Perspectivas sobre o Humanismo Digital
Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital
Parte IX Sistemas e Sociedade
[251]Trabalho sem Empregos
por Daniel K. Samaan
Resumo A tecnologia sempre teve um impacto no mundo do trabalho. Este capítulo compara a transformação das nossas sociedades durante a Revolução Industrial com as potenciais transformações que a digitalização pode causar hoje em dia. Se a digitalização é verdadeiramente disruptiva, mais pode estar em jogo do que perdas de emprego (job losses) em alguns setores e ganhos de emprego (job gains) em outros. Identificando várias características-chave da digitalização, este capítulo esboça um futuro do trabalho no qual não empregos (jobs) mais o trabalho (work) mesmo se posiciona no centro da atividade econômica. Um tal desenvolvimento poderia abrir um caminho para sociedades mais humanistas, mais democráticas e mais sustentáveis, mas requereria repensar inteiramente como nós organizamos e recompensamos o trabalho em âmbito social.
Há aproximadamente 200 anos, muitas sociedades na Europa e América do Norte alteraram fundamentalmente a maneira pela qual o trabalho era organizado e remunerado. Facilitadas por avanços tecnológicos, como motores a vapor e de combustão, assim como aceleradas por mudanças regulatórias, a produção em massa e a padronização de bens tornaram-se os modos predominantes de produção. Esse sistema fabril recentemente emergente também implicou mudanças na organização do trabalho: ele foi caracterizado por uma elevada concentração física de trabalho em instalações de produção e por uma divisão previamente não vista do trabalho, orquestrada por organizações hierárquicas. Ambas mudanças, mecanização e padronização de processos de produção, e a correspondente nova organização do trabalho, conduziram a ganhos sem precedentes de produtividade, aos quais nós devemos muito dos padrões de vida de hoje. Em seu famoso exemplo da fábrica de alfinetes, Adam Smith ilustrou como a magnitude de tal produtividade aumenta mais do que nos dois séculos passados, através da qual a produção por trabalhador pôde ser aumentada de menos que 20 alfinetes para 4800 alfinetes (Smith 1776).
Hoje todos nós sabemos que os historiadores posteriormente se refeririam a esse período de décadas de mudanças contínuas e fundamentais para o mundo do trabalho como a Revolução Industrial (RI). Intimamente ligado a essa revolução está o que Frithjof Bergmann (2019) chama de o [252]“sistema de emprego (job system)”: nós empacotamos a vasta maioria das nossas atividades de trabalho (“tarefas (tasks)”) em “empregos (jobs).” Nós chamamos de “ocupações (occupations)” descrições padronizadas de semelhantes empregos. Em seguida, esses trabalhos são comprados e vendidos no mercado (de trabalho) por uma parte supostamente justa da produção (salário (wage)) geral da sociedade. Consequentemente, o funcionamento da sociedade industrial está centrado, não no trabalho que nós realizamos para nós, mas na obtenção e realização de empregos para outros. A questão que eu quero perseguir neste capítulo é se em uma “sociedade digital” essa interdependência será algo diferente.
A importância do “sistema de emprego” para as nossas sociedades dificilmente pode ser subestimada. Ele está no centro de como nós agimos e como nós conduzimos nossas vidas: nós educamos a nós mesmos, predominantemente, para “aprendermos uma ocupação” e para “obtermos um emprego.” Nós queremos despender as nossas vidas estando “empregados (employed)” e não “desempregados (unemployed).” Estar “desempregado” e sem um “emprego real (real job)” são estigmas sociais e levam a perda de renda e posição social. A competição política em cada democracia ocidental está criticamente preocupada com a criação de novos empregos ou a proposição de condições adequadas para as companhias produzirem em série mais empregos. Nós estamos preparados para aceitar todos os tipos de compromissos desagradáveis, como destruir o nosso meio ambiente ou aquecer o clima, se apenas a criação de emprego não for prejudicada. Porque sem empregos, nós não temos trabalho, nem renda, nem impostos, nem serviços públicos, nem sistemas de segurança social, nem mais suporte para votos democráticos e, finalmente, nem mais sociedade, como nós atualmente a conhecemos.
Essa forma de pensar não mudou muito desde a RI. Em 2021, nós refletimos sobre o futuro do trabalho, mas a nossa imaginação do futuro está restrita e dominada pelo “sistema de emprego” e por todas as instituições e terminologia que nós criamos em torno dele: “o mercado de trabalho (labor market),” “requalificação (re-skilling),” “desemprego,” “trabalho em tempo parcial (part-time work),” “trabalho contingente (contingent work),” etc. Essa lista poderia ser facilmente expandida e preenchida com a literatura respectiva sobre o futuro do trabalho. Em outras palavras, com algumas exceções (por exemplo, Precht 2018), a maior parte da discussão sobre o futuro do trabalho vê o sistema de emprego como uma peça central dada das nossas sociedades.
O sistema de emprego nem sempre existiu. Em tempos pré-industrialização, trabalhar a partir de casa ou em pequenas oficinas comunitárias em seus próprios termos, autocontrolados e possuindo os meios de produção, era a noma. Vários fatos nos conduziram à criação do “sistema de emprego” à época.
Como a digitalização figura nesse debate? Ela despertou antigos temores entre trabalhadores, políticos líderes corporativos, gerentes intermediários e outros. Especificamente, eles preocupam-se que essa onda mais recente de digitalização levará à automação sem precedentes e, consequentemente, à perda massiva de empregos (Frey e Osborne 2017). E, como nós vimos acima, uma vez que os empregos tenham desaparecido, a espiral descendente (nenhum trabalho, nenhuma renda, etc) é acionada. Assim, esse temor é justificado.
Contudo, eu gostaria de examinar essa questão a partir de um ângulo levemente diferente neste capítulo: Uma sociedade pode esgotar os empregos, mas ela nunca pode esgotar o trabalho. Portanto, a questão real que nós encaramos hoje em dia é se ou não a digitalização e a sua prole [253]poderosa, os dados massivos (big data) e a Inteligência artificial (AI),1 erradicarão o “sistema do trabalho” e, se sim, como nós podemos viver sem ele.
Há três razões pelas quais a digitalização, entendida como uma tecnologia, tem o potencial para destruir o sistema do trabalho. Primeiro, a inteligência artificial é uma tecnologia de propósito geral (Brynjolfsson e McAfee 2014). Ela não é uma invenção, como o rádio ou muitas outras, que tem um impacto confinado a certos setores econômicos e domínios sociais, como o rádio teve sobre as mídias de massa, a imprensa (printing press) e, talvez, o setor militar. A IA, e a digitalização mais amplamente, é mais comparável à eletrificação. Nós podemos encontrar aplicações e aparelhos em virtualmente todos os setores econômicos para consumidores e produtores, trabalhadores, gerência, governos, e muitos outros atores semelhantes. Essa qualificação como uma tecnologia de propósito geral é um ingrediente principal para uma mudança revolucionária. O sistema econômico é abalado a partir de muitos pontos de contato diferentes ao mesmo tempo.
Segundo, dados massivos (big data) fornecem aos atores econômicos2 informação sobre os “estados do mundo” e facilitam tomada de decisão e ação descentralizadas. A maior parte da atividade econômica no âmbito social (frequentemente também no individual) é sobre tomar decisões sob incerteza para alocar recursos eficientemente: A priori nós não sabemos quem necessita de quais bens e serviços sob que condições em um certo momento. Nem nós sabemos quem pode suprir quais recursos sob quais condições e quem tem quais capacidades. Nós não sabemos e não podemos observar diretamente em qual “estado” o mundo está. Esse foi o preço que nós tivemos de pagar pela elevada divisão do trabalho. Frequentemente, essa falta de informação e esse problema de coordenação têm sido resolvidos pela adição de intermediários (middlemen) e produzindo em massa um bem ou serviço padronizado para o consumidor médio. Esses “intermediários” podem ser pessoas dentro de uma organização, como gerentes intermediários, quem passam a informação da gerência superior para os trabalhadores e certificam-se de que as ordens sejam levadas a cabo. O intermediário também pode ser uma organização externa (digamos, uma firma) e facilitar o contato com os consumidores corretos ou levar a cabo pesquisas de marketing. Esse fluxo de informação e o feedback tipicamente são coordenados através de canais específicos que seguem estruturas hierárquicas. Esses são remanescentes do sistema fabril. A digitalização torna muito dessa estrutura desnecessária. As plantas de produção e os trabalhadores não necessitam ficar concentrados, nem espacialmente nem no tempo. A produção não tem de ser padronizada, mas pode ser customizada para um indivíduo específico. Nós podemos pensar sobre o mundo econômico industrial como um retrato de ilhas de produtores, consumidores, trabalhadores e gerentes, através do qual os intermediários estão conectando as ilhas. O retrato todo (“o estado do mundo”) não está completamente visível. Agora os dados massivos estão rapidamente preenchendo os espaços vazios com muitos pequenos pontos e estabelecendo conexões diretas entre eles.
[254]Terceiro, a digitalização acarreta um enorme potencial para automatizar tarefas (tasks). Semelhante automação pode, mas não tem de, resultar na automação de ocupações, como Frey e Osborne (2017) alegam. Brynjolfsoon et al (2018) desenvolve uma metodologia para analisar aproximadamente 2000 das assim chamadas de atividades de trabalho detalhadas (detailed work activities) (ATD). Essas ATDs formam a espinha dorsal das 1000 ocupações que atualmente existem nos Estados Unidos. Os autores calculam uma métrica para cada ATD que mede em que extensão a atividade é adequada para aprendizagem de máquina (AAM), e, uma vez que uma ocupação é apenas a média ponderada (weighted average) de um subconjunto de ATDs, alguém pode conceber uma pontuação AAM para cada ocupação. Eles descobriram que muitas das ocupações no EUA são adequadas para aprendizagem de máquina. Infelizmente, um estudo tão compreensivo não existe para atividades de trabalho e ocupações em outros países além dos Estados Unidos. Além disso, a análise está baseada em tarefas e processos de trabalho existentes como eles existem hoje em dia. É claro, esses processos e, consequentemente, tarefas (humanas) foram projetados de uma maneira a refletirem as capacidades da tecnologia atualmente existente (ou seja, tecnologia diferente = processos de trabalho diferente e tarefas diferentes). Portanto, alguém tem de ser cuidadoso antes de interpretar os resultados do estudo como uma predição para perdas de emprego na economia dos EUA ou para o generalizar para outros países. Contudo, os autores demonstram convincentemente como a digitalização pode levar a uma rápida decomposição de um grande número de ocupações e dos empregos existentes em suas tarefas subjacentes. Para companhias, trabalhadores e governos, esse desenvolvimento pode levar a uma rápida destruição de empregos, a emergência de novos empregos e/ou a uma reorganização do trabalho e “re-definição” dos empregos.
Combinadas essas três características acima da digitalização, eu penso, é muito possível que nós veremos mais do que uma mera reorganização de uns poucos empregos perdidos em alguns setores e novos empregos emergindo em outros, como nós vimos no passado. Há potencial para – literalmente – uma “revolução digital” no mundo do trabalho, em vez de um ajuste leve e contínuo do status quo. Isso pode se tornar problemático se as nossas sociedades tentarem lidar com esse desafio fixando-se no paradigma do “sistema de emprego.” Contudo, isso é exatamente o que os legisladores e – em uma extensão menor – também as empresas estão fazendo. Eu não estou ciente de nenhum pais que tenha proposto uma visão realmente nova para o futuro do trabalho, em vez de “aprendizagem ao longo da vida (lifelong learning)” (ou “requalificação (re-skilling)”), frase anêmicas que têm estado em uso por mais de 30 anos agora. Isso será suficiente para conduzir mudanças no mundo do trabalho na direção de sociedades mais humanistas, democráticas e sustentáveis?
Retornando à minha afirmação inicial de que uma sociedade nunca pode esgotar o trabalho, isso pode ser uma tranquilizadora posição de recuo; ela realmente não pode, pelo menos teoricamente. Contudo, uma sociedade pode falhar na coordenação desse potencial de trabalho na direção da satisfação de suas necessidades materiais e humanistas. É por isso que nós nos agarramos ao sistema de emprego, em primeiro lugar: ele tem fornecido estabilidade política, mantidos as massas ocupadas e fornecido a maioria de nós uma abundância de mercadorias (commodities). Ele também criou uma noção de justiça distributiva (distributional fairness) ao apresentar a si mesmo como uma meritocracia.
O que está errado com o sistema de trabalho? Para ser franco: quase todos o odeiam, e nós todos sabemos que, no máximo, isso é parcialmente justo. Um número cada vez maior de pessoas sente-se preso em “empregos sem sentido (bullshit jobs)” (Graeber 2018), onde elas desempenham, objetiva ou subjetivamente, tarefas inúteis, muitas das quais poderiam ser realizadas por máquinas ou apenas existem para justificar o “emprego” da pessoa. Muito poucas pessoas na força de trabalho (workforce) realizam trabalho que elas “realmente [255]realmente querem” (Bergmann 2019), apesar do desejo de trabalhar e contribuir para o bem-estar da sociedade, de uma maneira ou de outra, existir em virtualmente todo ser humano. A digitalização não está nos dando as ferramentas para conceber um mecanismo de coordenação e remuneração melhor, mais humano? De acordo com algumas estimativas, a porcentagem de empregos em “indústrias de transação”3 aumentou de aproximadamente 15%, em 1900, para aproximadamente 40%, em 1970, na economia dos EUA. Infelizmente eu não tenho números mais recentes, comparáveis, disponíveis, mas essas estimativas eram de antes da grande onda de “servicificação (servicification)” atingir as nossas economias. Portanto, eu estimaria que hoje mais de 2/3 dos empregos são “empregos de transação,” incluindo uma grande justaposição com aqueles que Greher (2018) chama de “empregos sem sentido.” Karl Marx (1885) referia-se ao labor que era essencialmente despendido para circular capital e bens como “trabalho improdutivo,” comparado ao “trabalho produtivo,” que diz respeito à criação de valores de uso para a sociedade.4 Se nós adotarmos essa noção de produtividade, apenas uma proporção pequena de todo trabalho desempenhado ainda é produtivo para a sociedade. Interessantemente, retornando aos trabalhos mais modernos de Frey e Osborne (2017) e Brynjolfsson et al. (2018), nós podemos ver que os empregos/tarefas com um alto risco de automação e alta adequação para aprendizagem de máquina são exatamente aqueles empregos/tarefas nas “indústrias de transação.” Finalmente, o sistema de emprego, junto com a produção em massa, tem um registro terrível em termos de produtividade de recursos. Ele é um produtor de desperdício.
Uma sociedade com trabalho mais significante e satisfatório é possível. A maior parte de nós quer despender mais tempo em trabalho cuidadoso, educação e trabalho cultural, e na preservação e proteção do nosso meio ambiente. A revolução digital não está ameaçando o nosso trabalho, ela está ameaçando o sistema de emprego, e isso são boas notícias.
Referências
Bergmann, Frithjof (2019): ‘New work, new culture – work we want and a culture that strengthens us’, Zero Books, Winchester U.K, Washington U.S.
Brynjolfsson, Erik, e Andrew McAfee (2014): ‘The Second Machine Age: Work, Progress, and Prosperity in a Time of Brilliant Technologies’. Reimpressão. W. W. Norton & Company.
Brynjolfsson, E., T. Mitchell, e D. Rock (2018): ‘What Can Machines Learn and What Does It Mean for Occupations and the Economy?’ AEA Papers and Proceedings, 108, 43-47.
Frey, Carl Benedikt, e Michael A. Osborne (2017): ‘The Future of Employment: How Susceptible Are Jobs to Computerisation?’, Technological Forecasting and Social Change 114: 254 – 80. https://doi.org/10.1016/j.techfore.2016.08.019.
[256]Graeber, David (2018): ‘Bullshit Jobs – The rise of pointless work and what we can do about it’, Penguin Books, UK, USA.
Marx, Karl (1885): ‘Capital’, Volume 2, Edição Penguin de 1978, 1885.
Precht, Richard David (2018): ‘Jäger, Hirten, Kritiker – Eine Utopie für eine digitale Gesellschaft’, Goldmann Verlag, 1ª Edição, München.
Smith, Adam (1776): ‘An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations’, Modern Library; Edição de 26/12/93 (26 de dezembro de 1993), New York.
ORIGINAL:
SAMAAN, D. K. Work Without Jobs. In: GHEZZI, C. et al. (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p. 251-256. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY 4.0
1 [253]A digitalização abrange mais do que montantes massivos de dados digitais e processamento de informação através de sistemas de IA, mas eu me terei principalmente esses dois aspectos em mente quanto me referir à digitalização neste capítulo.
2 De fato, nem todos os atores econômicos têm o mesmo acesso à informação, e a acumulação de dados digitais através dos últimos anos já levou a um deslocamento de poder através das empresas.
3 [255]Setores e profissões interessados com processamento e transmissão de informação (contadores (accountants), empregado de escritório (clerks), advogados, agentes de seguro (insurance agents), supervisores (foremen), guardas, etc.).
4 Marx não usou os termos “trabalho produtivo” e “improdutivo” consistentemente através dos três volumes de Capital.
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