quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Perspectivas sobre o Humanismo Digital - Eficiência vs. Resiliência: Lições da COVID-19

Perspectivas sobre o Humanismo Digital


Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital


Parte X Aprendendo com a Crise


Ensaio anterior


[285]Eficiência vs. Resiliência: Lições da COVID-19


por Moshe Y. Vardi


Resumo Por que o mundo não estava pronto para a COVID-19, a despeito dos avisos, ao longo dos últimos 20 anos, da alta probabilidade de uma pandemia global? Este capítulo argumenta que o objetivo econômico da eficiência, focado em otimização de curto prazo, distraiu-nos da resiliência, a qual se foca em otimização de longo prazo. A computação também geralmente parece ter enfatizado a eficiência ao custo da eficiência. Mas a computação também descobriu que a resiliência também é possibilitada por redundância e distributividade. Esses princípios deveriam ser adotados pela sociedade na era “pós-COVID.”


Por volta de março de 2020, a COVID-19 (doença do coronavírus 2019) estava espalhando-se ao redor do mundo. A partir de uma epidemia local que irrompeu na China no final de 2019, a doença tornou-se uma pandemia violenta, do tipo que o mundo não tinha visto desde a epidemia de gripe espanhola de 2018. Por essa altura, milhares já tinham morrido, com o número final de mortos crescendo para os milhões. Tentando mitigar a pandemia, os indivíduos estava reduzindo viagens, entretenimento e mais, assim como exercitando “distanciamento social,” dessa forma causando uma desaceleração econômica. As empresas acumularam dinheiro e cortaram gastos para sobreviverem à desaceleração de duração incerta. Essas ações racionais por indivíduos e empresas estavam puxando a economia global para uma recessão profunda.

Observando as consequências econômicas dessa crise inesperada, William A. Galston pergunta, em uma coluna1 do Wall Street Journal de março de 2020, “E se a busca implacável por eficiência, a qual dominou pensamento empresarial americano por décadas, tornou o sistema econômico global mais vulnerável a choques?” Ele prosseguiu para argumentar que há um compromisso (trade-off) entre eficiência e resiliência. “A eficiência surge através da adaptação ótima a um ambiente existente,” ele argumentou, “enquanto a resiliência requer a capacidade para se adaptar a mudanças disruptivas no ambiente.”

[286]Um argumento similar foi feito por Thomas Friedman em uma coluna2 do New York Times de março de 2020: “Através dos últimos 20 anos, nós estivemos constantemente removendo amortecedores (buffers) naturais e criados pelo homem, redundâncias, regulações e normas que fornecem resiliência e proteção quando sistemas grandes – sejam eles ecológicos, geopolíticos ou financeiros – são estressados … Nós estamos removendo imprudentemente esses amortecedores a partir de uma obsessão com eficiência e crescimento de curto prazo, ou absolutamente sem pensar.”

Tanto Galston quanto Friedman estavam indicando que há um compromisso entre a eficiência de curto prazo e a resiliência de longo prazo. Esse compromisso também surgiu, em um cenário diferente, por Adi Livnat e Christos Papadimitriou (2016). A experiência computacional tem mostrado que recozimento simulado (simulated annealing), o qual é uma busca local – via uma sequência de mutações pequenas – por uma solução ótima, no geral, é computacionalmente superior a algoritmos genéticos, os quais mimetizam reprodução sexual e seleção natural. Por que então a natureza escolheu a reprodução sexual quase como o mecanismo exclusivo de reprodução exclusivo nos animais? A resposta de Livnat e Papadimitrious é que o sexo como um algoritmo fornece outras vantagens além da boa performance em termos de aproximação de uma solução ótima. Em particular, a reprodução sexual favorece genes que trabalham bem com uma variedade maior de genes, e isso torna a espécie mais adaptável a mudanças ambientas disruptivas, quer dizer, mais resiliente.

Dessa forma, o compromisso entre eficiência e resiliência pode ser vista como um compromisso entre optimização de curto prazo e de longo prazo. A natureza parece preferir a otimização de longo prazo à de curto prazo, focando-se na sobrevivência da espécie. De fato, Darwin supostamente disse: “Não é o mais forte da espécie que sobrevive, nem o mais inteligente. É o que é mais adaptável a mudança.”

E contudo, nós temos educado gerações de cientistas da computação no paradigma de que a análise de algoritmo apenas significa analisar a sua eficiência computacional. Como a Wikipedia expressa:3 “Na ciência da computação, a análise de algoritmos é o processo de descoberta da complexidade computacional de algoritmos – o montante de tempo, armazenamento, ou outros recursos necessários para os executar.” Em outras palavras, a eficiência é a preocupação única do design de algoritmos. (É claro, o algoritmo tem satisfazer a sua funcionalidade intencionada.) The Art of Computer Programming,4 um texto fundacional em ciência da computação por Donald E. Knuth, é focado unicamente em eficiência. E quanto à resiliência? Citando novamente Galton: “A criação de sistemas resiliente significa pensar dura e antecipadamente sobre o que poderia dar errado e incorporar contramedidas efetivas nos designs.” Como nós podemos tornar os nossos algoritmos mais resilientes?

É claro, tolerância a falhas tem sido parte do cânone da construção de sistemas de computação por décadas. A citação5 de Jim Gray, no Prêmio Turing de 1998, refere-se à sua invenção das transações como um mecanismos para prover resiliência contra quedas (crash resilience) a bancos de dados. A citação6 de Leslie Lamport, no Prêmio Turing de 2013, refere-se ao seu trabalho sobre tolerância a falhas em [287]sistemas distribuídos. Mesmo assim, a ciência da computação ainda não internalizou completamente a ideia de que a resiliência a qual inclui confiança (reliability), robustez e mais, tem de ser empurrada até o nível algorítmico. O caso em questão é o ranqueamento de resultados de busca. O algoritmo original de ranqueamento do Google foi o PageRank,7 o qual funciona contando o número e a qualidade dos links para uma página para determinar quão importante é o website. Mas o PageRank não é resiliente à manipulação de links, consequentemente “otimização de motor de busca (search-engine optimization).”

Como indicado por Friedman e Galston, a busca sem descanso por eficiência econômica impediu-nos de investir em ficarmos prontos para uma pandemia, a despeito de muitos avisos ao longo das várias décadas passadas, e impulsionou-nos a desenvolver uma cadeia global de suprimento que está bastante longe de ser resiliente. A ciência da computação tem alguma coisa a dizer sobre a busca implacável por eficiência econômica? Bastante, realmente.

Eficiência econômica significa8 que bens e fatores de produção são distribuídos ou alocados para os seus usos mais valiosos, e o desperdício é eliminado ou minimizado. Os defensores do mercado aberto argumentam9 que através do interesse próprio individual e liberdade de produção e consumo, a eficiência econômica é alcançada e os melhores interesses da sociedade, como um todo, são satisfeitos. Mas eficiência e otimalidade não deveriam ser confundidas. O Primeiro Teorema do Bem-estar (First Welfare Theorem),10 um teorema fundamental na economia, expressa que, sob certas suposições, um mercado tenderá na direção de uma equilíbrio competitivo, ótimo de Pareto; quer dizer, a eficiência econômica é alcançada. Mas quão bem um tal equilíbrio serve ao melhor interesse da sociedade?

Em 1999, Elias Koutsoupias e Papadimitriou (Koutsoupias e Papadimitriou 2019) ocuparam-se de estudar a otimalidade de equilíbrios a partir de uma perspectiva computacional. Na análise de algoritmos nós frequentemente comparamos o desempenho de dois algoritmos (por exemplo, ótimo versus aproximado ou offline versus online) estudando a razão dos seus resultados. Koutsoupias e Papadimitriou aplicaram essa perspectiva ao estudo dos equilíbrios. Eles estudaram sistemas nos quais agentes não cooperantes compartilham um recurso comum e propuseram uma ração entre o pior equilíbrio de Nash possível e o ótimo social como uma medida da efetividade do sistema. Essa razão tornou-se conhecida como o “Preço da Anarquia,”11 visto que ele mede quão longe do ótimo tais sistemas não cooperativos podem estar. Eles mostraram que o preço da anarquia por ser arbitrariamente alto, dependendo da complexidade do sistema. Em outras palavras, a eficiência econômica não garantia que os melhores interesses da sociedade, como um todo, sejam satisfeitos.

Uns poucos anos depois, Constantinos Daskalakis, Paul Goldberg e Papadimitriou perguntaram (Daskalakis et al. 2006) quanto tempo leva até que agentes econômicos convirjam para um equilíbrio. Estudando a complexidade de computar equilíbrio de Nash mistos, eles forneceram evidência de que há sistemas nos quais a convergência a um semelhante equilíbrio pode tomar um tempo excessivamente longo. A implicação desse resultado é que é muito improvável que sistemas [288]econômicos alguma vez estejam em um equilíbrio, porque é muito provável que as variáveis subjacentes, tais como preços, suprimento e demandas mudem enquanto o sistema está fazendo o seu lento caminho na direção da convergência. Em outras palavras, equilíbrios econômicos, um conceito central na teoria econômica, são fenômenos míticos em vez de reais. Esse não é um argumento contra mercados livres, mas ele obriga-nos a enxergá-los através de lentes pragmáticas, em vez de ideológicas.

A nossa infraestrutura digital, a qual se tornou um componente-chave do sistema econômico nos países desenvolvidos, é um dos poucos componentes que não se curvou diante do estresse da COVID-19. De fato, em março de 2020, muitos setores da nossa economia mudaram com pressa para o modo TDC, “trabalhar de casa (working from home).” Esses trabalhar a partir de casa, ensinar a partir de casa e aprender a partir de casa foram possibilitados (a um grau imperfeito, em muitos casos) pela Internet. A partir das raízes mesmas da ARPANET nos anos de 1960, a resiliência, possibilitada pelas aparentemente distributividade e redundância, foi um objetivo de design primário para a Internet (Yoo 2018). Resiliência via distributividade e redundância é um dos grandes princípios da ciência da computação que merece mais atenção da comunidade de negócios.

Em resumo, a resiliência é uma necessidade social fundamental, mas sub-apreciada. Tanto a computação quando a economia precisam intensificar o seu foco sobre a resiliência. É importante notar que os mercados e as pessoas tendem a subprepararem-se para lucratividade baixa ou eventos de muito longo prazo. Por exemplo, o seguro de carro é ineficiente para o segurado (insurance holder), embora ele ofereça resiliência. Contudo, requer-se que as pessoas comprem seguros de carro porque muitos não comprarão de outra maneira. Em outras palavras, ação social é requerida para assegurar a resiliência. É importante lembrar esse ponto, visto que muitos argumentam que a COVID-19 é apenas o “ato de aquecimento (warm-up act)” para a crise climática.12

A grande questão é como o mundo PC (“pós-COVID”) diferirá do AC (“antes-da-COVID”). Fareed Zakaria escreveu13 em The Washington Post em outubro de 2020: “A pandemia virou o presente de pernas para o ar. Mas ela concedeu-nos uma chance para refazermos o futuro.” Matt Simon escreveu14 em Wired em dezembro de 2020: “A pandemia da COVID-19 trouxe sofrimento e trauma incalculáveis. Mas ela também oferece maneiras para as pessoas – e até sociedades – mudarem para melhor.” EU acredito que a resiliência tem de ser o foco social-chave no mundo PC.


[289]Referências


Daskalakis, C., Goldberg, P.W., e Papadimitriou, C.H. (2006) The complexity of computing a Nash equilibrium. STOC 2006: 71-78

Livnat, A. Papadimitriou, C.H. (2016) Sex as an algorithm: the theory of evolution under the lens of

computation. Commun. ACM 59(11), pp. 84-93

Koutsoupias, E. e Papadimitriou, C.H. (1999) Worst-case Equilibria. Proc. 16th Annual Symposium on Theoretical Aspects of Computer Science, Lecture Notes in Computer Science 1563, Springer, pp. 404-413

Yoo, C.S. (2018) Paul Baran, Network Theory, and the Past, Present, and Future of the Internet. Colo. Tech. LJ 17, p.161.


Próximo ensaio


ORIGINAL:

VARDI, Y. V. Efficiency vs. Resilience: Lessons from COVID-19. In: GHEZZI, C. et al. (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p. 285-289. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


Perspectivas sobre o Humanismo Digital - Navegando através das Mudanças de um Mundo Digital

Perspectivas sobre o Humanismo Digital


Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital


Parte IX Sistemas e Sociedade


Ensaio anterior


[277]Navegando através das Mudanças de um Mundo Digital


por Nathalie Hauk e Manfred Hauswirth


Resumo Neste capítulo nós tratamos da questão de como a confiança no desenvolvimento tecnológico pode ser aumentada. O uso das tecnologias da informação pode, potencialmente, permitir humanidade, justiça social e o processo democrático. Ao mesmo tempo, há preocupações de que o implementação de certas tecnologias, por exemplo, tecnologias de IA, possam ter consequências imprevistas ou até possam ser usadas para propósitos maliciosos. Neste capítulo nós discutimos essas posições conflitantes.


As tecnologias da informação tornaram-se uma parte integral do trabalho, da saúde, do entretenimento, da comunicação e da educação. Contudo, a grande esperança dessa (r)evolução tecnológica para a abertura de um mundo de possibilidades – acesso ilimitado à informação, liberdade de expressão para todos, energia limpa, sustentabilidade, crescimento econômico e inovações industriais – tornou-se em um medo de viver sob um estado de vigilância com cidadãos “transparentes.” Cada vez mais a sociedade está dividida entre aqueles que se consideram como progressistas, desejosos de pularem no movimento da inovação tecnológica, e aqueles para quem as coisas estão movendo-se rápido demais, quem se sentem impotentes na defesa dos seus direitos e da sua segurança. Esse debate dentro da sociedade tem sido chamado da “crise de meia-idade da revolução tecnológica” (Ars Electronica 2019), referindo-se ironicamente à busca por orientação das pessoas em seus 40 anos. Consequentemente, esse é o momento correto para nos perguntar as questões fundamentais de “porque nós desenvolvemos tecnologias” e “para que propósito elas servem.” Historicamente, os humanos sempre têm usado ferramentas para superar suas próprias limitações (físicas) para assegurar a sobrevivência. Hoje em dia, as tecnologias digitais portam o potencial não apenas para superar limitações físicas, mas para promover e possibilitar humanidade, justiça social e o processo democrático. Por isso é crucial tratar [278]das questões de moralidade, ética e legalidade no desenvolvimento dessas tecnologias, uma vez que o limite último das tecnologias tem de ser limites éticos e morais. Para mais detalhes sobre esse tópico, ver o capítulo “Nosso Espelho Digital” em “Ética e filosofia da tecnologia.”

Um exemplo excelente da dependência crescente de tecnologia na sociedade moderna é a inteligência artificial (IA). Os algoritmos e as tecnologias de IA já encontraram o seu caminho para a vida cotidiana. Consequentemente, a questão de se as tecnologias de IA deveriam ser empregadas não mais se levanta. O desempenho de tarefas de rotina, tais como o uso de motores de busca na web, a abertura de um smartphone com ID facial, ou a execução de verificação ortográfica (spell checks) quando escrevendo um e-mail, depende de IA, frequentemente despercebida pelo usuário. Mesmo assim, como com qualquer nova tecnologia, o uso da IA traz tanto oportunidades quanto riscos. Enquanto a IA pode ajudar com a proteção da segurança dos cidadãos, a melhoria da atenção à saúde, a promoção de sistemas de transporte mais seguros e limpos, e a possibilitando a execução dos direitos fundamentais, também há preocupações justificadas de que as tecnologias de IA possam ter consequências imprevistas ou até possam ser usadas para propósitos maliciosos.

Boas demonstrações exemplares desses problemas fundamentais podem ser encontradas na área da aprendizagem de máquina (AM). A AM é usada para descobrir padrões em dados, por exemplo, identificando objetos em imagens para diagnósticos médicos. A grande vantagem é clara: um algoritmo de AM nunca fica cansado e realiza a tediosa tarefa de análise para números enormes de imagens a altas frequências e velocidades. Com a invenção de computadores quânticos, montantes ainda maiores de dados poderiam ser/serão analisados em tempo real, enfrentando problemas que até agora estão fora de alcance. Contudo, algoritmos de AM frequentemente são “caixas-pretas” – capazes de realizarem um comportamento aprendido ou treinados sem oferecer intuição de como ou porque uma decisão é tomada (para uma breve visão geral de um IA explicável, ver Xu et al. 2019). Para a processo de treinamento de AM, a seleção apropriada de conjuntos de dados de treinamento é de importância crucial. O lançamento de conjuntos de dados inapropriados ou enviesados frequentemente apenas se torna aparente após um processo de treinamento que já foi completado, como os seguintes três exemplos ilustram:

  1. Processos de tomada de decisão automática são cada vez mais implementados no recrutamento e gerenciamento de recursos humanos. Em 2018, a Amazon teve de interromper uma ferramenta de recrutamento de IA após a descoberta de que os algoritmos subjacentes ao software descriminavam contra mulheres. Presumivelmente assim porque o conjunto de dados de treinamento inicial continha mais candidatos homens do que candidatas mulheres. Consequentemente, o algoritmo aprendeu que o melhor candidato ao emprego era mais provável de ser um homem.

  2. Tay, um chatbot desenvolvido para pesquisa de entendimento de conversa, lançado no Twitter pela Microsfot em 2015, começou a usar linguagem abusiva após receber vastas quantidades de tweets racistas e sexistas, a partir dos quais Tay aprender a como conduzir uma conversa.

  3. Uma funcionalidade (feature) de reconhecimento de imagens, desenvolvida pelo Google em 2015, caracterizou erradamente duas pessoas negras como gorilas. O fato de que a companhia falhou em resolver o problema (mas, em vez disso, bloqueou inteiramente as categorias como “gorila,” “chimpanzé (chimp),” “chimpanhzé (chimpanzee)” e “macaco (monkey)” no reconhecimento de imagens) demonstra a extensão à qual as tecnologias de AM ainda estão amadurecendo.

[279]Um produto tem de assegurar o mesmo padrão de segurança e respeito aos direitos fundamentais, independentemente de se os seus processos subjacentes de tomada de decisão são baseados em humanos ou baseados em máquinas. Além disso, nós criamos sistemas de IA que são capazes de escrever textos e podem comunicar-se em linguagem natural conosco. Alguns deles fazem isso tão eloquentemente que nós não mais somos capazes de distinguir se uma pessoa real comunica-se conosco ou um sistema. Esse problema fundamental têm foi revelado por Joseph Weizenbaum com o seu simples sistema de processamento de linguagem natural ELIZA (Weizenbaum 1967). Desde então, tais sistemas, por exemplo, assistentes virtuais, têm evoluido significativamente, embora o problema ainda permaneça não resolvido. O perigo potencial é que eu não saiba se uma dada peça de informação venha de um humano ou de uma máquina. Dessa forma, nós não podemos inferir a confiabilidade de uma dada informação, ou nós podemos ter de re-definir completamente o conceito de confiabilidade. Essas questões tornam-se ainda mais delicadas e urgentes quando os direitos fundamentas de cidadãos são afetados diretamente, por exemplo, por aplicações de IA para aplicação da lei e jurisdição. A rastreabilidade de como uma decisão baseada em IA é tomada e, portanto, se as regras relevantes são respeitadas é da mais completa importância.


1 Confiança como Condutor-chave


Medos de vigilância e uso malicioso de tecnologia potencialmente desaceleram ou até evitam o progresso tecnológico e social. Assim, a questão fundamental é:


Como nós podemos aumentar a confiança no desenvolvimento tecnológico a fim de gerarmos valor a partir da aplicação de tecnologias?


A confiança é um antecedente-chave para assegurar a aceitação tecnológica (Siau e Wang 2018) e, dessa maneira, é um requerimento-chave para a continuação do progresso do desenvolvimento tecnológico. Isso é particularmente importante quando lidando com tecnologias que não são controladas diretamente por humanos ou se elas tomam decisões autônomas. A importância de IA confiável (trustworthy AI) também tem sido identificada e enfatizada no âmbito político, por exemplo, pela Comissão Europeia (Comissão Europeia 2020). É importante distinguir entre confiabilidade (trustworthiness) de uma tecnologia, por exemplo, a IA, e confiança (trust) em tecnologias. Enquanto a IA confiável é composta de ideias normativas sobre qualidades e características de uma tecnologia (que podem ou não depender de considerações éticas), a confiança em tecnologias é baseada em processos psicológicos através dos quais confiança é desenvolvida (Toreini et al. 2020). Contudo, os conceitos de confiabilidade de IA e confiança em IA estão entrelaçados. O conceito de IA confiável está baseado na ideia de que a confiança constrói o fundamento para o desenvolvimento sustentável de tecnologia e que os benefícios completos da implementação da IA apenas podem ser realizados se a confiança puder ser estabelecida. Ao mesmo tempo, tratar de considerações éticas no processo de desenvolvimento ou implementação de tecnologia influencia a formação de confiança, tal como a confiança (confidence) de que sistemas sejam projetados para serem benéficos, seguros e confiáveis (reliable).

Definições de confiança podem ter ênfases diferentes, dependendo do tipo de relação de confiança, por exemplo, confiança em relação aos indivíduos, organizações ou máquinas [280](Bannister e Connollu 2011). A comparabilidade do conceito de confiança em uma relação interpessoal e confiança em máquinas é tema de debate científico em andamento. De qualquer maneira, o conceito geral de confiança sempre inclui uma percepção de risco, por exemplo, qualquer tipo de consequência negativa que poderia se derivar a partir do uso de uma tecnologia. A confiança pode ser definida como “a disposição (willingness) […] para ficar vulnerável às ações de outra parte […] independente da habilidade para monitorar ou controlar essa outra parte” (Mayer et al. 1995, p. 712). A formação de confiança em tecnologia depende especificamente da interação de três características: (1) características humanas, tais como personalidade e habilidades; (2) características ambientais, tais como morais e valores de uma da instituição ou cultura; e (3) características de tecnologia, tais como o desempenho da tecnologias, seus atributos e seu propósito (Schäfer et al. 2016; Siau e Wang 2018). De maneira geral, a influência de características humanas e características ambientais serão similares, independentemente do tipo de relação de confiança. Portanto, nós continuamos com as especificidades das características de tecnologia na relação de confiança humano-tecnologia.

A interação humana com tecnologia está afastando-se cada vez mais do simples uso de computadores como ferramentas na direção da construção de relacionamentos com entidades inteligentes, autônomas que levam a cabo ações independentes (deVisser et al. 2018). Conforme os dispositivos tecnológicos tornam-se sempre mais sofisticados e personalizados, a maneira que os humanos se ligam com a tecnologia, por exemplo, tocando e falando com máquinas, também se intensifica. As pessoas têm a tendência a antropomorfizarem a tecnologia, e, no caso da IA, a aplicarem morais humanas a ela (Ryan 2020). Contudo, aplicar padrões morais humanos a máquinas é problemático, uma vez que nem máquinas muito complexas como tecnologias IA possuem consciência, intenções ou atitudes no momento (e possivelmente nunca possuirão). Mesmo assim, pesquisa sugere que a formação de confiança em tecnologias depende do nível de “humanidade (humanness)” de uma tecnologia – a percepção de traços semelhantes a humanos, por exemplo, voz e características animadas (Lankton et al. 2015). Ademais, as pessoas desenvolvem confiança em tecnologias de maneiras diferentes, por exemplo, ao longo de critérios mais semelhantes a humanos ou critérios mais semelhantes a sistemas. De acordo com o modelo HBI+ de confiança (ABI+ model de trust) (Mayer e al. 1995; Dietz e Den Hartog 2006), as características que ampliam a confiabilidade percebida em uma pessoa são habilidade, benevolência, integridade e predicabilidade. Habilidade (Ability) refere-se a habilidades (skills) e competências que possibilitam o confiado (trustee) a ter influência ou entregar um resultado desejado. Critérios correspondentes semelhantes a sistemas seriam robustez técnica e segurança de uma tecnologia. Benevolência refere-se a crença na boa vontade (goodwill) do confiado. Aplicada a tecnologias, o nível percebido de benevolência pode ser aumentado pelo lançamento responsável de uma tecnologia e a sua transparência. Integridade refere-se a um conjunto de princípios do confiado que é percebido como respeitável. Para aumentar o nível de integridade percebida em tecnologias, nós temos de fortalecer a sua confiabilidade (reliabity) e responsabilidade (accountability). Finalmente, predicabilidade refere-se à estabilidade da confiabilidade percebida sustentada através do tempo.

Por exemplo, as pessoas são mais prováveis de confiarem em uma nova tecnologia quando essa tecnologia é fornecida por uma instituição com uma elevada reputação – representando habilidade, benevolência, integridade e predicabilidade – em contraste com uma instituição sem uma reputação semelhante (Siau e Wang 2018). Por exemplo, a confiança em chatbots depende parcialmente da segurança e privacidade percebidas do provedor do serviço (Følstad et al. 2018). [281]Além disso, se as tecnologias são percebidas como confiáveis (reliable), transparentes e seguras, a confiança em uma tecnologia aumenta (Hancock et al. 2020).


2 Conclusões


A sociedade depende cada vez das tecnologias para se manter competitiva e para satisfazer as complexidades crescentes da vida em um mundo globalizado. Algoritmos e tecnologias de IA já criaram seu caminho para dentro da vida cotidiana, levando a melhoria em saúde, segurança e produtividade. Contudo, nós temos de equilibrar esses benefícios com uma consideração cuidadosa dos efeitos colaterais indesejados ou até do abuso de tecnologias de IA. Em conformidade com princípios éticos e morais, nós temos de assegurar que sistemas de IA beneficiem os indivíduos e que os benefícios econômicos e sociais sejam compartilhados através da sociedade em uma forma democrática e igual.

Se a sociedade aborda o desenvolvimento tecnológico primariamente com medo e desconfiança, o progresso tecnológico será lento, e passos importantes na direção de assegurar segurança e confiabilidade de tecnologias de AI serão embaraçados. Se a sociedade aborda a inovação tecnológica de mente aberta, as tecnologias podem ter o potencial para mudarem profundamente a sociedade para melhor. O bloco de construção básico para alcançar isso é a confiança. A fim de estimular e restaurar a confiança no avanço tecnológico, nós temos de minimizar riscos, tornar sistemas verificáveis e construir legislação efetiva e responsável (accountable), junto com o desenvolvimento de um novo entendimento do que a confiança em tecnologias pode significar. Os mecanismos psicológicos subjacentes aos mecanismos de confiança em relações humano-tecnologia podem estender os conceitos tradicionais de confiança ou reinventar inteiramente o significado de confiança. O processo para esse desenvolvimento já começou, mas requererá mais experiências, experimentos e análise prática em uma forma aberta, discursiva com ampla inclusão de partes envolvidas (stakeholders) sociais.


Referências


Ars Electronica (2019) Out of the Box – the Midlife Crisis of the Digital Revolution. Ars Electronica Festival. Linz, Austria, 5 a 9 de setembro de 2019.

Bannister, F., & Connolly, R. (2011) Trust and transformational government: A proposed framework for research. Government Information Quarterly, 28, pp. 137-147. https://doi.org/10.1016/j.giq.2010.06.010

De Visser, E.J., Pak, R., & Shaw, T.H. (2018) From ‘automation’ to ‘autonomy’: the importance of trust repair in human – machine interaction. Ergonomics, 61(10), pp. 1409-1427. https://doi.org/10.1080/00140139.2018.1457725

Dietz, G., & Den Hartog, N.D. (2006) Measuring trust inside organisations. Personnel Review, 35 (5), pp. 557-588. https://doi.org/10.1108/00483480610682299

European Commission (2020) White Paper on Artificial Intelligence: a European approach to excellence and trust. Brussels, 19 de fevereiro de 2020. Disponível em: https://ec.europa.eu/info/sites/info/files/commission-white-paper-artificial-intelligence-feb2020_en.pdf (acessado em: 3 de março de 2021)

[282]Følstad A., Nordheim C.B., Bjørkli C.A. (2018) What Makes Users Trust a Chatbot for Customer Service? An Exploratory Interview Study. In: Bodrunova S. (eds) Internet Science. INSCI 2018. Lecture Notes in Computer Science, 11193, pp. 194-208. Springer, Cham. https://doi.org/10.1007/978-3-030-01437-7_16

Hancock, P.A., Kessler, T.T., Kaplan, A.D., Brill, J.C., & Szalma, J.L. (2020) Evolving Trust in Robots: Speci fi cation Through Sequential and Comparative Meta-Analyses. Human Factors, pp. 18720820922080-18720820922080. https://doi.org/10.1177/0018720820922080

Lankton, N.K., McKnight, D.H., & Tripp, J. (2015) Technology, Humanness, and Trust: Rethinking Trust in Technology. Journal of the Association for Information Systems, 16(10), pp. 880-918. https://doi.org/10.17705/1jais.00411

Mayer, R.C., Davis, J.H., & Schoorman, F.D. (1995) An Integrative Model Of Organizational Trust. Academy of Management Review, 20(3), pp. 709-734. https://doi.org/10.5465/amr.1995.9508080335

Ryan, M. (2020) In AI We Trust: Ethics, Artificial Intelligence, and Reliability. Science and Engineering Ethics, 26(5), pp. 2749-2767. https://doi.org/10.1007/s11948-020-00228-y

Schäfer, K.E., Chen, J.Y., Szalma, J.L., & Hancock, P.A. (2016) A Meta-Analysis of Factors Influencing the Development of Trust in Automation: Implications for Understanding Autonomy in Future Systems. Human Factors, 58(3), pp. 377-400. https://doi.org/10.1177/0018720816634228

Siau, K., & Wang, W. (2018) Building Trust in Artificial Intelligence, Machine Learning, and Robotics. Cutter Business Technology Journal, 31(2), pp. 47-53.

Toreini, E., Aitken, M., Coopamootoo, K., Elliott, K., Zelaya, C.G., & van Moorsel, A. (2020) The relationship between trust in AI and trustworthy machine learning technologies. In Conference on Fairness, Accountability, and Transparency (FAT* ’20), January 27th – 30th 2020, Barcelona, Spain. ACM, New York, NY, USA, pp. 272-283. https://doi.org/10.1145/3351095.3372834

Xu, F., Uszkoreit, H., Du, Y., Fan, W., Zhao, D., & Zhu, J. (2019) Explainable AI: A Brief Survey on History, Research Areas, Approaches and Challenges. In: Tang, J., Kan, M.Y., Zhao, D., Li, S., & Zan, H. (eds) Natural Language Processing and Chinese Computing. NLPCC 2019. Lecture Notes in Computer Science, (11839), pp. 563-574. Springer, Cham. https://doi.org/10.1007/978-3-030-32236-6_51

Weizenbaum, J. (1967). Contextual Understanding by Computers. Communications of the ACM, 10 (8), pp. 474-480. https://doi.org/10.1145/363534.363545


Próximo ensaio


ORIGINAL:

HAUK, N.; HAUSWIRTH, M. Navigating Through Changes of a Digital World. In: GHEZZI, C. et al. (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p. 277-282. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Uma Introdução aos Princípios da Moral e Legislação - IV Valor de uma Porção de Prazer, Como deve ser Medida

Uma Introdução aos Princípios da Moral e Legislação


Por Jeremy Bentham


Capítulo anterior


[29]IV Valor de uma Porção de Prazer, Como deve ser Medida


I. Então, os prazeres, e a evitação das dores, são os fins que o legislador tem em vista: portanto, compete a ele entender o valor deles. Os prazeres e as dores são os instrumentos com os quais ele tem para trabalhar: portanto, convém a ele entender a força deles, a qual, novamente, é, em outras palavras, o valor deles.

II. A uma pessoa considerada por si mesma, o valor de um prazer ou uma dor considerados por si mesmos, será maior ou menor, de acordo com as quatro circunstâncias seguintes1:

  1. Sua intensidade.

  2. Sua duração.

  3. Sua certeza ou incerteza.

  4. Sua proximidade ou distância.

III. Essas são as circunstâncias que devem ser consideradas na estimativa de um prazer ou uma dor consideradas cada um deles por si mesmo. Mas quando o valor de qualquer prazer ou dor é considerado para o propósito de estimar a tendência de qualquer ato pelo qual ele é produzido, há duas outras circunstâncias a serem levadas em conta; essa são,

  1. [30]Sua fecundidade, ou a chance que ele tem de ser seguido por sensações do mesmo tipo: quer dizer, prazeres, se for um prazer: dores, se for uma dor.

  2. Sua pureza, ou a chance que ele tem de não ser seguido por sensações do tipo oposto: quer dizer, dores, se for um prazer: prazeres, se for uma dor.

Contudo, com rigor, esses dois últimos escassamente devem ser considerados propriedades do prazer ou da dor em si mesmos; portanto, com rigor, eles não devem ser aproveitados na consideração do valor daquele prazer ou daquela dor. Com rigor, eles deles devem ser considerados apenas propriedades do ato, ou de outro evento, pelo qual tal prazer ou dor foi produzido, e, portanto, apenas devem ser aproveitados na consideração da tendência de tal ato ou tal evento.

IV. Para um número de pessoas, em referência a cada uma das quais o valor de um prazer ou uma dor é considerado, ele será maior ou menor, de acordo com sete circunstâncias: a saber, as seis precedentes: a saber.

  1. Sua intensidade.

  2. Sua duração.

  3. Sua certeza ou incerteza.

  4. Sua proximidade ou distância.

  5. Sua fecundidade.

  6. Sua pureza.

E uma outra; saber:

  1. Sua extensão; quer dizer, o número de pessoas ao qual ele se estende; ou (em outras palavras) quem é afetado por ela.

V. Portanto, para considerar exatamente a tendência geral de qualquer ato, pelo qual os interesses de uma comunidade são afetados, proceda como se segue. Comece com qualquer pessoa dentre aquelas cujos interesses parecem sem mais imediatamente afetados por ele: e considere,

  1. O valor de cada prazer distinguível que parece ser produzido por ele na primeira instância.

  2. O valor de cada dor que parece ser produzida por ele na primeira instância.

  3. O valor de cada prazer que parece ser produzido [31]por ele após o primeiro. Isso constitui a fecundidade do primeiro prazer e a impureza da primeira dor.

  4. O valor de cada dor que parece ser produzida por ele após a primeira. Isso constitui a fecundidade da primeira dor, e a impureza do primeiro prazer.

  5. Some todos os valores de todos os prazeres em um lado, e aqueles de todas as dores, no outro. O balanço, se ele for do lado do prazer, será a boa tendência para agir sobre o todo, com respeito aos interesses da pessoa individual; se, do lado da dor, a tendência dele sobre o todo.

  6. Considere o número de pessoas cujos interesses parecem estar preocupados; e repita o processo acima com respeito a cada um. Some os números expressivos dos graus de boa tendência, que o ato tem, com respeito a cada indivíduo, com respeito a quem a tendência dela é boa sobre o todo: faça isso novamente com respeito a cada indivíduo, com respeito a quem a tendência dele é boa sobre o todo: faça isso novamente com respeito a cada indivíduo, em respeito a quem a tendência dele é sobre o todo. Tome a balança; se do lado do prazer, dará a geral boa tendência do ato, com respeito ao número total ou comunidade de indivíduos interessados; se do lado da dor, a geral tendência má, com respeito à mesma comunidade.

VI. Não se deve esperar que esse processo deva ser estritamente seguido para todo julgamento moral, ou para toda operação legislativa ou judicial. Conduto, ele sempre pode ser mantido em vista: e tão próximo quanto o processo efetivamente seguido nessas ocasiões aproximar-se dele, tão próximo tal processo chegará do caráter de um exato.

VII. O mesmo processo é semelhantemente aplicável ao prazer e à dor, em qualquer forma que eles apareçam: e por qualquer denominação que eles sejam distinguidos: ao prazer, se ele for chamado de bem (o qual é propriamente a causa ou instrumento do prazer) ou lucro (o que é prazer distante, ou a causa ou instrumento de prazer distante,) ou conveniência, ou vantagem, benefício, emolumento, felicidade, e assim por diante: à dor, se ela for chamado de mal, [32](o qual corresponde a bem) ou prejuízo, ou inconveniência, ou desvantagem, ou perda, ou infelicidade, e assim por diante.

VIII. Nem isso é uma teoria estranha e injustificada, não mais do que é uma inútil. Em tudo isso não há nada exceto ao que a prática do gênero humano, em qualquer lugar que eles tenham uma visão clara do seu próprio interesse, seja conforme. Um artigo de propriedade, uma propriedade de terra, por exemplo, é valiosa, por causa de quê? Por causa de todos os prazeres que ele permite a um homem produzir, e, o que equivale à mesma coisa, as dores de todos os tipos que ele lhe permite evitar. Mas o valor de um tal artigo de propriedade é universalmente entendido subir ou cair de acordo com a extensão ou brevidade do tempo que um homem tem nele: a certeza ou incerteza de sua entrada em posse: e a proximidade ou distância do tempo no qual, se de qualquer maneira, ele deve entrar em posse. Quanto à intensidade dos prazeres que um homem pode derivar a partir dele, isso nunca é considerado, porque depende do uso que cada pessoa particular pode chegar a fazer dele; o que não pode ser estimado até que os prazeres particulares que ele pode chegar a derivar a partir dele, ou das dores particulares que ele pode excluir através dele, sejam trazidos à vista. Pela mesma razão, ele não considera nem a fecundidade nem a pureza daqueles prazeres.

É o suficiente sobre prazer e dor, felicidade e infelicidade, no geral. Nós agora chegamos para considerar os vários tipos particulares de dor e prazer.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

BENTHAM, J. An Introduction to the Principles of Morals and Legislation. Oxford: At the Clarendon Pressa, 1907. pp. 29-32. Disponível em: <https://archive.org/details/introductiontoth033476mbp/page/n66/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1[29]Desde então, essas circunstâncias têm sido denominadas de elementos ou dimensões de valor em um prazer ou uma dor.

Não muito depois da publicação da primeira edição, os seguintes versos de memória foram estruturados, com a visão de alojar mais efetivamente, na memória, esses pontos, sobre os quais toda a estrutura da moral e legislação pode ser vista descansar.

Intensas, duradouras, certas, velozes, frutíferas, puras -

Tais marcas em prazeres e dores duram.

Tais prazeres busca se privado for teu fim:

Se for público, amplo deixe-o estender-se.

Semelhantes dores evita, qualquer que seja tua visão.

Se dores devem surgir, deixa-as estenderem-se a poucos.

Uma Introdução aos Princípios da Moral e Legislação - III Das Quatro Sanções ou Fontes de Dor e Prazer

Uma Introdução aos Princípios da Moral e Legislação


Por Jeremy Bentham


Capítulo anterior


[24]III Das Quatro Sanções ou Fontes de Dor e Prazer


I. Foi revelado que a felicidade dos indivíduos por quem uma comunidade é composta, a qual são os seus prazeres e a sua segurança, é o fim e o único fim que o legislador deveria ter em vista: o padrão único, em conformidade ao qual cada indivíduo deveria, até onde depende do legislador, ser criado para dar forma ao seu comportamento. Mas se for essa ou qualquer outra coisa que tem de ser feita, não há nada pelo que, em última caso, um homem possa ser disposto a fazer isso, exceto a dor ou o prazer. Tendo tomado uma visão geral desses dois grandes objetos (a saber, o prazer, e o que equivale à mesma coisa, a imunidade à dor) no caráter de causas finais; será necessário tomar uma visão do prazer e da dor mesmos, no caráter de causas eficiente ou meios.

II. Há quatro fontes distinguíveis a partir das quais o prazer e a dor costumam fluir: consideradas separadamente, elas podem ser denominadas a física, a política, a moral e a religiosa: e, na medida que os prazeres e as dores pertencentes a cada uma delas são capazes de conceder uma força vinculante a qualquer lei ou regra de conduta, elas todas podem ser denominadas de sanções.1

[25]III. Se for na vida presente, e a partir do curso ordinária da natureza, não propositalmente modificado pela interposição da vontade de nenhum ser humano, nem por qualquer interposição extraordinária de nenhum ser invisível superior, que o prazer ou a dor ocorre ou é esperado(a), ele pode ser dito emanar a partir de ou pertencer à sanção física.

IV. Se nas mãos de uma pessoa particular ou de um conjunto de pessoas na comunidade, quem, sob nomes correspondentes àqueles de juiz, são escolhidos para o propósito de a administrar, de acordo com a vontade do poder soberano ou supremo governante no estado, ela pode ser dita emanar a partir da sanção política.

V. Se nas mãos daquelas pessoas fortuitas na comunidade, como a parte em questão pode acontecer, no curso da sua vida, de ter preocupação com, de acordo com a disposição espontânea de cada homem, e não de acordo com nenhuma regra estabelecida ou a concertada, ela pode ser dita emanar a partir da sanção moral ou popular.2

VI. Se a partir da mão imediata de um ser invisível superior, quer na vida presente, quer na futura, ela pode ser dito emanar a partir da sanção religiosa.

VII. Prazeres ou dores que podem ser esperados surgirem a partir das sanções física, política ou moral devem todos eles ser esperados serem experienciados, se alguma vez, na vida presente: aqueles que podem ser esperados emanar a partir da sanção religiosa, pode ser esperados ser experienciados ou na vida presente ou em uma futura.

VIII. É claro, aquelas que podem ser experienciadas na vida presente não podem ser outras exceto aquelas às quais a natureza humana, no curso da vida presente, está suscetível: e a partir de cada uma dessas fontes pode fluir todos os prazeres ou dores aos quais, no curso da vida presente, a natureza humana está suscetível. Portanto, com respeito a essas (apenas com as quais nós temos qualquer interesse neste lugar) aquelas delas que pertencem a qualquer uma daquelas sanções não diferem, em último caso, em tipo daquelas que pertencem a qualquer uma das outras três: a única diferença que há entre elas jaz nas circunstâncias que acompanham a sua produção. Um sofrimento que aconteça a um homem no curso natural e espontâneo das coisas, por exemplo, deverá ser referido como uma calamidade; caso no qual, se suposta acontecer a ele através de qualquer imprudência dele, pode ser referida como uma punição emanando da sanção física. Agora, esse mesmo sofrimento, se infligido pela lei, será o que é comumente chamado de uma punição; se incorrido por falta de qualquer assistência amigável, a qual a má conduta, ou suposta má conduta, do sofredor ocasionou ser retirada, uma punição emanando a partir da sanção moral; se através da interposição imediata de uma providência particular, uma punição emanando a partir da sanção religiosa.

IX. Os bens de um homem, ou a sua pessoa, são consumidos pelo fogo. Se isso aconteceu com ele pelo que é chamado de um acidente, foi uma calamidade: se em razão de sua própria imprudência (por exemplo, a partir de sua negligência para colocar sua vela para fora) pode ser chamada de uma punição da sanção física: se aconteceu a ele pela sentença do magistrado político, uma punição pertencente à sanção política; que dizer, o que é comumente chamado de uma punição: se por falta de alguma assistência que seu vizinho retirou dele a partir de algum desgosto pelo seu caráter moral, uma punição da sanção moral: se por um ato imediato do desprazer de Deus, manifestado por causa de algum pecado cometido por ele, ou através de alguma distração da mente, ocasionada pelo terror de tal desprazer, uma punição da sanção religiosa.3

[27]X. Quanto aos prazeres e às dores pertencentes à sanção religiosa, com respeito a uma vida futura, de quais tipos esses podem ser, nós não podemos saber. Eles não estão abertos à nossa observação. Durante a vida presente, eles são apenas questão de expectativa: e, se essa expectativa for derivada a partir da religião natural ou revelada, o tipo particular de prazer ou dor, se ele for diferente de todas aqueles que estão abertas à nossa observação, é do que nós não podemos ter ideia. As melhores ideias que nós podemos obter de semelhantes dores e prazeres estão completamente não decididas (unliquidated) no ponto de qualidade. Em que outros aspectos as nossas ideias deles podem ser decididas (liquidated) será considerado em outro lugar.4

XI. Dessas quatro sanções, a física de modo geral é, nós podemos observar, o fundamento da política e da moral: assim ela também é da religiosa, enquanto essa comporta relação com a vida presente. Ela está incluída em cada uma das outras três. Isso pode operar em qualquer caso, (quer dizer, quaisquer uma das dores ou um dos prazeres pertencentes a ela pode operar) independentemente delas: nenhuma delas pode operar exceto através disso. Em uma palavra, os poderes da natureza podem operar por si mesmos; mas nem o magistrado, nem os homens no geral, podem operar, nem está Deus, neste caso, em questão suposto operar, senão através dos poderes da natureza.

XII. Para esses quatro objetos, os quais, em sua natureza, têm tanto em comum, pareceu útil encontrar uma causa comum. Parece útil, em primeiro lugar, pela conveniência de dar um nome para certos prazeres e dores, para os quais um nome igualmente característico dificilmente poderia ter sido encontrado de outra maneira: em segundo lugar, pelo bem de sustentar a eficácia de certas forças morais, a influência das quais é apta a não ser suficientemente auxiliada. A sanção política exerce uma influência sobre a conduta do gênero humano? As sanções moral, religiosa também o fazem. Em cada polegada da sua carreira, as operações do magistrado político estão passíveis de serem auxiliadas ou impedidas por estes dois poderes estrangeiros: quem, um ou outro [28]deles, ou ambos, são certos de serem seus rivais ou seus aliados. Acontece a ele deixá-los de fora dos seus cálculos? Ele quase estará certo de se encontrar equivocado no resultado. De tudo isso nós deveremos encontrar provas abundantes na sequência desta obra. Portanto, convém a ele tê-los continuamente diante dos seus olhos; e isso sob um nome tal que exiba a relação que eles comportam com os seus próprios propósitos e desígnios.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

BENTHAM, J. An Introduction to the Principles of Morals and Legislation. Oxford: At the Clarendon Pressa, 1907. pp. 24-28. Disponível em: <https://archive.org/details/introductiontoth033476mbp/page/n61/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1[24]Sanctio, em latim, era usado para significa o ato de vinculação (act of binding), e, por uma transição gramatical comum, qualquer coisa que sirva para vincular (bind) um homem: a saber, a observância de um tal ou tal modo de conduta. De acordo com um gramático latino[subnota 1.1], a importância da palavra é derivada através de um processo bastante rebuscado (tais como aqueles comumente são, e, em uma grande medida, de fato, tem de ser, através dos quais as ideias intelectuais são derivadas a partir das sensíveis) a partir da palavra sanguis, sangue (blood): porque, entre os romanos, com uma visão para inculcar o povo uma persuasão de que um tal ou tal modo de conduta seria [25]tornada obrigatório sobre um homem pela força do que eu chamo da sanção religiosa (quer dizer, que ele seria feito sofrer pela interposição extraordinária de algum poder superior, se ele falhasse em observar o modo de conduta em questão) certas cerimônias foram concebidas pelos sacerdotes: no curso de quais cerimônias o sangue das vítimas era usado.

Portanto, uma sanção é uma fonte de poderes obrigatórios ou motivos: quer dizer, de dores e prazeres; os quais, de acordo como eles estejam conectadas com tais ou tais modos de conduta, operam, e, de fato, são as únicas coisas que podem operar, como motivos. Ver capítulo X [Motivos].

[subnota 1.1] Servius. Ver Ainsworth’s Dict. ad verbum Sanctio.

2[25]Melhor denominado de popular, visto que mais diretamente indicativo da sua causa constituinte; da mesma forma, dada a sua relação com a frase mais comum opinião pública, em francês opinion publique, o nome aqui dado àquele poder tutelar, sobre a qual tanto se fala recentemente, e pelo qual tanto é realizado. Contudo, a segunda denominação é infeliz e inexpressiva; uma vez que, se a opinião é material, é apenas em virtude da influência que ela exerce sobre a ação, através do meio das afeições e da vontade.

3[26]Um sofrimento concebido para acontecer a um homem pelo ato imediato de Deus, como acima, é frequentemente, em prol da brevidade, chamada de um julgamento; em vez de dizer, um [27]sofrimento infligido sobre ele em consequência de um julgamento especial formado, e resolução em consequência tomada, pela Divindade.

4Ver capítulo xiii. [Casos impróprios] par. 2. nota.