Perspectivas sobre o Humanismo Digital
Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital
Parte VIII Geopolítica e Soberania Digitais
[241]Geopolítica, Soberania Digital… O que há em uma Palavra?
por Hannes Werthner
Resumo Uma sobreposição de redes e serviços digitais, frequentemente operada por atores globais, cerca e “encolhe” o planeta. Ao mesmo tempo, a dinâmica geopolítica entrou em um ciclo de luta por liderança entre blocos comerciais que competem por liderança econômica e industrial mas também sobre ética, valores e perspectiva política. Nesse contexto, governos e legisladores estão esforçando-se para combinar a necessidade de cooperação global em assuntos digitais com o imperativo para proteger sua jurisdição contra influência indevida e fornecer aos agentes econômicos meios para competir em um escala global. O conceito de “soberania digital” foi inventado para tratar disso. Palavras importam muito, especialmente quando elas são intencionadas para traduzir objetivos políticos. Nós argumentamos que “soberania digital” carece de significado e aplicabilidade, enquanto que o conceito de “autonomia estratégica” é mais operativo, contém em si mesmo os elementos de planejamento estratégico e deveria conduzir a UE a visar ao genuíno “não alinhamento digital.”
1 O Contexto
1.1 O Paradoxo
Nações (e agrupamentos delas), indústria e organizações internacionais têm gasto megabilhões para conectar o globo nas últimas décadas. Cabos submarinos, comunicações de satélite, redes fixas e moveis, a Internet, possibilitaram a conectividade e o acesso globais nos lugares mais remotos.
Para possibilitar isso, a dinâmica geopolítica deu forma a um mundo de colaboração multilateral, com a OMC1 como o árbitro de um comércio global sem atrito. A aldeia global [242]de fato não foi um jardim de rosas, mas uma cooperação regulatória global resolveria isso, e o comércio global tornaria um o mundo um lugar mais seguro e mais rico para todos. Por exemplo, essa foi a narrativa quando a China se tornou um membro da OMC em 2001.
Avançando rapidamente para 2021, o “second life” tornou-se a nossa vida, M-turks terceirizados na Nigéria ou Índia trabalham em tempo real para corporações do Vale do Silício, e a geografia acabou (assim é com a privacidade, mas esse é um assunto diferente). E contudo, enquanto tecnologia, economia e política deram forma a essa ciber-realidade global, a globalização é desafiada pela (re)formação de blocos de comércio mais ou menos antagônicos. Depois de décadas de movimento na direção de um único mercado global governado pelas regras da OMC, a ordem internacional passou por uma mudança fundamental, e um mercado aberto, unificado e global pode, de fato, ter se tornado uma coisa do passado (Fischer 2019).
1.2 É mais do que a Economia, Você sabe
Com narrativas diferentes, cada bloco comercial regional está desenvolvendo o seu próprio roteiro para alcançar o sucesso digital global e, de fato, a supremacia global. Seja o Presidente Biden assinando uma ordem executiva fortalecendo provisões de “Buy American.” A China fortalecendo a sua primazia em questões digitais e comércio global, a Índia promovendo a sua agenda tecno-nacionalista, ou a Rússia desenvolvendo as suas capacidades cibernéticas ofensivas, é como se o comércio global no século XXI estivesse condenado a ser um jogo de soma zero discordante.
E mais, essa competição global não é apenas industrial, tecnológica ou econômica mas também sobre visões, valores e métodos. Se irritantes comerciais (trade irritants) podem dissolver-se em boas intenções, resta por ser visto.2
Em uma conferência do Centro para Pesquisa Econômica e Política em fevereiro de 2021, o dr. Christian Bluth3 argumentou que o desafio mais importante para a UE hoje em dia era a geopolítica cada vez mais carregada do comércio. Ele argumentou que a política de comércio é usada cada vez mais para projetar poder em vez de gerar prosperidade e que vários países estão “armando (weaponizing)” a dependência comercial que os outros têm deles.
2 Europa, Quantas Divisões?
Seja para o chá na China, as especiarias da Costa do Malabar, o ouro da América do Sul, o café ou a borracha na África, e o petróleo no Oriente Médio, a Europa não tinha problema com cadeias de suprimentos globais ou soberania nacional quando ela era dominante no comércio e indústria globais. Ela até obteve suporte a partir de autoridades morais ou políticas (Tratado de [243]Tordesilhas em 1494,4 Conferência de Berlim, 18855) e inventou conceitos políticos para se apoiar, por exemplo, soberania westfaliana. De fato, a situação de hoje é levemente diferente.
2.1 Um Mapa do Mundo *Digital* centrado no Pacífico
Uma vez um gigante econômico (mas um anão político), as ambições da Europa para a “década digital” são pegas em meio a um duopólio, com os EUA e a China dominando a economia digital global. O Velho Continente parece já ter perdido a batalha da inteligência artificial – para nomear apenas uma. Nós temos de despertar para o fato de que estamos ficando para trás no desenvolvimento da 5G, e sua aplicação nos verticais de serviço e industriais, e, assim, correndo o risco de se tornar um ator menor na disputa global.6
2.2 Na Economia das Plataformas, Ninguém pode ouvir a UE gritar
GAFAMs (uma sigla para Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft) e BATs (Baidu, Alibaba, Tencent) não são apenas plataformas globais com receitas muito maiores do que os PIB de muitos países. Elas também se integram vertical e horizontalmente, absorvendo a competição potencial, dando forma à economia inteira, incluindo setores estratégicos e o fornecimento de serviços públicos. Incidentalmente, elas também alteram os fundamentos do mercado de trabalho. Esse mercado não é o forte da Europa, como mostrado na fig. 1.
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| [244]Fig. 1. O desequilíbrio da economia de plataformas (H. Schmidt, TU Darmstadt, https://TheOriginalPlatformFund.de/, 2021) |
2.3 Soberania Digital, um Novo Conceito para operar e competir nesse Contexto
Originando-se na comunidade de cibersegurança, o conceito de “soberania digital” ganhou terreno em círculos de legisladores com o número crescente de ataques a infraestrutura crítica (energia, telecomunicações, água, etc), a conectividade global, e o número disparando de aparelhos de IdC com seus problemas relacionados de segurança e privacidade. O relacionamento complexo com a administração anterior do EUA também contribuiu para propagar a ideias de que a UE tinha de depender da sua própria capacidade para se defender no mundo hiperconectado.
[244]Concebendo novos fundamentos para construir a política da UE nesse contexto desafiador, a Comissão Europeia – alguns estados-membros – desenvolveram o conceito de “soberania digital,” definido pelo Comissário Breton7 como:
Soberania sobre dados, especialmente dados industriais (uma nuvem soberana)
Computadores e microchips de alta performance
Conectividade (5G, fibra óptica, e satélites de órbita baixa)
Com sua Comunication on 2030 Digital Compass emitida em março de 20218, a Comissão Europeia definiu “o caminho europeu para a Década Digita,” para traduzir os objetivos de soberania digital da UE em alvos específicos. Instrumentos políticos adicionais, tais como Communications on Industrial Strategy9, especificam o caminho na direção da liderança da UE no digital.
[245]3 Palavras importam: Especialmente quando elas foram Intencionados para serem Perfomativas
3.1 Digital e Soberania, Como se somam?
A digitalização do mundo acrescenta uma metacamada sobre a autoridade política. Para estabelecer as regras do jogo em sua própria jurisdição, os legisladores da UE conceberam um série de medidas regulatórias: Regulamento de Proteção Geral de Dados,10 Ato de Cibersegurança, Diretiva sobre Segurança de Rede e Informação,11 Ato dos Serviços Digitais, Ato do Mercado Digital.12
A estrutura legal está estabelecida – e isso não é trivial, mas é suficiente para construir a capacidade da UE para ser soberana na competição digital? Muitas companhias da UE que jogam na liga global não estão particularmente fervorosas do conceito de soberania, visto que a maior parte das suas operações e receita são no exterior. E quanto à indecisão com a constituição de GAIA-X13 ou a ARM (uma principal produtora de chips britânica) adquirida pela sua rival dos EUA NVIDIA (“um desastre para Cambridge, para o Reino Unido e para a Europa,” H. Hauser, BBC Radio 4, em setembro de 2020) e conceber subsidiar uma companhia do EUA para construir a capacidade da indústria de chips na UE?
3.2 Considerações Políticas e Legais
Definida por F. H. Hinsley (1986, p. 1), a soberania é “a ideia de que há uma autoridade política final e absoluta na comunidade política […] e que nenhuma autoridade final e absoluta existe em outro lugar.” Isso implica, por um lado, que nenhuma autoridade política pode ser meio soberana e, por outro lado, que a entidade a partir da qual a soberania emana deveria ser monolítica ou, pelo menos, suficientemente integrada para projetar “autoridade política final e absoluta.” Ambas características estão em contradição com a maneira que a UE é construída e a divisão de jurisdição e competência entre a UE e os estados-membros.
As competências exclusivas da UE14 concedem aos legisladores da UE os meios para prometer e cumprir? O que significa soberania sem jurisdição? Como ser soberano quando, por exemplo, 15 países da UE, representando mais de 50% da inteira participação na UE, [246]assinam com a Iniciativa do Cinturão e da Rota, da China, ou marcas automotivas europeias firmam com as GAFAs para análise de dados, aprendizagem de máquina e inteligência artificial?
Isso poderia explicar as tentativas da Comissão Europeia para apreender atividades em áreas nas quais os tratados repartem com os estados-membros, tais como alocação do espectro de rádio, saúde, identidade eletrônica. Talvez “seguir com a vida normalmente” mudará essa fragmentação de competência; por enquanto, as tentativas da UE não têm sido recebidas com braços abertos nas capitais da UE.
4 Para onde em seguida?
4.1 Muitos Ativos a Mobilizar
A UE pode não ser um ator principal em várias áreas da economia digital, por exemplo, plataformas. Contudo, ela tem uma série de ativos sobre os quais construir, tais como:
O maior PIB no mundo, e um mercado de 500 milhões
Liderança em vários domínios (por exemplo, aeronáutica, criptografia, bancos, varejo automotivo)
Uma cena muito dinâmica de PME
P&D e capital intelectual
Conectividade e redes (transporte, energia e telecomunicações) sofisticadas
Diversidade cultural e uma carta fundamental de direitos
A Europa é um profundo manancial de talento, com uma tremenda capacidade para repercussão, e um poder raro de inovação: (…). A Europa também é sinônimo de ações e projetos dirigidos por valores exigentes e um comprometimento com construção positiva e progressiva.15
4.2 Autonomia Estratégica
Nós argumentamos que liderança no digital não significa liderar em todos os segmentos da indústria tecnológica, mas antes a capacidade para digitalizar indústria e serviços de uma maneira cuidadosa, segura e confiável. Com isso surgem as questões de como combinar aqueles ativos, quais batalhas escolher, que blocos alogênicos podem ser partes do plano, de quem se tornar parceiro e em quais termos, etc.
Em outras palavras, selecionar setores estratégicos e, dentro desses, fazer suas próprias regras e seus próprios planos em seus próprios termos. Autonomia estratégica, literalmente, como em auto-nomos. Isso implica agir em várias direções e selecionar o que fazer e o que NÃO fazer – o que é frequentemente a parte esquecida.
[247]Isso não é novo. Comumente, a CE (e várias outras capitais) estão dirigidas nessa direção com as Regulações recentes mencionadas acima, os poderes aumentados concedidos à ENISA16 em segurança cibernética, ou as regras para participar de projetos de pesquisa financiados pela UE.
Contrariamente ao conceito de soberania digital, o conceito de autonomia estratégica não insinua nenhuma noção de protecionismo, antes a ideia de que “você é muito bem-vindo para operar em minha jurisdição, enquanto você jogar pelas regras que eu estabeleço.” É também muito mais operacional visto que ele quase autocontem a noção de um planejamento dinâmico.
Em um webinar de um think tank de Bruxelas em fevereiro de 2021, Anthony Gardner, ex-embaixador dos EUA para a UE, disse de uma maneira muito poética que “Soberania digital, como algumas vezes se ouve em círculos da UE, é uma atividade infrutífera.” A autonomia estratégica, por outro lado, é muito pés no chão e operacional.
4.3 Mire na Lua
No debate sobre soberania digital – ou autonomia estratégica, como nós preferimos chamá-la, a China é o elefante geopolítico na sala. A fim de lutar na cena geopolítica em uma categoria (industrial) peso-pesado, a Europa frequentemente defende “fazer parceria com quem pensa parecido,” aqueles que compartilham os valores da UE de liberdade de expressão, democracia e direitos humanos. Isso faz sentido e, possivelmente é muito encorajado pela nova administração dos EUA.
O outro elefante na sala tecnológica e econômica são as GAFAMs. E, como descrito antes, todos os parceiros comerciais da UE ponderam a ambição de serem líderes globais no mundo digital e agirem de acordo.
Nesse contexto, nós argumentamos que a Europa poderia definir um “terceiro caminho,” um tipo de doutrina “digital não alinhada,” qual concederia a ela total margem de manobra para fazer suas escolhas e regras estratégicas:
Definir áreas de colaboração e áreas inacessíveis (por exemplo, em programas de pesquisa, em IED).
Manter amigos perto e inimigos ainda mais perto (é para isso que serve a diplomacia).
Respeitar aliados históricos enquanto controlando lobbying e estratégia de entrada.
O continente tem tudo o que é necessário para encarnar esse terceiro caminho e construir o seu próprio caminho no mundo de outro modo bipolar que está se formando diante de nós. Isso pode parecer utópico, mas assim era a construção europeia no seu começo, quando os pais-fundadores lançaram o processo em um continente devastado, o qual, interessantemente, começou com cooperação industrial em carvão e cobre, tão essencial para a economia de então quanto o digital é hoje em dia.
[248]Reconhecimento Este capítulo foi escrito após uma longa discussão e troca com uma terceira pessoa que prefere permanecer anônima.
Referências
Hinsley, F.H. (1986). Sovereignty. 2nd edition. Cambridge: Cambridge University Press.
Fischer, J. (2019). ‘ The End of the World As We Know It’ Projekt Syndicate. 3 de junho [online]. Available at: https://www.project-syndicate.org/commentary/us-china-break-europe-by-joschka-fischer-2019-06 (Acessado em: 15 de junho de 2021)
ORIGINAL:
HARDMAN, L. Geopolitics, Digital Sovereignty . . . What’s in a Word?. In: GHEZZI, C. et al. (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p. 241-248. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY 4.0
1 [241]A Organização Mundial do Comércio é uma organização intergovernamental que regula o comércio internacional. A OMC começou oficialmente em 01/01/1995 sob o Acordo de Marraquexe, assinado por 123 nações em 1994, substituindo o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (AGTC), o qual começou em 1948 (http://www.wto.org/).
2 [242]Alguns demandam “soberania digital diferenciada.”
4 [243]Um acordo entre Espanha e Portugal que teve por objetivo resolver conflitos sobre as terras récem-descobertas por Cristovão Colombo e outros viajantes do final do século XV.
5 Conferência na qual os principais poderes europeus negociaram e formalizaram reivindicações de território na África.
6 IDATE, Digiworld 2020 https://en.idate.org/the-digiworld-yearbook-2020-is-available/
7 [244]Comissário da UE para política industrial, mercado interno, tecnologia digital, defesa e espaço.
10 [245]https://bit.ly/3nKbzvW
11 Para o Ato de Segurança Cibernética e Diretiva SIR, ver https://bit.ly/3gYlE6M.
12 Para o Ato dos Serviços Digitais e o Ato do Mercado Digital, ver https://bit.ly/2QIfHR2.
13 GAIA-X é um projeto para o desenvolvimento de uma federação competitiva, segura e confiável de infraestrutura de dados e provedores de serviços para a Europa, suportada por representantes de empresas, ciência e administração para a Alemanha e França, junto com outros parceiros europeus (https://bit.ly/3nD241q).
14 União aduaneira, regras de competição para o mercado interno, política monetária para a área do euro, políticas comuns de pesca, política comercial comum e a resolução de acordos internacionais.
15 [246]IDATE, Digiworld 2020, op. cit.
16 [247]Agência da União Europeia para Segurança Cibernética, https://www.enisa.europa.eu/
