulares, embora indistintas, talvez, e confusas, poderiam logo chegar a ser percebidas. Mas isso, eu aceito, dificilmente alguma vez é o caso. Pois, coloque a si mesmo para analisar uma dessas palavras, e você tem de reduzir a partir de um conjunto de palavras gerais a outro e, em seguida, as palavras simples e agregadas, em uma série muito mais longa do que inicialmente pode ser imaginada, antes que qualquer ideia emerja à luz, antes que você chegue a descobrir qualquer coisa como os primeiros princípios de tais composições; e quando você fez uma semelhante descoberta das ideias originais, o efeito da composição está completamente perdido. Uma sucessão de pensamento desse tipo é longa demais para ser perseguida nas maneiras ordinárias de conversação; nem, de qualquer maneira, é necessário que ela deva ser. Tais palavras são na verdade meros sons; mas elas são sons que, sendo usados em ocasiões particulares, nas quais nós recebemos algum bem, ou sofremos algum mal; ou vemos outros afetados por algum bem ou mal; ou que nós ouvimos aplicadas a outras coisas ou outros eventos interessantes; e sendo aplicado em uma variedade tão grande de casos, que nós podemos prontamente conhecer pelo hábito a quais coisas elas pertencem, elas produzem na mente, sempre que elas forem subsequentemente mencionadas, efeitos similares àqueles das suas ocasiões. Os sons sendo frequentemente usados sem referência a nenhuma ocasião particular, e ainda portando suas primeiras impressões, finalmente eles perdem completamente a conexão deles com as ocasiões particulares que deram origem a eles; contudo o som, sem nenhuma noção anexada, continua a operar como antes.
[249]Seção III Palavras Gerais antes de Ideias
O sr. Locke de alguma maneira observou, com a sua sagacidade usual, que a maioria das palavras gerais, aquelas pertencentes à virtude e ao vício, bem e mal especialmente, são ensinadas antes que os modos particulares de ação aos quais elas pertencem sejam apresentadas à mente; e com elas, o amor ao primeiro, e a aversão ao segundo; pois as mentes das crianças são tão maleáveis, que uma cuidadora, ou qualquer pessoa ao redor da criança, ao parecer agradada ou desagrada com qualquer coisa, ou mesmo qualquer palavra, pode conceder à disposição da criança um curso similar. Subsequentemente, quando as várias ocorrências na vida chegam a ser aplicadas àquelas palavras, e que aquilo que é agradável frequentemente aparece sob o nome de mal; e o que é desagradável por natureza é chamado de bom e virtuoso; uma estranha confusão de ideias e afeições surgem nas mentes de muitos; e uma aparência de contradição não pequena entre suas noções e suas ações. Há muitos quem amam a virtude e detestam o vício, e isso não a partir de hipocrisia e afetação, quem, não obstante, muito frequentemente, agem mal e perversamente em particulares sem o menor remorso; porque essas ocasiões particulares nunca chegaram à compreensão quando as paixões sobre o lado da virtude eram tão calorosamente afetadas por certas palavras aquecidas pela respiração de outros; e por essa razão é difícil repetir certos conjuntos de palavras, embora inoperantes devido a si mesmos, sem ser de alguma maneira afetado; especialmente em um tom caloroso e comovente de voz acampanha-os, como supõem,
Sábio, valente, generoso, bom e grandioso.
[250]Essas palavras, não tendo aplicação, deveriam ser inoperantes; mas quando palavras comumente sagradas para grandes ocasiões são usadas, nós somos afetados por elas mesmo sem as ocasiões. Quando as palavras que geralmente têm sido aplicadas são combinadas sem nenhuma visão racional, ou de tal maneira que elas não concordam corretamente umas com as outras, o estilo é chamado de bombástico. E ele requer, em várias ocasiões, muito bom senso e experiência para ser protegido contra a força de tal linguagem; pois, quando a propriedade é negligenciada, um número maior dessas palavras comoventes pode ser tomado em serviço, e uma variedade maior pode ser tolerada na combinação delas.
Seção IV O Efeito das Palavras
Se as palavras têm toda a extensão possível de poder, três efeitos surgem na mente do ouvinte. O primeiro é o som; o segundo, a figura (picture), ou a representação da coisa significada pelo som; o terceiro é a afeição da alma produzida por uma ou por ambas dos acima mencionados. Palavras abstratas compostas, das quais nós temos estado falando, (honra, justiça, liberdade e semelhantes,) produzem o primeiro e o último desses efeitos, mas não o segundo. Abstratas simples são usadas para significar alguma única ideia simples sem chamar muita atenção para outras que podem mudar para a acompanhar, como azul, verde, quente, frio e similares; essas são capazes de afetar todos os três propósitos das palavras; como as palavras agregadas, homem, castelo, cavalo, etc, são em um grau ainda mais alto. Mas eu sou da opinião que o efeito mais geral, mesmo dessas palavras, [251]não surge a partir delas formarem figuras das várias coisas que elas representariam na imaginação; porque, em um exame muito diligente da minha própria mente, e conseguindo com que os outros examinassem as deles, eu não encontro que uma vez em vinte vezes qualquer figura semelhante seja formada, e quando ela é, há mais comumente um esforço particular da imaginação para esse propósito. Mas as palavras agregadas operam, como eu disse das abastratas-compostas, não apresentando qualquer imagem para a mente, mas tendo, a partir do uso, o mesmo efeito sendo mencionado, que o original teve quando ele é visto. Suponha que nós devêssemos ler uma passagem para este efeito: “O rio Danúbio surge em um solo úmido e montanhoso no coração da Alemanha, onde, serpenteando para lá e para cá, ele irriga várias principados, até que, voltando-se para dentro da Áustria, e lavando as muralhas de Viena, ele passa para dentro da Hungria; ali, com uma enchente vasta, aumentado pelo Save e o Drava, ele deixa a Cristandade, e através dos países bárbaros que fazem fronteira com a Tartária, ele entra através de muitas bocas no Mar Negro.” Nessa descrição muitas coisas são mencionadas, como montanhas, rios, cidades, o mar, etc. Mas, que qualquer um examine a si mesmo, e veja se ele foi impressionado em quaisquer figuras de um rio, montanha, solo aguado, Alemanha etc. De fato, é impossível, na rapidez e sucessão apressada de palavras na conversação, ter ideias tanto do som quanto da palavra, e da coisa representada; além disso, algumas palavras, expressando essências reais, estão tão misturadas com outras de uma importância geral e nominal, que é impraticável saltar do sentido (sense) para o pensamento, dos particulares para os gerais, das coisas para as palavras, de uma maneira tal quanto a responder aos propósitos da vida; nem é necessário que nós deveríamos.
[252]Seção V Exemplos de que Palavras podem Afetar sem Gerar Imagens
Eu considero muito difícil persuadir várias pessoas de que as paixões delas são afetadas por palavras das quais elas não têm nenhuma ideia; e ainda mais difícil convencê-las de que, no curso ordinário de conversação, nós somos suficientemente entendidos sem gerar nenhuma imagem das coisas relativas as quais nós falamos. Parece ser um estranho assunto de debate com qualquer homem, se ele tem ideias em sua mente ou não. Sobre isso, à primeira vista, todo homem, em seu foro próprio, deveria julgar sem apelo. Mas, estranho como isso pode parecer, nós frequentemente ficamos desorientados para sabermos que ideias nós temos das coisas, ou, de qualquer maneira, se nós temos ideias sobre alguns assuntos. Até se requer uma grande quantidade de atenção para se estar completamente satisfeito sobre essa categoria. Desde que eu escrevi esses artigos, eu encontrei duas instâncias muito impressionantes de que um homem pode ouvir palavras sem ter nenhuma ideia das coisas que elas representam, e, contudo, subsequentemente, ser capaz de as retornar a outros, combinadas de uma nova maneira, e com grande propriedade, energia e instrução. A primeira instância é aquela do sr. Blacklock, um poeta cego desde o nascimento, poucos homens abençoados com a visão mais perfeita podem descrever objetos visuais com mais espírito e justeza do que esse homem cego; o que possivelmente não pode ser atribuído a ele ter uma concepção mais clara das coisas que ele descreve do que é comum a outras pessoas. O sr. Spence, em um prefácio elegante que ele escreveu para as obras desse poeta, raciocina muito engenhosamente e, eu imagino, pela maior parte, muito corretamente, sobre a causa desse [253]fenômeno extraordinário; mas eu não posso concordar completamente com ele, de que algumas impropriedades na linguagem e no pensamento, as quais ocorrem nesses poemas, originaram-se a partir da imperfeita concepção de objetos visuais pelo poeta cego, uma vez que tais impropriedades, e muito maiores, podem ser encontradas em escritores até de uma classe superior àquela do sr. Blacklock, e quem, a despeito disso, possuíam a faculdade de ver em sua perfeição completa. Aqui está um poeta sem dúvida tão afetado por suas próprias descrições quanto qualquer um que as leia pode estar; e contudo, ele é afetado com esse entusiasmo estranho por coisas das quais ele não tem, nem possivelmente pode ter, nenhuma ideia adicional do que o simples som: e por que não podem aqueles que leem seus trabalhos serem afetados da mesma maneira que ele foi; com tão pouco de quaisquer ideias reais das coisas descritas? A segunda instância é do sr. Sanderson, professor de matemática na Universidade de Cambridge. Esse homem instruído tinha adquirido grande conhecimento em filosofia natural, em astronomia e em quaisquer outras ciências dependentes da habilidade matemática. O que era o mais extraordinário e o principal para o meu propósito, ele proferia preleções excelentes sobre luz e cores; e esse homem ensinava a outros a teoria daquelas ideias que eles tinham e as quais, indubitavelmente, ele não tinha. Mas é provável que as palavras vermelho, azul, verde respondiam-lhe tão bem quanto as ideias das cores mesmas; pois as ideias de graus menor e maior de refrangibilidade sendo aplicadas àquelas palavras, e o homem cego sendo instruído em quais outros aspectos elas foram consideradas concordar ou discordar, era tão fácil para ele raciocinar sobre as palavras como se ele tivesse estado em domínio completo das ideias. De fato, deve ser admitido que ele não poderia realizar novas descobertas no caminho do experimento. Ele [254]não fazia nada exceto o que nós fazemos todos os dias no discurso comum. Quando eu escrevi a última sentença, e usei as palavras todos os dias (every day) e discurso comum (common discourse), eu não tinha imagens na minha mente de nenhuma sucessão de tempo; nem de homens em conferência uns com os outros; nem eu imagino que o leitor terá alguma dessas ideias ao lê-la. Nem quando eu falei de vermelho, ou azul, e verde, assim como refrangibilidade, tinha eu dessas várias cores, ou dos raios de luz passando para dentro de um meio diferente, e aí desviados a partir do seu curso, pintadas diante mim na forma de imagens. Eu sei muito bem que a mente possui a faculdade de gerar tais imagens à vontade; mas então um ato de vontade é necessário para isso; e, em conversação ou leitura ordinárias, é muito raramente que qualquer imagem, de qualquer maneira, é excitada na mente. Se eu disser, “Eu deverei ir à Itália no próximo verão,” eu sou bem entendido. Contudo, eu acredito que, por causa disso, ninguém pintou em sua imaginação a figura exata do falante passando por terra ou por água, ou ambos; algumas vezes a cavalo, algumas vezes em uma carruagem: com todos os particulares da jornada. Ainda menos tem qualquer ideia da Itália, o país ao qual eu me propus a ir; ou do verdor (greenness) dos campos, o amadurecimento dos frutos, e o calor do ar, com a mudança para isso a partir de uma estação diferente, o que são as ideias pelas quais a palavra verão (summer) é substituída; mas a uma extensão melhor tem qualquer imagem da palavra próximo (next); pois essa palavra representa a ideia de muitos verões, com a exclusão de todos, exceto um: e certamente o homem quem diz próximo verão (next summer) não tem imagens de uma sucessão semelhante, e de uma exclusão semelhante. Em resumo, não são apenas aquelas ideias que são comumente chamadas de abstratas, e das quais nenhuma imagem pode ser formada, mas mesmo dos seres particulares, reais, que nós conversamos sem ter [255]nenhuma delas excitada na imaginação; como certamente aparecerá em um exame diligente das nossas próprias mentes. De fato, a poesia depende tão pouco para o seu efeito do poder de gerar imagens sensíveis, que eu estou convencido que ela perderia uma parte muito considerável da sua energia, se essa devesse ser o resultado necessário de toda descrição. Por que essa união de palavras comoventes, as quais são os mais poderosos de todos os instrumentos poéticos, frequentemente perderia sua força junto com sua propriedade e consistência, se as imagens sensíveis fossem sempre excitadas. Talvez não haja na Eneida inteira uma passagem mais grandiosa e laborada do que a descrição da caverna de Vulcano no Etna, e as obras que ali são levadas a cabo. Virgílio demora-se particularmente na formação do trovão, o qual ele descreve como inacabado sob os martelos dos ciclopes. Mas quais são os princípios dessa composição extraordinária?
Tres imbris torti radios, tres nubis aquosæ
Addiderant; rutili tres ignis, et alitis austri:
Fulgores nunc terrificos, sonitumque, metumque
Miscebant operi, flammisque sequacibus iras.
Isso me parece admiravelmente sublime: contudo, se nós prestarmos atenção friamente ao tipo de imagens sensíveis que uma combinação de ideias desse tipo tem de formar, as quimeras dos loucos não podem aparecer mais selvagens e absurdas do que uma semelhante figura. “Três raios de aguaceiros (showers) torcidos, três nuvens úmidas, três de fogo, e três do vento sul alado; então misture eles na obra de relâmpagos terríveis, e som, e medo, e raiva, com chamas perseguidoras.” Essa composição estranha é formada em um corpo grosseiro; ela é martelada pelos ciclope, está em parte polida, e em parte continua grosseira. A verdade é, se a poesia concede-nos uma nobre coleção de [256]palavras correspondendo a muitas ideias nobres, as quais são conectadas por circunstâncias de tempo ou lugar, ou relacionadas umas com as outras como causa e efeito, ou associadas de qualquer maneira natural, elas podem ser moldadas juntas em qualquer forma, e perfeitamente satisfazerem ao fim delas. A conexão pitoresca não é demandada; porque nenhuma figura é formada; nem é o efeito da descrição, de qualquer maneira, menor em consequência dessa consideração. O que se diz de Helena por Príamo e o ancião do seu conselho, é geralmente considerado conceder-nos a ideia mais elevada possível daquela beleza fatal.
Οὐ νέμεσις, Τρὢας καὶ ἐὔκνήμιδας 'Αχ-αιοὺς
Τοιἣδ' ἀμφὶ γυναικὶ πολὺν χρόνον ἄλγεα πάσχ-ειν.
Αἰνὢς ἀθανάτησι θεἣς εἰς ὦπα ἔοικεν.
“Ele choraram, Não surpreende que tais encantos celestes
Por nove anos inteiros levaram o mundo às armas;
Que graças vencedoras! Que semblante majestático!
Ela move-se como uma deusa, e ela parece uma rainha.”
Pope.
Aqui não há uma palavra dita dos particulares da beleza dela; nada que possa nos ajudar no mínimo com qualquer ideia precisa da ideia dela; mas ainda nós somos muito mais tocadas por essa forma de a mencionar, do que por aquelas descrições longas e laboradas de Helena, quer transmitidas por tradições, quer formadas pela imaginação, as quais devem ser encontradas em alguns autores. Eu estou certo de que isso me afeta muito mais do que a descrição minuciosa que Spencer deu de Belphebe; embora eu admita que há partes, naquela descrição, como há em todas as descrições daquele escritor excelente, extremamente finas e poéticas. A imagem terrível que Lucrécio desenhou da religião para exibir a magnanimidade do seu herói filosófico em oposição a ela, é considerada ser projetada com grande ousadia e espírito: -
[257]Humana ante oculos foedè cum vita jaceret,
In terris, oppressa gravi sub religione,
Quæ caput e coeli regionibus ostendebat
Horribili super aspectu mortalibus instans;
Primus Graius homo mortales tollere contra
Est oculos ausus.
Que ideia você deriva de uma figura tão excelente? Absolutamente nenhuma, muito certamente: tampouco o poeta disse uma única palavra que no mínimo poderia servir para marcar um único membro ou característica do fantasma, o qual ele pretendia representar em todos os horrores que a imaginação pode conceber. Na realidade, poesia e retórica não tem sucesso na descrição exata tanto quanto a pintura faz; a tarefa dela é afetar antes por simpatia do que por imitação; exibir antes o efeito de coisas sobre a mente do orador, ou de outros, do que apresentar uma ideia clara das coisas mesmas. Essa é a sua província mais extensa e essa na qual eles sucedem melhor.
Seção VI Poesia, não estritamente uma Arte Imitativa
Consequentemente, nós podemos observar que a poesia, tomada em sua acepção mais geral, não pode, com propriedade estrita, ser chamada de uma arte imitativa. De fato, ela é uma imitação até onde ela descreve as maneiras e paixões de homens que as palavras dele podem expressar; onde animi motus effert interprete lingua. Há estritamente imitação; e toda poesia meramente dramática é desse tipo. Mas a poesia descritiva opera principalmente através de substituição; através dos meios dos sons, os quais, por costume, têm o efeito de realidades. Nada é uma imitação adicional do que quando ela se assemelha a alguma outra coisa; e indubitavelmente [258]as palavras não têm o tipo de semelhança com as ideias que elas representam.
Seção VII Como Palavras influencia as Paixões
Agora, como as palavras afetam não por um poder original, mas por representação, poder-se-ia supor que a influência delas sobre as paixões deveria ser apenas leve; contudo, é bastante de outra maneira; pois nós descobrimos por experiência que a eloquência e poesia são como capazes, ou melhor, de fato, muito mais capazes, de produzirem impressões profundas e vívidas do que quaisquer outras artes, e mesmo do que a natureza mesma, em muitos casos. E isso surge principalmente a partir destas três causas. Primeiro, que nós participamos extraordinariamente nas paixões de outros, e que nós somos facilmente afetados e levados à simpatia por quaisquer símbolos que são mostrados delas; e não há símbolos que podem expressar todas as circunstâncias da maior parte das paixões tão completamente quanto as palavras; de maneira que, se uma pessoa fala sobre qualquer assunto, ela não apenas pode comunicar o assunto a você, mas, da mesma maneira, a maneira pela qual ela mesma é afetada por ele. Certo é que a influência da maioria das coisas sobre as nossas paixões não tanto a partir das coisas mesmas, como a partir das nossas opiniões relativas a elas; e, novamente, essas dependem muito das opiniões de outros homens, comunicáveis, pela maior parte, a apenas pelas palavras. Segundo, há muitas coisas que são de uma natureza muito comovente, a qual raramente pode ocorrer na realidade, mas as palavras que as representam frequentemente o fazem; e, dessa maneira, elas têm uma oportunidade de produzir uma impressão profunda e enraizarem-se na mente, enquanto a ideia da realidade era transitória; e para alguns [259]talvez nunca tenha realmente ocorrido, de qualquer maneira, para quem ela é, a despeito disso, muito comovente, como guerra, morte, fome, etc. Além disso, muitas ideias podem nunca ter estado de qualquer maneira presentes para os sentidos de quaisquer homens exceto apenas por palavras, como Deus, anjos, demônios, céu e inferno, todas as quais, contudo, têm uma grande influência sobre as paixões. Terceiro, por palavras que nós temos em nosso poder para produzir tais combinações como não possivelmente não podemos fazer de outra maneira. Através desse poder de combinação, nós somos capazes, através da adição de circunstâncias bem escolhidas, conceder uma nova vida e força ao objeto simples. Na pintura nós podemos representar qualquer figura que nós desejarmos; mas nós nunca podemos conceder a ela aqueles toques animadores que ela pode receber a partir de palavras. Para representar um anjo em uma pintura, você apenas pode desenhar um belo rapaz alado: mais que pintura pode prover alguma coisa tão grande quanto à adição de uma palavra, “o anjo do Senhor”? É verdadeiro, eu não tenho ideia clara aqui; mas essas palavras afetam a mente mais do que a imagem sensível afeta; o que é tudo pelo que eu argumento. A pintura de Príamo arrastado para o pé do altar, e ali assassinado, se ela for bem executada, indubitavelmente seria muito comovedora; mais a há várias circunstâncias agravantes, as quais ela nunca poderia representar:
Sanguine foedantem quos ipse sacraverat ignes.
Como uma instância adicional, consideremos aquelas linhas de Milton onde ele descreve as viagens dos anjos caídos através da sua habitação sombria:
“Sobre muitos um vale escuro e triste
Eles passaram, e muitos uma região dolorosa;
Sobre muitos um congelado, muito ardente Alpe;
Rochas, cavernas, lagos, pântanos, brejos, grutas e sombras de morte,
Um universo de morte.”
Aqui está exibida a força da união em
[260]“Rochas, cavernas, lagos, pântanos, brejos, grutas e sombras”.
as quais, contudo, perderiam a maior parte do seu efeito se elas não fossem os
“Rochas, cavernas, lagos, pântanos, brejos, grutas e sombras - de Morte,”
Essa ideia ou afeição causada por uma palavra, a qual nada exceto uma palavra poderia acrescentar às outras, gera um grau muito grande do sublime, e esse sublime é elevado ainda mais alto pelo que se segue, um “universo de morte.” Novamente aqui nós temos duas ideias não apresentáveis exceto através da linguagem, e uma união delas grandiosa e espetacular além de concepção; se elas podem apropriadamente serem chamadas de ideias que não apresentam imagens distintas para mente; mas ainda será difícil conceber como as palavras podem mover as paixões que não pertencem a objetos reais, sem representar esses objetos claramente. Isso é difícil para nós, porque nós não distinguimos suficientemente, em nossas observações sobre a linguagem, entre uma expressão clara e uma expressão forte. Essas frequentemente são confundidas uma com a outra, embora na realidade elas são extremamente diferentes. A primeira diz respeito ao entendimento, a segunda pertence às paixões. Uma descreve uma coisa como ela é, a outra a descreve como ela é sentida. Agora, como há um tom comovente de voz, uma semblante apaixonado, um gesto agitado, os quais afetam independentemente das coisas sobre as quais eles são exercidos, assim há palavras, e certas disposições de palavras, as quais sendo peculiarmente dedicadas a assuntos apaixonados, e sempre usadas por aqueles que estão sob a influência de alguma paixão, tocam e move-nos mais do que aquelas que muito mais clara e distintamente expressam o assunto. Nós podemos render à simpatia o que nós recusamos à descrição. A verdade é, toda descrição, meramente como descrição nua, [261]embora nunca tão exata, comunica uma ideia tão pobre e insuficiente da coisa descrita, que ela escassamente poderia ter o menor efeito, se o orador não convocasse em seu auxílio os modos de discurso que marcam um sentimento forte e vívido em si mesmo. Então, pelo contágio das nossas paixões, nós pegamos um fogo já acesso em outro, o qual, provavelmente nunca poderia ser sido aceso pelo objeto descrito. As palavras, ao comunicarem fortemente as paixões através daqueles meios que nós já mencionamos, compensam completamente por sua fraqueza em outros aspectos. Pode ser observado que linguagens que são muito polidas, e tal como a serem elogiadas pela sua clareza e lucidez superiores, são geralmente deficientes em força. A língua francesa tem essa perfeição e esse defeito. Aos passo que as línguas orientais e, no geral, as línguas dos povos mais incultos, têm uma grande força e energia de expressão, e isso é apenas natural. Povos incultos são apenas observadores ordinários das coisas, e não críticos em as distinguir; mas, por essa razão, eles admiram mais, e são mais afetados pelo que eles veem e, portanto, expressam a si mesmos de uma maneira mais calorosa e mais apaixonada. Se a afeição for bem comunicada, ela operará o seu efeito sem nenhuma ideia clara, frequentemente sem absolutamente nenhuma ideia clara da coisa que originalmente deu origem a ela.
Poderia ser esperado, a partir da fertilidade do assunto, que eu devesse considerar a poesia, no que ela diz respeito ao sublime e à beleza, de forma mais geral; mas deve ser observado que, nesta luz, ela já tem sido frequentemente e bem manejada. Não era meu desígnio entrar na crítica do sublime e do belo em nenhuma arte, mas tentar estabelecer aqueles princípios que podem tender a determinar, distinguir e a dar forma a um tipo [262]de padrão para elas; propósito que, eu considerei, poderia ser melhor efetuado através de uma investigação das propriedades daquelas coisas na natureza que geram amor e espanto em nós; e revelando de que maneira elas operam para produzir essas paixões. As palavras deviam apenas ser consideradas até onde quanto a revelarem em consequência de quais princípios elas eram capazes de ser representativas dessas coisas naturais, e através de quais poderes elas eram capazes de nos afetar tão fortemente quanto as coisas que elas representam e, algumas vezes, muito mais fortemente.
ORIGINAL:
BURKE, E. A Philosophical Inquiry into the Origin of our Ideas of the Sublime and Beautiful. IN:______. The Works of the Right Honorable Edmund Burke. Volume I. Boston: Little, Brown, and Company, 1877. pp. 246-262. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofrighthono01burk/page/246/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0