domingo, 1 de maio de 2022

Uma Investigação a Respeito do Entendimento Humano VI – Da Probabilidade

Uma Investigação a Respeito do Entendimento Humano


Por David Hume


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[65]Seção VI – Da Probabilidade1


Embora não haja tal coisa como Acaso (Chance) no mundo, nossa ignorância da causa real de qualquer evento tem a mesma influência sobre o entendimento e gera uma espécie semelhante de crença ou opinião.

Certamente há uma probabilidade, a qual surge a partir de uma superioridade de chances (chances) em cada lado; e, na medida em que essa superioridade aumente, e ultrapasse chances opostas, a probabilidade recebe um aumento proporcional e gera um grau ainda mais alto de crença em, ou assentimento para, aquele lado no qual nós descobrimos a superioridade. Se um dado fosse marcado com uma figura ou número de manchas nos quatro lados, e com outra figura ou número de manchas nos outros dois lados restantes, seria mais provável que a primeira aparecesse (turn up) do que a segunda; embora, se ele tivesse mil lados marcados da mesma maneira, e apenas um lado diferente, a probabilidade seria muito mais alta, e nossa crença ou expectativa do evento [66]mais firme e segura. Esse processo de pensamento ou raciocínio pode parecer trivial e óbvio; mas para aqueles que o consideram rigorosamente, ele pode, talvez fornecer assunto para curiosa especulação.

Parece evidente que, quanto a mente espera descobrir um evento, o qual pode resultar a partir de um arremesso de um dado, ela considera o aparecimento (turning up) de cada lado particular como igualmente provável; e essa é a natureza mesma do acaso (chance), tornar todos os eventos particulares compreendidos nele inteiramente iguais. Mas, descobrindo que um número maior de lados concorre em um evento que no outro, a mente é levada mais frequentemente àquele evento, e encontra-o mais frequentemente, ao andar às voltas com as várias possibilidades ou chances sobre os quais o resultado último depende. Essa concorrência de várias visões em um evento particular gera imediatamente, por um artifício explicável da natureza, o sentimento de crença, e concede àquele evento uma vantagem sobre o seu antagonista, o qual é suportado por um número menor de visões ocorre menos frequentemente para a mente. Se nós reconhecermos que a crença nada é senão uma concepção mais firme e forte de um objeto do que a que acompanha as meras ficções da imaginação, essa operação pode, talvez, em alguma medida, ser explicada. A concorrência de várias visões ou vislumbres imprime a ideia mais fortemente na imaginação; concede-a força e vigor superiores; torna sua influência sobre as paixões e afecções mais sensível; e, em uma palavra, gera aquela confiança ou segurança que constitui a natureza da crença e opinião.

O caso é o mesmo com a probabilidade de causas que com aquela do acaso (chance). Há algumas causas que são inteiramente uniformes e constantes na produção de um efeito particular; e nenhum exemplo até agora foi nunca encontrado de qualquer falha ou irregularidade na operação delas. O fogo sempre [67]queimou, a água, sufocou, cada criatura humana: a produção de movimento por impulso e gravidade é uma lei universal, a qual, até agora, não admitiu nenhuma exceção. Mas há outras causas que têm sido descobertas mais irregulares e incertas; nem ruibarbo sempre forneceu uma purga, ou o opio um soporífero, para cada homem quem recebeu esses remédios. É verdadeiro, quando qualquer causa falha na produção de seu efeito usual, os filósofos não atribuem isso a nenhuma irregularidade na natureza; mas supõem que algumas causas secretas, na estrutura particular das partes, preveniu a operação. Contudo, nossos raciocínios, relativos ao evento, são os mesmos como se esse princípio não ocorresse. Sendo determinados por costume a transferir o passado para o futuro em todas nossas inferências; onde o passado tem sido inteiramente regular e uniforme, nós esperamos o evento com a maior certeza e não deixamos espaço para qualquer suposição contrária. Mas onde efeitos diferentes foram descobertos seguirem-se a partir das causas, as quais são para a aparência exatamente similares, todos esses vários efeitos precisam ocorrer à mente na transferência do passado para o futuro, e entrarem em nossa consideração quando nós determinamos a probabilidade do evento. Embora nós demos preferência àquilo que tem sido descoberto mais usual, e acreditemos que esse efeito existirá, nós não devemos negligenciar os outros efeitos, mas devemos atribuir a cada um deles um peso e autoridade particulares, em proporção a como nós o descobrimos ser mais ou menos frequente. É mais provável, em quase todo país da Europa, que haverá geada em alguma época de janeiro do que o clima continuará aberto ao longo de todo aquele mês; embora essa probabilidade varie de acordo com os diferentes climas, e aproxime-se de uma certeza nos reinos mais ao norte. Então aqui parece evidente que, quando nós transferimos o passado para [68]o futuro, a fim de determinar o efeito que resultará de qualquer causa, nós transferimos todos os eventos diferentes, na mesma proporção conforme eles apareceram no passado, e concebemos um ter existido uma centena de vezes, outro, dez vezes e outro, uma vez. Como um grande número de visões aqui concorre em um evento, elas fortificam e confirmam-no para a imaginação, geram aquele sentimento que nós chamamos de crença, e concedem a seu objeto a preferência acima do evento contrário, o qual não é suportado por um número igual de experimentos, e não ocorre tão frequentemente ao pensamento na transferência do passado para o futuro. Que qualquer um tente explicar essa operação da mente em consequência de qualquer dos sistemas recebidos de filosofia e ele ficará sensível da dificuldade. De minha parte, eu deverei considerar suficiente se as sugestões presentes excitam a curiosidade de filósofos, e tornar-lhe sensíveis a quão defeituosas são todas as teorias comuns no tratamento de assuntos tão curiosos e tão sublimes.


Próxima parte


ORIGINAL:

HUME, D. An Inquiry concerning Human Understanding. IN:______. The Philosophical Works of David Hume. Volume IV. Boston: Little, Brown and Company; Edinburgh, Adam and Charles Black, 1854. p.65-68. Disponível em: <https://archive.org/details/philosophicalworks04humerich/page/65/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1 O Sr. Locke divide todos os argumentos em demonstrativos e prováveis. Nessa visão, nós devemos dizer que é apenas provável que todos os homens devem morrer, ou que o sol nascerá amanhã. Mas para conformar nossa linguagem mais ao uso comum, nós devemos dividir argumentos em demonstrações, provas e probabilidades. Significando por provas tais argumentos a partir da experiência que não deixam espaço para dúvida ou oposição.

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