segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Inferir e Explicar - Capítulo 1 Valorando a Verdade

Inferir e Explicar


Por Jeffery L. Johnson


Prefácio


[1]Capítulo 1

Valorando a Verdade


Dizer que democracia é um espaço de razões é dizer que a prática de política democrática requer o oferecimento de e a ação por razões. Quer dizer, em um estado democrático, desentendimentos entre cidadãos devem ser gerenciados apenas na arena da razão, e argumentos legitimando os usos do poder estatal precisam ser apoiados por razões. E crucialmente, as “razões” das quais se fala são razões para se acreditar no que é verdadeiro, enquanto opostas a razões para o que nos conquistará a eleição, far-nos-á ricos ou condenará nossos inimigos. Em resumo, pensar a democracia como um espaço de razões é ver os ideais da política democrática como requerendo um comprometimento com a busca racional da verdade.

Michael Lynch1


Um Objetivo Elevado e um Objetivo Prático


Este livro tem dois objetivos principais. Um é convidar você – não, realmente, implorar a você – para entrar no que Michal Lynch chamada da “arena da razão.” A citação de Lynch pode sugerir que a política é onde a razão e verdade são mais importantes. Eu concordo completamente com ele que a política democrática é uma área de nossas vidas que requer atenção para os ideais de verdade e boa razão. Mas eu acredito que ele concordaria comigo que muitos dos outros assuntos intelectuais – as buscas da ciência e medicina, as exigências de uma profissão, e os problemas imensamente complicados de uma vida pessoal com significado, para nomear apenas uns poucos – são igualmente dependentes dos padrões da arena da razão.

O outro objetivo é fornecer a você uma ferramenta para navegar no interior da arena da razão. Eu gostaria que pudesse dar a você uma bala mágica para a descoberta da verdade, mas eu penso que todos nós sabemos que isso é apenas um conto de fadas. O que eu acredito, contudo, é que há algumas técnicas muito úteis de abordagem, se não de descoberta, da verdade. Este livro enfatizará um desses métodos. Ele tem o nome técnico de inferência à explicação melhor (inference to the best explanation), mas mais sobre isso depois. Agora mesmo, eu simplesmente descrevê-la-ei [2]como um procedimento para distinguir a evidência boa da pobre, fraca, ou até inexistente.

Há algo quase paradoxal sobre meus dois objetivos. Eu estou para despender as próximas duas centenas de páginas estabelecendo essa abordagem para evidência e verdade e, felizmente, atraindo você para a arena da razão ao mostrar que ela é divertida, interessante, e valiosa. O paradoxo potencial jaz em minha convicção absoluta de que você já está escondido na arena da razão – que você já valoriza a verdade e de que você já é um avaliador talentoso de evidências.

Então, por que me importa com escrever meu livro? Considere uma analogia. Você é habilidoso em alguma coisa – tocar piano ou jogar golfe. Mas você também está frustrado. Você não é tão bom nisso quanto você gostaria de ser. Você decide ir a um professor de música ou profissional do golfe para aperfeiçoar seu toque do piano / jogo de golfe. Se você for sortudo o suficiente, encontrará alguém que pode pegar essa habilidade que você tem e afiá-la, ajudar você a romper com alguns maus hábitos, mostrar a você alguns novos truques, encorajar você a praticar, e voilà, melhorando significantemente o seu toque do piano / jogo de golfe. Eu seria uma piada como instrutor de golfe, e eu absolutamente não toco música, mas eu acredito que eu sou arrogante o suficiente para pensar que poderia ser um treinador muito bom de pensamento crítico.


As Habilidades e Valores que Você já tem


Talvez você abomine a política, pense que a história é enfadonha, ou acredite que a ciência contemporânea esteja além de você. Eu espero mudar seu entendimento sobre tudo isso. Mas, mesmo se eu falhar, você ainda está emperrado na arena da razão. Você importa-se com a verdade, ou em um jargão menos pretensioso, como o que é ou não verdadeiro. Alguém conta a você que seu (sua) namorado(a) é infiel. Ele está certo, mentindo maliciosamente, ou simplesmente interpretando mal comentários e ações bastante inocentes? Você certamente se importa com as respostas a essas questões. O seu médico diz a você para não se preocupar com os sintomas que você descreve e que você ficará bem. Você seria maluco de não se importar se ele é um especialista nessa área da medicina ou se ele está diagnosticando incorretamente a sua condição. Um amigo conta a você que a aula de hoje está cancelada, mas se uma nota boa importa para você, você se importará muito se ele sabe do que está falando.

Considere o caso da coitadinha da Connie. Ela pensa que o namorado dela está – no tipo de sentido inocente do ensino médio dos anos de 1950 – traindo-a. Ele afirma que é inocente. Ela importa-se muito se a teoria dela é verdadeira. Mas as suspeitas dela não são simples paranoia; ela acredita que tem uma boa evidência e está tão certa de que está correta que está prestes a romper com ele. Ela expõe sua situação em um poema (bem, realmente em uma canção pop cafona).


A letra de música para “Lipstick on Your Collar” pode ser encontrada aqui: https://www.azlyrics.com/lyrics/conniefrancis/lipstickonyourcollar.html. Connie Francis interpretando a canção dela pode ser encontrada aqui: https://youtu.be/YmlALAaEwfA.


Aqui está a história do namorado dela em poucas palavras. Ela e o namorado dela foram a um record hop. Ele desculpou-se, dizendo que queria conseguir uma soda. Mas ele ficou fora por meia hora. Quando ele retornou, Connie notou uma marca de batom no colarinho da camisa dele. Ele contou a ela que era do batom dela. Ela pensou sobre isso, mas percebeu que o batom dela era rosa bebê, enquanto que a marca na camisa dele era vermelho brilhante. Exatamente enquanto ela estava arranjando tudo isso, a melhor amiga dela, Mary Jane, entrou, e Connie viu que o batom de Mary Jane estava todo bagunçado. Connie conclui que o namorado dela e Mary Jane [3]estavam abraçando-se – beijando-se – durante a ausência de meia hora.

Connie não é advogada, nem cientista de foguetes, nem mesmo uma estudante de faculdade, mas tampouco ela é tola. Ela é esperta o suficiente para ler os sinais, reconhecer o que está acontecendo, e estabelecer um caso persuasivo. As habilidades de Connie são precisamente as habilidades que todos os seres humanos inteligentes possuem, são essas as habilidades que nós construiremos neste livro.


A Verdade e a Contemporânea Cultura Acadêmica


A comunidade acadêmica envia-nos muitos sinais de que nós não valorizamos a verdade ou, pelo menos, de que nós não deveríamos valorizá-la. Muito de pesquisa séria em filosofia, história da ciência, sociologia, crítica literária, e mais conta a acadêmicos como eu que toda a verdade e conhecimento são relativos a quem nós somos – nossa raça, sexo, idade, etnia, e circunstâncias históricas – e que não há tal coisa como a verdade “absoluta” (real?). Considere os pensamentos de Richard Rorty:


O que nós precisamos é fazer uma distinção entre a afirmação de que o mundo está lá fora e a afirmação de que a verdade está lá fora. Dizer que o mundo está lá fora, que não é nossa criação, é dizer, com bom senso, que a maioria das coisas no espaço e no tempo são efeitos de causas que não incluem estados mentais humanos. Dizer que a verdade não está lá fora simplesmente é dizer que, onde não haja sentenças, não há verdade, que sentenças são elementos de linguagens humanas, e que linguagens humanas são criações humanas.

A verdade não pode estar lá fora – não pode existir independentemente da mente humana – porque sentenças não podem existir dessa maneira, ou estar lá fora. O mundo está lá fora, mas as descrições do mundo não. Somente descrições do mundo podem ser verdadeiras ou falsas. O mundo em si mesmo – sem a ajuda das atividades descritivas de seres humanos – não pode …

O mundo não fala. Apenas nós falamos. O mundo pode, uma vez que nós tenhamos programado a nós mesmos como uma linguagem, levar-nos a sustentar crenças. Mas ele não propõe uma linguagem para falarmos.”2


Eu acredito que Rorty tem alguma coisa muito importante aqui, mas que sua intuição está seriamente mal caracterizada – que ele está, se você desejar, dizendo alguma coisa que é tanto verdadeira quando falsa ao mesmo tempo.

Connie é um ser humano com um cérebro, sistema nervoso central, e órgãos dos sentidos. Ela vê coisas – a marca de batom, sua cor, e a cor de seu próprio batom. Ela ouve coisas – a desculpa esfarrapada do namorado dela. E ela forma uma teoria sobre o que está acontecendo. A teoria dela está, para uma alguma linguagem carregada, “na cabeça dela,” e os fatos que fazem com que a teoria dela seja verdadeira ou falsa “estão lá fora.” Como nós vinculamos a teoria (O que Rorty chama de “estados mentais,” “sentenças,” ou “descrições do mundo”) com os fatos? As coisas já seriam suficientemente ruins se o que nós tivéssemos de fazer fosse propor uma explicação de como cérebros e órgãos dos sentidos permitem-nos ver e ouvir coisas. Filósofos têm trabalhado nesses problemas por 2500 anos, e eu tenho de informar a você que ainda a muito trabalho a fazer.

Mas também há outros sérios problemas. Todas as ocorrências neurais de Connie dão origem a crenças – “sua mancha é vermelha, mas meu batom é rosa bebê.” Algumas das crenças dela são verdadeiras, mas outras são falsas. O cérebro e os órgãos dos sentidos de Connie desempenham um papel central para a ajudar a distinguir as crenças verdadeiras daquelas que são falsas. Até agora, a história é sobre natureza. Mas a [4]intuição central de Rorty é de que há toda uma outra história a ser contada em termos da criação (nurture) de Connie. Todas as tentativas dela de descobrir a verdade, de encontrar evidência para o que é verdadeiro, são coloridas pelo que ela é, e isso é tanto uma ajuda quanto um obstáculo. Nós não simplesmente vemos e ouvimos o mundo; nós aprendemos a ver e a ouvir o mundo. Nós somos dotados de um sistema nervoso central notavelmente poderoso pela seleção natural (ou talvez como um presente de Deus). Nós temos isso simplesmente em virtude de sermos seres humanos. Mas nós também somos produtos de nossos contextos, de nossa aprendizagem, de nossas experiências, e de nossos prejuízos. É triste mas ainda um fato, eu acho, que homens e mulheres, brancos e negros, e jovens e velhos estão condenados a pensar de maneiras um pouco diferentes. Como pode haver uma verdade sobre se a mudança climática é real ou se sistema de saúde universal é uma política sábia quando você e eu estamos fadados a ver as coisas diferentemente por causa de nossas diferenças em idade, etnia, e gênero – para não dizer nada quanto às afiliações políticas e convicções religiosas?

Embora uma vez promotor entusiasta, eu vim a rejeitar essa visão relativística por duas razões. Rorty persuasivamente nos conta sua história sobre criação (nurture), mas meio que esquece da história sobre natureza. O sistema nervoso central de Connie não está simplesmente ali; ele está lá por uma razão. Seu inteiro propósito é proporcionar a ela dados sobre o mundo lá fora. E sistemas nervosos centrais parecem fazer seu trabalho muito bem. Não é que nós apenas tenhamos sobrevivo como uma espécie, mas que nós temos sobrevivido tão exitosamente que nos tornamos a única espécie capaz de alterar o mundo inteiro. Assim, sim, nós temos um problema de relativismo cultural, e é um problema com o qual nós seremos forçados a lidar durante o restante deste livro. Mas nós também temos um aparato físico esquisitamente projetado que nos permite formar imagens do mundo lá fora (talvez como ele realmente é).

Toda a muita abstrata coisa acadêmica também tem um desfecho muito infeliz. É algumas vezes usada como um obstruidor de discussão, até entre os acadêmicos mesmos. Se as pessoas com as quais eu converso, das quais eu produtivamente discordo, e talvez até raciocine com alguma visão compartilhada fossem exatamente como eu, o mundo seria um lugar muito solitário. Certamente, Connie é um produto de quem ela é. A idade, o sexo, a raça e a classe socioeconômica dela inevitavelmente influenciam o que ela vê e o que ela pensa sobre. Eu tomo isso como um dado. Mas no que ela está pensando não está apenas “na cabeça dela,” mesmo se as sentenças, crenças e teorias dela estejam. Você e eu podemos pensar sobre a teoria dela, jazer julgamentos sobre sua irrefutabilidade, e frequentemente chegarmos ao acordo sobre tudo isso, independentemente das diferenças sem conta em quem nós somos, como e quando nós nascemos, e nossos únicos contextos sociais e educacionais. Uma vez que há um mundo “lá fora” com namorados, melhores amidas, e beijos (mesmo se aquelas diferenças forem os produtos de nossa cultura compartilhada), eu acho que faz muito sentido perguntar o que realmente aconteceu quando ele esteve fora por aquela meia hora ou mais. E isso é apenas outra maneira de perguntar se a teoria dela é verdadeira.


A Verdade e a Cultura Popular: A Necessidade de se respeitar as Diferenças


Você bem pode perguntar o que toda a filosofia, ciência social e biologia evolucionista abstratas têm a ver com nossas preocupações neste livro. Bem, eu já dei a você uma razão para incluí-las. O problema das expectativas e vieses culturais é real e infecta a valoração de evidências até [5]o seu centro. Além disso, muitos de nossos professores e outras figuras de autoridades intelectual são produtos dessa cultura acadêmica, e eu penso que você necessita saber de onde eles estão vindo. Finalmente, essas considerações teóricas encontraram seu caminho para a cultura epistemológica popular.

Muitos de meus estudantes são relativistas sem remorso de duas maneiras muito diferentes. Muitos de vocês abraçam a diversidade. Vocês admiram o fato de que nós trazemos diferentes perspectivas para discussões e investigações. Vocês são contrários a depreciar aqueles que pensam diferentemente sobre religião, política, ou outras coisas que importam profundamente para vocês e seus pares. Vocês reconhecem que muitas das pessoas pensativas e decentes veem as coisas muito diferentemente do que vocês quando se chega a direitos de aborto, à pena de morte, ou até mudança climática. Uma reação muito compreensível a isso é pensar que todos têm um direito às suas próprias crenças.

No sentido do direito da Primeira Emenda à liberdade de pensamento e fala, eu concordo completamente com esse sentimento. Contudo, é uma coisa ter o direito a pensar o que vocês pensam ou acreditar no que vocês acreditam; é bem outro ter o direito de estar correto sobre o que você pensa e acredita. Meus estudantes algumas vezes dizem coisas que eu considero paradoxais. Eles contam-me que as verdades deles são simplesmente diferentes da minha. Claro, eu acredito que a seleção natural está correta (spot-on), então ela é verdadeira para mim. Mas eles acreditam que é ímpio e estúpido pensar que “o homem veio de macacos,” assim a evolução é falsa para eles. Isso é apenas outro obstruidor de discussão. Ele impede qualquer diálogo e investigação compartilhados sobre qual de nós está certo. Nós não passaremos muito tempo neste livro (embora em outro livro que eu espero escrever, isso será central) em disputas puramente morais tais como a controvérsia pró-vida / pró-escolha ou o caso a favor ou contra direitos dos animais. Um pouco depois, nós passaremos algum tempo sobre a constitucionalidade, se não a moralidade, da pena de morte. E nós passaremos uma boa quantidade de tempo examinando a evidência para a descendência com modificação por seleção natural. Considere o desacordo sobre mudança climática. Há muita paixão em ambos os lados. Isso é óbvio. As pessoas certamente têm o direito de não ser perseguidas em questões como essas – não ser rebaixadas (downgraded) por seus professores. Mas esses direitos significam que não há resposta correta para a questão última de se práticas culturais e industriais humanas estão contribuindo para a mudança climática? Ou até se a mudança climática está realmente ocorrendo? Ser tolerante com as visões dos outros é uma boa coisa, mas ser relutante em buscar algum solo comum ou até encontrar uma resposta correta é preguiça ou covardia intelectual.


A Verdade e a Cultura Popular: “Notícias Falsas” e “Fatos Alternativos”


Isso leva à segunda razão para o relativismo, se não ceticismo completo, de meus estudantes. Nenhum de nós é cientista do clima, assim nós somos dependentes de fontes externas para a maior parte de nossa informação. Mas fontes externas parecem contar-nos coisas diferentes. A imprensa “liberal” conta-nos uma história sobre mudança climática, enquanto que a imprensa “conservadora” conta uma história muito diferente. O presidente dos Estados Unidos conta-nos que a mídia tradicional é culpada de nos alimentar com “notícias falas (fake news).” Eu acredito que ele está muito errado sobre isso. Mas em quem vocês deveriam acreditar – em seu professor de filosofia ou no presidente? Minha suposição é que a maneira como vocês respondem a essa questão tem pouco relativamente pouco a ver como quem eu sou, [6]minhas credenciais, ou até com o presidente e com quem ele é. É mais provável que sua confiança em qualquer um de nós seja formada pelas fontes de mídia que vocês acompanham, em quem vocês votaram na última eleição, e o que seus amigos e sua família contam a vocês. De uma maneira, isso é apenas o problema do relativismo cultural tudo de novo. Mas alguma coisa parece ter mudado exatamente no curto espaço de tempo entre a minha geração e a sua.

Eu estou muito nervoso sobre onde essa discussão deve prosseguir. Cada geração parece olhar para a geração mais nova não apenas com perplexidade mas com um tipo engraçado de julgamento. Eles estão dando-se mal rapidamente! Meus pais realmente não podiam entender a música que eu escutava ou porque eu opunha-me à guerra no Vietnã. Eu ainda estou tentando entender o hip-hop, e eu estou perplexo sobre porque a mudança climática é uma controvérsia real. Mas a mudança cultural na qual eu estou focando-me agora não é geracional.

Deixe-me ver se eu posso tornar isso mais claro ao contar a você como eu aprendi a entrar na arena da razão de Lynch. A escola desempenhou um papel imenso, é claro, mas houve outras importantes fontes compartilhadas que uniram a minha geração com aquela de meus pais. Meus amigos, meus pais, e meus professores todos liam o Los Angeles Times, assistiam às notícias noturnas em uma das três maiores redes, e basicamente compartilhavam um estoque comum de informação sobre o que estava acontecendo no mundo à nossa volta. Nós discordávamos bastante sobre como interpretar os dados, mas, pelo menos, todos tínhamos a mesma coleção básica de fatos sobre os quais discordar. É claro, havia bastante críticos e céticos sobre essas fontes. Alguns viam o Times e CBS News como lacaios da cultura corporativa capitalista. Outros afirmavam que eles não eram nada além de propaganda liberal, antirreligiosa. Mas essas queixas eram dirigidas mais à “politica editorial” – que histórias eram cobertas, quanto tempo e espaço de linha eram dedicados a elas, e semelhantes – e, sim, às visões políticas endossadas nas páginas editoriais. Agora, eu não quero exagerar a confiança que nós tínhamos sobre tudo isso. Nós nos preocupávamos de que não estávamos obtendo a história inteira sobre a guerra ou que a Comissão Warren mentiu para nós sobre o assassinato de Kennedy. Mas essas eram as exceções, não a regra.

A sua geração, contudo, frequentemente obtém sua informação sobre o que está acontecendo a partir de fontes muito idiossincráticas na web. E, sejam elas liberais ou conservadoras, elas frequentemente parecem discordar frequentemente não apenas sobre como interpretar os fatos, mas quanto ao que são fatos em primeiro lugar. Eu não posso permanecer neutro aqui. Algumas fontes são mais confiáveis do que outras! Algumas fontes são completamente não confiáveis! Se você é sério sobre a verdade, se você importa-se com a razão, você precisa encontrar algumas fontes confiáveis de informação sobre o que está acontecendo à sua volta – o mundo da ciência, da política e tudo o mais que importa. Eu estou perfeitamente feliz em compartilhar as fontes que informam a maior parte de minhas crenças sobre o que está acontecendo no país, no mundo, e em outras áreas sobre as quais eu importo-me, incluindo esportes, filmes, música, e até ciência. Sem dúvida elas são o New York Times e o National Public Radio, particularmente Morning Edition. Em parte isso é uma questão de hábito, preferência, e conveniência. Também é uma questão de confiança. Sem dúvida, alguns de vocês estão horrorizados. É claro que essas são as fontes dele! Ele é um liberal, e elas são fontes descaradamente liberais. Provavelmente isso é verdade, mas meus melhores amigos odeiam essas fontes porque eles acreditam que elas venderam a busca da verdade por uma falsa necessidade de aparecerem como justas [7]em sua cobertura. Mas minhas fontes não têm de ser as suas fontes. Eu seria genuinamente feliz se todos os meus estudantes viessem para meus cursos verdadeiramente informados sobre o que está acontecendo via informação que eles obtiveram de fontes igualmente conservadoras tais como o Wall Street Journal ou o Economist.


Um Apelo por Pensamento Crítico


Minha vida profissional inteira foi dominado por cursos em pensamento crítico. Quando eu comecei a escola de pós-graduação, eu tive o privilégio de trabalhar com o professor Larry Wright como um de seus professores-assistentes em seus cursos de pensamento crítico. Essa foi verdadeiramente uma experiência de mudança de vida. Foi no curso dele que primeiro eu aprendi sobre a inferência para a melhor explicação, e é o seu método de valoração que dá forma a muito de meu ensino e muito de minha pesquisa profissional. Eu recriei muito do que aprendi com o professo Wright em cursos sem conta de pensamento crítico que eu ensinei e, em alguns casos, criei. Tudo isso forma o coração e a alma deste livro.

Como eu penso sobre isso, contudo, talvez a mais importante lição que aprendi não foram os detalhes de uma abordagem particular de pensamento crítico, mas somente o valor de tomar um pouco de tempo de uma ocupada carreira de graduação focada nos detalhes de especializações (majors) e complementações (minors) acadêmicas, e treinamento de carreira, e parando para refletir sobre questões mais gerais de razão, verdade, e lógica. Eu obtenho uma grande gratificação de que alguns de meus mais satisfeitos consumidores de pensamento crítico não foram estudantes marginais que necessitavam ser ensinados sobre como pensar corretamente, o que quer que se supõe que isso quer dizer, mas verdadeiramente estudantes excelentes que já possuíam todos as habilidades e ferramentas necessárias para o sucesso acadêmico. Para retornar a uma analogia anterior, até grandes pianistas e jogadores de golfe beneficiam-se de prática dedicada e de uma pouco de treinamento de vez em quando.

Assim, bem-vindo à arena da razão, onde você já estava pela quase totalidade de sua vida. E bem-vindo ao pensamento crítico. Se você der-lhe uma meia chance, eu quase posso prometer a você que você encontrará as coisas que exploramos juntos neste livro interessante e divertidas. Eu também permaneço confiante de que a maioria de vocês considerará a abordagem central para evidência e descoberta da verdade que nós desenvolveremos aqui pessoal, acadêmica e profissionalmente úteis.


Exercícios


  1. Geralmente falando, você considera que Connie tem uma boa evidência para a teoria dela de que o namorado dela estava beijando Mary Jane durante a ausência dele no record hop? Por quê?

  2. Qual você pensa que é o argumento mais forte a favor da afirmação de que a verdade é sempre relativa a quem as pessoas são, seus contextos, suas experiências, sua idade, seu sexo, sua raça e assim por diante?

  3. Qual você pensa que é o argumento mais forte contra essa visão relativista?


[8]Questionário Um


Todos os outros questionários neste curso focar-se-ão no conteúdo do curso. A maior parte da nota do questionário será determinada por quão exitosamente você demonstra seu domínio do material apresentado nas leituras e preleções. Contudo, este primeiro questionário é um pouco diferente. Aqui, eu estou pedindo a você para refletir honestamente sobre você mesmo como um pensador. A nota neste questionário será determinada por quão sincero e autorreflexivo é o seu ensaio.

Eu estou pedindo um ensaio curto – não mais do que três páginas em espaço duplo – que trate das seguintes três questões:

  1. Quanto de seu pensamento sobre questões importantes – políticas, morais, religiosas, e assim por diante – você acredita que é determinado por seu contexto individual? Sua idade, sexo, raça, tendências políticas de família, e semelhantes?

  2. Na medida em que, pelo menos, parte de seu pensamento sobre esses tipos de questões é determinado parcialmente por fatos culturais sobre você mesmo, você acredita que pode “transcendê-los” e alcançar uma valoração mais objetiva da maneira como as coisas “realmente são”? Como você poderia fazer isso?

  3. Quais são as suas principais fontes de informação sobre política, controvérsias morais, esses tipos de coisas?

Eu completamente espero que as notas neste primeiro questionário sejam bastante altas. Tudo que você precisa fazer para receber crédito total é tomar apenas um pouco de tempo para refletir verdadeiramente sobre estas questões.


Primeiro capítulo


ORIGINAL

Johnson, Jeffery L., "Inferring and Explaining" (2019). PDXOpen: Open Educational Resources. 23. p. 1-8. Disponível em :<https://pdxscholar.library.pdx.edu/pdxopen/23>.


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


Notas

1Michael P. Lynch, “Democracy as a Space of Reasons,” em Truth in Politics, ed. J. Elkins e A. Norris (Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2012), 158.

2Richard Rorty, Contingency, Irony and Solidarity (Cambridge: Cambridge University Press, 1989), 4–5, 6, 27, 51– 52.

Inferir e Explicar - Prefácio

 Inferir e Explicar


Por Jeffery L. Johnson


[vii]Prefácio


Como a filosofia é aprendida? Uma questão melhor é: como podem habilidades de pensamento ser aprendidas? O pensamento em questão envolve atenção às estruturas básicas do pensar. Isso pode ser feito bem ou mal, inteligente ou ineptamente. Mas fazê-lo bem não é primeiramente uma questão de adquisição de um corpo de conhecimento. É mais como tocar bem um piano. É tanto “saber como (knowing how)” quanto “saber isso (knowing that).”

Simon Blackburn1


Epistemologia Prática


Este é um livro sobre o que eu estou chamando de epistemologia prática. Ele reflete dois dos meus prejuízos mais profundamente sustentados como um professor. Eu acredito que questões abstratas de filosofia acadêmica são intrinsecamente interessantes não apenas para profissionais mas também para estudantes inteligentes e inquisitivos. Eu também acredito que refletir cuidadosamente sobre as grandes questões da filosofia ocidental (O que é o conhecimento? Ele é possível? Deus existe? Nós temos livre arbítrio (free will) genuíno? - para não dizer nada das igualmente importantes questões morais, políticas e legais que os filósofos colocaram e tentaram responder) melhora as habilidades gerais de pensamento crítico de alguém. Assim eu afirmaria que um bom curso de filosofia é bom para muito mais do que apenas créditos gerais em educação e será de valor não importa qual é sua especialização acadêmica (major) ou quais são suas aspirações de carreira.

O livro começa com três questões clássicas na teoria do conhecimento – Qual é o valor da verdade? Nós podemos conhecer alguma coisa? Em primeiro lugar, qual é a natureza do conhecimento? Em seguida, ele introduz um pouco de lógica e uma particular teoria da valoração – inferência à explicação melhor (inference to the best explanation). Essa visão da análise de argumentos é a base de minha inteira discussão do começo ao fim do [viii]livro. Então nós voltamos nossa atenção para algumas das questões na história e filosofia da ciência – o papel dos experimentos, a descoberta da febre puerperal por Semmelweis, a teoria de Darwin da descendência comum por seleção natural. O livro conclui com discussões sobre pena de morte, evidência como narrativa, e alguns pensamentos sobre evidência e verdade.


Pensamento Crítico


Isso traz-me a meu segundo, e até mesmo mais profundamente sustentado, prejuízo como um professor de filosofia. Eu estou comprometido com o valor do pensamento crítico – ou, como algumas vezes é chamado, da lógica prática ou informal – como uma ferramenta para sucesso na graduação e profissional. Eu alego pouca modéstia aqui. Eu ouvi de estudantes demais que as técnicas desenvolvidas entre os capítulos 4 e 12 provaram-se não apenas úteis mas essenciais em suas aulas na graduação e pós-graduação e, de fato, em suas vidas profissionais.

Onde eu reivindico alguma modéstia, contudo, é que eu tomo pouco crédito pela descoberta dessas técnicas. Elas todas primeiro foram articuladas por meu amigo e mentor, Larry Wright. Eu tive a honra de trabalhar com Larry como professor-assistente quanto ele estava compilando sua primeira articulação publicada da inferência à explicação melhor como um procedimento para análise de argumentos.2 Essa experiência na escola de pós-graduação fundamentalmente deu forma à minha percepção do que é ser um filósofo e do que é ser um efetivo professor de graduação. A inferência à explicação melhor continuou a dar forma a muito do que eu tenho feito em meu estudo acadêmico-profissional. Ela também guiou minha própria carreira de ensino. A Larry, eu tenho um débito de gratidão que realmente não pode ser expresso.

Se este livro não realizar nada mais, pelo menos eu espero que ele instigue os leitores a utilizarem o procedimento um pouco estruturado, quase ritualístico, que eu estou chamando de receita para inferência-à-explicação-melhor como um teste da qualidade da evidência apresentada em um argumento. Eu acredito que você ficará agradavelmente surpreso com quão frequentemente ela prova-se exitosa.


Para meus Leitores Estudantes


Eu quero que este livro seja divertido, interessante, e útil para você. Dependendo de sua personalidade acadêmica e intelectual, pode comprovar-se impossível alcançar todos esses objetivos. Mas, mesmo se eu falhar em transmitir o interesse intrínseco em questões filosóficas e intelectuais, e até se você considerar meu estilo enfadonho e pedante, eu espero que você descubra a utilidade no estudo e análise cuidadosos e sistemáticos de argumentos. A inferência à explicação melhor não é a única abordagem para análise de argumentos (embora eu permaneço confiante em que seja a mais valiosa), mas é uma que encoraja ampla aplicação aos tipos de argumentos que nós encontramos em nossas vidas diárias e profissionais e, é claro, e nas ciências naturais e na maior parte do tipo currículo de graduação.

Se eu tiver quaisquer leitores que não estejam em cursos formais de filosofia ou que não estejam usando este livro como uma fonte suplementar, eu gostaria de estender um convite sincero. Cada capítulo conclui com alguns exercícios e com o que eu estou chamado de um questionário. Se você quiser uma resposta (feedback) em algum ou em todos esses, eu estaria feliz em o fornecer. Eu sempre estarei disponível no seguinte endereço de e-mail: jjohnson@oeu.edu.

Por favor, sinta-se livre para me contatar com quaisquer questões ou pedidos de resposta. E, é claro, eu daria boas vindas a ouvir sobre quaisquer enganos, [ix]erros de digitação, e semelhantes. Uma das alegrias deste tipo de publicação é que erros podem ser corrigidos com relativa facilidade.


Para meus Companheiros Instrutores de Filosofia


Eu usei rascunhos iniciais deste manuscrito em dois cursos muito diferentes. Os mais simples desses são cursos em pensamento crítico. Embora eu gostaria de pensar que todo o material seria útil em tais contextos, bem posso imaginar instrutores que escolheriam usar apenas os capítulos 1 e de 4 a 12 ou talvez o capítulo 13. Esse é o material no qual eu tenho focado a maior parte do meu ensino de pensamento crítico pelos últimos quarenta anos.

Contudo, o curso para o qual este livro foi originalmente projetado foi um curso de introdução à filosofia. Na Eastern Oregon University, o curso que eu criei era chamado de Eu, Mundo, e Deus (Self, World, and God). A parte relativa a Deus, é claro, eram questões em filosofia da religião, e a parte sobre o eu eram questões em psicologia filosófica e ciência cognitiva. Mundo (World) era um categoria geral (catchall) para epistemologia, filosofia da ciência, e uma metodologia geral para análise argumentos em termos de inferência à explicação melhor – o material esboçado neste livro.


Dois Débitos Adicionais


Todos os autores precisam reconhecer a ajuda e o suporte de seus parceiros de vida. O entendimento e amparo daqueles que alguém ama são quase pré-condições para escrita de sucesso. Em meu caso, eu tenho tido a incrível boa fortuna de ter uma brilhante, talentosa e inacreditavelmente encorajadora esposa por agora quase cinquenta anos. Coleen não é apenas uma linda senhora que eu amo mais do que posso expressar, mas, por quase trinta anos, ela foi minha colega mais próxima durante exatamente o tempo em que este livro esteve sendo testado em meus cursos e quanto eu comecei a compor os primeiros esboços dos capítulos aqui contidos. Nós ensinamos juntos e discutimos a inferência à explicação melhor tão frequentemente que é quase tão difícil separar meus pensamentos sobre essas questões dos dela como separar os de Larry Wrigght. Obrigado, Colly.

Finalmente, eu preciso reconhecer e agradecer à Biblioteca da Portland State University por me conceder uma bolsa para completar este livro como parte de sua iniciativa PDXOpen: Open Access Textbooks. Em particular, eu devo a Srta. Karen Bjork, líder das iniciativas digitais, um grande agradecimento e congratulação. Karen não somente defendeu meu projeto desde o começo mas me preparou e persuadiu-me ao caminho certo em minha escrita e financeiramente assegurou fundos adicionais para edição (copyediting) profissional. Muito obrigado, Karen.


Primeiro capítulo


ORIGINAL

Johnson, Jeffery L., "Inferring and Explaining" (2019). PDXOpen: Open Educational Resources. 23. p. vii-ix. Disponível em :<https://pdxscholar.library.pdx.edu/pdxopen/23>.


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


Notas

1Simon Blackburn, Think (Oxford: Oxford University Press, 1999), 5.

2Larry Wright, Better Reasoning (New York: Holt, Rinehart, Winston, 1982).

terça-feira, 24 de agosto de 2021

AC, Antes dos Computadores Epílogo (FINAL)

AC, Antes dos Computadores: Sobre a Tecnologia da Informação, da Escrita à Era do Dado Digital


Por Stephen Robertson


Capítulo anterior


[143]Epílogo


Nós vimos uma confusão de diferentes ideias, desenvolvendo-se através do curso da história, interagindo umas com as outras, alimentando-se umas das outras, organizadas por pessoas com uma ampla variedade de motivações diferentes. Nós vimos a noção de dados emergir gradualmente e gradualmente absorvem muitos outros conceitos. A informação, a qual poderia ser vista como uma abstração como matéria e energia, é em certo sentido “transportada” pelos dados, ou talvez pode ser extraída deles. Números são dados, texto são dados, imagens são dados, música são dados. Mas isso é apenas o começo – agora, tudo o que nós fazemos, cada interação que nós temos com qualquer parte do mundo em torno de nós, são dados.

É claro, tudo isso é absurdo. A música (apenas para tomar um exemplo) é uma experiência humana, ou melhor, um grande número de experiências humanas, e considerá-la como dados é ignorar ou colocar de lado tanto a natureza quando a validade da experiência, quer de composição ou de performance ou de audição. Mesmo assim, é conveniente fingir que música são dados, porque há muito o que nós podemos fazer com isso como um resultado desse fingimento. Não somente nós podemos gravar, armazenar, recuperar, transmitir, broadcast música como dados, nós também podemos fazer uso de qualquer número de ferramentas digitais (bem como de eletrônicas analógicas um pouco mais velhas) como parte do processo de criação tanto em composição quanto em performance.

No século XXI, dados, processamento e manipulação de dados e todo o grande número de tecnologias em torno de dados, são centrais para como nós vemos o mundo. Nesses dias de proteção e privacidade de dados, de leis e regulamentos em torno desse domínio, de mineração de dados, de roubo de dados, de pessoas e organização que implacavelmente coletam dados sobre nós e que nos manipulam ao manipularem nossos dados, e assim por diante – nesses dias, é difícil reimaginar o mundo como ele era antes que a noção de dados tomasse de conta. O computador digital – junto com todas as outras tecnologias de informação e comunicação – é claro, está no núcleo desse mundo centrado em dados. E é por isso que é tentador falar da invenção do computador como tendo proclamado uma [144]revolução.

Então, foi uma revolução? A chegada dos computadores resultou em uma derrubada da existente ordem das coisas e sua substituição por alguma fundamentalmente nova?

Certamente, o efeito em nossas vidas dos desenvolvimentos no domínio das tecnologias da informação e comunicação, subsequente a e, ao menos e até certo ponto consequente da invenção dos computadores nos anos de 1940, tem sido imenso, possivelmente revolucionário. O mundo do e-mail, da internet, compras online, gerenciamento online de contas bancárias, celulares passando-se câmeras, rádio e televisão digitais, som e filmes gravados baixados, navegação por satélite, e-books, Google, Wikipedia, mídias sociais – tudo isso teria sido completamente extraordinário, alguma coisa como no reino da fantasia, para meus pais na época que eu nasci.

No entanto, a ordem existente raramente é posta de lado tão facilmente. O que este livro demonstrou, eu espero, é a extraordinária quantidade de coisas – de conhecimento, entendimento, invenção, maneiras de pensar e fazer, ideias, métodos e técnicas – que nós trouxemos conosco através dessa jornada. De muitas maneiras significantes, o mundo da TI não apenas extrai do passado, mas está enraizado nele. Esse passado não é apenas (embora ele inclui muito) a dupla de séculos seguindo-se à Revolução Industrial, mas ele volta muito atrás – à Renascença, à invenção da imprensa, aos matemáticos árabes do século IX e hindus do século VII, ao império romano, aos gregos e aos fenícios, à invenção da escrita mesma.


ORIGINAL:

Robertson, Stephen, B C, Before Computers: On Information Technology from Writing to the Age of Digital Data. Cambridge, UK: Open Book Publishers, 2020. p.143-144. Disponível em: <https://doi.org/10.11647/OBP.0225>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0

AC, Antes dos Computadores 12 Cifras

AC, Antes dos Computadores: Sobre a Tecnologia da Informação, da Escrita à Era do Dado Digital


Por Stephen Robertson


Capítulo anterior


[131]12 Cifras


É fácil pensar nos computadores como calculadoras gigantes, e de fato a tarefa de cálculo e sua mecanização contribuíram tanto para a ideia da construção de tal máquina quanto para o conceito das tarefas às quais ela poderia ser endereçada. Tarefas difíceis de cálculo tais como aquelas envolvidas em balística (particularmente em tempos de guerra) proveram parte do estímulo na direção do desenvolvimento pós-Segunda Guerra Mundial dos computadores. Mas nós vimos há pouco, no capítulo anterior, como um tipo bastante diferente de tarefa estimulou uma forma diferente de mecanização que nos trouxe próximos da era do computador. O estímulo principal para a invenção atual dos computadores novamente veio de outro domínio.

O desafio era quebrar os códigos usados pelos inimigos a fim de ser capaz de ler as mensagens supostamente secretas, no viveiro tecnológico que foi a Segunda Guerra Mundial. Para vermos como isso aconteceu, nós novamente começamos muito antes.


Códigos e cifras


Através da história, as pessoas sentiram a necessidade de escrever mensagens (mensagens ponto a ponto, nos termos de nossa discussão anterior) que seriam ilegíveis por qualquer outro exceto o destinatário pretendido, especialmente por qualquer um que poderia interceptá-las na rota. Comandos militares, relatórios de inteligência, instruções para agentes, cartas de amor, arranjos para encontros, planos para qualquer tipo de ação ou atividade que poderiam levar a contramedidas de qualquer tipo por qualquer terceiro – tudo isso e muito mais poderia ser considerado pelo emissor como necessário de encriptação.

Uma vez que a palavra código (code) está um pouco sobrecarregada no uso atual, eu usarei a palavra encriptação (encryption) para indicar a colocação de alguma mensagem em código, de uma maneira que ela somente possa ser lida por uma pessoa que tenha a chave para o código, e [132]cifra (cipher) como o método ou regras para o fazer. A mensagem original é texto puro (plain) e a criptografia resulta na mensagem encriptada ou cifrada. A recuperação do texto simples (dada a chave) é decriptação (decryption). A descoberta da chave, ou até do completo sistema de cifra, eu ainda posso referir como quebra de código (code-breaking), em deferência ao uso popular, o assunto inteiro, de design das cifras e de as quebrar, e do estudo de suas propriedades (tais como se, em princípio, elas são quebráveis) é a criptografia.

Um livro com uma explicação maravilhosa dos diferentes tipos de cifras que têm sido usadas ao longo da história, e os esforços dos oponentes para as quebrar, é The Code Book, de Simon Singh. Muito do resto deste capítulo é extraído do livro de Singh.


O alfabeto e encriptação


Desde o começo e até o dia de hoje tem havido algum uso de sistemas de código baseados em palavras. Uma notícia em um jornal de hoje sobre minha mesa descreve um caso no qual algum alegado conspirador terrorista “usou palavras codificadas” para algumas palavras que possivelmente soam suspeitas, como armas de fogo. Mas tais sistemas são planejados para disfarçar e camuflar uma mensagem codificada, tornando-a menos suspeita e portanto menos provável de atrair atenção. Outra abordagem é ocultar completamente a existência de uma mensagem.

Contudo, a maioria da criptografia trata da questão de como tornar uma mensagem ilegível até quando o adversário está de posse do que ele ou ela suspeita ou sabe ser uma mensagem cifrada. Mais uma vez, é difícil conceber muito da história da criptografia sem o alfabeto. A maioria dos sistemas encriptados através da história têm sido baseados em alfabeto. As cifras tipicamente envolvem um ou ambos de: rearranjo das letras da mensagem, e/ou substituição de diferentes caracteres para essas na mensagem. Mesmo no Japão e na China, nós vemos evidência do uso de alfabetos ou de conjuntos de símbolos semelhantes a alfabeto para encriptação. Cifras japonesas tendem a ser baseadas em um dos alfabetos fonéticos (kana), enquanto que uma cifra chinesa poderia usar, por exemplo, ou um alfabeto fonético ou o assim chamado método dos Quatro Cantos para encriptação de cada caractere em quatro ou cinco números, o qual também é usado como um tipo de substituto para ordem alfabética, para ordenação e, em seguida, exame dos caracteres.

Dado um alfabeto, um dos tipos mais simples de encriptação é substituir para cada letra em uma mensagem a letra três posições adiante no alfabeto [133](essa era a cifra usada por Júlio César). Se eu fizer isso para o título desta seção1, eu obtenho:


Wkh doskdehw dqg hqfubswlrq.


Ou eu poderia escolher uma troca diferente, ou eu poderia rearranjar o alfabeto cifrado de alguma maneira. Meu destinatário pretendido precisa saber que sistema de cifra eu usei, uma chave que o ou a capacitará a decriptar a mensagem: tanto o princípio (‘troca alfabética’, por exemplo) quanto o número de caracteres trocas.

Mas, como nós deveremos ver em um minuto, tais cifras, nas quais um texto puro (plaintext) e é sempre representado pelo mesmo símbolo na mensagem cifrada (nesse caso um h)2 normalmente são fáceis de quebrar. Para fazer uma cifra mais forte, nós poderíamos usar todas as 26 trocas possíveis do alfabeto, e uma chave que nos diz que troca usar para cada letra. A chave é uma palavra, a primeira letra da qual nos diz qual troca usar para a primeira letra da mensagem, a segunda para a segunda, e assim por diante. Quando nós alcançamos o final da palavra-código (codeworld), nós retornamos ao começo. Essa é a base para a cifra de Vigenère, inventada por Blaise de Vigenère no século XVI.

A cifra de Vigenère faz uso do quadrado de Vigenère, mostrando todas as trocas possíveis do alfabeto (ver figura 18). Suponha novamente que você queira encriptar o título desta seção, e a palavra-código é revolução. Nós escrevemos nosso texto puro e, sob ele, a palavra-código, repetida tantas vezes quanto necessário para corresponder a cada letra do texto simples. Então nós examinamos cada letra do texto simples na linha do topo do quadrado de Vigenère, e encriptamo-la com a letra correspondente na linha identificada pela letra da palavra-código. O primeiro resultado (coluna T, linha R) é circulado na figura. Dada a palavra-código, a decriptação é igualmente simples – mas você necessita da palavra-código.


THE ALPHABET AND ENCRYPTION texto puro

REV OLUTIONR EVO LUTIONREVO palavra-código repetida

KLZ OWJAIPRK EIR PHVZMCKMJB texto cifrado


[134]Figura 18: Quadrado de Vigenère. Diagrama: o autor.


A cifra de Vigenère é muito mais forte do que a simples substituição por troca alfabética, e considerava-se ser inquebrável. No exemplo, você pode ver que os dois As em alfabeto são representados por letras diferentes no texto cifrado. Mas ela pode ser quebrada – o homem que estabeleceu esse fato foi [134]alguém que nós já encontramos no capítulo 10: o matemático e inventor do século XIX Charles Babbage.


Quebra de código


Suponha que eu esteja de posse de uma mensagem cifrada, ou de um conjunto de tais mensagens de uma única fonte – mas eu não sou o destinatário pretendido, e não conheço a cifra. Se eu tiver qualquer razão para acreditar que a cifra é uma simples troca alfabética, ou de fato qualquer simples substituição um para um, então deveria ser fácil para eu descobrir a chave e, desse maneira, decriptá-la. Em particular, o número de ocorrências de cada letra fornecerá uma pista clara de quais letras foram substituídas, digamos, E ou T ou A (as letras mais comuns em inglês). Quão mais longa a mensagem mais fácil será, mas na curta mensagem acima, eu tenho três de cada E e T, e também N, e somente dois As.

Mesmo assim, nós imediatamente vemos que a quebra é um tipo diferente de tarefa da [135]encriptação e decriptação. Tanto a encriptação, quanto a decriptação para o destinatário de posse da chave, envolvem um conjunto muito simples de regras. A quebra da cifra, contudo, é um pouco mais complexa. O quebrador de código (code-breaker) pode ter de fazer alguma contabilidade e estatística, e então tentar um número de possibilidades.

O método de Babbage para quebra da cifra de Vigenère envolve procurar por sequências repetidas de caracteres na mensagem cifrada. A distância entre tais sequências dar-nos-á boas pistas quanto ao tamanho da palavra-chave usada, após a que, uma extensa forma de análise da estatística da ocorrência de letras, como usada para quebrar simples cifras de substituição, é provável de ser efetiva.

Contudo, usar uma chave mais longa (por exemplo, uma frase ou poema inteiro) torna-a mais difícil de quebrar. O estágio final desse desenvolvimento era construção de uma série inteira de longas chaves aleatórias, cada uma impressa em uma folha separada de papel, formando um bloco (pad), do qual emissor e receptor teriam cada um uma cópia. O emissor encriptaria uma mensagem usando a primeira folha, e em seguida descartaria a primeira folha de maneira que ela nunca fosse usada novamente. O destinatário decripta-la-ia também usando a primeira folha, e em seguida descartaria a folha. Essa cifra, o bloco de uso único (one-time pad), foi inventada por Joseph Mauborgne para o exército dos EUA ao final da Primeira Guerra Mundial, e conhecida como inquebrável por qualquer um que não esteja de possa do bloco de uso único. Sua principal limitação é a necessidade de produzir e seguramente distribuir o bloco.

De fato, o processo de invenção de melhores cifras (por aqueles tentando enviar e receber mensagens seguras) e a invenção de novas maneiras de as quebrar (por seus inimigos) é um jogo que muitas pessoas jogaram por milênios.


Métodos e máquina


Dado que os processos de encriptação e de decriptação são normalmente baseados em regras bem definidas, é um pouco surpreendente que o uso de auxílios mecânicos fosse lento para iniciar. Simples cifras de substituição não requerem mais do que tabelas de duas linhas: letras do texto puro na linha do topo e substitutas abaixo. A cifra de Vigenère requer uma tabela quadrada, com cada das 26 trocas alfabéticas possíveis em sua própria linha. Mesmo o bloco de uso único é essencialmente baseado em papel.

Contudo, também é possível construir um simples aparelho mecânico para ajudar [136]ou a encriptação e decriptação por substituição ou no estilo Vigenère, na forma de um par de discos um dentro do outro. As letras do alfabeto são escritas em volta das extremidades de cada disco, e o dico interior é rodado em relação ao disco exterior para estabelecer uma única tabela de substituição. Se ele for adicionalmente rodado durante a encriptação, uma cifra do estilo Vigenère é produzida.

Um disco semelhante foi inventado por Leon Alberti no século XV, e aparelhos similares estiveram em uso por um longo tempo, incluindo a Guerra Civil Americana. Talvez surpreendentemente, não foi antes do século XX que o uso de maquinário para encriptação e decriptação avançou muito além. Contudo, a aplicação de um complexo sistema de cifra realmente sugere ou até exige maquinaria: quão mais complexas as regras a serem aplicadas, tanto mais importante é delegar a operação das mesmas a uma máquina, da qual se poderia esperar não cometer erros.

A mecanização de encriptação e decriptação não decolou realmente até a invenção da máquina Enigma. As forças armadas alemãs famosamente usaram o Enigma como seu aparelho de cifra preferido durante a Segunda Guerra Mundial, com mudanças diárias de chaves; e os britânicos, igualmente famosamente, tinham em Bletchley Park um estabelecimento dedicado à leitura das mensagens cifradas alemãs, o qual de fato repetida e exitosamente quebrava essas cifras diárias.


Enigma


A Enigma gera uma substituição letra por letra da mensagem limpa, mas a tabela de substituição efetivamente muda com cada letra. Mas, diferentemente do original sistema Vigenère baseado em palavras-chave, a tabela não se repete a cada poucas letras. É mais comparável ao bloco de uso único.

É uma máquina fascinante no seu próprio direito. Desenvolvida em 1918 por Arthur Scherbius, ela parece muito com uma máquina de escrever – de fato, o teclado é baseado estritamente no teclado de Sholes descrito no capítulo 5 (o qual, por 1918, estava bem estabelecido como a forma padrão de teclados para máquinas de escrever). Mas, em vez de papel, a parte traseira da máquina tinha uma réplica do teclado em uma placa de lâmpadas (lampboard), um arranjo de discos com letras cada um com uma lâmpada atrás – ver figura 19. (Você pode notar de passagem que esse teclado difere um pouco do teclado da máquina de escrever de Sholes (capítulo 5), embora obviamente derivado dele. Em particular, os deslocamentos (offsets) diferem – tendo apenas três linhas, [137]os deslocamentos são um terço da largura da tecla. Digitadores (touch-typist) teriam notado isso!)


[137]A letra L é pressionada, e a lâmpada D é ligada. Figura 19: Máquina Enigma.https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Enigma_Machine_A16672_open,_letter_L_pressed.agr.jpg CC BY-SA 4.0.


A mensagem limpa é digitada, como poderia ser uma máquina de escrever, mas a cada pressionamento de tecla, em vez de impressão, uma dessas lâmpadas é iluminada, indicando uma nova letra – o código cifrado para ser usado para a letra recém-teclada. A letra iluminada então tem de ser registrada de alguma maneira – escrita ou digitada ou transmitida diretamente.

Os mecanismos que permitem a continuamente mutável tábua de substituições são vários e engenhosos, e eu não tentarei descrevê-los aqui. Eles dependiam das configurações iniciais, as quais eram mudadas diariamente; uma vez em uma mensagem, as configurações eram mudadas automaticamente pelo processo de digitação da mensagem. Quer dizer, cada pressionamento de tecla resultava não apenas na codificação de uma letra da mensagem, mas também no rearranjo da tabela de correspondências para o próximo pressionamento de tecla.

A cifra resultante era extremamente complexa e difícil de quebrar, mas [138]a complexidade não surgia tanto de regras complexas, mas sim a partir da combinação das múltiplas aplicações de regras simples. Essa é exatamente a província da maquinaria à época, e não é surpreendente que encriptação e decriptação deveriam ter sucumbido a alguma forma semelhante de mecanização, não muito depois da máquina de escrever e do comptômetro.


Quebrando a Enigma


Como eu indiquei, a quebra de código é uma ordem completamente diferente de tarefa. Quase inevitavelmente, dada uma séria de mensagens cifradas, a quebra de um sistema de cifra, envolve uma combinação de conhecimento ou conjectura (guesswork) dos mecanismos envolvidos na cifra (ou melhor, das regras que eles mecanizam), conhecimento ou conjectura sobre configurações de chave, tentativa e erro. Há uma sensação muito forte de que a quebra de código é uma forma de arte. Como qualquer forma de arte ela tem sua tecnologia suportante (tanto na forma da maquinaria quanto na forma da habilidade (know-how), métodos e maneiras de fazer as coisas, conjuntos de regras que podem ser aplicadas), mas ele também necessita de inspiração. Isso certamente não é verdadeiro da encriptação ou decriptação. Poderia ser dito verdadeiro da invenção de novos sistemas de cifras – e de fato há algumas invenções do final do século XX que parecem verdadeiramente inspiradas – mas como um viveiro para o desenvolvimento de novas maneiras de pensar, é difícil superar Bletchley Park.

Bletchley Park era o estabelecimento do governo do Reino Unido, durante a Segunda Guerra Mundial, encarregado das tentativas de ler quaisquer mensagens inimigas cifradas interceptadas. Muitas das mensagens de ou para unidades militares de todos os tipos, da Alemanha e outros poderes do Eixo, foram interceptadas e enviadas a Bletchley Park. E por grande parte da guerra, muitas dessas mensagens foram exitosamente decriptadas. Sempre havia um desafio no começo do dia, porque as chaves eram mudadas e a nova chave tinha de ser descoberta a partir de algumas das mensagens anteriores interceptadas. Então, por alguns longos intervalos, semanas ou meses, uma cifra particular poderia tornar-se ilegível por causa de uma mudança em alguma parte do procedimento de encriptação pelos alemães – até que as pessoas em Bletchley Park descobrissem como lidar com essa nova variante.


[139]Criptografia no pós-guerra


Na subsequente história da criptografia, seguindo-se ao final da Segunda Guerra Mundial, o computador agigantou-se. A maioria dos sistemas modernos de cifra são baseados em computador, no sentido de que programas de computador são usados para encriptação e decriptação assim como pelos quebradores de código. De fato, a maioria dos sistemas faz uso do fato de que uma mensagem em um computador (necessariamente em um dos códigos binários discutidos no capítulo 5) parece muito com um número, ao qual operações aritméticas podem ser aplicadas. É claro, ela não é realmente um número, mas com certas ressalvas nós podemos fingir que é. Nós podemos encriptá-la ao aplicar operações aritméticas a ela, tais como adição e multiplicação; a decriptação então significa o inverso dessas operações.

Uma das grandes descobertas da criptografia nesse período é o princípio de assimetria. Ele é baseado no fato de que algumas operações aritméticas são fáceis de realizar em uma direção, mas muitos difíceis em outra (é fácil multiplicar dois grandes números primos; é muito mais difícil fatorar o produto e redescobrir os dois primos originais). O sistema de cifra resultante é conhecido como Criptografia de Chave Pública (Public Key Cryptography). Ele permite à pessoa que quer receber uma mensagem cifrada tornar pública uma chave de encriptação; qualquer um que queira enviar a uma mensagem a ele / ela pode usar essa chave para a encriptar. Contudo, a chave de decriptação é diferente. Apenas o destinatário da mensagem conhece essa chave de decriptação – ela precisa nunca ser tornada pública para outros. Em princípio, isso constitui uma configuração muito mais segura – em quase todos os sistemas anteriores de cifra, emissor e receptor teriam de compartilhar uma chave, e a necessidade de compartilhamento é uma fonte principal de insegurança.


Bletchley Park e seu legado


A despeito do fato de que a criptografia realmente entrou na era da máquina apenas após a Primeira Guerra Mundial, o desafio de criptoanálise e quebra de código precisa ser realmente creditado com o pontapé inicial da revolução em TI da segunda metade do século XX. No final, nós não inventamos computadores para controlar maquinário, como Jacquard poderia ter feito; nós não inventamos computadores para realizar cálculos numéricos repetitivos, como Babbage tentou fazer. Nós não os inventamos para analisar censos; nem para organizar nossas contabilidades ou folhas de pagamento (payroll); nem para fazer previsão do tempo; nem para fazer processamento de texto; nem para [140]facilitar telecomunicações; nem para tocar nossa música ou para procurar nossas fotografias – embora eles sejam muito úteis para todas essas coisas e mais. Nós inventamos computadores para quebrar códigos.

A operação do Bletchley Park dependia pesadamente de pessoas: coletando, transcrevendo, analisando as mensagens cifradas interceptadas. Inicialmente, toda a análise era realizada inteiramente por pessoas, usando especialmente lápis e papel, e o esforço humano permanecia central para a tarefa de quebra de código. Contudo, cedo na guerra, o grande Alan Turing projetou uma máquina chamada de bombe, a qual grandemente ajudou na eliminação de muitas configurações iniciais possíveis (dada uma dica (crib), um humano poderia advinhar a versão em texto puro de uma seção particular do texto cifrado). Essa invenção possibilitou ao Bletchley Park, por grande parte da guerra, descobrir as novas configurações de chave cedo no dia, possibilitando a decriptação de quaisquer mensagens adicionais daquele dia, tão cedo quanto elas fossem recebidas.

Posteriormente durante a guerra, o esforço de Bletchley Park teve sérias dificuldades com outro sistema alemão, a cifra de Lorenz. Essa era similar à Enigma mas muito mais complexo, e tipicamente requeria semanas para quebrar as mensagens de um dia. Max Newman, outro matemático em Bletchley Park, começou a desenvolver planos para uma nova máquina que seria muito mais adaptável do que a bombe – de fato, ela era o que nós agora descrevemos como programável. Essa era muito mais difícil de construir do que a bombe, mas eventualmente, ao final de 1943, o engenheiro Tommy Flowers projetou e construiu uma versão funcional, usando válvulas termiônicas (como as usadas em rádios antigos). Ela foi chamada de Colossus e com sua ajuda, as chaves para as mensagens cifradas em Lorentz poderiam ser rapidamente descobertas.

O Colossus foi o claro precursor do computador moderno. Ele era eletrônico, digital, e em algum sentido programável, e usava muitas das ideias e princípios e métodos que um cientista da computação consideraria como essencialmente aqueles de um computador.


Um ato de vandalismo


Então, ao final da guerra, o conjunto do que fora a operação em Bletchley Park foi eliminado. Winston Churchill, quem fora o arrimo-chefe de Bletchley Park, assegurando financiamento para ele contra a oposição de algumas áreas, exigiu que toda a evidência das habilidades criptográficas do Reino Unido fosse apagada. Não apenas o Colossus mesmo foi destruído, mas [141]todas os diagramas para ele foram queimados. Todos o pessoal em Bletchely foi requerido de manter silêncio sobre absolutamente tudo que ocorreu ali.

A despeito de meu título, vandalismo é uma palavra pobre para descrever a ação de Churchill. Isso foi um retrocesso de 2000 anos ao primeiro imperador da China, no segundo século a.C. - a queima da biblioteca, para suprimir o conhecimento subversivo guardado ali.


A próxima fase


Mas é difícil matar uma ideia como essa. Nos anos de 1940, fora do Bletchley Park, algumas das ideias necessárias já estavam combinando-se. Um projeto entre a IBM e a Universidade de Harvard, planejado por Howard Aiken, desenvolveu o Harvard Mark 1, uma gigantesca calculadora programável com muitas características semelhantes às de um computador, a qual funcionou primeiro em 1943. A destruição de Bletchley Park deixou para trás, em adição a um punhado de excêntricos que acreditavam na possibilidade de construção de um computador, outro punhado que realmente o viram em operação. Dentro de um ano ou dois, imediatamente se seguindo a guerra, acadêmicos no Reino Unido (em Manchester e Cambridge) e nos EUA (em Pennsylvania e outros lugares) começaram a construir computadores. Dentro muitos poucos anos, a era do computador decolara.

Mas essa é outra história.


Epilogo


ORIGINAL:

Robertson, Stephen, B C, Before Computers: On Information Technology from Writing to the Age of Digital Data. Cambridge, UK: Open Book Publishers, 2020. p.131-141. Disponível em: <https://doi.org/10.11647/OBP.0225>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


1Nota do anterior: Conforme o original em inglês: “The alphabet and encryption”.

2Nota do tradutor: Novamente, segundo original em inglês (ver nota anterior), onde o “e” de “The” corresponde ao “h” de “Wkh”.