segunda-feira, 28 de junho de 2021

AC, Antes dos Computadores 5 Mais Sobre o Alfabeto

AC, Antes dos Computadores: Sobre a Tecnologia da Informação, da Escrita à Era do Dado Digital


Por Stephen Robertson


Capítulo anterior


[49]5 Mais Sobre o Alfabeto


Nós vimos quão importante foi o alfabeto para muitos desenvolvimentos posteriores em tecnologia da informação. Uma vez que nós temos um pequeno alfabeto fornecendo a unidade básica a partir da qual nos podemos construir o texto, muitas outras coisas tornam-se muito mais fáceis ou simplesmente possíveis. Dentre as invenções que eu discuti até agora, os exemplos mais marcantes são o da impressão de tipos móveis e a telegrafia.

Neste capítulo, eu examinarei mais quatro aspectos do alfabeto e da escrita alfabética. O primeiro é a maneira pela qual nós separamos palavras quando escrevemos, principalmente com espaços. O segundo resulta diretamente da telegrafia, e é a ideia de codificar letras ou caracteres com pulsos elétricos. Eventualmente, um pouco abstraído do meio especifico, os pulsos tornar-se-ão o que nós conhecemos como bits (as unidades básicas do dado digital, como nós veremos depois). O terceiro nós já vimos brevemente, com o telégrafo impresso de Hughes: é o teclado, com cada tecla representando uma letra ou outro caractere. Finalmente, eu discutirei a noção abstrata de um ‘caractere’, a qual tanto eu quanto as histórias que eu descrevi inventamos para muito simplificar. Mas primeiro, uma pequena anedota.

Meu pai foi um intelectual, acadêmico, escritor, nascido em 1911. Ele escreveu durante toda a vida – livros, artigos, análises, cartas, poemas. Sua caligrafia era quase ilegível; seu método principal de escrita era a máquina de escrever mecânica. Ele era um competente, ainda que às vezes impreciso, digitador – eu acredito que ele ensinou a si mesmo. A despeito de não ser em absoluto mecanicamente inclinado, ele chegou a alguma acomodação com suas máquinas de escrever – ele até aprendeu a mudar a fita (ribbon), o que leitores de uma certa idade podem lembrar exatamente de como era uma operação complicada. Como um escritor, ele tendia a fazer muito rascunho e reescrita. Então, quando mais tarde em sua vida, processadores de texto relativamente baratos tornaram-se disponíveis, ele eventualmente adquiriu um. Ele estava provavelmente no final de seus setenta ou oitenta anos.

Como com a máquina de escrever, ele tornou-se muito bom em fazer o processador de texto realizar o que ele desejava. Eu não lembro da forma, mas ele tinha uma [50]tela somente para texto de verde monocromático, um disquete, e um teclado mais ou menos convencional. Nenhum mouse; nem janelas: combinações especiais de teclas fariam coisas como mover o cursor de um ponto a outro da tela, ir ao final do texto, deletar palavras inteiras, salvar um documento. Tipicamente ele abriria um documento no qual ele já fizera muito trabalho, iria ao final, e começaria a adicionar a ele ou editar o trabalho dos dias anteriores. Quando abrindo um semelhante documento e indo ao final, ele frequentemente descobria que o cursor não estava efetivamente no final do texto visível, mas consideravelmente mais abaixo e à direita. Ele teria de usar as teclas de controle do cursor para retornar ao ponto onde ele queria estar.

Eu descobri que, quando deletando palavras ao final do texto existente (uma coisa que ele fazia muito frequentemente), ele não deletaria os espaços entre elas, ou os caracteres de nova linha – assim eles acumulariam no final de seu texto. É claro, eles eram invisíveis – tanto quando nos dizia respeito, tudo que ele tinha abaixo do texto era papel em branco. A ideia de que esse espaço aparentemente vazio estava efetivamente parcialmente cheio de caracteres invisíveis é realmente muito estranha – não admira que ele tivesse dificuldade para a reconhecer. Mas eu apenas tinha de indicar a ele que ele também poderia deletá-los.


Espaçamento de palavras


No inglês escrito de hoje, como na maioria dos sistemas escritos baseados em alfabetos, é normal separar as palavras que nós escrevemos, através de espaços – para não mencionar todas as outras coisas que podem vir entre palavras, tais como sinais de pontuação. Isso vem tão naturalmente para nós que não fazer assim parece perverso ao extremo. Mas esse nem sempre foi o caso. O período muito inicial da escrita não separava as palavras em absoluto, e até o período romano, embora alguma escrita marcasse as fronteiras entre palavras de alguma maneira, isso não era sempre ou consistentemente aplicado.

Não foi até os séculos VI e VII d.C. que monges de monastérios irlandeses começaram a fazer uso sistemático de espaçamento. Esse foi um período quando a cultura escrita do Ocidente foi principalmente mantida viva em monastérios, nas bibliotecas dos quais livros eram copiados à mão. Uma explicação um pouco irreverente da introdução de espaço entre palavras é que os monges irlandeses não eram muito bons em latim (a linguagem na qual todos os livros eram escritos). [51]Mas Paul Saenger, em seu livro Space Between Words: the Origins of Silent Reading, vincula a prática do espaçamento entre palavras à propagação da alfabetização e à prática de leitura silenciosa, na cabeça de alguém. Novamente, isso vem tão obviamente a nós na alfabetização universal do século XXI que é difícil imaginar a ausência dessa prática. Mas se nós retornássemos à Grécia antiga por um momento, a escrita era vista sob uma luz muito diferente. Um texto escrito era alguma coisa um pouco semelhante à nossa noção atual de uma partitura musical escrita: um roteiro (script) para um leitor especializado interpretar e ler em voz alta para uma audiência. Em um semelhante contexto, a noção de o tornar fácil para leitores simplesmente não aparece.

A propagação do espaçamento entre palavras deve muito a um monge inglês. No final do século VIII, Alcuíno, um monge bem conhecido, foi convidado pelo Rei Carlos Magno dos Francos para ir à sua corte em Aachen, a fim de educar os filhos de Carlos Magno. Entre as muitas contribuições para a cultura da corte e mais amplamente, Alcuíno contribuiu para o desenvolvimento de uma escrita altamente legível (o que nós poderíamos chamar de um tipo de letra (typeface)), minúscula carolíngia, e escreveu um manual de estilo escrito. Ele cobria muitas das coisas que nós agora tomamos como certas, incluindo pontuação, parágrafos, maiúsculas iniciais para sentenças – assim como espaço entre palavras.

Carlos Magno encorajou e presidiu um novo período de alta cultura, e eventualmente tornou-se o homem mais poderoso na Europa, reinando como Imperador sobre uma grande área. Dessa maneira a cultura e prática de sua corte espalharam-se por toda parte, e o uso dos espaços espalhou-se para outras escritas e linguagens. Abaixo nós veremos como o espaçamento entre palavras entra na era das telecomunicações.


Codificação das letras


Embora todos os sistemas de telégrafo dependem de ter um pequeno alfabeto, o homem que viu a conexão mais claramente foi Samuel Morse, junto com seu colaborador Alfred Vail. Seu grande salto adiante foi ver que nós podemos levar o processo uma etapa adiante, e trabalhar com um ‘alfabeto’ de apenas dois elementos: um pulso elétrico curto e um longo, geralmente referidos como ponto (dot) e traço (dash). O passo é simples, requerendo apenas um pequeno livro de código (codebook), e torna muito mais fácil pensar sobre processamento elétrico de texto.

Morse e Vail estavam muito conscientes da impressão de tipo móvel como inspirada [52]por algumas as mesmas considerações. O método de codificação Morse envolvia códigos de diferentes comprimentos para letras diferentes, e eles tiveram a inspiração, a qual é atualmente a base para alguns dos métodos modernos de compressão de dados, de que ele seria o mais eficiente se as letras mais comuns tivessem códigos curtos. Assim Vail visitou a oficina de tipógrafo (printer) de um periódico para contar os estoques de cada letra que eles mantinham – porque tipógrafos sabem muito bem exatamente que estoques manter para satisfazer a maioria dos requerimentos de impressão.

A ideia de codificação das letras nesse tipo de maneira passou por um número de versões desde a época dele. Os pulsos curtos e longos de Morse foram projetados para permitir os humanos codificarem e decodificarem facilmente, mas nós podemos pensar neles como qualquer par de estados distinguíveis (por exemplo, cima / baixo, ligado / desligado, preto / branco). Em seguida, nós precisamos de um número desses, espalhados no tempo ou espaço, em grupos. Um livro de código lista cada grupo distinto com o objeto que ele representa – por exemplo, o livro de código de Morse diz que a letra A é representada pelo grupo traço-ponto, e D por traço-ponto-ponto. Nesse caso, as coisas que nós queremos representar são as letras de nosso alfabeto usual.

Se nós pensarmos nesse par de elementos como ele mesmo um ‘alfabeto’ – em abstrato, em vez de em uma específica forma física – o que nós temos é o moderno conceito de um ‘bit’, um dígito binário. Usualmente, hoje em dia, nós pensamos nos dois estados como 0 e 1. Assim a letra A em Morse é 01, e D é 100. (o código Morse usa números diferentes de bits para letras diferentes, mas a maioria dos códigos aloca códigos em grupos de tamanho fixo.)

Efetivamente, Morse não foi o primeiro a usar um semelhante esquema de código binário para letras. O familiar sistema Braille de pontos em relevo (embossed dots) no papel (inventado por Louis Braille), projetado para permitir a cegos lerem com seus dedos, precede o código Morse por uma década ou aproximadamente. Os pontos estão em grupo de seis – quer dizer, o grupo é um arranjo retangular com seis posições, em cada uma das quais o ponto está presente ou ausente. O livro de código especifica que pontos estão efetivamente presentes para cada letra.

O posterior código de Baudot (inventado por Émile Baudot) usado para telex é um código de 5 dígitos de comprimento fixo. Um pequeno calculo mostrará a você que isso resulta em 32 combinações diferentes – o suficiente para as 26 letras do alfabeto latino, embora não para maiúsculas e minúsculas. Efetivamente isso não é bom o suficiente, mesmo se nós não nos importássemos com o tamanho da letra – ele não permite quaisquer marcas de pontuação ou os dígitos (Morse tem códigos para os dez dígitos e um ou dois para marcas de pontuação). Por essa razão o código de Baudot inclui um código shift – um pouco como [53]a tecla shift no teclado, ou mais precisamente uma tecla caps-lock – o que duplica os sentidos dos códigos restantes. O Braille usa um método similar para aumentar a variedade de caracteres representados.


Codificação para a era moderna


Conforme nós entravamos na era do computador nos anos 1960, novos sistemas de codificação forma definidos. De fato, houve dois principais códigos rivais, EBCDIC (pronunciado ebsidik, para máquinas IBM) e ASCII (pronunciado askey, para todos os outros computadores). Eu deixarei EBCDIC de lado, mas ASCII vale alguma discussão. O American Standard Code for Information Interchange é um sistema mais ambicioso do que o de Baudot, e foi usado para múltiplos propósitos na transmissão e armazenamento de dados no começo da era do computador, e de fato ainda está em uso. É um código de sete bits, permitindo um total de 132 combinações. Essas incluem as 26 letras, tanto maiúsculas quando minúsculas (fazendo 52), os dez dígitos (62), um número significante de marcas de pontuação e símbolos especiais (96), e 32 códigos para propósitos de controle. Variações menores desse sistema foram definidas para várias linguagens europeias com características não vistas em Inglês, por exemplo, caracteres acentuados. Variação mais sistemática é fornecida pelo código conhecido como ANSI, o qual se originou a partir do ASCII, mas tem páginas de código diferentes para diferentes linguagens. Cada página de código fornece uma codificação completa de um conjunto de caracteres para uma linguagem – mas o computador precisa ‘saber’ que página de código é usado para interpretar o ANSI corretamente.

O esquema de codificação conhecido como Unicode, o qual está atualmente se tornando o padrão para muitos propósitos, é um conjunto muito maior. Ele inclui não apenas caracteres para outros alfabetos que não o latino, por exemplo, grego, russo, arábico, mas também caracteres para linguagens não alfabéticas, por exemplo, japonês, chinês. Isso é um desenvolvimento fascinante: a ideia de uma codificação de caracteres somente poderia ter sido desenvolvida no contexto de um pequeno alfabeto; mas dada a ideia, agora se torna possível aplicá-la a conjunto de caracteres muito maiores. O Unicode em sua forma original completa requer 16 ou 32 bits para cada caractere, mas há codificações alternativas para o mesmo código, as quais permitem ao antigo conjunto ASCII de caracteres ser representado como tradicionalmente era, em oito bits. (Sim, eu sei que eu disse sete. O ASCII é um código de sete dígitos, mas uma vez que a maioria dos computadores opera com múltiplos de oito bits, o ASCII comumente é implantado em oito bits.)

[54]Embora ainda permaneçam algumas linguagens e escritas no mundo que ainda não foram incorporados no esquema, mesmo assim nós parecemos (no começo do século XXI) estar aproximando-nos do estado onde qualquer caractere de texto em qualquer linguagem pode ser representado através de um código binário padrão. Isso é uma realização notável.


O último alfabeto


O bit – o dígito binário, um caractere de um ‘alfabeto’ de duas letras – poderia ser visto como o estágio final de um processo que se iniciou quando nós começamos a investigar sistemas de escrita, alguma coisa como cinco milênios e meio atrás. No começo do terceiro milênio a.C., nós compreendemos que podemos representar qualquer registro através de dígitos. Não apenas linguagem, mas também, como nós veremos nós próximos capítulos, números, imagens, sons, imagens em movimento, e assim por diante. O alfabeto universal consiste em apenas dois símbolos, um ‘zero’ e um ‘um’.

Mas não é apenas uma questão de representação. Nós já vimos como o alfabeto auxiliou-nos em direção a novas maneiras de fazer coisas com informação. A impressão, e dessa maneira a revolução da publicação que a seguiu; e o código Morse, e a revolução telegráfica que o seguir: cada um desses teria sido inconcebível se nós não tivéssemos inventado o alfabeto em primeiro lugar. Agora, na nova revolução, as mudanças maiores resultam das maneiras de processar informação: de sistemas e métodos e mecanismos que operam com informação bastante na maneira como um tear (loom) opera sobre o material bruto do fio para produzir algo muito diferente, tecido. O envio de mensagens foi apenas uma semelhante operação; mas as possibilidades são quase infinitas.


A estranha história do teclado


Eu estou escrevendo este texto através de um aparelho que se tornou tão comum que ele quase passa sem ser notado: um teclado QWERTY. Isso é uma outra coisa que o alfabeto tornou possível. Embora meu controle possua mais do que 26 teclas, sua existência depende do pequeno número de caracteres possíveis – um teclado com uma tecla para cada um dos milhares de caracteres chineses distintos é bastante inconcebível.

Nós tivemos teclados para instrumentos musicais por séculos. Mas a [55]ideia de associar teclas com letras do alfabeto (ou com números, chegaremos a isso) esteve por aí desde o meio do século XIX pelo menos. Como nós já vimos, Hughes usou um teclado semelhante ao do piano para sua máquina semelhante ao telex. Várias tentativas foram feitas para desenvolver máquinas de escrever desde o começo daquele século.

Mas o desenvolvimento de uma máquina de escrever efetiva e utilizável teve de esperar até um pouco depois. O inventor primário foi Christopher Sholes; ao longo de um período de 1860 a 1890, ele e Remington, a companhia para a qual ele trabalhava e eventualmente vendeu, impulsionou a máquina de escrever do status de uma daquelas invenções vitorianas fascinantes mas impraticáveis àquele de um equipamento de negócio comum. Para fazer isso, Sholes teve de resolver um número de problemas mecânicos complexos. O design e o traçado do teclado que ele produziu, como um resultado do confronto com esses problemas mecânicos, está conosco até hoje. Se Sholes tivesse em andar em nosso escritório do século XXI, uma das poucas coisas que ele reconheceria deveria ser a sequência QWERTY em nosso teclado de computador. Quer dizer, isso é tão ainda mais extraordinário do que você possivelmente poderia ter imaginado.


Figura 2 Teclado QWERTY básico (como barras intercaladas de uma máquina de escrever tradicional). Diagrama: o autor.


Não é apenas sobre da sequência de letras que nós estamos falando aqui. Olhe para a figura 2 (se você um teclado por perto, compare-o ao do diagrama). Em particular, olhe para a maneira como as sucessivas filas de teclas estão deslocadas uma [56]da outra. Note que a linha ZXCVB está deslocada da linha ASDFG por uma tecla de largura; em outras palavras, Z está a meio caminho entre A e S. Também a linha QWERTY tem um deslocamento de meia linha da linha numérica. Mas o deslocamento entre a linha QWERTY e a linha ASDFG é – que? – um quarto de uma tecla? Mas por que diabos?

Não, mais certamente não é por qualquer razão ergonômica ou de facilidade de uso (ease-of-use); de fato, é bem difícil de aprender a usar. A razão é puramente mecânica. Imagine que cada tecla descansa no final de uma barra de metal, a qual surge das costas da máquina (onde o papel teria estado). Essas barras teriam de ser retas e paralelas – ou o movimento delas não seria verdadeiro quando pressionadas – e não podem ser permitidas interferir uma com a outra. Assim, elas têm de se cuidadosamente intercaladas. A barra Q vai entre a barra 1 e a barra 2, a W entre 2 e 3, isso é fácil. Mas agora a barra A tem de ir entre a barra Q e a barra 2, S entre W e 3; e Z entre 2 e W, e assim por diante. Agora você vê porque isso teve de ser assim.

É exatamente possível que você tenha um teclado que não siga essa convenção deslocada (off-set). Alguns PDAs e outras máquinas pequenas, e tablets com teclados em tela, têm a sequência QWERTY mas ou não usa o deslocamento em absoluto, ou usam um deslocamento universal de meia tecla. Mesmo se você for (digamos) francês, e tenha um daqueles teclados onde a sequência de letras é AZERTY ou alguma variação a partir de Sholes, você ainda terá aqueles deslocamentos. Alguns teclados são divididos em duas partes, por razões ergonômicas associadas com a maneira que você posiciona suas mãos; mas eles ainda usam os deslocamentos de Sholes em cada metade.

Mas, você pode argumentar, meu teclado não tem mais aquelas barras de metal: de fato, você tem de ser de uma certa idade até para lembrar da existência delas. Hoje em dia, cada tecla opera seu próprio microinterruptor (microswitch), e elas poderiam ser arranjadas de qualquer maneira que escolhêssemos. Então, por que nós persistimos em usar esses deslocamentos? Bem, isso é parte da história.


Guerras de teclado


Entre os anos 1880 e 1890, várias companhias rivais de máquinas de escrever foram formadas, e um número de arranjos diferentes de teclados estavam em uso. Outra característica do teclado de Sholes é que quando eles introduziram minúsculas e maiúsculas, eles o fizeram através da familiar tecla shift – a qual [57]agora, é claro, era acompanhada por umas poucas imitadoras, como as teclas control CTRL e alternate ALT. Mas, pelo menos uma das companhias rivais precisamente adicionou mais teclas, assim, aquelas letras maiúsculas e minúsculas ficaram em teclas separadas.

Conforme a escrita em máquinas de escrever tornava-se mais comum, escolas para treinar datilógrafos foram estabelecidas, e vários sistemas de dedilhado foram inventados para os diferentes teclados para ajudarem os datilógrafos a trabalharem mais rápido – os primeiros datilógrafos eram quase certamente datilógrafos de um ou dois dedos. Afirmações e contestações eram feitas sobre as velocidades relativas dessas combinações diferentes. E muito em breve elas tornaram-se competições.

Um método de 8 dedos foi inventado por Margaret Longley, quem administrava uma escola, no começo dos anos 1880. Ela aplicou esse método a diferentes formas de máquinas de escrever – mas, como aplicado ao teclado Sholes, é similar ao dedilhado ensinado hoje em dia. Frank McGurrin, um estenógrafo de tribunal, usou-o com grande habilidade em uma Remington inicial. Outro estudante e posterior diretor na escola Longley, Louis Traub, usou um dedilhado similar na máquina Caligraph com um teclado de seis filas.

A primeira competição, em 1888, lançou Traub contra McGurrin. Mas McGurrin tinha uma carta na manga. O truque era que ele descobrira que poderia memorizar o traçado do teclado, não olhando para o teclado enquanto datilografando, mas para o papel (ele também podia datilografar de olhos vendados). Ele inventou o que nós conhecemos como digitação (touch-typing).

Isso revelou-se ser muito bom. McGurrin venceu completamente Taub, quem logo depois mudou para uma Remington. McGurrin prosseguiu para vencer muito mais competições; e o teclado nunca mais olhou para trás. Gradualmente, as companhias rivais adotaram o traçado Sholes. Ter um único sistema, um traçado padrão de teclado e um método de datilografia, foi uma grande vantagem do ponto de vista do trabalho. Há um relato encantador desse evento no ensaio The Panda’s Thumb of Technology, por Stephen Jay Gould, publicado na coleção Bully for Brontosaurus.

No século XX, era comum denegrir o teclado de Sholes, e afirmar que era muito ineficiente e não ergonômico para o datilógrafo (até que foi projetado para desacelerar o datilógrafo, o que efetivamente não é o caso). Um sistema rival foi projetado em bases ergonômicas, o teclado Dvorak, o qual possui a mesma estrutura básica que o Sholes mas um arranjo muito diferente das letras. Em uma série de experimentos, foi demonstrado que Dvorak era mais fácil de aprender e mais rápido de datilografar que o Sholes. Contudo, [58]o teclado Shoes estava então tão bem estabelecido que se provou impossível de desalojar. De fato, os experimentos (um pouco como a competição de 1888) eram um pouco suspeitos como evidência científica; provavelmente as diferenças não eram muito grandes. Além disso, Dvorak não fez nada em absoluto quanto aos deslocamentos, o que certamente era uma das fontes de problemas ergonômicos com o teclado Sholes.

Na segunda metade do século XX, nós vimos o desenvolvimento de (sucessivamente, a propósito) a máquina de escrever bola de golf (golf-ball typewriter) da IBM, o processador de texto, o PC, o laptop. Com cada um desses desenvolvimento, nós poderíamos, em princípio, ter abandonado Sholes e inventado alguma coisa que poderia ter sido melhor. Mas essa não é a maneira que as coisas funcionam: as tecnologias têm de coexistir; pessoas têm de mudar entre elas; pessoas têm de maximizar os benefícios que elas obtêm do investimento que colocaram em aprender alguma coisa. Se você for um datilógrafo experiente, seu dedos lembram-se não apenas das localizações das letras, mas também dos deslocamentos. Mesmo mover ASDFG um quarto de tecla para a direita, de maneira que todos os deslocamentos fossem de meias teclas, confundiria você.

Uma vez eu assinalei os deslocamentos para um homem com habilidade de digitação (touch-typing) que tinha conseguido transferi-las para um daqueles teclados de PDA minúsculos, de aproximadamente dez centímetros de largura. Os projetistas deste teclado retiveram o traçado QWERTY, mas (obviamente não esperando ninguém efetivamente digitar (touch-type) nele) tornaram todos os deslocamentos de meia tecla. A reposta instantânea a ele foi “Eu sabia que havia algo errado com ele!”

Todas essas coisas conspiraram para assegurar a persistência de quase todo aspecto do projeto de Sholes, incluindo os deslocamentos. Projetistas de laptops, com as limitações bastante severas de espaço deles, inventaram de seguir os deslocamentos de Sholes mas fazendo uso interessantes deles, ao mudar as formas das teclas nas extremidades laterais do teclado, de modo a caberem em um retângulo. O laptop no qual eu estou digitando exatamente agora tem uma tecla shift de tamanho normal na esquerda, próxima do \, próxima do Z, mas acima dela há uma tecla Caps Lock de um tamanho e meio próxima ao A, e uma tecla Tab de um tamanho e um quarto próxima ao Q. À direta, há uma tecla de Return que é um L de cabeça para baixo cobrindo duas fileiras, e uma tecla Backspace de um tamanho e um terço. No topo há uma fileira de teclas de função menores que o padrão, de modo que mais possa ser encaixado em uma fileira, com um pouco mais à direita abaixo.


[59]Outras linguagens


É claro, há alguma variação entre países e línguas. Idiomas que usam o alfabeto romano não têm de fazer muito para fazer Sholes funcionar para elas – talvez adicionar uns poucos acentos ou caracteres especiais. Alfabetos não romanos obviamente necessitam de mudança mais drástica; mas é realmente apenas uma questão de fazer substituições. Mas e quanto a linguagens não alfabéticas? O chinês, por exemplo, possui muito mais caracteres do que possivelmente poderiam ser representados em um teclado semelhante a Sholes.

Houve uma forma de máquina de escrever desenvolvida para o chinês. Ela consistia em uma bandeja (tray) de vários milhares de caracteres de metal em relevo (embossed), cada um em uma imagem espelho, como aqueles de uma máquina de escrever ocidental tradicional. Mas nesse caso os caracteres estão todos separados, não unidos a qualquer parte de maquinaria. A fim de datilografar um caractere, o datilógrafo tem de localizar um quadro móvel acima do caractere correto, então pressionar uma alavanca, o que causa o caractere ser erguido da bandeja e chocar-se contra a fita e papel. Embora fosse possível alcançar velocidades bem rápidas de datilografia (se mediado em palavras por minutos), ela requeria do datilógrafo treinar por uma dupla de anos.

Hoje em dia, na China e no Oeste, muito de semelhante trabalho é feito em computadores, com teclados ocidentais (ou seja, Sholes). Há uma dupla de diferentes maneiras de datilografar chinês em um teclado ocidental (envolvendo muitos pressionamentos de teclas por caractere e / ou menus), o que, obviamente, tem de ser aprendido. Mas essencialmente isso é muito mais fácil de fazer do que tentar construir uma representação direta do chinês em um teclado.


O que Sholes deveria pensar?


Retornemos, por um momento, à fantasia de comunicação através do tempo com Christopher Sholes.

Se você retornasse a 1877 e explicasse a Sholes que o projeto dele de teclado ainda estaria em uso no começo do milênio seguinte, a despeito do fato de que cada uma das restrições mecânicas que determinaram o projeto terem desaparecido, ele poderia ficar lisonjeado, mas provavelmente consideraria você um pouco louco. Se você acrescentasse que um teclado baseado no projeto dele estaria unido a praticamente qualquer aparelho semelhante a uma máquina de escrever no mundo, incluindo a China – ele certamente não teria dúvida de que você estava [60]comprovadamente insano.

Contudo, no começo do terceiro milênio d.C., tal é o caso.


O conceito de um caractere


Antes, eu fiz referência a ‘letras ou outros caracteres’. Nós já havíamos visto as letras do alfabeto e os dígitos dos sistemas de numeração arábico como caracteres, e invenções tais como a máquina de escrever ou esquema de codificação ASCII dão-nos caracteres extras tais como marcas de pontuação e símbolos de moedas. De vez em quando, um símbolo antigo é ressuscitado para um propósito inteiramente novo. Considere, por exemplo, o sinal @, o qual costumava ser usado para indicar o preço unitário de alguma mercadoria (‘2lbs margarina @ 4d por lb = 8d’, lb sendo um peso em libra e d sendo um penny na antiga moeda do Reino Unido). O @ agora foi assumido universalmente como sinal de endereço de e-mail e para outros usos.

Um caractere para o qual o ASCII tem um código (embora nem Morse nem Baudot tinham) é o famoso espaço entre palavras, o qual eu discuti antes neste capítulo. A esse respeito o ASCII, seguindo o Baudot antes dele e inspirado pela máquina de escrever, expandiu um pouco a noção de um caractere. Seguindo a barra de espaço na máquina de escrever (a qual é tratada muito como uma letra invisível), o ASCII define espaço como um caractere ‘imprimível’, distinto de caracteres de controle como newline ou tab. Agora nos tornamos completamente familiares com a ideia de que o espaço é apenas outro caractere. Além disso, a distinção ASCII entre caracteres imprimíveis e de controle agora parece bastante estranha, pelo menos para programadores de computador. Mesmo Tab ou Newline são apenas outros caracteres, com suas próprias teclas no teclado e seu próprio código no sistema de codificação.

Como um aparte, uma fonte imensa de confusão e problemas com máquinas resultou do fato de que, a despeito do ASCII, não tem havido nenhum acordo sobre que caractere deveria ser usado para representar o fim de uma linha. O ASCII tem dois, definidos como ‘retorno de carruagem (carriage return)’ (CR) e ‘alimentação de linha (line feed)’ (LF), ambos os termos agora sendo relíquias de máquinas de escrever tradicionais – um CR move-se de volta para o começo da linha na página digitada, e um LF avança uma linha abaixo na página. Arquivos no sistema operacional Windows têm linhas terminando com CRLF, no sistema UNIX a convenção é LF, e no Apple Mac costumava ser CR. E essa não é uma lista exaustiva das convenções que têm sido usadas!

[61]O ASCII também distingue claramente (como Morse fez antes) entre letras e números. A máquina de escrever Sholes por um lado tinha teclas de dígitos de 2-9 mas não para zero ou um; a convenção de máquinas de escrever era usar o ‘éle’ minúsculo para um e o ‘ô’ maiúsculo para zero.

Eu assumi, e tanto a máquina de escrever quanto o código ASCII encorajaram-se a assumir, que há coisas bem definidas, separáveis, chamadas de caracteres, não apenas em sistemas alfabéticos, mas em silabários e outros esquemas de escrita. Isso é algo como uma simplificação excessiva; nós podemos ver esquisitices mesmo no interior do ASCII, e mais ainda quando nós consideramos outras linguagens além do inglês. Efetivamente, muito do sistema de caractere mais limpo é o chinês: cada caractere é autocontido e ocupa um bloco quadrado na página – belamente simples, se você esquecer por um momento sobre o número de caracteres diferentes.

Uma esquisitice no ASCII é que ele tem dois códigos para cada letra inglesa: minúscula e maiúscula. O códio ASCII para ‘A’ é diferente daquele para ‘a’. Há alguma razão para isso – embora haja certas regras sobre quanto usar maiúsculas e quando usar minúsculas, essas regras não são claras ou inequívocas o suficiente para nós deixarmos a decisão para uma máquina. Assim, quando nós estamos datilografando, nós usamos a tecla shift para indicar uma letra maiúscula, e a codificação é feita de acordo.

Nós facilmente poderíamos ter decidido fazer da tecla shift um caractere no seu próprio direito, um código de controle dizendo para a máquina ‘Agora, vá de maiúscula’, ou para aplicar apenas ao caractere seguinte, ou ‘travando (locking)’ e requerendo um código correspondente ‘diminua novamente (down-again)’ (esse último método é usado no sistema Baudot para representar números). Mas nós não o fizemos. Por outro lado, nós tipicamente usamos esse método para representar variações de fonte ou tipo de letra; eu tive de usar um pouco de semelhante convenção para produzir itálico (italics) e negrito (boldface) neste livro. Nós não temos códigos separados para o romano A, itálico A e / ou negrito A.

Essa decisão tem muitas ramificações. Pense, por exemplo, em como nomes são tipicamente organizados em um diretório, ou palavras em um dicionário ou um índice. Tradicionalmente nós não distinguimos entre maiúsculas e minúsculas quando arranjando coisas em ordem de dicionário. De modo semelhante, nós esperamos que os modernos motores de busca não distingam. Mas essas expectativas requerem que nossas máquinas sejam ditas que (para alguns propósitos, pelo menos) ‘A’ e ‘a’ são o mesmo

Em árabe, cada letra não tem duas mas quatro formas diferentes. Mas aqui as [62]regras são bastante claras: as quatro formas ocorrem quando a letra é (1) no começo de uma palavra, (2) no final de uma palavra, (3) em outra posição em uma palavra, e (4) sozinha. Embora construir uma máquina de escrever tradicional que faça isso seja difícil, essa decisão agora pode ser seguramente deixada para uma máquina, assim somente um código para a letra é necessário.

Na impressão em inglês, nós temos algumas letras que são comumente, em muitos tipos de letras (typeface), juntas – chamadas de ligaduras (ligatures). Os exemplos mais comuns são f l, representada como fl, e f i, representada como fi. O sistema de composição tipográfica (typesetting) que eu estou usando neste livro fará essas ligaduras automaticamente para mim (exceto que eu tenha dito para não o fazer quando eu mostrar as letras separadamente). Em livros mais antigos, você algumas vezes vê outras ligaduras (por exemplo, s e t algumas vezes estão juntas), embora a maioria das outras ligaduras extinguiram-se. Também é tradicional formar um único caractere de um ‘a’ seguido por um ‘e’ em algumas circunstâncias, por exemplo ‘ archæology(arqueologia)’. Mas esse exemplo é mais complicado, por duas razões. Primeiro, ele apenas se aplica a algumas palavras de origem latina, não é uma regra para quando essas letras ocorrem juntas. Segundo, se alguma vez for encontrada em inglês moderno, é considerado como uma ligadura das duas letras ‘a’ e ‘e’ – a ordem de dicionário trata-o como duas letras separadas. Mas nas linguagens escandinavas e em inglês antigo, esse caractere é considerado como uma letra no seu direito, com uma posição na ordem alfabética distinta das duas vogais componentes.

Conforme nos exploramos outras linguagens, nós descobrimos muitos exemplos complexos. Em alemão há o símbolo do s duplo ß (não obstante tratado como dois esses em ordem alfabética.) Em espanhol nós temos uma letra que é impressa como ll (dois éles), mas é considerada como uma letra no seu próprio direito, com sua própria posição alfabética. Decorações em caracteres, tais como acentos ou tremas ou cedilhas, introduzem suas próprias complicações. O sânscrito é escrito em um sistema alfabético (a escrita Devanagari), mas todas as letras que formam uma sílaba são juntas por ligadura em um único símbolo-silaba; há centenas de ligaduras diferentes o sânscrito e o árabe também compartilham a propriedade de que as vogais são tipicamente consideradas como decorações nas consoantes, em vez de letras no seu próprio direito.

Essas complexidades são difíceis de se lidar em um sistema de codificação; eventualmente, em vez de representar caracteres autocontidos, alguns códigos têm de ser usados para representar instruções para a máquina de como interpretar os caracteres, ou de como os apresentar em forma legível.

[63]Assim a ideia de um ‘caractere’ é um pouco complexa. Nós, falantes e escritores em inglês, somos sortudos de ser poupados de algumas dessas complexidades. E, apenas possivelmente, o desenvolvimento da computação no mundo de língua inglesa beneficiou-se da simplicidade relativa de nossa escrita.


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ORIGINAL:

Robertson, Stephen, B C, Before Computers: On Information Technology from Writing to the Age of Digital Data. Cambridge, UK: Open Book Publishers, 2020. p.49-63. Disponível em: <https://doi.org/10.11647/OBP.0225>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0

domingo, 27 de junho de 2021

A Revolução Científica Revisitada 4 Verdade(s)

Por Mikuláš Teich


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[75]Verdade coletiva: Bacon


Que a investigação coletiva do mundo natural, promovida pela Sociedade Real em seus dias iniciais, poderia ser mais produtiva do que o esforço individual foi tornado mais claro ao mundo instruído por Francis Bacon. Sua descrição da ficcional Casa de Salomão na New Atlantis (1627) devia servir como um protótipo das atividades científicas organizadas para a satisfação de necessidades humanas.

Fig. 10 Folha de rosto de New Atlantis na segunda edição de Sylva sylvarum: or A Naturall historie. In ten centuries (London: William Lee at the Turks, 1628), de Francis Bacon.


[
76]Essa instituição imaginária era formada por 36 investigadores engajados na coleta de informação e produção de conhecimento da natureza, incluindo histórias naturais e exames de recursos naturais. Fundamentalmente, eles estavam interessados no entendimento de como a matéria em movimento funciona, e com o uso [da mesma] para o progresso humano:


O Fim de nossa Fundação é o conhecimento de Causas, e movimentos secretos das coisas; e a ampliação dos limites do Império Humano, para a efetuação de todas as coisas possíveis.”1


A divisão de trabalho entre os membros da Casa de Salomão era funcional: eles eram nomeados para nove grupos de pesquisa, encarregados de realizarem trabalhos específicos. O maior deles abrangia doze viajantes que visitavam países estrangeiros. O nome deles, os ‘Mercadores de Luz (Merchants of Light)’, é ambíguo uma vez que eles estavam ocupados com inteligência científica clandestina. Quanto aos oito grupos “baseados na terra natal”, eles eram formados por três pessoas casas, e nomeados de modo não menos cativante.

Os ‘Depredadores (Depradators)’ obtêm informação sobre experimentos de livros. Os ‘Homens de Mistério (Mistery-men)’ estavam preocupados com o rastreamento de segredos comerciais (técnicas). Os ‘Pioneiros ou Mineiros’ exploravam novos caminhos ao projetarem novos experimentos. Os ‘Compiladores’ sumarizavam os resultados dos quatro grupos anteriores ‘através da extração das observações e axiomas deles’. Os ‘Homens de dote (Dowry-men) ou Benfeitores’ estavam preocupados com os benefícios materiais que se originavam dos ‘experimentos de seus associados’. Os ‘Candeeiros (Lamps)’ – após reuniões e consultas com ‘todo o agregado’ e julgando o que o coletivo conseguiu realizarpropunham ‘novos experimentos, de uma luz mais elevada, mais penetrantes da natureza que os anteriores’. Os ‘Inoculadores’ realizavam-nos e reportavam-nos. Finalmente, os ‘Interpretes da Natureza’ conectavam os achados e expunham-nos em termo gerais, incluindo axiomas e aforismos.

Havia aproximadamente vinte laboratórios na Casa de Salomão, servidos por um grande número de servos e assistentes masculinos e femininos. Adicionalmente, havia novatos e aprendizes a fim de assegurar a continuidade da pesquisa. Como Krohn ressalta, a descrição dos laboratórios na Casa de Salomão, incluindo o equipamento e trabalho, deve ter enchido um leitor do século XVII de admiração. Embora haja o risco de atribuição de presciência anacrônica, um [77]leitor do século XX não deveria ter dificuldade no discernimento do que significa experimentação com esterilidade de híbridos quando lê:


Nós descobrimos maneiras de fazer misturas e cópulas de diferentes tipos; o que produziu muitos novos tipos, e eles não estéreis, como a opinião geral é.”


Historicamente, a instância celebrada é a mula (mule) – a prole estéril de um burro e uma égua.

Brevemente, a noção de Bacon de procedimento científico abrangia a reunião colaborativa de fatos empíricos / experimentais combinados com generalizações indutivas – tudo a serviço do homem. Isso era um afastamento radical da atitude que retrocedia a Platão e Aristóteles, que sustentavam ‘que a busca do conhecimento era um fim em si mesmo’.2 Nesse contexto, a zombaria considerada, e frequentemente citada, de William Harvey, de que Bacon escrevia filosofia como um Lord Chancellor, é irrelevante.

Mesmo assim, há uma questão historiográfica concernente à interação entre direito, política e epistemologia na abordagem de Bacon para o entendimento da natureza. Comprovadamente, a experiência legal e estadística de Bacon tinha alguma coisa a ver com sua analogia entre ‘axiomas’ e ‘leis’. Mas seria um passo longe demais traçar a posição de Bacon somente a essa fonte. De fato, há boas razões para conectar as ‘leis da natureza’ de Bacon com as ‘regras’ empíricas guiando a prática nos setores dominantes da economia britânica do século XVII: agricultura e artesanato urbano e do campo. Há fundamentos, com o devido respeito a Farrington, para considerar Bacon com um filósofo de ciência pré-industrial.3

Em face disso, a Casa de Salomão era uma instituição autogovernada e autofinanciada para pesquisa cooperativa. Os fundos para conduzir o extenso programa de pesquisa derivavam-se essencialmente de atividades e invenções caseiras, comerciais e de manufatura. Presumivelmente, a autossuficiência financeira possibilitava aos cientistas manterem distância em relação ao estado. Isso é revelado em uma notável passagem perto do fim da descrição da Casa de Salomão. A decisão de publicar resultados ou mantê-los sob sigilo, mesmo vis a vis do estado, era colegiada:


E isto nós também fazemos: nós temos consultas, sobre quais das invenções e experiências dentre as quais nós descobrimos devem ser publicadas, e quais não: [78]e todos fazemos um juramento de segredo, para dissimulação daqueles que nós pensamos ser capazes de manter segredo: embora algumas daquelas nós revelemos algumas vezes ao estado, e algumas não.


É dito que Hobbes serviu Bacon como secretário por um tempo. Quer a afirmação seja verdadeira ou não, Hobbes certamente tinha um entendimento diferente da liberdade de ação para os cientistas do que o de seu (alegado) mestre e mentor.4


Verdade pessoal: Descartes


Descartes é tradicionalmente apresentado como o oposto de Bacon com respeito à epistemologia. Uma maneira de demarcar entre os dois pensadores (seguindo Koyré) é dizer que, enquanto Bacon estava interessado na ‘ordem das coisas’, Descartes procurava averdade das ideias’. Essa distinção é suportada por narrativas autobiográficas (tanto quanto elas são dignas de confiança) a partir das quais ambos os homens emergem como pessoas confiantes de suas próprias qualificações para procura do conhecimento verdadeiro.

Há uma peça autobiográfica por Bacon, como notada por Farrington, composta como um Prefácio (1603) para On the Interpretation of Nature, a qual nunca foi escrita em sua forma projetada. É assim que bacon detalha seus atributos inerentes para ser um buscador da verdade com respeito à ‘ordem das coisas’:


Quanto a mim mesmo, eu descobri que não era tão adequado a qualquer outra coisa quanto ao estudo da Verdade; como tendo um mente suficientemente ágil e versátil para apanhar as semelhanças das coisas (o que é o ponto central) e, ao mesmo tempo, suficientemente firme para fixar e distinguir as mais sutis diferenças; como sendo dotado por natureza de desejo para buscar, de paciência para duvidar, de dedicação para meditar, de lentidão para asserir, de prontidão para reconsiderar, de cuidado para dispor e colocar em ordem; e como sendo um homem que nem afeta o que é novo ou admira o que é velho, e que odeia todos os tipos de impostura. Então eu pensei que minha natureza tinha um tipo de familiaridade e relação com a Verdade capital.”5


No coração da abordagem de Bacon, como observado anteriormente, estava a busca do conhecimento para o bem-estar humano. Autobiograficamente, isso é descrito como se segue:


Mas acima de tudo, se um homem conseguisse suceder, não em atingir alguma invenção particular, por mais que útil, mas em acender uma luz na natureza – uma luz que deveria, em sua ascensão mesma, tocar e iluminar todas as regiões de fronteira que confinam o círculo de nosso conhecimento presente; e assim, propagando-se mais e [79]mais além, logo deveria revelar e trazer à visão tudo que está mais oculto e em segredo no mundo,esse homem (eu pensei) seria verdadeiramente o benfeitor da raça humana, o propagador do império do homem através do universo, o campeão da liberdade, o conquistador e subjugador de necessidades.”6


Quanto a Descartes, seu trabalho mais conhecido, o Discourse on the Method (1637), oferece um relato autobiográfico da evolução de seu pensamento. Ele suporta a ampla demarcação de Koyré entre os dois pensadores. Não menos importante porque ele contem a celebrada dedução através da qual Descartes estabeleceu (para a satisfação dele) sua própria existência: ‘Eu estou pensando (je pense), portanto eu existo’.7

Confiança na verdade pessoal e desconfiança na verdade coletiva motivaram Descartes a reconstruir o conhecimento humano:


Mas desde os dias de faculdade eu aprendera que alguém não pode imaginar nada tão estranho e incrível que não tenha sido dito por algum filósofo; … ao mesmo tempo, uma maioria de votos é inútil como uma prova, em relação às verdades que são até um pouco difíceis de descobrir; pois é muito mais provável que um homem deva acertá-las por si mesmo do que uma nação inteira deveria. Portanto, eu não pude escolher ninguém cuja opinião eu considerasse preferível a de outro homem; e eu fui forçado, por assim dizer, a me tornar meu próprio guia.”8


Como observado, o caminho de Bacon para generalizações era através do raciocínio indutivo sustentado por evidência empírica / experimental consequente. Descartes argumentava pelo procedimento oposto baseado no raciocínio dedutivo a partir de um primeiro princípio que ele traçava a Deus, o legislador supremo. Não era que ele não estivesse consciente da parte desempenhada pela ‘filosofia prática’ na substituição das especulações filosóficas ensinadas pelos Escolásticos:


Pois desse modo eu vi que alguém pode alcançar conclusões de grande utilidade para a vida, e descobrir uma filosofia prática no lugar da especulativa ensinada pelos Escolásticos; uma que poderia mostrar-nos a energia e ação do fogo, do ar e estrelas, dos céus, e de todos os outros corpos em nosso ambiente, tão distintamente como nós conhecemos os vários ofícios de nossos artesãos, e poderíamos aplicá-las da mesma maneira a todos os usos apropriados e, dessa maneira, tornamo-nos mestres e proprietários da natureza …”9


[80]Não é que ele considerasse experimentos e observações como desnecessários (ele dissecava animais), mas que eles


frequentemente nos enganam, enquanto as causas mais comuns ainda permanecem desconhecidas; e as condições das quais elas dependem são quase sempre tão especiais e tão minúsculas que é muito difícil discerni-las. Minha ordem geral de procedimento, por outro lado, tem sido esta. Primeiro, eu tentei descobrir no geral os princípios ou causas primeiras de tudo que existe ou poderia existir no mundo. Para esse fim, eu considerei somente Deus, quem os criou, e derivei-os meramente a partir de certas verdades-raiz que naturalmente ocorrem em nossas mentes. Em seguida, eu considerei os primeiros e mais ordinários efeitos dedutíveis dessas causas … e então eu tentei descer aos casos mais especiais.”10


Esses casos especiais incluíam investigações conduzidas do começo dos anos 1630 ao final dos 1640. Enquanto reforçando a decifração de Descartes dos processos vivos ao longo de linhas micromecânicas, elas levantavam a questão da relação do corpo material semelhante a uma máquina com a alma incorpórea imortal.

Fig. 11 Um corte diagramático do cérebro humano por René Descartes, em seu Treatise of Man (1664).


[
81]A sabedoria recebida é que Descartes, demarcando nitidamente entre eles, foi pai do dualismo mente-corpo. Verdadeiro, ao encarar a questão de como mente e corpo interagiam, Descartes famosamente visualizava a glândula pineal como o lugar da alma racional. Ali se supunham o recebimento de estímulos físicos externos e a direção os movimentos. A escolha de Descartes da glândula foi guiada pela noção (errônea como se revelou) de que é uma estrutura não duplicada presente somente em cérebros humanos. Mas isso não implicava ou significava que Descartes estava duvidando ou mesmo desistindo da crença na existência de Deus e na imortalidade da alma.


Mente e corpo


Pouco antes de sua morte, Descartes reiterou no Prefácio da inacabada Description of the Human Body (1647-1648) a importância do cognição pessoal: ‘Não há ocupação mais fecunda do que tentar conhecer a si mesmo’. Embora concedendo o valor prático (médico) do conhecer ‘a natureza de nosso próprio corpo’, ele ‘não estava atribuindo à alma funções que dependem somente do corpo e da disposição dos órgãos’:


Quando nós fazemos a tentativa de entender nossa natureza mais distintamente, contudo, nós podemos ver que nossa alma, na medida em que ela é uma substância distinta do corpo, é conhecida por nós somente a partir do fato que ela pensa, isso quer dizer, entende, deseja, imagina, lembra, e os sentidos, porque todas essas funções são tipos de pensamentos. Também, uma vez que as outras funções que são atribuídas a ela, tais como o movimento do coração e as artérias, a digestão da comida no estômago e semelhantes, as quais não contém em si mesmas nenhum pensamento, são apenas movimentos corporais, e uma vez que é mais comum para um corpo ser movido por outro corpo do que pela alma, nós temos menos razão para as atribuir à alma do que ao corpo.”11


Para Descartes as funções cognitivas da alma imaterial permaneceram de preocupação central. Atrás delas escondia-se o problema do dualismo mente-corpo, penetrantemente levantado por Elizabeth, Princesa da Boêmia, em sua correspondência com Descartes. Quer dizer, como uma alma não extensa, imaterial, pode mover coisas materiais. Essa, e outras questões relativas às emoções (paixões) assumidas na correspondência, sem dúvida levaram Descartes a se aplicar profundamente à dicotomia do dualismo mente-corpo.12

[82]A dicotomia não foi resolvida por uma complicada ‘doutrina da união substancial de mente e corpo’.13 Ela era pressuposta pela existência de duas formas de mente. A ‘mente corporificada’ estava unida aos órgãos corporais, percebendo, lembrando, imaginando, etc. Quanto à ‘mente desencarnada’, Descartes necessitava dela por causa de sua crença na imortalidade pessoal da alma após a morte. Descartes queria ter duas coisas incompatíveis, quer dizer, ter tanto uma mente dependente da matéria como um mente independente da matéria. Como colocado colocado por Engels, a questão filosófica básica não está obsoleta (passé):


A grande questão básica de toda a filosofia, especialmente da mais recente filosofia, é aquela concernente à relação de pensamento e ser … As respostas que os filósofos deram-nos para essa questão dividem os mesmos em dois grandes campos. Aqueles que afirmaram a primazia do espírito sobre a natureza e, portanto, em última instância, assumiram a criação do mundo de uma forma ou de outra … abrangem o campo do idealismo. Os outros, que consideravam a natureza como primária, pertenceram às várias escolas de materialismo.

Essas duas expressões, idealismo e materialismo, originariamente, nada significam senão apenas isso …”14


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ORIGINAL:

Teich, Mikuláš, The Scientific Revolution Revisited. Cambridge, UK: Open Book Publishers, 2015. p.75-82. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.11647/OBP.0054>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


1Esta e as citações seguintes são da descrição da Casa de Salomão por Bacon, reimpressas como um apêndice em B. Farrington, Francis Bacon: Philosopher of Industrial Science (London: Macmillan; New York: Haskell House, 1973), p. 179-91. Um estudo clássico que, junto com P. Rossi, Francis Bacon: From Magic to Science (Chicago, IL: University of Chicago Press, 1968), influenciou o perspicaz Francis Bacon (Munich: C. H. Beck, 1987), por W. Krohn (alemão).

2G. E. R. Lloyd, Early Greek Science: Thales to Aristotle (London: Chatto & Windus, 1970), p. 132.

3W. Krohn, ‘Social Change and Epistemic Thought (Reflections on the Origin of the Experimental Method)’, em I. Hronszky, M. Fehér e B. Dajka, Scientific Knowledge Socialized (Boston Studies in the Philosophy of Science, Vol. 108) (Dordrecht, Boston and London: Kluwer, 1988), pp. 165-78.

4H.-D. Metzger, Thomas Hobbes und die Englische Revolution 1640-1660 (Stuttgart-Bad Constatt: Frommann-Holzboog, 1991), p. 298.

5Farrington, Francis Bacon, pp. 54-5.

6Ibid., p. 54.

7Discourse on the Method, etc., em E. Anscombe e P. T. Geach (ed. e trad.), Descartes: Philosophical Writings, com uma introdução por A. Koyré (Sunbury-on-Thames: Nelson, 1976), p. 31. Tem sido observado que em Meditations on First Philosophy (1641), Descartes dispensa o ‘portanto’. Ver ibid., p.67f.

8Descartes, Discourse, pp. 18-9.

9Ibid., p. 46.

10Ibid., p. 47. Digno de nota é que, enquanto Marx em Capital refere-se ao contraponto de filosofia prática e especulativa de Descartes, ele também caracteriza Bacon e Descartes como filósofos da fase pré-industrial do capitalismo (‘período de manufatura’). Ver K. Marx, Capital (London: George Allen & Unwin, 1938), Vol. 1, p. 387, n. 2.

11 Descartes, ‘The Description of the Human Body, etc.’, em S. Gaukroger (ed.), Descartes: The World and Other Writings (Cambridge: Cambridge University Press, 1998), pp. 170-71.

12Elizabeth, Princesa da Boêmia (1618-1680) era filha de Frederick V, o Eleitor do Palatinado Renano, e Elizabeth Stuart, filha de James I e VI, Rei da Inglaterra e Escócia. Frederick aceitou a Coroa da Boêmia mas foi expulso do país na esteira da fracassada insurreição / revolta dos estados boêmios (1618-1620) que efetivamente colocaram em movimento a Guerra dos Trinta Anos. Nos livros-texto de história ele é referido como o ‘Rei de Inverno (Winter King)’ (4 de novembro de 1619 a 8 de novembro de 1620). Para uma seleção de cartas entre a Pricesa Elizabeth e Descartes, ver E. Anscombe e P. T. Geach (ed. e trad.), Descartes: Philosophical Writings, com uma introdução por A. Koyré (Sunbury-on-Thames: Nelson, 1976), pp. 274-86. A correspondência e a relação Elizabeth-Descartes são discutidas no inestimável Descartes: An Intellectual Biography (Oxford: Oxford University Press, 1995), pp. 384f, por S. Gaukroger.

13Gaukroger, ibid., pp. 388f.

14F. Engels, ‘Ludwig Feuerbach and the End of Classical German Philosophy’, em K. Marx e F. Engels, Selected Works in Three Volumes, Vol. 3 (Moscow: Progress Publishers, 1973), pp. 345-46. Para um tratamento contemporâneo e estimulante do tópico, ver K. Bayertz, ‘Was ist moderner Materialismus’, em K. Bayertz, Myriam Gerhard e W. Jaeschke (eds.), Weltanschauung, Philosophie und Naturwissenschaft im 19. Jahrhundert, Vol. 1: Der Materialismus-Streit (Hamburg: Meiner, 2007), pp. 50-70.