domingo, 31 de outubro de 2021

Inferir e Explicar - Capítulo 9 Testemunho

Inferir e Explicar


Por Jeffery L. Johnson


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[79]Capítulo 9

Testemunho


No caso do testemunho uma pessoa vem a conhecer alguma coisa quando é contado a ela por uma testemunha ocular ou ela lê em um jornal….Nenhuma óbvia inferência dedutiva leva a uma conclusão probabilística nesse caso; a aceitação do testemunho pode ser baseada em duas consecutivas inferências à explicação melhor. … Primeiro, nós inferiríamos que o falante assim testemunha porque ele acredita no que ele diz (e não porque ele tenha alguma coisa a ganhar testemunhando assim, ou porque ele confundiu-se e disse o oposto do que ele queria dizer, etc.). Segundo, nós inferiríamos que ele acredita como ele acredita porque, de fato, ele testemunhou o que ele descreveu (e não porque ele sofreu uma alucinação, ou porque sua memória enganou-o, etc.).

Gilbert Harman1


Uma Carta de Recomendação


Eu tenho um bom amigo no programa de psicologia. Ele pediu-me para escrever uma carta de recomendação em sua busca por um novo emprego. Eu conheço-o muito bem – nós colaboramos em um curto artigo e ensinamos em equipe em duas ocasiões. Eu contei a seus potenciais empregadores que ele é um bom professor e um grande colega e que ele será uma figura maior em psicologia acadêmica algum dia. Suponha que você leia minha carta e pergunte-se que tipo de evidência ela fornece sobre o candidato a emprego.

Gilbert Harman, na citação anterior, fornece uma caracterização sucinta de como a inferência à explicação melhor pode ser usada para desempacotar o raciocínio envolvido na aceitação da palavra de outros. Na maioria dos casos onde nós avaliamos testemunhos, nós temos mais dados para explicar do que simplesmente foi dito. Minimamente, nós conheceremos alguma coisa sobre o falante e alguma coisa sobre o contexto no qual a declaração foi feita. O modelo abstrato parece alguma coisa como a seguinte. Primeiro, nós temos a informação contida na linguagem:


[80]e1. Declaração linguística – “Ele é um bom professor … figura principal.”


Quase tão importante nesse caso é o contexto no qual a afirmação é oferecida:


e2. Contexto – carta de recomendação.


Finalmente, nós conhecemos alguma coisa sobre o escritor mesmo da carta:


e3. Biografia relevante – professor de filosofia em uma pequena universidade estadual.


A questão explanatória ou interpretativa é, por que este falante (biografia) nesta circunstância (contexto) diz isto (afirmação)? Em contextos comunicativos ordinários, nós geralmente concedemos às pessoas o benefício da dúvida. Até ser dada razão para não o fazer, pressupõe-se que nós acreditamos que nossos interlocutores estão sendo honestos conosco. As convenções da comunicação linguística normal pedem a você para primeiro considerar uma teoria que explique todos esses dados em termos de sinceridade:


t0. O escritor da carta disse isso porque ele acreditava ser verdadeiro – ele acreditava que o amigo dele era um bom professor e um grande colega e tinha o potencial de fazer contribuições significantes para seu campo.


Infelizmente, anos de leitura dessas cartas de recomendação tornaram-nos um pouco cínicos. Nós imediatamente podemos conceber duas explicações alternativas do comportamento linguístico do escritor da carta.


t1. O escritor da carta disso isso porque ele quer conseguir um emprego para o amigo dele.

t2. O falante disso isso para se livrar de um colega indesejável.


A inferência à explicação melhor pede-nos, em algum momento, para nos comprometermos com um julgamento de plausibilidade explanatória. Qual é a explicação melhor para o que o escritor da carta disse? Basicamente, nossas respostas caem sob duas categorias. Ou nós julgaremos que a explicação melhor da declaração é a original que a comunicação normal recomenda – ele disse isso porque ele acredita nisso; ele é sincero. Ou nós preferiríamos uma das explicações rivais que oferecem alguma outra razão para ele ter feito a declaração. Nesse último caso, o testemunho dele não tem utilidade para nós, de fato, nós deveríamos descontá-lo. Mesmo se resultar que o amigo dele é um grande candidato para o emprego, se nós julgarmos que a carta é insincera ou desonesta, o testemunho dela é evidência incerta sobre isso.

Se nós concedermos a ele o benefício da dúvida na questão de sinceridade, nós passar por todo um novo nível de avaliação antes que nós possamos colocar confiança completa na verdade de sua declaração. O primeiro nível de avaliação de evidência produz novos dados que também precisam ser explicados.


e4. O escritor da carta está dizendo essas grandes coisas sobre o colega dele porque ele sinceramente as considera ser verdadeiras.


Por que esta pessoa (biografia) acredita nessas coisas (o conteúdo da afirmação)? Mais uma vez, as suposições da comunicação normal [81]pedem-nos para endossar uma explicação padrão para as mais sinceras tentativas de comunicação.


t*0. O falante acredita nisso porque ele conhece sobre o que ele está falando – de fato, ele acredita porque é verdadeiro.


Dessa maneira, quando nós aceitamos informação através do testemunho ou autoridade de outros, nós tacitamente nos envolvemos em uma dupla inferência explanatória. Nós podemos explicar o ato linguístico como uma tentativa sincera de comunicar a crença do falante e então explicar a crença do falante em termos do falante conhecer sobre o que ele está falando.

Larry Wright prestativamente distinguiu duas coisas bem diferentes que podem dar errado quando alguém comunica uma crença sinceramente sustentada. Algumas vezes as pessoas têm acesso incerto à informação que eles estão tentando comunicar. Dessa maneira, uma explicação rival de minha crença de que meu amigo é um bom professor poderia ser que eu apenas o observei em especializados cursos de divisão superior que seriam de interesse para especialistas em filosofia e psicologia – por exemplo, eu nunca o observei em grandes cursos introdutórios.


t*1. O escritor da carta acredita que o amigo dele é um bom professor porque ele nunca observou seu péssimo ensino em grandes cursos introdutórios.


Mesmo quando autoridades possuem acesso excelente à informação, nós ainda nos preocupamos com as habilidades delas para, com segurança, interpretarem essa informação. Nesse contexto, o cauteloso leitor da carta poderia ter, pelo menos, duas possíveis preocupações sobre meu testemunho. A primeira tem a ver com treinamento especializado. Obviamente, minhas alegações pressupõem bastante conhecimento técnico sobre pedagogia, academia e padrões de pesquisa em psicologia contemporânea. Alguém gostaria de pensar que as expectativas para ensino e colegialidade não variariam através das humanidades e ciências naturais e comportamentais. Esperançosamente, eu tenho o necessário conhecimento para fornecer informação relevante sobre esses aspectos da carreira de meu amigo. Mas e quanto à predição de distinção profissional com respeito a sua pesquisa? Eu sou treinado como um filósofo, não um psicólogo. Talvez as “intuições” psicológicas dele que eu observei no curso de nosso ensino e escrita colaborativos sejam conhecimentos comuns no campo de estudo. Ou pior, talvez elas sejam desacreditadas e excêntricas. Eu sou realmente qualificado para dizer? Mais uma vez, uma explicação rival sugere-se.


t*2. O escritor da carta acredita que o colega dele ganhará por causa de sua carência de conhecimento sobre psicologia acadêmica contemporânea.


Uma preocupação muito diferente sobre a confiabilidade de minha crença foca-se em minha habilidade de “objetivamente” processar a informação à qual eu tenho acesso confiável. Basicamente, a preocupação aqui é uma de viés perceptivo ou interpretativo. Talvez eu admire assim a técnica pedagógica dele porque ela é tão similar ao meu próprio inefetivo estilo em sala de aula. Ou talvez eu esteja tão impressionado com as hipóteses psicológicas dele porque elas coincidem com minhas próprias noções imaturas. Afinal, ele é meu bom amigo – não poderia eu ser culpado de “enxergar mais com meu coração do que com meus olhos?” Então nós temos ainda outra categoria de explicação rival:


[82]t*2. O escritor da carta acredita nessas coisas grosseiramente infladas sobre o amigo dele por causa de algum tipo de viés perceptivo.


Nenhum dos [pontos] acima deveria ser tomado para sugerir que o testemunho é inerentemente não confiável. O que poderia ser mais óbvio do que o fato de que quase tudo que nós alegamos conhecer chega-nos de segunda mão através da palavra de outros? O que eu estou sugerindo é que nossa avaliação de testemunhos pode ser estruturada e criticamente avaliada como um tipo de evidência – evidência que se adéqua perfeitamente à receita da inferência-à-explicação-melhor.


Testemunho relativo a Milagres


No livro monumental de David Hume, An Enquiry Concerning Human Understanding, há um argumento bastante curto com espantosas implicações religiosas. Hume argumenta que nós nunca estamos justificados em aceitar o testemunho de outros de que um evento verdadeiramente miraculoso aconteceu. Mas, uma vez que as todas três grandes religiões teísticas – judaísmo, cristianismo e islã –, em algum nível fundamental, dependem de relatos de milagres, o argumento de Hume parece ameaçar a legitimidade intelectual delas. Uma análise completa do argumento, quanto mais uma completa investigação filosófica de milagres, seria o assunto de um livro inteiro, talvez de uma carreira inteira. No entanto, nós possuímos as ferramentas para, pelo menos, estabelecer a estrutura do argumento de Hume e talvez começar o processo de avaliar sua evidência. Então qual é exatamente o argumento?


Um milagre é uma violação das leis da natureza; e, como uma firme e inalterável experiência estabeleceu essas leis, a prova contra um milagre, a partir da natureza mesma do fato, é tão completa quanto qualquer argumento a partir da experiência pode ser imaginado. Por que é mais que provável, que todos os homens precisam morrer; que o chumbo, por si mesmo, não pode permanecer suspenso no ar; que o fogo consome a madeira, e é extinto pela água; a menos que esses eventos sejam descobertos conforme às leis da natureza, e seja requerida uma violação dessas leis ou, em outras palavras, um milagre para os impedir? Nada é mais estimado do que um milagre, se alguma vez aconteceu no curso comum da natureza. Não é milagre que um homem, aparentemente em boa saúde, deva morrer de repente; porque um tipo semelhante de morte, embora mais incomum do que qualquer outra, todavia tem sido frequentemente observado acontecer. Mas é um milagre que um morto deva voltar à vida; porque isso nunca foi observado em qualquer época ou país. Portanto, tem de haver uma experiência uniforme contra qualquer evento miraculoso, de outra maneira o evento não seria digno dessa denominação…

A consequência simples é (e é uma máxima geral digna de nossa atenção), ‘Que nenhum testemunho é suficiente para estabelecer um milagre, a menos que o testemunho seja de um tipo tal que a falsidade seria mais miraculosa do que o fato, coisa que ele empreende estabelecer. … ’ Quando alguém me conta, que viu um morto restaurado à vida, eu imediatamente considero comigo mesmo, se é mais provável que essa pessoa deva enganar ou estar enganada, ou que o fato que ela relata, deva realmente ter ocorrido. Eu pondero o milagre contra o outro e, de acordo com a superioridade, a qual eu descubro, eu pronuncio minha decisão, e sempre rejeito o milagre maior. Se a falsidade de seu testemunho for mais miraculosa, do que o evento que ele relata; então, e não até que então, pode ele pretender comandar minha crença ou opinião.

No raciocínio acima exposto, nós supusemos que o testemunho, sobre o qual o milagre está fundamentado, pode possivelmente equivaler a uma prova inteira, e que a falsidade desse testemunho poder ser um prodígio real: mas [83]é fácil mostrar que nós fomos bastante liberais em nossa concessão, e que nunca um evento miraculoso foi estabelecido sobre uma evidência tão completa.”2


Comecemos com o parágrafo do meio. Alguém relata ver um morto restaurado à vida. Se nós tratássemos esse relato como evidência potencial de que um milagre genuíno ocorreu, nós esquematizaríamos esse testemunho como se segue.


e1. Declaração linguística – “Eu vi um morto restaurado à vida.”

e2. Contexto – Conta-se a nós onde, quando e como.

e3. Biografia relevante – Tudo que nós conhecemos sobre a pessoa quem nos conta isso.

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t0. Ele genuinamente acredita que ele viu um morto restaurado à vida.

------------------------------

t*0. Um morto foi restaurado à vida.


Agora Hume considera duas explicações rivais, uma para cada uma das inferências: “Esta pessoa … engana.”


t1. Ele realmente não acredita que ele viu um morto restaurado à vida.


Ou “esta pessoa … [foi] enganada.”


t*1. Ele foi enganado pensando que viu um morto restaurado à vida.


Hume prossegue para combinar t1 e t*1 no que os lógicos chamam de uma disjunção – “t1 e t*1” – “ele engana, ou ele é enganado.” Embora ele não estivesse usando explicitamente a inferência à explicação melhor, nós podemos compreender Hume como propondo uma explicação rival.


t*1. Ele realmente não acredita que ele viu um morto restaurado á vida, ou ele foi enganado pensando que viu um morto restaurado à vida.


Hume então, implicitamente, move-se para o passo 3 na receita e oferece uma classificação ordenada da explicação original do testemunho relativo ao milagre e a disjuntiva explicação rival. A teoria t*2 é uma explicação melhor do que foi dito do que t*0.

Por que ele está tão confiante nesta classificação? A resposta é o que Hume, e quase qualquer filósofo e teólogo antigamente, quer dizer com alguma coisa ser um milagre. Milagres são violações das leis da natureza. Dadas as leis da física, bioquímica e biologia, o mundo natural dita que a morte é permanente. A evidência mesma que estabelece essas leis da natureza automaticamente conta contra o milagre relatado. Para Hume, é óbvio que várias hipóteses de leis da natureza são explicações melhores do que as rivais que permitem exceções dessas leis, de modo que milagres estão condenado a serem excessivamente implausíveis.

Até aqui eu concordo com Hume sobre isso. Se um estranho eventual conta-me que ele testemunhou um milagre, eu quase certamente julgaria que, ou ele está mentindo ou está honestamente enganado, e não que houve uma interrupção nas operações do mundo natural. Mas meu julgamento está baseado em uma avaliação subjetiva da plausibilidade de diferentes explicações – aplicação clássica da receita da inferência-a-explicação-melhor – e não no significado do termo milagre. Em meu julgamento, teístas não estão alegando [84]que as leis da natureza não valem ou que a evidência para eles é de alguma maneira falha. Antes, eles acreditam que um Deus onipotente criou o mundo físico inteiro, incluindo essas leis da natureza, e pode, se Ele escolher, substituir essas leis pelo exercício de Sua onipotência. Portanto, milagres pressupõem a existência de Deus. Testemunho sobre a ocorrência de um milagre poderia contar como boa evidência para a existência de Deus, mas, como Hume disse, isso sempre se depara com dificuldade séria. Para eu levar em conta seriamente esse tipo de testemunho, seria necessário vir de fontes muito especiais, assim e3 seria muito importante. Adicionalmente, eu suspeito que, sem considerar as qualidades da fonte, eu necessitaria da corroboração de muitas fontes igualmente boas. Finalmente, eu penso que necessitaria de alguma evidência independente de que Deus poderia existir. Considerar se tal evidência está disponível é uma das questões mais antigas da filosofia ocidental. Se você está curioso sobre o uso da evidência, de fato, o uso da inferência à explicação melhor (IEM), para apresentar argumentos a favor e contra a existência de Deus, eu convido você a ler meu próximo livro, Religious Evidence, ou talvez alguns de meus artigos que tentam aplicar a inferência à explicação melhor como um meio de avaliar a qualidade da evidência que nós temos para a evidência de Deus.3


Exercícios


  1. Por que as convenções de comunicação normal recomendar que nós assumamos honestidade quando alguém nos conta alguma coisa?

  2. Presumindo que eu estava sendo totalmente honesto em minha carta de recomendação, quais são as duas preocupações que alguém poderia ter de que eu sabia sobre o que eu estava falando?

  3. Você lê a seguinte postagem no Facebook: “Eu acabei de observar um milagre – eu vi um morto restaurado à vida!” Use as ferramente que nós desenvolvemos neste capítulo para avaliar a qualidade da evidência que você tem para a alegação de que um morto foi restaurado à vida.


Questionário Nove


Em 6 de novembro de 2012, Donald Trump tuitou o seguinte: “O conceito de aquecimento global foi criado pelo e para os chineses em ordem de tornar a indústria da EUA não competitiva” (https://twitter.com/realdonaldtrump/status/265895292191248385?lang=en).4

Use as ferramentas que nós desenvolvemos neste capítulo para avaliar a qualidade da evidência que você tem para a alegação de que o aquecimento global é uma farsa (hoax) perpetrada pelos chineses para danificar a manufatura dos EUA.


Próximo capítulo


ORIGINAL

Johnson, Jeffery L., “Inferring and Explaining” (2019). PDXOpen: Open Educational Resources. 23. p. 79-85. Disponível em:<https://pdxscholar.library.pdx.edu/pdxopen/23>.


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


Notas

1 Gilbert Harman, “Knowledge, Inference, and Explanation,” American Philosophical Quarterly 5 (1968): 167.

2 David Hume, An Inquiry Concerning Human Understanding, ed. L. A. Selby Bigge (Oxford: Calendon, 1902), 114– 16.

3 Ver Jeff Johnson, “Inference to the Best Explanation and the Problem of Evil,” Journal of Religion 64, nº 1 (1984): 54-72; Jeffery L. Johnson, “Inference to the Best Explanation and the New Teleological Argument,” Southern Journal of Philosophy 31 (1993): 193-203; Jeffery L. Johnson, “Explanation, Evidence, and Mystical Experience,” Minerva – an Internet Journal of Philosophy [85]5 (2001): 69-93; Jefery L. Johnson, “From Friendly Atheism to Friendly Natural Teology,” Minerva – an Internet Journal of Philosophy 5 (2003): 125-42; e Jeffery L. Johnson and Joyclynn Potter, “The Argument from Language and the Existence of God,” Journal of Religion, nº 1 (January 2005): 83-83.

4 Donald J. Trump (@realDonaldTrump), “The concept of global warming was created by and for the Chinese in order to make U.S. manufacturing non-competitive,” Twitter, November 6, 2012, 11:15 a.m., https://twitter.com/realdonaldtrump/status/265895292191248385?lang=en

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Inferir e Explicar - Capítulo 8 Darwin e a Descendência Comum

Inferir e Explicar


Por Jeffery L. Johnson


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[67]Capítulo 8

Darwin e a Descendência Comum


Quando a bordo do H.M.S “Beagle,” como naturalista, ocorreram-me muito fatos determinados sobre a distribuição de seres orgânicos habitando a América do Sul e as relações geológicas dos habitantes presentes com os passados daquele continente. Esses fatos, como serão vistos no capítulos posteriores deste volume, pareceram-me lançar alguma luz sobre a origem das espécies – esse mistério dos mistérios, como tem sido chamados por um de nossos maiores filósofos.

Charles Darwin1


Fazendo Sentido do que já é Conhecido


A história de Semmelweis é a de um cientista confrontando-se com um mistério e sistematicamente saindo e reunindo novos dados que o ajudaram a resolver o mistério. A história de Darwin é muito diferente. On the Origin of Species, o “resumo” de mais de quatrocentas páginas de Darwin é um dos trabalhos mais argumentados na história da ciência. Ele faz um caso poderoso para, o que nós deveremos ver, são duas teorias monumentais. Embora ele fosse um excelente biólogo de campo e geólogo, e embora suas experiências no Beagle fossem claramente formativas, a evidência que ele apresentou em On the Origiin of Species não era original; nem continha descobertas de ponta. O gênio de Darwin, eu diria, foi ver e explicar fatos conhecidos de maneiras novas e perspicazes.

A história da ciência é cheia de exemplos onde a descoberta revolucionária surge, não no laboratório, mas no estudo do teórico. Isso dificilmente é surpreendente, uma vez que, quando você está tentando fazer sentido de uma miríade de fatos e resultados que compõem quaisquer das ciências naturais, o nível de generalidade e abstração requerido para as grandes e abrangentes teorias raramente virá, se alguma vez, de um experimento belamente [68]projetado. Darwin foi capaz de articular princípios gerais que unificaram a biologia por mais de século e meio. E mais notavelmente, adequa-se perfeitamente a descobertas que Darwin mesmo nunca poderia ter imaginado.


As Duas Teorias


A “teoria da evolução,” a qual Darwin chamava de uma “teoria da descendência com modificação por seleção natural,” é realmente três teorias distintas, duas das quais devem muitíssimo a Darwin. Nós podemos traduzir o termo evolução como simplesmente significando “mudança biológica.” O mundo biológico que nós vemos hoje, incluindo as espécies agora em existência, é diferente do mundo biológico em diferentes períodos históricos. Muitos teóricos antes de Darwin, incluindo seu próprio avó, Erasmus Darwin, propuseram teorias de mudança biológica. O problema era que, embora (como nós deveremos ver diretamente) essas teorias explicassem belamente muitos fatos conhecidos, ninguém antes de Darwin tinha qualquer ideia quanto às causas dessa mudança.

Descendência com modificação, ou equivalentemente, descendência comum, é a teoria de Darwin sobre os padrões nessa, e a história dessa, mudança biológica. Darwin não podia realmente receber crédito por originar a teoria de descendência com modificação, mas uma das grandes realizações de On the Origin of Species é que ele estabeleceu a evidência para sua teoria tão poderosamente que dentro de menos de uma geração quase todo biólogo aceitou a verdade dessa visão da história biológica.

Figura 2. Simples cladograma. [ilustração do processo de modificação entre o “mais recente ancestral comum de A, B e C (Most recent common ancestor of A, B, and C)” e o “mais recente ancestral comum de B e C (Most recent common ancestor of B and C)” em função do tempo (Time)] Recuperado de: https://www.geol.umd.edu/~jmerck/honr219d/notes/06.html.

O muito simples gráfico acima nos dá o coração da descendência com modificação. O eixo vertical representa o tempo, e os eixos horizontais representam o retrato presente ou passado da diversidade biológica. Assim, nesse pequeno fragmento, nós aprendemos sobre a história de três espécies relacionadas, A, B e C. Que elas estão relacionadas é indicado pelo ancestral comum na base (ou seja, no início da história). Nós também aprendemos que as espécies B e C são chegadas evolucionárias mais recentes do que a espécie A, uma vez que o ancestral comum que inicia a história delas está mais alto (posterior). A descendência com modificação diz que as espécies atuais estão relacionadas umas com as outras através de uma série de sempre cada vez mais estreitos ancestrais comuns (desse modo, descendência comum). A extensão lógica dessa linha de raciocínio é, como Darwin disse, que toda a vida pode ser traçada de volta um único ancestral comum.


Eu não posso duvidar de que a teoria da descendência com modificação abrange todos os membros da mesma grande classe ou reino. Eu acredito que os animais descendem de, no máximo, apenas quatro ou cinco progenitores, e as plantas, de um número igual ou menor.

[69]A analogia levar-me-ia um passo adiante, a saber, à crença de que todos os animais e plantas são descendentes de algum único protótipo.2


Darwin preocupava-se que a “analogia pode ser um guia enganoso,” mas fatos contemporâneos sobre a estrutura molecular do DNA fazem essa especulação parece ainda mais forte.

Se a história da vida é como a descendência com modificação delineia, a questão óbvia é o que causa toda essa mudança? Se novas espécies surgem de ancestrais, qual é a origem das espécies? O golpe de gênio de Darwin foi uma resposta original para essa questão. Os criadores (Breeders) “selecionam” o cavalo (stock) para melhorá-lo. A natureza, por analogia, também seleciona, mas não conscientemente, nem com um propósito. A seleção natural é o motor que conduz a história biológica. Mais indivíduos em cada geração são nascidos do que sobreviverão, assim há uma “luta pela existência.” Alguns indivíduos são suficientemente sortudos para nascerem com leves vantagens nessa luta, e essas vantagens melhorar suas chances de sobreviverem e passarem essas vantagens para sua descendência. Assim, através do tempo, há inevitável mudança no interior da espécie e, dado tempo suficiente, essas mudanças acumulam para resultar no início de uma nova espécie.


Explicações Rivais da Descendência Comum


No restante deste capítulo, nós despenderemos nosso tempo focando na menos cientificamente controversa das duas teorias de Darwin mas a que claramente é a mais controversa na cultura popular – a descendência com modificação. Eu quero tentar convencer você que a evidência que Darwin apresentou para a visão dele de história biológica é bastante irresistível. Evidência adicional mais recente apenas fortaleceu adicionalmente o seu argumento original.

Nós devemos endereçar candidamente as fontes dessa controvérsia cultural. A fonte primária, é claro, é que Darwin é amplamente considerado antirreligioso. A teoria da descendência é vista por muitos como não apenas negando a verdade literal do Antigo Testamento mas negando totalmente a existência de Deus. Essa última interpretação é surpreendente à luz do fato de que muitos cientistas contemporâneos veem a si mesmos como crentes religiosos tradicionais, contudo aceitam a verdade científica da descendência comum e seleção natural. Meus estudantes ficam constantemente surpresos ao ouvir que Darwin, em nenhum lugar, nega a existência de Deus, nem o On the Origin of Species diz qualquer coisa quer sobre a criação do universo quer sobre a origem da vida. Muitos teístas sinceros têm visto consistência completa entre o que a religião tradicional ensina-nos e o que nossas melhores ciências naturais, incluindo a biologia, ensina-nos.

A segunda fonte de controvérsia relaciona-se ao lugar de nossa própria espécie no retrato de Darwin. Embora ele tentasse atenuá-lo em Origin, era perfeitamente óbvio para seus contemporâneos, tanto oponentes quanto apoiadores, que humanos eram tão parte da descendência com modificação e seleção natural como qualquer outra parte do mundo biológico. Isso foi perturbador para muitos, eu compreendo. Eu pessoalmente penso que isso explica muito do que conheço sobre eu mesmo, meus amigos e o mundo social nós vivemos.

Antes de On the Origin of Species, a explicação rival mais amplamente aceita de nossa história biológica assumia que as espécies eram permanentes, imutáveis, e os indivíduos, produtos de criação divina. Essa visão não era apenas religiosa, mas também científica. A teoria [70]da criação especial deveria ser interpretada, em nosso contexto, como uma explicação rival para fatos que Darwin ofereceu em apoio à descendência com modificação. Seria útil distinguir duas versões da criação especial. Uma aceitava o livro do Gênese como história literal – todas as espécies da terra, assim como tudo o mais, foram criadas individualmente por Deus ao ongo do curso de seis dias de vinte e quatro horas.


t1. Criação especial fundamentalista.


Uma segunda versão de criação especial, que desfrutava de mais apoio entre os contemporâneos de Darwin na comunidade científica, pode ser denominada de criação especial relaxada. Ela admitia alguns dos dados sobre mudança biológica e permitia que a criação divina de espécies individuais ocorresse em tempos diferentes na história da terra e da vida.


t2. Criação especial relaxada.


A Idade Expandida da Terra


A primeira parte do caso de Darwin para a descendência com modificação consistia numa análise da relativamente nova estimativa da idade da terra, de fato um poderoso subargumento para a mesma.


e1. A terra é muito mais velha do que tinha sido acreditado anteriormente – milhares de milhões de anos.


Isso era essencial para a teoria dele, pois uma grande quantidade de tempo era requerida para o tipo de mudança que ele estava postulando. É duvidoso se qualquer teoria tal como a da descendência comum poderia ter surgido antes da descoberta do “tempo geológico.”

Nós deveríamos pausar aqui para notar algo geral sobre a inferência à explicação melhor. Você lembrar-se-á de que, no capítulo 4, nós tratamos as premissas em um argumento como dados e a teoria sendo defendida como uma explicação dos dados. Isso é efetivamente um pouco de simplificação excessiva. Muitas vezes fatos importantes serão incluídos nas premissas que não são explicados pela conclusão mas são relevantes para essa conclusão, sendo uma explicação adequada para aqueles dados que estão sendo explicados. Charlie ser um escritor ruim não é explicado por ele ser um trapaceiro, mas ainda foi relevante para essa explicação dos exames idênticos. A descendência com modificação não explica uma terra muito mais antiga do que as gerações anteriores acreditavam, mas essa última é requerida para a descendência com modificação funcionar.


O Registro Fóssil


Darwin despende uma grande quantidade de tempo discutindo fósseis, e bem ele podia. Qualquer outra coisa que eles contenham, eles virtualmente gritam mudança.


Vejamos agora se os vários fatos e regras relativos à sucessão geológica dos seres orgânicos, concordam melhor com a visão da imutabilidade das espécies, ou com aquela de sua modificação lenta e gradual, através da descendência e solução natural.3


Nós vemos espécies que uma vez vicejaram e agora estão extintas. Nós vemos progressões tais como as mudanças no cavalo americano. A ênfase dele em fosseis mostra-nos que ele via isso como uma parte particularmente forte de evidência.


e2. O registro fóssil.


[71]O registro fóssil, particularmente no tempo de Darwin, era um pouco como uma espada de dois gumes. Os críticos reclamavam de que, se a descendência com modificação fosse verdadeira, haveria um registro fóssil dessas “formas transicionais.” Darwin sabiamente admitia a força dessa objeção, mas também oferecia uma explicação muito sofisticada de quão difícil é para fosseis formarem-se e porque lacunas no registro eram inevitáveis.


A Scala Naturae, ou o Sistema Natural


Uma visão largamente sustentada no século anterior a Darwin postulava um tipo muito diferente de ordem do mundo biológico. De acordo com a scala naturae (escala da natureza), a vida era estática mas hierárquica. Havia uma progressão observável e classificável a partir das mais simples e primitivas formas de vida até a mais complexa e avançada. Essa visão tinha sido minuciosamente rejeitada pela época em que Darwin começou seu trabalho. Mas um restante dela permaneceu no coração da biologia. Agora é entendido que embora a estrutura não fosse hierárquica, apesar disso, havia uma ordem estruturada de vida


Desde o primeiro alvorecer da vida, considerou-se que todos os seres orgânicos assemelham-se uns aos outros em graus descendentes, de maneira que eles podem ser classificados em grupos sob grupos. Essa classificação não é arbitrária como o agrupamento de estrelas em constelações.4


Qualquer criança inteligente de quatro ano pode ir ao zoológico e reconhecer que as diferentes espécies de felinos nas jaulas são todos gatos, exatamente como Boots em casa. As espécies felinas ao redor do mundo estão “relacionadas” umas com as outras, e elas estão mais “intimamente relacionadas” umas com as outras do que as espécies caninas vivendo no mesmo ambiente com elas. A natureza parece ordenar-se em um sistema natural gigante.

A questão óbvia é, por que nós observamos o seguinte?


e3. O sistema natural.


A resposta de Darwin era inequívoca:


As afinidades reais de todos os seres orgânicos são devidas à herança de comunidade de descendência. O sistema natural é um arranjo genealógico, no qual nós temos descoberto as linhas de descendência pelas características mais permanentes, por mais delicada que sua importância vital possa ser.5


Padrões de Distribuição Geográfica


Darwin era fascinado pela conexão entre a vida e onde essa vida era encontrada nesta terra. Antes de Darwin, a única explicação viável dessa conexão era que Deus escolheu colocá-la ai. Darwin é o fundador da moderna, causal, biogeografia.6 E fatos biogeográficos são, talvez, a evidência mais amplamente utilizada em On the Origin of Species.


e4. Padrões de distribuição geográfica.


Comecemos como uma questão macro. Se um Deus onisciente e amoroso criou cada espécie para se adequar perfeitamente ao ambiente dela, por que nós vemos semelhante diversidade em climas virtualmente idênticos entre o Velho e o Novo Mundos?


Se nós viajássemos através do vasto continente americano, a partir das partes centrais dos Estados Unidos ao seu ponto extremo sul … Dificilmente há um clima ou condição no Velho mundo que não possa encontrar paralelo no [72]Novo – pelo menos tão de perto quanto as mesmas espécies geralmente requerem … Não se opondo a esse paralelismo geral nas condições dos Mundos Velho e Novo, quão amplamente diferentes são suas produções vivas!7


A partir de continentes separados por oceanos inteiros a ilhas separadas por apenas umas pequenas milhas de oceanos, as microquestões de distribuição biogeográfica são exatamente tão enigmáticas para a teoria da criação especial.


A mesma lei que determinou a relação entre os habitantes das ilhas e o continente mais próximo é, algumas vezes, exibida em escala menor, mas de uma maneira mais interessante, dentro dos limites do mesmo arquipélago. Dessa maneira, cada ilha separada do Arquipélago de Galápagos é ocupada, e o fato é maravilhoso, por muitas espécies distintas; mas essas espécies estão relacionadas umas com as outras de uma maneira muito mais próxima do que os habitantes do continente americano, ou qualquer outro quartel do mundo.8


A descendência com modificação, é claro, belamente responde a ambas as questões. A flora e a fauna nos Mundos Velho e Novo são geralmente diferentes por que elas originam-se de linhas muito diferentes de descendência. Espécies nas Galápagos (pense nos famosos tentilhões) todas descendem de um ancestral comum no continente da América do Sul, mas têm histórias diferentes de descendência em ilhas individuais.


Fatos Morfológicos


Morfologia é a ciência do corpo e da forma, por isso a noção computacional de uma imagem “morphing.” Considere os seguintes tetrápodes. Por que a estrutura comum de quatro “pernas”? O sapo pula, o leão corre, esse dinossauro particular nadava, e o pássaro voa. Se você estivesse engendrando uma máquina saltitante, uma máquina corredora, uma máquina nadadora e uma máquina voadora, você automaticamente usaria o mesmo projeto geral?


Figura 3. Sapo (fonte: https://www.flickr.com/photos/aspidoscelis/31098104412/), leoa (fonte: https://www.flickr.com/photos/mathiasappel/26260010225/), dinossauro (fonte: https://www.flickr.com/photos/internetarchivebookimages/14777663574/) e falcão (fonte: https://www.flickr.com/x/t/0098009/photos/priyanthadealwis/29599225312/).

Darwin via a morfologia como fundamental em sua defesa da descendência com modificação.


Nós temos visto que os membros da mesma classe, independentemente de seus hábitos de vida, assemelham-se uns aos outros no plano geral de sua organização. Essa semelhança é frequentemente expressa pelo termo ‘unidade de tipo’ … O assunto inteiro é incluído no nome geral de Morfologia. Esse é o departamento mais interessante da história natural, e pode ser dito ser sua alma mesma.9


[73]Imediatamente se seguindo a essa citação, Darwin articula uma questão de dados concernentes aos membros anteriores em mamíferos que é talvez, para a maioria de meus estudantes, pelo menos, o mais convincente fragmento de evidência para a descendência comum.


O que pode ser mais curioso do que a mão de um homem, formada para agarrar (grasping), que a de uma toupeira para escavar (digging), a perna de um cavalo, a nadadeira do golfinho e a asa do morcego; deveriam todas ser construídas a partir do mesmo padrão, e deveriam todas incluir os mesmos ossos nas mesmas posições relativas?10


Bastante curioso, não concordariam?


e5. Semelhanças morfológicas.


Fatos Embriológicos


Como Darwin observa várias vezes em sua discussão de embriões, exatamente como a similaridade notável nos ossos nos membros anteriores de mamíferos requerem uma explicação, características curiosas dos embriões também precisam ser explicadas.


Como então nós podemos explicar esses vários fatos na embriologia, - a saber, a muito geral, mas não universal, diferença em estrutura entre o embrião e o adulto; - das partes do mesmo embrião individual, as quais, em última análise, torna-se muito diferentes e servem para diferentes propósitos, sendo parecidas no período inicial de crescimento; - de embriões de diferentes espécies dentro de uma mesma classe, geralmente, mas não universalmente, assemelhando-se uns aos outros; - da estrutura do embrião não estando relacionada de perto às suas condições de existência, exceto quando o embrião torna-se, em qualquer período da vida, ativo e tem de prover a si mesmo; - do embrião aparentemente tendo algumas vezes uma organização mais elevada do que o animal maduro, no qual ele é desenvolvido. Eu aceito todos esses fatos como verrdadeiros, como se seguem, na visão da descendência com modificação.11


Dado um ancestral comum, Darwin parece dizer, e eu posso explicar a rota sinuosa, com muitos desvios, a partir do ovo ao adulto no desenvolvimento animal – porque jovens baleias-de-barbatana (baleen whales) desenvolvem dentes, porque vertebrados que vivem em terra (incluindo nós mesmos) atravessam o estágio de arco de guelra (gill-arch stage), e porque vertebrados superiores têm uma notocorda.


Não há razão óbvia porque, por exemplo, a asa de um morcego, ou a barbatana de um golfinho, não deveriam ter sido esboçadas com todas as partes em proporções apropriadas, tão logo qualquer estrutura tornou-se visível no embrião.12


e6. Esquisitices embriológicas.


Eu preciso contar a você aqui que se você pesquisar no Google por “Darwin, embriologia,” você encontraria alguns dos sites que são altamente críticos de Darwin e argumentam que o apelo dele à embriologia foi desacreditado na biologia moderna. Isso não é realmente verdadeiro, mas nós podemos fazer sentido dessas críticas, eu acredito sinceramente. Parte do problema que Darwin encarou em sua seção sobre embriologia foi que séculos de pensamento vincularam desenvolvimento embriônico à scala naturae estática que nós discutimos antes. Esses cientistas acreditavam que cada estágio no desenvolvimento embriônico representava um estágio anterior, imutável, na hierarquia da vida. Darwin, é claro, rejeitou completamente essa visão, mas ela permaneceu parte do (mau) entendimento no interior da embriologia.

Até mais problemático, entretanto, era que muitos cientistas simpáticos à mudança biológica [74]acreditavam que havia uma forte correlação entre os diferentes estágios da história da vida – sua estrutura filogenética e os diferentes estágios no desenvolvimento embriônico individual. Desta maneira um dos contemporâneos de Darwin, Ernst Haeckel, afirmava


a ontogenia é uma recapitulação concisa e comprimida da filogenia, condicionada pelas leis de hereditariedade e adaptação.13


Nós agora sabemos como a teoria de recapitulação está errada e que o desenvolvimento embriônico é muito mais complicado do Darwin ou Haeckel jamais podiam ter imaginado. Darwin concebia descendência com modificação como se aplicando a indivíduos exemplificando uma espécie – esse fenótipo da espécie (sua aparência e comportamento). A biologia moderna, contudo, também inclui a descendência com modificação de seu genótipo (a estrutura genética para a construção do fenótipo), e se isso não fosse suficientemente complicado, ela também precisa incluir a descendência com modificação dos processos bioquímicos subjacentes que tomam a informação no genótipo e fisicamente desenvolvem o indivíduo. Nós realmente apenas estamos adquirindo um nível básico de entendimento sobre tudo isso no século XXI.14


A Evidência de Darwin para Descendência com Modificação


Agora a evidência pode ser esquematizada


e1. A terra é muito mais velha do que tinha sido acreditado anteriormente – milhares de milhões de anos.

e2. O registro fóssil.

e3. O sistema natural.

e4. Padrões de distribuição geográfica.

e5. Semelhanças morfológicas.

e6. Esquisitices embriológicas.

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t0. Descendência com modificação.


A questão central na inferência à explicação melhor é sempre a mesma – t0 é a explicação melhor? Nós já discutimos as duas explicações rivais sérias no tempo de Darwin.


t1. Criação especial fundamentalista.

t2. Criação especial relaxada.


Dentro de dez anos ou aproximadamente da publicação de On the Origin of Species, digamos 1870, até a primeira década do século XXI, tem havido consenso claro e irresistível na ampla comunidade científica de que a descendência com modificação – a evolução – faz um trabalho tão manifestamente melhor em explicar todos esses dados incontroversos e que a evidência é tão forte que nós podemos falar da descendência com modificação como um fato científico. É claro, você precisa classificar em ordem as explicações por você mesmo. Alguns de vocês insistirão em uma classificação diferente e sustentarão que é seu direito moral e intelectual. Meu trabalho como um filósofo e professor é realizado se você simplesmente pode ver porque Darwin, seus contemporâneos, e seus descendentes científicos todos consideraram a evidência tão poderosa. Eu quero lembrar a você, contudo, que muitos teístas tradicionais têm visto consistência completa entre a doutrina religiosa tradicional e evolução. Considere as palavras de Richard Swinborne, por muitos anos Professor Nolloth da Filosofia da Religião Cristã na Universidade de Oxford, no começo de seu livro The Evolution of the Soul:


[75]“Os homens evoluíram de macacos, e macacos de animais mais primitivos, e os animais mais primitivos da sopa de átomos inanimados que se consolidou para formar a terra há uns quatro milhares de milhões de anos. Embora haja muita incerteza sobre os exatos estágios e mecanismos envolvidos, o fato da evolução é evidente.15


Seleção Natural


Por que nós vemos tais mudanças na história biológica? Por que essa mudança tão frequentemente parece ser exatamente o que é requerido pelas circunstâncias mutantes? Qual é o motor que move a descendência com modificação?


Ao considerar a Origem das Espécies, é muito concebível que um naturalista, refletindo sobre as afinidades mútuas de seres orgânicos, sobre suas relações embriológicas, sua distribuição geográfica, sucessão geológica, e outros fatores semelhantes, poderia chegar à conclusão de que cada espécie não fora independentemente criada, mas descendera, como variedades de outras espécies. No entanto, uma tal conclusão, mesmo se bem fundamentada, seria insatisfatória, até que pudesse ser mostrado como as inumeráveis espécies habitando este mundo foram modificadas, de modo a adquirirem essa perfeição de estrutura e coadaptação que mais justamente excita nossa admiração.16


Um de meus professores chamou a seleção natural de um algoritmo, e Ernst Mayr, de quem eu tomarei emprestado pesadamente nesta seção, chama a teoria de “muito lógica.”17 Tudo isso poderia ser tomado como significando que a seleção natural é automática ou que a inferência é dedutiva. O argumento, todavia, é explicativo, exatamente como o argumento para a descendência comum. Eu seguirei Mayr, de fato eu usarei suas palavras, e tratarei o raciocínio de Darwin como “três inferências baseadas em cinco fatos.18

Três desses fatos fornecem evidência para o que ele chamou de “luta pela existência.”


Uma luta pela existência segue-se a partir da alta taxa na qual todos os seres orgânicos tendem a aumentar. Cada ser, que durante seu período de vida natural produz vários ovos ou sementes, precisa sofrer destruição em algum período de sua vida, e durante alguma temporada ou ano ocasional, caso contrário, sobre o princípio do aumento geométrico, seus números rapidamente se tornariam tão desordenadamente grandes que nenhuma região poderia suportar seu produto. Consequentemente, como mais indivíduos são produzidos do que possivelmente podem sobreviver, precisa haver em cada caso uma luta pela sobrevivência, quer de um indivíduo com outro da mesma espécia, ou com espécies diferentes, ou com as condições físicas da vida.19


e7. Todas as espécies têm tão grande fertilidade potencial que o tamanho de sua população aumentaria exponencialmente … se todos os que nascessem novamente se reproduzissem com sucesso.20

e8. Exceto por flutuações anuais menores e flutuações maiores ocasionais, as populações normalmente mostram estabilidade.21

e9. Recursos naturais são limitados. Em um ambiente estável, eles permanecem relativamente constantes.22

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t10. Há uma feroz luta pela existência entre indivíduos de uma população, resultando na sobrevivência de apenas uma parte, frequentemente uma parte muito pequena, da descendência de cada geração.23


O jogo da vida é injusto – nem todos competem igualmente nessa luta pela existência. Darwin, quem era um criador de pombos e reconhecia sua relevância para seu argumento, via que alguns indivíduos [76]em qualquer espécie teriam leves vantagens (e outros teriam leves desvantagens) em sobreviverem tempo suficiente para reproduzirem. A natureza, ela mesma, seria a seleção.


Devendo a essa luta pela vida, qualquer variação, por mais que leve e de qualquer causa que proceda, se ela for em qualquer grau benéfica para um indivíduo de qualquer espécie, em suas relações infinitamente complexas com outros seres orgânicos e com a natureza externas, tenderá à preservação desse indivíduo, e geralmente será herdada por sua descendência. A descendência, também, dessa maneira, terá uma melhor chance de sobrevivência, pois, dos muitos indivíduos de cada espécie que periodicamente nascem, apenas um pequeno número pode sobreviver. Eu tenho chamado esse princípio, pela qual cada leve variação, se benéfica, é preservada, pelo termo de seleção natural, a fim de marcar sua relação com o poder de seleção do homem.24


e10. Nenhuma dupla de indivíduos é exatamente idêntica; antes, cada população exibe enorme variabilidade.25

e11. Muito dessa variação é herdável.26

t20. Sobreviver na luta pela existência não é aleatório, mas depende em parte da hereditariedade dos indivíduos sobreviventes. Essa sobrevivência desigual constitui um processo de seleção natural.27


A partir t20, Darwin faz mais uma inferência que lhe dá o título de seu livro e a explicação da descendência com modificação.


t30. Através de gerações, esse processo de seleção natural levará a uma contínua mudança gradual de populações – quer dizer, à evolução e à produção de novas espécies.28


Um Longo Argumento


Darwin chamou On the Origin of Species de “um longo argumento.” Eu enfatizei que ele efetivamente defendeu duas teorias, bastante diferentes; mas, ao mesmo tempo, é fácil de ver a verdade na caracterização de um longo argumento. Tendo apresentado claramente a evidência para a descendência com modificação, ele então (efetivamente, essa não é progressão no livro) estabelece o caso para seleção natural.


e1. A terra é muito mais velha do que tinha sido acreditado anteriormente – milhares de milhões de anos.

e2. O registro fóssil.

e3. O sistema natural.

e4. Padrões de distribuição geográfica.

e5. Semelhanças morfológicas.

e6. Esquisitices embriológicas.

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t0. Descendência com modificação.

e7. Todas as espécies têm grande fertilidade potencial.

e8. Populações normalmente exibem estabilidade.

e9. Recursos naturais são limitados.

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t10. Feroz luta pela existência – nascerão mais do que [aqueles] que se reproduzirão.

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e10. Nenhuma dupla de indivíduos é exatamente idêntica.

e11. Muito dessa variação é herdável.

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t20. Sobreviver na luta pela existência não é aleatório; é produto da seleção natural.

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t30. Através das gerações, esse processo de seleção natural levará à evolução e à produção de novas espécies.


Como sempre, explicações rivais são possíveis. Quase todo biólogo agora aceita t0, t10 e [77]t20 como explicações melhores. Muito admitem que a seleção natural resulta em mudança de espécies, mas alguns questionam se ela é a sua causa primária. Esse tipo de controvérsia, antes de colocar a evolução em questão, é precisamente sobre o que toda a ciência saudável. Permanecem questões, não sobre a teoria geral, mas sobre os detalhes. Darwin escreveu On the Origin of Species em ignorância de genética, biologia populacional e biologia molecular. É bastante notável que essas revoluções, em vez de erodirem suas teorias, efetivamente, ao longo do tempo, vieram a acrescentar suporte adicional.


Exercícios


  1. Darwin ordenou muita evidência em apoio à descendência como modificação – e2 até e6. Se você tivesse que fazer o caso dele usando apenas uma dessas categorias de dado, qual você escolheria? Por quê?

  2. Você pode pensar em quaisquer explicações rivais para t01, t02 ou t03?


Questionário Oito


O questionário para este capítulo é escrever um ensaio curto (não mais do que três páginas) sobre as duas teorias de Darwin. Seu ensaio deve fazer três coisas. Ele deve explicar cuidadosamente a teoria de Darwin da descendência comum (ou descendência com modificação). Em seguida, ele deve usar as ferramentas da inferência à explicação melhor (a receita IEM) para avaliar criticamente a qualidade da evidência de Darwin para a primeira parte de seu “um longo argumento,” a teoria da descendência com modificação.


Próximo capítulo


ORIGINAL

Johnson, Jeffery L., “Inferring and Explaining” (2019). PDXOpen: Open Educational Resources. 23. p. 67-77. Disponível em:<https://pdxscholar.library.pdx.edu/pdxopen/23>.


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


Notas

1 Charles Darwin, On the Origin of Species (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1964), 1.

2 Darwin, 484.

3 Darwin, 312.

4 Darwin, 411.

5 Darwin, 479.

6 Ernst Mayr, The Growth of Biological Thought (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1982), 446.

7 Darwin, Origin of Species, 306-7.

8 Darwin, 338.

9 Darwin, 434.

10 Darwin, 434.

11 Darwin, 442-43.

12 Darwin, 442.

13 Citado em Mayr, Growth of Biological Thought, 474.

14 Ver John Maynard Smith, Shaping Life: Genes, Embryos, and Evolution (New Haven, CT: Yale Univesty Press, 1998).

15 Richard Swinburne, The Evolution of the Soul (Oxford: Oxford University Press, 1997), 1.

16 Darwin, Origin of Species, 3.

17 Ver Daniel C. Dennett, Darwin’s Dangerous Idea (New York: Simon & Schuster, 1995); e Mayer, Growth of Biological Thought.

18 Mayr, Growth of Biological Thought, 479.

19 Darwin, Origin of Species, 63.

20 Mayr, Growth of Biological Thought, 479.

21 Mayr, 480.

22 Mayr, 480.

23 Mayr, 480.

24 Darwin, Origin of Species, 61.

25 Mayr, Growth of Biological Thought, 480.

26 Mayr, 480.

27 Mayr, 480.

28 Mayr, 480.