domingo, 7 de janeiro de 2024

Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo - Parte II - Seções VIII-XIII

 Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo


Por Edmund Burke


Parte II


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[148]Seção VIII Infinidade


Outra fonte do sublime é a infinidade; se antes ele não pertence à última. A infinidade tem a tendência de encher a mente com aquele tipo de horror agradável, o qual é o efeito mais genuíno, e o teste mais verdadeiro, do sublime. Escassamente há quaisquer coisas que podem se tornar objetos dos sentidos que são realmente, e em sua própria natureza, infinitas. Mas o olho não sendo capaz de perceber os limites de muitas coisas, elas parecem ser infinitas, e elas produzem os mesmos efeitos como se elas realmente o fossem. Nós somos enganados da maneira similar, se as partes de algum grande objeto são tão contínuas a qualquer número indefinido, que a imaginação não encontra nenhuma limitação que possa a impedir de as estender à vontade.

Sempre que nós repetimos qualquer ideia frequentemente, a mente, por um tipo de mecanismo, repete-a muito depois da primeira causa ter cessado de operar.1 Após girarmos em volta, [149]quando nos sentamos, os objetos a nossa volta ainda parecem girar. Após uma longa sucessão de ruídos, como a queda de águas, ou a batida de martelos de forja, o martelo bate e as águas rugem na imaginação muito depois dos primeiros sons terem cessado de a afetar; e eles desvanecem finalmente através de graduações que são escassamente perceptíveis. Se você segurar uma estaca reta, com o seu olho em uma extremidade, ela parecera estender-se a um comprimento quase incrível.2 Posicione um número de marcas uniformes e equidistantes sobre essa estaca, elas causaram a mesma ilusão, e parecerão multiplicadas sem fim. Os sentidos, fortemente afetados de alguma maneira, não podem rapidamente mudar o seu teor, ou adaptar-se a outras coisas; mas eles continuam em seu antigo canal até que a força do primeiro motor decaia. Essa é razão de um aspecto muito frequente em loucos (madmen); que eles permanecem inteiros dias e noites, algumas vezes anos inteiros, na repetição constante de alguma observação, alguma reclamação, ou canção; a qual, tendo afetado poderosamente sua imaginação desordenada no começo do seu frenesi, cada repetição reforça-a com nova força, e a inquietação dos seus espíritos, não reprimida pelo freio da razão, continua-a até o fim das suas vidas.


Seção IX Sucessão e Uniformidade


Sucessão e uniformidade de partes são o que constituem o infinito artificial. 1. Sucessão; a qual é necessária para que as partes possam ser continuadas suficientemente e em uma tal direção, como por seus impulsos frequentes sobre [150]o sentido para impressionar a imaginação com uma ideia do seu progresso além dos seus limites atuais. 2. Uniformidade; porque, se as figuras das partes deveriam ser mudadas, a imaginação, em cada mudança, encontrar uma limitação; em cada alteração você é apresentado com a terminação de uma ideia, e o começo de outra; pela qual se quer dizer que se tornou impossível continuar essa progressão ininterrupta, a qual apenas pode ser estampada sobre objetos restritos o caráter de infinito. Eu acredito que é nesse tipo de infinito artificial que nós devemos procurar pela causa de porque um rotundo tem um efeito tão nobre.3 Pois em um rotundo, seja ele uma construção ou uma plantação, você não pode fixar uma fronteira em um nenhum ponto; vire-o para que direção você desejar, o mesmo objeto ainda parece continuar, e a imaginação não tem descanso. Mas as partes têm de ser uniformes, assim como circularmente dispostas, para dar a essa figura a sua força completa; porque qualquer diferença, seja na disposição ou na figura, ou mesmo na cor das partes, é altamente prejudicial para a ideia de infinito, o qual cada mudança deve limitar e interromper, em cada alteração começando uma nova série. Sobre os mesmos princípios de sucessão e uniformidade, a grande aparência dos antigos templos pagãos, com uma variedade de pilares uniformes em cada lado, será facilmente explicada. A partir da mesma causa, também pode ser derivado o efeito das alas (aisles) em muitas de nossas próprias antigas catedrais. A forma da cruz usada em algumas igrejas não me parece tão elegível com o paralelogramo dos antigos; pelo menos, eu imagino que ela não é tão apropriada para o lado de fora. Pois, [151]supondo-se os braços da cruz iguais em cada direção, se você se ergue em uma direção paralela a quaisquer paredes laterais, ou colunadas, em vez de uma ilusão que torna a construção mais extensa do que ela é, você fica separado de uma parte considerável (dois terços) do seu comprimento atual; e, para evitar toda possibilidade de progressão, os braços da cruz tomando uma nova direção, formam um ângulo reto com a viga, e, através disso, afastam inteiramente a imaginação da repetição da antiga ideia. Ou suponha o espectador posicionado onde ele pode ter uma visão direta de uma tal construção, qual será a consequência? A consequência necessária será que uma boa parte da base de cada ângulo formado pela intersecção dos braços da cruz deve ser inevitavelmente perdida; é claro, o todo tem de assumir uma figura quebrada, desconectada; as luzes devem ser desiguais, aqui fortes, e ali, fracas; sem aquela gradação nobre que a perspectiva sempre efetua sobre as partes dispostas ininterruptamente em uma linha reta. Algumas ou todas essas objeções estender-se-ão contra cada figura de uma cruz, em qualquer que seja a visão que você a tomar. Eu exemplifico-as na cruz grega, na qual essas faltas aparecem mais fortemente; mas elas aparecem em algum grau em todos os tipos de cruzes. De fato, não há nada mais prejudicial para a grandeza de construções do que abundar em ângulos; uma falta óbvia em muitos; e devida a uma sede desordenada por variedade, a qual, sempre que ela prevalece, é certo de deixar muito pouco gosto verdadeiro.


[152]Seção X Magnitude em Construções


Para o sublime em construções, a grandeza de dimensão parece ser necessária; pois sobre umas poucas partes, e essas pequenas, a imaginação não pode dar origem a nenhuma ideia de infinito. Nenhuma grandeza nas maneiras pode compensar efetivamente a falta de dimensões adequadas. Não há perigo de atrair homens para designs extravagantes através dessa regra; ela porta sua própria cautela junto consigo. Porque um comprimento grande demais em construções destrói o propósito da grandeza, o qual ela foi intencionada para promover; a perspectiva atenua-lo-á em altura conforme se ganha em comprimento; e finalmente a trará a um alvo; tornando a figura toda em um tipo de triângulo, o mais pobre, em seu efeito, de quase qualquer figura que pode ser apresentada ao olho. Eu sempre observei que colunadas e avenidas de árvores de um comprimento moderado eram, sem comparação, muito mais grandiosas do que quando elas sofriam para se estenderem a distâncias imensas. Um artista verdadeiro deveria colocar um engano generoso sobre os espectadores, e efetuar os designs mais nobres através de métodos fáceis. Designs que são vastos apenas por suas dimensões são sempre o sinal de uma imaginação comum e baixa. Nenhuma obra de arte pode ser grande, exceto conforme ela engane; ser de outra maneira é prerrogativa apenas da natureza. Um bom olho estabelecerá o meio entre um comprimento ou altura excessivos (pois a mesma objeção existe contra ambos), e uma quantidade curta ou quebrada: e talvez isso poderia ser verificado a um grau tolerável de exatidão, se fosse meu propósito descer muito nos particulares de qualquer arte.


[153]Seção XI Infinidade em Objetos Agradáveis


A infinidade, embora de outro tipo, causa muito do nosso prazer no agradável, assim como do nosso deleite em imagens sublimes. A primavera é a mais agradável das estações; e o jovem da maior parte dos animais, embora muito longe de estar completamente formado, permite-se uma sensação mais agradável do que o adulto; porque a imaginação é entretida com a promessa de alguma coisa mais, e não aquiesce ao objeto presente do sentido. Em esboços inacabados de desenho, eu frequentemente tenho visto alguma coisa que me agrada além do melhor acabado; e isso, eu acredito, procede da causa que eu há pouco atribui.


Seção XII Dificuldade


Outra fonte de grandeza é a dificuldade.4 Quando qualquer obra parece ter requerido imensa força e labor para a efetuar, a ideia é grandiosa. Stonehenge, nem por disposição, nem por ornamento, tem qualquer coisa admirável; mas aquelas imensas massas rudes de pedra, colocadas para um fim, e empilhadas umas sobre as outras, voltam a mente para a imensa força necessária para uma obra tão grande. Ou melhor, a rudeza (rudeness) da obra aumenta essa causa de grandeza (grandeur); pois a destreza produz outro tipo de efeito, o qual é suficientemente diferente desse.


[154]Seção XIII Magnificência


Da mesma maneira, a magnificência é uma fonte do sublime. Uma grande profusão de coisas, as quais são esplêndidas ou valiosas em si mesmas, é magnificente. O céu estrelado, embora ele ocorra tão frequentemente para a nossa visão, nunca falha em excitar uma ideia de grandeza. Isso não pode ser devido às estrelas mesmas, separadamente consideradas. O número certamente é a causa. A desordem aparente aumenta a grandeza, pois a aparência de cuidado é altamente contrária às nossas ideias de magnificência. Além disso, as estrelas estendem-se em confusão tão aparente, como a tornar impossível reconhecê-las em ocasiões ordinárias. Isso concede a elas a vantagem de um tipo de infinito. Em obras de arte, esse tipo de grandeza que consiste em multidão, deve ser muito cautelosamente admitida; porque uma profusão de coisas excelentes não deve ser alcançada, ou com dificuldade demais; e porque, em muitos casos, essa profusão esplêndida destruiria todo uso, ao qual se deveria prestar atenção na maioria das obras de arte com o maior cuidado; além disso, deve ser considerado que, a menos que você possa produzir uma aparência de infinito através da sua desordem, você terá apenas desordem sem magnificência. Contudo, há um tipo de fogos de artifício, e algumas outras coisas, que, dessa maneira, têm bom exito, e são verdadeiramente grandiosos. Também há muitas descrições nos poetas e oradores, as quais devem sua riqueza a uma riqueza e profusão de imagens, na qual a mente está tão deslumbrada (dazzled) quanto a tornar impossível prestar atenção àquela coerência e acordo exatos das alusões, os quais nós deveríamos requerer em qualquer outra ocasião. Agora eu [155]não me lembro de um exemplo mais notável disso do que descrição que é dada do exército do rei na peça de Henry IV.: -


Todo equipado, todo em armas,

Todo emplumado como avestruzes que com o vento

Iscados como águias tendo recentemente banhadas:

Tão cheio de espírito como o mês de maio,

E deslumbrante como o sol no solstício do verão,

Devassos como jovens bodes, selvagens como jovens touros.

Eu vi o jovem Harry com sua viseira colocada

Erguido do solo como Mercúrio emplumado;

E abobadado com tanto conforto em seu assento,

Como se um anjo caído das nuvens

Para virar e enredar um Pégaso impetuoso.”


Nesse livro excelente, tão notável pela vivacidade das suas descrições, assim como pela solidez e penetração das suas sentenças, a Sabedoria do Filho de Sirac, há um panegírico nobre do alto-sacerdote Simon, o filho de Onias; e é um exemplo muito fino do ponto diante de nós: -

Como foi ele honrado no meio do povo, em sua saída do santuário! Ele era como a estrela da manhã no meio de uma nuvem, e como a lua cheia; como o sol brilhando sobre o templo do Mais Alto, e como o arco-íris dando luz nas nuvens brilhantes: e como a flor das rosas na primavera do ano, como lírios pelos rios de águas, e como a árvore de olíbano no verão; como fogo e incenso no incensário, e como um vaso de ouro encrustado com pedras preciosas; como uma bela oliveira brotando fruto, e como um cipreste que cresce até as nuvens. Quando ele colocou o manto de honra, e ficou vestido com a perfeição da glória, quando ele subiu o altar sagrado, ele tornou a vestimenta de santidade honorável. Ele mesmo se ergueu ao lado do coração do altar, cercado com seus irmãos em torno; [156]como um jovem cedro do Líbano, e como palmeiras eles o cercaram. Assim estavam todos os filhos de Aarão em sua glória, e as oblações do Senhor em suas mãos, etc.


Próxima seção


ORIGINAL:

BURKE, E. A Philosophical Inquiry into the Origin of our Ideas of the Sublime and Beautiful. IN:______. The Works of the Right Honorable Edmund Burke. Volume I. Boston: Little, Brown, and Company, 1877. pp. 148-156. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofrighthono01burk/page/148/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1[148]Parte IV, seção II.

2[149]Parte IV, seção 13.

3[150]O sr. Addison, nos espectadores relativos aos prazeres da imaginação, pensa que é porque no rotundo, de relance, você vê metade da construção. Não é essa que eu imagino ser a causa real.

4[153]Parte IV, seções 4, 5, 6.

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