sábado, 5 de junho de 2021

AC, Antes dos Computadores 2 Enviando Mensagens: O Correio

AC, Antes dos Computadores: Sobre a Tecnologia da Informação, da Escrita à Era do Dado Digital


Por Stephen Robertson


Capítulo anterior


[17]2 Enviando Mensagens: O Correio


Por que nós desejamos escrever coisas? Aqui há algumas razões (não exclusivas):

  • a fim de organizar nossos pensamentos

  • a fim de lembrar (lembrar nossos futuros eus)

  • a fim de comunicar com alguém

  • a fim de comunicar com muitas outras pessoas

A primeira, organização da informação, eu discutirei depois, no capítulo 6. A segunda, escrita como um instrumento de memória, eu simplesmente admitirei. Este capítulo e os próximos dois são dedicados à ideia do envio de mensagens através do espaço e (usualmente devido à necessidade) através do tempo. Nós estamos preocupados com as ocasiões onde o autor da mensagem e o(s) recipiente(s) pretendido(s) estão separados, e a mensagem não pode ser passada ao simplesmente se atravessar uma sala.


Mensageiros


Em absoluto você não necessita escrever coisa alguma para enviar uma mensagem a outra pessoa. Um ser humano intermediário, quem pode lembrar-se de uma mensagem falada, vai e encontra o recipiente, e repete-a (exatamente ou em essência) é naturalmente um meio perfeitamente plausível, que tem sido usado, sem dúvida, desde que a linguagem falada foi inventada e continua até hoje. Muitas sociedades antigas dependiam profundamente de semelhantes mensageiros.

Mas umas das razões pelas quais a escrita é tão importante é exatamente que nós não necessitamos mais depender da memória de um único mensageiro. Esse método dificilmente é praticável se a mensagem pudesse ter de passar por muitos intermediários antes que ela alcançasse o recipiente. Se o emissor pode escrever a mensagem ou [18]fazer com que ela seja escrita, então ele pode ficar muito mais confiante de que o recipiente receberá o que ele pretendia, e não alguma versão truncada.

Uma vez que você tem um sistema de escrita, é possível pensar sobre a sistematização da transmissão de mensagens.


O meio (medium)


Uma limitação a esse respeito é o meio usado para a escrita.

Os blocos de argila da antiga Mesopotâmia não eram terrivelmente adequados para ser carregadas por toda parte através das distâncias – eles eram mais adequados para preservação local de registros, memória individual ou transmissão de mensagem no tempo em vez do espaço. Pedra talhada é ainda mais difícil de se mover (a despeito da história de Moisés descendo com as tábuas da montanha). Assim, escrita séria de cartas, teve de esperar até a invenção de meio adequadamente transportável.

Através dos milênios, vários de tais meios encontraram uso. Mas o lugar de honra no mundo clássico pertence ao papiro. Produzido de folhas secas da planta do papiro, esse meio poderia ser usado para construir mensagens muito substanciais – livros inteiros foram escritos em rolos de papiro.

Desde o tempo de sua invenção pelos egípcios, provavelmente no quarto milênio a.C., o rolo de papiro adquiriu uma importância imensa nos assuntos de impérios. Se você quer fazer funcionar um império que se estende em uma grande área, você necessita de meios efetivos para o administrar. Um requisito é a comunicação efetiva. Em uma sociedade relativamente estática como era a egípcia, onde você pode ter sido capaz de comandar seus domínios, isso pode não ter sido um requerimento tão crítico. Mas se você quer uma estrutura dinâmica, altamente interativa, isso requer comunicações sistemáticas. Aqui o exemplo óbvio é o império romano.

Muitos outros impérios, tanto anteriores quanto posteriores ao romano, falharam ao menos em parte porque eles não tiveram semelhantes comunicações sistemáticas. É claro, outras coisas também são necessárias, mas é difícil exagerar a importância desse componente. Ademais, se você é dependente da planta de papiro para isso, o controle do suprimento de papiro torna-se um fator vital para a sobrevivência do seu império.


[19]Estradas


O destino de sua mensagem pode estar exatamente no outro lado da cidade, mas novamente, se você tem um império a governar, pode estar a dias ou semanas de distância. Por uma longa parte de nossa história, a melhor maneira de se enviar qualquer coisa (bens ou cartas) através de qualquer distância, envolvia viagens de barco. Mas viagens de barco são lentas e perigosas – e elas frequentemente têm um longo caminho a completar. Se os mensageiros devem carregar mensagens escritas a alguma velocidade através de longas distâncias, eles necessitarão de estradas. Algumas estradas são estabelecidas simplesmente para as pessoas caminharem sobre elas, mas seu império florescente pode necessitar de algum sistema mais confiável e extenso. Novamente, os campeões aqui são os romanos.

Os romanos são famosos pela construção de estradas. Estradas retas, bem-feitas, percorriam comprimento e largura do império romano. Para quem elas foram construídas? Em parte para os soldados e administradores: uma legião ou governador realizando um trabalho em uma província remota usaria as estradas estabelecidas onde possível, embora, é claro, os soldados pelo menos normalmente tinham suas atividades principais em áreas não bem cobertas por estradas. Elas podem ter sido parcialmente construídas para os comerciantes – Roma dependia muito intensamente do comércio, e alguns bens eram comerciados ao longo de grandes distâncias. Mas o comércio era primariamente uma preocupação privada, e o acesso que os comerciantes tinham às estradas era um subproduto, antes que o propósito primário, delas.

Mas a principal razão para a atividade de construção de estradas pelos romanos eram os mensageiros. A rede de estradas, em conjunto com as rotas de barco através e em torno do mediterrâneo, formavam a rede primária de comunicações do império.

Em tempos mais recentes, na era vitoriana, por exemplo, a palavra ‘comunicações’ veio a se referir tanto às redes de estradas e trilho quanto ao sistema postal, por exemplo. Isso não é acidente. Estrada e trilho, e as rotas de embarque, eram tanto sobre a comunicação de informação quanto elas eram sobre o movimento de pessoas e bens.


O Cursus


Comunicação eficiente entre todo o império para servir às necessidades da administração imperial necessita ser altamente sistemática. Um oficial em Roma que queira instruir outro oficial em uma das províncias longínquas necessitará confiar [20]sua mensagem a um sistema (humano), com a confiança de que ela alcançará o seu destino. Dessa maneira o conceito de sistema postal nasceu.

Vários impérios tinham serviços postais para esse propósito; esses geralmente não eram acessíveis a indivíduos privados, mas somente para o uso do governo. Mas, uma vez mais, o sistema romano introduzido pelo imperador Augusto era incomparável. Chamado de Cursus Publicus, ele dependia de estágios com mensageiros correndo ou cavalgando e cavalos descansados em cada estágio. Havia duas classes de correio (post) – poder-se-ia esperar que a classe normal cobrisse 50 milhas por dia, mas cartas urgentes poderiam ir no dobro dessa velocidade. Seu domínio era a totalidade do império romano, e ele desempenhava um papel significante no sucesso daquela instituição.

Quando o império romano desmoronou, e foi substituído por muitas administrações locais, frequentemente pequenos reinos hostis, tanto o sistema de estradas quanto o sistema postal também declinaram. O tipo de velocidade com a qual um oficial romano poderia enviar uma carta a (digamos) um governo na Gália não foi rivalizado novamente até o fim do século XVIII.

Para o oriente, uns cinco séculos antes de Augusto, o imperador persa Ciro iniciara um sistema postal chamado de Chapar Khaneh. Depois, após o declínio de Roma, durante a Idade (relativamente) das Trevas na Europa, um sistema chamada do Barid foi estabelecido no mundo islâmico. Uma explicação desses sistemas é dada por Adam Silverstein em Postal Systems in the Pre-Modern Islamic World.

Os sistemas postais no mundo antigo, sendo primariamente organizações para o benefício dos governantes e do governo, estavam estreitamente associados com espionagem – uma das principais funções deles era possibilitar aos governantes descobrir tudo o que eles pensavam que eles precisavam saber sobre o que estava acontecendo em seus domínios.


O nascimento do moderno sistema postal


O Cursus era restrito aos negócios de governo, mas nos tempos medievais, algumas organizações não governamentais (algumas universidades, por exemplo) eram grandes o suficiente para requerer seus próprios sistemas internos de mensageiros. A ideia de uma organização dedicada ao fornecimento desse serviço a indivíduos e outras organizações emergiu gradualmente dessa necessidade.

[21]A mais bem-sucedida dessas firmas privadas, por um longo caminho, foi Thurn und Taxis. Ela começou como um negócio privado de família na Itália mas, no século XV, a família adquiriu uma licença dos imperadores Habsburg – na realidade, um monopólio atribuído pelo estado – para controlar todos os serviços postais por todo o Sacro Império Romano. Thurn und Taxis manteve esse monopólio por pouco mais de 300 anos. A família foi variadamente enobrecida por imperadores sucessivos até que, pelo final do século XVII, eram príncipes.

Eles construíram um serviço postal moderno e (no seu melhor) altamente eficiente de um tipo que nós poderíamos reconhecer hoje. Eles transportavam cartas privadas e de governo, e tinham um extenso sistema de distribuição baseado, como o Cursus, em revesamento de cavalos com postos de estágio entre as cidades principais do império. Foram eles que, pelo final do século XVIII, puderam rivalizar ou superar os tipos de velocidade de entrega de correio estabelecidos pelo Cursus.

Mas, novamente como o Cursus, eles dependiam da autoridade do estado que eles serviam. Enquanto governos nacionais mais fortes desenvolviam-se na Europa, eles viam serviços postais comandados por estrangeiros como uma ameça a seu próprio controle sobre suas comunicações. Os países começaram a desenvolver seus próprios sistemas postais. Questões relativas à relação entre governo e empresa privada, muito familiares hoje, complicavam o processo de desenvolvimento. Por um lado, alguns governos preferiram um sistema que funcionasse inteiramente para seu próprio benefício, não servindo ao público de maneira nenhuma. Por outro lado, eles não estavam muito ansiosos para que qualquer serviço postal puramente privado ficasse fora de seu controle. Uma das preocupações, que novamente é familiar hoje, era com a segurança – apenas pense nos horrores que poderiam surgir se conspiradores fossem capazes de se comunicar livremente por carta!

O que emergiu gradualmente como abordagem padrão foi ter-se um monopólio pertencente e administrado pelo governo, oferecendo seus serviços ao público. As despesas postais eram frequentemente tratados pelo governo como uma forma de tributação, a qual poderia ser elevada para pagar por uma guerra ou pelo que quer que fosse requerido.

Um bom exemplo dessa relação ambígua foi a experiência de William Dockwra em Londres no final do século XVII. Ele organizou um ‘penny post’ privado em Londres, o qual rapidamente se tornou muito bem-sucedido. Mas seu sucesso alarmou as autoridades e eles (quase tão rapidamente) assumiram o controle dele e fundiram-no com o serviço público.


[22]O Penny Post


Efetivamente, um dos mais significativos usos subversivos do sistema postal público surgiu do custo de envio de uma carta. O sistema usual de pagamento era para o emissor enviar a carta sem pagamento, e para o carteiro coletar a taxa requerida do recipiente na entrega. A taxa poderia ser alta e bastante complexa, dependendo não somente do peso, mas também da distância percorrida e talvez da rota tomada. Mas não era difícil descobrir que mensagens simples poderiam ser codificadas, por exemplo, pela maneira que o nome e o endereço do recipiente estavam escritos no envelope. Assim, quando a carta era entregue, o recipiente poderia examiná-la e em seguida devolvê-la ao correio, recusando-se a pagar, em razão da pobreza ou do que quer que seja – tendo, não obstante, entendido a mensagem do emissor.

A solução óbvia para esse problema, a partir do ponto de vista das autoridades, era forçar o pré-pagamento. Mas foi necessário um visionário iluminado, Rowland Hill (junto com outro que reaparecerá depois neste livro, Charles Babbage), para ver que isso era apenas parte da solução. O pré-pagamento efetivamente tornaria o sistema muito mais eficiente de qualquer maneira, porque a entrega não dependeria do carteiro encontrar o recipiente em casa. Hill não apenas entendeu isso, mas também compreendeu que o custo de entregar uma carta dependia muito pouco da distância, e que o serviço mais barato seria usado muito mais amplamente. Quando o Penny Post, com selos postais de pré-pagamento, foi introduzido na Inglaterra em 1840, o efeito sobre o serviço postal foi imediato e de longo alcance. Ele tornou-se o meio universal de comunicações, acessível a todos.


A União Postal Universal


Organizações postais nacionais tais como o Correio Britânico gradualmente unificaram e simplificaram seus próprios serviços internos, mas o correio internacional era um assunto diferente. Para enviar uma carta internacional, você teria de saber a rota e como seria cobrado pelos vários portadores envolvidos. Certos correios nacionais possuíam acordos bilaterais um com o outro, mas esses poderiam envolver uma taxa específica para cada carta. Uma carta poderia ter de cruzar vários países no curso de sua jornada.

Toda essa complicação foi varrida de lado em 1874, com o acordo de Berna [23]baseado na proposta de Heinrich von Stephan para uma União Postal Geral. Isso estabeleceu o fundamento para aquilo que veio a ser chamado de União Postal Universal. Essa era uma união de serviços postais nacionais, concordando em transportar as cartas internacionais uns dos outros sem cobrança adicional ou contabilidade de itens específicos. Inicialmente vinte e dois países juntaram-se, mas muito rapidamente ela expandiu-se para incluir praticamente todos só serviços postais por todo o mundo.

Esse foi um movimento verdadeiramente revolucionário, um acordo supranacional para permitir um sistema simples de comunicação ponto a ponto através do globo. Qualquer um poderia enviar uma carta para qualquer um no mundo (bem, ao menos para um endereço, uma localização). A União Postal Universal precisa ser considerada como um dos grandes triunfos da civilização.


O auge do correio


Alfabetização universal, com a ajuda do Penny Post e da União Postal Universal causaram uma era dourada dos serviços postais. A escritura de cartas decolou como nunca antes. Antes do rádio, antes do telefone, muito antes da chegada da Internet, o mundo tornou-se um lugar conectado.

A partir do ponto de vantagem do século XXI, quando nós temos uma semelhante variedade de meios de comunicação, e quando o serviço postal degenerou amplamente em um mecanismo para a entrega de bens comprados e spam, é difícil imaginar a importância do correio no século XIX e começo do século XX. Também é um pouco difícil obter uma compreensão de quão eficiente o serviço podia ser. A carta seguinte ao editor de The Times de Londres revela não somente a eficiência (a despeito dos protestos do autor em contrário), mas também a importância vinculada a ela:


25 de maio de 1881

Senhor, - eu acredito que os habitantes de Londres estão sob a impressão de que as cartas postadas para entrega no interior do distrito metropolitano chegam aos seus destinos do lado de fora, dentro, três horas após o tempo da postagem. Eu mesmo, contudo, tenho sofrido constantemente com irregularidades na entrega de cartas, e agora tenho dois casos de negligência os quais eu realmente devia ter arrumado. Eu postei uma carta no escritório do correio no Gray’s Inn, meia hora depois da 1 da tarde, endereçada a uma pessoa que vive perto da abadia de Westminster, a qual não foi entregue até as próximas 9 horas da noite do mesmo dia, e eu postei outra carta [24]no mesmo escritório, endereçada ao mesmo lugar, na manhã de segunda-feira antes das 9 horas, a qual não foi entregue até depois das 4 horas da tarde do mesmo dia. Agora, senhor, por que isso? Se há alguma boa razão porque cartas não deveriam ser entregues em menos de oito horas após suas postagens, que o estado do caso seja entendido; mas a crença de que alguém pode comunicar-se com outra pessoa em duas ou três horas visto que na realidade o tempo requerido é de oito ou nove, pode ser produtivo das consequências mais desastrosas.

Eu sou, Senhor, seu obediente servo. K.”


Eu não ficaria surpreso de que as caixas de correio que K usava ainda estejam lá, mas, se você for postar uma carta hoje em dia, no Gray’s Inn às 1:30 da tarde em um sábado, ela não será coletada da caixa de correio antes da segunda-feira.

A importância do sistema postal no final do século XIX e no começo do século XX é indicada pela seguinte estatística: no começo da Primeira Guerra Mundial, a totalidade do Serviço Civil na Inglaterra era de aproximadamente 168.000 pessoas, das quais 124.000 eram empregados nos Correio. Durante a Primeira Guerra Mundial o serviço postal contribuiu grandemente para a percepção pública da guerra, pelo menos para aqueles que estavam em correspondência com soldados na frente [de batalha], o que estava muito distante da figura fornecida pelos meios de comunicação. Esse sentimento é transmitido vividamente no livro Testament of Youth, de Vera Britain. De alguma maneira, a despeito da inevitabilidade dos atrasos do correio em tempo de guerra, ele evoca o tipo de imediatidade alcançado pela televisão em conflitos posteriores tais como o do Vietnam.

Nos anos de 1930, o Correio Geral Britânico, produziu um maravilhoso documentário chamado de Night Mail. Com falas por W. H. Auden e música de Benjamin Britten, esse filme curto celebrava a jornada do trem de correio na extensão da Inglaterra, e, ao mesmo tempo, capturava a essência do serviço postal, como era visto pelo público que o usava.


O declínio do correio


Raramente antigos meios [de comunicação] morrem, mas ele mudam. Uma sucessão de desenvolvimentos (telégrafo, telefone, e-mail e assim por diante) tomaram suas partes do conceito de um serviço postal. Documentos de papel ainda são importantes, mas por razões diferentes daquelas que inspiraram os escritores e leitores de cartas nos séculos XIX e XX. Sem dúvida, ainda há pessoas no mundo que [25]esperam pela chegada do correiro da mesma maneira que K ou Vera Britain esperaram, mas essa manifestação particular da aldeia global certamente está em declínio.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

Robertson, Stephen, B C, Before Computers: On Information Technology from Writing to the Age of Digital Data. Cambridge, UK: Open Book Publishers, 2020. p.17-25. Disponível em: <https://doi.org/10.11647/OBP.0225>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0

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