Inferir e Explicar
Por Jeffery L. Johnson
[79]Capítulo 9
Testemunho
No caso do testemunho uma pessoa vem a conhecer alguma coisa quando é contado a ela por uma testemunha ocular ou ela lê em um jornal….Nenhuma óbvia inferência dedutiva leva a uma conclusão probabilística nesse caso; a aceitação do testemunho pode ser baseada em duas consecutivas inferências à explicação melhor. … Primeiro, nós inferiríamos que o falante assim testemunha porque ele acredita no que ele diz (e não porque ele tenha alguma coisa a ganhar testemunhando assim, ou porque ele confundiu-se e disse o oposto do que ele queria dizer, etc.). Segundo, nós inferiríamos que ele acredita como ele acredita porque, de fato, ele testemunhou o que ele descreveu (e não porque ele sofreu uma alucinação, ou porque sua memória enganou-o, etc.).
– Gilbert Harman1
Uma Carta de Recomendação
Eu tenho um bom amigo no programa de psicologia. Ele pediu-me para escrever uma carta de recomendação em sua busca por um novo emprego. Eu conheço-o muito bem – nós colaboramos em um curto artigo e ensinamos em equipe em duas ocasiões. Eu contei a seus potenciais empregadores que ele é um bom professor e um grande colega e que ele será uma figura maior em psicologia acadêmica algum dia. Suponha que você leia minha carta e pergunte-se que tipo de evidência ela fornece sobre o candidato a emprego.
Gilbert Harman, na citação anterior, fornece uma caracterização sucinta de como a inferência à explicação melhor pode ser usada para desempacotar o raciocínio envolvido na aceitação da palavra de outros. Na maioria dos casos onde nós avaliamos testemunhos, nós temos mais dados para explicar do que simplesmente foi dito. Minimamente, nós conheceremos alguma coisa sobre o falante e alguma coisa sobre o contexto no qual a declaração foi feita. O modelo abstrato parece alguma coisa como a seguinte. Primeiro, nós temos a informação contida na linguagem:
[80]e1. Declaração linguística – “Ele é um bom professor … figura principal.”
Quase tão importante nesse caso é o contexto no qual a afirmação é oferecida:
e2. Contexto – carta de recomendação.
Finalmente, nós conhecemos alguma coisa sobre o escritor mesmo da carta:
e3. Biografia relevante – professor de filosofia em uma pequena universidade estadual.
A questão explanatória ou interpretativa é, por que este falante (biografia) nesta circunstância (contexto) diz isto (afirmação)? Em contextos comunicativos ordinários, nós geralmente concedemos às pessoas o benefício da dúvida. Até ser dada razão para não o fazer, pressupõe-se que nós acreditamos que nossos interlocutores estão sendo honestos conosco. As convenções da comunicação linguística normal pedem a você para primeiro considerar uma teoria que explique todos esses dados em termos de sinceridade:
t0. O escritor da carta disse isso porque ele acreditava ser verdadeiro – ele acreditava que o amigo dele era um bom professor e um grande colega e tinha o potencial de fazer contribuições significantes para seu campo.
Infelizmente, anos de leitura dessas cartas de recomendação tornaram-nos um pouco cínicos. Nós imediatamente podemos conceber duas explicações alternativas do comportamento linguístico do escritor da carta.
t1. O escritor da carta disso isso porque ele quer conseguir um emprego para o amigo dele.
t2. O falante disso isso para se livrar de um colega indesejável.
A inferência à explicação melhor pede-nos, em algum momento, para nos comprometermos com um julgamento de plausibilidade explanatória. Qual é a explicação melhor para o que o escritor da carta disse? Basicamente, nossas respostas caem sob duas categorias. Ou nós julgaremos que a explicação melhor da declaração é a original que a comunicação normal recomenda – ele disse isso porque ele acredita nisso; ele é sincero. Ou nós preferiríamos uma das explicações rivais que oferecem alguma outra razão para ele ter feito a declaração. Nesse último caso, o testemunho dele não tem utilidade para nós, de fato, nós deveríamos descontá-lo. Mesmo se resultar que o amigo dele é um grande candidato para o emprego, se nós julgarmos que a carta é insincera ou desonesta, o testemunho dela é evidência incerta sobre isso.
Se nós concedermos a ele o benefício da dúvida na questão de sinceridade, nós passar por todo um novo nível de avaliação antes que nós possamos colocar confiança completa na verdade de sua declaração. O primeiro nível de avaliação de evidência produz novos dados que também precisam ser explicados.
e4. O escritor da carta está dizendo essas grandes coisas sobre o colega dele porque ele sinceramente as considera ser verdadeiras.
Por que esta pessoa (biografia) acredita nessas coisas (o conteúdo da afirmação)? Mais uma vez, as suposições da comunicação normal [81]pedem-nos para endossar uma explicação padrão para as mais sinceras tentativas de comunicação.
t*0. O falante acredita nisso porque ele conhece sobre o que ele está falando – de fato, ele acredita porque é verdadeiro.
Dessa maneira, quando nós aceitamos informação através do testemunho ou autoridade de outros, nós tacitamente nos envolvemos em uma dupla inferência explanatória. Nós podemos explicar o ato linguístico como uma tentativa sincera de comunicar a crença do falante e então explicar a crença do falante em termos do falante conhecer sobre o que ele está falando.
Larry Wright prestativamente distinguiu duas coisas bem diferentes que podem dar errado quando alguém comunica uma crença sinceramente sustentada. Algumas vezes as pessoas têm acesso incerto à informação que eles estão tentando comunicar. Dessa maneira, uma explicação rival de minha crença de que meu amigo é um bom professor poderia ser que eu apenas o observei em especializados cursos de divisão superior que seriam de interesse para especialistas em filosofia e psicologia – por exemplo, eu nunca o observei em grandes cursos introdutórios.
t*1. O escritor da carta acredita que o amigo dele é um bom professor porque ele nunca observou seu péssimo ensino em grandes cursos introdutórios.
Mesmo quando autoridades possuem acesso excelente à informação, nós ainda nos preocupamos com as habilidades delas para, com segurança, interpretarem essa informação. Nesse contexto, o cauteloso leitor da carta poderia ter, pelo menos, duas possíveis preocupações sobre meu testemunho. A primeira tem a ver com treinamento especializado. Obviamente, minhas alegações pressupõem bastante conhecimento técnico sobre pedagogia, academia e padrões de pesquisa em psicologia contemporânea. Alguém gostaria de pensar que as expectativas para ensino e colegialidade não variariam através das humanidades e ciências naturais e comportamentais. Esperançosamente, eu tenho o necessário conhecimento para fornecer informação relevante sobre esses aspectos da carreira de meu amigo. Mas e quanto à predição de distinção profissional com respeito a sua pesquisa? Eu sou treinado como um filósofo, não um psicólogo. Talvez as “intuições” psicológicas dele que eu observei no curso de nosso ensino e escrita colaborativos sejam conhecimentos comuns no campo de estudo. Ou pior, talvez elas sejam desacreditadas e excêntricas. Eu sou realmente qualificado para dizer? Mais uma vez, uma explicação rival sugere-se.
t*2. O escritor da carta acredita que o colega dele ganhará por causa de sua carência de conhecimento sobre psicologia acadêmica contemporânea.
Uma preocupação muito diferente sobre a confiabilidade de minha crença foca-se em minha habilidade de “objetivamente” processar a informação à qual eu tenho acesso confiável. Basicamente, a preocupação aqui é uma de viés perceptivo ou interpretativo. Talvez eu admire assim a técnica pedagógica dele porque ela é tão similar ao meu próprio inefetivo estilo em sala de aula. Ou talvez eu esteja tão impressionado com as hipóteses psicológicas dele porque elas coincidem com minhas próprias noções imaturas. Afinal, ele é meu bom amigo – não poderia eu ser culpado de “enxergar mais com meu coração do que com meus olhos?” Então nós temos ainda outra categoria de explicação rival:
[82]t*2. O escritor da carta acredita nessas coisas grosseiramente infladas sobre o amigo dele por causa de algum tipo de viés perceptivo.
Nenhum dos [pontos] acima deveria ser tomado para sugerir que o testemunho é inerentemente não confiável. O que poderia ser mais óbvio do que o fato de que quase tudo que nós alegamos conhecer chega-nos de segunda mão através da palavra de outros? O que eu estou sugerindo é que nossa avaliação de testemunhos pode ser estruturada e criticamente avaliada como um tipo de evidência – evidência que se adéqua perfeitamente à receita da inferência-à-explicação-melhor.
Testemunho relativo a Milagres
No livro monumental de David Hume, An Enquiry Concerning Human Understanding, há um argumento bastante curto com espantosas implicações religiosas. Hume argumenta que nós nunca estamos justificados em aceitar o testemunho de outros de que um evento verdadeiramente miraculoso aconteceu. Mas, uma vez que as todas três grandes religiões teísticas – judaísmo, cristianismo e islã –, em algum nível fundamental, dependem de relatos de milagres, o argumento de Hume parece ameaçar a legitimidade intelectual delas. Uma análise completa do argumento, quanto mais uma completa investigação filosófica de milagres, seria o assunto de um livro inteiro, talvez de uma carreira inteira. No entanto, nós possuímos as ferramentas para, pelo menos, estabelecer a estrutura do argumento de Hume e talvez começar o processo de avaliar sua evidência. Então qual é exatamente o argumento?
“Um milagre é uma violação das leis da natureza; e, como uma firme e inalterável experiência estabeleceu essas leis, a prova contra um milagre, a partir da natureza mesma do fato, é tão completa quanto qualquer argumento a partir da experiência pode ser imaginado. Por que é mais que provável, que todos os homens precisam morrer; que o chumbo, por si mesmo, não pode permanecer suspenso no ar; que o fogo consome a madeira, e é extinto pela água; a menos que esses eventos sejam descobertos conforme às leis da natureza, e seja requerida uma violação dessas leis ou, em outras palavras, um milagre para os impedir? Nada é mais estimado do que um milagre, se alguma vez aconteceu no curso comum da natureza. Não é milagre que um homem, aparentemente em boa saúde, deva morrer de repente; porque um tipo semelhante de morte, embora mais incomum do que qualquer outra, todavia tem sido frequentemente observado acontecer. Mas é um milagre que um morto deva voltar à vida; porque isso nunca foi observado em qualquer época ou país. Portanto, tem de haver uma experiência uniforme contra qualquer evento miraculoso, de outra maneira o evento não seria digno dessa denominação…
A consequência simples é (e é uma máxima geral digna de nossa atenção), ‘Que nenhum testemunho é suficiente para estabelecer um milagre, a menos que o testemunho seja de um tipo tal que a falsidade seria mais miraculosa do que o fato, coisa que ele empreende estabelecer. … ’ Quando alguém me conta, que viu um morto restaurado à vida, eu imediatamente considero comigo mesmo, se é mais provável que essa pessoa deva enganar ou estar enganada, ou que o fato que ela relata, deva realmente ter ocorrido. Eu pondero o milagre contra o outro e, de acordo com a superioridade, a qual eu descubro, eu pronuncio minha decisão, e sempre rejeito o milagre maior. Se a falsidade de seu testemunho for mais miraculosa, do que o evento que ele relata; então, e não até que então, pode ele pretender comandar minha crença ou opinião.
No raciocínio acima exposto, nós supusemos que o testemunho, sobre o qual o milagre está fundamentado, pode possivelmente equivaler a uma prova inteira, e que a falsidade desse testemunho poder ser um prodígio real: mas [83]é fácil mostrar que nós fomos bastante liberais em nossa concessão, e que nunca um evento miraculoso foi estabelecido sobre uma evidência tão completa.”2
Comecemos com o parágrafo do meio. Alguém relata ver um morto restaurado à vida. Se nós tratássemos esse relato como evidência potencial de que um milagre genuíno ocorreu, nós esquematizaríamos esse testemunho como se segue.
e1. Declaração linguística – “Eu vi um morto restaurado à vida.”
e2. Contexto – Conta-se a nós onde, quando e como.
e3. Biografia relevante – Tudo que nós conhecemos sobre a pessoa quem nos conta isso.
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t0. Ele genuinamente acredita que ele viu um morto restaurado à vida.
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t*0. Um morto foi restaurado à vida.
Agora Hume considera duas explicações rivais, uma para cada uma das inferências: “Esta pessoa … engana.”
t1. Ele realmente não acredita que ele viu um morto restaurado à vida.
Ou “esta pessoa … [foi] enganada.”
t*1. Ele foi enganado pensando que viu um morto restaurado à vida.
Hume prossegue para combinar t1 e t*1 no que os lógicos chamam de uma disjunção – “t1 e t*1” – “ele engana, ou ele é enganado.” Embora ele não estivesse usando explicitamente a inferência à explicação melhor, nós podemos compreender Hume como propondo uma explicação rival.
t*1. Ele realmente não acredita que ele viu um morto restaurado á vida, ou ele foi enganado pensando que viu um morto restaurado à vida.
Hume então, implicitamente, move-se para o passo 3 na receita e oferece uma classificação ordenada da explicação original do testemunho relativo ao milagre e a disjuntiva explicação rival. A teoria t*2 é uma explicação melhor do que foi dito do que t*0.
Por que ele está tão confiante nesta classificação? A resposta é o que Hume, e quase qualquer filósofo e teólogo antigamente, quer dizer com alguma coisa ser um milagre. Milagres são violações das leis da natureza. Dadas as leis da física, bioquímica e biologia, o mundo natural dita que a morte é permanente. A evidência mesma que estabelece essas leis da natureza automaticamente conta contra o milagre relatado. Para Hume, é óbvio que várias hipóteses de leis da natureza são explicações melhores do que as rivais que permitem exceções dessas leis, de modo que milagres estão condenado a serem excessivamente implausíveis.
Até aqui eu concordo com Hume sobre isso. Se um estranho eventual conta-me que ele testemunhou um milagre, eu quase certamente julgaria que, ou ele está mentindo ou está honestamente enganado, e não que houve uma interrupção nas operações do mundo natural. Mas meu julgamento está baseado em uma avaliação subjetiva da plausibilidade de diferentes explicações – aplicação clássica da receita da inferência-a-explicação-melhor – e não no significado do termo milagre. Em meu julgamento, teístas não estão alegando [84]que as leis da natureza não valem ou que a evidência para eles é de alguma maneira falha. Antes, eles acreditam que um Deus onipotente criou o mundo físico inteiro, incluindo essas leis da natureza, e pode, se Ele escolher, substituir essas leis pelo exercício de Sua onipotência. Portanto, milagres pressupõem a existência de Deus. Testemunho sobre a ocorrência de um milagre poderia contar como boa evidência para a existência de Deus, mas, como Hume disse, isso sempre se depara com dificuldade séria. Para eu levar em conta seriamente esse tipo de testemunho, seria necessário vir de fontes muito especiais, assim e3 seria muito importante. Adicionalmente, eu suspeito que, sem considerar as qualidades da fonte, eu necessitaria da corroboração de muitas fontes igualmente boas. Finalmente, eu penso que necessitaria de alguma evidência independente de que Deus poderia existir. Considerar se tal evidência está disponível é uma das questões mais antigas da filosofia ocidental. Se você está curioso sobre o uso da evidência, de fato, o uso da inferência à explicação melhor (IEM), para apresentar argumentos a favor e contra a existência de Deus, eu convido você a ler meu próximo livro, Religious Evidence, ou talvez alguns de meus artigos que tentam aplicar a inferência à explicação melhor como um meio de avaliar a qualidade da evidência que nós temos para a evidência de Deus.3
Exercícios
Por que as convenções de comunicação normal recomendar que nós assumamos honestidade quando alguém nos conta alguma coisa?
Presumindo que eu estava sendo totalmente honesto em minha carta de recomendação, quais são as duas preocupações que alguém poderia ter de que eu sabia sobre o que eu estava falando?
Você lê a seguinte postagem no Facebook: “Eu acabei de observar um milagre – eu vi um morto restaurado à vida!” Use as ferramente que nós desenvolvemos neste capítulo para avaliar a qualidade da evidência que você tem para a alegação de que um morto foi restaurado à vida.
Questionário Nove
Em 6 de novembro de 2012, Donald Trump tuitou o seguinte: “O conceito de aquecimento global foi criado pelo e para os chineses em ordem de tornar a indústria da EUA não competitiva” (https://twitter.com/realdonaldtrump/status/265895292191248385?lang=en).4
Use as ferramentas que nós desenvolvemos neste capítulo para avaliar a qualidade da evidência que você tem para a alegação de que o aquecimento global é uma farsa (hoax) perpetrada pelos chineses para danificar a manufatura dos EUA.
ORIGINAL
Johnson, Jeffery L., “Inferring and Explaining” (2019). PDXOpen: Open Educational Resources. 23. p. 79-85. Disponível em:<https://pdxscholar.library.pdx.edu/pdxopen/23>.
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY 4.0
Notas
1 Gilbert Harman, “Knowledge, Inference, and Explanation,” American Philosophical Quarterly 5 (1968): 167.
2 David Hume, An Inquiry Concerning Human Understanding, ed. L. A. Selby Bigge (Oxford: Calendon, 1902), 114– 16.
3 Ver Jeff Johnson, “Inference to the Best Explanation and the Problem of Evil,” Journal of Religion 64, nº 1 (1984): 54-72; Jeffery L. Johnson, “Inference to the Best Explanation and the New Teleological Argument,” Southern Journal of Philosophy 31 (1993): 193-203; Jeffery L. Johnson, “Explanation, Evidence, and Mystical Experience,” Minerva – an Internet Journal of Philosophy [85]5 (2001): 69-93; Jefery L. Johnson, “From Friendly Atheism to Friendly Natural Teology,” Minerva – an Internet Journal of Philosophy 5 (2003): 125-42; e Jeffery L. Johnson and Joyclynn Potter, “The Argument from Language and the Existence of God,” Journal of Religion, nº 1 (January 2005): 83-83.
4 Donald J. Trump (@realDonaldTrump), “The concept of global warming was created by and for the Chinese in order to make U.S. manufacturing non-competitive,” Twitter, November 6, 2012, 11:15 a.m., https://twitter.com/realdonaldtrump/status/265895292191248385?lang=en