domingo, 1 de maio de 2022

Leviatã VI Dos Começos Interiores dos Movimentos Voluntários; Comumente Chamado de as Paixões; e os Discursos pelos quais Elas são expressas

Leviatã, ou A Matéria, Forma e Poder de uma Comunidade Eclesiástica e Civil.


Por Thomas Hobbes


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Parte I Do Homem


[38]Capítulo VI Dos Começos Interiores dos Movimentos Voluntários; Comumente Chamado de as Paixões; e os Discursos pelos quais Elas são expressas


Há em animais dois tipos de movimentos peculiares a eles: um chamado de vital; iniciado na geração e continuado, sem interrupção, através de toda a vida inteira deles; tais como são o curso do sangue, o pulso, a respiração, a digestão (concoction), a nutrição, excreção, etc, movimentos para os quais não há necessidade de ajuda da imaginação: o outro é o movimento animal, de outra maneira chamado de movimento voluntário; como andar, falar, mover qualquer de nossos membros, de maneira tal como primeiramente imaginada em nossas mentes. Esse sentido é o movimento nos órgãos e nas partes interiores do corpo do homem, causado pela ação das coisas que nós vemos, ouvimos, etc; e essa imaginação é apenas a relíquia do [39]mesmo movimento, permanecendo após o sentido, já foi dito no primeiro e segundo capítulos. E porque andar, falar, e movimentos semelhantes, sempre dependem de um pensamento anterior de para onde, qual caminho e o que; é evidente que a imaginação é o primeiro começo interno de todo movimento voluntário. E embora homens não estudados não concebam absolutamente qualquer movimento ocorrer ali, onde a coisa movida é invisível; ou o espaço no qual ela é movida é, pela pequeneza dele, insensível; ainda assim isso contudo não impede que movimentos semelhantes existam. Pois seja um espaço nunca tão pequeno, aquele que é movido através de um espaço maior, do qual aquele pequeno é parte, primeiramente precisa ser movido através dele. Esses pequenos começos de movimento, no interior do homem, antes que eles apareçam na caminhada, fala, impressão, e outras ações visíveis, são comumente chamados de ESFORÇO (ENDEAVOUR).

Esse esforço (endeavour), quando é em direção a algo que o causa, é chamado de APETITE ou DESEJO; o segundo sendo o nome geral; e o outro frequentemente restrito a significar o desejo de comida, a saber, fome (hunger) e sede (thirst). E quando o esforço (endeavour) é avesso a alguma coisa, ele geralmente é chamado de AVERSÃO. Essas palavras, apetite e aversão, nós recebemos dos latinos; e ambas significam os movimentos, um de aproximação, o outro de afastamento. Assim também significam as palavras gregas para os mesmos, as quais são orme (ρμἡ) e aphorme (ἀφορμὴ). Pois a natureza mesma frequentemente força sobre os homens essas verdades, nas quais, mais tarde, quando eles procuram alguma coisa além da natureza, eles tropeçam. Pois as Escolas consideram o mero apetite para andar, ou se mover, [não ser] absolutamente nenhum movimento: mas porque algum movimento elas devem reconhecer, [40]elas chamam-no de movimento metafórico; o que é apenas discurso absurdo; pois, embora as palavras possam ser chamadas de metafóricas, corpos e movimentos não podem.

Aquilo que os homens desejam, também se diz que eles têm AMOR: e ODIAR aquelas coisas pelas quais eles têm aversão. De modo que desejo e amor são a mesma coisa; salvo que, por desejo, nós sempre significamos a ausência do objeto; por amor, mais comumente, a presença do mesmo. Assim também, por aversão, nós significamos a ausência; e por ódio, a presença do objeto.

Dos apetites e aversões, alguns são nascidos com os homens; como o apetite de comida, apetite de excreção e exoneração, os quais também podem e mais propriamente são chamados de aversões, a partir de alguma coisa que eles sentem em seus corpos; e alguns outros apetites, não muitos. O restante, os quais são apetites de coisas particulares, começam a partir da experiência e julgamento de seus efeitos sobre eles mesmos e outros homens. Pois, das coisas que nós não conhecemos absolutamente nada, ou [que] acreditamos não existirem, nós não podemos ter nenhum desejo adicional, senão o de provar e experimentar. Mas aversão nós temos a coisas, não apenas àquelas que nós sabemos que nos machucaram, mas também [àquelas] que nós não sabemos se elas nos machucarão ou não.

Aquelas coisas que nós nem desejamos, nem odiamos, diz-se que temos desdém (contemn); o DESPREZO (CONTEMPT) sendo nada mais senão uma imobilidade, ou contumácia de coração, na resistência à ação de certas coisas; e originando-se a partir de que o coração já é movido de outra maneira, por outros objetos mais potentes; ou a partir da falta de experiência deles.

E porque a constituição do corpo de um homem está em mudança contínua, é impossível que todas as mesmas coisas sempre devam causar nele os mesmos [41]apetites e aversões: muito menos podem todos os outros homens concordarem com o desejo de quase qualquer um e o mesmo objeto.

Mas o que quer que seja o objeto do apetite ou desejo de qualquer homem, isso é o que ele, por sua parte, chama de bem: e o objeto de seu ódio e aversão, mal; e o de seu desprezo (contempt), vil e insignificante (inconsiderable). Pois essas palavras de bem, mal e desprezível (contemptible) são sempre usadas com relação à pessoa que as usa: não havendo nada simples e absolutamente assim; nem qualquer regra comum de bem e mal, a ser recebida a partir da natureza dos objetos mesmos; mas a partir da pessoa do homem, onde não há comunidade [política]; ou, em uma comunidade [política], a partir da pessoa que o representa; ou a partir de um árbitro ou juiz, a quem os homens em desacordo devem, por consentimento, estabelecer, e fazer de sua sentença a regra disso.

A língua latina tem duas palavras, cujas significações aproximam-se daquelas de bem e mal; mas não são precisamente as mesmas; e aquelas são pulchrum e turpe. A primeira das quais significa aquilo que, por alguns sinais aparentes, promete o bem; e a segunda, aquilo que promete o mal. Mas em nossa língua nós não temos nomes tão gerais pelos quais as expressar. Mas por pulchrum nós dizemos em algumas coisas, justo (fair); em outras, bonito (beautiful), ou belo (handsome), ou galante, ou honroso, ou atraente (comely), ou amável (amiable); e por turpe, imundo (foul), deformado, feio, baixo, nauseabundo (nauseous), e semelhantes, conforme o assunto requer; todas essas palavras, em seus lugares apropriados, nada significam senão o aspecto (mien), ou semblante (countenance), que promete bem e mal. De maneira que existe bem de três tipos; bem na promessa, que é pulchrum; bem no efeito, como fim desejado, o qual é chamado de jucundum, [42]encantador (delightful); e bem como meio, o qual é chamado de útil, proveitoso (profitable); e tantos de mal: pois mal na promessa é chamado de turpe; mal no efeito, e fim, é molestum, desagradável (unpleasant), perturbador (troublesome); e mal no meio, inútil, desvantajoso (unprofitable), prejudicial (hurtful).

Como, ao sentir, isso que está realmente conosco, é, como eu disse antes, apenas movimento, causado pela ação de objetos externos, apenas em aparência; para a visão, luz e cor; para o ouvido, som; para a narina, odor, etc; assim, quando a ação do mesmo objeto é continuada dos olhos, ouvidos, e outros órgão para o coração, o efeito real é que não há nada senão movimento ou esforço (endeavour); o qual consiste em apetite, ou aversão, pelo ou a partir do objeto movente. Mas a aparência, ou sentido desse movimento, é aquilo que nós chamamos de deleite ou de incômodo da mente (trouble of mind).

Esse movimento, que é chamado de apetite e, pela aparência dele, deleite (delight) e prazer, parece ser uma corroboração do movimento vital, e uma ajuda para ele; e portanto tais coisas como deleite causado, não fossem impropriamente chamadas de jucunda, à juvando, a partir de ajuda (helping) ou fortificante (fortifying); e o contrário, molesta, ofensivo, a partir de dificultando ou perturbando o movimento vital.

Portanto, prazer ou deleite, é a aparência, ou sensação do bem; e molestamento, ou descontentamento, a aparência, ou sensação, do mal. E consequentemente, todo apetite, desejo e amor é acompanhado de algum deleite, mais ou menos; e todo ódio e aversão, com mais ou menos de descontentamento e ofensa.

Dos prazeres ou deleites, alguns surgem a partir do sentido de um objeto presente; e esse podem ser chamados de prazer do sentido; a palavra sensual, como ela é usada por aqueles que apenas lhes condenam, não tem lugar até que existam leis. Desse tipo são todas as onerações [43]e exonerações do corpo; como também tudo que é prazeroso na vista, audição, cheiro, gosto ou toque. Outros surgem a partir da expectativa que procede da previsão do fim ou da consequência das coisas; quer essas coisas no sentido agradem quer desagradem. E esses são os prazeres da mente daquele que extrai essas consequências e são geralmente chamados de ALEGRIA (JOY). De maneira semelhante, os desprazeres estão no sentido e são chamados de DOR (PAIN); outros, na expectativa das consequências, e são chamados de PESAR (GRIEF).

Estas simples paixões chamadas de apetite, desejo, amor, aversão, ódio, alegria e pesar (grief) têm seus nomes diversificados por várias considerações. Como, primeiro, quando [entre] elas uma sucede à outra, elas são diversamente chamados a partir da opinião que os homens têm da probabilidade de obterem o que eles desejam. Segundo, a partir do objeto amado ou odiado. Terceiro, a partir da consideração de muitas deles juntas. Quarto, a partir da alteração ou sucessão mesma.

Pois, apetite com uma opinião de obtenção é chamado de ESPERANÇA.

O mesmo, sem semelhante opinião, DESESPERO.

Aversão, com opinião de DANO a partir do objeto, MEDO.

O mesmo, com esperança de evitar esse dano através de resistência, CORAGEM.

Coragem súbita, IRA.

Esperança constante, CONFIANÇA em nós mesmos.

Desespero constante, DESCONFIANÇA de nós mesmos.

Ira por grande dano feito a outro, quando nós consideramos o mesmo feito para machucar, INDIGNAÇÃO.

Desejo de bem para outro, BENEVOLÊNCIA, BOA VONTADE, CARIDADE. Se ao homem em geral, BOA NATUREZA.

[44]Desejo de riquezas, COBIÇA (COVETOUSNESS); um nome usado sempre em significação de culpa (blame); porque os homens disputando por elas ficam descontentes com algum outro as obtendo; embora o desejo em si mesmo deva ser culpado, ou admitido, de acordo com os meios pelos quais essas riquezas são buscadas.

Desejo de cargo público (office), ou precedência, AMBIÇÃO: um nome também usado no pior sentido, pela razão antes mencionada.

Desejo de coisas que conduzem apenas a pouco de nossos fins, e medo de coisas que são apenas um pequeno impedimento, PUSILANIMIDADE.

Desprezo de pequenas ajudas e impedimentos, MAGNANIMIDADE.

Magnanimidade, em perigo de morte ou ferimentos, VALOR, FORTITUDE.

Magnanimidade no uso de riqueza, LIBERALIDADE.

Pusilanimidade no mesmo, INFELICIDADE (WRETCHEDNESS), MISERABILIDADE, ou PARCIMÔNIA, conforme ela seja apreciada ou desprezada.

Amor de pessoas pela sociedade, GENTILEZA.

Amor de pessoas para agradar o sentido apenas, LUXÚRIA NATURAL.

Amor do mesmo, adquirido a partir de ruminação, quer dizer, imaginação do prazer passado, INTEMPERANÇA (LUXURY).

Amor de alguém singularmente, com o desejo de ser singularmente amado, A PAIXÃO DO AMOR. O mesmo, com o temor de que o amor não seja mútuo, CIÚME (JEALOUSY).

Desejo de, ao causar dano a outro, fazê-lo condenar algum fato de si próprio, VINGANÇA (REVENGEFULNESS).

Desejo de conhecer o porquê e o como, CURIOSIDADE; tal desejo não existe em nenhuma criatura viva senão no homem: de modo que o homem é distinguido dos outros animais, não apenas por sua razão, mas também por essa paixão singular; em quem o apetite de comida e outros prazeres do [45]sentido, por predominância, tiram o cuidado pelo conhecimento das causas; o qual é uma luxúria da mente, que, por uma perseverança do deleite na geração contínua e infatigável de conhecimento, excede a veemência breve de qualquer prazer carnal.

Medo de poder invisível, simulado pela mente, ou imaginado a partir de contos publicamente permitidos, RELIGIÃO; não permitidos, SUPERSTIÇÃO. E quando o poder imaginado é realmente tal como imaginamos, VERDADEIRA RELIGIÃO.

Medo, sem a apreensão do porquê, do quê, TERROR PÂNICO, chamado assim nas fábulas, que fazem de Pan o autor deles; ao passo que, em verdade, sempre existe nele aquilo dessa maneira temido, primeiro, alguma apreensão da causa, embora o resto escape por exemplo, cada um supondo seu companheiro conhecer o porquê. E portanto essa paixão não acontece a ninguém senão em uma multidão, ou multitude de pessoas.

Alegria, a partir da apreensão de novidade, ADMIRAÇÃO; própria do homem, porque ela excita o apetite de conhecer a causa.

Alegria, surgindo a partir da imaginação do próprio poder e habilidade de um homem, é aquela exultação da mente que é chamada de GLORIFICAÇÃO: a qual, se fundamentada sobre a experiência de suas próprias antigas ações, é o mesmo que confiança: mas, se fundamentada na bajulação de outros; ou suposta por si mesmo, para o deleite nas consequências dela, é chamada de VANGLÓRIA; nome o qual é devidamente dado; porque uma confiança bem fundamentada produz esforço; enquanto que a suposição de poder não, e portanto é corretamente chamada de .

Pesar (Grief), a partir da opinião do desejo de poder, é chamada de DESÂNIMO da mente.

A vanglória que consiste na simulação [46]ou suposição de habilidades em nós mesmos, as quais nós não conhecemos, é mais incidente em homens jovens, e nutridas pelas histórias, ou ficções de pessoas galantes; e, frequentemente, é corrigida pela idade e ocupação.

Glória súbita é a paixão que produz aqueles trejeitos chamados de RISADA: e é causada ou por um ato súbito de si próprio, que lhe agrada; ou pela apreensão de alguma coisa deformada em outra, por comparação ao que ele subitamente aplaude a si mesmo. E é incidental na maior parte daqueles que estão consciente das menores habilidades em si mesmos; quem se forçaram a manterem-se em seu próprio favor, ao observarem as imperfeições de outros homens. E portanto, muita risada diante dos defeitos de outros é um sinal pusilanimidade. Pois das grandes mentes, uma das obras apropriadas é ajudar e livrar outros de desdém; e comparar a si mesmas apenas com o mais capaz.

Pelo contrário, desânimo súbito, é a paixão que causa CHORO; e é causada por tais acidentes conforme tiram alguma esperança veemente, ou algum esteio do poder deles: e aqueles que estão mais sujeitos a isso, que dependem principalmente de ajuda externa, [são] tais como mulheres e crianças. Portanto, algumas lágrimas pela perda de amigos; outras por pela indelicadeza deles; outras pela parada súbita feita a seus pensamentos de vingança, por reconciliação. Mas em todos os casos, tanto de risada quanto de choro, são movimentos súbitos; o costume removedo ambos. Pois nenhum homem ri de gracejos antigos, ou chora por uma calamidade antiga.

Pesar (Grief), pela descoberta de algum defeito de habilidade, é VERGONHA (SHAME), ou a paixão que descobriu a si mesmo [47]CORANDO (BLUSHING), e consiste na apreensão de alguma coisa desonrosa; em homens jovens, é um sinal de amor à boa reputação, e louvável; em homens velhos é um sinal do mesmo; mas porque ela chega tarde, não louvável.

O desprezo da boa reputação é chamado de IMPUDÊNCIA.

Pesar (Grief), pela calamidade de outro, é PENA (PITY); e surge a partir da imaginação de que calamidade semelhante pode acontecer a si mesmo; e portanto é também chamada de COMPAIXÃO, e, na expressão do tempo presente, uma SIMPATIA (FELLOW-FEELING): e portanto pela calamidade surgir a partir de grande perversidade, os melhores homens têm a menor pena; e pela mesma calamidade, aqueles têm pena, visto que consideram a si mesmos menos obnóxios à mesma.

Desprezo, ou pouco sentido da calamidade de outros, é o que os homens chamam de CRUELDADE; procedendo a partir da segurança de sua própria sorte. Pois, que algum homem deva receber prazer dos prejuízos de outros homens; sem outro fim de si mesmo, eu não o concebo possível.

Pesar (Grief) pelo sucesso de um competidor em riqueza, honra ou outro bem, se for combinado com o esforço (endeavour) para aplicar nossas habilidades para o igualar ou superar, é chamada de EMULAÇÃO; mas junto com o esforço (endeavour) para suplantar, ou impedir um competido, INVEJA.

Quando na mente do homem, apetites e aversões, esperanças e medos, relativos a uma e mesma coisa, surgem alternadamente; e diversas consequências boas e más de realização, ou de omissão, da coisa proposta surgem sucessivamente em nossos pensamentos; de maneira que, algumas vezes, nós temos um apetite [48]dela; algumas vezes uma aversão a ela; algumas vezes esperança para ser capaz de a realizar; algumas vezes desespero ou medo de a tentar; a soma inteira de desejos, aversões, esperanças e medos, continuada até que a coisa seja realizada, ou considerada impossível, é aquilo que nós chamamos de DELIBERAÇÃO.

Portanto, de coisas passadas, não há deliberação; porque manifestamente impossíveis de serem mudadas: nem de coisas conhecidas ser impossíveis, ou consideradas assim; porque os homens sabem, ou consideração, semelhante deliberação . Mas de coisas impossíveis, as quais nós consideramos possíveis, nós podemos deliberar; não sabendo que é em vão. E isso é chamado de deliberação; porque é a colocação de fim para a liberdade que nós tivemos de as realizar, ou omitir, de acordo com nosso próprio apetite, ou aversão.

Essa sucessão alternativa de apetites, aversões, esperanças e medos, não está menos em outras criaturas vivas do que no homem: e, portanto, as feras também deliberam.

Cada deliberação é então dita terminar quando aquilo sobre o que se delibera ou está concluído, ou é considerado impossível; porque até então nós retemos a liberdade de realizar, ou de omitir; de acordo como nosso apetite, ou aversão.

Na deliberação, o último apetite, ou aversão, imediatamente aderente à ação, ou à omissão disso, é aquilo que nós chamamos de VONTADE (WILL); o ato, não a faculdade, de vontade (willing). A definição da vontade (will), comumente dada pelas Escolas, que é a de um apetite racional, não é boa. Pois se fosse, então não poderia haver ato voluntário contra a razão. Pois um ato voluntário é aquele que procede da vontade (will), e nenhum outro. Mas, se em vez de um apetite racional, nós devêssemos dizer um [49]resultante de deliberação anterior, então a definição é a mesma que eu dei aqui. Portanto, a vontade (will) é o último apetite na deliberação. E embora nós digamos no discurso comum, um homem uma vez teve uma vontade de fazer uma coisa que ele, mesmo assim, absteve-se de fazer; ainda assim, isso é estritamente apenas uma inclinação, a qual não faz nenhuma ação voluntária; porque a ação não depende dela, mas da última inclinação, ou do apetite. Pois, se os apetites intervenientes, fizessem qualquer ação voluntária; então, pela mesma razão, todas as aversões intervenientes deveriam fazer a mesma ação involuntária; e assim, uma e mesma ação deveria ser tanto voluntária como involuntária.

Através disso é manifesto que não apenas ações, que têm seu início a partir de cobiça (covetousness), ambição, luxúria (lust), ou outros apetites para a coisa proposta; mas também aquelas que têm seu começo a partir da aversão, ou medo daquelas consequências que se seguem da omissão, são ações voluntárias.

As formas do discurso pelas quais as paixões são expressas são parcialmente as mesmas, parcialmente diferentes daquelas pelas quais nós expressamos nossos pensamentos. E primeiro, geralmente todas as paixões podem ser expressas indicativamente; como eu amo, eu temo, eu alegro, eu delibero, eu desejo, eu comando: mas algumas delas têm expressões particulares por si mesmas, as quais, todavia, não são afirmações, a menos que seja quando elas servem para fazer outras inferências, além daquela da paixão a partir da qual elas seguem. A deliberação é expressa subjuntivamente; o qual é um discurso apropriado para significar suposições, com as consequências delas; como, se isto for feito, em isso se seguirá: e não se diferencia da linguagem do raciocínio, salvo que o raciocínio é [50]em palavras gerais; mas a deliberação, pela maior partes, é de particulares. A linguagem do desejo e da aversão é imperativa; como faça isto, evite aquilo; os que, quando a parte está obrigada a fazer, ou evitar, é comando; caso contrário, súplica (prayer), ou senão, conselho. A linguagem da vanglória, indignação, pena e vingança (revengefulness), optativa: mas do desejo de conhecer, há uma expressão particular, chamada de interrogativa; como, o que é isso, quem será, como isso é feito, por que então? Eu não encontro nenhuma outra linguagem das paixões: pois amaldiçoar (cursing), palavrões (swearing), injúria (reviling) e semelhantes não significam como discurso; apenas como as ações de uma língua acostumada.

Essas formas de discurso, eu digo, são expressões ou significações voluntárias de nossas paixões: mas sinais certos elas não são; porque elas podem ser usadas arbitrariamente, quer aqueles que as usem tenham tais paixões quer não. Os melhores sinais que as paixões apresentam, estão, ou no semblante, nos movimentos do corpo, nas ações e nos fins ou nos objetivos, as quais, de outra maneira, nós sabemos que o homem tem.

E porque na deliberação, os apetites e as aversões são criados pela previsão das consequências boas e más, e pelas sequelas da ação sobre a qual nós deliberamos; o efeito bom ou mau disso depende da previsão de uma longa cadeia de consequências, da qual muito raramente qualquer homem é capaz de ver o fim. Mas até onde um homem pode ver, se o bem dessas consequências for maior do que o mal, a cadeia toda é aquilo que os escritores chamam de bem aparente ou suposto. E contrariamente, quando o mal excede o bem, o todo é mal aparente ou suposto: de maneira que, aquele que tem, pela experiência ou razão, o maior ou mais certo prospecto das [51]consequências, melhor delibera ele mesmo; e é capaz, quando ele deseja, de dar o melhor conselho para outros.

Sucesso contínuo na obtenção daquelas coisas que um homem, de tempos em tempos, deseja, quer dizer, prosperidade contínua, é aquilo que os homens chamam de FELICIDADE; eu quero dizer, felicidade nesta vida. Pois não há tal coisa como perpétua tranquilidade de mente enquanto nós vivemos aqui; porque a vida em si mesma é apenas movimento, e nunca pode ser sem desejo, nem se medo, não mais do que sem sensação. Que tipo de felicidade Deus ordenara para aqueles que devotamente Lhe honram, um homem logo deve conhecer, senão desfrutar; sendo alegrias que, agora, são tão incompreensíveis quanto a palavras dos escolásticos visão beatífica é ininteligível.

A forma de discurso através da qual os homens significam a opinião deles sobre a bondade de alguma coisa é LOUVOR (PRAISE). Aquela através da qual eles significam o poder e grandeza de qualquer coisa é EXALTAÇÃO (MAGNIFYING). E aquela através da qual eles significam a opinião que eles têm da felicidade de um homem, é pelos gregos chamada de makarismos (μακαρισμός), para a qual nós não temos nenhum homem em nossa língua. E dessa maneira, é suficiente para o propósito presente, [o que] foi dito das PAIXÕES.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

HOBBES, T. Leviathan, or the Matter, Form, and Power of a Commonwealth Ecclesastical and Civil. IN: ______. The English Works of Thomas Hobbes of Malmesbury. Volume III. London, Scientia Allen, 1962 (Reprint of the Edition 1839). p. 38-51. Disponível em: <https://archive.org/details/englishworksofth0003hobb/page/38/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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