sábado, 27 de janeiro de 2024

Perspectivas sobre o Humanismo Digital - Ética ou Qualidade de Vida?

Perspectivas sobre o Humanismo Digital


Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital


Parte IX Sistemas e Sociedade


Ensaio anterior


[263]Ética ou Qualidade de Vida?


por Hubert Österle


Resumo Organizações governamentais e não governamentais ao redor do mundo estão tentando dar forma ao desenvolvimento sociotécnico, especialmente ao uso da tecnologia da informação. Elas estão desenvolvendo diretrizes éticas para a criação e avaliação de serviços digitais. A disciplina de engenharia da vida deve combinar o conhecimento de várias disciplinas, tais como psicologia, aprendizagem de máquina, economia, ética, de maneira que a tecnologia sirva às pessoas, ou seja, contribua para o bem-estar. Portanto, um entendimento sólido de qualidade de vida deveria ser o ponto de partida. Serviços digitais de todos os tipos fornecem gêmeos digitais cada vez mais detalhados e concedem-nos a oportunidade para operacionalizar princípios éticos.


Por décadas, a inteligência de máquina tem mudado companhias e a economia. Agora ela está afetando as nossas vidas de maneiras significativamente mais diretas e gerando esperanças e temores. Iniciativas éticas tais como o humanismo digital querem alinhar inteligência de máquina com a qualidade de vida (felicidade e infelicidade) de todos os seres humanos.


1 Abundância e Medo determinam a Discussão


Para sociedades altamente desenvolvidas, pelo menos, a tecnologia e o capitalismo têm trazido enorme prosperidade material e satisfeito necessidades tais como comida, segurança e saúde, ou seja, as necessidades de autopreservação e preservação da espécie.

Mas a sociedade afluente pode fazer mais do que satisfazer as necessidades básicas (fundo amarelo na Fig. 1). A necessidade de seleção (fundo azul-claro) ganham destaque (Österle 2020, p. 68-80) e conduzem os seres humanos para uma esteira na qual, consciente ou inconscientemente, todos estão constantemente trabalhando em seus status, se através de [264]roupas, cargos em um clube, conhecimento, habilidades em música, boa forma jovem, ou simplesmente através de capital. Um crescimento quase explosivo na literatura sobre pesquisa de felicidade e ética, assim como uma oferta acompanhante de serviços de estilo de vida, tais como treinamento em felicidade, yoga e bem-estar têm como objetivo ajudar-nos a obter tantos sentimentos positivos quando possível a partir da satisfação de todas as necessidades e a prevenção de todos os sentimentos negativos.

[264]Fig. 1 Rede de necessidades


Ao mesmo tempo, há um medo crescente do que está por vir. Distopias tais como o capitalismo de vigilância (Zuboff 2019), o estado de vigilância totalitária, a perda da humanidade e dos valores tradicionais, ou as demandas excessivas colocadas sobre o indivíduo distraem da tarefa urgente de dar forma à mudança vindoura.


2 Desenvolvimento requer Diretrizes Éticas


Frases tais como “para o benefício da humanidade” têm se tornado um elemento comum das declarações de missão corporativas. Mas quem de fato acredita em afirmações tão grandiosas? O que a ética, especialmente a ética profissional, como formulado por Max Weber há 100 anos (Weber 1915) efetivamente alcançou? Certamente é útil perguntar que tipos de interesses guiam a ética.


[265]3 Líderes de Companhias e Negócios querem satisfazer suas Partes Envolvidas


Na Mesa Ronda de Negócios Americana (American Business Round Table), quase 200 CEOs das principais companhias dos EUA assinaram um “comprometimento fundamental com todas as nossas partes envolvidas (stakeholders).”1 Muitos artigos em mídias têm descrito isso como uma tentativa para açucarar os males sociais da digitalização através de simples declarações de intenção. Interessantemente, a declaração desses representantes de negócios nem mesmo menciona o muito mais concreto padrão internacional ISO 26000 sobre Responsabilidade Social Corporativa (Schmiedeknecht e Wieland 2015), o qual foi adotado há 10 anos. A digitalização requer que muitos líderes corporativos demonstrem, entre outras coisas, o manejo responsável de dados pessoais. Consultores individuais de gerenciamento reagiram a isso com ofertas para éticas de dados, visando primariamente a manutenção das classificações de companhia.


4 Investidores estão procurando por Retornos através de Sustentabilidade


Os investidores buscam desempenho financeiro adicional através de investimentos que satisfaçam a critérios ambientais e sociais, assim como aos requerimentos de boa governança (ASG – ambiente, social e governança). Eles querem identificar as oportunidades e os riscos dos seus investimentos em um estágio inicial baseado nesse critérios e, dessa maneira, aumentarem a lucratividade dos seus investimentos. Agências de classificação como a MSCI2 e inrate3 avaliaram companhias listadas de acordo com critérios ASG para investidores. De acordo com as recomendações da OECD,4 os políticos usam o peso dos mercados financeiros para alcançar desenvolvimento sustentável.


5 Cidadãos de Bem abusam da Discussão Ética


Evitar os perigos da digitalização e agarrar as oportunidades para o benefício dos seres humanos é uma tarefa de todos os cidadãos. Todos devem considerar como eles usam serviços digitais e o que eles esperam de companhias e políticos, por exemplo, quais dados pessoais eles entregam para o Facebook, e onde os políticos deveriam protegê-los de abuso. O perigo surge quando a discussão é dominada por cidadãos de bem (do-gooders), quem frequentemente [266]argumentam de maneira puramente emocional, comumente representando um ponto de vista parcial muito estreito, e usam o debate vocal para compensarem a sua falta de conhecimento e, dessa forma, influenciarem a política. “Inimigos” típicos são: a ganância dos acionistas, a manipulação totalitária na China, a taxação de corporações estrangeiras e a “zumbificação” de usuários de telefones móveis. Os cidadãos de bem altruisticamente se erguem pelo bem da comunidade, mas exigem sacrifícios principalmente dos outros. Em muitos casos, o comprometimento deles é uma busca por reconhecimento pelos seus esforços e um esforço por autoestima, o que é frequentemente descrito com uma “vida significativa” ou frase similares.


6 A Política segue a Necessidade de Regras Éticas


Políticos necessitam de votos ou da confiança dos seus constituintes. Assim eles discernem o temperamento popular e traduzem-no em bordões vigorosos. Um bom exemplo é o anúncio do futuro digital da Europa5 pela União Europeia, com valores populistas tais como justiça (fairness), competitividade, abertura, democracia e sustentabilidade. Em adição a enfatizar tópicos da moda, tais como inteligência artificial, o capítulo foca-se sobre a regulamentação da digitalização, embora dificilmente apresente quaisquer conceitos sobre como a Europa deveria manter o passo com os EUA e a China e, portanto, contribuir ativamente para dar forma a serviços digitais. O foco está na restrição da atividade empreendedora, não na exploração de potenciais tais como a Internet das Coisas (5G, tecnologia de sensores e atuadores). Os cidadãos a quem se dirige não conhecem essas tecnologias, ou conhecem-nas muito pouco, e eles não têm nem o tempo, nem a motivação e os pré-requisitos para entender as tecnologias e as suas consequências. Portanto, é muito mais fácil evocar o “bicho-papão (bogeyman)” anteriormente mencionado do que estimular entusiasmo por tecnologias mal entendidas.

Isso também é confirmado pela discussão sobre o uso dos dados de localização dos telefones móveis dos usuários para frear a propagação do COVID-19. Os dados que há muito tinham sido usados, por exemplo, para o planejamento de transporte público, são virtualmente negligenciáveis comparados ao uso de dados voluntariamente submetidos a Google, Apple ou Facebook. Mesmo dados pessoais clássicos, tais como o registro de infratores de trânsito em Flensburg, pontuação de crédito e dados de consumidor no setor de varejo possibilitam abuso muito mais perigoso. Valores éticos cultivados por cidadãos de bem e mídia chamativa (attention-grabbing) dificultam qualquer discussão séria sobre como as coleções rapidamente crescentes de dados pessoais e factuais poderiam ajudar a tornar a coexistência humana mais saudável, menos conflituosa e mais agradável,6 em vez de concentrando-se no endurecimento do direito penal.


[267]7 A Ética quer Qualidade de Vida para Todos


A ética está procurando por regras que deveriam trazer a qualidade de vida mais elevada possível para todos. Se nós aceitarmos que a digitalização não pode ser parada e que ele trará mudança sócio-cultural massiva, nós necessitamos de mecanismos, agora mais do que nunca, para guiarmos essa mudança para o benefício da humanidade. Mas a ética e o interesses subjacentes fornecem as ferramentas? Dos pré-requisitos essenciais estão faltando: primeiro, a ética não determina o que efetivamente constitui a qualidade de vida. Segundo, há uma falta de procedimentos para mensurar objetivamente a qualidade de vida.

Uma disciplina chamada de engenharia da vida deveria começar exatamente aí. Ela deveria desenvolver um modelo robusto de qualidade de vida, baseado em descobertas da psicologia, neurociência, pesquisa do consumidor e ouras disciplinas, e validar esse modelos usando os dados pessoais e factuais crescentemente detalhados e automaticamente coletados. A rede de necessidades pode ser um ponto de partida se cada uma das necessidades, como saúde, for analisada em suas componentes, tais como idade, dor, peso, força e qualidade de sono, e as relações causais forem estatisticamente registradas.

Uma vez que os fatores de qualidade de vida estejam melhor entendidos, será possível avaliar melhor as oportunidades e os riscos de serviços digitais. Os sensores de um relógio inteligente podem medir possíveis fatores influenciando a saúde de modo que correlações individualizadas entre atividade física e comportamento de sono ou distúrbios do ritmo cardíaco possam ser reconhecidos e, dessa maneira, os usuários de relógios inteligentes possam aumentar a sua saúde e bem-estar tomando medidas simples. Tais avaliações concretas, estatisticamente corretas de serviços digitais, atualmente, permanecem a exceção. Contudo, um modelo de qualidade de vida, mesmo em uma forma tão rudimentar como a rede de necessidades esboçada acima, fornece pelo menos uma estrutura para discussão a fim de avaliar desenvolvimentos técnicos em termos de argumentos, como revelado pelo exemplo do Instagram.

A ética está baseada em valores tais como dignidade, respeito, confiança, amizade, responsabilidade, transparência e liberdade. Contudo, tais valores apenas são relevantes para pessoas se elas satisfazem as suas necessidades e, dessa maneira, acionarem sentimentos positivos ou negativos. O que o valor ético da confiança significa para necessidades tais como segurança, poder ou energia?

Muito rapidamente se torna claro quão longe nós estamos de um modelo de qualidade de vida que combine comportamento, percepções, necessidades, sentimentos e conhecimento. Contudo, olhando para as tarefas da ética, é dificilmente justificável pelo menos não tentar o que é praticável. Exatamente agora nós estamos deixando esse desenvolvimento para os gigantes da Internet, como o Google, por exemplo, com o seu grafo de conhecimento, tentar entender melhor e modelar essas conexões, enquanto essas companhias e o seu gerenciamento estão sendo medidos pelo sucesso econômico, não pela qualidade de vida humana. Portanto, é quase inevitável que elas terão de persuadir consumidores a tomarem as decisões que geram a receita maior.

Nunca antes na história do gênero humano nós tivemos tantos conjuntos de dados tão abrangentes e automaticamente registrados que permitem afirmações sobre comportamento e qualidade de vida. A Internet e os sensores estão documentando as nossas vidas mais e mais perfeitamente, como Melanie Swan descobriu tão cedo quanto 2012, sob a insígnia do “eu quantificado (quantified self)” (Swan 2012, p. 217-253). Os instrumentos da aprendizagem de máquina e modelagem [268]em redes neurais oferecem-nos a chance de reconhecermos padrões de qualidade de vida e de os tornar efetivos em assistentes digitais de todos os tipos, desde compras (shopping) à nutrição, para o benefício dos seres humanos. Nunca antes suporte tão intenso foi fornecido para as pessoas por máquinas em todas as áreas da vida através de serviços digitais. Nunca antes foi possível fornecer às pessoas ajuda e conselho tão bem fundamentados e bem direcionados, para as guiar de uma maneria reconhecível mas sútil. O pensamento que assusta os pessimistas e excita a expectativa jovial entre os utopistas.

Com os métodos de análise de dados, as companhias de seguro-saúde avaliam os dados pessoais e factuais dos seus segurados para melhor calcularem os riscos individuais. Elas ajustam os pagamentos (premiums) individuais em linha com os riscos individuais e finalmente reduzem custos de reivindicação (claim costs) para a mesma renda. Para alguns segurados (policyholders), isso leva a economias (savings), mas para aqueles que estão desfavorecidos em termos de saúde e portanto, ao mesmo tempo, menos afortunados na maioria dos casos, isso significa pagamentos mais altos. A redistribuição de risco no sentido de solidariedade é perdida.

Se uma companhia de seguro tem sucesso em entender melhor as influências sobre a saúde e – o que é ainda mais difícil – em guiar o segurado (insured) a comportamento promotor de saúde através de serviços digitais, então essa inteligência maquínica pode ajudar tanto segurados quanto seguradores (insurers).


8 A Ética necessita de Engenharia da Vida


O desenvolvimento não pode ser parado, mas a direção pode ser influenciada. Nós necessitamos de uma disciplina chamada de engenharia de vida (Life Engineering) que traduza os conceitos humanistas da ética e filosofias tradicionais em propostas orientadas a design, ou seja, que pragmaticamente dê forma ao desenvolvimento técnico, econômico e social.

Apenas aqueles que conduzem e lideram o desenvolvimento podem influenciá-lo. A aversão à tecnologia, a qual pode ser sentida em muitas discussões éticas, tem exatamente o efeito oposto o que ela ambiciona alcançar. Portanto, é extremamente bem-vindo que cientistas das ciências técnicas e engenharias, da ciência social e das humanidades, por exemplo, na iniciativa DIGHUM da Universidade Técnica de Viena (TU Wien) ou na iniciativa de Design Eticamente Alinhado77 da IEEE (Institute of Electrical and Eletronics Engineers) estão reunindo-se para formular regras para a inteligência maquínica. Mesmo sem um modelo elaborado de qualidade de vida, é possível, pelo menos, evitar algumas características claramente indesejadas de serviços digitais. Isso demanda, entre outras coisas, regras estipulando que as pessoas possam acessar e verificar os dados armazenados sobre elas e aprovar o seu uso ou que uma decisão de máquina tem de ser justificada. Contudo, essas regras surgem contra as limitações das habilidade cognitivas humanas, ou seja, se um leigo pode mesmo entender essas conexões com um tempo razoável.

[269]A parte dessas regras óbvias, as quais não têm de ser derivadas de estudos científicos, seria útil se a ética pudesse ser baseada em um modelo operacional de qualidade de vida. É claro que a versão 2 das diretrizes da IEEE sobre Design Eticamente Alinhado, diferentemente da primeira versão, tenta fazer exatamente isso. Ela é baseada em abordagens e métricas para o bem-estar. Suas recomendações sobre aspectos diferentes para a inteligência de máquina, em última instância, fornecem uma agenda abrangente para a engenharia da vida.

Para sempre ser capaz de satisfazer a esses requerimentos, uma disciplina de engenharia de vida necessita, em adição aos recursos financeiros, do seguinte:

  • Acesso aos dados digitais pessoais e factuais

  • Troca de conhecimento sobre padrões de comportamento e os efeitos deles sobre qualidade de vida

  • Habilidade para influenciar o desenvolvimento de serviços digitais

  • Incentivos políticos para desenvolvimentos e proibições de desenvolvimentos negativos

A engenharia da vida oferece a chance de transferir a ética do estágio de uma religião para um estágio de ciência, exatamente como o Iluminismo fez no século XVIII. Isso causou um desenvolvimento humano que provavelmente apenas poucas pessoas hoje em dia gostariam de reverter.


Referências


Österle, H. (2020). Life Engineering – Machine Intelligence and Quality of Life. https://doi.org/10.1007/978-3-030-31482-8, p. 68-80.

Swan, M. (2012). ‘ Sensor Mania! The Internet of Things, Wearable Computing, Objective Metrics,

and the Quanti fied Self 2.0’. Journal of Sensor and Actuator Networks, 1(3), 217 – 253. https://doi.org/10.3390/jsan1030217

Schmiedeknecht, M. H. & Wieland, J. (2015). ISO 26000, 7 Grundsätze, 6 Kernthemen. In Corporate Social Responsibility. Verantwortungsvolle Unternehmensführung in Theorie und Praxis. Berlin, Heidelberg: Springer Gabler.

Weber, M. (1915) Die Wirtschaftsethik der Weltreligionen. Jazzybee Verlag.

Zuboff, S. (2019). The Age of Surveillance Capitalism. New York: PublicAffairs.


Próximo ensaio


ORIGINAL:

ÖSTERLE, H. Ethics or Quality of Life?. In: GHEZZI, C. et al. (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p. 263-269. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


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