Uma Investigação a Respeito do Entendimento Humano
Por David Hume
[30]Seção IV – Dúvidas Céticas a respeito das Operações do Entendimento
Parte I
Todos os objetos da razão ou investigação humanas podem ser naturalmente divididos em dois tipos, a saber, Relações de Ideias e Questões de Fato. Do primeiro tipo são as ciências da Geometria, Álgebra e Aritmética, e, em resumo, qualquer afirmação que seja ou intuitiva ou demonstrativamente certa. Que o quadrado da hipotenusa é igual ao quadrado dos dois lados, é uma proposição que expressa uma relação entre essas figuras. Que três vezes cinco é igual à metade trinta, expressa uma relação entre esses números. Proposições desse tipo são descobríveis pela mera operação do pensamento, sem dependência do que é existente em qualquer parte no universo. Embora nunca houvesse um círculo ou triângulo na natureza, as verdades demonstrada por Euclides reteriam para sempre sua certeza e evidência.
As questões de fato, as quais são os segundos objetos da razão humana, não são averiguadas da mesma maneira; nem é nossa evidência da verdade delas, por mais que grande, de uma natureza semelhante à das acima expostas. O contrário de cada [31]questão de fato ainda é possível, porque ela nunca pode implicar uma contradição, e é concebido pela mente com a mesma facilidade e distintividade, como se sempre tão conformável à realidade. Que o sol não nascerá amanhã, não é uma proposição menos inteligível, e não implica maior contradição, do que a afirmação, que ele nascerá. Portanto, em vão nós devermos tentar demonstrar sua falsidade. Fosse ela demonstrativamente falsa, ela implicaria uma contradição e nunca poderia ser distintamente concebida pela mente.
Portanto, pode ser um objeto digno de curiosidade inquirir qual é a natureza dessa evidência, a qual nos assegura de qualquer existência real e questão de fato, além do testemunho presente de nossos sentidos ou dos registros de nossa memória. Essa parte da filosofia, é observável, tem sido pouco cultivada quer pelos antigos, quer pelos modernos; e portanto, nossas dúvidas e erros, na continuação de uma investigação tão importante, podem ser mais escusáveis, visto que nós marchamos através de caminhos tão difíceis sem qualquer guia ou direção. Elas podem até se provarem úteis, ao exitarem nossa curiosidade e destruírem aquela fé e segurança implícitas que é a ruína de todo o raciocínio e investigação livre. A descoberta de defeitos no filósofo comum, se tais houverem, não será, eu presumo, um desencorajamento, mas antes um incitamento, como é usual, para tentar algo mais completo e satisfatório do que até agora tem sido proposto ao público.
Todos os raciocínios a respeito de matéria de fato parecem ser fundamentados sobre a relação de Causa e Efeito. Apenas através dessa relação nós podemos ir além da evidência de nossa memória e nossos sentidos. Se nós devêssemos perguntar a um homem por que ele acredita em qualquer questão de fato que está ausente, por exemplo, que o amigo dele está no país ou na França, [32]ele daria uma razão a você, e essa razão seria algum outro fato: como uma carta recebida dele, ou o conhecimento de suas resoluções e promessas anteriores. Um homem, encontrando um relógio ou qualquer outra máquina em uma ilha deserta, concluiria que uma vez existiram homens naquela ilha. Todos os nossos raciocínios que dizem respeito a fatos são da mesma natureza. E aqui se supõe constantemente que há uma conexão entre o fato presente e aquele que é inferido a partir dele. Não houvesse nada para os vincular juntos, a inferência seria inteiramente precária. A audição de uma voz articulada e de discurso racional no escuro, assegura-nos da presença de alguma pessoa: por quê? Porque esses são os efeitos que a voz humana produz e constrói, e rigorosamente conectados com ela. Se nós dissecássemos todos os outros raciocínios dessa natureza, deveríamos descobrir que eles estão fundamentados sobre a relação de causa e efeito, e que essa relação não está nem perto nem distante, não é nem direta, nem colateral. Calor e luz são efeitos colaterais do fogo e um efeito pode justamente ser inferido a partir do outro.
Portanto, se nós desejamos satisfazer a nós mesmos, a respeito da natureza daquela evidência que nos assegura das matérias de fato, nós precisamos inquirir como nós chegamos ao conhecimento de causa e efeito.
Eu devo aventurar-me a afirmar que, como uma proposição geral que não admite nenhuma exceção, o conhecimento dessa relação não é, em qualquer instância, obtido por raciocínios a priori; mas surge inteiramente a partir da experiência, quando nós descobrimos que quaisquer objetos particulares estão constantemente conjugados uns com os outros. Que um objeto seja apresentado a um homem de razão e habilidade naturais muito fortes; se esse objeto for inteiramente novo para ele, ele não será capaz, pelo exame mais preciso de suas qualidades sensíveis, de descobrir quaisquer de suas causas ou seus efeitos. Adão, [33]embora suas faculdades racionais sejam supostas, no primeiro momento, inteiramente perfeito, não poderia ter inferido a partir da fluidez e transparência da água que ela o sufocaria; ou a partir da luz e do calor do fogo que ele o consumiria. Nenhum objeto nunca se revela pelas qualidades que se apresentam aos sentidos, quer pelas causas que o produziram, quer pelos efeitos que surgirão a partir dele; nem pode nossa razão, desassistida pela experiência, alguma vez extrair qualquer inferência real concernente à existência real e questão de fato.
Esta proposição, que causas e efeitos são descobríveis não pela razão, mas pela experiência, será prontamente admitida com respeito a objetos tais como nos lembramos uma vez de terem sido completamente desconhecidos para nós; uma vez que nós devemos estar conscientes da completa inabilidade que então nós estendemos sob a predição que surgiria a partir deles. Apresente dois pedaços lisos de mármore a um homem quem não tem vestígios de filosofia natural; ele nunca descobrirá que ele aderirão juntos de uma maneira tal como a requerer grande força para os separar em uma linha direta, considerando que eles fazem uma resistência tão pequena a uma pressão lateral. Semelhantes eventos, que comportam pouca analogia com curso comum da natureza, são também prontamente confessados serem conhecidos somente pela experiência; nem qualquer homem imagina que a explosão da pólvora, ou a atração de uma magnetita (loadstone), alguma vez poderia ser descoberta por argumentos a priori. De maneira similar, quando se supõe que um evento depende de um maquinário intrincado ou estrutura secreta de partes, nós não criamos dificuldade na atribuição de todo o nosso conhecimento dele à experiência. Quem afirmará que pode dar a razão última de porque o leite ou pão é alimento adequado para um homem, não para um leão ou tigre?
Mas a mesma verdade pode não parecer, à primeira vista, ter a mesma evidência com respeito a eventos que [34]se tornaram familiares a nós desde o nosso primeiro aparecimento no mundo, os quais comportam uma estrita analogia com todo o curso da natureza, e os quais se supõem dependerem das simples qualidades dos objetos, sem qualquer estrutura secreta de partes. Nós estamos aptos a imaginar que poderíamos descobrir esses efeitos pela mera operação de nossa razão, sem a experiência. Nós fantasiamos que, fossemos trazidos de repente a este mundo, nos poderíamos primeiramente ter inferido que uma bola de bilhar comunicaria movimento a outra em consequência de impulso e que nós não precisaríamos esperar pelo evento, para afirmar, com certeza, sobre isso. Tal é a influência do costume, que, onde ela é mais forte, não apenas cobre nossa ignorância natural, mas até a oculta de si mesma e não parece ocorrer meramente porque é encontrado no mais elevado grau.
Mas para nos convencer de que todas as leis da natureza, e todas as operações dos corpos, sem exceção, são conhecidas apenas por experiência, as reflexões seguintes podem ser suficientes. Devesse qualquer objeto apresentado a nós, e fossemos nós requeridos de nos pronunciarmos a respeito do efeito que resultará a partir dele, sem consultarmos observações passadas; segundo que maneira, eu suplico a você, deve a mente proceder nessa operação? Ela deve inventar ou imaginar algum evento que ela atribui ao objeto como seu efeito; e é evidente que essa invenção precisa ser inteiramente arbitrária. Possivelmente, a mente nunca pode encontrar o efeito na suposta causa, pelo mais preciso escrutínio e exame. Pois o efeito é totalmente diferente da causa e, consequentemente, nunca pode ser descoberto nela. O movimento da segunda bola de bilhar é um evento bastante diferente do movimento da primeira; nem há qualquer coisa em um que sugira a menor insinuação do outro. Uma pedra ou pedaço de metal erguido no ar, [35]e deixado sem nenhum suporta, imediatamente cai: mas considere a matéria a priori, há alguma coisa que nós descobrimos nessa situação que pode produzir um movimento para baixo, em vez de para cima, ou qualquer outro movimento, na pedra ou metal?
E como a primeira imaginação ou invenção de um efeito particular, em todas as operações naturais, é arbitrária, onde nós não consultamos a experiência; assim nós devemos também considerar o suposto vínculo ou conexão entre a causa e o efeito que os liga juntos, e torná-lo impossível, de modo que qualquer outro efeito poderia resultar a partir da operação da causa. Por exemplo, quando eu vejo, uma bola de bilhar movendo-se em linha reta na direção de outra; até a suposição de movimento na segunda bola deveria ser sugerida para mim por acidente, como resultado de seu contato ou impulso; não posso eu conceber que uma centena de eventos igualmente poderiam seguir-se a partir daquela causa? Não podem ambas essas bolas permanecerem em descanso absoluto? Não pode a primeira bola retornar em uma linha reta, ou saltar da segunda em qualquer linha ou direção? Todas essas suposições são consistentes e concebíveis. Por que então nós devemos dar preferência para uma, a qual não é mais consistente ou concebível do que o resto? Todos os raciocínios a priori nunca serão capazes de nos mostrar qualquer fundamento para essa preferência.
Então, em uma palavra, cada efeito é um evento distinto de sua causa. Portanto, ele não pode ser descoberto na causa; e a primeira invenção ou concepção dele, a priori, deve ser inteiramente arbitrária. E mesmo após ela ser sugerida, a conjunção dele com a causa deve aparecer igualmente arbitrária; uma vez que sempre há muitos outros efeitos os quais, para a razão, devem parecer completamente consistentes e naturais. Portanto, em vão nós devemos pretender determinar qualquer evento singular, ou inferir qualquer causa ou [36]efeito, sem a assistência da observação e experiência.
Consequentemente, nós podemos descobrir a razão de porque nenhum filósofo, quem é racional e modesto, alguma vez pretendeu ter atribuído a causa última a qualquer operação natural, ou ter revelado distintamente a ação daquele poder, o qual produz qualquer efeito singular no universo. É confessado que o esforço extremo da razão humana é reduzir os princípios produtivos dos fenômenos naturais a uma simplicidade maior, e resolver os muitos efeitos particulares em umas poucas causas gerais, através de raciocínios a partir da analogia, experiência e observação. Mas, quanto às causas dessas causas gerais, em vão nós devemos tentar a descoberta delas; nem nunca nós deveremos ser capazes de satisfazer a nós mesmos por qualquer explicação delas. Essas fontes e princípios últimos estão totalmente fechados para a curiosidade e investigação humanas. Elasticidade, gravidade, coesão de partes, comunicação de movimento por impulso; provavelmente essas são as causas e princípios últimos que alguma vez nós deveremos descobrir na natureza; e nós podemos considerar a nós mesmos suficientemente felizes se, por investigação e raciocínio precisos, nós pudermos traçar os fenômenos particulares a, ou próximos a, esses princípios gerais. O mais perfeito filósofo do tipo natural apenas protela nossa ignorância um pouco mais; como talvez o mais perfeito filósofo do tipo moral ou metafísico apenas serve para descobrir porções maiores dela. Dessa maneira a observação da cegueira e fraqueza humanas é o resultado de toda a filosofia, e encontra-nos, a cada volta, a despeito de nossos esforços para iludi-la ou evitá-la.
Nem é a geometria, quando levada em assistência da filosofia natural, alguma vez capaz de remediar esse defeito, ou conduzir-nos ao conhecimento das causas últimas, por toda aquela [37]precisão de raciocínio pela qual é tão justamente celebrada. Cada parte da matemática mista prossegue em consequência da suposição de que certas leis são estabelecidas pela Natureza em suas operações; e raciocínios abstratos são empregados, quer para assistir a experiência na descoberta dessas leis, quer para determinar a influência delas em instâncias particulares, onde ela depende de qualquer grau preciso de distância e quantidade. Dessa maneira, é uma lei do movimento, descoberta pela experiência, que o momento ou força de qualquer corpo em movimento está em razão ou proporção composta de seu conteúdo sólido e sua velocidade; e consequentemente, que uma pequena força pode remover o obstáculo maior, ou erguer o peso maior, se, por qualquer invenção ou maquinário, nós pudermos aumentar a velocidade dessa força, assim como a torná-la um oponente superior (overmatch) para seu antagonista. A geometria assiste-nos na aplicação dessa lei, ao dar-nos as justas dimensões de todas as partes e figuras que podem entrar em qualquer espécie de máquina; mas ainda a descoberta da lei mesma é devida meramente à experiência; e todos os raciocínios abstratos no mundo nunca poderiam nos conduzir um passo adiante na direção do conhecimento dele. Quando nós raciocinamos a priori, e consideramos meramente algum objeto ou causa, como ele aparece na mente, independentemente de toda observação, ele nunca pode nos sugerir a noção de qualquer objeto distinto, tais como seu efeito; muito menos nos revelar a conexão inseparável e inviolável entre eles. Um homem precisa ser muito sagaz para que pudesse descobrir pelo raciocínio, que o cristal é o efeito do calor, e o gelo do frio, sem estar anteriormente familiarizado com a operação dessas qualidades.
[38]Parte II
Mas nós ainda não obtivemos nenhuma satisfação tolerável com respeito à questão primeiramente proposta. Cada solução constantemente dá origem a uma nova questão tão difícil quanto à acima mencionada e nos conduz a mais investigações. Quando é perguntado, Qual é a natureza de todos os nossos raciocínios a respeito de questão de fato? A resposta apropriada parece ser, que eles estão fundamentados na relação de causa e efeito. Novamente, quando é perguntado, Qual é o fundamento de todos os nossos raciocínios e conclusões concernentes a essa relação? Isso pode ser respondido em uma palavra, a EXPERIÊNCIA. Mas se nós então continuarmos, em nosso humor joeirante, e perguntarmos, Qual é o fundamento de todas as nossas conclusões a partir da experiência? Isso implica uma nova questão, a qual pode ser de solução e explicação mais difíceis. Filósofos que dão a si mesmos ares de sabedoria e suficiência superiores, têm uma tarefa difícil quando eles encontram pessoas de disposições inquisitivas, quem os empurram para fora cada canto para o qual eles se retiram, e quem estão certas de, pelo menos, trazê-los a algum perigoso dilema. O melhor expediente para prevenir essa confusão é ser modesto em nossas pretensões e até descobrir a dificuldade nós mesmos antes que ela seja objetada contra nós. Por esse meio nós poderemos criar um tipo de mérito de nossa própria ignorância.
Eu deverei contentar-me, nesta seção, com uma tarefa fácil, e deverei pretender apenas dar uma resposta negativa à questão aqui proposta. Então eu digo que, mesmo após termos experiência das operações de causa e efeito, nossas conclusões a partir dessa experiência não são fundamentadas em raciocínio, ou qualquer processo do entendimento. [39]Essa resposta nós devemos tanto nós esforçar para explicar como para defender.
Certamente deve ser admitido que a natureza nos manteve a uma grande distância de todos os segredos dela, e proporcionou-se somente o conhecimento de umas poucas qualidades superficiais de objetos; enquanto ela oculta-nos de todos aqueles poderes e princípios sobre os quais a influência desse objetos depende inteiramente. Nossos sentidos informam-nos da cor, do peso e da consistência do pão; mas nem o sentido nem a razão pode alguma vez informar-nos daquelas qualidades que o ajustam para a nutrição e suporte do corpo humano. A vista (sight) e sensação (feeling) transmitem uma ideia do atual movimento dos corpos, mas, quanto àquela força ou poder maravilhosos que manteriam um corpo em movimento para sempre em uma contínua mudança de lugar, e os corpos que nunca perdem mas comunicam-no a outros; disso nós não podemos formar a concepção mais distante. Mas, a despeito dessa ignorância dos poderes1 e princípios naturais, nós sempre presumimos, quando vemos qualidades sensíveis semelhantes, que elas têm poderes secretos semelhantes, e esperamos que efeitos similares àqueles que nós experienciamos seguir-se-ão a partir deles. Se um corpo de cor e consistência semelhantes àquele do pão que nós anteriormente comemos for apresentado a nós, nós não criamos escrúpulo de repetir o experimento, e prevemos, com certeza, nutrição e suporte semelhantes. Agora, isso é um processo da mente ou do pensamento, do qual eu voluntariamente gostaria de conhecer o fundamento. É reconhecido por todos que não há conexão conhecida entre as qualidades sensíveis e os poderes secretos; e, consequentemente, que a mente não é levada a formar uma semelhante conclusão, concernente a sua conjunção constante e regular, [40]por qualquer coisa que seja conhecida da natureza deles. Quanto à Experiência passada, ela pode ser reconhecida dar informação direta e certa apenas daqueles objetos precisos e daquele período preciso de tempo que caem sob seu conhecimento: mas, porque essa experiência deveria ser estendida para ocasiões futuras e para outros objetos, os quais, por algo que nós conhecemos, podem ser apenas semelhantes em aparência, essa é a questão principal sobre a qual eu insistiria. O pão que eu anteriormente comi me nutriu; quer dizer, um corpo de tais qualidades sensíveis, naquela ocasião, foi dotado de tais poderes secretos: mas segue-se que outro pão também deve nutrir-me em outra ocasião, e que semelhantes qualidades sensíveis sempre devam ser acompanhadas com semelhantes poderes secretos? A consequência não parece de maneira alguma necessária. Pelo menos, dever ser admitido, que há uma consequência extraída pela mente, de que há um certo passo tomado, um processo de pensamento, e uma inferência que necessita ser explicada. Estas duas proposições estão longe de serem a mesma, Eu descobri que um tal objeto sempre tem sido acompanhado por um tal efeito e Eu prevejo que outros objetos que são similares em aparência serão acompanhados por efeitos similares. Eu devo reconhecer, por favor, que uma proposição pode ser justamente inferida a partir da outra: sei, de fato, que ela sempre é inferida. Mas, se você insiste que a inferência é produzida por uma cadeia de raciocínio, eu desejo que você produza esse raciocínio. A conexão entre essas proposições não é intuitiva. Ali é requerido um meio-termo (medium), o qual pode capacitar a mente a extrair uma tal inferência, se, de fato, ela pode ser extraída por raciocínio e argumento. Qual é esse meio-termo, eu preciso confessar, ultrapassa minha compreensão; e é incumbência daqueles que afirmam que ele realmente existe para o produzir, e é a origem de todas as nossas conclusões concernentes a questão de fato.
[41]Esse argumento negativo certamente deverá, no progresso do tempo, tornar-se completamente convincente, se muitos filósofos penetrantes e hábeis devam voltar suas investigações dessa maneira; e ninguém, alguma vez, será capaz de descobrir qualquer proposição conectora ou passo intermediário que suporte o entendimento nessa conclusão. Mas, como a questão é por hora nova, cada leitor pode não confiar até agora para sua própria penetração para concluir, que, porque um argumento escapa de sua investigação, portanto, ele não existe realmente. Por essa razão, pode ser necessária aventurar-se por uma tarefa mais difícil e, enumerando todos os ramos do conhecimento humano, esforçar-se por mostrar que nenhum deles pode proporcionar uma tal argumento.
Todos os raciocínios podem ser divididos em dois tipos, a saber, raciocínio demonstrativo, ou aquele concernente a relações de ideias; e raciocínio moral, ou aquele a respeito de questão de fato e existência. Que não haja argumentos demonstrativos no caso, parece evidente, uma vez que não implica contradições que o curso da natureza pode mudar, e que um objeto, aparentemente semelhante àqueles que nós experienciamos, pode ser acompanhado por efeitos diferentes ou contrários. Não posso eu, clara e distintamente, conceber que um corpo, caindo a partir das nuvens e o qual, em todos os outros aspectos, assemelha-se a neve, contudo, tenha gosto do sal ou a sensação do fogo? Há alguma proposição mais inteligível do que afirmar, que todas as árvores florescerão em dezembro e janeiro e decairão em maio e junho? Agora, o que quer que seja inteligível, e possa ser distintamente concebido, não implica contradição, e nunca pode ser provado falso por qualquer argumento demonstrativo ou raciocínio abstrato a priori.
Portanto, se nós estivermos engajados por argumentos a colocar confiança em experiências passadas, e torná-las o padrão de nosso julgamento futuro esses argumentos precisam ser apenas prováveis, [42]ou tais como relativos a questão de fato e existência real, de acordo com a divisão acima mencionada. Mas que não há argumento desse tipo, precisa aparecer, se nossa explicação daquela espécie de raciocínio for admitida como sólida e satisfatória. Nós temos dito que todos os argumentos a respeito da existência estão fundamentados na relação de causa e efeito; que nosso conhecimento dessa relação é inteiramente derivado a partir da experiência; e que todas as nossas conclusões experimentais procedem em consequência desta suposição, de modo que o futuro será conformável ao passado. Portanto, tentar a prova dessa última suposição por argumentos prováveis, ou argumentos que dizem respeito à existência, evidentemente precisa ser ir em um círculo, e tomar por garantido aquilo que é o ponto mesmo em questão.
Na realidade, todos os argumentos a partir da experiência são fundamentados sobre a similaridade que nós descobrimos em meio aos objetos naturais, e pela qual nós somos induzidos a esperar efeitos similares para aquelas que nós descobrimos se seguirem a partir de semelhantes objetos. E embora ninguém, senão um tolo ou louco, alguma vez pretenderá disputar a autoridade da experiência, ou rejeitar esse grande guia da vida humana, certamente pode ser reconhecido que um filósofo tem tanto curiosidade para, pelo menos, examinar o princípio da natureza humana que dá essa poderosa autoridade à experiência, e faz-nos extrair vantagem a partir daquela similaridade que a natureza colocou entre objetos diferentes. A partir de causas que parecem similares, nós esperamos efeitos similares. Essa é a soma de todas as nossas conclusões experimentais. Agora, parece evidente que, se essa conclusão fosse formada pela razão, ela seria inicialmente tão perfeita, e em consequência de uma instância, como para sempre depois um curso da experiência: mas o caso é muito diferente. Nada é tão semelhante quanto ovos; contudo, ninguém, por causa de sua similaridade, espera o mesmo gosto e satisfação em todos eles. É [43]apenas após um longo curso de experimentos uniformes de qualquer tipo que nós obtemos uma confiança e segurança firmes com respeito a um evento particular. Agora, onde é que o processo de raciocínio, o qual, a partir de uma instância, extrai uma conclusão tão diferente daquela que ele infere a partir de uma centena de instância que não são, de maneira nenhuma, diferentes daquela única? Essa questão eu proponho, tanto por causa da informação, quanto com uma intenção de levantar dificuldades. Eu não posso descobrir, eu não posso imaginar, nenhum raciocínio semelhante. Mas eu ainda mantenho minha mente aberta à instrução, se qualquer um se dignará a concedê-la a mim.
Deveria ser dito que, a partir de um número de experimentos uniformes, nós inferimos uma conexão entre as qualidades sensíveis e os poderes secretos, isso, eu preciso confessar, parece a mesma dificuldade, expressa em termos diferentes. A questão ainda ocorre, Sobre que processo de argumento essa inferência está fundamentada? Onde está o meio-termo, as ideias interpostas, que unem proposições tão muito distantes umas das outras? É confessado que a cor, consistência e outras qualidades sensíveis do pão não parecem ter, elas mesmas, qualquer conexão com os poderes secretos de nutrição e suporte: pois, de outra maneira, nós poderíamos inferir esses poderes secretos a partir do primeiro aparecimento dessas qualidades sensíveis, sem o auxílio da experiência, contrário ao sentimento de todos os filósofos, e contrário à simples questão de fato. Aqui então está nosso estado natural de ignorância com respeito aos poderes e influência de todos os objetos. Como isso é remediado pela experiência? Ela apenas nos revelar um número de efeitos uniformes resultantes de certos objetos e ensina-nos que esses objetos particulares, naquela ocasião particular, eram dotadas de tais poderes e forças. Quando um novo objeto, dotado de qualidades sensíveis similares, é produzido, nós esperamos poderes e forças similares e procuramos por um efeito semelhante. [44]A partir de um corpo de cor e consistência semelhantes às do pão, nós esperamos uma nutrição e suporte similares. Mas esse certamente é um passo ou progresso da mente que carece de ser explicado. Quando um homem diz, Eu descobri, em todas as instâncias passadas, tais qualidades sensíveis combinadas com tais poderes secretos; e quando ele diz, semelhantes qualidades sensíveis sempre serão combinadas com similares poderes secretos; ele não é culpado de uma tautologia, nem são essas proposições, em qualquer aspecto, a mesma. Você diz que uma proposição é uma inferência a partir da outra: mas você precisa confessar que a inferência não é nem intuitiva, nem demonstrativa. Então, de que natureza ela é? Dizer que ela é experimental é petição de princípio (begging the question). Pois todas as inferências a partir da experiência supõem, como seu fundamento, que o futuro se assemelhará ao passado, e que poderes similares estarão combinados com qualidades sensíveis similares. Se houvesse qualquer suspeita de que o curso da natureza pudesse mudar, e de que o passado não pudesse ser regra para o futuro, toda a experiência torna-se inútil e não pode dar origem a nenhuma inferência ou conclusão. Portanto, é impossível que qualquer argumento a partir da experiência possa provar essa semelhança do passado com o futuro: uma vez que todos esses argumentos estão fundamentados sobre a suposição daquela semelhança. Que o curso das coisas, até agora sempre tão regular, seja permitido, sem algum novo argumento ou inferência, não mais provar que o futuro continuará assim. Em vão você pretenderá ter aprendido a natureza dos corpos a partir de suas experiências passadas. A natureza secreta delas e, consequentemente, todos os seus efeitos e influência, podem mudar, sem qualquer mudança em suas qualidades sensíveis. Isso algumas vezes acontece, com respeito a alguns objetos: por que não pode acontecer sempre, e com respeito a todos os objetos? Que lógica, que processo de argumento assegura você contra essa suposição? Minha prática, você diz, [45]refuta minhas dúvidas. Mas você interpreta erradamente o propósito da minha questão. Como um agente, eu estou bastante satisfeito na questão; mas como um filósofo, quem tem algum quinhão de curiosidade, eu não direi de ceticismo, eu quero conhecer o fundamento dessa inferência. Nenhuma leitura, nenhuma investigação, até agora, foi capaz de remover minha dificuldade, ou satisfazer-me em uma questão de tanta importância. Posso eu fazer melhor do que propor a dificuldade ao público, mesmo embora, talvez, eu tenha pequenas esperanças de obter uma solução? Pelo menos, nós devemos, por esse meio, ficar sensíveis de nossa ignorância, se nós não aumentarmos nosso conhecimento.
Eu preciso confessar que um homem é culpado de arrogância imperdoável, quem conclui, porque um argumento escapou a sua própria investigação, que, portanto, ele não existe realmente. Eu também preciso confessar que, embora todos os instruídos, por várias épocas, devem ter empregado a si mesmos em busca infrutífera sobre qualquer assunto, ainda pode ser, talvez, precipitado concluir positivamente que o assunto portanto deva ultrapassar toda a compreensão humana. Apesar de nós examinemos todas as fontes de nosso conhecimento e concluí-las impróprias para um tal assunto, ali ainda pode permanecer uma suspeita de que a enumeração não esteja completa, ou o exame, não preciso. Mas com respeito ao assunto presente, há algumas considerações que parecem remover toda essa acusação de arrogância ou suspeita de erro.
É certo que os mais ignorantes e estúpidos camponeses, ou melhor, infantes, ou melhor, mesmo feras brutas, melhoram por experiência e aprendem as qualidades de objetos naturais observando os efeitos que resultam a partir deles. Quando uma criança sentiu a sensação de dor a partir do toque em uma chama de uma vela, ela será cuidadosa para não colocar sua mão próxima de qualquer vela, apenas esperará um efeito similar de uma causa que é similar em suas qualidades e aparência sensível. [46]Portanto, se você afirmar que o entendimento da criança é levado a essa conclusão por qualquer argumento ou raciocínio, eu justamente posso requerer a você para produzir esse argumento; nem tem você qualquer pretensão de recusar uma demanda tão justa. Você não pode dizer que o argumento é obscuro, e pode possivelmente escapar da sua investigação, desde que você confesse que é óbvio para a capacidade de um mero infante. Portanto, se você hesitar um momento, ou se, após reflexão, você produzir um argumento intrincado e profundo, você, de uma maneira, desiste da questão e confessa, que não é o raciocínio que nos empenha a supor o passado assemelhando-se ao futuro e esperar efeitos similares a partir de causas que são aparentemente similares. Essa é a proposição que eu pretendi aplicar na presente secção. Se eu estiver certo, eu não pretendo ter feito nenhuma descoberta poderosa. E se eu estiver errado, eu preciso reconhecer que mesmo sou de fato um letrado apalermado, uma vez que, agora, eu não posso descobrir um argumento que, parece, era perfeitamente familiar para muito antes que eu estivesse fora de meu berço.
ORIGINAL:
HUME, D. An Inquiry concerning Human Understanding. IN:______. The Philosophical Works of David Hume. Volume IV. Boston: Little, Brown and Company; Edinburgh, Adam and Charles Black, 1854. p.30-46. Disponível em: <https://archive.org/details/philosophicalworks04humerich/page/30/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1 A palavra Poder é usada aqui em um sentido vago e popular. A explicação mais precisa dele daria evidência adicional para esse argumento. Ver Seção vii.
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