sexta-feira, 1 de março de 2024

Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo - Parte IV - Seções X-XX

 Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo


Por Edmund Burke


Seção anterior


Parte IV


[219]Seção X Unidade, porque requisito para Vastidão


Pode ser objetado a essa teoria que o olho geralmente recebe um número igual de raios em todos os momentos, e que, portanto, um objeto grande não pode o afetar pelo número de raios, mais que essa variedade de objetos que o olho sempre deve discernir enquanto ele permanecer aberto. Mas a isso eu respondo que, admitindo-se um número igual de raios, ou uma quantidade igual de partículas luminosas a atingirem o olho em todos os momentos, contudo, se esses raios frequentemente variam em sua natureza, agora para o azul, agora para o vermelho, e assim por diante, ou pela maneira (manner) de sua terminação, quanto a um número de pequenos quadrados, triângulos ou semelhantes, a cada mudança, quer de cor ou de forma, o órgão tem um tipo de relaxamento ou descanso; mas esse relaxamento e labor, tão frequentemente interrompido, de maneira nenhuma é produtivo de tranquilidade (ease); nem ele tem o efeito de labor vigoroso e uniforme. Quem quer que tenha observado os diferentes efeitos de algum forte exercício, e alguma pequena ação insignificante, entenderá por que um emprego provocador (teasing), irritável (fretful), o qual imediatamente cansa e enfraquece o corpo, não deveria ter nada de grandioso; esses tipos de impulsos, os quais são antes provocadores do que dolorosos, ao continua e subitamente alterarem o seu teor e direção, evitam aquela tensão plena, aquela espécie de labor uniforme, a qual é aliada da dor forte e causa o sublime. A soma total das coisas de vários tipos, embora ela deva ser igual ao número das partes uniformes compondo algum único objeto inteiro, não é igual em seus efeitos sobre os órgãos dos corpos. Além dessa já atribuída, há outra razão muito forte para a diferença. [220]A mente na realidade dificilmente alguma vez pode prestar atenção a mais do que uma coisa por vez; se essa coisa for pequena, o efeito é pequeno, e um número de outros objetos pequenos não pode comprometer a atenção; a mente está limitada pelos limites do objeto; e ao que não presta atenção, e o que não existe, são exatamente o mesmo no efeito; mas o olho ou a mente, (para este caso não há diferença,) em objetos grandes, uniformes, não chega prontamente aos seus limites; ela não tem descanso enquanto os contempla; a imagem é muito a mesma em todos os pontos. De maneira que tudo grande, por sua quantidade, tem de ser necessariamente um, simples e inteiro.


Seção XI O Infinito Artificial


Nós temos observado que uma espécie de grandeza surge a partir do infinito artificial; e que esse infinito consiste em uma sucessão uniforme de partes grandes; nós observamos também, que a mesma sucessão uniforme tinha um poder similar em sons. Mas porque os efeitos de muitas coisas são mais claros em um dos sentidos do que em outro, e que todos os sentidos comportam analogia com, e ilustram um o, outro, eu deverei começar com esse poder em sons, visto que a causa da sublimidade a partir da sucessão é bastante mais óbvia no sentido da audição (hearing). E aqui, de uma vez por todas, eu deverei observar que uma investigação das causas mecânicas e naturais das nossas paixões, além da curiosidade do assunto, concede, se elas são descobertas, uma dupla força e brilho para quaisquer regras que nós comuniquemos sobre tais assuntos. Quando o ouvido recebe qualquer som simples, ele é impactado (struck) por um único pulso do ar que faz o [221]tímpano (eardrum) e as outras partes membranosos vibrarem de acordo com a natureza e espécie do impacto (stroke). Se o impacto for forte, o órgão de audição sofre um grau considerável de tensão. Se o impacto for repetido logo depois, a repetição causa uma expectativa de outro impacto. E deve ser observado que a expectativa mesma causa uma tensão. Isso é aparente em muitos animais, quem, quando eles se preparam para ouvir qualquer som, excitam a si mesmos e levantam seus ouvidos; de maneira que o efeito dos sons é consideravelmente aumentado pela nova expectativa auxiliar. Mas, embora, depois de um número de impactos, nós esperemos ainda mais, não sendo capazes de determinar o momento exato da sua chegada, quando eles chegam, eles produzem um tipo de surpresa, a qual aumenta ainda mais a tensão. Pois eu tenho observado que, a cada vez que eu tenha esperado muito sinceramente por algum som que, retornado a intervalos, (como os disparos sucessivos de canhão,) embora eu esperasse completamente o retorno do som, quando ele chegava, sempre me faziam pular um pouco; o tímpano sofria uma convulsão, e todo o corpo consentia com ela. A tensão da parte aumentando dessa maneira em cada impacto, pelas forças unidas do impacto mesmo, a expectativa e a surpresa, ela exercitava-se a um tom tão grande quanto a ser capaz do sublime; era trazido quase à beira da dor. Mesmo quando a causa cessava, os órgãos da audição sendo frequente e sucessivamente impactados de uma maneira similar, continuam a vibrar dessa maneira por mais algum tempo; isso é uma ajuda adicional à grandeza do efeito.


[222]Seção XII A Vibração deve ser Similar


Mas se a vibração não for similar em cada impressão, ela nunca pode ser levada a cabo além do número de impressões atuais; pois, mova qualquer corpo como um pêndulo, em uma direção, e ele continuará a oscilar em um arco do mesmo círculo, até que forças conhecidas o façam descansar; mas se, após o ter colocado em movimento em uma direção, você empurra-o em outra, ele nunca pode reassumir a primeira direção; porque ele nunca pode mover a si mesmo e, consequentemente, ele apenas pode ter o efeito desse último movimento; ao passo que, se na mesma direção você agir sobre ele várias vezes, ele descreverá um arco maior, e mover-se-á por um tempo mais longo.


Seção XIII Os Efeitos da Sucessão em Objetos Visuais Explicados


Se nós conseguirmos compreender claramente como as coisas operam sobre um dos nossos sentidos, pode haver muito pouca dificuldade em conceber de qual maneira elas afetam o resto. Portanto, dizer uma grande quantidade sobre as afeições correspondentes de cada sentido antes tenderia a nos fatigar, por repetição inútil, do que lançaria alguma nova luz sobre o assunto, através dessa maneira ampla e difusa de o tratar; mas como nesse discurso nós nos apegamos principalmente ao sublime, conforme ele afeta o olho, nós deveremos considerar particularmente porque uma disposição sucessiva de partes uniforme na mesma linha reta deveria ser sublime,1 e em consequência de qual [223]princípio essa disposição é possibilitada a fazer uma quantidade comparativamente pequena de matéria produzir um efeito mais grandioso, do que uma quantidade muito maior disposta em outra maneira. Para evitar a perplexidade das noções gerais suponhamos diante dos nossos olhos uma colunata (colonnade) de pilares uniformes plantada em uma linha reta; tomemos nossa posição de tal maneira que o olho possa visualizar ao longo dessa colunata, pois isso tem o seu melhor efeito nessa visão. Na nossa situação presente é evidente que os raios de luz do primeiro pilar circular causarão no olho uma vibração daquela espécie; uma imagem do pilar mesmo. O pilar imediatamente sucessivo intensifica isso; aquele que se segue renova e força a impressão; cada um em sua ordem, conforme ela sucede, repete impulso após impulso, e impacto após impacto, até que o olho, há muito exercitado de uma maneira particular, não pode perder esse objeto imediatamente, e, sendo violentamente excitado por essa agitação contínua, ele apresenta à mente uma concepção grandiosa ou sublime. Mas, em vez de vermos uma fileira de pilares uniformes, suponhamos que eles sucedem uma ao outro, um circular e um quadrangular, alternadamente. Nesse caso, a vibração causada pelo primeiro pilar circular perece tão logo ela é formada; e uma de um tipo bastante outro (o quadrangular) ocupa diretamente o seu lugar; o qual, no entanto, resigna-se rapidamente a um circular, e estabelecendo outra, enquanto a construção continua. A partir daí é óbvio que, no último pilar, a impressão está tão longe de continuar quanto ela estava no primeiro; porque, de fato, o sensório não pode receber nenhuma impressão distinta exceto a partir do último; e ele nunca pode de si mesmo retorna uma impressão dissimilar: além de cada variação do objeto está um descanso [224]e relaxamento para os órgãos da visão; e esses alívios impedem aquela emoção poderosa tão necessária para a produção do sublime. Portanto, para produzir uma grandeza perfeita em tais coisas como nós temos mencionado, tem de haver uma simplicidade perfeita, uma uniformidade absoluta em disposição, forma e coloração. Em consequência desse princípio de sucessão e uniformidade, pode ser perguntado, porque uma longa parede nua não deveria ser um objeto mais sublime do que uma colunata; já que a sucessão de maneira nenhuma é interrompida; uma vez que o olho não encontra nenhuma restrição; uma vez que nada mais uniforme pode ser concebido? Uma longa parede nua certamente não é um objeto tão grandioso quanto uma colunata de mesmo comprimento e altura. Não é completamente difícil explicar essa diferença. Quando nós olhamos para uma parede nua, a partir da uniformidade (evenness) do objeto, o olho corre ao longo do seu espaço inteiro, e chega rapidamente ao seu término; mas então, ele não encontra nada que o possa deter um tempo apropriado para produzir um efeito grandioso e duradouro. A visão de uma parede nua, se ela for de altura e comprimento grandes, é indubitavelmente grandiosa; mas ela é apenas uma ideia, e não uma repetição de ideias similares: portanto ela é grande, não tanto em consequência do princípio de infinidade, quanto em consequência daquele de vastidão (vastness). Mas nós não somos tão poderosamente afetados por qualquer impulso, a menos que, de fato, ele seja de uma força prodigiosa, como nós somos com uma sucessão de impulsos similares; porque os nervos do sensórios não (se eu posso usar a expressão) adquirem um hábito de repetição do mesmo sentimento de uma maneira tão grande quanto a continuá-lo por mais tempo do que a sua causa está em ação; além disso, todos os efeitos que eu atribui à expectativa e surpresa na seção 11 não podem ter lugar em uma parede nua.


[225]Seção XIV A Opinião de Locke sobre a Escuridão, Considerada


É a opinião do sr. Locke que a escuridão não é naturalmente uma ideia de terror; e que, embora uma luz excessiva seja dolorosa para o sentido, o excesso maior de escuridão não é, de maneira nenhuma, problemático. De fato, em outro lugar, ele observa que, uma vez uma cuidadora (nurse) ou velha tendo associado as ideias de fantasmas e duendes com aquela de escuridão (darkness), a noite, para sempre, tornou-se dolorosa e horrível para a imaginação. A autoridade desse grande homem é, sem dúvida, tão grande quanto aquela de qualquer homem pode ser, e parece colocar-se no caminho do nosso princípio geral.2 Nós temos considerado a escuridão como uma causa do sublime; e, durante todo o tempo, temos considerado o sublime como dependente de alguma modificação de dor ou terror: de maneira que, se a escuridão não for dolorosa ou terrível para ninguém, quem não tenha suas mente desde cedo maculada por superstições, ela não pode ser fonte do sublime para ele. Mas, com toda deferência a uma autoridade tão grande, parece-me que uma associação que ocorre em toda a humanidade pode tornar a escuridão terrível; pois em escuridão completa é impossível saber em que grau de segurança nós estamos; nós somos ignorantes dos objetos que nos circundam; nós podemos a cada momento colidir contra alguma obstrução perigosa; nós podemos cair em um precipício ao primeiro passo que nós dermos; e se algum inimigo se aproxima, nós não sabemos em que região (quarter) defender a nós mesmos; em um tal caso, a força não é proteção certa; a sabedoria pode agir apenas por palpite (guess); o mais ousado fica atordoado, e aquele quem suplica por [226]nada exceto a sua defesa é forçado a suplicar por luz.


Ζεὖ πἀτερ, ἀλλὰ σὺ ῥῡσαι ὑπ' ἠέρος υἶας Ἀχαιὢν;

Ποίησον δ' αἴθρην, δὸς δ' ὀφθαλμοἲσιν ἰδέσθαι;

Ἐν δὲ φάει καὶ ὄλεσσον….


Quanto à associação de fantasmas e duendes; certamente é mais natural pensar que a escuridão, sendo originalmente uma ideia de terror, foi escolhida como uma cena adequada para representações tão terríveis, do que tais representações tenham tornado a escuridão terrível. A mente do homem muito facilmente desliza para dentro de um erro do primeiro tipo; mas é muito difícil que o efeito de uma ideia tão universalmente terrível em todos os tempos e em todos os países, como a escuridão, possivelmente poderia ser devida a um conjunto de história inúteis, ou a alguma causa de uma natureza tão trivial e de uma operação tão precária.


Seção XV Escuridão, Terrível em sua Própria Natureza


Talvez possa aparecer na investigação que negrura (blackness) e escuridão são de alguma maneira dolorosas pela sua operação natural, independentemente de quaisquer associações que sejam. Eu tenho de observar que as ideias de escuridão e negrura são exatamente a mesma; e elas diferem apenas nisto, que a negrura é uma ideia mais confinada. O sr. Cheselden deu-nos uma história muito curiosa de um menino que tinha nascido cego e continuado assim até que ele tivesse treze ou quatorze anos de idade; então ele foi operado por causa uma catarata, operação pela qual ele recebeu sua vista. Entre muitos particulares notáveis que acompanharam às suas primeiras percepções e julgamentos sobre objetos visuais, Cheselden diz-nos que a primeira vez que o menino [227]viu um objeto preto, ele deu-lhe grande desconforto; e que algum tempo depois, em consequência de ver uma mulher negra, ele foi atingido com grande terror diante da visão. O horror, nesse caso, escassamente pode ser suposto surgir a partir de qualquer associação. Pelo relato, o menino parece ter sido particularmente observador e sensível para a idade dele; e, portanto, é provável, se o grande desconforto que ele sentiu à primeira vista do preto tivesse surgido a partir de sua conexão com quaisquer outras ideias desagradáveis, ele teria observado e mencionado. Pois uma ideia, desagradável apenas por associação, tem a causa do seu efeito ruim sobre as paixões suficientemente evidente à primeira impressão; em casos ordinários, de fato, isso frequentemente é perdido; mas isso é porque a associação original foi feita muito cedo, e a impressão consequente repetida frequentemente. Em nosso caso, não houve tempo para um semelhante hábito; e não há razão para pensar que os efeitos ruins do preto sobre a imaginação dele fossem mais devidos a essa conexão com quaisquer ideias desagradáveis, do que os bons efeitos das cores mais alegres fossem derivados a partir da conexão delas com as agradáveis. Provavelmente ambas tiveram seus efeitos a partir de suas operações naturais.


Seção XVI Porque a Escuridão é Terrível


Pode ser que valha a pena examinar como a escuridão pode operar de maneira tal quanto a causar dor. É observável que, ainda enquanto nós recuamos a partir da luz, a natureza assim maquinou, que a pupila é alargada pelo retração da íris, em proporção ao nosso retrocesso. Agora, em vez de declinar disso apenas um pouco, suponha [228]que nos retiremos inteiramente a partir da luz; é razoável pensar que a contração das fibras radiais da íris seja proporcionalmente maior; e que essa parte venha a ser tão contraída pela grande escuridão quanto a tensionar os nervos que a compõem além do seu tom natural e, através disso, produzir uma sensação dolorosa. Parece certo que haja uma semelhante tensão, enquanto nós estamos envolvidos em escuridão; pois em um semelhante estado, enquanto o olho permanece aberto, há um esforço (nisus) contínuo para receber luz; isso é manifesto a partir dos clarões (flashes) e aparências luminosas que, nessas circunstâncias, frequentemente parecem brincar diante dela; e o qual nada pode ser, exceto o efeito de espasmos, produzidos pelos seus próprios esforços na busca do seu objeto: vários outros impulsos fortes produzirão a ideia de luz no olho, além da substância mesma da luz, como nós experienciamos em muitas ocasiões. Alguns, quem admitem ser a escuridão uma causa do sublime, inferirão, a partir da dilatação da pupila, que um relaxamento pode ser produtivo do sublime assim como uma convulsão; mas, eu acredito, eles não consideram que, embora o anel circular da íris seja em algum sentido um esfíncter, o qual possivelmente pode ser dilatado por um simples relaxamento, contudo, em um aspecto ele difere de dos outros esfíncteres do corpo, que ele é dotado de músculos antagonistas, os quais são as fibras radiais da íris: logo que o músculo circular começa a relaxar, essas fibras, carecendo do seu contrapeso, são forçadamente arrastadas de volta, e abrem a pupila a uma amplidão considerável. Mas embora nós não estejamos informados disso, eu acredito que qualquer um descobrirá, se ele abre seus olhos e faz um esforço para enxergar em um lugar escuro, que uma dor muito perceptível segue-se. E eu tenho ouvido algumas damas observarem que, após terem [229]trabalhado por um longo tempo sobre um chão preto, os olhos dela ficaram tão doloridos e enfraquecidos, que eles dificilmente conseguiam enxergar. Talvez possa ser objetado a essa teoria do efeito mecânico da escuridão que os efeitos ruins da escuridão ou negrura parecem antes mentais do que corporais: e eu admito que é verdadeiro que eles sejam assim; e assim são todos os que dependem das afeições das partes mais finas do nosso sistema. Os efeitos ruins do clima ruim frequentemente não aparecem de outra maneira senão em uma melancolia e desânimo (dejection) de espíritos; embora, sem dúvida, nesse caso, os órgãos corporais sofram primeiro e a mente através desses órgãos.


Seção XVII Os Efeitos da Negrura


A negrura (blackness) é apenas uma escuridão parcial; e, portanto, ela deriva uma parte dos seus poderes a partir de ser mista e circundada por corpos coloridos. Em sua própria natureza, ela não pode ser considerada como uma cor. Corpos negros, não refletindo nenhum ou apenas poucos raios de luz, com respeito à visão, são apenas tantos espaços vazios, dispersos entre os objetos que nós vemos. Quando o olho ilumina sobre uma dessas vacuidades, após ter sido mantido em algum grau de tensão pelo jogo das cores adjacentes sobre ele, ele subitamente cai em um relaxamento; para fora do qual ele como que se recupera subitamente por um salto convulsivo. Para ilustrar isso: consideremos que quando nós pretendemos sentar em uma cadeira, e descobrimo-la muito mais baixa do que era esperado, o choque é muito violento; muito mais violento do que poderia ser considerado a partir de uma queda tão leve quanto a diferença entre uma cadeira e outra possivelmente pode produzir. Se, após descermos um lance de escadas, nós tentamos [230]inadvertidamente darmos outro passo na maneira dos anteriores, o choque é extremamente rude e desagradável: e por nenhuma arte nós causamos um choque pelos mesmos meios quando nós o esperamos e preparamos. Quando eu digo que isso é devido a ter a mudança contrária à expectativa; eu não quero dizer apenas quando a mente espera. Eu quero dizer, da mesma maneira, que quando algum órgão do sentido é afetado por algum tempo de alguma maneira única, se ele for subitamente afetado de outra maneira, aí se segue um movimento de convulsão; uma convulsão tão grande como é causada quando alguma coisa acontece contra a expectativa da mente. E embora possa parecer estranho que uma mudança tão grande quanto essa produza um relaxamento que imediatamente deveria produzir uma convulsão súbita; é ainda mais certamente dessa maneira, e assim em todos os sentidos. Todos sabem que o sono é um relaxamento; e que o silêncio, onde nada mantenha os órgãos da audição em ação, é, no geral, o mais adequado para causar esse relaxamento; contudo, quando um tipo de sons murmurantes disponham um homem a dormir, que esses sons cessem imediatamente, e que a pessoa desperte imediatamente; quer dizer, as partes são fortalecidas subitamente e ele despertas. Isso eu mesmo tenho frequentemente esperado, e tenho ouvido o mesmo ao observar pessoas. De uma maneira similar, se uma pessoa em plena luz do dia estivesse caindo no sono (falling asleep), introduzir uma escuridão súbita evitaria o sono dela por esse momento, embora o silêncio e a escuridão em si mesmos, e não subitamente introduzidos, sejam muito favoráveis a ele. Isso eu conheci apenas por conjectura sobre a analogias dos sentidos quando eu primeiro compilei essas observações; mas desde então eu experienciei-as. E eu frequentemente tenho experienciado, e assim têm mil outros, que, na primeira inclinação na direção do sono, nós temos sido subitamente despertados com um sobressalto muito violento; e que esse sobressalto foi geralmente [231]antecedido por um tipo de sonho da nossa queda em um precipício; de onde esse movimento estranho surge, exceto a partir do relaxamento súbito demais do corpo, o qual, por algum mecanismo na natureza, restaura-se como um esforço rápido e vigoroso do poder de contração dos músculos? O sonho mesmo é causado por esse relaxamento; e ele é de uma natureza uniforme demais para ser atribuído a qualquer outra causa. As partes relaxam-se subitamente demais, o que é da natureza da queda; e esse acidente do corpo induz essa imagem na mente. Quando nós estamos em um estado confirmado de saúde e vigor, quando todas as mudanças são então menos súbitas, e menos extremas, nós raramente podemos reclamar dessa sensação desagradável.


Seção XVIII Os Efeitos da Negrura Moderada


Embora os efeitos do negro (black) sejam originalmente dolorosos, nós não devemos pensar que eles sempre continuam a sê-lo. O costume reconcilia-nos com tudo. O costume reconcilia-nos com tudo. Após nós termos ficado acostumados com o uso de objetos negros, o terror abate-se, e a lisura (smoothness) e o lustro (glossiness), ou algum outro acidente agradável dos corpos assim coloridos, suavizam em alguma medida o horror e a severidade (sternness) da sua natureza original; contudo, a natureza da impressão original ainda continua. O negro sempre terá alguma coisa de melancolia nele, porque o sensório sempre considerará a mudança para ele a partir de outras cores violenta demais; ou, se ele ocupa o inteiro escopo da visão, ele então será escuridão; e o que foi dito da escuridão será aplicável aqui. Eu não pretendo entrar em tudo que poderia ser dito para ilustrar essa teoria dos efeitos da luz e [232]escuridão; tampouco eu examinarei todos os efeitos diferentes produzidos pelas várias modificações e misturas dessas duas causas. Se as observações precedentes têm qualquer fundamento na natureza, eu concebo-as muito suficientes para explicar todos os fenômenos que podem surgir a partir de todas as combinações do preto com as outras cores. Entrar em cada particular, ou responder a cada objeção, seria um labor sem fim. Nós apenas temos seguido as estradas mais principais; e nós deveremos observar a mesma conduta em nossa investigação da causa da beleza.


Seção XIX A Causa Física do Amor


Quando nós temos diante de nós aqueles objetos que excitam amor e complacência, o corpo é afetado, até onde eu pude observar, exatamente da seguinte maneira: a cabeça reclina-se alguma coisa para um lado; as pálpebras ficam mais fechadas que o usual, e os olhos rolam gentilmente com uma inclinação para o objeto; a boca fica um pouco aberta, e a respiração arrasta-se lentamente, com um suspiro baixo de vez em quando; o corpo todo fica calmo, e as mãos caem indolentemente para os lados. Tudo isso é acompanhado com um senso interior de enternecimento (melting) e langor (languor). Essas aparências são sempre proporcionais ao grau de beleza no objeto e à sensibilidade do observador. E essa gradação a partir do cume mais elevado de beleza e sensibilidade, mesmo para a mais baixa mediocridade e indiferença, e seus efeitos correspondentes, deveriam ser mantidas em vista, senão esta descrição parecerá exagerada, o que certamente ela não é. Mas a partir dessa descrição é quase impossível não [233]concluir que a beleza age através do relaxamento dos sólidos do sistema inteiro. Há todas as aparências de um semelhante relaxamento; e um relaxamento um pouco abaixo do tom natural parece-me ser a causa de todo prazer positivo. Quem é um estranho àquela maneira de expressão, tão comum em todos os tempos e em todos os países, de ser amaciado (softened), relaxado, enervado, dissolvido, derretido pelo prazer? A voz universal da humanidade, fiel aos seus sentimentos, concorre na afirmação desse efeito uniforme e geral: e embora alguma instância estranha e particular possa ser encontrada, na qual apareça um grau considerável de prazer positivo, sem todas as características do relaxamento, não temos de por isso rejeitar a conclusão que nós tínhamos extraído a partir da concorrência de tantos experimentos; mas nós ainda temos de a reter, subjuntando as exceções que podem ocorrer de acordo com a judiciosa regra estabelecida por sir Isaac Newton no livro terceiro da sua Optics. Eu acredito que a nossa posição aparecerá confirmada além de qualquer dúvida razoável, se nós pudermos mostrar que tais coisas como nós já observamos serem os constituintes genuínos da beleza têm, cada uma delas, separadamente tomadas, uma tendência natural para relaxarem as fibras. E se tem de ser permitido a nós, que a aparência do corpo humano, quando todos os constituintes estão unidos juntos diante do sensório, favorece adicionalmente essa opinião, nós podemos nos aventurar, eu acredito, a concluir que a paixão chamada de amor é produzida por esse relaxamento. Pelo mesmo método de raciocínio que nós usamos na investigação das causas do sublime, nós podemos igualmente concluir que, como um objeto belo apresenta-se ao sentido, através da causação de um relaxamento do corpo, produz a paixão de amor na mente; assim, se por quaisquer meios a [234]paixão deveria primeiro ter sua origem na mente, um relaxamento dos órgãos exteriores certamente se seguirá em um grau proporcional à causa.


Seção XX Porque a Lisura é Bela


É para explicar a causa verdadeira da beleza visual que eu convoco assistência dos outros sentidos. Se parece que a lisura (smoothness) é a causa principal de prazer para o tato (touch), paladar (taste), olfato (smell) e audição (hearing), ela será facilmente admitida um constituinte da beleza visual; especialmente como nós temos revelado, que essa qualidade é encontrada quase sem exceção em todos os corpos que, por consentimento geral, são considerados belos. Não pode haver dúvida de que os corpos que são ásperos (rough) e angulares, excitam e titilam (vellicate) os órgãos da sensação, causando uma sensação de dor, a qual consiste na tensão ou contração violenta das fibras musculares. Pelo contrário, a aplicação de corpos lisos relaxa, carícia gentil com uma mão lisa acalma dores e espasmos (cramps) violentos, e relaxa as partes sofredoras da sua tensão não natural; e, portanto, muito frequentemente, ela não tem efeito desprezível na remoção de inchaços (swellings) e obstruções. O sentido do tato (feeling) também é altamente gratificado com corpos lisos. Uma cama colocada lisamente, e suave, quer dizer, onde a resistência é de qualquer maneira desconsiderável, é uma grande luxuria, disposta para um relaxamento universal, e induzindo além de tudo o mais aquela espécie dele que é chamada de sono (sleep).


Próxima seção


ORIGINAL:

BURKE, E. A Philosophical Inquiry into the Origin of our Ideas of the Sublime and Beautiful. IN:______. The Works of the Right Honorable Edmund Burke. Volume I. Boston: Little, Brown, and Company, 1877. pp. 219-234. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofrighthono01burk/page/219/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1[223]Parte II, seção 10.

2[225]Parte II, seção 3.

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