sábado, 16 de abril de 2022

Leviatã V Da Razão e Ciência

Leviatã, ou A Matéria, Forma e Poder de uma Comunidade Eclesiástica e Civil.


Por Thomas Hobbes


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Parte I Do Homem


[29]Capítulo V Da Razão e Ciência


Quando um homem raciocina, ele nada mais faz que conceber uma soma total, a partir da adição de parcelas; ou conceber um resto, a partir da subtração de uma soma de outra; o que, se for feito por palavras, é a concepção da consequência dos nomes de todas as partes, para o nome do todo; ou do nome do todo e de uma parte, para o nome de outra parte. E embora em algumas coisas, como em números, além de adição e subtração, os homens nomeiam outras operações, como multiplicação e divisão, contudo, elas são as mesmas; pois a multiplicação é apenas adição de coisas iguais; e a divisão, apenas subtração de uma coisa, tão frequentemente como nós podemos. Essas operações não são próprias aos números apenas mas a todos os tipos de coisas que podem ser adicionados e tiradas uma da outra. Pois como [30]os aritméticos ensinam a adicionar e subtrair em números, igualmente os geômetras ensinam o mesmo em linhas, figuras, sólidas e superficiais, ângulos, proporções, tempos, graus de velocidade, força, potência, e semelhantes; os lógicos ensinam o mesmo quanto a consequências de palavras; adição de dois nomes para formar uma afirmação, e de duas afirmações para formar um silogismo; e de muitos silogismos para formar uma demonstração; e, a partir da soma, ou conclusão, de um silogismo, ele subtraem uma proposição para encontrar outra. Escritores em política, a adicionar pactos (pactions) para encontrar os deveres (duties) dos homens; e advogados, leis e fatos, para descobrir o que é certo e errado nas ações de homens privados. Em suma, em qualquer assunto que haja lugar para adição e subtração, também há lugar para razão; e onde as primeiras não têm lugar, a razão não tem absolutamente nada a fazer.

A partir de tudo isso nós podemos definir, quer dizer, determinar, o que é isso que é significado por esta palavra razão, quando nós a consideramos em meio às faculdades da mente. Pois a RAZÃO, nesse sentido, nada é senão o cômputo (reckoning), quer dizer, adição e subtração das consequências dos nomes gerais acordados para a marcação e significação de nossos pensamentos; eu digo marcação deles, quando nós consideramos por nós mesmos, e significação, quando nós demonstramos ou aprovamos os cômputos (reckoning) para outros homens.

E, como em aritmética, homens sem prática devem, e professores mesmo podem, frequentemente, errar, e calcular (cast up) falsamente; assim também, em qualquer outro assunto de raciocínio, os homens mais hábeis, mais atentos e mais experimentados podem enganar a si mesmos, e inferir falsas conclusões; não que a razão em si mesma seja sempre razão correta, assim como a aritmética é arte certa e infalível: [31]mas a razão de nenhum homem, nem a razão de qualquer número de homens, cria a certeza; não mais que uma é explicação é assim bem calculada (well cast up), porque muitos grandes homens por unanimidade a aprovaram. E portanto, como quando há uma controvérsia em uma explicação, as partes devem, por seu próprio acordo, estabelecerem, por reta razão, a razão de algum árbitro, ou juiz, a sentença de quem elas ambas sustentam, ou a controvérsia deles precisa, ou chegar aos socos, ou ficar indecisa, por falta de uma razão correta constituída por natureza; assim também é em todos os debates, de qualquer tipo que sejam. E quando os homens que se consideram mais sábios que todos os outros clamam e demandam a razão correta por juiz, contudo, não buscam mais senão que as coisas devam ser determinadas pela razão de nenhum outro homem senão a deles própria, [isso] é tão intolerável na sociedade de homens, como é no jogo depois que o trunfo é virado, para usar por trunfo em cada ocasião aquele conjunto do qual eles têm a maior parte nas mãos deles. Pois eles não fazem nada senão que permitirão a cada uma das paixões deles, conforme ela chegue a comportar controle sobre eles, a ser tomada por razão correta, e isso nas próprias controvérsias deles: revelando a carência deles de razão correta, pela alegação que colocam nela.

O uso e fim da razão, não é encontrar a soma e verdade de uma ou umas poucas consequências, distantes das primeiras definições, e significações estabelecidas de nomes, mas começar por essas e proceder de uma consequência para outras. Pois não pode haver certeza da última conclusão sem a certeza de todas aquelas afirmações e negações, sobre as quais aquela foi fundamentada e inferida. Como quando um mestre de uma família, ao realizar um cálculo, calcula (casteth up) as somas de todas as contas da despesa em uma soma, [32]e não considerando como cada conta é somada, por aqueles que lhes deram em conta; nem o que é para ele pagar; ele não mais beneficia a si mesmo do que se ele tivesse admitido o cálculo em bruto, confiando na habilidade e honestidade de todos os contadores: assim também no raciocínio de todas as outras coisas, aquele que emprega conclusões a partir da confiança em autores, e não as alcança a partir dos primeiros itens de cada cômputo (reckoning), os quais são as significação dos nomes estabelecidos por definições, perde seu labor; e não conhece nada, apenas acredita.

Quando um homem conta (reckons) sem o uso de palavras, o que pode ser feito em coisas particulares, como quando, em consequência da visão de qualquer coisa, nós conjecturamos o que é provável de ter acontecido, ou é provável de se seguir em consequência disso; se aquilo que nós consideramos provável de se seguir, não se seguiu, ou, se aquilo que nós consideramos provável de ter acontecido, não aconteceu, isso é chamado de erro; ao que mesmo os mais pudentes homens estão sujeitos. Mas, quando nós raciocinamos em palavras de significação geral, caímos sobre uma inferência geral que é falsa, embora isso seja comumente chamado de erro, é, de fato uma absurdidade, ou discurso sem sentido (senseless speech). Pois o erro é apenas uma decepção, ao presumir-se que alguma coisa se passou ou [que] está por vir; da qual, embora não fosse passada, ou por vir, contudo, não era impossibilidade detectável. Mas, quando nós fazemos uma afirmação geral, a menos que ela seja verdadeira, a possibilidade é inconcebível. E palavras através das quais nós não concebemos nada senão o som, são aquelas que nós chamamos de absurdas, insignificantes e sem sentido. E portanto, se um homem devesse falar para mim sobre um quadrângulo redondo; ou, acidentes do pão no queijo; ou substâncias imateriais; ou, de um sujeito livre; uma livre arbítrio; ou [33]algo livre, mas livre de ser embaraçado por oposição, eu deveria não dizer que ele estava no erro, mas que as palavras dele eram sem sentido, quer dizer, absurdas.

Eu disse antes, no segundo capítulo, que um homem ultrapassa todos os outros animais nesta faculdade, que, quando ele concebeu qualquer coisa que fosse, ele estava apto a inquirir as consequências dela, e que efeitos ele podia produzir com ela. E agora eu adiciono este outro grau da mesma excelência, para que ele possa, por palavras, reduzir as consequências que ele encontrar a regras gerais, chamadas de teoremas, ou de aforismos; quer dizer, ele pode raciocinar, não apenas sobre números, mas sobre todas as outras coisas, às quais algo pode ser adicionado ou subtraído de.

Mas esse privilégio é suavizado por outro; e que é pelo privilégio da absurdidade; ao qual nenhuma criatura viva está sujeita, apenas o homem. E dos homens, aqueles dentre todos mais sujeitos a isso [são] aqueles que professam filosofia. Pois é o mais verdadeiro aquilo que Cicero disse deles em algum ponto; que não pode haver nada tão absurdo que não possa ser encontrado nos livros de filósofos. E a razão é manifesta. Pois não há nenhum deles que comece seu raciocínio a partir das definições, ou explicações dos nomes que eles estão para usar; o que é um método que tem sido usado apenas na geometria; cujas conclusões por esse meio foram tornadas indisputáveis.

I. A primeira causa de conclusões absurdas eu atribuo à falta de método; na qual elas não começam seus raciocínios a partir de definições: isto é, a partir de significações estabelecidas de suas palavras: como se elas pudessem contabilizar (cast account) sem conhecimento do valor das palavras numéricas, um, dois e três.

[34]E visto que todos os corpos entram em consideração em consequência de considerações diversas, as quais eu mencionei no capítulo precedente; essas considerações sendo diversamente nomeadas, absurdidades diversas prosseguem a partir da confusão, e conexões impróprias de seus nomes em asserções. E portanto,

II. A segunda causa de afirmações absurdas, eu atribuo à doação de nomes de corpos a acidentes; ou de acidentes a corpos; como fazem aqueles que dizem, a fé é infundida, ou inspirada; quando nada pode ser derramado (poured), ou respirado (breathed) dentro de coisa alguma, senão o corpo; e que, a extensão é corpo; que fantasmas são espíritos, etc.

III. A terceira eu atribuo à doação dos nomes dos acidentes de corpos fora de nós, a acidentes de nossos próprios corpos; como fazem aqueles que dizem, a cor está no corpo; o som está no ar, etc.

IV. A quarta, à doação dos nomes de corpos a nomes ou discursos; como fazem aqueles que dizem que há coisas universais; que uma criatura viva e gênero, ou uma coisa geral, etc.

V. A quinta, a doação de nomes de acidentes a nomes e discursos; como fazem aqueles que dizem, a natureza de uma coisa é sua definição; o comando do homem é sua vontade; e semelhantes.

VI. A sexta, é o uso de metáforas, tropos e outras figuras retóricas, em vez de palavras adequadas. Pois, embora seja legítimo dizer, por exemplo, no discurso comum, o caminho vai (the way goeth), ou leva para cá (leadeth hither), ou para lá (thither); o provérbio diz isto ou aquilo (the proverb says this or that), visto que caminhos não podem ir, nem provérbios falar; contudo, cômputo (reckoning), e na busca da verdade, tais discursos não devem ser admitidos.

VII. A sétima, a nomes que nada significam; [35]mas são aceitos e aprendidos pela raiz a partir das escolas, como hipostático (hypostatical), transubstanciar (transubstantiate), consubstanciar (consubstantiate), agora eterno (eternal-now), e desvios semelhantes de escolásticos.

Para aquele que consegue evitar essas coisas, não é fácil cair em qualquer absurdidade, a menos que seja pela extensão de uma explicação (account); na qual ele talvez possa se esquecer do que veio antes. Pois todos os homens por natureza raciocinam semelhantemente, e bem, quando eles têm bons princípios. Pois quem é tão estúpido, como tanto se enganar em geometria, como também persistir [no erro] quando outro denuncia o erro dele para ele?

Através disso parece que a razão não é, como o sentido e a memória, nascida conosco; nem recebida por experiência, como é a prudência; mas alcançada por indústria; primeiro, na imposição adequada de nomes; e, em segundo lugar, recebendo um método bom e ordenado para prosseguir a partir dos elementos, que são os nomes, para afirmações formadas pela conexão de um dele a outro; e assim para os silogismos, os quais são as conexões de uma afirmação com outra, até que nós cheguemos ao conhecimento de todas as consequências dos nomes relativos ao assunto em mãos; e que é isso que os homens chamam de CIÊNCIA. E, considerando que o sentido e a memória são apenas conhecimento de fato, que é uma coisa passada e irrevogável. A ciência é o conhecimento de consequências, e da dependência de um fato sobre outro: pela qual, a partir do que nós atualmente podemos fazer, nós sabemos como fazer alguma outra coisa quando nós desejarmos, ou a mesma, em outra ocasião; porque, quando nós observamos como alguma coisa acontece, em consequência de quais causas, e por qual modo; quando causas semelhantes chegam em nosso poder, nós vemos como as fazer produzirem efeitos semelhantes.

Portanto, as crianças não são dotadas de razão [36]de qualquer maneira, até que elas tenham obtido o uso do discurso (speech); mas são chamadas de criaturas racionais (reasonable creatures) pela possibilidade aparente de terem o uso da razão no tempo vindouro. E a maior parte dos homens, embora eles tenham um pouco o uso do raciocínio, como em numeração até algum grau; contudo, isso lhes serve pouco na vida comum; na qual eles governam a si mesmos, alguns melhor, alguns pior, de acordo com suas diferenças de experiência, rapidez de memória, e inclinações a vários fins; mas especialmente, de acordo com a boa ou má fortuna, e os erros de outros. Pois, quanto a ciência, ou regras certas para suas ações, eles estão tão distantes dela, que eles nem sabem o que ela é. A geometria eles têm considerado conjurando; mas, quanto às outras ciências, aqueles que não foram ensinados os começos e algum progresso nelas, para que eles possam ver como elas são adquiridas e geradas, são, nesse ponto, como crianças, que, não tendo pensamento da geração, são feitos acreditar por suas mães que seus irmãos e irmãs não são nascidos, mas encontrados no jardim.

Contudo, aqueles que não têm ciência, estão em condição melhor e mais nobre, com sua prudência natural; do que homens que, por raciocínio errado, ou por acreditarem naqueles que raciocinam errado, caem sob falsas e absurdas regras gerais. Pois a ignorância das causas, e das regras, não coloca os homens tão distantes de seu caminho quanto a dependência de regras falsas e a aceitação por causas, do que eles aspiram, daquelas que não são assim, mas antes causas do contrário.

Para concluir, a luz das mentes humanas são as palavras claras, mas, primeiramente, por definições exatas extintas e limpas de ambiguidade; a razão é o passo; o aumento da ciência, o caminho; e o benefício [37]do gênero humano, o fim. E, pelo contrário, metáforas e palavras sem sentido e ambíguas, são como ignes fatui; e o raciocínio baseado nelas é errância em meio a inumeráveis absurdidades; e o fim delas, disputa e sedição, ou desobediência.

Como muita experiência é prudência; assim, muita ciência é sapiência. Pois, embora nós tenhamos um nome de sabedoria para ambas, contudo, os latinos sempre distinguem entre prudentia e sapientia, atribuindo a primeira à experiência, a segunda, à ciência. Mas, para fazer a diferença entre elas aparecer mais claramente, suponhamos um homem dotado de um excelente uso natural e destreza no manejo de seus braços; e outro que adicionou àquela destreza uma ciência adquirida, de onde ele pode machucar, ou ser machucado por seu adversário em qualquer postura ou guarda possíveis: a habilidade do primeiro, estaria para a habilidade do segundo, como a prudência para a sapiência; ambas úteis; mas a segunda, infalível. Mas aqueles que confiam apenas na autoridade de livros, seguem cegamente o cego, são como aquele que, confiando em falsas regras de um mestre de esgrima (fence) aventura-se presunçosamente sobre um adversário, que, ou mata ou desgraça-o.

Os sinais da ciência são alguns, certos e infalíveis; alguns, incertos. Certos, quando aquele que persevera na ciência de qualquer coisa, pode ensinar a mesma; isso quer dizer, demonstrar claramente a verdade dela para outro; incertos, quando apenas alguns eventos particulares respondem à pretensão dele e, em consequência de muitas ocasiões, prova assim como ele diz que elas devem. Os sinais de prudência são todos incertos; porque nós observamos pela experiência, e lembrar-se de todas as circunstâncias que podem alterar o sucesso é impossível. [38]Mas em qualquer atividade na qual um homem não tem ciência infalível pela qual proceder; para abandonar seu próprio julgamento natural, e ser guiados pelas sentenças gerais lidas em autores, e sujeito a muitas exceções, é um sinal de insensatez e geralmente desdenhado com o nome de pedantice. E até aqueles homens mesmos, que em conselhos da comunidade [política] amam exibir sua leitura de política e história, muitos poucos fazem-no em seus assuntos domésticos, onde se diz respeito aos interesses particulares deles: mas em público eles tomam mais em consideração a reputação de sua própria inteligência do que o sucesso da atividade de outro.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

HOBBES, T. Leviathan, or the Matter, Form, and Power of a Commonwealth Ecclesastical and Civil. IN: ______. The English Works of Thomas Hobbes of Malmesbury. Volume III. London, Scientia Allen, 1962 (Reprint of the Edition 1839). p. 29-38. Disponível em: <https://archive.org/details/englishworksofth0003hobb/page/29/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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