Uma Investigação a Respeito do Entendimento Humano
Por David Hume
[69]Seção VII – Da Ideia de Conexão Necessária1
Parte I
A grande vantagem das ciências matemáticas sobre as morais consiste nisto, que as ideias das primeiras, sendo sensíveis, são sempre claras e distintas, a menor distinção entre elas é imediatamente perceptível, e os mesmos termos ainda expressivos das mesmas ideias, sem ambiguidade ou variação. Uma ovoide (oval) nunca é confundida com um círculo, nem uma hipérbole com uma elipse. O isósceles e o escaleno são distinguidos por limites mais exatas do que aquelas entre vício e virtude, certo e errado. Se qualquer termo for definido em geometria, a mente prontamente, de si mesma, substitui em todas as ocasiões, a definição pelo termo definido: ou, mesmo quando nenhuma definição é empregada, o objeto mesmo pode ser apresentado aos sentidos, e, por esse meio, ser firme e claramente apreendido. Mas os sentimentos mais finos da mente, as operações do entendimento, as várias agitações das paixões, embora realmente em si mesmas distintas, facilmente nos escapam, quando analisadas por reflexão; nem [70]está em nosso poder recordar o objeto original, tão frequentemente como nós tivemos ocasião de o contemplar. A ambiguidade, por esse meio, é gradualmente introduzida em nossos raciocínios: objetos similares são prontamente tomados para serem o mesmo: e a conclusão torna-se, pelo menos, muito distante das premissas.
Contudo, alguém seguramente pode afirmar que, se nós considerarmos essas ciências sob uma luz apropriada, suas vantagens e desvantagens quase compensam umas as outras, e reduzem ambas a um estado de igualdade. Se a mente, com maior facilidade, retem as ideias da geometria claras e determinadas, ela deve manter uma cadeia de raciocínio muito mais longa e mais intrincada, e comparar ideias muito distantes uma da outra, a fim de alcançar as verdades mais abstrusas dessa ciência. E se as ideias orais estão inclinadas, sem cuidado extremo, a caírem em obscuridade e confusão, as inferências são sempre muito mais curtas nessas investigações, e os passos intermediários, os quais levam à conclusão, muito menos do que nas ciências que tratam de quantidade e número. Na realidade, escassamente há uma proposição em Euclides tão simples como a não consistir de mais partes do que aquelas que devem ser encontradas em qualquer raciocínio moral o qual não incorra em quimera e presunção. Onde nós traçamos os princípios da mente humana através de uns poucos passos, nós muito bem podemos ficar satisfeitos com nosso progresso, considerando quão logo a natureza lança um obstáculo (throw a bar) a todas nossas investigações a respeito dos princípios, e reduz-nos a um reconhecimento de nossa ignorância. Portanto, o obstáculo principal ao nosso aperfeiçoamento nas ciências morais ou metafísicas é a obscuridade e ambiguidade dos termos. A principal dificuldade na matemática é a extensão das inferências e o escopo de pensamento requeridos para a formação de qualquer conclusão. E talvez, nosso progresso em filosofia natural, seja principalmente retardado pela falta de [71]experimentos e fenômenos apropriados, os quais são frequentemente descobertos por acaso (chance), e nem sempre podem ser encontrados quando necessários, mesmo pelas investigações mais diligentes e prudentes. Como até agora a filosofia moral parece ter recebido menos progresso do que ou a geometria ou a física, nós podemos concluir que, se há alguma diferença nesse respeito em meio às ciências, as dificuldades que obstruem o progresso da primeira requerem cuidado e capacidade superiores para serem superadas.
Não há ideias que ocorrem na metafísica mais obscuras e incertas do que aquelas de poder, força, energia ou conexão necessária, as quais são necessários, em cada momento, tratar em todas as nossas disquisições. Portanto, nós devemos esforçar-nos, nesta seção, para determinar, se possível, o significado preciso dessa obscuridade da qual tanto se reclama nessa espécie de filosofia.
Parece uma proposição que não admitirá muita disputa, que todas as nossas ideias nada são senão cópias de nossas impressões, ou, em outras palavras, que é impossível pensar em qualquer coisa que nós anteriormente não sentimos, quer por nossos sentidos externos, quer pelos internos. Eu esforcei-me2 para explicar e provar essa proposição, e expressei minhas esperanças de que, por uma aplicação apropriada dela, os homens pudessem alcançar uma clareza e precisão maiores em raciocínios filosóficos do que até aqui eles têm sido capaz de obter. Talvez, as ideias complexas possam ser bem conhecidas por definição, a qual nada é senão uma enumeração daquelas partes ou ideias simples que as compõem. Mas, quando nós erguemos as definições às suas ideias mais simples, e ainda encontramos alguma ambiguidade e obscuridade, qual recurso nós então possuímos? [72]Através de qual invenção nós podemos lançar luz sobre essas ideias, e torná-las completamente precisas e determinadas para nossa visão intelectual? Produzir as impressões ou sentimentos originais a partir dos quais as ideias são copiadas. Todas essas impressões são fortes e sensíveis. Elas não admitem ambiguidade. Elas não apenas estão posicionados em uma luz completa elas mesmas, mas podem lançar luz sobre suas ideias correspondentes, as quais jazem em obscuridade. E através desse meio, talvez, nós possamos obter um novo microscópio ou espécie de ótica, pelos quais, nas ciências morais, as mais minúsculas e simples das ideias podem ser assim alargadas, quanto a caírem prontamente sob nossa apreensão, e, igualmente, podem ser conhecidas com as mais grosseiras e mais sensíveis ideias que podem ser o objeto de nossa investigação.
Portanto, para ficarmos completamente familiarizados com a ideia de poder ou conexão necessária, examinemos sua impressão; e, para encontrar uma impressão com uma certeza maior, busquemos por ela em todas as fontes a partir das quais ela possivelmente pode ser derivada.
Quando nós olhamos em volta na direção de objetos externos, e consideramos a operações de causas, nós nunca somos capazes, em um único caso, de descobrir qualquer poder ou conexão necessária; qualquer qualidade que vincule o efeito à causa, e torne um uma consequência infalível do outro. Nós apenas descobrimos que um efetivamente de fato se segue a outro. Isso é o todo que aparece para nossos sentidos externos. A mente não percebe sentimento ou impressão interna a partir de uma sucessão de objetos: consequentemente não há, em qualquer instância particular de causa e efeito, nenhuma coisa que possa sugerir a ideia de poder ou conexão necessária.
A partir de um primeiro aparecimento de um objeto, nós nunca somos capazes de conjecturar qual efeito resultará dele. Mas, existisse o [73]poder ou a energia de qualquer causa descobrível pela mente, nós poderíamos prever o efeito, mesmo sem experiência; e poderíamos, de início, pronunciar-nos com certeza a respeito dele, pela mera impressão de pensamento e raciocínio.
Na realidade, não há parte de matéria que alguma vez, através de suas qualidades sensíveis, revele algum poder ou energia, ou dê-nos fundamento para imaginar que poderia produzir qualquer coisa, ou ser seguida por qualquer objeto que nós poderíamos denominar de seu efeito. Solidez, extensão, movimento; essas qualidades são todas completas em si mesmas e nunca apontam para outro evento que pode resultar a partir delas. As cenas do universo estão continuamente mudando, e um objeto segue-se a outro em uma sucessão ininterrupta; mas o poder ou a força, os quais impulsionam a máquina toda, estão inteiramente ocultos para nós, e nunca se revelam em quaisquer qualidades sensíveis do corpo. Nós sabemos que, de fato, o calor é um participante constante da chama; mas qual é a conexão entre eles, nós não temos espaço mesmo para conjecturar ou imaginar. Portanto, é impossível que a ideia de poder possa ser derivada a partir da contemplação de corpos, em instâncias singulares de sua operação; porque nenhum corpo alguma vez revelou nenhum poder, o qual possa ser o original dessa ideia.3
Portanto, uma vez que objetos externos, como eles aparecem para os sentidos, não nos concedem nenhuma ideia de poder nem de conexão necessária, através de sua operação em casos particulares, vejamos se essa ideia pode ser derivada a partir de reflexão sobre as operações de nossas próprias mentes, e ser copiada a partir de alguma [74]impressão interna. Pode ser dito que, a cada momento nós estamos conscientes de poder interno enquanto sentimos que, pelo simples comando de nossa vontade, podemos mover os órgãos de nosso corpo, ou dirigir as faculdades de nossa mente. Um ato de volição produz movimento em nossos membros, ou gera uma nova ideia em nossa imaginação. Essa influência da vontade nós conhecemos por consciência. Daqui nós adquirimos a ideia de poder ou energia; e ficamos certos de que nós mesmos e todos outros seres inteligentes estamos possuídos de poder.4 Essa ideia, então, é uma ideia da reflexão, uma vez que ela surge a partir da reflexão sobre as operações de nossa própria mente, e sobre o comando que é exercida pela vontade, ambos sobre o órgãos do corpo e as faculdades de alma.
Nós devermos seguir para examinar essa pretensão: e, primeiro, com respeito à influência da volição sobre os órgãos do corpo. Essa influência, nós podemos observar, é uma fato que, como quaisquer outros eventos naturais, pode ser conhecido apenas por experiência, e nunca pode ser previsto a partir de uma energia ou um poder aparente na causa, que a conecta com o efeito, e torna um a consequência infalível do outro. O movimento de nosso corpo segue em consequência do comando de nossa vontade. Disso nós estamos conscientes a cada momento. Mas os meios pelos quais isso é realizado, a energia pela qual a vontade realizará uma operação tão extraordinária; disso nós estamos tão longe de estarmos conscientes que deve para sempre escapar de nossa investigação mais diligente.
Pois, primeiro, há algum princípio em toda a natureza mais misterioso do que a união entre alma e corpo; pela qual uma suposta substância espiritual adquire uma semelhante influência sobre uma material, de modo que o pensamento mais refinado [75]seja capaz de influenciar a matéria mais grosseira? Fossemos nós empoderados, por um desejo secreto, a remover montanhas, ou a controlar os planetas em suas órbitas, essa extensa autoridade não seria mais extraordinária, nem estaria mais além de nossa compreensão. Mas se, por consciência, nós percebemos qualquer poder ou energia na vontade, nós precisamos conhecer esse poder; nós precisamos conhecer sua conexão com o efeito; nós precisamos conhecer a união secreta de alma e corpo, e a natureza de ambas essas substâncias, pela qual uma é capaz de operar, em tantas instâncias, sobre a outra.
Segundo, nós não somos capazes de mover todos os órgãos do corpo com uma autoridade semelhante, embora nós não possamos atribuir qualquer razão, além da experiência, para uma diferença tão notável entre um e outro. Por que a vontade tem uma influência sobre a língua e os dedos, [mas] não sobre o coração ou fígado? Essa questão nunca nos embaraçaria, estivéssemos nós conscientes de um poder no primeiro caso, [mas] não no segundo. Então nós deveríamos perceber, independentemente de experiência, porque a autoridade da vontade sobre os órgãos do corpo está circunscrita no interior de tais limites particulares. Estando nesse caso completamente familiarizados com o poder ou força pela qual ele opera, nós deveríamos conhecer porque sua influência alcança precisamente semelhantes limites e não mais além.
Um homem, subitamente atingido por uma paralisia (palsy) na perna ou braço, ou que recentemente perdeu aqueles membros, frequentemente se esforça, em primeiro lugar, para os mover, e empregá-los em suas atividades usuais. Aqui ele está tão consciente do poder de comandar semelhantes membros quanto um homem em perfeita saúde para impulsionar (actuate) qualquer membro que permanece em seu estado e em sua condição naturais. Mas a consciência nunca engana. Consequentemente, nem em um caso, nem no outro, nós alguma vez estamos conscientes de qualquer poder. Nós aprendemos a influência de nossa vontade a partir da [76]experiência apenas. E a experiência apenas nos ensina como um evento constantemente se segue a outro, sem nos instruir sobre a conexão secreta que vincula-os juntos e torna-lhes inseparáveis.
Terceiro, nós aprendemos a partir da anatomia, que o objeto imediato do poder no movimento voluntário não é o membro mesmo que é movido, mas certos músculos e nervos e espíritos animais, e, talvez, algo ainda mais minúsculo e mais desconhecido, através do qual o movimento é sucessivamente propagado até que ele alcance o membro mesmo cujo o movimento é o objeto imediato de volição. Pode haver uma prova mais certa de que o poder pelo qual essa operação inteira é realizada, tão longe de ser direta e inteiramente conhecido por um sentimento interno ou consciência, é, ao último grau, misterioso e ininteligível? Aqui a mente deseja um certo evento: imediatamente outro evento, desconhecido para nós mesmos, e totalmente diferente do desejado, é produzido: esse evento produz outro, igualmente desconhecido: até que, finalmente, através de uma longa sucessão, o evento desejado é produzido. Mas, se o poder original fosse sentido, ele deve ser conhecido: fosse ele conhecido, seu efeito também deve ser conhecido, uma vez que todo poder é relativo a seu efeito. E, vice-versa, se o efeito não for conhecido, o poder não pode ser conhecido nem sentido. De fato, como nós podemos ser conscientes de um poder para mover nossos membros, quando nós não temos um semelhante poder, mas apenas aquele para movermos certos espíritos animais, os quais, embora eles produzam, por fim, o movimento de nossos membros, ainda assim operam de uma tal maneira como está inteiramente além de nossa compreensão?
Portanto, nós podemos concluir a partir do todo, eu espero, sem qualquer temeridade, embora com garantia, que nossa ideia de poder não é copiada de nenhum sentimento ou consciência de poder dentro de nós mesmos, quando nós damos origem [77]ao movimento animal, ou aplicamos nossos membros em seu uso e atividade apropriados. Que o movimento deles segue-se do comando da vontade, é uma questão de experiência comum, como outros eventos naturais: mas o poder ou energia pelos quais isso é efetuado, como aquele nos outros eventos naturais, é desconhecido e inconcebível.5
Então nós devemos afirmar que nós estamos conscientes de um poder ou energia em nossas mentes quando, por um ato ou comando de nossa vontade, nós geramos uma nova ideia, determinamos a mente à contemplação dela, viramo-la para todos os lados e, finalmente, dispensamo-la por alguma outra ideia quando nós pensamos que nós a analisamos com suficiente precisão? Eu acredito que os mesmos argumentos provarão que, mesmo esse comando da vontade não nos concede nenhuma ideia real de força ou energia.
Primeiro, deve ser admitido que, quando nós conhecemos um poder, nós conhecemos aquela circunstância mesma na causa pela qual ele é capacitado a produzir o efeito; pois se supõe que essas são sinônimas. Portanto, nós precisamos conhecer tanto a causa quanto o efeito, e a relação entre eles. Mas nós pretendemos estar familiarizados com a natureza da alma humana e a natureza de uma ideia, ou [78]a capacidade de uma produzir a outra? Isso é uma criação real, a produção de alguma coisa a partir do nada, o que implica um poder tão grande, que ele parece estar, à primeira vista, além do alcance de qualquer ser menos que infinito. Pelo menos precisa ser confessado que, um semelhante poder, não é sentido, nem conhecido, nem mesmo concebível, pela mente. Nós apenas sentimos o evento, a saber, a existência de uma ideia, resultante de um comando da vontade: mas a maneira pela qual essa operação é realizada, o poder pelo qual ela é produzida, está inteiramente além de nossa compreensão.
Segundo, o comando da mente sobre si mesma é limitado, assim como o comando sobre o corpo; e esses limites não são conhecidos pela razão, ou por qualquer familiaridade com a natureza da causa e do efeito, mas apenas pela experiência e observação, como em todos os outros eventos naturais e na operação dos objetos externos. Nossa autoridade sobre nossos sentimentos e paixões é muito mais fraca que sobre nossas ideias; e mesmo a segunda autoridade está circunscrita no interior de limites muito estreitos. Alguém pretenderá especificar a razão última desses limites, ou mostrar porque o poder é deficiente em um caso e não no outro?
Terceiro, esse autocomando é muito diferente em ocasiões diferentes. Um homem com saúde possui mais dele do que um abatido por doença. Nós somos mais mestres de nossos pensamentos pela manhã do que à noite; em jejum, do que após uma refeição completa. Nós podemos fornecer alguma razão para essas variações exceto a experiência? Então, onde está o poder do qual nós pretendemos estar conscientes? Não há, ou em uma substância espiritual ou material, ou em ambas, algum mecanismo secreto ou estrutura de partes, em consequência dos quais os efeitos dependem, e os quais, sendo inteiramente [79]desconhecidos para nós, tornam o poder ou a energia da vontade igualmente desconhecidos e incompreensíveis?
Certamente a volição é um ato da mente com o qual nós estamos suficientemente familiarizados. Reflita sobre ela. Considera-a sobre todos os lados. Você encontra alguma coisa nela como esse poder criativo, pelo qual ela gera a partir do nada uma nova ideia, e, com um tipo de FIAT, imita a onipotência de seu Criador, se eu posso ser permitido falar assim, quem chamou à existência as várias cenas da Natureza? Tão longe de estar consciente dessa energia na vontade, ela requer uma certa experiência como aquela da qual nós estamos de posse, para nos convencer de que semelhantes efeitos extraordinários sempre resultam a partir de um simples ato de volição.
A generalidade do gênero humano nunca encontra dificuldade para explicar as operações mais comuns e familiares da natureza; tais como a queda dos corpos pesados, o crescimento das plantas, a geração de animais, ou a nutrição do corpo pela comida: mas suponha que, em todos esses casos, eles percebam a força ou energia mesmas da causa pela qual ela está conectada com seu efeito, e é para sempre infalível em sua operação. Eles adquirem, por um longo hábito, uma tal mudança de mente, que, em consequência do aparecimento da causa, eles imediatamente esperam, com segurança, seu concomitante usual, e dificilmente concebem possível que um evento possa resultar dele. É apenas em consequência da descoberta de fenômenos extraordinários, tais como terremotos, pestes e prodígios desse tipo, que eles se encontram perdidos para atribuir uma causa apropriada e para explicar a maneira pela qual o efeito é produzido por ela. É usual para os homens, em tais dificuldades, recorrerem a algum princípio invisível inteligente,6 como a causa imediata daquele evento, o qual os surpreende, [80]e o qual eles consideram não poder ser explicado a partir dos poderes comuns da natureza. Mas os filósofos, quem levam seu escrutínio um pouco mais adiante, imediatamente percebem, que, mesmo nos eventos mais familiares, a energia da causa é tão ininteligível quanto nos mais incomuns, e que nós apenas conhecemos pela experiência a conjunção frequente dos objetos, sem alguma vez sermos capaz de compreender qualquer coisa como conexão entre eles. Aqui, então, muitos filósofos se consideram obrigados pela razão a recorrer, em todas ocasiões, ao mesmo princípio ao qual o vulgo nunca apela exceto em casos que parecem miraculosos e sobrenaturais. Eles reconhecem a mente e a inteligência serem, não apenas a causa última e original de todas as coisas, mas a causa imediata e única de cada evento que aparecer na natureza. Eles pretendem que aqueles objetos que comumente são denominados de causas são, na realidade, nada senão ocasiões; e que o princípio verdadeiro e direto de cada efeito não é nenhum poder ou força na natureza, mas a volição do Ser Supremo, quem deseja que tais objetos particulares para sempre devam ser combinados uns com os outros. Em vez de dizerem que a bola de bilhar move outra por uma força que é derivada a partir da do autor da natureza, é a Divindade mesma, eles dizem, quem, por uma volição particular, move a segunda bola de bilhar, sendo determinada a essa operação pelo impulso da primeira bola, em consequência daquelas leis gerais as quais el estabeleceu para si mesmo no governo do universo. Mas os filósofos, ainda avançando em suas inquirições, descobrem que, assim como nós somos totalmente ignorantes do poder sobre o qual depende a operação mútua dos corpos, nós não somo menos ignorantes daquele poder sobre o qual depende a operação da mente sobre o corpo, ou do corpo sobre a mente; nem nós somos capazes, ou a partir de nossos sentidos ou de nossa consciência a especificarmos o princípio [81]último em um caso mais do que no outro. Portanto, a mesma ignorância reduz-lhes a mesma conclusão. Eles afirmam que a Divindade é a causa imediata da união entre alma e corpo; e que eles não são os órgãos dos sentidos, os quais, estando agitados por objetos externos, produzem sensações na mente; mas que é uma volição particular de nosso onipotente Criador, a qual excita uma sensação em consequência de um tal movimento no órgão. De maneira semelhante, não é nenhuma energia na vontade que produz movimento local em nossos membros: é Deus mesmo, quem se agrada de suportar nossa vontade, em si mesma impotente, e comandar esse movimento, o qual nós erroneamente atribuímos ao nosso próprio poder e eficácia. Nem os filósofos param diante dessa conclusão. Algumas vezes eles estendem a mesma inferência à mente mesma em suas operações internas. Nossa visão ou concepção mental das ideias nada é senão apenas uma revelação feita a nós por nosso Criador. Quando nós voluntariamente voltamos nossos pensamentos para qualquer objeto, e geramos sua imagem na imaginação (fancy), não é a vontade que cria essa ideia: é o Criador universal quem descobre para a mente, e torna-a presente para nós.
Dessa maneira, de acordo com esses filósofos, cada coisa está cheia de Deus. Não contente com o princípio de que nada existe senão por sua vontade, de que nada possui nenhum poder senão por sua concessão; eles roubam a natureza, e todos os seres criados, de todo poder, a fim de tornar a dependência deles da Divindade ainda mais sensível e imediato. Eles não consideram que, por essa teoria, eles diminuem, em vez de magnificar, a grandeza daqueles atributos, os quais eles simulam tanto celebrar. Certamente, argumenta-se mais poder na Divindade, para delegar um certo grau de poder para criaturas inferiores, do que para produzir cada coisa por sua própria volição individual. Argumenta-se mais sabedoria para inventar, inicialmente, a fábrica do [82]mundo com uma previsão tão perfeita, essa de si mesmo, e por sua própria operação, ele pode servir a todos propósitos da Providência, do que se o grande Criador estivesse obrigado a cada momento a ajustar suas partes, e a animar por sua respiração todas as rodas dessa máquina estupenda.
Mas, se nós queremos ter uma refutação mais filosófica dessa teoria, talvez as duas reflexões seguintes podem ser suficientes.
Primeiro, parece-me que essa teoria da energia e operação universal do Ser Supremo é muito ousada para portar convicção com ela para um homem suficientemente informado da fraqueza da razão humana, e dos limites estreitos aos quais ela está confinada em todas suas operações. Embora a cadeia de eventos que conduza a ele fosse sempre lógica, ali precisa surgir uma forte suspeita, se não uma certeza absoluta, de que ela nos levou muito além do alcance de nossa faculdades, quando ela nós conduz a conclusões tão extraordinárias, e tão distantes a partir da vida e experiência comuns. Nós entramos no país das fadas (fairy land) muito antes que nós alcançamos os últimos passos de nossa teoria; e ali nós não temos razão para confiar em nossos métodos comuns de argumento, ou pensar que nossas analogia e probabilidade usuais têm qualquer autoridade. Nossa linha é curta demais para penetrar em tais abismos imensos. E, por mais que nós desejemos lisonjear a nós mesmos, de que nós somos guiados, em cada passo que damos, por um tipo de verosimilhança e experiência, nós podemos estar seguros de que essa experiência fantasiada não tem autoridade, quando, dessa maneira, nós aplicamos aos seus temas aquilo que se estende inteiramente fora da esfera da experiência. Mas, nisso, nós devermos ter ocasião para tocar depois.7
Segundo, eu não consigo perceber qualquer força nos argumentos sobre os quais essa teoria está fundamentada. Nós somos ignorantes, é [83]verdadeiro, da maneira pela qual os corpos operam uns sobre os outros. Sua força ou energia é inteiramente incompreensível: mas nós não somos igualmente ignorantes da maneira ou força pela qual uma mente, mesmo da Mente Suprema, opera, quer sobre si mesma ou sobre o corpo? De onde, eu suplico a você, nós adquirimos qualquer ideia disso? Nós não temos sentimento ou consciência desse poder em nós mesmos. Nós não temos nenhuma ideia do Ser Supremo senão aquela que nós aprendemos a partir da reflexão em nossas próprias faculdades. Portanto, fosse nossa ignorância uma boa razão para rejeitar qualquer coisa, nós deveríamos ser conduzidos àquele princípio de negação de toda energia no Ser Supremo, tanto quanto na matéria mais grosseira. Nós certamente compreendemos tão pouco de uma quanto de outra. É mais difícil conceber que o movimento pode surgir a partir do impulso do que que ele pode surgir a partir da volição? Tudo que nós conhecemos é nossa ignorância profunda em ambos os casos.8
[84]Parte II
Mas para se apressar para uma conclusão desse argumento, o qual já foi extraído a uma extensão muito grande; nós procuramos em vão por uma ideia de poder ou conexão necessária, em todas as fontes a partir das quais se supõem ela deve ser derivada. Parece que, em instâncias únicas da operação de nossos corpos, nós nunca podemos, pelo nosso escrutínio máximo, descobrir qualquer coisa senão um evento seguindo-se a outro; sem sermos capazes de compreender qualquer força ou poder pelo qual a causa opera, ou qualquer conexão entre ela e seu suposto efeito. A mesma dificuldade ocorre na contemplação das operações da mente sobre o corpo; onde nós observamos o movimento do segundo seguir em consequência da volição da primeira; mas não somos capazes de observar ou conceber a ligação que vincula juntos o movimento e a volição, ou a energia pela qual a mente produz esse efeito. A autoridade da vontade sobre suas próprias faculdades e ideias não é uma partícula mais compreensível: de modo que, e consequência de tudo, ali não aparece, através de todo a natureza, qualquer instância de conexão, a qual seja concebível por nós. Todos eventos parecem inteiramente soltos e separados. Um evento segue-se a outro, mas nós nunca podemos observar nenhum vínculo entre eles. Eles parecem combinados (conjoined), mas nunca conectados. Mas, como nós não podemos ter nenhuma ideia de qualquer coisa que nunca apareceu para nosso sentido exterior ou sentimento interior, a conclusão necessária parece ser que nós absolutamente não temos nenhuma ideia, e que essas palavras estão absolutamente sem qualquer sentido, quando empregadas quer em raciocínios filosóficos, quer na vida comum.
[85]Mas ainda resta um método de evitar essa conclusão, e uma fonte que nós ainda não examinamos. Quando qualquer objeto ou evento é apresentado, é impossível para nós, por qualquer sagacidade ou penetração, descobrir, ou até conjecturar, sem a experiência, qual evento resultará a partir dele, ou o que conduzirá nossa previsão além desse objeto, o qual está imediatamente presente para a memória e os sentidos. Mesmo após uma instância ou experiência, onde nós observamos um evento particular seguir-se a outro, nos não estamos autorizados a formar uma regra, ou prever o que acontecerá em casos semelhantes; será justamente considerado uma temeridade imperdoável julgar o curso inteiro da natureza a partir de um único experimento singular, por mais que preciso e certo. Mas quando uma espécie particular de eventos, em todas as suas instâncias, sempre esteve combinado com outros, nós não mais temos nenhum escrúpulo na previsão de um em consequência do aparecimento do outro, e do emprego de semelhante raciocínio o qual sozinho pode assegurar-nos de qualquer estão de fato ou existência. Então, nós chamamos um objeto de Causa, o outro, de Efeito. Nós supomos que haja alguma conexão entre eles; algum poder em um, pelo qual ele infalivelmente produz o outro, e opera com a maior certeza e mais forte necessidade.
Então, parece que essa ideia de uma conexão necessária entre eventos surge a partir de um número de casos similares que ocorrem da conjunção constante desses eventos; nem pode essa ideia ser alguma vez sugerida por qualquer um desses casos, analisados em todas as luzes e posições possíveis. Mas não há nada em um número de instâncias, diferente de cada instância singular, as quais se supõem serem exatamente similares; exceto somente que após uma repetição de instâncias similares, a mente é conduzida pelo [86]hábito, em consequência do aparecimento de um evento, a esperar seu usual concomitante, e a acreditar que ele existirá. Portanto, essa conexão que nós sentimos na mente, essa transição costumeira da imaginação de um objeto para seu usual concomitante, é o sentimento ou impressão a partir do qual nós formamos a ideia de poder ou conexão necessária. Nada adicional existe no caso. Contemple os assuntos sobre todos os lados, você nunca descobrirá qualquer outra origem daquela ideia. Essa é a única diferença entre uma instância, a partir da qual nós nunca podemos receber a ideia de conexão, e um número de instâncias similares, pelas quais ela é sugerida. A primeira vez que um homem viu a comunicação de movimento por impulso, como pelo choque de duas bolas de bilhar, ele não pôde pronunciar que um evento estava conectado, mas apenas que estava combinado (conjoined) com o outro. Após ele ter observado várias instâncias dessa natureza, então, ele pronunciou-as estarem conectadas. Que alteração ocorreu para dar origem a essa nova ideia de conexão? Nada exceto que agora ele sente esses eventos estarem conectados em sua imaginação, e prontamente pode prever a existência de um a partir do aparecimento do outro. Portanto, quando nós dizemos que um objeto está conectado com outro, nós queremos dizer apenas que eles adquiriram uma conexão em nosso pensamento, e deram origem a essa inferência pela qual eles se tornaram provas da existência um do outro; uma conclusão que é um pouco extraordinária, mas que parece fundamentada em evidência suficiente. Nem sua evidência ficará enfraquecida por qualquer desconfiança geral do entendimento, ou suspeição cética relativa a cada conclusão que é nova e extraordinária. Nenhuma conclusão pode ser mais conforme ao ceticismo do que uma semelhante como a fazer descobertas relativas à fraqueza e aos limites estreitos da razão e capacidade humanas.
[87]E que exemplo mais forte pode ser produzido da ignorância e fraqueza surpreendentes do entendimento do que o presente? Pois certamente, se há qualquer relação entre objetos, a qual no importa conhecer perfeitamente, é aquela de causa e efeito. Sobre essa estão fundamentados todos os nossos raciocínios relativos a questão de fato ou existência. Apenas através dela, nós podemos obter qualquer certeza relativa a objetos, os quais estão removidos do testemunho presente de nossa memória e nossos sentidos. A única utilidade imediata de todas as ciências é ensinar-nos a como controlar e regular eventos futuros através das causas deles. Portanto, nossos pensamentos e investigações são, a cada momento, empregados sobre essa relação: ainda assim tão imperfeitas são as ideias que nós formamos relativas a ela, que é impossível dar qualquer definição de causa, exceto a que é extraída a partir de alguma coisa estranha e estrangeira a ela. Objetos similares sempre são combinados com similares. Disso nós temos experiência. Portanto, adequadamente a essa experiência, nós podemos definir uma causa ser um objeto seguido por outro, e onde todos os objetos, similares ao primeiro, são seguidos por objetos similares ao segundo. Ou, em outras palavras, onde, se o primeiro objeto não existiu, o segundo nunca existira. O aparecimento de uma causa sempre transmite a mente, através de uma transição costumeira, para a ideia do efeito. Disso nós temos experiência. Portanto, nós podemos, adequadamente a essa experiência, formar outra definição de causa; e chamá-la de um objeto seguido por outro, e cujo o aparecimento sempre transmite a mente ao pensamento desse outro. Mas, embora ambas as definições sejam extraídas a partir de circunstâncias estrangeiras à causa nós não podemos remediar essa inconveniência, a qual pode ressaltar essa circunstância na causa que a concede uma conexão com seu efeito. Nós não temos ideia dessa conexão; nem [88]mesmo qualquer noção distinta, que é o que nós desejamos conhecer quando nos esforçamos em uma concepção dela. Por exemplo, nós dizemos que a vibração desta corda é a causa deste som particular. Mas que nós queremos dizer por essa afirmação? Ou nós queremos dizer que esta vibração é seguida por este som, que todas as vibrações similares foram seguidas por sons similares: ou, que esta vibração é seguida por este som e que, em consequência do aparecimento de um, a mente antecipa os sentidos e, imediatamente, forma uma ideia do outro. Nós podemos considerar a relação de causa e efeitos sob qualquer uma dessas duas luzes; mas, além dessas nós não temos nenhuma ideia dela.9
[89]Portanto, para recapitular os raciocínios desta Seção: cada ideia é copiada a partir de alguma impressão ou algum sentimento precedente; e, onde nós não podemos encontrar nenhuma impressão, nós podemos ficar certos de que não há ideia. Em todas as instâncias singulares da operação de corpos ou mentes, não há nada que produza nenhuma impressão, nem, consequentemente, podem sugerir nenhuma ideia de poder ou conexão necessária. Mas quando muitas instâncias uniformes aparecem, e o mesmo objeto sempre é seguido pelo mesmo evento, então, nós começamos a entreter a noção de causa e conexão. Então nós sentimos um novo sentimento ou impressão, a saber, uma conexão costumeira no pensamento ou imaginação entre um objeto e seu usual concomitante (attendant); e esse sentimento é o original daquela ideia que nós procuramos. Pois como essa ideia surge a partir de um número de instâncias similares, e não a partir de uma única instância, ele deve surgir a partir daquela circunstância na qual o número de instâncias difere de cada instância individual. Mas essa conexão ou transição costumeira da imaginação é a única circunstância na qual eles diferem. Em todo outro particular eles são semelhantes. A primeira instância que nós vemos do movimento comunicado pelo choque de duas bolas de bilhar (para retornar a essa ilustração óbvia), é exatamente similar a qualquer instância que pode, no presente, ocorrer-nos, exceto apenas que nós não poderíamos, inicialmente, inferir um evento a partir do outro, o que estamos capacitados a fazer no presente, após um curso tão longo de experiência uniforme. Eu não sei se o leitor prontamente apreenderá esse raciocínio. Eu temo que eu deva multiplicar palavras [90]sobre ele, ou jogá-lo a uma maior variedade de luzes, ele apenas se tornaria mais obscuro e complicado. Em todos os raciocínios abstratos há um ponto de vista que, se nós pudermos felizmente alcançar, nós deveremos progredir na direção da ilustração do objeto do que por toda a eloquência e expressão copiosa no mundo. Esse ponto de vista nós devemo tentar alcançar, e reservar as flores da retórica para temas que estão mais adaptados a elas.
ORIGINAL:
HUME, D. An Inquiry concerning Human Understanding. IN:______. The Philosophical Works of David Hume. Volume IV. Boston: Little, Brown and Company; Edinburgh, Adam and Charles Black, 1854. p.69-90. Disponível em: <https://archive.org/details/philosophicalworks04humerich/page/69/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1 [69]Intitulada, nas Edições K, L, de “Da Ideia de Poder, ou Conexão Necessária (Of the Idea of Power, or Necessary Connection).”
2 [71]Seção II.
3 [73]O Sr. Locke, em seu capítulo sobre o Poder, diz que, descobrindo a partir da experiência, que há várias novas produções na matéria, e concluindo que, em algum lugar, deve haver um poder capaz de as produzir, nós finalmente chegamos, através do raciocínio, à ideia de poder. Mas nenhum raciocínio nunca pode nos conceder uma ideia nova, original e simples, como esse filósofo mesmo confessa. Portanto, isso nunca pode ser a origem dessa ideia.
4 [74]“As operações e a influência mútua dos corpos, talvez, sejam suficientes para provar que ele estão possuídos disso.” - Edições K, L.
5 [77]Pode ser alegado que a resistência que nós encontramos nos corpos força-nos frequentemente a exercer nossa força e convocar todo o nosso poder, isso nos dá a ideia de força ou poder. É esse nisus, ou esforço forte, do qual nós estamos conscientes, que é a impressão original a partir da qual essa ideia é copiada. Mas, primeiro, nós atribuímos poder a um vasto número de objetos, onde nós nunca podemos supor essa resistência ou empenho de força ocorrer; ao Ser Supremo, quem nunca encontra qualquer resistência; à mente em seu comando sobre suas ideias e seus membros, no pensamento e movimento comuns, onde o efeito segue-se imediatamente em consequência da vontade, sem nenhuma convocação de força; à matéria inanimada, a qual não é capaz desse sentimento. Segundo, esse sentimento de um esforço para superar resistência não tem conexão conhecida com nenhum evento: o que se segue nós conhecemos por experiência, mas não poderia ser conhecido a priori. Contudo, deve ser confessado que o nisus animal que nós experienciamos, embora ele não possa proporcionar nenhuma ideia precisa de poder, entra bastante naquela ideia vulgar e imprecisa que é formada dela.
6 [79] θεὸς ἀπὸ μηχανῆς
7 [82]Seção XII.
8 [83]Eu não preciso examinar completamente a vis inertiae, da qual tanto se fala na nova filosofia, e a qual é atribuída à matéria. Nós descobrimos por experiência que um corpo em repouso ou em movimento contínua para sempre em seu estado presente, até que colocado para fora dele por alguma nova causa; e que um corpo impelido recebe tanto movimento a partir do corpo impelente como ele adquire de si mesmo. Esses são fatos. Quando nós chamamos isso de uma vis inertiae, nós apenas marcamos esses fatos, sem pretender ter nenhuma ideia do poder inerte; da mesma maneira como, quando nós falamos de gravidade, nós queremos dizer certos efeitos, sem compreender esse poder ativo. Nunca foi a intenção de Sir Isaac Newton roubar as causas segunda de toda força ou energia, embora alguns de seus seguidores tenham tentado estabelecer essa teoria em consequência de sua autoridade. Pelo contrário, esse grande filósofo teve o recurso a um ativo fluído etéreo para explicar sua atração universal, embora ele fosse tão cauteloso e modesto como a admitir que era uma mera hipótese sobre a não se devia insistir, sem mais experimentos. Eu devo confessar, que há alguma coisa no destino um pouco extraordinário no destino de opiniões. Descartes insinuou essa doutrina da eficácia universal e única da Dividade, sem insistir nela. Malebranche e outros cartesianos tornaram-na o fundamento de toda a filosofia deles. Contudo, ela não teve autoridade na Inglaterra. Locke, Clarke e Cudworth nunca mesmo a notaram, mas supõem, durante todo esse tempo, que a matéria tem um poder real, embora subordinado e derivado. Por quais meios ela se tornou tão predominante entre nossos metafísicos?
9 [88]De acordo com essas explicações e definições, a ideia de poder é tão relativa quanto aquela de causa; e ambas têm uma referência a um efeito, ou a algum outro evento constantemente combinado com o primeiro. Quando nós consideramos a circunstância desconhecida de um objeto, nós chamamo-la de seu poder. E, adequadamente, é admitido por todos os filósofos que o efeito é a medida do poder. Mas se eles tivessem qualquer ideia de poder como ele é em si mesmo, por que não poderiam o medir em si mesmo? A disputa, se a força de um corpo em movimente é como sua velocidade, ou o quadrado de sua velocidade; essa disputa, eu digo, não necessitava ser decidida através da comparação de seus efeitos em tempos iguais ou desiguais, mas por uma mensuração e comparação diretas. [Essa nota foi introduzida na Edição L.]
Quanto ao uso frequente das palavras Força, Poder, Energia, etc, as quais ocorrem em todos os lugares da conversação, assim como na filosofia, não há prova de que nós estejamos familiarizados, em qualquer instância, com o princípio conector entre causa e efeito, ou que possa explicar, em última análise, a produção de uma coisa por outra. Essas palavras, como comumente utilizadas, têm significados muito vagos anexados a elas, e suas ideias são muito incertas e confusas. Nenhum animal pode colocar corpos externos em movimento sem o sentimento de um nisus ou esforço; e todo animal tem um sentimento ou sensação da pancada ou golpe de um objeto externo que está em movimento. Essas sensações, as quais são meramente animais, e, a partir das quais nós não podemos, a priori, extrair nenhuma inferência, nós estamos inclinados a transferir para objetos inanimados, e a supor que eles têm alguns sentimentos semelhantes sempre que eles transferem ou recebem movimento. Com respeito às energias, as quais são exercidas sem nossa anexação a elas de qualquer ideia de movimento comunicado, nós apenas consideramos a constante conjunção experienciada dos eventos; e, como nós sentimos uma conexão costumeira entre as ideias, nós transferimos esse sentimento para os objetos, como [89]nada é mais usual do que aplicar aos corpos externos cada sensação interna a qual eles ocasionam. [Em vez dessa passagem conclusiva, ali ficava na Edição L – “Uma causa é diferente de um sinal, enquanto ela implica precedência e contiguidade em tempo e lugar, assim como conjunção constante. Um sinal nada é senão um efeito correlativo a partir da mesma causa.”]
Nenhum comentário:
Postar um comentário