Por Mikuláš Teich
[101]O fim do sistema feudal na Europa: desenvolvimento técnico e comércio internacional
A imprensa, pólvora e bússola magnética há muito foram citadas como marcas da superioridade cultural e técnica da China medieval. Esse tem sido o caso desde que Francis Bacon apontou-as como as três descobertas, desconhecidas pelos antigos, que:
“Tendo mudado a inteira face e estados de coisas por todo o mundo; a primeira na literatura, a segunda na guerra, a terceira na navegação; donde seguiram-se inumeráveis mudanças, de tal maneira que, nenhum império, seita, estrela parecem ter exercido mais influência em assuntos humanos do que essas três descobertas mecânicas.”1
Rupert Hall, escrevendo aproximadamente 350 anos depois, confirma a opinião de Bacon sobre os nítidos efeitos das descobertas da pólvora e imprensa na sociedade europeia:
“Nós bem podemos escolher datar o começo da moderna história europeia a partir da introdução da pólvora. Perto de 1325 o canhão primitivo estava em ação e, a partir de 1370, artilharia mecânica (segundo o princípio da alavanca) estava sendo suspensa. Perto de 1450 a arma de mão (hand gun) aparecera, inciando a obsolescência da besta (crossbow) e arco longo (longobow). A produção de pólvora tornou-se uma indústria importante, ao lado da fundação de canhões e produção de armas. Perto de 1500, armas pesadas, morteiros, e minas explosivas tornaram o castelo medieval quase indefensável…
[102]Apenas os governantes mais ricos e mais poderosos poderiam dispor das novas armas de pólvora e dos exércitos mais custosos e maiores. A nobreza feudal rebelde, isolada em seus castelos-fortalezas, não mais podia suportar a força das mais poderosas armas de pólvora do monarca. Dessa maneira, as mudanças na indústria da guerra causaram, através da introdução do auxílio da pólvora, o processo de consolidação administrativa e territorial que devia dar origem aos estados monárquicos e ao sistema de estados-nação da Europa como nós conhecemos hoje… Exatamente como a invenção da pólvora serviu para abater as posições políticas do feudalismo, assim a invenção da imprensa ajudou a remover as barreiras de comunicação entre os homens. E, como a pólvora, a invenção teve significância incalculável para a história humana, muito além de seu imediato efeito tecnológico.”2
Para o historiador o problema é que o uso da pólvora e imprensa na esteira do progresso tecnológico (propriedades incendiárias das misturas de salitre, enxofre e carvão; produção de papel; imprensa com tipo móvel) tornaram-se difundidos na Europa mas não China antes de 1600.
Como e porque isso sucedeu tem sido assunto de exame contínuo, com lugar de orgulho corretamente atribuído à mediação árabe-islâmica.
Nesse contexto a periodização de Hall do começo da história moderna europeia é digna de nota. Ele associa-a com a decadência do sistema feudal na Europa – na qual a propagação da pólvora e da impressão com tipos móvel desempenhou uma parte significante. Sem o explicar, Hall claramente sugere que uma transformação social estava em curso, conceitualizada por historiadores marxistas como um período de transição do feudalismo para o capitalismo. Embora sem dúvida Hall, um crítico duro da abordagem marxista da história, teria ficado horrorizado de ser alinhado com essa posição.
Seja como for, pesquisas corroboram o papel histórico do capital mercantil (discutido antes) no enfraquecimento do feudalismo na Europa pelo comércio internacional. Além disso, pesquisas consideraram-no relevante para o entendimento da gênese da Revolução Científica. Dessa maneira, no capítulo concludente de um estudo penetrante do comércio, medicina e ciência na Era de Ouro Holandesa (c. 1550-1700), Harold J. Cook tem isso a dizer:
[103]“Não foi acidente, então, que a assim chamada Revolução Científica ocorresse simultaneamente ao desenvolvimento da primeira economia global. Aquele mundo ligou as minas de prata do Peru à China bem como à Europa, as plantações de açúcar do caribe e as regiões de crescimento de noz-moscada do Sudeste da Ásia ao trabalho escravo assim como ao luxo dos bens de consumo, e a uma riqueza de informação circulando em cafeterias (coffeehouses) e auditórios (lecture halls) para livros e objetos naturais disponíveis em jardins europeus, gabinetes de curiosidade, e teatros de anatomia.”3
Buscas de conhecimento natural: A Corte de Rudolf II em Praga
Em meio aos jardins e gabinetes europeus, aqueles criados pelo imperador Rudolf II em Praga adquiriram particular fama. Como a bem informada Paula Findlen coloca:
“Rudolf montou uma rica coleção de flora e fauna e um extenso acervo de instrumentos especializado que poderiam ajudá-lo a buscar conhecimento da natureza. No auge de seu reinado, um parque de cervos circundava o castelo Hradčany, complementado por um aviário (no qual alguém poderiam vislumbrar os pássaros do paraíso do imperador e, depois de 1598, um dodo) e um jardim botânico onde naturalistas distintos tais como Rembert Dodoens e Carolus Clusius cuidavam de plantas exóticas. A partir dos anos de 1580, um fluxo constante de visitantes tais como os alquimistas ingleses John Dee e Edward Kelley, o místico italiano e filósofo neoplatônico Giordano Bruno, e os médicos e ocultistas Oswald Croll e Michal Maier desfrutaram de audiências com Rudolf, portando presentes de talismãs mágicos, seus próprios escritos e promessas de revelar os segredos da natureza.”4
[104]Essas pessoas não exaurem o círculo de proeminentes perseguidores de mágica, misticismo, alquimia e conhecimento da natureza que estavam conectados com a corte de Rudolf. Sob os auspícios de Rudolf e a pedido de Hagecius (mencionado antes), a colaboração de Brahe e Kepler surgiu. Eventualmente, essa parceria devia transformar a astronomia copernicana em heliocentrismo genuíno. Equipados com habilidades matemáticas e astronômicas, os excelentes construtores de instrumentos Jo(o)st Bürgi e Erasmus Habermehl estavam à mão para ajudar.5 O matemático imperial Nicholas Reymarus (Raymers) Baer (Ursus) desenvolveu um tipo de sistema heliocêntrico, um que famosamente incitou Brahe a acusá-lo de plágio. Como North apontou: ‘O sistema de Baer diferencia-se do de Tycho em uma importante consideração: ele dá a rotação diária em seu próprio eixo afrouxando-o em parte de suas antigas amarras, por assim dizer’.6
O patrocínio de Brahe e Kepler por Rudolf é conhecido há muito tempo. O que os historiadores da astronomia parecem não ter notado, antes que o estudioso tcheco Josef Smolka localizasse-o, é a notável passagem na cara de Kepler a Galileu em 8 de abril de 1610 (calendário juliano). Ela registra que Rudolf conduziu suas próprias observações astronômicas:
[105]“São três meses que o imperador colocou para mim várias questões concernentes à constituição das manchas lunares (moosposts) e considerou que as imagens das terras e continentes brilhavam intensamente na Lua ou no telescópio. Ele afirmava ter provavelmente visto a imagem da Itália com duas ilhas próximas. Nos próximos dias, ele também posicionou o telescópio à disposição para o mesmo tipo de observações mas nenhum uso foi feito dele. Ao mesmo tempo, Galileu … através de suas amadas observações o monarca do mundo cristão foi superado.”7
Rudolf II também foi um patrono de artistas, tais como o pintor milanês Giuseppe Arcimboldo (1527-1593), cujos os retratos de cabeças humanas e pinturas dos elementos e temporadas efetivamente formam uma ponte entre arte e história natural. Eles englobam observações detalhadas de flores, frutos, vegetais e árvores no estilo identificado como ‘naturalismo científico’. Um de seus precursores, se não fundadores, foi Leonardo da Vinci, o outro artista milanês interdisciplinar ao qual Arcimboldo repetidamente desejava igualar-se. Como um comentador recente coloca-o, as pinturas de Arcimboldo emergem de ‘o misterioso entrelaçamento de arte, ciência e o oculto na Europa da Renascença’.8
Uma forma inicial de ciência institucionalizada?
As buscas de conhecimento natural associadas à corte de Praga não foram, em hipótese alguma, únicas. Contemporaneamente, houve cortes aristocráticas maiores e menores na Europa impregnada de pensamento astrológico, alquímico e cabalístico. Desde o final dos anos de 1950, essas atividades têm sido discutidas como uma forma inicial de busca institucionalizada de conhecimento natural.
A ideia foi assumida e debatida por um grupo de seis historiadores da ciência, colaborando em uma história das ciências exatas na Boêmia (até o final do século XIX). No volume publicado, o falecido e bem informado Zdeněk Horský refere-se ao ‘Centro rodolfino de trabalho científico’ que ‘não foi um mero resultado acidental da atividade de cientistas estrangeiros temporariamente visitantes em Praga, mas evoluiu, com a participação direta de Thaddeus Hagecius, em um ambiente no qual a pesquisa astronômica estivera continuamente crescendo e aprofundando-se desde o meio do século XVI’.9 [106]Horský reitera essa mesma posição mais de um quarto de século depois, embora agora se referindo a um ‘centro acadêmico’ (Gelehrtenzentrum).10
Outro membro bem informado do grupo, Josef Smolka, mais de trinta anos após essa publicação conjunta, exprime ceticismo justificável sobre a aplicação do termo ‘centro’ ao círculo de inquiridores de fenômenos naturais suportado por Rudolf II. Esse termo implica uma atividade organizada e programada, ao passo que ‘nós não encontramos nada do tipo com a exceção do curto período no qual o grupo de Tycho esteve completo’.11
Isso tinha alguma coisa a ver com a aparente aversão de Rudolf II ao extremo confessionalismo católico, a despeito do chamado de clarim do Concílio de Trento para a Contra-reforma (1545-1563). Não somente foi oferecida aos protestantes Brahe e Kepler a oportunidade para cooperar, mas o judeu David Gans foi capaz de iniciar uma relação com ambos. Um judeu alemão, educado na Polônia e estabelecido em Praga, Gans foi autor de uma variedade de livros sobre astronomia, matemática, história e outros tópicos. ‘Em parte ele fez isso’, escreve Noah J. Efron, ‘porque ele estava persuadido de que esses assuntos poderiam prover uma linguagem comum para judeus e cristãos’.12
Fig. 14 David Gans, Diagrama cosmológico ptolomaico (círculos planetários circundados por constelações do Zodíaco) em hebreu, de seu Nechmad V’Naim (1743). Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Galgalim_gans.JPG |
Visivelmente, a lista de pessoas associada à corte de Rudolf dificilmente contém quaisquer figuras locais proeminentes, além de Hagecius. Um era o astrônomo Martin Bachacius (Bacháček) (1539/1541-1612), quem colaborou com Kepler sem aparentemente entender o heliocentrismo do último. Bachachius é lembrado menos como um astrônomo do que como organizador de educação superior – ele ocupou o posto de Reitor da Universidade Protestante de Praga (Collegium Caroli, Karolinum) entre 1598-1600 e 1603-1612.
Outro reitor da Universidade de Praga, ligado à corte, nasceu em uma família burguesa em Breslau/Wrócław. Segundo ordem de Brahe, Jan (Johannes) Jessenius (1566-1620), um médico com interesses astronômicos e habilidades diplomáticas, veio a Praga após realizar uma celebrada autópsia em 1600. Ele esteve entre os 27 notáveis executados na Praça da Velha Cidade de Praga (21 de junho de 1621) por seu papel de liderança na revolta anti-habsburgo dos estados boêmios em 1618. Aristocratas no geral, a preocupação deles era defender seu poder contra a crescente centralização dos soberanos Habsburgos. A ‘Guerra Boêmia’, colocada em movimento pela defenestração dos dois mais elevados oficiais do estado (e seu secretariado) de uma janela no Castelo de Praga, é considerada como a primeira fase da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648).
Robert Evans observa que houve uma conexão estreita entre Rudolf II e a eclosão da Guerra dos Trinta Anos. Em 1609 ele foi forçado a assinar a famosa ‘Carta de Majestade (Letter of Majesty)’ endossando o Protestantismo Tcheco (a ‘Confissão Tcheca’). Portanto, liberdade religiosa foi concedida não apenas aos nobres e cavaleiros, incluindo seus súditos feudais, mas também às cidades reais. Mas o mais liberal documento religiosa na Europa fez pouco para reduzir tensões entre os credos católico e protestante. Porém, há mais para a ‘Guerra Boêmia’ e para a Guerra do Trinta Anos do que polaridade religiosa e política não resolvida.13
A Guerra dos Trinta Anos e a Revolução Científica
Sumarizadas pela vida cultural e social das cortes do imperador Rudolf II e da rainha Elizabeth I, Praga e Londres eram cidades de mesma posição por volta de 1600. Durante os próximos cem anos, contudo, a situação mudou radicalmente na esteira da rivalidade interestatal por um pedaço do mercado mundial em abertura. É nesse contexto que a Guerra dos Trinta Anos e a Revolução Científica tornaram-se tanto produtos da, e fatores na, transformação desigual [108]da tardia Europa medieval (feudal) na inicial Europa moderna (capitalista). E contudo, notavelmente, nas explicações tradicionais do período, nós dificilmente seríamos pressionados a encontrar explicações ou mesmo discussões de uma ligação entre os dois de seus eventos definidores. A exploração de Hal Cook da ascensão da medicina e ciência no contexto do comércio marítimo holandês é uma rara tentativa de conectar a dimensão científica com a social.
Verdadeiro, aqui e ali, nós lemos em 1618 que Descartes, uma figura icônica na história da Revolução Científica, juntou-se ao exército de Maurício de Nassau, o capitão-geral protestante da República holandesa, e posteriormente Conde Tilly, o comandante da Liga Católica. Estacionado na parte final de 1619 em Ulm no rio Danúbio na Alemanha do sul, Descartes famosamente experienciou um momento de revelação. De acordo com sua narrativa retrospectiva, Descartes despendeu ‘o dia inteiro trancado em uma sala aquecida por forno’ e ‘em plena liberdade para conversar comigo mesmo sobre meus próprios pensamentos’, quando ele começou a desenvolver seus meios de distinguir verdade de falsidade, uma solução entesourada no Discourse on the Method (1637). Alguém se pergunta se o anseio de Descartes de estabelecer um critério para verdade tinha alguma coisa a ver com seu serviço nos dois exércitos opostos, cada um defendendo a única – Protestante / Católica – verdade religiosa. Deveria ser notado que o serviço de Descartes nos exércitos de ambas as fés tornou-se menos excepcional conforme a guerra continuava. O recrutamento tornou-se um problema frequentemente resolvido ao forçar prisioneiros de guerra a mudar de lado.
A inclinação para considerar a Guerra dos Trinta Anos primariamente em termos da história religiosa e política alemã não declinou. Ela conecta-se com o fato de que, geograficamente, o Sacro Império Romano da nação alemã tornou-se a arena das operações militares. A limitação desse ponto de vista torna-se aparente quando você considera as incursões dos exércitos dos dinamarqueses e suecos, a participação da França e Espanha com dinheiro e soldados, e a resistência da república holandesa (em guerra com a Espanha) ao movimento das tropas espanholas.
Embora a agenda política e religiosa não possa ser ignorada, ela não é o limite do lugar da Guerra do Trinta Anos na história. Essa foi uma guerra europeia ocorrida em metade do continente, embora nem todas as partes estivessem em ação ao mesmo tempo. É também, em uma acepção, uma guerra global: atrás dela escondia-se a rivalidade dos estados europeus buscando uma participação em, se não domínio de, o comércio e mercado globais em expansão. Ele ultrapassou conflitos militares anteriores [109]em custos materiais e financeiros, tamanho dos exércitos mobilizados, baixas militares e civis e, por último mas não menos importante, selvageria.14
A necessidade de dinheiro e crédito forneceu o cenário para as atividades intensificadas privadas e públicas de empréstimo de dinheiro. Tais atividades sustentaram a circulação monetária, uma característica crucial dos negócios financeiros na fase pré-industrial do capitalismo. Mas as transações monetárias sofriam de caóticas trocas de moeda até que alguma ordem fosse estabelecida em 1609, com a fundação do Banco de Câmbio (Exchange) de Amsterdam. Além de favorecimento do comércio no Norte holandês com o Báltico, o Levante e o Extremo oriente, o objetivo do banco
“era o estabelecimento de um sistema de compensação baseado em transferências da conta de um cliente para a de outro em florins do banco de conta representando um conteúdo constante em prata. Essas transações de compensação em Amsterdam requeriam uma dimensão especial por causa da posição dominante da cidade no comércio mundial à época. A obrigação imposta pela municipalidade para compensar todas as letras de câmbio de um montante acima de 600 florins através do banco induziu mercadores vitais de Amsterdam e, de fato, todas as firmas importantes envolvidas em comércio global a abrirem uma conta no Banco de Câmbio de Amsterdam, o qual, dessa maneira, cresceu durante o curso do século XVII em um banco de estatura mundial – de fato, na grande casa de compensação do comércio internacional, com o florim estável do banco servindo como a moeda-chave convertível do mundo.”15
O domínio financeiro de Amsterdã foi parte e parcela da longa transição da importância comercial do Mediterrâneo para o Atlântico (c. 1200-1600). Nós agora podemos ver isso como uma fase na história da integração econômica mundial, uma na qual os mercadores dos Países Baixos do norte e do sul estiveram especialmente envolvidos. Uma transformação social foi posta em movimento através da qual os burgueses mercadores não apenas se metamorfosearam em burguesia capitalista, mas os holandeses também experienciaram a Revolução Científica como examinada por Cook em Matters of Exchange.
[110]A Revolução Científica: Boêmia e os Países Baixos
A Guerra dos Trinta Anos realçou a divisão historicamente importante da Europa no desigualmente desenvolvido, geograficamente mal projetado e diferentemente destinado Ocidente e Oriente. Essa divisão profundamente afetou não apenas as esferas política, social e econômica, mas também a busca do conhecimento natural.
Antes de 1618, a Boêmia, localizada na Europa central, era o mais rico território Habsburgo. Ela abrigava alguns dos grandes centros europeus de mineração: Jáchymov (Joachimsthal) e Kutná Hora (Kuttenberg). Não foi uma coincidência que os autores de dois textos clássicos sobre mineração e metalurgia (reimpressos por quase 150 anos) foram ativos nessas cidades. Georgius Agricola (Georg Bauer)(1494-1551), que foi autor de De re metallica (1556), foi um médico em Jáchymov; Lazarus Eercker (?-1593), o autor de Beschreibung Allerfürnemisten Mineralischen Ertzt/vnnd Berckwercksarten etc. (1574), foi Administrador e eventualmente Mestre na casa da moeda em Kutná Hora. Por fim, ele ocupou o posto de Oficial-chefe de Mineração do Reino da Boêmia (Oberster Bergmeister).
Como mencionado anteriormente, o crescimento da economia senhorial de larga escala, englobando fermentação, criação de ovelhas e criação de carpas em viveiros propositalmente construídos fez ‘ricos os senhores da Boêmia’. Foi esse meio social que inspirou Hagecius a familiarizar-se com a prática da fermentação, a qual ele descreve no livreto pioneiro De cerevisia etc. (1585).
Mineração profunda e construção de viveiros de peixe dependiam de análises adequadas. Horský interessantemente aponta para a metodologia e instrumentos basicamente idênticos empregados na análise de minas e viveiros de peixes, por um lado, e astronomia, pelo outro.16
Na véspera da defenestração do Castelo de Praga, presságios econômicos e políticos pareciam prognosticar o bem para um corpo político, e para as buscas de conhecimento natural, movendo na direção holandesa.
A indicação do porque esse desenvolvimento nunca ocorreu jaz na diferença das razões entre a insurreição / rebelião na Boêmia e a revolta na Holanda. Aparentemente Boêmia e Holanda encaravam um inimigo comum: quer dizer, os Habsburgos católicos aspirando ao domínio dinástico na Europa, se bem que em dois ramos, a austríaco e o espanhol. Outros fatores entrelaçados – política, economia e estruturas sociais – desempenharam o papel delas na geração de efeitos distintos, resultados que também afetaram a [111]esfera científica. O atraso no desenvolvimento da Revolução Científica na Boêmia, quando comparado à Holanda, é inequívoco.
Em primeiro lugar, houve uma diferença no papel e interesses da nobreza e dos burgueses no dois países. Considerando que, como uma classe, a nobreza na Boêmia era forte e os burgueses fracos, mas na Holanda a situação era invertida. Na Boêmia nada como desfeudalização / burguesificação no estilo holandês tomara forma, nem uma aliança interclasse nobre-burguês, a qual caracteriza a luta holandesa contra a Espanha, materializou-se.
Quando os nobres da Boêmia, os estratos da elite social, ergueram a bandeira da rebelião, eles estavam primariamente preocupados com seus próprios interesses sociopolíticos. A disputa era sobre a natureza da monarquia, e a Boêmia ‘tornou-se um dos pontos focais do conflito onde um programa de liberdade de religião e de manutenção das liberdades dos estados representava uma defesa contra a centralização’.17 Isso não quer dizer, como Victor Kiernan parece sugerir, que a Boêmia estava virtualmente se tornando uma república, apenas que seus líderes retrocederam diante desse passo final. Como ele mesmo aponta:
“Estabelecer uma república era um empreendimento para o qual somente as mais avançadas e mais revolucionárias nações tiveram a coragem; os holandeses somente sucederam parcialmente, os ingleses, apenas momentaneamente. No fim, o tempo da república chegaria muito longe da Europa, do outro lado do Atlântico.”18
De fato chegaria, mas não ao mesmo tempo, e sob circunstâncias sociopolíticas, econômicas e culturais muito diferentes. Contraste-se o elogio de Cook com a análise de Smolka da evolução científica na Boêmia do século XVI ao meio do século XVIII, altura pela qual Newton e Linnaeus surgiram.19 A análise de Smolka especificamente chama atenção para o impacto negativo de longo prazo que a supressão do levante de 1618 teve sobre a evolução da Revolução Científica nas terras tchecas. A Revolução foi reprimida
“de uma maneira bem decisiva pela situação social que se desenvolveu na área tcheca: recatolização e a quase absoluta hegemonia ideológica da Ordem Jesuíta, opressão intelectual e falta de liberdade caminharam de mãos dadas com o isolamento completo das modernas tendências científicas europeias. E é de uma maneira paradoxal que, considerando que as condições para o desenvolvimento [112]científico no começo do período envolvido eram relativamente favoráveis, em seu final, quando o iluminismo e racionalismo estavam começando na Europa, a Boêmia e a Morávia estavam como se estivessem começando do zero, do começo mesmo, mas apenas lentamente, hesitante e dificilmente ...”20
Como aconteceu, há uma dimensão holandesa dessa reforma na pessoa de Gerard van Swieten, o médico da imperatriz Maria Teresa. Segundo seu conselho, a instrução médica foi reestruturada ao longo das linhas desenvolvidas em Leiden pelo influente professor Herman Boerhaave (1668-1738). Além disso, e não menos crucialmente, foi devido a van Swieten que o controle jesuíta sobre educação e censura foi rompido.
![]() |
Fig. 15 Imperador Franz Stephan (sentado) junto com seus conselheiros em ciência natural. Da esquerda para a direita: Gerard van Swieten, Johann Ritter von Baillou (naturalista), Valentin Jamerai Duval (numismata) e Abade Johan Marcy (Diretor do gabinete Físico-Matemático). Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Kaiserbild_Naturhistorisches_Museum_cropped.jpg |
Contexto e conteúdo da ciência
Em uma notável coleção investigando a relação histórica entre Instruments, Travel and Science, os editores fazem um esforço extra para apontar que sua abordagem histórica é ‘contextual’. Ao longo das últimas duas décadas, eles afirmam [que]
“historiadores da ciência engajados em escrever contextualmente têm argumentado contra a visão do desenvolvimento do conhecimento, e particularmente do conhecimento científico, como um processo unilinear, e contra a noção de que a universalidade da ciência progressivamente se impõe pela pura força da uniformidade das leis [113]da natureza. Por outro lado, esses historiadores têm descrito através de múltiplos estudos de casos como a dimensão universal da ciência foi, de fato, baseada no contexto de sua criação e profundamente fundamentada na localidade.”21
Essas observações não deveriam obscurecer o fato de que a abordagem contextual para a história da ciência tem um passado que se estende além de 1980. Para todas as intenções e propósitos, ela retrocede à análise seminal de Hessen (1931) dos Principia contra o pano de fundo do período no qual Newton viveu e trabalhou. Ignorar Science and Civilisation in China (1954), de Needham, como um trabalho de história contextual é contradizer a evidência. Escritos sob influência marxista, esses estudos e semelhantes foram suspeitos desde o início (ab ovo). Até estudiosos que reconhecem a relevância do contexto social para a historiografia da ciência sentem que novas incursões, tais como Leviathan and the Air Pump de Shapin e Schaffer, não entregaram o esperado. Quer dizer, os autores ‘posicionam a história da ciência no interior de um contexto social, mas eles não discutem a possível influência do conteúdo da ciência’.22 Como acontece, a contribuição de Schaffer para o volume sobre Instruments, Travel and Science ilustra que a relação entre o contexto social e o conteúdo da ciência não é redutível a uma relação ponto a ponto, mas é mediada. Entender isso requer uma discussão mais detalhada baseada, por exemplo, na abordagem interdisciplinar exemplificada abaixo.
O tema do texto de Schaffer é o comércio inglês de ouro no século XVII e começo do XVIII e as preocupações metrológicas de Robert Boyle e Isaac Newton, protagonistas do sistema de ouro. Esse sistema dependia crucialmente do ouro, como uma mercadoria (commodity), ser ‘ouro verdadeiro, metal perfeito’ (nas palavras de John Locke).23 O ouro primeiro deve ter atraído a atenção dos humanos em tempos pré-históricos. O uso de peles de ovelha na lavagem de areias portadoras de ouro para extrair as partículas de ouro pode ter dado origem ao mito do Velo de Ouro (Golden Fleece). A noção da superioridade do ouro sobre outros metais, seja em economia ou medicina, é alquímica.
Está bem estabelecido que os interesses alquímicos de Boyle, Locke e Newton não os impediram de procura e obter conhecimento ‘firme (hard)’ da natureza. O que Schaffer mostra é que a história natural patrocinada pelo estado e comercial [114]importava para eles também. Quer dizer, o desenvolvimento de métodos de precisão para distinguir entre falsificações e ouro verdadeiro, embarcado da Costa do Ouro na Guine para a Casa da Moeda Real em Londres onde o Administrador Newton comandava supremo:
“Newton construiu um regime feroz de governança no interior das instituições da filosofia natural e das muralhas da Torre. No trabalho na Casa da Moeda ele insistia em pesagens precisas e corrigia o que julgava uma inaceitavelmente grande tolerância com o erro do peso médio das moedas, chamado de ‘o remédio’. A newtoniana casa da moeda tornou-se um lugar emblemático de metrologia administrativa.”24
Desde que o artigo de Hessen foi publicado, ele tem sido criticado por historiadores não marxistas assim como um número de marxistas, por seu ‘determinismo’, ‘reducionismo’ e semelhante socioeconômico. Isso aponta para uma apreciável leitura errada do objetivo de Hessen, o qual era ‘determinar a tendência básica [MT] dos interesses da física durante o período imediatamente precedente a Newton e contemporâneo a ele’.25
Voltando ao artigo de Schaffer, alguém tem a impressão que ele deve uma boa porção a Hessen, se não a Marx. ‘Os projetos newtonianos,’ ele declara,
“não estavam, é claro, limitados à padronização fiscal. Entre 1709 e 1713, habilmente assistido pelo jovem matemático de Cambridge Roger Cotes, Newton preparou uma edição revisada de seus Principia mathematica. Algumas ‘hipóteses’ que prefaciaram seu terceiro livro em 1687 foram agora retrabalhadas como ‘regulae philosophandi’. A segunda regra afirmava que ‘as causas atribuídas a efeitos naturais do mesmo tipo deviam ser, tanto quanto possível, as mesmas. Exemplos são … as pedras cadentes na Europa ou América’. Os Principia, nesse sentido, era um manual para viajantes. Newton descreveu e celebrou as maravilhas de vazantes e fluxos da maré nas Índias Orientais, nos Estreitos de Magalhães e no Pacífico. Ansioso para mostrar o controle universal de seu modelo gravitacional da atração lunar, Newton deparou-se com característicos problemas de confiança em histórias de viajantes. Contra rivais leibnizianos, Newton e Cotes agora buscavam massivamente reforçar a precisão aparente de suas medidas. Eles discutiram se omitir ou incluir dados de maré a partir de marinheiros variavelmente confiáveis usando suposições sobre tais parâmetros como o destino da terra. A ligação entre confiança em pessoas e na constância da criação era até mais clara em seu trabalho sobre o comprimento dos pêndulos isocrônicos na Europa, América e também na África. Nos anos de 1680 Newton esperara que ‘os excessos da gravidade nesses locais do norte sobre a gravidade no equador’ seriam ‘determinados exatamente por experimentos conduzido com maior diligência’. Agora, Cotes ‘considerava fazer o Escólio parecer para a melhor vantagem assim como para [115]os números’. Eles fariam uma tabela de variações no tamanho de pêndulo de segundo em partes diferentes da terra, visivelmente precisos sobre comprimentos muito pequenos de frações de uma polegada. Cotes sustentava ‘que a generalidade de Vossos Leitores precisa ser gratificada com semelhantes ninharias, sobre as quais comumente jaz vossa maior dificuldade.’”26
Interdisciplinaridade no pensamento de Becher
Boyle, Locke e Newton compartilharam sua fascinação com os campos historicamente relacionados da mineração, metalurgia, alquimia, química e cunhagem com contemporâneos tais como Johann Joachim Becher (1635-?).27 Em histórias gerais lidando com a ascensão da química moderna, ele usualmente tem um lugar na discussão das origens da doutrina do flogisto. Em trabalhos analisando a evolução do pensamento econômico, Becher é mencionado como o principal representante do mercantilismo alemão (austríaco).
Entre as características mais impressionantes da vida de Becher está sua continua fascinação com alquimia. Becher emerge como alguém que inquestionavelmente acreditava que a transmutação fosse possível, embora ele tivesse pouca consideração pela busca de um elixir da vida. Contudo, ceticismo com relação a este ou aquele aspecto da alquimia não impedia Becher de reiterar que, sem alquimia, a metalurgia não poderia ser inteiramente compreendida. De fato, ele prossegue, qualquer um que é oposto à alquimia deveria compreender que ou ele não compreende ou não aprecia inteiramente que metalurgia e cunhagem formam a parte principal da renda de sue príncipe.
A referência de Becher à esfera da cunhagem toca em um elemento da história política e econômica alemã que não deveria ser perdido de vista. Quer dizer, a não uniformidade do sistema de cunhagem alemão, sendo parcialmente o produto da divisão política e econômica da Alemanha, mas também contribuindo para ela, muito antes da Guerra dos Trinta Anos.
Um dos problemas surgindo dessas condições de cunhagem na Alemanha era a troca de moedas entre os territórios independentes no interior da estrutura do Sacro Império Romano da nação alemã, assim como entre esses territórios e os estados não alemães. Discutindo [116]troca de moedas na seção sobre cunhagem em Politische Discurs, Becher propõe controlá-la institucionalmente ao estabelecer uma casa de desconto (Wexel-Banck).28
Subjazendo a essa proposta estava a preocupação de Becher com o movimento de dinheiro e mercadorias (commodities) e sua relação um com o outro. O interesse nisso jaz no fato que Becher atribui ao dinheiro a função de uma mercadoria (commodity). Becher pode estar entre os primeiros escritores que adotam uma semelhante ideia. Aqui está o que ele disse: ‘… dessa maneira com respeito a um país não há mercadoria tão cara e necessária quanto o dinheiro; e de nenhuma mercadoria saindo do país deveria ser cobrado mais imposto do que dinheiro porque o dinheiro é igualmente o nervo e a alma do país’.29
Essa proposição relaciona-se com o impacto do capital mercantil sentido no centro da Europa como parte da transformação da economia feudal em capitalista, ocorrida enquanto Becher estava compondo seu trabalho substantivo. Uma característica inerente a esse processo foi a produção crescente de mercadorias para serem vendidas, quer dizer, trocadas por dinheiro, no mercado em casa ou no exterior. Becher estava preocupado principalmente com tais questões no contexto da ruína política e econômica alemã após a Guerra dos Trinta Anos. Quer dizer, ele foi estimulado pela ascendência do capital mercantil na vida econômica dessa área geográfica, um processo caracterizado pela circulação entrelaçada de mercadorias e dinheiro. Há evidência de primeira mão de Becher entendendo a ideia do circuito do capital mercantil. Está contida em seu elogio dos produtores-mercadores como o esteio da comunidade:
“Agora, finalmente, relativamente à questão sobre consumo, eu gostaria de acrescentar em elogio e honra dos Verlaeger [produtores-mercadores] o seguinte. A saber, que somente eles devem ser considerados como os pilares dos três estados porque o artesão vive deles, dele o nobre, dele o Príncipe, e de todos esses três, novamente, o mercador. Essas são as mãos que têm de se unir.”30
[117]O pensamento de Becher revela ‘mentalidade de ciclo (cycle-mindedness)’ como permeando sua filosofia natural tanto quanto seu pensamento econômico. Para Becher, não afetado por especialização crescente, isso tornou-se o conceito através do qual os mundos natural e econômico relacionam-se. Mentalidade de ciclo e mentalidade de circulação (circulation-mindedness) foram termos empregados por Joseph Needham quando chamando atenção para a apreciação taoista da mudança cíclica. Ao mesmo tempo, ele realçava o papel eminente das noções de ‘circulo’ e ‘circulação’ na vida intelectual da Renascença, quando os fundamentos do que é chamado ciência moderna foram estabelecidos. O estudioso de cujo o trabalho estimulante nós devemos a maior parte da compreensão é Walter Pagel, mas nesses assuntos ele parece não ter tornado-se tão influente quanto ele conseguiu em outros.31 Mentalidade de ciclo está conectada com as ideias de ‘recorrência’ e ‘continuidade’. De fato, ela constitui uma das visões mais duradouras do ser dos tempos pré-históricos ao presente, emergindo da crença na vida após a morte ou na busca de máquinas de movimento perpétuo. Tais coisas, nós sabemos, eram de interesse de Becher. Elas deveriam ser vistas no contexto de sua crença na circulação – fundamentada em sua leitura e interpretação literal da Bíblia – como o princípio subjacente à ordem natural e econômica das coisas.
Mas além disso, Becher provavelmente deve a ideia de circulação a seus interesses alquímicos e químicos. Alguém pode duvidar de que ele fosse familiar com o símbolo alquímico da serpente com sua cauda em sua boca? A forma circular o Ouroboros foi adotada pelos alquimistas para representar a ‘morte’ e ‘mudança’ da matéria passando por mudança química eterna. Contudo, desde o século XVI pelo menos, os termos ‘destilação’ e ‘circulação’ vieram a ser usado analogicamente. Há evidência direta, de fato, de Becher fazendo uso dessa analogia quando ele ressalta que a natureza está em um estado de movimento perpétuo, que esse movimento é circular e que, portanto, ele pode ser comparado à destilação.32
ORIGINAL:
Teich, Mikuláš, The Scientific Revolution Revisited. Cambridge, UK: Open Book Publishers, 2015. p.101-117. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.11647/OBP.0054>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY 4.0
1F. Bacon, ‘Aphorisms – Book One’, em The New Organon and Related Writings, ed. por F. H. Anderson (New York e London: MacMillan, 1987), p. 118.
2A. Rupert Hall, ‘Early Modern Technology to 1600’, em M. Kranzberg e C. W. Pursell, Jr. (eds.), Technology in Western Civilization, Vol. 1 (New York: Oxford University Press, 1967), pp. 98-100. É claro, também há a questão da estagnação que afetou a civilização islâmica. Aqui a discussão de Michael Mitterauer da hostilidade muçulmana à impressão do Alcorão é iluminante. Dessa maneira, a primeira casa de impressão em Istambul a trabalhar com letras arábicas foi aberta em 1726, apenas para ficar fechada entre 1730 e 1780 e novamente em 1800. Ver M. Mitterauer, Why Europe? The Medieval Origin of its Special Path (Chicago, IL e London: University of Chicago Press, 2010), p. 266.
3H. J. Cook, Matters of Exchange: Commerce, Medicine, and Science in the Dutch Golden Age (New Haven, CT and London: Yale University Press, 2007), p. 411. Intencionalmente ou não esta passagem ecoa a análise de Marx do que ele caracterizou como ‘acumulação primitiva de capital’:
“A descoberta de ouro e prata na América, a extirpação, escravização e sepultamento em minas da população aborígene, o começo da conquista e saque das Índias Orientais, a transformação da África em um viveiro para a caça comercial de peles negras sinalizou o alvorecer rosado da era da produção capitalista. Esses procedimentos idílicos são os momentos principais da acumulação primitiva. Sobre seus calcanhares anda a guerra comercial das nações europeias, com o globo como um teatro. Ela começa com a revolta da Holanda contra a Espanha, assuma dimensões gigantescas com a guerra antijacobina na Inglaterra, e ainda prossegue com as guerras do ópio contra a China.” Ver K. Marx, Capital, Vol. 1 (London: George Allen & Unwin, 1938), p. 775.
4P. Findlen, ‘Cabinets, Collecting and Natural Philosophy’, in E. Fučíková et al., Rudolf II and Prague (Prague: Prague Castle Administration and London and Milan: Thames and Hudson, 1997), pp. 213-14. O volume fornece uma notável introdução em inglês a Rudolf II e sua era. Ver também R. J. W. Evans, ‘Rudolf II: Prag und Europa um 1600’, em Prag um 1600 Kunst und Kultur am Hofe Kaiser Rudolf II, Vol. 1 (Freren: Luca Verlag, 1988), pp. 27-37. Para o extenso tratamento anterior por Evans, ver Rudolf II and His World: A Study in Intellectual History, 1576-1612 (Oxford: Clarendon Press, 1973). Para uma perspectiva historiográfica tcheca, ver J. Válka, ‘Rudolfine Culture’, em M. Teich (ed.), Bohemia in History (Cambridge: Cambridge University Press, 1998), pp. 117-42. Aqui eu não posso senão notar a publicação recente da massiva análise de muitos autores das atividades alquímicas associadas à corte de Rudolf II: ver I. Purš e V. Karpenko (eds.), Alchymie a Rudolf II: Hledání tajemství přírody ve střední Evropě v 16. a 17. století [Alchemy and Rudolf II: Searching for Secrets of Nature in Central Europe in the 16th and 17th Centuries] (Prague: Artefactum Ústav dějin uměn í AV ČR, 2011).
5A. Švejda, ‘Prager Konstrukteure wissenschaftlicher Instrumente und ihre Werke’, in J. Folta (ed.), ‘Science and Technology in Rudolfinian Time’, Acta historiae rerum naturalium necnon technicarum. Prague Studies in the History of Science and Technology, Vol. 1 (1997), 90-4.
6J. North, Cosmos: An Illustrated History of Astronomy (Chicago, IL and London: University of Chicago Press, 2008), p. 336. Para uma análise da controvérsia Baer-Brahe, ver N. Jardine, The Birth of History and Philosophy of Science: Kepler’s ‘A Defence of Tycho against Ursus’ with Essays on its Provenance and Significance (Cambridge: Cambridge University Press, 1988). Para uma erudita, bilíngue franco-latina, coleção de documentos relacionados N. Jardine e A.-Ph. Segonds, La Guerre des Astronomes: La Querelle au sujet de l’origine du système géo-héliocentrique à la fin du XVIe siècle. Vol. 1: Introduction (Paris: Les Belles Lettres, 2008); N. Jardine e A.-Ph. Segonds, La Guerre des Astronomes: La Querelle au sujet de l’origine du système géo-héliocentrique à la fin du XVIe siècle. Vol. 2/1: Le ‘Contra Ursum’ de Jean Kepler, Introduction et textes préparatoires e Vol. 2/2: Le ‘Contra Ursum’ de Jean Kepler, Édition critique, traduction et notes (Paris: Les Belles Lettres, 2008). Tem sido sugerido que a furiosa reação de Brahe teve alguma coisa a ver com as diferentes origens sociais dos protagonistas. Considerando que Brahe era de ascendência nobre, Baer era de linhagem camponesa e, consequentemente, menos confiável.
7J. Smolka, ‘Böhmen und die Annahme der Galileischen astronomischen Entdeckungen’, Acta historiae ... Prague Studies in the History of Science and Technology, Vol. 1 (1997), 41-69 (p. 49).
8J. Jones, ‘Natural Wonders’, Saturday Guardian, 26 April 2008. Ver também T. DaCosta Kaufmann, Arcimboldo: Visual Jokes, Natural History, and Still-Life Painting (Chicago, IL: University of Chicago Press, 2009).
9J. Folta et al., Dějiny exaktních věd v českých zemích do konce 19. století [History of the Exact Sciences in the Czech Lands up to the End of the Nineteenth Century] (Prague: Nakladatelství Československé akademie věd, 1961), p. 47.
10Z. Horský, ‘Die Wissenschaft am Hofe Rudolfs II’, em Prag um 1600, pp. 69-74.
11J. Smolka, ‘Scientific Revolution in Bohemia’, em R. Porter e M. Teich (eds.), The Scientific Revolution in National Context (Cambridge: Cambridge University Press, 1992), p. 220.
12N. J. Efron, ‘Liberal Arts, Eirenism and Jews in Rudolfine Prague’, Acta historiae… Prague Studies, 24-35 (p. 24).
13Evans, ‘Rudolf II’, p. 35.
14Textos lidando com a Guerra dos Trinta Anos e o período são uma legião. Eu chamo a atenção para o subvalorizado J. V. Polišenský com F. Snider, War and Society in Europe, 1618-1648 (Cambridge: Cambridge University Press, 1978) e V. G. Kiernan, State and Society in Europe, 1550-1650 (Oxford: Blackwell, 1980). Para um exame mais recente em inglês, ver P. H. Wilson, Europe’s Tragedy: A History of the Thirty Years War (London: Penguin, 2010).
15H. Van der Wee, ‘The Influence of Banking on the Rise of Capitalism in North-West Europe, Fourteenth to Nineteenth Century’, em A. Teichova, G. Kurgan-van Hentenryk e D. Ziegler (eds.), Banking, Trade and Industry: Europe, America and Asia from the Thirteenth to the Twentieth Century (Cambridge: Cambridge University Press, 1997), p. 180.
16Horský em Prag um 1600, p. 70.
17J. Petráň and L. Petráňová, ‘The White Mountain as a Symbol in Modern Czech History’, em Teich (ed.), Bohemia, p. 144.
18Kiernan, State and Society in Europe, p. 195.
19H. J. Cook, ‘The New Philosophy in the Low Countries’, em Porter e Teich (eds.), The Scientific Revolution, pp. 137-38.
20Smolka, ‘Bohemia’, em Porter e Teich (eds.), The Scientific Revolution, pp. 234-35.
21M.-N. Bourget, Ch. Licoppe e H. O. Sibum (eds.), Instruments, Travel and Science: Itineraries of Precision from the Seventeenth to the Twentieth Century (London and New York: Routledge, 2002), p. 3.
22M. J. Osler, ‘The Canonical Imperative: Rethinking the Scientific Revolution’, em M. J. Osler (ed.), Rethinking the Scientific Revolution (Cambridge: Cambridge University Press, 2000), p. 19.
23S. Schaffer, ‘Golden Means: Assay Instruments and the Geography of Precision in the Guinea Trade’, em Bourget et al. (eds.), Instruments, p. 22.
24Ibid., p. 39.
25B. Hessen, ‘The Social and Economic Roots of Newton’s “Principia”’, em Science at the Cross Roads, 2nd ed. (London: Cass, 1971), p. 165.
26Schaffer, ‘Golden Means’, pp. 37-8.
27Ver G. Frühsorge e G. F. Strasser (eds.), Johann Joachim Becher (1635-1682) (Wiesbaden: Harrassowitz, 1993). Esse volume inclui meu ‘Interdisciplinarity in J. J. Becher’s Thought’ a partir do qual eu desenvolvo aqui (pp. 23-40). Ele foi anteriormente publicado em History of European Ideas, 9 (1988), 145-60.
28J. J. Becher, Politische Discurs von den eigentlichen Ursachen des Auff- und Abnehmens der Staedt, Laender und Republicken (Frankfurt am Main: Zunner, 1688), p. 269. Essa é a terceira edição da possivelmente publicação mais renomada de Becher, além de Physcia Subterranea. A primeira edição, Politischer Discours, apareceu em 1668 e a segunda, em 1673. O título original de Physica Subterranea foi Actorum Laboratorii Chymici Monacensis, Seu Physicae Subterraneae Libri Duo (Frankfurt am Main: J. D. Zunneri, 1669). A despeito do título era um livro de um volume. Uma segunda edição com três suplementos anteriormente publicados (1671, 1675, 1680) apareceu em 1681. Foi Recher mesmo quem traduziu sua própria obra para o alemão e publicou-a como Chymisches Laboratorium Oder Unter-erdische Naturkuendigung (Frankfurt am Main: J. Haass, 1680), junto com o primeiro e segundo suplementos e outra publicação Ein Chymischer Raetseldeuter. Uma segunda edição apareceu em 1690.
29 Becher, Politische Discurs, p. 269.
30Ibid., p. 106.
31J. Needham, The Grand Titration: Science and Society in East and West (London: Allen & Unwin, 1969), pp. 227-28; W. Pagel, William Harvey’s Biological Ideas: Selected Aspects and Historical Background (Basel and New York: Karger, 1967).
32Becher, ‘Revera autem, perpetua haec circulatio destillationi Chymicae comparari potest’, Physica Subterranea, p. 50; idem, ‘Nun kam aber? in der That dieser staete Cirkelgang mit einer Chymischen distillation verglichen werden’, Chymisches Laboratorium, p. 131.

Nenhum comentário:
Postar um comentário