sábado, 30 de abril de 2022

Uma Investigação a Respeito do Entendimento Humano V – Solução Cética dessas Dúvidas

Uma Investigação a Respeito do Entendimento Humano


Por David Hume


Parte anterior


[47]Seção V – Solução Cética dessas Dúvidas


Parte I


A paixão por filosofia, como aquela por religião, parece ser responsável por esta inconveniência, que, embora ela tenha por objetivo a correção de nossas maneiras e a extirpação de nossos vícios, ela apenas serve, através de administração imprudente, para nutrir uma inclinação predominante, e impelir a mente, com resolução mais determinada, na direção daquele lado que atrai demais, através do viés e propensão do temperamento natural. É certo que, enquanto nós aspiramos à firmeza magnânima do sábio filosófico, e tentamos confinar nossas prazeres inteiramente dentro de nossas próprias mentes, nós podemos, pelo menos, tornar nossa filosofia como aquela de Epiteto e outros Estoicos, apenas um sistema mais refinado de egoísmo, e raciocinar a nós mesmos para fora de toda virtude bem como de todo o prazer social. Enquanto nós estudamos com atenção a vaidade da vida humana, e voltamos todos os nossos pensamentos na direção da natureza vazia e transitória das riquezas e honras, nós estamos, talvez o tempo todo, lisonjeando nossa indolência natural, a qual, odiando o alvoroço do mundo, e a labuta da atividade, busca uma pretensão de razão para conceder a si mesma uma indulgência completa e descontrolada. Contudo, há uma espécie de filosofia que parece [48]pouco culpável dessa inconveniência, e isso porque ela não se alia com nenhuma paixão desordenada da alma humana, nem pode se misturar com qualquer afeição ou propensão natural; e essa é a filosofia Acadêmica ou Cética. Os acadêmicos sempre falam de dúvida e suspensão do julgamento, do perigo em determinações apressadas, de confinar a limites muitos estreitos todas as investigações do entendimento e de renunciar às especulações que não se estendam no interior dos limites da vida e prática comuns. Portanto, nada pode ser mais contrário do que uma semelhante filosofia à indolência inerte da mente, sua arrogância apressada, suas pretensões elevadas e sua credulidade supersticiosa. Toda paixão é mortificada por ela, exceto o amor pela verdade; e essa paixão nunca é, nem poder ser, levada a um grau muito alto. Portanto, é surpreendente que essa filosofia, a qual, em quase qualquer caso, deve ser inofensiva e inocente, deva ser o objeto de tanta censura e descredito infundados. Mas talvez seja a circunstância mesma que a torna tão inocente que principalmente a expõe ao ódio e ressentimento públicos. Ao não lisonjear nenhuma paixão irregular, ela ganha poucos partidários; ao opor-se a tantos vícios loucuras, ela cria para si mesma uma abundância de inimigos, quem a estigmatizam como libertina, profana e irreligiosa.

Nem nós necessitamos temer que essa filosofia, enquanto ela esforça-se por limitar nossas investigações à vida comum, alguma vez debilite os raciocínios da vida comum e leve suas dúvidas tão longe como a destruir toda a ação bem como a especulação. A natureza sempre manterá seus direitos e no fim prevalecerá sobre qualquer raciocínio abstrato que seja. Embora nós devemos concluir, por exemplo, como na seção acima exposta, que em todos os raciocínios a partir da experiência, há um passo tomado pela mente que não é suportado por qualquer argumento ou processo do [49]entendimento; não há perigo de que esses raciocínios, sobre os quais todo o conhecimento depende, alguma vez serão afetados por uma tal descoberta. Se a mente não estiver comprometida por argumento para dar esse passo, ela deve ser induzida por algum outro princípio de igual peso e autoridade; e esse princípio preservará sua influência enquanto a natureza humana permanecer a mesma. Qual é esse princípio, pode bem ser digno dos esforços de investigação.

Suponha que uma pessoa, embora dotada das mais fortes faculdades de razão e reflexão, deva ser trazida de repente a este mundo; de fato, ela imediatamente observaria uma sucessão contínua de objetos e um evento seguindo-se a outro; mas ela não seria capaz de descobrir qualquer coisa adicional. Primeiramente, ela não seria capaz de, por qualquer raciocínio, alcançar a ideia de causa e efeito; uma vez que os poderes particulares, pelos quais todas as operações naturais são realizadas, nunca aparecem para os sentidos; nem é razoável concluir, meramente porque um evento em um caso antecede a outro, que, portanto, o primeiro é a causa, o segundo, o efeito. A conjunção pode ser arbitrária e casual. Pode não haver razão para inferir a existência de um a partir do aparecimento do outro; e, em uma palavra, uma semelhante pessoa sem mais experiência, nunca poderia empregar sua conjectura ou raciocínio a respeito de qualquer questão de fato, ou estar certa de qualquer coisa além do que estava imediatamente presente para usa memória ou sentidos.

Suponha novamente que ela tivesse adquirido mais experiência, e que tenha vivido o suficiente no mundo para ter observado objetos ou eventos similares serem continuamente combinados juntos; qual é a consequência dessa experiência? Ela imediatamente infere a existência de um objeto a partir do aparecimento do outro: ainda assim, ela não adquiriu, por toda a sua experiência, nenhuma ideia ou conhecimento do poder [50]secreto pelo qual um objeto produz o outro; nem é, por qualquer processo de raciocínio, [que] ela está empenhada em extrair essa inferência; mas ele encontra a si mesmo determinado a extraí-la; e embora ela deva estar convencida de que seu entendimento não tem parte na operação, mesmo assim, ela continuaria no mesmo curso de pensamento. Há algum outro princípio que o determina a forma uma tal conclusão.

Esse princípio é o COSTUME ou HÁBITO. Pois onde quer que a repetição de qualquer ato ou operação particular produza uma propensão para renovar o mesmo ato ou operação, sem ser impelida por qualquer raciocínio ou processo do entendimento, nós sempre dizemos que essa propensão é o efeito do Costume. Ao empregarmos essa palavra, nós não pretendemos ter dado a razão última de uma tal propensão. Nós apenas ressaltamos um princípio da natureza humana, o qual é universalmente reconhecido e é bem conhecido por seus efeitos. Talvez nós não possamos impulsionar nossas investigações mais além, ou pretender dar a causa de sua causa; mas precisa permanecer contente com isso como o princípio último, o qual nós podemos atribuir, de todas as nossas conclusões a partir da experiência. É satisfação suficiente que nós possamos chegar tão longe sem ficarmos descontentes com a limitação de nossa faculdades; porque elas não nos conduzirão mais além. E é certo, aqui nós promovemos uma proposição muito inteligível, pelo menos, se não uma verdadeira, quando nós afirmamos que, após uma constante conjunção de dois objetos, calor e chama, por exemplo, peso e solidez, nós estamos determinados apenas pelo costume a esperar um a partir da experiência do outro. Essa hipótese parece mesmo a única que explica a dificuldade, porque nós extraímos, a partir de mil casos, uma inferência que nós não somos capazes de extrair a partir de um caso que, em nenhum aspecto, é diferentes deles. A razão é incapaz de qualquer variação semelhante. As [51]conclusões que nós extraímos a partir da consideração de um círculo, são a mesma que seria formada em consequência da análise de todos só círculos do universo. Mas nenhum homem, tendo visto apenas um corpo mover-se após ser impelido por outro, poderia inferir que todo outro corpo mover-se-ia após um impulso semelhante. Portanto, todas as inferências a partir da experiência são efeitos do costume, não do raciocínio.1

[52]O costume, então, é o grande guia da vida humana. É aquele princípio que, sozinho, torna nossa experiência útil para nós e faz-nos esperar, para o futuro, uma cadeia de eventos semelhantes àqueles que apareceram no passado. Sem a influência do costume, nós deveríamos ser totalmente ignorantes de qualquer questão de fato além do que está imediatamente presente a nossa memória e nossos sentidos. Nós nunca deveríamos saber como ajustar os meios aos fins, ou empregar nossos poderes naturais na produção de qualquer efeito. De uma vez haveria um fim para toda a ação bem como da parte principal da especulação.

Mas aqui pode ser apropriado observar que, embora nossas conclusões a partir da experiência conduzam-nos para além de nossa memória e sentidos, e assegurem-nos das questões de fato [53]que acontecerem no mais distantes lugares e nas mais remotas épocas, ainda assim, algum fato sempre precisa estar presente para os sentidos ou memória, a partir do qual nós primeiramente podemos realizar a extração dessas conclusões. Um homem, quem devesse encontrar em uma região deserta os restos de construções antigas, concluiria que aquela região, em tempos antigos, fora cultivada por habitantes civilizados; mas, se nada dessa natureza ocorresse a ele, ele nunca poderia formar uma semelhante inferência. Nós aprendemos os eventos de épocas antigas a partir da história; mas então nós precisamos examinar o volume no qual essa instrução está contida e, consequentemente, rastrear nossas inferências de uma testemunha para a outra, até que nós cheguemos às testemunhas oculares e espectadores desses eventos distantes. Em uma palavra, se nós procedêssemos não em consequência de algum fato presente para a memória ou sentidos, nossos raciocínios seriam meramente hipotéticos; e por mais que as ligações particulares pudessem ser conectadas umas com as outras, a inteira cadeia de inferência nada teria para a suportar, nem alguma vez poderia, por esse meio, chegar ao conhecimento de qualquer existência real. Se eu perguntar, por que você acredita em qualquer particular questão de fato que você relata, você precisa dizer-me alguma razão; e essa razão será algum outro fato conectado com ela. Mas você não pode proceder dessa maneira in infinitum, você precisa finalmente terminar em alguma fato que está presente para sua memória ou sentidos, ou precisa admitir que sua crença está inteiramente sem fundamento.

Então, qual é a conclusão da questão toda? Uma simples; embora, deva ser confessado, bastante distante das teorias comuns da filosofia. Toda crença em questão de fato ou existência real é derivada meramente a partir de algum objeto presente para a memória ou sentidos e uma conjunção costumeira entre esse e outro objeto; ou, em outras palavras, tendo descoberto, em muitas instâncias, que [54]quaisquer dois objetos, a chama e o calor, a neve e o frio, sempre estiveram combinados juntos; se a chama ou neve for apresentada novamente para os sentidos, a mente é levada pelo costume a esperar o calor ou frio, e acredita que uma semelhante qualidade existe, e revelar-se-á em consequência de uma aproximação. Essa crença é o resultado necessário do posicionamento da mente em tais circunstâncias. É uma operação da alma, quando nós estamos dessa maneira situados, tão inevitável quanto sentir a paixão do amor quando nós recebemos benefícios; ou do ódio, quando nós recebemos prejuízos. Todas essas operações são uma espécie de instintos naturais, os quais nenhum raciocínio ou processo do pensamento e entendimento é capaz ou de produzir ou de evitar. Neste ponto, seria muito admissível para nós pararmos nossas pesquisas filosóficas. Na maioria das questões, nós nunca poder dar mais um único passo adiante; e em todas as questões nós finalmente devemos finalmente terminar aqui, após nossas investigações mais agitadas e curiosas. Mas ainda assim nossa curiosidade será perdoável, talvez digna de louvor, se ela levar-nos a pesquisas ainda mais adiante, e fazer-nos examinar mais precisamente a natureza dessa crença e da conjunção costumeira da qual ela é derivada. Através desse meio, nós podemos encontrar algumas explicações e analogias que darão satisfação, pelo menos a um tal amor às ciências abstratas, e poderão ser entretidas com especulações, as quais, por mais que precisas, ainda podem reter algum grau de dúvida e incerteza. Quanto aos leitores de um gosto diferente, a parte restante desta Seção não é calculada para eles; e as investigações seguintes podem ser bem entendidas, embora ela seja negligenciada.


[55]Parte II


Nada é mais livre do que a imaginação do homem, e embora ela não possa exceder aquele estoque original de ideias, provido pelos sentidos internos e externos, ela tem um pode ilimitado de misturar, compor, separar e dividir aquelas ideias, em todas as variedades de ficção e visão. Ela pode simular um fluxo de eventos com toda a aparência de realidade, atribuir-lhes a um tempo e lugar particulares, concebê-los como existentes, e descrevê-los para si mesma com toda circunstância que pertence a qualquer fato histórico, o qual ela acredita com a maior certeza. Portanto, em que consiste a diferença entre uma semelhante ficção e uma crença? Ela jaz não meramente em qualquer ideia particular que esteja anexada a uma tal concepção que comanda nosso assentimento, e a qual está faltando em qualquer ficção conhecida. Pois, como a mente tem autoridade sobre todas as suas ideias, ela voluntariamente poderia anexar essa ideia particular a qualquer ficção e, consequentemente, ser capaz de acreditar no que quer que lhe agradasse, contrariamente ao que encontramos na experiência diária. Nós podemos, em nossa concepção, juntar a cabeça de um homem ao corpo de um cavalo; mas não está em nosso poder acreditar que um semelhante animal alguma vez tenha existido.

Portanto, segue-se que a diferença entre ficção e crença jaz em algum sentimento ou sensação que está anexado à última, e não à primeira, e o qual não depende da vontade, nem pode ser demandado à vontade. Ele deve ser excitado pela natureza como todos os outros sentimentos, e precisa surgir a partir da situação particular na qual a mente está colocada em qualquer conjuntura particular. Sempre que qualquer objeto é apresentado à memória ou [56]aos sentidos, ele imediatamente, pela força do costume, leva a imaginação a conceber aquele objeto que usualmente está conjugado com ele; e essa concepção é acompanhada por um sentimento ou sensação diferente daqueles devaneios soltos da imaginação. Nisso consiste a inteira natureza da crença. Pois, como não há questão de fato na qual nós acreditemos tão firmemente que nós não possamos conceber o contrário, não haveria diferença entre a concepção assentida e aquela que é rejeitada, não fosse por algum sentimento que distingue uma da outra. Se eu vejo uma bola de bilhar movendo-se em direção de outra sobe uma mesa lisa, facilmente eu posso concebê-la parar em consequência do contato. Essa concepção não implica contradição; mas, por outro lado, ela é sentida muito diferentemente daquela concepção pela qual eu represento para mim mesmo impulso e a comunicação do movimento de uma bola a outra.

Devêssemos nós tentar uma definição desse sentimento, nós deveríamos, talvez, descobri-la uma tarefa muito difícil, senão impossível; da mesma maneira como se nós devêssemos tentar definir a sensação de frio, ou a paixão de raiva, para uma criatura quem nunca teve nenhuma experiência desses sentimentos. Crença é o nome verdadeiro e apropriado desse sentimento; e ninguém, alguma vez, esteve no prejuízo para conhecer o sentido desse termo, porque todo homem, a cada momento, está consciente do sentimento representado por ele. Contudo, pode não ser impróprio tentar uma descrição desse sentimento, na esperança de que nós possamos por esse meio chegar a algumas analogias que podem proporcionar uma explicação mais perfeita dele. Eu digo, essa crença nada é senão uma concepção vívida, animada, forte, firme, estável de um objeto do que a imaginação sozinha é alguma vez capaz de alcançar. Essa variedade de termos, a qual pode parecer tão não filosófica, é pretendida apenas para expressar que o ato da mente que torna as realidades, ou o que é aceito por tal, [57]mais presentes para nós do que ficções, causa-lhes a pesar mais no pensamento e concede-lhes uma influência superior sobre as paixões e a imaginação. Se nós concordamos sobre a coisa, é desnecessário disputar sobre os termos. A imaginação tem o comando sobre todas as suas ideias e pode juntar, misturar e variá-las, de todas as maneiras possíveis. Ela pode conceber objetos fictícios com todas as circunstâncias de lugar e tempo. Ela pode estabelecê-los de uma maneira diante de nossos olhos, em suas cores verdadeiras, exatamente como eles podiam ter existido. Mas, como é impossível que essa faculdade de imaginação alguma vez possa, de si mesma, alcançar a crença, é evidente que a crença consiste não na peculiar natureza ou ordem de ideias, mas no modo de sua concepção, e em sua sensação para a mente. Eu confesso que é impossível explicar perfeitamente essa sensação ou maneira de concepção. Nós podemos fazer uso de palavras que expressam alguma coisa próximo a ela. Mas seu nome verdadeiro e apropriado, como nós observamos antes, é crença; a qual é um termo que cada um entende suficientemente na vida comum. E em filosofia nós não podemos avançar mais do que afirmar que crença é alguma coisa sentida pela mente, a qual distingue as ideias do julgamento das ficções da imaginação. Ela concede-lhes mais peso e influência; fá-las parecer de importância maior; impõe-las à mente e torna-as o princípio governante de nossas ações. Por exemplo, no presente eu ouço a voz de uma pessoa com quem eu estou familiarizado, e o som surge assim como do próximo cômodo. Essa impressão de meus sentidos imediatamente leva meu pensamento a pessoa, junto com todos os objetos circundantes. Eu descrevo-os para mim mesmo como existentes no presente, com as mesmas qualidades e relações das quais eu anteriormente conhecia-as possuídas. Essas se enraízam mais rapidamente em minha mente do que ideias de [58]um castelo encantado. Elas são muito diferentes do sentimento e têm uma influência muito maior de cada tipo, ou para conceder prazer ou dor, alegria ou sofrimento.

Então, tomemos no escopo inteiro dessa doutrina e admitamos que o sentimento de crença nada é senão uma concepção mais intensa e firme do que aquela que acompanha as meras ficções da imaginação; e que esse modo de concepção surge a partir de uma conjunção costumeira do objeto com alguma coisa presente na memória ou nos sentidos. Eu acredito que não será difícil, em consequência dessas suposições, encontrar outras operações da mente análogas a ela, e traçar esses fenômenos a princípios ainda mais gerais.

Nós já observamos que a natureza estabeleceu conexões entre ideias particulares e que, tão logo uma ideia ocorra em nossos pensamentos, ela introduz sua correlativa, e conduz nossa atenção na direção dela, através de um movimento gentil e insensível. Esses princípios de conexão ou associação nós reduzimos a três, a saber, Semelhança, Contiguidade e Causação; os quais são os únicos vínculos que unem nossos pensamentos juntos e geram aquele regular fluxo de reflexão ou discurso, o qual, em um grau menor ou maior, ocorre em meio a todo o gênero humano. Agora, aqui surge uma questão, sobre a qual a solução da dificuldade presente dependerá. Acontece em todas essas relações que, quando um dos objetos é apresentado aos sentidos ou à memória, a mente não é apenas levada à concepção do correlativo, mas alcança uma concepção mais estável e mais forte dele do que teria sido capaz de alcança de outra forma? Esse parece ser o caso com aquela crença que surge a partir da relação de causa e efeito. E se o caso for o mesmo com as outras relações ou princípios de [59]associação, isso pode ser estabelecido como uma lei geral, a qual ocorre em todas as operações da mente.

Portanto, nós podemos observar, como o primeiro experimento para nosso propósito presente, que, a partir do aparecimento da imagem de um amigo ausente, nossa ideia dele é evidentemente animada pela semelhança, e que toda paixão que essa ideia ocasiona, quer de alegria quer de tristeza, adquire nova força e novo vigor. Na produção desse efeito, ali concorrem tanto uma relação como uma impressão presente. Onde a imagem não comportasse semelhança nenhum com ele, pelo menos não pretendida para ele, ela mesma nunca transportaria nosso pensamento para ele: e onde ela estivesse ausente, bem como a pessoa, embora a mente possa passar do pensamento de um para aquele do de outro, ela sente sua ideia ser antes enfraquecida do que avivada por essa transição. Nós recebemos um prazer na visão da imagem de um amigo quando ela está colocada diante de nós; mas quando ela é removida, antes escolhemos considerá-lo diretamente do que por reflexão sobre uma imagem, a qual está igualmente distante e obscura.

As cerimônias da religião Católica Romana podem ser consideradas como instâncias da mesma natureza. Os devotos daquela superstição comumente alegam em pretexto pelas pantomimas com as quais eles foram repreendidos, que eles sentem o bom efeito daqueles movimentos externos, posturas e ações no avivamento de sua devoção e despertar de seu fervor, os quais, de outra maneira, decairiam, se inteiramente direcionados a objetos distantes e imateriais. Nós sombreamos os objetos de nossa fé, dizem eles, em tipos e imagens sensíveis, e tornamo-los mais presentes para nós pela presença imediata desses tipos, do que é possível para nós fazermos meramente através de uma visão e contemplação intelectuais. Objetos sensíveis sempre têm uma influência maior sobre a imaginação do que quaisquer outros; e essa influência eles prontamente transmitem àquelas ideias com as quais eles [60]estão relacionados e assemelham-se. Eu apenas deverei inferir a partir dessas práticas, e deste raciocínio, que o efeito de semelhança no avivamento de ideias é muito comum; e, como em cada caso uma semelhança e uma impressão presente precisam ocorrer, nós estamos abundantemente supridos com experimentos para provarmos a realidade do princípio acima considerado.

Nós podemos adicionar força a esses experimentos através de outros um tipo diferente, ao considerar os efeitos de contiguidade bem como de semelhança. É certo que a distância diminui a força de qualquer ideia, e que, em consequência de nossa aproximação de qualquer objeto, embora ele não se revele para nossos sentidos, ele opera sobre a mente com uma influência que imita uma impressão imediata. O pensamento em qualquer objeto prontamente transporta a mente para o que está contíguo; mas é apenas a presença atual de um objeto que a transporta com vivacidade superior. Quando eu estou a umas poucas milhas de casa, tudo que se relaciona a ela toca mais de perto do que quando eu estou a duzentas léguas de distância; embora mesmo a essa distância, refletir sobre meus amigos ou família naturalmente produz uma ideia deles. Mas, como no caso posterior, ambos os objetos da mente são ideias, a despeito de haver uma transição fácil entre eles; essa transição sozinha não é capaz de dar uma vivacidade superior a qualquer das ideias, por falta de alguma impressão imediata.

[61]Ninguém pode duvidar apenas que a causação tem a mesma influência que as outras duas relações de semelhança e contiguidade. Pessoas supersticiosas são atraídas por relíquias de santos e homens sagrados, pela mesma razão que elas procuram modelos ou imagens, a fim de avivarem sua devoção e conceder a si mesmas uma concepção mais íntima e forte daquelas vidas exemplares que eles desejam imitar. Agora, é evidente que uma das melhores relíquias que um devoto pode conseguir seria um trabalho manual de um santo; e, se as roupas e mobília dele alguma vez fossem consideradas sob essa luz, é porque elas uma vez estiveram à disposição dele e foram movidas e afetadas por ele; em respeito da qual elas devem ser consideradas como efeitos imperfeitos, e como conectadas com ele por uma cadeia mais curta de consequências do que qualquer uma daquelas pelas quais nós aprendemos a realidade de sua existência.

Suponha que o filho de um amigo, quem estivera há muito tempo morto ou ausente, fosse apresentado a nós; é evidente que esse objeto instantaneamente reviveria sua ideia correlativa, e recordaria a nossos pensamentos todas as intimidades e familiaridades passadas em cores mais vivas do que, de outra maneira, elas teriam aparecido para nós. Esse é outro fenômeno, o qual parece provar o princípio acima mencionado.

Nós podemos observar que, nesses fenômenos, a crença no objeto correlativo é sempre pressuposta; sem a qual a relação não poderia ter efeito. A influência da imagem supõe que nós acreditemos que nosso amigo alguma vez existiu. Contiguidade à casa nunca pode excitar nossas [62]ideias de casa a menos que nós acreditemos que ela realmente existe. Agora, eu afirmo que essa crença, onde ela alcança além da memória e dos sentidos, é de uma natureza familiar, e surge a partir de causas similares, com a transição de pensamento e vivacidade de concepção aqui explicada. Quanto eu jogo um pedaço de madeira seca em uma fogueira, minha mente é imediatamente levada a conceber que ele aumenta, não extingue, a chama. Essa transição de pensamento da causa para o efeito não começa a partir da razão. Ela deriva sua origem completamente a partir da experiência. E, como ela primeiro começa a partir de um objeto presente para os sentidos, ela torna a ideia ou concepção da chama mais forte e vívida do que qualquer frouxo devaneio flutuante da imaginação. Essa ideia surge imediatamente. O pensamento move-se instantaneamente na direção dela e leva para ela toda força de concepção que é derivada a partir da impressão presente para os sentidos. Quando uma espada é nivelada a meu peito a ideia de ferimento e dor não me atinge mais fortemente do quando uma taça de vinho é apresentada a mim, mesmo embora por acidente essa ideia deva ocorrer após o aparecimento do posterior objeto? Mas o que há nessa questão toda para causar uma concepção tão forte, exceto apenas um objeto apresentado e uma transição costumeira da ideia para outro objeto, o qual nós estivemos acostumados a combinar com o anterior? Essa é toda a operação da mente, em todas as nossas conclusões relativas a questão de fato e existência; e é uma satisfação encontrar algumas analogias pelas quais ela pode ser explicada. A transição a partir de um objeto presente, em todos os casos, dá força e solidez à ideia relacionada.

Então, aqui há um tipo de harmonia preestabelecida entre o curso da natureza e a sucessão de nossas ideias; e, embora os poderes e forças pelos quais o [63]anterior é governado sejam inteiramente desconhecidos para nós, ainda assim, nossos pensamentos e concepções, nós descobrimos, continuaram no mesmo fluxo de outras obras da natureza. O costume é o princípio através do qual essa correspondência tem sido efetuada; tão necessária à subsistência de nossa espécie e regulação de nossa conduta, em cada circunstância e ocorrência da vida humana. Não houvesse a presença de uma objeto instantaneamente excitado a ideia daqueles objetos comumente combinados com ele, todo o nosso conhecimento deveria ter ficado limitado à esfera estreita de nossa memória e sentidos; e nós nunca deveríamos ter sido capazes de ajustar os meios aos fins, ou empregar nossos poderes naturais, quer para produzir o bem, quer para evitar o mal. Aqueles que se deleitam na descoberta e contemplação das causas finais, aqui têm um amplo tema para empregar seu espanto e admiração.

Eu devo acrescentar, para uma confirmação adicional da teoria acima considerada, que como essa operação da mente, pela qual nós inferimos efeitos semelhantes a partir de causas, e vice-versa, é tão essencial à subsistência de todas as criaturas humanas, não é provável que ela possa ser confiada às deduções falaciosas de nossa razão, a qual é lenta em suas operações; não aparece, em qualquer grau, durante os primeiros anos da infância; e, no melhor [caso], está, em qualquer idade e período da vida humana, extremamente suscetível a erro e engano. É muito compatível com a ordinária sabedoria da natureza assegurar um tão necessário ato da mente, através de algum instinto ou tendência mecânica, a qual pode ser infalível em suas operações, pode revelar-se ao primeiro aparecimento de vida e pensamento e pode ser independente de todas as deduções laboradas do entendimento. Assim como a natureza no ensinou o uso de nossos membros, sem conceder-nos o conhecimento dos músculos e nervos pelos quais eles são impulsionados, assim ela implantou em nós um instinto, o qual leva [64]adiante o pensamento em um curso correspondente para aquilo que ela tem estabelecido em meio a objetos externos; embora nós sejamos ignorantes desses poderes e forças dos quais esse curso e sucessão regulares de objetos depende totalmente.


Próxima parte


ORIGINAL:

HUME, D. An Inquiry concerning Human Understanding. IN:______. The Philosophical Works of David Hume. Volume IV. Boston: Little, Brown and Company; Edinburgh, Adam and Charles Black, 1854. p.47-64. Disponível em: <https://archive.org/details/philosophicalworks04humerich/page/47/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1 [51]Nada é mais usual para escritores do que, mesmo em assuntos morais, políticos e físicos, distinguir entre razão e experiência, e supor que essas espécies de argumentação são inteiramente diferentes uma da outra. A primeira é tomada pelo mero resultado de nossas faculdade intelectuais, considerando a priori a natureza das coisas, e examinado os efeitos que devem se seguir a partir de sua operação, estabelece princípios particulares da ciência e filosofia. A segunda é suposta ser derivada inteiramente a partir do sentido e observação, pelos quais nós aprendemos o que efetivamente resultou a partir da operação de objetos particulares, e, consequentemente, são capazes de inferir o que resultará a partir deles para o futuro. Dessa maneira, por exemplo, as limitações do governo civil e uma constituição legal podem ser defendidas, ou a partir da razão, a qual, refletindo sobre a grande fragilidade e corrupção da natureza humana, ensina que nenhum homem podem seguramente ser confiado com autoridade ilimitada; ou a partir da experiência e história, as quais nos informam dos enormes abusos que a ambição, em cada época e país, tem sido descoberta de fazer de uma confiança tão imprudente.

A mesma distinção entre razão e experiência é mantida em todas nossas deliberações relativas à conduta de vida; enquanto o estadista, médico geral ou mercador é confiado é seguido; e o novato inexperiente, dotado de quaisquer talentos naturais, negligenciado e desprezado. Embora seja admitido que a razão possa formar conjecturas muito plausíveis com respeito às consequências de uma semelhante conduta particular em semelhantes circunstâncias particulares, ela ainda é suposta imperfeita, sem a assistência da experiência, a qual, sozinha é capaz de conceder estabilidade e certeza à máxima derivada a partir de estudo e exame.

Mas, a despeito dessa distinção ser dessa maneira universalmente recebida, tanto na cena ativa quanto especulativa da ida, eu não deverei ter escrúpulo para pronunciar que ela é, na base, errônea ou, pelo menos, artificial.

Se nós examinarmos aqueles argumentos que, em qualquer das ciências acima mencionadas são supostos de serem os meros efeitos de raciocínio e reflexão, eles serão descobertos terminarem, por fim, em algum princípio ou conclusão geral, à qual nós não podemos atribuir nenhuma razão senão observação e experiência. A única diferença entre eles e aquelas máximas, as quais são vulgarmente consideradas o resultado de pura experiência, é que os primeiros não podem ser estabelecidos sem algum processo de pensamento, e alguma reflexão sobre o que nós observamos, a [52]fim de distinguir suas circunstâncias e traçar suas consequências: considerando que nos segundos, o evento experienciado é exata e completamente similar àquele que nós inferimos como o resultado de qualquer situação particular. Nero faz-nos temer uma tirania semelhante, estivessem nossos monarcas libertos das restrições das leis e dos senados: mas a observação de qualquer fraude ou crueldade na vida privada é´suficiente, com o auxílio de um pouco de pensamento, para nos conceder a mesma apreensão, enquanto ela serve como uma instância da corrupção geral da humanidade, e mostra-nos o perigo no qual nós devemos incorrer ao sustentar uma confiança inteira no gênero humano. Em ambos os casos, é a experiência que em última instância é o fundamento de nossa inferência e conclusão.

Não há nenhum homem tão jovem e inexperiente, como a não ter formado, a partir de observação, muitas máximas gerais e justas relativas aos assuntos humanos e à conduta de vida; mas deve ser confessado que, quando um homem chega a colocar essas em prática, ele ficará extremamente suscetível a erro, até que tempo e experiências adicionais tanto alarguem essas máximas quanto lhe ensinem seu uso e aplicação apropriados. Em cada situação ou incidente, há muitas circunstâncias particulares e aparentemente minúsculas, as quais o homem de talentos maiores, inicialmente, está inclinado a negligenciar, embora delas a justeza de suas conclusões e, consequentemente, a prudência de sua conduta, dependem inteiramente. Para não mencionar que, para um jovem iniciante, as observações e máximas gerais nem sempre ocorrem nas ocasiões apropriadas, nem podem ser imediatamente aplicadas com a devida calma e distinção. A verdade é, um raciocinador inexperiente não poderia ser, de qualquer maneira, um raciocinador, fosse ele absolutamente inexperiente; e quando nós atribuímos esse caráter a qualquer um, nós apenas queremos dizer em um sentido comparativo, e supomos que ele é possuidor de experiência em grau menor e mais imperfeito.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Uma Investigação a Respeito do Entendimento Humano IV – Dúvidas Céticas a respeito ds Operações do Entendimento

Uma Investigação a Respeito do Entendimento Humano


Por David Hume


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[30]Seção IV – Dúvidas Céticas a respeito das Operações do Entendimento


Parte I


Todos os objetos da razão ou investigação humanas podem ser naturalmente divididos em dois tipos, a saber, Relações de Ideias e Questões de Fato. Do primeiro tipo são as ciências da Geometria, Álgebra e Aritmética, e, em resumo, qualquer afirmação que seja ou intuitiva ou demonstrativamente certa. Que o quadrado da hipotenusa é igual ao quadrado dos dois lados, é uma proposição que expressa uma relação entre essas figuras. Que três vezes cinco é igual à metade trinta, expressa uma relação entre esses números. Proposições desse tipo são descobríveis pela mera operação do pensamento, sem dependência do que é existente em qualquer parte no universo. Embora nunca houvesse um círculo ou triângulo na natureza, as verdades demonstrada por Euclides reteriam para sempre sua certeza e evidência.

As questões de fato, as quais são os segundos objetos da razão humana, não são averiguadas da mesma maneira; nem é nossa evidência da verdade delas, por mais que grande, de uma natureza semelhante à das acima expostas. O contrário de cada [31]questão de fato ainda é possível, porque ela nunca pode implicar uma contradição, e é concebido pela mente com a mesma facilidade e distintividade, como se sempre tão conformável à realidade. Que o sol não nascerá amanhã, não é uma proposição menos inteligível, e não implica maior contradição, do que a afirmação, que ele nascerá. Portanto, em vão nós devermos tentar demonstrar sua falsidade. Fosse ela demonstrativamente falsa, ela implicaria uma contradição e nunca poderia ser distintamente concebida pela mente.

Portanto, pode ser um objeto digno de curiosidade inquirir qual é a natureza dessa evidência, a qual nos assegura de qualquer existência real e questão de fato, além do testemunho presente de nossos sentidos ou dos registros de nossa memória. Essa parte da filosofia, é observável, tem sido pouco cultivada quer pelos antigos, quer pelos modernos; e portanto, nossas dúvidas e erros, na continuação de uma investigação tão importante, podem ser mais escusáveis, visto que nós marchamos através de caminhos tão difíceis sem qualquer guia ou direção. Elas podem até se provarem úteis, ao exitarem nossa curiosidade e destruírem aquela fé e segurança implícitas que é a ruína de todo o raciocínio e investigação livre. A descoberta de defeitos no filósofo comum, se tais houverem, não será, eu presumo, um desencorajamento, mas antes um incitamento, como é usual, para tentar algo mais completo e satisfatório do que até agora tem sido proposto ao público.

Todos os raciocínios a respeito de matéria de fato parecem ser fundamentados sobre a relação de Causa e Efeito. Apenas através dessa relação nós podemos ir além da evidência de nossa memória e nossos sentidos. Se nós devêssemos perguntar a um homem por que ele acredita em qualquer questão de fato que está ausente, por exemplo, que o amigo dele está no país ou na França, [32]ele daria uma razão a você, e essa razão seria algum outro fato: como uma carta recebida dele, ou o conhecimento de suas resoluções e promessas anteriores. Um homem, encontrando um relógio ou qualquer outra máquina em uma ilha deserta, concluiria que uma vez existiram homens naquela ilha. Todos os nossos raciocínios que dizem respeito a fatos são da mesma natureza. E aqui se supõe constantemente que há uma conexão entre o fato presente e aquele que é inferido a partir dele. Não houvesse nada para os vincular juntos, a inferência seria inteiramente precária. A audição de uma voz articulada e de discurso racional no escuro, assegura-nos da presença de alguma pessoa: por quê? Porque esses são os efeitos que a voz humana produz e constrói, e rigorosamente conectados com ela. Se nós dissecássemos todos os outros raciocínios dessa natureza, deveríamos descobrir que eles estão fundamentados sobre a relação de causa e efeito, e que essa relação não está nem perto nem distante, não é nem direta, nem colateral. Calor e luz são efeitos colaterais do fogo e um efeito pode justamente ser inferido a partir do outro.

Portanto, se nós desejamos satisfazer a nós mesmos, a respeito da natureza daquela evidência que nos assegura das matérias de fato, nós precisamos inquirir como nós chegamos ao conhecimento de causa e efeito.

Eu devo aventurar-me a afirmar que, como uma proposição geral que não admite nenhuma exceção, o conhecimento dessa relação não é, em qualquer instância, obtido por raciocínios a priori; mas surge inteiramente a partir da experiência, quando nós descobrimos que quaisquer objetos particulares estão constantemente conjugados uns com os outros. Que um objeto seja apresentado a um homem de razão e habilidade naturais muito fortes; se esse objeto for inteiramente novo para ele, ele não será capaz, pelo exame mais preciso de suas qualidades sensíveis, de descobrir quaisquer de suas causas ou seus efeitos. Adão, [33]embora suas faculdades racionais sejam supostas, no primeiro momento, inteiramente perfeito, não poderia ter inferido a partir da fluidez e transparência da água que ela o sufocaria; ou a partir da luz e do calor do fogo que ele o consumiria. Nenhum objeto nunca se revela pelas qualidades que se apresentam aos sentidos, quer pelas causas que o produziram, quer pelos efeitos que surgirão a partir dele; nem pode nossa razão, desassistida pela experiência, alguma vez extrair qualquer inferência real concernente à existência real e questão de fato.

Esta proposição, que causas e efeitos são descobríveis não pela razão, mas pela experiência, será prontamente admitida com respeito a objetos tais como nos lembramos uma vez de terem sido completamente desconhecidos para nós; uma vez que nós devemos estar conscientes da completa inabilidade que então nós estendemos sob a predição que surgiria a partir deles. Apresente dois pedaços lisos de mármore a um homem quem não tem vestígios de filosofia natural; ele nunca descobrirá que ele aderirão juntos de uma maneira tal como a requerer grande força para os separar em uma linha direta, considerando que eles fazem uma resistência tão pequena a uma pressão lateral. Semelhantes eventos, que comportam pouca analogia com curso comum da natureza, são também prontamente confessados serem conhecidos somente pela experiência; nem qualquer homem imagina que a explosão da pólvora, ou a atração de uma magnetita (loadstone), alguma vez poderia ser descoberta por argumentos a priori. De maneira similar, quando se supõe que um evento depende de um maquinário intrincado ou estrutura secreta de partes, nós não criamos dificuldade na atribuição de todo o nosso conhecimento dele à experiência. Quem afirmará que pode dar a razão última de porque o leite ou pão é alimento adequado para um homem, não para um leão ou tigre?

Mas a mesma verdade pode não parecer, à primeira vista, ter a mesma evidência com respeito a eventos que [34]se tornaram familiares a nós desde o nosso primeiro aparecimento no mundo, os quais comportam uma estrita analogia com todo o curso da natureza, e os quais se supõem dependerem das simples qualidades dos objetos, sem qualquer estrutura secreta de partes. Nós estamos aptos a imaginar que poderíamos descobrir esses efeitos pela mera operação de nossa razão, sem a experiência. Nós fantasiamos que, fossemos trazidos de repente a este mundo, nos poderíamos primeiramente ter inferido que uma bola de bilhar comunicaria movimento a outra em consequência de impulso e que nós não precisaríamos esperar pelo evento, para afirmar, com certeza, sobre isso. Tal é a influência do costume, que, onde ela é mais forte, não apenas cobre nossa ignorância natural, mas até a oculta de si mesma e não parece ocorrer meramente porque é encontrado no mais elevado grau.

Mas para nos convencer de que todas as leis da natureza, e todas as operações dos corpos, sem exceção, são conhecidas apenas por experiência, as reflexões seguintes podem ser suficientes. Devesse qualquer objeto apresentado a nós, e fossemos nós requeridos de nos pronunciarmos a respeito do efeito que resultará a partir dele, sem consultarmos observações passadas; segundo que maneira, eu suplico a você, deve a mente proceder nessa operação? Ela deve inventar ou imaginar algum evento que ela atribui ao objeto como seu efeito; e é evidente que essa invenção precisa ser inteiramente arbitrária. Possivelmente, a mente nunca pode encontrar o efeito na suposta causa, pelo mais preciso escrutínio e exame. Pois o efeito é totalmente diferente da causa e, consequentemente, nunca pode ser descoberto nela. O movimento da segunda bola de bilhar é um evento bastante diferente do movimento da primeira; nem há qualquer coisa em um que sugira a menor insinuação do outro. Uma pedra ou pedaço de metal erguido no ar, [35]e deixado sem nenhum suporta, imediatamente cai: mas considere a matéria a priori, há alguma coisa que nós descobrimos nessa situação que pode produzir um movimento para baixo, em vez de para cima, ou qualquer outro movimento, na pedra ou metal?

E como a primeira imaginação ou invenção de um efeito particular, em todas as operações naturais, é arbitrária, onde nós não consultamos a experiência; assim nós devemos também considerar o suposto vínculo ou conexão entre a causa e o efeito que os liga juntos, e torná-lo impossível, de modo que qualquer outro efeito poderia resultar a partir da operação da causa. Por exemplo, quando eu vejo, uma bola de bilhar movendo-se em linha reta na direção de outra; até a suposição de movimento na segunda bola deveria ser sugerida para mim por acidente, como resultado de seu contato ou impulso; não posso eu conceber que uma centena de eventos igualmente poderiam seguir-se a partir daquela causa? Não podem ambas essas bolas permanecerem em descanso absoluto? Não pode a primeira bola retornar em uma linha reta, ou saltar da segunda em qualquer linha ou direção? Todas essas suposições são consistentes e concebíveis. Por que então nós devemos dar preferência para uma, a qual não é mais consistente ou concebível do que o resto? Todos os raciocínios a priori nunca serão capazes de nos mostrar qualquer fundamento para essa preferência.

Então, em uma palavra, cada efeito é um evento distinto de sua causa. Portanto, ele não pode ser descoberto na causa; e a primeira invenção ou concepção dele, a priori, deve ser inteiramente arbitrária. E mesmo após ela ser sugerida, a conjunção dele com a causa deve aparecer igualmente arbitrária; uma vez que sempre há muitos outros efeitos os quais, para a razão, devem parecer completamente consistentes e naturais. Portanto, em vão nós devemos pretender determinar qualquer evento singular, ou inferir qualquer causa ou [36]efeito, sem a assistência da observação e experiência.

Consequentemente, nós podemos descobrir a razão de porque nenhum filósofo, quem é racional e modesto, alguma vez pretendeu ter atribuído a causa última a qualquer operação natural, ou ter revelado distintamente a ação daquele poder, o qual produz qualquer efeito singular no universo. É confessado que o esforço extremo da razão humana é reduzir os princípios produtivos dos fenômenos naturais a uma simplicidade maior, e resolver os muitos efeitos particulares em umas poucas causas gerais, através de raciocínios a partir da analogia, experiência e observação. Mas, quanto às causas dessas causas gerais, em vão nós devemos tentar a descoberta delas; nem nunca nós deveremos ser capazes de satisfazer a nós mesmos por qualquer explicação delas. Essas fontes e princípios últimos estão totalmente fechados para a curiosidade e investigação humanas. Elasticidade, gravidade, coesão de partes, comunicação de movimento por impulso; provavelmente essas são as causas e princípios últimos que alguma vez nós deveremos descobrir na natureza; e nós podemos considerar a nós mesmos suficientemente felizes se, por investigação e raciocínio precisos, nós pudermos traçar os fenômenos particulares a, ou próximos a, esses princípios gerais. O mais perfeito filósofo do tipo natural apenas protela nossa ignorância um pouco mais; como talvez o mais perfeito filósofo do tipo moral ou metafísico apenas serve para descobrir porções maiores dela. Dessa maneira a observação da cegueira e fraqueza humanas é o resultado de toda a filosofia, e encontra-nos, a cada volta, a despeito de nossos esforços para iludi-la ou evitá-la.

Nem é a geometria, quando levada em assistência da filosofia natural, alguma vez capaz de remediar esse defeito, ou conduzir-nos ao conhecimento das causas últimas, por toda aquela [37]precisão de raciocínio pela qual é tão justamente celebrada. Cada parte da matemática mista prossegue em consequência da suposição de que certas leis são estabelecidas pela Natureza em suas operações; e raciocínios abstratos são empregados, quer para assistir a experiência na descoberta dessas leis, quer para determinar a influência delas em instâncias particulares, onde ela depende de qualquer grau preciso de distância e quantidade. Dessa maneira, é uma lei do movimento, descoberta pela experiência, que o momento ou força de qualquer corpo em movimento está em razão ou proporção composta de seu conteúdo sólido e sua velocidade; e consequentemente, que uma pequena força pode remover o obstáculo maior, ou erguer o peso maior, se, por qualquer invenção ou maquinário, nós pudermos aumentar a velocidade dessa força, assim como a torná-la um oponente superior (overmatch) para seu antagonista. A geometria assiste-nos na aplicação dessa lei, ao dar-nos as justas dimensões de todas as partes e figuras que podem entrar em qualquer espécie de máquina; mas ainda a descoberta da lei mesma é devida meramente à experiência; e todos os raciocínios abstratos no mundo nunca poderiam nos conduzir um passo adiante na direção do conhecimento dele. Quando nós raciocinamos a priori, e consideramos meramente algum objeto ou causa, como ele aparece na mente, independentemente de toda observação, ele nunca pode nos sugerir a noção de qualquer objeto distinto, tais como seu efeito; muito menos nos revelar a conexão inseparável e inviolável entre eles. Um homem precisa ser muito sagaz para que pudesse descobrir pelo raciocínio, que o cristal é o efeito do calor, e o gelo do frio, sem estar anteriormente familiarizado com a operação dessas qualidades.


[38]Parte II


Mas nós ainda não obtivemos nenhuma satisfação tolerável com respeito à questão primeiramente proposta. Cada solução constantemente dá origem a uma nova questão tão difícil quanto à acima mencionada e nos conduz a mais investigações. Quando é perguntado, Qual é a natureza de todos os nossos raciocínios a respeito de questão de fato? A resposta apropriada parece ser, que eles estão fundamentados na relação de causa e efeito. Novamente, quando é perguntado, Qual é o fundamento de todos os nossos raciocínios e conclusões concernentes a essa relação? Isso pode ser respondido em uma palavra, a EXPERIÊNCIA. Mas se nós então continuarmos, em nosso humor joeirante, e perguntarmos, Qual é o fundamento de todas as nossas conclusões a partir da experiência? Isso implica uma nova questão, a qual pode ser de solução e explicação mais difíceis. Filósofos que dão a si mesmos ares de sabedoria e suficiência superiores, têm uma tarefa difícil quando eles encontram pessoas de disposições inquisitivas, quem os empurram para fora cada canto para o qual eles se retiram, e quem estão certas de, pelo menos, trazê-los a algum perigoso dilema. O melhor expediente para prevenir essa confusão é ser modesto em nossas pretensões e até descobrir a dificuldade nós mesmos antes que ela seja objetada contra nós. Por esse meio nós poderemos criar um tipo de mérito de nossa própria ignorância.

Eu deverei contentar-me, nesta seção, com uma tarefa fácil, e deverei pretender apenas dar uma resposta negativa à questão aqui proposta. Então eu digo que, mesmo após termos experiência das operações de causa e efeito, nossas conclusões a partir dessa experiência não são fundamentadas em raciocínio, ou qualquer processo do entendimento. [39]Essa resposta nós devemos tanto nós esforçar para explicar como para defender.

Certamente deve ser admitido que a natureza nos manteve a uma grande distância de todos os segredos dela, e proporcionou-se somente o conhecimento de umas poucas qualidades superficiais de objetos; enquanto ela oculta-nos de todos aqueles poderes e princípios sobre os quais a influência desse objetos depende inteiramente. Nossos sentidos informam-nos da cor, do peso e da consistência do pão; mas nem o sentido nem a razão pode alguma vez informar-nos daquelas qualidades que o ajustam para a nutrição e suporte do corpo humano. A vista (sight) e sensação (feeling) transmitem uma ideia do atual movimento dos corpos, mas, quanto àquela força ou poder maravilhosos que manteriam um corpo em movimento para sempre em uma contínua mudança de lugar, e os corpos que nunca perdem mas comunicam-no a outros; disso nós não podemos formar a concepção mais distante. Mas, a despeito dessa ignorância dos poderes1 e princípios naturais, nós sempre presumimos, quando vemos qualidades sensíveis semelhantes, que elas têm poderes secretos semelhantes, e esperamos que efeitos similares àqueles que nós experienciamos seguir-se-ão a partir deles. Se um corpo de cor e consistência semelhantes àquele do pão que nós anteriormente comemos for apresentado a nós, nós não criamos escrúpulo de repetir o experimento, e prevemos, com certeza, nutrição e suporte semelhantes. Agora, isso é um processo da mente ou do pensamento, do qual eu voluntariamente gostaria de conhecer o fundamento. É reconhecido por todos que não há conexão conhecida entre as qualidades sensíveis e os poderes secretos; e, consequentemente, que a mente não é levada a formar uma semelhante conclusão, concernente a sua conjunção constante e regular, [40]por qualquer coisa que seja conhecida da natureza deles. Quanto à Experiência passada, ela pode ser reconhecida dar informação direta e certa apenas daqueles objetos precisos e daquele período preciso de tempo que caem sob seu conhecimento: mas, porque essa experiência deveria ser estendida para ocasiões futuras e para outros objetos, os quais, por algo que nós conhecemos, podem ser apenas semelhantes em aparência, essa é a questão principal sobre a qual eu insistiria. O pão que eu anteriormente comi me nutriu; quer dizer, um corpo de tais qualidades sensíveis, naquela ocasião, foi dotado de tais poderes secretos: mas segue-se que outro pão também deve nutrir-me em outra ocasião, e que semelhantes qualidades sensíveis sempre devam ser acompanhadas com semelhantes poderes secretos? A consequência não parece de maneira alguma necessária. Pelo menos, dever ser admitido, que há uma consequência extraída pela mente, de que há um certo passo tomado, um processo de pensamento, e uma inferência que necessita ser explicada. Estas duas proposições estão longe de serem a mesma, Eu descobri que um tal objeto sempre tem sido acompanhado por um tal efeito e Eu prevejo que outros objetos que são similares em aparência serão acompanhados por efeitos similares. Eu devo reconhecer, por favor, que uma proposição pode ser justamente inferida a partir da outra: sei, de fato, que ela sempre é inferida. Mas, se você insiste que a inferência é produzida por uma cadeia de raciocínio, eu desejo que você produza esse raciocínio. A conexão entre essas proposições não é intuitiva. Ali é requerido um meio-termo (medium), o qual pode capacitar a mente a extrair uma tal inferência, se, de fato, ela pode ser extraída por raciocínio e argumento. Qual é esse meio-termo, eu preciso confessar, ultrapassa minha compreensão; e é incumbência daqueles que afirmam que ele realmente existe para o produzir, e é a origem de todas as nossas conclusões concernentes a questão de fato.

[41]Esse argumento negativo certamente deverá, no progresso do tempo, tornar-se completamente convincente, se muitos filósofos penetrantes e hábeis devam voltar suas investigações dessa maneira; e ninguém, alguma vez, será capaz de descobrir qualquer proposição conectora ou passo intermediário que suporte o entendimento nessa conclusão. Mas, como a questão é por hora nova, cada leitor pode não confiar até agora para sua própria penetração para concluir, que, porque um argumento escapa de sua investigação, portanto, ele não existe realmente. Por essa razão, pode ser necessária aventurar-se por uma tarefa mais difícil e, enumerando todos os ramos do conhecimento humano, esforçar-se por mostrar que nenhum deles pode proporcionar uma tal argumento.

Todos os raciocínios podem ser divididos em dois tipos, a saber, raciocínio demonstrativo, ou aquele concernente a relações de ideias; e raciocínio moral, ou aquele a respeito de questão de fato e existência. Que não haja argumentos demonstrativos no caso, parece evidente, uma vez que não implica contradições que o curso da natureza pode mudar, e que um objeto, aparentemente semelhante àqueles que nós experienciamos, pode ser acompanhado por efeitos diferentes ou contrários. Não posso eu, clara e distintamente, conceber que um corpo, caindo a partir das nuvens e o qual, em todos os outros aspectos, assemelha-se a neve, contudo, tenha gosto do sal ou a sensação do fogo? Há alguma proposição mais inteligível do que afirmar, que todas as árvores florescerão em dezembro e janeiro e decairão em maio e junho? Agora, o que quer que seja inteligível, e possa ser distintamente concebido, não implica contradição, e nunca pode ser provado falso por qualquer argumento demonstrativo ou raciocínio abstrato a priori.

Portanto, se nós estivermos engajados por argumentos a colocar confiança em experiências passadas, e torná-las o padrão de nosso julgamento futuro esses argumentos precisam ser apenas prováveis, [42]ou tais como relativos a questão de fato e existência real, de acordo com a divisão acima mencionada. Mas que não há argumento desse tipo, precisa aparecer, se nossa explicação daquela espécie de raciocínio for admitida como sólida e satisfatória. Nós temos dito que todos os argumentos a respeito da existência estão fundamentados na relação de causa e efeito; que nosso conhecimento dessa relação é inteiramente derivado a partir da experiência; e que todas as nossas conclusões experimentais procedem em consequência desta suposição, de modo que o futuro será conformável ao passado. Portanto, tentar a prova dessa última suposição por argumentos prováveis, ou argumentos que dizem respeito à existência, evidentemente precisa ser ir em um círculo, e tomar por garantido aquilo que é o ponto mesmo em questão.

Na realidade, todos os argumentos a partir da experiência são fundamentados sobre a similaridade que nós descobrimos em meio aos objetos naturais, e pela qual nós somos induzidos a esperar efeitos similares para aquelas que nós descobrimos se seguirem a partir de semelhantes objetos. E embora ninguém, senão um tolo ou louco, alguma vez pretenderá disputar a autoridade da experiência, ou rejeitar esse grande guia da vida humana, certamente pode ser reconhecido que um filósofo tem tanto curiosidade para, pelo menos, examinar o princípio da natureza humana que dá essa poderosa autoridade à experiência, e faz-nos extrair vantagem a partir daquela similaridade que a natureza colocou entre objetos diferentes. A partir de causas que parecem similares, nós esperamos efeitos similares. Essa é a soma de todas as nossas conclusões experimentais. Agora, parece evidente que, se essa conclusão fosse formada pela razão, ela seria inicialmente tão perfeita, e em consequência de uma instância, como para sempre depois um curso da experiência: mas o caso é muito diferente. Nada é tão semelhante quanto ovos; contudo, ninguém, por causa de sua similaridade, espera o mesmo gosto e satisfação em todos eles. É [43]apenas após um longo curso de experimentos uniformes de qualquer tipo que nós obtemos uma confiança e segurança firmes com respeito a um evento particular. Agora, onde é que o processo de raciocínio, o qual, a partir de uma instância, extrai uma conclusão tão diferente daquela que ele infere a partir de uma centena de instância que não são, de maneira nenhuma, diferentes daquela única? Essa questão eu proponho, tanto por causa da informação, quanto com uma intenção de levantar dificuldades. Eu não posso descobrir, eu não posso imaginar, nenhum raciocínio semelhante. Mas eu ainda mantenho minha mente aberta à instrução, se qualquer um se dignará a concedê-la a mim.

Deveria ser dito que, a partir de um número de experimentos uniformes, nós inferimos uma conexão entre as qualidades sensíveis e os poderes secretos, isso, eu preciso confessar, parece a mesma dificuldade, expressa em termos diferentes. A questão ainda ocorre, Sobre que processo de argumento essa inferência está fundamentada? Onde está o meio-termo, as ideias interpostas, que unem proposições tão muito distantes umas das outras? É confessado que a cor, consistência e outras qualidades sensíveis do pão não parecem ter, elas mesmas, qualquer conexão com os poderes secretos de nutrição e suporte: pois, de outra maneira, nós poderíamos inferir esses poderes secretos a partir do primeiro aparecimento dessas qualidades sensíveis, sem o auxílio da experiência, contrário ao sentimento de todos os filósofos, e contrário à simples questão de fato. Aqui então está nosso estado natural de ignorância com respeito aos poderes e influência de todos os objetos. Como isso é remediado pela experiência? Ela apenas nos revelar um número de efeitos uniformes resultantes de certos objetos e ensina-nos que esses objetos particulares, naquela ocasião particular, eram dotadas de tais poderes e forças. Quando um novo objeto, dotado de qualidades sensíveis similares, é produzido, nós esperamos poderes e forças similares e procuramos por um efeito semelhante. [44]A partir de um corpo de cor e consistência semelhantes às do pão, nós esperamos uma nutrição e suporte similares. Mas esse certamente é um passo ou progresso da mente que carece de ser explicado. Quando um homem diz, Eu descobri, em todas as instâncias passadas, tais qualidades sensíveis combinadas com tais poderes secretos; e quando ele diz, semelhantes qualidades sensíveis sempre serão combinadas com similares poderes secretos; ele não é culpado de uma tautologia, nem são essas proposições, em qualquer aspecto, a mesma. Você diz que uma proposição é uma inferência a partir da outra: mas você precisa confessar que a inferência não é nem intuitiva, nem demonstrativa. Então, de que natureza ela é? Dizer que ela é experimental é petição de princípio (begging the question). Pois todas as inferências a partir da experiência supõem, como seu fundamento, que o futuro se assemelhará ao passado, e que poderes similares estarão combinados com qualidades sensíveis similares. Se houvesse qualquer suspeita de que o curso da natureza pudesse mudar, e de que o passado não pudesse ser regra para o futuro, toda a experiência torna-se inútil e não pode dar origem a nenhuma inferência ou conclusão. Portanto, é impossível que qualquer argumento a partir da experiência possa provar essa semelhança do passado com o futuro: uma vez que todos esses argumentos estão fundamentados sobre a suposição daquela semelhança. Que o curso das coisas, até agora sempre tão regular, seja permitido, sem algum novo argumento ou inferência, não mais provar que o futuro continuará assim. Em vão você pretenderá ter aprendido a natureza dos corpos a partir de suas experiências passadas. A natureza secreta delas e, consequentemente, todos os seus efeitos e influência, podem mudar, sem qualquer mudança em suas qualidades sensíveis. Isso algumas vezes acontece, com respeito a alguns objetos: por que não pode acontecer sempre, e com respeito a todos os objetos? Que lógica, que processo de argumento assegura você contra essa suposição? Minha prática, você diz, [45]refuta minhas dúvidas. Mas você interpreta erradamente o propósito da minha questão. Como um agente, eu estou bastante satisfeito na questão; mas como um filósofo, quem tem algum quinhão de curiosidade, eu não direi de ceticismo, eu quero conhecer o fundamento dessa inferência. Nenhuma leitura, nenhuma investigação, até agora, foi capaz de remover minha dificuldade, ou satisfazer-me em uma questão de tanta importância. Posso eu fazer melhor do que propor a dificuldade ao público, mesmo embora, talvez, eu tenha pequenas esperanças de obter uma solução? Pelo menos, nós devemos, por esse meio, ficar sensíveis de nossa ignorância, se nós não aumentarmos nosso conhecimento.

Eu preciso confessar que um homem é culpado de arrogância imperdoável, quem conclui, porque um argumento escapou a sua própria investigação, que, portanto, ele não existe realmente. Eu também preciso confessar que, embora todos os instruídos, por várias épocas, devem ter empregado a si mesmos em busca infrutífera sobre qualquer assunto, ainda pode ser, talvez, precipitado concluir positivamente que o assunto portanto deva ultrapassar toda a compreensão humana. Apesar de nós examinemos todas as fontes de nosso conhecimento e concluí-las impróprias para um tal assunto, ali ainda pode permanecer uma suspeita de que a enumeração não esteja completa, ou o exame, não preciso. Mas com respeito ao assunto presente, há algumas considerações que parecem remover toda essa acusação de arrogância ou suspeita de erro.

É certo que os mais ignorantes e estúpidos camponeses, ou melhor, infantes, ou melhor, mesmo feras brutas, melhoram por experiência e aprendem as qualidades de objetos naturais observando os efeitos que resultam a partir deles. Quando uma criança sentiu a sensação de dor a partir do toque em uma chama de uma vela, ela será cuidadosa para não colocar sua mão próxima de qualquer vela, apenas esperará um efeito similar de uma causa que é similar em suas qualidades e aparência sensível. [46]Portanto, se você afirmar que o entendimento da criança é levado a essa conclusão por qualquer argumento ou raciocínio, eu justamente posso requerer a você para produzir esse argumento; nem tem você qualquer pretensão de recusar uma demanda tão justa. Você não pode dizer que o argumento é obscuro, e pode possivelmente escapar da sua investigação, desde que você confesse que é óbvio para a capacidade de um mero infante. Portanto, se você hesitar um momento, ou se, após reflexão, você produzir um argumento intrincado e profundo, você, de uma maneira, desiste da questão e confessa, que não é o raciocínio que nos empenha a supor o passado assemelhando-se ao futuro e esperar efeitos similares a partir de causas que são aparentemente similares. Essa é a proposição que eu pretendi aplicar na presente secção. Se eu estiver certo, eu não pretendo ter feito nenhuma descoberta poderosa. E se eu estiver errado, eu preciso reconhecer que mesmo sou de fato um letrado apalermado, uma vez que, agora, eu não posso descobrir um argumento que, parece, era perfeitamente familiar para muito antes que eu estivesse fora de meu berço.


Próxima parte


ORIGINAL:

HUME, D. An Inquiry concerning Human Understanding. IN:______. The Philosophical Works of David Hume. Volume IV. Boston: Little, Brown and Company; Edinburgh, Adam and Charles Black, 1854. p.30-46. Disponível em: <https://archive.org/details/philosophicalworks04humerich/page/30/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1 A palavra Poder é usada aqui em um sentido vago e popular. A explicação mais precisa dele daria evidência adicional para esse argumento. Ver Seção vii.