Nosso Conhecimento do Mundo Exterior como um Campo para o Método Científico em Filosofia
Por Bertrand Russell
[v]Prefácio
As preleções1 seguintes são uma tentativa de mostrar, através de exemplos, a natureza, a capacidade e as limitações do método lógico-analítico na filosofia. Esse método, do qual o primeiro exemplo completo deve ser encontrado nos escritos de Frege, no curso da pesquisa atual, gradualmente e cada vez mais se forçou sobre mim como alguma coisa perfeitamente definitiva, capaz da encarnação em máximas e adequado, em todos os ramos da filosofia, para produzir qualquer objetivo conhecimento científico que é possível de obter. A maioria dos métodos praticados até agora declararam conduzir a resultados mais ambiciosos do que qualquer análise lógica pode reivindicar alcançar, mas, infelizmente, esses resultados sempre têm sido tais como muitos filósofos consideraram inadmissíveis. Considerados meramente como hipóteses e como auxílios para a imaginação, os grandes sistemas do passado servem a um propósito muito útil, e são abundantemente dignos de estudo. Mas alguma coisa diferente é requerida se a filosofia deve tornar-se uma ciência, e visar a resultados independentes dos gostos e temperamento do filósofo que os defende. No que se segue, eu tentei mostrar, por mais que imperfeitamente, a maneira pela qual eu acredito que esse desideratum deve ser descoberto.
O problema central pelo qual eu procurei ilustrar o método é o problema da relação entre os dados brutos de sentido e o espaço, tempo e matéria da [v]física matemática. Eu fui conscientizado desse problema pelo meu amigo e colaborador, o Dr. Whitehead, a quem são devidas quase todas as diferenças entre as visões defendidas aqui e aquelas sugeridas em The Problems of Philosophy2. Eu devo-lhe a definição dos pontos, a sugestão para o tratamento de instantes e “coisas (things),” e a inteira concepção de mundo da física como uma construção em vez e como uma inferência. O que está dito sobre esses tópicos aqui é, de fato, uma grosseira explicação preliminar dos resultados mais precisos que ele está oferecendo no quarto volume de nossos Principia Mathematica3. Será visto que, se essa maneira de lidar com esses tópicos for capaz de ser exitosamente realizada, uma luz inteiramente nova é jogada sobre as controvérsias consagradas pelo tempo dos realistas e idealistas, e um método é obtido para a solução de tudo que é solúvel no problema deles.
As especulações do passado quanto à realidade ou irrealidade do mundo da física foram confusas, desde o começo, pela ausência de qualquer teoria satisfatória do infinito matemático. Essa dificuldade foi removida pelo trabalho de Georg Cantor. Mas a solução positiva e detalhada do problema por meio de construções matemáticas baseadas sobre objetos sensíveis como dados somente se tornou possível pelo crescimento da lógica matemática, sem a qual é praticamente impossível manipular ideias na abstração e complexidade requeridas. Esse aspecto, o qual está um pouco obscurecido em um esboço meramente popular tal como está contido nas seguintes preleções, tornar-se-á evidente tão logo o trabalho do Dr. Whitehead for publicado. Em lógica pura, a qual, contudo, será brevemente discutida nessas preleções, eu tive [vi]o benefício de descobertas vitalmente importantes, não ainda publicadas, por meu amigo, o Sr. Ludwig Wittgenstein.
Uma vez que meu propósito foi ilustrar o método, eu inclui muito do que é experimental e incompleto, pois não é apenas pelo estudo de estruturas acabadas que o modo de construção pode ser aprendido. Exceto com respeito a questões tais como a teoria do infinito por Cantor, nenhum caráter definitivo é reivindicado para as teorias sugeridas; mas eu acredito que, onde elas forem descobertas requererem modificação, isso será descoberto por, substancialmente, o mesmo método como aquele que, no presente, faz as mesmas parecerem prováveis, e é sobre esse fundamento que eu peço ao leitor ser tolerante da incompletude delas.
Cambridge,
Junho de 1914
ORIGINAL:
RUSSELL, B. Our Knowledge of the External World as a Field for Scientific Method in Philosophy. Chicago and London: The Open Court Publishing Company, 1915. pp.v-vii. Disponível em: <https://archive.org/details/ourknowledgeofex00inruss/page/n10/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1 Proferidas como Lowell Lectures em Boston, em março e abril de 1914.
2 Londres e Nova York, 1912 (“Home University Library”).
3 O primeiro volume foi publicado em Cambridge em 1910, o segundo, em 1912, e o terceiro, em 1913.
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