domingo, 14 de janeiro de 2024

Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo - Parte II - Seções XX-XXII

Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo


Por Edmund Burke


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Parte II


[161]Seção XX Os Gritos dos Animais


Aqueles sons que imitam as naturais vozes desarticuladas de homens, ou de quaisquer animais com dor ou em perigo, são capazes de transmitir grandes ideias; a menos que sejam a voz de alguma criatura para a qual nós estamos acostumados a olhar com desdém. Os tons irados das bestas [162]selvagens são igualmente capazes de causar uma sensação grande e terrível.


Hinc exaudiri gemitus, iræque leonum

Vincia recusantum, et sera sub nocte rudentum;

Setigerique sues, atque in præsepibus ursi

Sævire; et formæ magnorum ululare luporam.


Poderia parece que essas modulações de som comportem alguma conexão com a natureza das coisas que elas representam, e que não sejam meramente arbitrárias; porque os gritos naturais de todos os animais, mesmo daqueles animais com os quais nós não estivemos familiarizados, nunca falham em se fazerem suficientemente entendidos; isso não pode ser dito da linguagem. As modificações de som que podem ser produtivas do sublime são quase infinitas. Aquelas que eu mencionei são umas poucas instâncias para mostrar sobre quais princípios todas elas são construídas.


Seção XXI Cheiro e Gosto – Amarguras e Fedores


Cheiros e gostos também têm alguma parte nas ideias de grandeza; mas é pequena, fraca em sua natureza, e confinada às suas operações. Eu deverei apenas observar que nenhum cheiro ou gosto pode produzir uma grande sensação, exceto amarguras excessivas e fedores intoleráveis. É verdadeiros que essas afetações do cheiro e do gosto, quando elas estão em sua força completa, e inclinam-se diretamente sobre o sensório, são simplesmente dolorosas, e não acompanhadas com nenhum tipo de deleite; mas quando elas são moderadas, como em uma descrição ou narrativa, eles tornam-se fontes do sublime, tão genuínas quanto qualquer outra, e em consequência dos exatos mesmos princípios de uma dor moderada. “Um copo de amargura (A cup of bitterness)”; “drenar o copo [163]amargo da fortuna (to drain the bitter cup or fortune)”; “as maçãs amargas de Sodoma (the bitter apples of Sodom)”; todas essas são ideias adequadas para uma descrição sublime. Nem é esta passagem de Virgílio sem sublimidade, onde o fedor (stench) do vapor em Albunca conspira tão alegremente com o horror e tenebrosidade sagrados daquela floresta profética:


At rex sollicitus monstris oracula Fauni

Fatidici genitoris adit, lucosque sub alta

Consulit Albunea, nemorum quæ maxima sacro

Fonte sonat; sævamque exhalat opaca Mephitim.


No sexto livro, e em uma descrição muito sublime, a exalação venenosa do Aqueronte não é esquecida, nem de qualquer maneira ela discorda das outras imagens em meio às quais ela é introduzida:


Spelunca alta fuit, vastoque immanis hiatu

Scrupea, tuta lacu nigro, nemorumque tenebris;

Quam super haud ullæ poterant impune volantes

Tendere iter pennis: talis sese halitus atris

Faucibus effundens supera ad convexa ferebat.


Eu acrescentei esses exemplos porque alguns amigos, pelo julgamento de quem eu tenho grande deferência, foram da opinião de que, se o sentimento colocasse-se nuamente por si mesmo, ele estaria sujeito, à primeira vista, ao burlesco e ridículo; mas isso, eu imagino, surgiria principalmente a partir da consideração da amargura e do fedor em companha de ideias mesquinhas (mean) e desprezíveis (contemptible), com as quais deve ser admitido que elas estão frequentemente unidas; uma tal união degrada o sublime em todas as outras instâncias, assim como naquelas. Mas é um dos testes pelos quais a sublimidade de uma imagem deve ser testada, não se ela se torna mesquinha quando associada com ideias mesquinhas; mas se, quando unida com imagens de uma grandeza reconhecida, a inteira composição é suportada com dignidade. Coisas que são terríveis são sempre grandiosas: [164]mas quando as coisas possuem qualidades desagradáveis, ou tais como, de fato, a possuírem algum grau de perigo, mas de um perigo facilmente superado, elas são meramente odiosas; como sapos e aranhas.


Seção XXII Sentimento – Dor


Do sentimento pouco mais pode ser dito do que que a ideia de dor corporal, em todos os modos e graus de labor, dor, angústia, tormento, é produtiva do sublime, e nada mais, nesse sentido, pode produzi-la. Eu não tenho de fornecer nenhuma nova instância, como aquelas dadas nas seções anteriores abundantemente ilustram uma observação que, na realidade, carece apenas de atenção com a natureza, para ser feita por todos.

Tendo dessa maneira percorrido as causas do sublime com referência a todos os sentidos, a minha primeira observação (seção 7) será considerada quase muito verdadeira; de que o sublime é uma ideia pertencente à autopreservação; que ele é, portanto, uma das mais comovente que nós temos; que a sua emoção mais distante é uma emoção de angústia (distress); e que nenhum prazer1 a partir de uma causa positiva pertence a ele. Exemplos sem número, além daqueles mencionados, poderiam ser trazidos em suporte dessas verdades, e muitas, talvez úteis, consequências extraídas a partir delas -


Sed fugit interea, fugit irrevocabile tempus,

Singula dum capti circumvectamur amore.


Próxima seção


ORIGINAL:

BURKE, E. A Philosophical Inquiry into the Origin of our Ideas of the Sublime and Beautiful. IN:______. The Works of the Right Honorable Edmund Burke. Volume I. Boston: Little, Brown, and Company, 1877. pp. 161-164. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofrighthono01burk/page/161/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1[164]Ver Part I, Seção 6.

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