sexta-feira, 1 de março de 2024

Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo - Parte IV - Seções I-IX

 Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo


Por Edmund Burke


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Parte IV


[208]Seção I Da Causa Eficiente do Sublime e do Belo


Quando eu digo que pretendo investigar a causa eficiente da sublimidade e beleza, eu não deveria ser entendido dizer que posso chegar à causa última. Eu não pretendo que alguma vez deverei ser capaz de explicar porque certas afeições do corpo produzem uma tal emoção da mente e nenhuma outra; ou porque, de qualquer maneira, o corpo é afetado pela mente, ou a mente pelo corpo. Um pouco de pensamento mostrará como isso é impossível. Mas eu concebo, se nós pudermos descobrir que afeições da mente produzem certas emoções do corpo; e quais sentimentos e qualidades distintos do corpo deverão produzir certas paixões determinadas na mente, e nenhuma outra, eu imagino que uma grande parte pode ser realizada; alguma coisa não inútil na direção de um conhecimento distinto das nossas paixões, pelo menos até onde nós as temos no presente sob a nossa consideração. Eu acredito que isso é tudo que nós podemos fazer. Se nós pudéssemos avançar um passo adiante, dificuldades ainda permaneceriam, visto que nós ainda deveríamos estar igualmente distantes da primeira causa. Quando Newton primeiramente descobriu a propriedade da atração e estabeleceu as suas leis, ele considerou que ela servia muito bem para explicar vários fenômenos notáveis na natureza; contudo, com referência ao sistema geral das coisas, ele deveria considerar a atração apenas como um efeito, cuja causa, naquele momento, ele não tentou delinear. Mas quando depois ele começou a explicá-la através de um sútil éter [209]elástico, esse grande homem (se em um homem tão grande não é ímpio descobrir qualquer coisa como um defeito) pareceu ter abandonado a sua usual maneira cautelosa de filosofar; uma vez que, talvez, admitindo tudo o que tem sido proposto sobre esse assunto estar suficientemente provado, eu considero que isso nos deixa com tantas dificuldades quanto ele nos encontrou. Aquela grande cadeia de causas, a qual, ligando uma coisa a outra, até ao trono de Deus mesmo, nunca pode ser desvendada por nenhuma indústria nossa. Quando nós avançamos apenas um passo além das imediatas qualidades sensíveis das coisas, nós saímos para fora da nossa profundeza. Tudo que nós fazemos depois é apenas uma esforço fraco, o qual nos revela que nós estamos em um elemento que não nos pertence. De maneira que, quando falo de causa, e causa eficiente, eu apenas quero dizer certas afeições da mente que causam certas mudanças no corpo; ou certos poderes e propriedades em corpos, que operam uma mudança na mente. Como se, para explicar o movimento de um corpo caindo para o chão, eu diria que isso foi causado pela gravidade; e eu me atreveria a mostrar de que maneira esse poder operou, sem tentar mostrar porque ele operou dessa maneira; ou, se eu devesse explicar os efeitos de corpos colidindo uns com os outros através das leis comuns de percussão, eu não deveria tentar explicar como o movimento mesmo é comunicado.


Seção II Associação


Não é pequena obstrução no caminho da nossa investigação da causa das paixões que as ocasiões de muitas delas sejam dadas, e que os seus movimentos governantes sejam comunicados, em um momento quando nós não temos capacidade [210]para refletir sobre elas; um momento no qual todo tipo de memória está esgotado das nossas mentes. Pois, além daquelas coisas que nos afetam de várias maneiras, de acordo com seus poderes naturais, há associações feitas naquele momento inicial, as quais depois nós consideramos muito difícil distinguir dos efeitos naturais. Para não mencionar as antipatias inexplicáveis que nós encontramos em muitas pessoas, nós todos consideramos impossível lembrar quando um despenhadeiro (steep) tornou-se mais terrível do que uma planície (plain); ou fogo ou água mais terrível que um torrão (clod) de terra; embora todos esses sejam muito provavelmente ou conclusões a partir da experiência, ou surgindo através das premonições de outros; e algumas delas, em toda probabilidade, impressionadas muito tardiamente. Mas, visto que deve ser admitido que muitas coisas nos afetam segundo uma certa maneira, não por quaisquer poderes naturais que elas tenham para esse propósito, mas por associação; assim, seria absurdo, por um lado, dizer que todas as coisas afetam-nos apenas por associação; uma vez que algumas coisas devem ter sido original e naturalmente agradáveis e desagradáveis, a partir das quais as outas derivaram os seus poderes associados; e, eu imagino, seria de pouco propósito procurar pela causa das nossas paixões na associação até que nós falhemos em procurar nas propriedades naturais das coisas.


Seção III Causa de Dor e Medo


Eu observei,1 que, seja o que for que esteja qualificado para causar terror, é um fundamento capaz do sublime; ao que eu acrescento que, não apenas isso, mas muitas coisas a partir das quais nós provavelmente não podemos apreender [211]qualquer perigo, têm um efeito similar, porque elas operam de uma maneira similar. Eu observei, também,2 que seja o que for que produza prazer, prazer positivo e original, é adequado para ter beleza implantada nele. Portanto, para esclarecer a natureza dessas qualidades, pode ser necessário explicar a natureza da dor e do prazer da qual elas dependem. Um homem que sofre sob uma violenta dor corporal, (eu suponho a mais violenta, porque o efeito pode ser muito óbvio,) eu digo um homem em grande dor que tem seus dentes apertados, suas sobrancelhas estão violentamente contraídas, sua testa está enrugada, seus olhos estão arrastados para dentro, e rolados com grande veemência, seu cabelo de pé na base, a voz dele é forçada para fora em gritos e gemidos curtos, e o corpo inteiro treme. Medo ou terror, o qual é uma apreensão de dor e morte, exibe exatamente os mesmos efeitos, aproximando-se em violência daqueles há pouco mencionados, em proporção da proximidade (nearness) da causa e da fraqueza do sujeito. Isso não é apenas assim na espécie humana; mas eu observei mais de uma vez em cães, sob uma apreensão de punição, que ele encolheram seus corpos, e gritaram, e uivaram, como se eles efetivamente tivessem sentido os golpes. A partir daí eu concluo que a dor e o medo agem sobre as mesmas partes do corpo, e da mesma maneira, embora em grau diferindo um pouco: que a dor e o medo consistem em uma tensão não natural dos nervos; que isso é algumas vezes acompanhado por uma força não natural a qual, algumas vezes, subitamente, transforma-se em uma fraqueza extraordinária; que esses efeitos frequentemente surgem alternadamente e, algumas vezes, estão misturados uns com os outros. Essa é a natureza de todas as agitações convulsivas, especialmente nos sujeitos mais fracos, [212]os quais são os mais passíveis às impressões mais severas de dor e temor. A única diferença entre a dor e o terror é, que as coisas que causam dor operam sobre a mente através da intervenção do corpo; ao passo que as coisas que causam terror geralmente afetam os órgãos corporais através da operação da mente sugerindo o perigo; mas ambos concordam, quer primaria, quer secundariamente, na produção de uma tensão, contração, ou emoção violenta dos nervos,3 eles concordam da mesma maneira em tudo mais. Pois parece muito claramente para mim a partir disso, assim como de outros exemplos, que quando o corpo está disposto, por quaisquer meios que sejam, para tais emoções como ele adquiriria através de uma paixão certa; de si mesmo isso excitará alguma coisa muito semelhante àquela paixão na mente.


Seção IV Continuado.


Para esse propósito, o sr. Spon, em suas “Récherches d’Antiquité,” fornece-nos uma história curiosa do celebrado fisiognomonista Campanella. Esse homem, parece, tinha feito apenas observações muito precisas sobre rostos humanos, mas foi tão perito em imitação (mimicking) tal como se fosse de qualquer maneira notável. Quando ele tinha uma intenção de penetrar nas inclinações daqueles com quem ele tinha de lidar, ele compunha seu rosto, seu gesto, e seu corpo todo, tão aproximadamente quanto ele poderia, em uma similitude exata da [213]pessoa que ele pretendia examinar e então ele observava cuidadosamente que mudança de ideia (turn of mind) ele parecia adquirir através dessa mudança. De maneira que, diz meu autor, ele era capaz de entrar nas disposições e pensamentos de pessoas tão efetivamente como se ele tivesse se transformado em cada uma. Eu frequentemente tenho observado que, ao imitar a aparência e gestos do homem irado, ou plácido, ou assustado, ou ousado, eu involuntariamente descobri minha mente voltada para aquela paixão, cuja aparência eu tentei imitar; ou antes, eu estou convencido de que é difícil evitá-lo, embora alguém se esforce para separar a paixão dos seus gestos correspondentes. Nossas mentes e corpos estão conectados tão estrita e intimamente, que um é incapaz de dor ou prazer sem o outro. Campanella, de quem nós estivemos falando, poderia assim abstrair sua atenção de quaisquer sofrimento do seu corpo, que ele era capaz de suportar o cavalete (rack) mesmo sem muita dor; e, em dores menores, todos têm observado que, quando nós empregamos a nossa atenção em alguma outra coisa, a dor fica suspensa por um tempo: por outro lado, se de qualquer maneira o corpo está indisposto para realizar tais gestos, ou para ser estimulado àquelas emoções como qualquer paixão usualmente as produz, essa paixão mesma nunca surge, embora a sua causa nunca deveria estar tão fortemente em ação; embora ela devesse ser meramente mental, e não afetando imediatamente nenhum dos sentidos. Como um licor opiáceo (opiate) ou alcoólico (spirituous) deverá suspender a operação do medo, do pesar ou da ira, a despeito de todos os nossos esforços em contrário; e isso é através indução no corpo de uma disposição contrária àquela que ele recebe a partir dessas paixões.


[214]Seção V Como o Sublime é produzido


Tendo considerado o terror como produzindo uma tensão não natural e certas emoções violentas dos nervos; facilmente se segue que, a partir do que nós dissemos há pouco, o que quer que seja adequado para produzir uma semelhante tensão tem de ser produtivo de uma paixão similar à do terror,4 e, consequentemente, tem de ser uma fonte do sublime, embora ele não deva ter ideia do perigo conectado com ele. De modo que pouco resta na direção de revelar a causa do sublime, senão mostrar que as instâncias nós fornecemos dele na segunda parte relacionam-se a tais coisas que são adequadas por natureza para produzir esse tipo de tensão, quer pela operação primária da mente quer do corpo. Com respeito a tais coisas como afetadas pela ideia associada de perigo, não pode haver dúvida de que elas produzem terror, e agem através de alguma modificação dessa paixão; e que o terror, quando suficientemente violento, gera as emoções do corpo há pouco mencionadas, pode ser pouco duvidado. Mas se o sublime é construído sobre o terror ou alguma paixão como ele, a qual tem a dor por seu objeto, é anteriormente adequado investigar como quaisquer espécies de deleite podem ser derivadas a partir de uma causa aparentemente tão contrária a ele. Eu digo deleite (delight), porque, como eu frequentemente observo, ele é muito evidentemente diferente em sua causa, e em sua própria natureza, do prazer atual e positivo.


[215]Seção VI Como Dor pode ser uma Causa de Deleite


A Providência ordenou de tal maneira que um estado de descanso e inação, por mais que ele possa se lisonjeador da nossa indolência, deveria ser produtivo de muitas inconveniências; quer dizer, ele deveria gerar tais desordens, que podem nos forçar a recorrer a algum labor, como uma coisa absolutamente necessária para nos fazer passar por nossas vidas como satisfação tolerável; pois a natureza do descanso (rest) é tolerar que todas as partes dos nossos corpos caiam em relaxamento, o que não apenas desabilita os membros de desempenharem suas funções, mas retira o tom vigoroso da fibra que é necessário para levar a cabo as secreções naturais e necessárias. Ao mesmo tempo, nesse estado lânguido inativo, os nervos estão mais dispostos às convulsões mais hórridas do que quando eles estão suficientemente preparados e fortalecidos. Melancolia, desânimo (dejection), desespero e frequentemente suicídio (self-murder), são a consequência da visão sombria que nós tomamos de cosias nesse estado relaxado de corpo. O melhor remédio para todos esses males é exercício ou labor; e labor é uma superação de dificuldades, um exercício do poder de contração dos músculos; e como tal se assemelha a dor, a qual consiste em tensão ou contração, em tudo, exceto em grau. O labor não é apenas necessário para preservar os órgãos mais grosseiros (coarser) em um estado adequado para as suas funções; mas ele é igualmente necessário para aqueles órgãos mais finos e mais delicados, sobre os quais, e através dos quais, a imaginação e, talvez, os poderes mentais agem. Uma vez que é provável que não apenas as partes inferiores da alma, como as paixões são chamadas, mas o entendimento mesmo, faça uso de alguns instrumentos corporais finos em sua operação; [216]embora o que eles são, e onde eles estão, possa ser um pouco difícil de decidir: mas que ele faz uso disso, aparece a partir disto; que um longo exercício dos poderes mentais induz uma lassidão notável no corpo inteiro; e, por outro lado, que um grande labor corporal, ou dor, enfraquece e, algumas vezes, efetivamente destrói as faculdades mentais. Agora, como um exercício devido é essencial para as partes musculares grosseiras da constituição, e que sem essa excitação elas se tornariam lânguidas e mortas, exatamente as mesmas regras valem com respeito àquelas partes mais finas que nós mencionamos; para as ter em ordem adequada, elas tem de ser agitadas e trabalhadas a um grau apropriado.


Seção VII Exercício Necessário para os Órgãos mais Finos


Como o labor comum, o qual é um modo de dor, é o exercício das mais grosseiras, um modo de terror é o exercício das partes mais finas do sistema; e se um certo modo de dor for de uma natureza tal quanto a agir sobre o olho ou ouvido, como eles são os órgãos mais delicados, a afeição aproxima-se mais daquela que tem uma causa mental. Em todos esses casos, se a dor e o terror são tão modificados quanto a não serem efetivamente nocivos; se a dor não for levada a cabo com violência, e o terror não for relacionado com a destruição presente da pessoa, como essas emoções desobstruem as partes, ou finas ou grossas, de um ônus perigoso e difícil, elas são capazes de um produzirem deleite; não prazer, mas um tipo de horror agradável, um tipo de tranquilidade tingida com terror; a qual, como ela pertence à autopreservação, é uma das mais fortes de todas as [217]paixões. O seu objeto é o sublime. 5 O seu grau mais elevado é o grau que eu chamo de espanto (astonishment); os graus subordinados são temor (awe), reverência e respeito, os quais, pela etimologia mesma das palavras, revela a partir de qual fonte elas são derivadas, e como elas se erguem distintas do prazer positivo.


Seção VIII Porque Coisas não Perigosas Algumas vezes produzem uma Paixão como o Terror


Um modo de terror ou dor é sempre a causa do sublime.6 Por terror ou perigo associado, eu acredito que a explicação acima seja suficiente. Requererá alguma coisa mais difícil mostrar que tais exemplos que eu dei do sublime na segunda parte são capazes de produzirem um modo de dor, e de estarem, dessa maneira, aliados ao terror, e de serem explicados pelos mesmos princípios. E o primeiro de tais objetos como são grandes em suas dimensões. Eu falo de objetos visuais.


Seção IX Porque Objetos Visuais de Grandes Dimensões são Sublimes


A visão é realizada tendo um retrato, formado pelos raios de luz que são refletidos a partir do objeto, pintado em uma peça, instantaneamente, sobre a retina, ou na última parte nervosa do olho. Ou, de acordo com outros, há apenas um ponto de qualquer objeto pintado sobre o olho, de maneira a ser percebido de uma vez; mas, movendo o olho, nós reunimos, com grande [218]celeridade, as várias partes do objeto, de maneira a formarem uma peça uniforme. Se a opinião antiga for admitida, será considerado7 que, embora toda a luz refletida por um corpo grande deveria atingir o olho em um instante; contudo, nós temos de supor que o corpo mesmo seja formado por um vasto número de pontos disjuntos, cada um dos quais, ou o raio a partir de cada um dos quais, produz uma impressão sobre a retina. De modo que, embora a imagem de um ponto deva causar apenas uma pequena tensão dessa membrana, outro, e outro, e outro golpe (stroke), tem, em seu progresso, de causar uma muito grande, até que, por fim, ela chegue ao grau mais elevado; e a capacidade inteira do olho, vibrando e todas as suas partes, tem quase de se aproximar da natureza do que causa dor e, consequentemente, tem de produzir uma ideia do sublime. Novamente, se nós aceitamos isso, que apenas um ponto de um objeto seja distinguível por vez; a questão equivalerá quase à mesma coisa, ou antes ela tornará a origem do sublime a partir da grandeza de dimensão ainda mais clara. Pois se apenas um ponto é observado de uma vez, o olho tem de atravessar o espaço vasto de tais corpos com grande rapidez, e, consequentemente, os nervos e músculos finos destinados ao movimento daquela parte tem de ficar muito tensionados; e a grande sensibilidade deles tem de os tornar altamente afetados por essa tensão. Além disso, não significa exatamente nada para o efeito produzido, se um corpo tem as suas partes conectadas e produz a sua impressão de uma vez; ou, produzindo apenas uma impressão em um momento, ele causa uma sucessão da mesma ou de outras tão rapidamente quanto a fazê-las parecer unidas; como é evidente a partir do efeito comum de circular uma tocha ou pedaço de madeira acessos: o que, se realizado com celeridade, parece um círculo de fogo.


Próxima seção


ORIGINAL:

BURKE, E. A Philosophical Inquiry into the Origin of our Ideas of the Sublime and Beautiful. IN:______. The Works of the Right Honorable Edmund Burke. Volume I. Boston: Little, Brown, and Company, 1877. pp. 208-218. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofrighthono01burk/page/208/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1[210]Parte I, seção 7.

2[211]Parte I, seção 10.

3[212]Eu não entro aqui na questão debatida entre fisiologistas, de se a dor é o efeito de uma contração, ou de uma tensão dos nervos. Qualquer um servirá para o meu propósito; pois, por tensão, eu não quero dizer mais nada do que um puxão (pulling) violento das fibras que compõem qualquer músculo ou membrana, de qualquer maneira que isso possa ser feito.

4[214]Parte II, seção 2.

5[217]Parte II, seção I.

6Parte I, seção 7. Parte II, seção 2.

7[218]Parte II, seção 7.

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