domingo, 9 de junho de 2024

A Teoria dos Sentimentos Morais P1S2C5 Das Paixões Egoístas

A Teoria dos Sentimentos Morais


Por Adam Smith


Parte I Da Propriedade da Ação


Seção II Dos Graus das Paixões Diferentes que são Consistentes com Propriedade


Capítulo anterior


[62]Capítulo V Das Paixões Egoístas


Além daqueles dois conjuntos de paixões, as sociais e as antissociais, há outro, o qual mantém um tipo de lugar intermediário entre elas; ele nunca é ou tão gracioso como algumas vezes é um conjunto, nem é sempre tão odioso quanto algumas vezes [63]é o outro. Pesar e alegria, quando concebidos por causa do nosso próprio bem e mal privados, constituem esse terceiro conjunto de paixões. Mesmo quando excessivas, elas nunca são tão desagradáveis quanto o ressentimento excessivo, porque nenhuma simpatia oposta alguma vez pode nos interessar contra elas: e quando mais adequado aos seus objetos, elas nunca são tão agradáveis como humanidade imparcial e benevolência justa; porque nenhuma simpatia dupla alguma vez pode nos interessar por elas. Contudo, há esta diferença entre pesar e alegria, que nós geralmente estamos mais dispostos a simpatizar com pequenas alegrias e grandes sofrimentos. O homem quem, por alguma súbita revolução de fortuna, é erguido completamente de uma vez a uma condição de vida, muito acima da qual ele tinha anteriormente vivido, pode ficar certo de que as congratulações dos seus melhores amigos não são todas elas perfeitamente sinceras. Um novo-rico, embora do maior mérito, geralmente é desagradável, e um sentimento de inveja comumente evita que nós simpatizemos de coração com a alegria dele. Se ele tem algum julgamento, ele está ciente disso, e, em vez de parecer ficar exaltado com a sua boa fortuna, ele tenta, tanto quanto pode, abafar a sua alegria, e manter baixa a elevação de mente com a sua nova circunstância naturalmente o inspira. Ele simula a mesma simplicidade de vestimenta, e a mesma modéstia de comportamento, que lhe foram adequadas na sua antiga posição social. Ele redobra a sua atenção com seus antigos amigos, e tenta mais do que nunca ser humilde, assíduo [64]e complacente. E esse é o comportamento que, na situação dele, nós mais aprovamos; porque nós esperamos, parece, que ele deveria ter mais simpatia com a nossa inveja e aversão à sua felicidade, do que nós temos com a felicidade dele. É raramente que ele tenha sucesso com tudo isso. Nós suspeitamos da sinceridade da sua humildade, e ele cansa-se dessa restrição. Portanto, em pouco tempo, ele geralmente deixa todos os seus antigos amigos para trás, alguns dos mais mesquinhos deles, quem podem, talvez, condescender em se tornarem seus dependentes: nem ele sempre adquire alguns novos; o orgulho das suas novas conexões é muito afrontado diante do encontro do seu igual, como aquele dos seus antigos tinha sido por ele ter se tornado superior a eles: e ele requer a modéstia mais obstinada e perseverante para expiar essa mortificação de um e outro. Ele geralmente se cansa muito cedo, e é provocado, pelo orgulho carrancudo e suspeito de um, e pelo desdém atrevido do outro, para tratar o primeiro com negligência e o segundo com petulância, até que, por fim, ele torne-se habitualmente insolente e perde a estima de todos. Se a parte principal da felicidade humana surge a partir da consciência de ser amado, como eu acredito que ela o faz, essas mudanças súbitas de fortuna raramente contribuem para a felicidade. É mais feliz quem avança gradualmente à grandeza, a quem o público destina cada grau da sua preferência antes de ele chegar a ela, em quem, em consequência dessa consideração, quando ela chega, ela não pode excitar nenhuma alegria extravagante, e com respeito a quem ela não pode [65]razoavelmente criar quer qualquer ciúme naqueles que ele sobrepuja, quer qualquer inveja naqueles que ele deixa para trás.

Contudo, o gênero humano mais prontamente simpatiza com aquelas pequenas alegrias que fluem a partir de causas menos importantes. É decente ser humilde em meio a grande prosperidade; mas nós escassamente podemos expressar satisfação demais em todas as pequenas ocorrências da vida comum, na companhia com a qual nós despendemos a noite na última noite, no entretenimento que foi colocado diante de nós, no que foi dito e no que foi feito, em todos os pequenos incidentes da conversação presente, e todos aqueles nada frívolos que enchem o vazio da vida humana. Nada é mais gracioso do que alegria habitual, a qual é sempre encontrado em um alívio peculiar de todos os pequenos prazeres que as ocorrências comuns proporcionam. Nós prontamente simpatizamos com isso: ela inspira-nos com a mesma alegria, e torna cada pequena virada insignificante para nós no mesmo aspecto agradável no qual ela apresenta-se para a pessoa dotada com essa disposição feliz. Consequentemente é que a juventude, a temporada da alegria, tão facilmente engaja as nossas afeições. Essa propensão à alegria que parece até animar o florescimento, e brilhar a partir dos olhos do jovem e belo, embora, em uma pessoa do mesmo sexo, exalte, até o idoso, a um humor mais alegre do que o ordinário. Por um tempo, eles esquecem-se das suas enfermidades e abandonam a si mesmos aquelas ideias e emoções agradáveis às quais eles tinham sido estranhos por tanto tempo, mas que, quando a presença de tanta felicidade chama-as de volta [66]para o peito deles, toma seu lugar lá, como velho conhecido, de quem eles estão tristes por terem sido separados, e a quem eles abraçam mais de coração por conta dessa longa separação.

É bastante de outra maneira com o pesar. Pequenas vexações não excitam nenhuma simpatia, mas aflição profunda provoca a maior. O homem que é tornado desconfortável por cada pequeno incidente desagradável, quem é injuriado se ou o cozinheiro ou o mordomo falharam no menor artigo do seu dever, quem sente cada defeito no cerimonial mais elevado da polidez, se ele for mostrado para si mesmo ou para qualquer outra pessoa, quem considera falha que o seus amigo íntimo não lhe desejou boa manhã quando eles se encontraram pela manhã, e quem o seu irmão cantarolava um tom toda vez que ele mesmo estava contando uma história; quem é tirado de humor pela ruindade do clima quando no campo, pela ruindade das estradas quando em uma viagem, e pela falta de companhia e monotonia de todas as diversões públicas quando na cidade; eu digo que uma tal pessoa, embora ela devesse ter alguma razão, raramente encontrará muita simpatia. A alegria é uma emoção agradável, e nós alegremente nos abandonamos a ela na mais leve ocasião. Portanto, nós prontamente simpatizamos com ela em outros, sempre que nós não estamos prejudicados por inveja. Mas o pesar é doloroso, e a mente, mesmo quando ela está em seu próprio infortúnio, naturalmente resiste a e recua diante dele. Nós tentaríamos ou não o conceber de qualquer maneira ou sacudi-lo tão logo o tenhamos concebido. De fato, a nossa aversão ao pesar nem sempre nos impedirá de o conceber [67]em nosso próprio caso, em ocasiões muito insignificantes, mas ela constantemente nos impede de simpatizar com ele em outros quando excitados por semelhantes causas frívolas: pois as nossas paixões simpáticas são sempre menos irresistíveis do que as nossas originais. Além disso, há uma malícia no gênero humano, a qual não apenas impede toda simpatia com pouco desconforto, mas torna-a, em alguma medida, divertida. Consequentemente, o deleite que nós tomamos em zombaria, e na pequena vexação que nós observamos em nossa companhia, quando ela é empurrada, urgida e provocada por todos os lados. Homens da mais ordinária boa criação dissimulam a dor que qualquer pequeno incidente pode dar a eles; e aqueles que são mais completamente formados para sociedade, tornam, do seu próprio acordo, todos esses incidentes em zombaria, como eles sabem que seus companheiros farão por eles. O hábito que um homem que vive no mundo adquiriu de considerar como cada coisa que lhe interessa parecerá para outros, faz aquelas calamidades frívolas transformarem-se na mesma luz ridícula para ele, na qual ele saber que elas certamente serão consideradas por eles.

Pelo contrário, a nossa simpatia com sofrimento profundo é muito forte e muito sincera. É desnecessário dar um exemplo. Nós choramos mesmo da representação simulada de uma tragédia. Portanto, se você labora sob qualquer calamidade real, se, por algum infortúnio extraordinário, você cai na pobreza, em doenças, na desgraça e desapontamento; mesmo se a sua própria falta pode ter sido, em parte, a ocasião, contudo, [68]você geralmente pode depender da simpatia mais sincera de todos os seus amigos, e, até onde interesse e honra permitirão, também da sua assistência mais amável. Mas, se o seu infortúnio não for desse tipo terrível, se você for apenas um pouco impedido em sua ambição, se você apenas tiver sido rejeitado por sua amante, ou apenas importunado por sua esposa, coloque o seu relato com a brincadeira de todos os seus conhecidos.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

SMITH, A. The Theory of Moral Sentiments. IN:______. The Works of Adams Smith. In Five Volumes. Vol. I. London: Printed for T. Cadell and W. Davies … [at 16 others], 1812. pp. 62-68. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofadamsmith01smituoft/worksofadamsmith01smituoft/page/62/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Teoria dos Sentimentos Morais P1S2C4 Das Paixões Sociais

A Teoria dos Sentimentos Morais


Por Adam Smith


Parte I Da Propriedade da Ação


Seção II Dos Graus das Paixões Diferentes que são Consistentes com Propriedade


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[59]Capítulo IV Das Paixões Sociais


Como há uma simpatia dividida que torna o conjunto todo das paixões há pouco mencionadas, na maioria das ocasiões, tão deselegantes e desagradáveis; assim há outro conjunto oposto a essas, as quais uma simpatia redobrada torna quase sempre peculiarmente agradáveis e apropriadas. Generosidade, humanidade, gentileza, compaixão, amizade mútua e estima, todas afeições sociais e benevolentes, quando expressas no semblante ou comportamento, mesmo na direção daqueles que não estão peculiarmente conectados conosco mesmos, agradam o espectador indiferentes em quase qualquer ocasião. A simpatia dele com a pessoa que sente essas paixões coincide exatamente com o interesse dele pela pessoa que é o objeto delas. O interesse que, como um homem, ele é obrigado a ter na felicidade dessa última, anima a sua simpatia com os sentimentos da outra, cujas emoções estão empregadas ao redor do mesmo objeto. Portanto, nós sempre temos a disposição mais forte para simpatizar com as afeições benevolentes. Elas parecem agradáveis para nós em cada aspecto. Nós entramos na satisfação tanto da pessoa que as sente quanto da pessoa que é objeto delas. Pois, como o objeto de ódio e indignação fornece mais dor do que todo o mal que um homem bravo [60]pode temer a partir dos seus inimigos; assim há uma satisfação na consciência de ser amado, a qual, para uma pessoa de delicadeza e sensibilidade, é da maior importância para a felicidade do que toda a vantagem que ela pode esperara derivar dela. Que temperamento (character) é tão detestável quanto um que tem prazer em semear desentendimento entre amigos e transformar o amor mais terno deles em ódio mortal? Contudo, no que consiste a atrocidade dessa injúria tão muito abominada? Está em os privar dos frívolos bons cargos públicos, os quais, tivesse a amizade deles continuado, eles poderiam ter esperado uns dos outros? Está em os privar da amizade mesma, roubar deles as afeições de cada um dos outros, a partir da qual ambos derivavam tanta satisfação; está em perturbar a harmonia dos seus corações, e colocar um fim àquele comércio feliz que antes tinha subsistido entre eles. Essa afeições, essa harmonia, esse comércio, são sentidos não apenas pelo tenro e o delicado, mas pelo vulgo mais rude do gênero humano, serem de maior importância para a felicidade do que todos os pequenos serviços que poderiam ser esperados fluírem a partir deles.

Em si mesmo, o sentimento do amor é agradável para a pessoa que o sente. Ele suaviza e harmoniza o peito, parece favorecer o estado saudável da condição humana; ele é tornado ainda mais prazeroso pela consciência da gratidão e satisfação que ele tem de excitar naquele que é objeto dele. A consideração mútua torna-os felizes um no outro, e [61]a simpatia, com essa consideração mútua, torna-os agradáveis para qualquer outra pessoa. Com que prazer nós olhamos para uma família, através do todo da qual reina amor e estima mútuos, onde os pais e os filhos são companheiros uns dos outros, sem nenhuma outra diferença do que a que é produzida pela afeição respeitosa de um lado, e indulgência amável, de outro; onde liberdade e carinho, gracejo mútuo e gentileza mútua, mostram que nenhuma oposição de interesses divide os irmãos, nem nenhuma rivalidade de favor coloca as irmãs em desacordo, e onde cada coisa apresenta-nos uma ideia de paz, alegria, harmonia e contentamento? Pelo contrário, quão inquietos nós somos tornados quando nós entramos em uma casa na qual contenda discordante coloca uma metade daqueles que habitam nela contra a outra; onde, em meio a suavidade e complacência afetadas, olhares suspeitos e súbitos espasmos de paixões traem os ciúmes mútuos que ardem dentro deles, e os quais, a cada momento, estão prontos para irromper através de todas as restrições que a presença da companhia impõe?

Essas paixões amigáveis, mesmo quando elas são reconhecidas serem excessivas, nunca são consideradas com aversão. Há alguma coisa agradável mesmo na fraqueza de amizade e humanidade. A mãe tenra demais, o pai indulgente demais, o amigo generoso e afeiçoado demais, algumas vezes podem, talvez, por causa da suavidade das suas naturezas, ser considerados com uma espécie de pena, na qual, contudo, há uma mistura de amor, mas nunca podem ser considerados com ódio [62]e aversão, nem mesmo com desdém, a menos que pelo mais brutal e sem valor do gênero humano. É sempre com preocupação, com simpatia e gentileza que nós os culpamos pela extravagância dos seus apegos. Há um desamparo no caráter da humanidade extrema que mais do que qualquer coisa interessa à nossa piedade. Não há nada em si mesma que a torne ou desgraciosa ou desagradável. Nós apenas lamentamos que ela seja imprópria para o mundo, porque o mundo é indigno dela, e porque ela tem de expor a pessoa que é dotada dela como uma presa para a perfídia e ingratidão de falsidade insinuante, e a mil dores e inquietações, as quais, de todos os homens, aquele que menos merece sentir, e que geralmente também é, de todos os homens, o menos capaz de suportar. É bastante de outra maneira com ódio e ressentimento. Uma propensão muito violenta para essas paixões detestáveis torna uma pessoa o objeto de temor e aversão universais, quem, como uma besta selvagem, nós consideramos que deve ser caçada de toda a sociedade civil.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

SMITH, A. The Theory of Moral Sentiments. IN:______. The Works of Adams Smith. In Five Volumes. Vol. I. London: Printed for T. Cadell and W. Davies … [at 16 others], 1812. pp. 59-62. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofadamsmith01smituoft/worksofadamsmith01smituoft/page/59/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

sábado, 8 de junho de 2024

A Teoria dos Sentimentos Morais P1S2C3 Das Paixões Antissociais

A Teoria dos Sentimentos Morais


Por Adam Smith


Parte I Da Propriedade da Ação


Seção II Dos Graus das Paixões Diferentes que são Consistentes com Propriedade


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[50]Capítulo III Das Paixões Antissociais


Há outro conjunto de paixões, as quais, embora derivadas a partir da imaginação, contudo, antes que nós possamos entrar nelas, ou considerá-las como graciosas ou apropriadas, sempre têm de ser rebaixadas a um tom muito mais baixo do que aquele ao qual a natureza indisciplinada erguê-las-ias. Essas são ódio e ressentimento, com todos as suas diferentes modificações. Com respeito a todas essas paixões, a nossa simpatia está dividida entre a pessoa que as sente, e a pessoa que é o objeto delas. Os interesses dessas duas são diretamente opostos. O que a nossa simpatia com a pessoa que as sente nos incitaria a desejar, a nossa simpatia com a outra nos levaria a temer. Visto que ambos são homens, nós ficamos interessados em ambos, e o nosso medo pelo que um pode sofrer, abafa o nosso ressentimento pelo que o outro sofreu. Portanto, a nossa simpatia com o homem que recebeu a provocação necessariamente falha com a paixão que naturalmente o anima, não apenas em consideração daquelas causas gerais que tornam todas as paixões simpáticas inferiores às originais, mas por conta daquela causa particular que é peculiar a ela mesma, a nossa simpatia com outra pessoa. Portanto, antes que o ressentimento possa tornar-se gracioso e agradável, ele tem de ser [51]mais humilhado e rebaixado que o tom ao qual ele naturalmente se elevaria, do que quase qualquer outra paixão.

O gênero humano, ao mesmo tempo, tem um senso muito forte das injúrias que são feitas a outro. O vilão, em uma tragédia ou um romance, é tanto o objeto da nossa indignação quanto o herói é aquele da nossa simpatia e afeição. Nós detestamos Iago tanto quando nós estimamos Otelo; e deliciamo-nos tanto na punição de um quanto ficamos entristecidos diante do sofrimento do outro. Mas embora a humanidade tenha uma simpatia tão forte com as injúrias que são realizadas com seus irmãos, ela nem sempre as lamenta quanto mais o sofredor parece lamentá-las. Na maioria das situações, quanto maior a paciência dela, sua suavidade, sua humanidade, na condição de que não pareça que falte espírito, ou que medo foi o motivo da sua paciência, mais alto o ressentimento contra a pessoa que a injuriou. A amabilidade do caráter exaspera a sua sensação da atrocidade da injúria.

Contudo, essas paixões são consideradas como partes necessárias do caráter da natureza humana. Uma pessoa que mansamente se senta parada e submete-se a insultos, sem tentar ou repelir ou vingá-los torna-se detestável. Nós não conseguimos entrar na sua indiferença e insensibilidade: nós chamamos esse comportamento de mesquinharia (mean-spiritedness) e somos tão realmente provocados por ele quanto pela insolência do seu adversário. Mesmo a multidão fica enfurecida ao ver qualquer homem se submeter pacientemente a afrontas e mau uso. Eles desejam ver essa insolência lamentada, e [52]lamentada pela pessoa quem sofre a partir dela. Se a indignação dela finalmente surge, eles aplaudem de coração e simpatizam com ela. Isso anima a própria indignação deles contra o inimigo dela, quem eles se alegram de o ver atacar, por sua vez, e ficam como realmente gratificados pela vingança dela, com a condição de que ela não imoderada, como se a injúria tivesse sido realizada para eles mesmos.

Mas embora a utilidade dessas paixões para o indivíduo, tornando perigoso insultá-lo ou injuriá-lo, seja reconhecida; e embora a utilidade pública delas, como guardiães da justiça e da igualdade da sua administração, não seja menos considerável, como deverá ser revelado posteriormente; contudo, ainda há alguma coisa desagradável nessas paixões mesmas, o que torna o aparecimento delas em outros homens o objeto natural da nossa aversão. A expressão de raiva com relação a qualquer um presente, se ela excede a simples intimidação de modo que nós ficamos cientes do mau uso por ele, é considerada não apenas um insulto aquela pessoa particular, mas como um rudeza com a companhia toda. Respeito por eles deveria ter nos restringido de dar vazão a uma emoção tão barulhenta e ofensiva. São os efeitos distantes dessas paixões que são agradáveis; os efeitos imediatos são injúria para a pessoa contra qual eles são dirigidos. Mas são os efeitos imediatos, e não os distantes, dos objetos que os tornam agradáveis ou desagradáveis para a imaginação. Uma prisão certamente é mais útil para o público do que um palácio; e uma pessoa que funda um é [53]geralmente dirigida por um espírito muito mais justo de patriotismo do que quem constrói o outro. Mas os efeitos imediatos de uma prisão, o confinamento dos miseráveis encerrados nela, são desagradáveis; e a imaginação ou não toma tempo para traçar os distantes, ou vê-los a uma distância grande demais para ser muito afetada por eles. Portanto, uma prisão sempre será um objeto desagradável; e quão mais adequada ela for para o propósito para o qual ela foi intencionada, mas ela será assim. Pelo contrário, um palácio sempre será agradável; por mais que seus efeitos distantes frequentemente sejam inconvenientes para o público. Ele pode servir para promover a luxuria e estabelecer o exemplo da dissolução dos costumes. Contudo, os seus efeitos imediatos, a conveniência, o prazer, e a alegria do povo que vive nele, sendo todos agradáveis, e sugerindo para a imaginação mil ideias agradáveis, essa faculdade geralmente depende deles, e raramente vai além ao traçar suas consequências mais distantes. Troféus dos instrumentos de música ou de agricultura, imitados em pintura ou em reboco, formam um ornamento comum e agradável dos nossos salões e salas de jantar. Um troféu do mesmo tipo, composto pelos instrumentos de cirurgia, de dissecação e facas de amputação, de serras para cortar os ossos, de instrumentos de trepanação, etc, seria absurdo e chocante. Contudo, instrumentos de cirurgia são sempre mais finamente polidos e geralmente mais finamente adaptados para os propósitos para os quais eles são projetados do que os instrumentos de agricultura. Também os efeitos distantes deles, [54]a saúde do paciente, são agradáveis; contudo, visto que o efeito imediato deles é dor e sofrimento, a visão deles sempre nos desagrada. Instrumentos de guerra são agradáveis, embora o efeito imediato deles possa parecer ser da mesma maneira dor e sofrimento. Mas então são a dor e o sofrimento dos nossos inimigos, com quem nós não temos simpatia. Com respeito a nós, eles estão imediatamente conectados com as ideias agradáveis de coragem, vitória e honra. Portanto, supõem-se que ele formem uma das partes mais nobres da vestimentas, e a imitação deles é um dos mais finos ornamentos da arquitetura. É o mesmo caso com as qualidades da mente. Os antigos estoicos foram da opinião de que, como o mundo era governado por uma providência onigovernante de um Deus sábio, poderoso e bom, cada evento único deveria ser considerado como formando uma parte necessária do plano do universo, e como tendendo a promover a ordem e felicidade gerais do todo: portanto, que os vícios e as loucuras do gênero humano, formavam uma parte tão necessária desse plano quanto a sabedoria e a virtude deles; e, através daquela arte eterna que extraia bem do mal, eram feitos tender igualmente para a prosperidade e perfeição do grande sistema da natureza. Contudo, nenhuma especulação desse tipo, por mais profundamente que seja que ela possa estar enraizada na mente, poderia diminuir a nossa natural aversão ao vício, cujos efeitos imediatos são tão destrutivos, e cujos distantes são distantes demais para serem traçados pela imaginação.

[55]É o mesmo caso com aquelas paixões que há pouco nós estivemos considerando. Os seus efeitos imediatos são tão desagradáveis que, mesmo quando elas são mais justamente provocadas, ainda há alguma coisa sobre elas que nos desgosta. Portanto, há apenas as paixões cujas expressões, como eu anteriormente observei, não nos descartam e preparam para simpatizar com elas, antes que nós sejamos informados da causa que as excita. A voz queixosa da miséria, quando ouvida a uma distância, não nos admitirá sermos indiferentes sobre a pessoa a partir de quem ela vem. Tão logo ela atinja nossos ouvidos, ela interessa-nos na fortuna dela e, se continuada, ela quase nos força involuntariamente a voarmos em sua assistência. Da mesma maneira, a visão de um semblante sorridente eleva até o melancólico a um humor alegre e aéreo, o que o dispõe a ser simpatizado e partilhar da alegria que ele expressa; e ele sente o seu coração, o qual, com pensamento e cuidado, antes esteve diante daquele encolhido e deprimido, instantaneamente expandido e elevado. Mas é bastante de outra maneira com expressões de ódio e ressentimento. A voz grosseira, barulhenta e discordante da raiva, quando ouvida a um distância inspira-nos ou medo ou aversão. Nós não voamos na direção dela, como para alguém que chora com dor e agonia. Mulheres e homens de nervos fracos tremem e são sobrepujados pelo medo, embora cientes de que eles mesmos não são os objetos da ira. Contudo, eles concebem o medo ao colocarem a si mesmos na situação da pessoa que é. Mesmo aqueles de corações mais firmes são perturbados; de fato não suficientemente para os tornar assustados, mas o suficiente para os tornar [56]irados; pois ira é a paixão que eles sentiriam na situação da outra pessoa. É o mesmo caso com o ódio. Meras expressões de desprezo não nos inspiram contra ninguém, exceto o homem que as usa. Ambas essas paixões são por natureza os objetos da nossa aversão. A aparência desagradável e barulhenta delas nunca excita, nunca prepara e frequentemente perturba a nossa simpatia. O pesar não mais poderosamente nos engaja com e atrai-nos para a pessoa em quem nos o observamos do que essas, embora nós sejamos ignorantes da causa delas, desgostam-nos e afastam-nos dela. Parece que foi a intenção da natureza que aquelas emoções mais grosseiras e menos amigáveis, as quais afastam os homens uns dos outros, deveriam ser menos facilmente e mais raramente comunicadas.

Quando a música imita as modulações da tristeza ou alegria, ela ou efetivamente nos inspira àquelas paixões, ou, pelo menos, coloca-nos no temperamento que nos dispõe a concebê-las. Mas quando ela imita as notas da ira, ela inspira-nos ao medo. Alegria, sofrimento, amor, admiração, devoção, são todas elas paixões que são naturalmente musicais. Os tons naturais delas são todos suaves, claros e melodiosos; e elas naturalmente se expressam em períodos que são distinguidos por pausas regulares e que, por conta disso, são facilmente adaptados aos retornos regulares dos ares correspondentes de uma melodia. Pelo contrário, a voz da ira, e de todas as paixões que são semelhantes a ela, é grosseira e discordante. Também os seus períodos são todos irregulares, algumas vezes muito longos, e algumas vezes muito curtos, e não distinguidos por nenhuma pausa regular. Portanto, é com dificuldade que a música [57]pode imitar qualquer uma dessas paixões; e a música que as imita não é a mais agradável. Um entretenimento inteiro pode consistir, sem nenhum impropriedade, na imitação das paixões sociais e agradáveis. Seria um entretenimento estranho o qual consistisse completamente na imitações do ódio e ressentimento.

Se essas paixões são desagradáveis para o espectador, elas não são menos para a pessoa que as sente. Ódio e ira são o maior veneno para a felicidade de uma boa mente. Há, no sentimento mesmo dessas paixões, alguma coisa severa, chocante e convulsiva, alguma coisa que dilacera e confunde o peito, e é completamente destrutiva daquela compostura e tranquilidade de mente que são tão necessárias para a felicidade, e que são melhor promovidas pelas paixões contrárias da gratidão e do amor. Não é o valor do que eles perdem pela perfídia e ingratidão daqueles com quem eles vivem que o generoso e humano estão mais apto a lamentar. O que quer que eles possam ter perdido, eles geralmente podem ser muito felizes sem isso. O que mais os perturba é a ideia de perfídia e ingratidão exercidas contra eles mesmos; e as paixões discordantes e desagradáveis que isso excita, constituem, em sua própria opinião, a parte principal da injúria que eles sofrem.

Quantas coisas são necessárias para tornar a gratificação do ressentimento completamente agradável, e para fazer o espectador simpatizar completamente com a nossa vingança? Primeiro de tudo, a provocação tem de ser tal que nós deveríamos nos tornar desprezíveis, e ficarmos expostos a insultos [58]perpétuos, se, em alguma medida, nós não nos ressentíssemos disso. Ofensas menores são sempre melhor negligenciadas; nem há qualquer coisa mais vil do que o humor malvado e capcioso que pega fogo em qualquer ocasião leve de contenda. Nós deveríamos nos ressentir mais de um senso de propriedade de ressentimento, de um senso do que o gênero humano espera e requer de nós, do que porque nós sentimos em nós mesmos a fúria daquela paixão desagradável. Não há paixão, da qual a mente seja capaz, dizendo respeito à justeza cuja do que nós deveríamos estar tão duvidosos, dizendo respeito à indulgência cuja nós deveríamos tão cuidadosamente consultar o nosso natural senso de propriedade, ou tão diligentemente considerar quais serão os sentimentos do espectador frio e imparcial. A magnanimidade, ou uma consideração para manter a nossa própria posição e dignidade na sociedade, é o único motivo que pode enobrecer as expressões dessa paixão desagradável. Esse motivo tem de caracterizar todo o nosso estilo e comportamento. Esse deve ser simples, aberto e direto; determinado sem positividade, e elevado sem insolência; não apenas livre de petulância e grosseria inferior, mas generoso, cândido e cheio de todos os cumprimentos apropriados, mesmo pela pessoa quem nos ofendeu. Em resumo, tem de parecer a partir da nossa maneira inteira, sem nós laborarmos afetadamente para o expressar, que a paixão não extinguiu a nossa humanidade; e que se nós nos rendemos aos ditados da vingança é com relutância, a partir da necessidade, e em consequência de provocações grandes e repetidas. Quando o ressentimento é guardado e qualificado dessa maneira, ele pode ser admitido ser mesmo generoso e nobre.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

SMITH, A. The Theory of Moral Sentiments. IN:______. The Works of Adams Smith. In Five Volumes. Vol. I. London: Printed for T. Cadell and W. Davies … [at 16 others], 1812. pp. 50-58. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofadamsmith01smituoft/worksofadamsmith01smituoft/page/50/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

A Teoria dos Sentimentos Morais P1S2C2 Daquelas Paixões que derivam sua Origem de uma Modificação ou Hábito da Imaginação

A Teoria dos Sentimentos Morais


Por Adam Smith


Parte I Da Propriedade da Ação


Seção II Dos Graus das Paixões Diferentes que são Consistentes com Propriedade


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[44]Capítulo II Daquelas Paixões que derivam sua Origem de uma Modificação ou Hábito da Imaginação


Mesmo das paixões derivadas a partir da imaginação, aquelas que derivam sua origem a partir de uma modificação peculiar ou hábito que foi adquirido, embora elas possam ser reconhecidas como perfeitamente naturais, são, contudo, muito pouco simpatizadas. As imaginações do gênero humano, não tendo adquirido essa modificação particular, não podem entra nelas; e tais paixões, embora elas possam ser admitidas ser quase inevitáveis em alguma parte da vida, são sempre, em alguma medida, ridículas. Esse é o caso com aquele forte [45]apego que naturalmente cresce entre duas pessoas de sexos diferentes, quem há muito têm seus pensamentos fixos uma sobre a outra. A nossa imaginação, não tendo corrido no mesmo canal que aquele do amante, não pode entrar na ansiedade das suas emoções. Se nosso amigo foi injuriado, nós prontamente simpatizamos com o ressentimento dele, e tornamo-nos irados com a mesma pessoa com quem ele está irado. Se ele recebeu um benefício, nós prontamente entramos na gratidão dele, e temos um senso muito alto do mérito do benfeitor dele. Mas se ele está apaixonado, embora nós possamos considerar a paixão dele exatamente tão razoável quanto qualquer uma do tipo, contudo, nós nunca podemos considerar nós mesmos obrigados a conceber uma paixão do mesmo tipo, e pela mesma pessoa por quem ele a tem concebida. A paixão aparece para todo mundo, mas o homem quem a sente, inteiramente desproporcionada para o valor do objeto; e o amor, embora ele seja perdoado em uma certa idade, porque nós o conhecemos natural, sempre se ri dele, porque nós não podemos entrar nele. Todas as expressões sérias e fortes dele parece ridículas para uma terceira pessoa; e embora um amante possa ser boa companhia para a sua amante, ele não é assim para mais ninguém. Ele mesmo está ciente disso; e enquanto ele continuar em seus sentidos sóbrios, tenta tratar sua própria paixão com zombaria e ridículo. É o único estilo no qual nos importamos em ouvir dela; porque é o único estilo no qual nós mesmos estamos dispostos a falar dela. Nós cansamos do amor grave, pedante, e de longas sentenças de Cowley e Petraca, quem nunca tinham realizado com exagero a violência [46]dos seus apegos, mas a alegria de Ovídio, e a galanteria de Horácio, são sempre agradáveis.

Mas embora nós não sintamos nenhuma simpatia apropriada com um apego desse tipo, embora nós nunca cheguemos perto, mesmo na imaginação, de conceber uma paixão por essa pessoa particular, contudo, como nós ou temos concebido, ou podemos estar dispostos a conceber, paixões do mesmo tipo, nós prontamente entramos naquelas elevadas esperanças de felicidades que são propostas a partir da sua gratificação, assim como no sofrimento intenso que é temido a partir do seu desapontamento. Isso não nos interessa como uma paixão, mas como uma situação que nos dá ocasião para outras paixões que nos interessam; para esperança, para medo e para sofrimento de todo tipo: da mesma maneira que, na descrição de uma viagem marítima, não é a fome que nos interessa, mas o sofrimento que a fome ocasiona. Embora nós não entremos propriamente no apego do amante, nós prontamente acompanhamos aquelas expectativas de felicidade romântica que ele deriva a partir dele. Nós sentimos quão natural é para a mente, em uma certa situação, relaxada com indolência, e fatigada com a violência do desejo, ansiar por serenidade e quietude, esperar encontrá-las na gratificação daquela paixão que a distrai, e estruturar para si mesma a ideia de que a vida de tranquilidade e retiro pastorais que o elegante, o tenro e o apaixonado Tibulo tem tanto prazer em descrever; uma vida como a que os poetas descrevem nas Ilhas Afortunadas, uma vida de amizade, liberdade e [47]repouso; livre de trabalho e de cuidado, e de todas as paixões violentas que os acompanham. Mesmo cenas desse tipo interessam-nos mais quando elas são pintadas antes como o que é esperado, do que como o que é desfrutado. A grosseria dessa paixão, que se mistura com, e é, talvez, o fundamento do amor, desaparece quando a sua gratificação está muito longe e à distância; mas torna o todo ofensivo, quando descrito como o que é imediatamente possuído. A paixão feliz, nessa consideração, interessa-nos muito menos do que a terrível e a melancólica. Nós trememos pelo que quer que possa desapontar esperanças tão naturais e agradáveis: e, dessa maneira, nós entramos em toda a ansiedade, o interesse, e o sofrimento do amante.

Consequentemente é que, em algumas tragédias e alguns romances modernos, essa paixão parece tão maravilhosamente interessante. Não é tanto o amor de Castalio e Monimia que nos apega ao Órfão, como o sofrimento que aquele amor ocasiona. O autor que devesse introduzir dois amantes, em uma cena de perfeita segurança, expressando sua tristeza mútua um pelo outro, provocaria riso e não simpatia. Se uma cena desse tipo alguma vez é admitida em uma tragédia, ela é sempre, em alguma medida, impropria, e é suportada não a partir de qualquer simpatia pela paixão que é expressa nela, mas a partir da preocupação pelos perigos e dificuldades pelos quais a audiência prevê que a sua gratificação é provável de ser acompanhada.

A reserva que as leis da sociedade impõem sobre o belo sexo, com respeito a essa fraqueza, tornar-a mais peculiarmente angustiante nelas, [48]e, em consequência do relato mesmo, mais profundamente interessante. Nós ficamos encantados com o amor de Fedra, como ele está expresso na tragédia francesa desse nome, a despeito de toda a extravagância e culpa que o acompanha. Pode-se dizer que essas mesmas extravagância e culpa, em alguma medida, recomendam-no a nós. Por esse meio, o amor, a vergonha, o remorso, o horror, o desespero dela tornam-se mais naturais e interessantes. Todas as paixões secundárias, se eu posso ser permitido a chamá-las assim, as quais surgem a partir da situação do amor, tornam-se necessariamente mais furiosas e violentas; e é apenas com essas paixões secundárias que nós propriamente podemos dizer que simpatizamos.

Contudo, de todas as paixões que são tão extravagantemente desproporcionadas para o valor dos seus objetos, o amor é a única que parece, mesmo para as mentes mais fracas, ter qualquer coisa nela que é ou graciosa ou agradável. Primeiro de tudo, em si mesmo, embora ele possa ser ridículo, ele não é naturalmente odioso; e embora as suas consequências sejam frequentemente fatais e terríveis, as suas intenções raramente são perniciosas. E então, embora haja pouca propriedade na paixão mesma, há uma grande quantidade em alguma daquelas que sempre o acompanham. Há no amor uma forte mistura de humanidade, generosidade, gentileza, amizade, estima, paixões com as quais, pelas razões que deverão ser explicadas imediatamente, nós temos a maior propensão para simpatizar, mesmo a despeito de que nós estamos cientes de que elas são, em alguma medida, excessivas. A simpatia que nós sentimos por elas torna a paixão [49]que elas acompanham menos desagradável, e suporta-a na nossa imaginação, a despeito de todos os vícios que comumente a acompanham; embora em um sexo ela necessariamente leve a ruína e infâmia; e embora no outro, onde ela é apreendida ser menos fatal, ela sempre seja acompanhada por uma incapacidade para o labor, um negligência do dever, um desdém pela fama, e mesmo pela reputação comum. A despeito de tudo isso, o grau de sensibilidade e generosidade com o qual ela é suposta de ser acompanhada, torna-a para muitos o objeto de vaidade; e eles estão inclinados a parecerem capazes de sentimento que os fariam não honrar se eles realmente o sentissem.

É por uma razão do mesmo tipo que uma certa reserva é necessária quando nós falamos dos nossos próprios amigos, nossos próprios estudos, nossas próprias profissões. Todos esses são objetos que nós não podemos esperar que devam interessar a nossas companhias no mesmo grau que eles nos interessam. E é por falta dessa reserva que uma metade do gênero humano faz má companhia para a outra. Um filósofo é companhia apenas para um filósofo; o membro de um clube, para o seu próprio pequeno grupo de companhias.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

SMITH, A. The Theory of Moral Sentiments. IN:______. The Works of Adams Smith. In Five Volumes. Vol. I. London: Printed for T. Cadell and W. Davies … [at 16 others], 1812. pp. 44-49. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofadamsmith01smituoft/worksofadamsmith01smituoft/page/44/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

sexta-feira, 7 de junho de 2024

A Teoria dos Sentimentos Morais P1S2C1 Das Paixões que derivam sua Origem do Corpo

A Teoria dos Sentimentos Morais


Por Adam Smith


Parte I Da Propriedade da Ação


Seção II Dos Graus das Paixões Diferentes que são Consistentes com Propriedade


Capítulo anterior


[36]Introdução


A propriedade de cada paixão excitada por objetos peculiarmente relacionados a nós mesmos, o tom que o espectador pode acompanhar, tem de se situar, é evidente, em uma certa mediocridade. Se a paixão for muito intensa, ou se ela for muito baixa, ele não pode entrar nela. Por exemplo, pesar e ressentimento por infortúnios e injúrias privados podem facilmente serem intensos demais e, na maior parte do gênero humano, eles são assim. Eles podem, de maneira similar, embora isso mais raramente aconteça, ser fracos demais. Nós denominamos os excessos, fraqueza e fúria: e nós chamamos o defeito de estupidez, insensibilidade e falta de espírito. Nós não podemos entrar em nenhum deles, mas ficamos atônitos e confusos ao vê-los.

Contudo, essa mediocridade, na qual o ponto de propriedade consiste, é diferente em paixões diferentes. É intensa em algumas, e fraca em outras. Há algumas paixões que são indecentes para expressar muito fortemente, mesmo naquelas ocasiões nas quais é reconhecido que nós não podemos evitar de as sentir no grau mais intenso. E há outras das quais as expressões mais fortes são em muitas ocasiões extremamente graciosas, mesmo se, talvez, as paixões mesmas não [37]surjam tão necessariamente. As primeiras são aquelas paixões com as quais, por certas razões, há pouca ou nenhuma simpatia: as segundas são aquelas com as quais, por outras razões, há a maior. E se nós considerarmos todas as paixões diferentes da natureza humana, nós devemos descobrir que elas são consideradas como decentes, ou indecentes, exatamente na proporção que o gênero humano estão mais ou menos disposto a simpatizar com elas.


Capítulo I Das Paixões que derivam sua Origem do Corpo


1. É indecente expressar qualquer grau forte daquelas paixões que surgem a partir de uma certa situação ou disposição do corpo; porque a companhia, não estando na mesma disposição, não pode ser esperada simpatizar com elas. Por exemplo, a fome violenta, embora em muitas ocasiões não apenas natural, mas inevitável, é sempre indecente, e comer vorazmente é universalmente considerado como uma peça de más maneiras. Contudo, há algum grau de simpatia mesmo com a fome. É agradável ver nossas companhias comerem com bom apetite, e todas as expressões de repugnância são ofensivas. A disposição de corpo que é habitual para um homem em saúde, faz o estômago dele acompanhar facilmente, se eu [38]posso ser permitido uma expressão tão grosseira, um [caso] e não com o outro. Nós podemos simpatizar com a aflição que a fome excessiva ocasiona quando nós lemos a descrição dela no diário de um cerco ou de uma viagem marítima. Nós imaginamos a nós mesmos na situação dos sofredores e, consequentemente, facilmente concebemos o pesar, o medo e a consternação, os quais, necessariamente, têm de os confundir. Nós mesmos sentimos algum grau daquelas paixões e, portanto, simpatizamos com elas; mas como nós não ficamos famintos através da leitura da descrição, nós não podemos propriamente, mesmo nesse caso, ser ditos simpatizar com a fome deles.

É a mesma coisa com a paixão pela qual a natureza une os dois sexos. Embora naturalmente a mais furiosa de todas as paixões, todas as fortes expressões dela são, em qualquer ocasião, indecentes, mesmo entre pessoas em quem a mais completa indulgência é reconhecida por todas as leis, tanto humanas quanto divinas, ser perfeitamente inocente. Contudo, parece haver algum grau de simpatia mesmo nessa paixão. Falar com uma mulher como nós deveríamos falar com um homem é impróprio: espera-se que a companhia delas deveria inspirar-nos mais alegria, mais gentileza e mais atenção; e uma inteira insensibilidade com o belo sexo torna um homem detestável em alguma medida mesmo para os homens.

Tal é a nossa aversão por todos os apetites que derivam sua origem a partir do corpo; todas as expressões fortes deles são repugnantes e desagradáveis. De acordo com alguns filósofos antigos, [39]essas são as paixões que nós compartilhamos com os brutos, e as quais, não tendo nenhuma conexão com as qualidades características da natureza humana, estão, por essa consideração, abaixo da sua dignidade. Mas há muitas outras paixões que nós compartilhamos com os brutos, tais como ressentimento, afeição natural, até gratidão, que, nessa consideração, não parecem ser tão brutais. A verdadeira causa do desgosto peculiar que nós concebemos pelos apetites do corpo, quando nós os vemos em outros homens, é que nós não podemos entrar neles. Para a pessoa mesma que os sente, tão logo eles sejam satisfeitos, o objeto que os excitou cessa de ser agradável: mesmo a sua presença torna-se ofensiva para ela: ela procura em torno por nenhum propósito para o encanto que a arrebatou no momento anterior, e agora ela tampouco pode entrar em sua própria paixão quanto outra pessoa. Quando nós temos jantado, nós ordenamos que as tampas sejam removidas; e nós deveríamos tratar das mesma maneira os objetos dos desejos mais ardentes e apaixonados, se eles não forem objetos de nenhuma outra paixão exceto daquelas que tomam sua origem a partir do corpo.

No comando desses apetites do corpo consiste aquela virtude que é propriamente chamada de temperança. Restringi-los dentro daqueles limites, com respeito ao que saúde e boa fortuna prescrevem, é parte da prudência. Mas confiná-los dentro daqueles limites, o que graça, o que propriedade, o que delicadeza e modéstia requerem, é o ofício da temperança.

[40]2. É pela mesma razão que gritar com dor corporal, por mais intolerável que seja, sempre parece nada viril e impróprio. Contudo, há uma grande quantidade de simpatia até com a dor corporal. Se, como já foi observado, eu vejo um golpe mirado, e exatamente pronto para cair sobre a perna ou braço de outra pessoa, eu naturalmente me contraio e puxo de volta minha própria perna ou meu próprio braço; e quanto ele cai, eu sinto em alguma medida, e fico machucado por ele assim como o sofredor. Contudo, sem dúvida, o meu machucado é excessivamente leve, e, por conta disso, se ele produz qualquer grito violento, eu não o posso acompanhar, eu nunca falho em o desprezar. E esse é o caso em todas as paixões que derivam sua origem a partir do corpo: ou elas não excitam absolutamente nenhuma simpatia, ou um tal grau dela que é completamente desproporcionado à violência do que é sentido pelo sofredor.

É bastante de outra maneira com aquelas paixões que derivam sua origem da imaginação. A estrutura do meu corpo pode ser apenas pouco afetada pelas alterações que são causadas sobre aquele da minha companhia: mas a minha imaginação é mais maleável, e mais prontamente assume, se eu posso falar assim, a forma e configuração das imaginações daqueles de quem eu sou familiar. Em consequência disso, um desapontamento no amor, ou na ambição, inspiram mais simpatia do que o maior mal corporal. Essas paixões surgem completamente a partir da imaginação. A pessoa que perdeu toda a sua fortuna, se ela está com saúde, não sente [41]nada em seu corpo. O que ela sente é apenas a partir da imaginação, a qual representa para ela a perda da sua dignidade, negligência a partir do seus amigos, desdém a partir dos seus inimigos, dependência, carência e miséria, chegando rápido a ela; e nós simpatizamos com ela mais fortemente em consequência dessa consideração, porque as nossas imaginações podem mais facilmente moldarem a si mesmas sobre a imaginação dela, do que os nossos corpos podem moldar a si mesmos sobre o corpo dela.

A perda de uma perna geralmente pode ser considerada como uma calamidade mais real do que a perda de uma amante. Contudo, seria uma tragédia ridícula da qual a catástrofe devesse revelar-se uma perda desse tipo. Um infortúnio do outro tipo, por frívolo que ele possa parecer ser, tem dado ocasião a muitas boas.

Nada é tão esquecido tão logo quanto a dor. No momento em que ela passa, a inteira agonia dela está acabada, e o pensamento dela não mais pode nos conceder nenhum tipo de distúrbio. Portanto, nós mesmos não podemos entrar na ansiedade e angústia que antes tínhamos concebido. Uma palavra inesperada de um amigo ocasionará um desconforto mais durável. A agonia que isso cria de maneira nenhuma termina com a palavra. O que primeiro nos perturba não é o objeto dos sentidos, mas a ideia da imaginação. Portanto, como é uma ideia que ocasiona o nosso desconforto, até que o tempo e outros acidentes tenham apagado-a da memória, a imaginação continua a afligir e irritar dentro, a partir do pensamento dela.

[42]A dor nunca traz à luz nenhuma simpatia muito vívida, a menos que ela seja acompanhada por perigo. Nós simpatizamos com o medo, embora não com a agonia do sofredor. Contudo, o medo é uma paixão derivada completamente a partir da imaginação, a qual representa, com uma incerteza e oscilação que aumenta a nossa ansiedade, não o que nós realmente sentimos, mas o que depois nós possivelmente podemos sofrer. A gota ou a dor de dente, embora intensamente dolorosas, excitam pouca simpatia; doenças mais perigosas, embora acompanhadas por muito pouca dor, excitam a máxima.

Algumas pessoas enfraquecem e adoecem diante da visão de uma operação cirúrgica, e essa dor corporal que é ocasionada pela dilaceração da carne, parece, nelas, excitar a simpatia mais excessiva. Nós concebemos de uma maneira mais vívida e distinta a dor que procede a partir de uma causa externa do que aquela que surge a partir de uma desordem interna. Eu escassamente posso formar uma ideia das agonias do meu vizinho quando ele é torturado pela gota ou a pedra; mas que tenho a mais clara concepção do que ele tem de sofrer a partir de uma incisão, um ferimento ou uma fratura. Contudo, a causa principal de porque tais objetos produzem efeitos tão violentos sobre nós, é a novidade deles. Alguém que tenha testemunhado uma duzia de dissecações e tantas amputações, vê, afinal, todas as operações desse tipo com grande indiferença, e frequentemente com perfeita insensibilidade. Embora nós tenhamos lido ou visto representadas mais do que quinhentas tragédias, nós raramente devemos sentir [43]um abatimento tão inteiro da nossa sensibilidade aos objetos que eles representam para nós.

Em algumas das tragédias gregas há uma tentativa de excitar compaixão através da representação das agonias da dor corporal. Filoctetes grita e desmaia a partir da extremidade dos seus sofrimentos. Hipólito e Hércules são ambos introduzidos como expirando sob as mais severas torturas, as quais, parece, mesmo a fortitude de Hércules era incapaz de suportar. Contudo, em todos esses casos, não é a dor que nos interessa, mas alguma outra circunstâncias. Não é o pé machucado, mas a solidão, de Filoctetes que nos afeta, e difunde aquela tragédia charmosa, aquela selvageria romântica, que é tão agradável para a imaginação. As agonias de Hércules e Hipólito são interessantes apenas porque nós prevemos que a morte deve ser a consequência. Se esses heróis devessem recuperar-se, nós deveríamos considerar a representação dos seus sofrimentos perfeitamente ridícula. Que tragédia seria aquela cujo sofrimento consistisse em uma cólica! Contudo, nenhuma dor é mais intensa. Essas tentativas de excitar compaixão através da dor corporal podem ser considerados como entre as maiores brechas de decoro das quais o teatro grego estabeleceu o exemplo.

A pouca simpatia que nós sentimos pela dor corporal é o fundamento da propriedade de constância e paciência em a suportar. O homem que sob as torturas mais severas não permite fraqueza lhe escapar, não deixa escapar nenhum gemido, não dá abertura para nenhuma paixão que nós não inteiramente [44]entramos, merece a nossa admiração mais elevada. A firmeza dele possibilita-o acompanhar a nossa indiferença e insensibilidade. Nós admiramos e acompanhamos inteiramente o esforço magnânimo que ele realiza para esse propósito. Nós aprovamos o comportamento dele, e a partir da nossa experiência da fraqueza comum da natureza humana, nós ficamos surpresos, e ponderamos sobre como ele deveria ser capaz de agir assim para merecer aprovação. Aprovação, misturada com e animada por maravilha e surpresa, constitui o sentimento que é propriamente chamado de admiração, da qual o aplauso é a expressão natural, como já tem sido observado.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

SMITH, A. The Theory of Moral Sentiments. IN:______. The Works of Adams Smith. In Five Volumes. Vol. I. London: Printed for T. Cadell and W. Davies … [at 16 others], 1812. pp. 36-44. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofadamsmith01smituoft/worksofadamsmith01smituoft/page/36/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Misticismo e Lógica e Outros Ensaios V A Matemática e os Metafísicos

Misticismo e Lógica e Outros Ensaios


Por Bertrand Russell


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[74]V A Matemática e os Metafísicos


O século XIX, o qual se orgulha em consequência da invenção do vapor e da evolução, poderia ter derivado um título mais legítimo à fama a partir da descoberta da matemática pura. Essa ciência, como a maioria das outras, foi batizada muito antes que ela tivesse nascido; e dessa maneira nós encontramos escritores antes do século XIX aludindo ao que eles chamaram de matemática pura. Mas se tivesse sido perguntado a eles qual era esse assunto, eles apenas teriam sido capazes de dizer que ela consistia em aritmética, álgebra, geometria e assim por diante. Quanto ao que esses assuntos tinham em comum, e quanto ao que os distinguia da matemática aplicada, nossos ancestrais estavam completamente no escuro.

A matemática pura foi descoberta por Boole, em um trabalho que ele chamou de as Laws of Thought (1854). Essa obra abunda em afirmações de que não é matemática, o fato sendo que Boole foi modesto demais para supor o seu livro o primeiro alguma vez escrito sobre matemática. Ele também estava equivocado em supor que ele estava lidando com leis do pensamento: a questão de como as pessoas efetivamente pensam era bastante irrelevante para ele, e se o livro dele tivesse realmente contido as leis do pensamento, era curioso que ninguém nunca tenha pensado de uma maneira similar antes. De fato, o livro dele estava interessado em lógica formal, e isso é a mesma coisa que matemática.

[75]A matemática pura consiste inteiramente em afirmações para o efeito de que, se uma proposição tal e tal for verdadeira de qualquer coisa, então outra proposição tal e tal é verdadeira dessa coisa. É essencial não discutir se a primeira proposição é realmente verdadeira, e não mencionar o que a qualquer coisa é, a qual é suposta ser verdadeira. Ambos esses pontos pertenceriam à matemática aplicada. Na matemática pura nós partimos de certas regras de inferência, através das quais nós podemos inferir que, se uma proposição é verdadeira, então igualmente é alguma outra proposição. Essas regras de inferência constituem a maior parte dos princípios da lógica formal. Nós podemos tomar qualquer hipótese que parece divertida e deduzir as consequências dela. Se a nossa hipótese é sobre qualquer coisa, e não sobre uma ou mais coisas particulares, então as nossas deduções constituem a matemática. Dessa forma, a matemática pode ser definida como o assunto no qual nós nunca sabemos sobre o que nós estamos falando, nem se o que nós estamos dizendo é verdadeiro. Eu espero que as pessoas que tenham ficado intrigadas pelos começos da matemática encontrarão conforto nessa definição e provavelmente concordarão que ela é precisa.

Como um dos triunfos principais da matemática moderna consiste em ter descoberto o que realmente é a matemática, mais umas poucas palavras sobre esse assunto podem não ser um erro. É comum começar qualquer ramo da matemática – por exemplo, a geometria – com um certo número de ideias primitivas, supostas incapazes de definição, e um certo número de proposições primitivas ou axiomas, supostas incapazes de prova. Agora, o fato é que, embora haja indefiníveis e indemonstráveis em cada ramo da matemática aplicada, não há nenhum na matemática pura, exceto tais como pertencentes à lógica geral. Falando de maneira geral, a lógica é distinguida pelo fato de que as suas proposições podem ser colocadas em uma forma na qual elas se aplicam a qualquer coisa que seja. Toda matemática pura – aritmética, análise [76]e geometria – é construída por combinações das ideias primitivas da lógica, e suas proposições são deduzidas a partir dos axiomas gerais da lógica, tais como o silogismo e as outras regras de inferência. E isso não mais é um sonho ou uma aspiração. Pelo contrário, através da parte maior e mais difícil do domínio da matemática, ele já tem sido alcançado: nós poucos casos restantes, não há dificuldade especial, e agora está sendo rapidamente alcançado. Filósofos têm discutido por eras se semelhante dedução era possível; matemáticos têm sentado e realizado a dedução. Para os filósofos não há nada restante, exceto reconhecimentos graciosos.

O assunto da lógica formal, o qual, dessa maneira, mostrou-se ser idêntico ao da matemática, foi, como qualquer um sabe, inventado por Aristóteles, e formou o estudo principal (outro além da teologia) da Idade Média. Mas Aristóteles nunca foi além do silogismo, o qual é uma parte muito pequena do assunto, e os escolásticos nunca foram além de Aristóteles. Se qualquer prova fosse requerida da nossa superioridade em relação aos doutores medievais, ela poderia ser encontrada nisso. Por toda a idade média, quase todos os melhores intelectos dedicaram-se à lógica formal, ao passo que no século XIX apenas uma proporção infinitesimal do pensamento do mundo entrava nesse asunto. Mesmo assim, em cada década desde 1850 mais tem sido feito para avançar esse assunto do que no inteiro período de Aristóteles a Leibniz. As pessoas descobriram como tornar o raciocínio simbólico, como é na álgebra, de maneira que deduções são efetuadas por regras matemáticas, e um novo ramo da lógica, chamado de lógica dos relativos,1 foi inventado para lidar com tópicos que tinham superado inteiramente os poderes da [77]antiga lógica, embora eles formem os conteúdos principais da matemática.

Não é fácil para a mente leiga compreender a importância de simbolismo na discussão dos fundamentos da matemática, e a explicação talvez possa parecer estranhamente paradoxal. O fato é que o simbolismo é útil porque ele torna as coisas difíceis. (Isso não é verdadeiro das partes avançadas da matemática, mas apenas dos começos). O que nós desejamos conhecer é o quê pode ser deduzido do quê. Agora, nos começos, tudo é autoevidente; e é muito difícil ver se uma proposição autoevidente segue-se ou não a partir de outra. A obviedade é sempre a inimigo da correção. Consequentemente, nós inventamos um pouco de simbolismo novo e difícil, no qual nada parece óbvio. Em seguida, nós estabelecemos certas regras para a operação sobre os símbolos, e a coisa toda se torna mecânica. Dessa maneira, nós descobrimos o quê tem de ser tomado como premissa e o quê pode ser demonstrado ou definido. Por exemplo, o todo da aritmética e álgebra tem sido mostrado requerer três noções indefiníveis e cinco proposições indemonstráveis. Mas sem um simbolismo teria sido muito difícil descobrir isso. É tão óbvio que dois e dois são quatro, que dificilmente nós podemos tornar nós mesmos suficientemente céticos para duvidar de se isso pode ser provado. E o mesmo vale em outros casos onde coisas autoevidentes devem ser provadas.

Mas, para o não iniciado, a prova de proposições autoevidentes pode parecer uma ocupação um pouco frívola. A isso nós poderíamos responder que frequentemente não é autoevidente de maneira nenhuma que uma proposição óbvia siga-se a partir de outra proposição óbvia; de modo que nós estamos realmente descobrindo novas verdades quando nós provamos o quê é evidente por um método que não é evidente. Mas uma resposta mais interessante é que, uma vez que as pessoas têm tentado provar proposições óbvias, elas têm descoberto que muitas delas são falsas. A [78]autoevidência é frequentemente um mero fogo-fátuo, o qual é certo de nos conduzir a erro se nós o aceitarmos como o nosso guia. Por exemplo, nada é mais evidente do que um todo sempre ter mais termos do que uma parte, ou que um número é aumentado pela adição de um a ele. Mas agora essas proposições são reconhecidas serem usualmente falsas. A maior parte dos números são infinitos, e se um número é infinito você pode adicionar uns a ele enquanto você desejar, sem o perturbar no mínimo. Um dos méritos de uma prova é que ela instila uma certa dúvida quanto ao resultado provado; e quando o que é óbvio pode ser provado em alguns casos, mas não em outros, torna-se possível supor que nesses outros casos ele seja falso.

O grande mestre da arte do raciocínio formal, entre os homens do nosso próprio dia, é um italiano, o professor Peano, da Universidade de Turin.2 Ele tem reduzido a maior parte da matemática (e, com tempo, ele ou seus seguidores reduzirão o todo) a estrito simbolismo lógico, no qual absolutamente não há palavras. Nos livros matemáticos ordinários, sem dúvida, há menos palavras do que muitos leitores desejariam. Ainda assim, pequenas frases ocorre, tais como portanto (therefore), assumamos (let us assume), considere (consider), ou consequentemente se segue (hence it follows). Contudo, todas essas são eliminadas pelo professor Peano. Por exemplo, se nós desejamos aprender o todo da aritmética, da álgebra, o cálculo, e, de fato, tudo que é usualmente chamado de matemática pura (exceto a geometria), nós temos de começar com um dicionário de três palavras. Um símbolo representa o zero, outro, o número, e um terceiro, próximo depois. É necessário conhecer o que essas ideias significam se você deseja se tornar um aritmético. Mas após símbolos terem sido inventados para essas três ideias, nenhuma outra palavra é requerida no inteiro desenvolvimento. Todos os símbolos futuros são explicados simbolicamente através desses [79]três. Mesmo esses três símbolos podem ser explicados através das noções de relação e classe; mas isso requer a lógica das relações, à qual Peano nunca se dedicou. Deve ser admitido que o que o matemático tem de conhecer para começar não é muito. Há no máximo doze noções a partir das quais todas as noções em matemática pura (incluindo a geometria) são compostas. O professor Peano, quem é auxiliado por uma escola muito hábil de jovens discípulos italianos, tem revelado como isso pode ser feito; e embora o método que ele inventou seja capaz de ser estendido muito mais do que ele o tem estendido, a honra de pioneiro tem de pertencer a ele.

Há duzentos anos, Leibniz previu a ciência que Peano aperfeiçoou, e tentou criá-la. Ele foi impedido de ter sucesso por respeito à autoridade de Aristóteles, a quem ele não pôde acreditar culpado de falácias formais definidas; mas o assunto que ele desejou criar agora existe, a despeito do desdém paternalista com o qual os esquemas deles têm sido tratados por todas as pessoas superiores. A partir dessa “característica universal,” como ele a chamava, ele espera uma solução de todos os problemas e um fim para todas as disputas. “Se controvérsias devessem surgir,” ele diz, “não haveria maior necessidade de disputa entre dois filósofos do que entre dois contadores. Pois seria suficiente tomarem suas canetas em suas mãos, sentarem-se às suas mesas, e dizerem um para o outro (com um amigo como testemunha, se eles desejassem), ‘Calculemos.’” Esse otimismo agora parece ser um pouco excessivo; ainda há problemas cuja solução é duvidosa, e disputas que o cálculo não pode decidir. Mas sobre um campo enorme do que anteriormente era controverso, o sonho de Leibniz tornou-se fato sóbrio. Na inteira filosofia da matemática, a qual [80]costumava ser tão cheia de dúvida quanto qualquer outra parte da filosofia, ordem e certeza têm substituído a confusão e hesitação que reinavam antigamente. É claro, os filósofos ainda não descobriram esse fato, e continuam a escrever sobre tais assuntos da maneira antiga. Mas os matemáticos, pelo menos na Itália, agora têm o poder de tratar os princípios da matemática de uma maneira exata e magistral, através da qual a certeza da matemática também se estende à filosofia matemática. Consequentemente, muitos tópicos que costumavam ser colocados entre os grandes mistérios – por exemplo, a natureza do infinito, da continuidade, do espaço, tempo e movimento – agora não estão mais, em qualquer grau, abertos à dúvida ou discussão. Aqueles que desejam conhecer a natureza dessas coisas apenas têm de ler os trabalhos de tais homens como Peano ou Georg Cantor; ali eles encontrarão exposições exatas e indubitáveis de todos esses mistérios antigos.

Neste mundo caprichoso, nada é mais caprichoso do que a fama póstuma. Um dos exemplos mais notáveis da falta de julgamento da posteridade é o eleata Zenão. Esse homem, quem pode ser considerado como o fundador da filosofia da infinidade, aparece no Parmenides de Platão na posição privilegiada de instrutor de Sócrates. Ele inventou quatro argumentos, todos imensuravelmente sutis e profundos, para provar que o movimento é impossível, que Aquiles nunca pode alcançar a tartaruga, e que uma flecha em voo está realmente em repouso. Após ser refutado por Aristóteles, e por todo filósofo subsequente, desde aquele dia até o nosso, esses argumentos foram reformulados, e tornados a base de um renascimento matemático, por um professor alemão, quem provavelmente nunca sonhou de nenhuma conexão entre ele mesmo e Zenão. Weierstrass,3 ao [81]banir estritamente o uso dos infinitesimais da matemática, finalmente mostrou que nós vivemos em um mundo imutável, e que a flecha em seu voo está verdadeiramente em repouso. O único erro de Zenão está em inferir (se ele inferiu) que, porque não há tal coisa como um estado de mudança, portanto o mundo está no mesmo estado em qualquer momento como em qualquer outro. Essa é uma consequência que de maneira nenhuma se segue, e, nesse sentido, o matemático alemão é mais construtivo do que o grego engenhoso. Weierstrass tem sido capaz, ao corporificar suas visões em matemática, onde familiaridade com a verdade elimina os prejuízos vulgares do senso comum, de investir os paradoxos de Zenão com o ar respeitável de banalidades; e se o resultado é menos agradável para o amante da razão do que o desafio ousado de Zenão, de qualquer maneira, ele é mais calculado para agradar a massa da humanidade acadêmica.

Zenão estava interessado, como uma questão de fato, em três problemas, cada um apresentado pelo movimento, mas cada um mais abstrato do que o movimento, e capaz de um tratamento puramente aritmético. Esses são os problemas do infinitesimal, do infinito e da continuidade. Formular claramente as dificuldades envolvidas, foi alcançar talvez a parte mais difícil da tarefa do filósofo. Isso foi feito por Zenão. Desde ele até o nosso próprio dia, os melhores intelectos de cada geração, um de cada vez, atacaram os problemas, mas alcançaram, falando de modo amplo, nada. Contudo, em nossa própria época, três homens – Weierstrass, Dedekind e Cantor – não meramente progrediram os três problemas, mas resolveram-nos completamente. As soluções, para aqueles familiarizados com a matemática, são tão clara quanto a não mais deixarem a mais leve dúvida ou dificuldade. Essa realização é provavelmente a maior da qual a nossa época tem para se vangloriar; e eu não conheço nenhuma época (exceto talvez a era [82]dourada da Grécia) a qual tenha uma prova mais convincente para oferecer do gênio transcendente dos seus grandes homens. Dos três problemas, aquele do infinitesimal foi resolvido por Weierstrass; a solução dos outros dois foi iniciada por Dedekind e definitivamente alcançada por Cantor.

O infinitesimal desempenhou antigamente um grande papel na matemática. Ele foi introduzido pelos gregos, quem consideravam um círculo como diferindo infinitesimalmente de um polígono com um número muito grande de lados iguais muito pequenos. Isso gradualmente cresceu em importância, até que, quando Leibniz inventou o cálculo infinitesimal, ele pareceu tornar-se a noção fundamental de toda a matemática superior. Carlyle diz, em seu Frederick the Great, como Leibniz costumava discursar para a rainha Sophia Charlotte da Prússia relativo ao infinitamente pequeno, e como ela responderia que, sobre esse assunto, ela não necessitava de nenhuma instrução – o comportamento dos cortesões tinha tornado-a perfeitamente familiarizada com ela. Mas filósofos e matemáticos – quem, pela maior parte, tinham menos familiaridade com cortes – continuaram a discutir esse tópico, embora sem fazer nenhum progresso. O cálculo requereu a continuidade, e a continuidade era suposta requerer o infinitamente pequeno; mas ninguém poderia descobrir o que o infinitamente pequeno poderia ser. Evidentemente, ele não era exatamente zero, porque um número suficientemente grande de infinitesimais, adicionados, eram visto formar um todo finito. Mas ninguém conseguiu identificar nenhuma fração que não fosse zero e ainda não finita. Dessa forma, havia um impasse. Mas, finalmente Weierstrass descobriu que o infinitesimal não era absolutamente necessário, e que tudo poderia ser realizado sem ele. Dessa forma, não havia mais a necessidade de supor que havia uma tal coisa. Portanto, hoje em dia, os matemáticos estão mais dignificados do que Leibniz: em vez de falar sobre o infinitamente pequeno, eles falam sobre o infinitamente grande – um assunto [83]que, por mais que apropriado a monarcas, infelizmente parece lhes interessar ainda menos do que o infinitamente pequeno interessava aos monarcas para quem Leibniz discursava.

O banimento do infinitesimal tem todos os tipos de consequências estranhas, com as quais alguém tem de se tornar gradualmente acostumado. Por exemplo, não há tal coisa como o momento seguinte. O intervalo entre um momento e o próximo teria de ser infinitesimal, uma vez que, se você toma dois momentos com um intervalo finito entre eles, sempre há outros momentos no intervalo. Dessa forma, se não deve haver nenhum infinitesimal, nenhum par de momentos é exatamente consecutivo, mas sempre há outros momentos entre quaisquer dois. Consequentemente, tem de haver um número infinito de momentos entre quaisquer dois; porque se houve um número finito, um seria o mais perto do primeiro dos dois momentos e, portanto, próximo a ele. Isso poderia ser considerado ser uma dificuldade; mas, como uma questão de fato, é aqui que a filosofia do infinito entra e deixa tudo certo.

O mesmo tipo de coisa acontece no espaço. Se qualquer pedaço de matéria for cortado em dois, e em seguida cada parte for cortada em dois, e assim por diante, os pedaços tornar-se-ão menores e menores e, teoricamente, podem ser tornados tão menores quanto nós desejarmos. Por mais que pequenos eles possam ser, eles ainda podem ser cortados e tornados ainda menores. Mas eles sempre terão algum tamanho finito, por mais pequeno que ele possa ser. Nós nunca alcançamos o infinitesimal dessa maneira, e nenhum número finito de divisões levar-nos-á a pontos. Mesmo assim, pontos, apenas que esses não devem ser alcançados por divisões sucessivas. Novamente aqui, a filosofia do infinito mostra-nos como isso é possível, e porque pontos não são comprimentos infinitesimais.

Com respeito ao movimento e à mudança, nós obtemos resultados similarmente curiosos. As pessoas costumavam pensar que quando uma coisa muda, ela tem de estar em um estado de mudança, e que quando uma coisa [84]se move, ela está em um estado de movimento. Isso agora é conhecido ser um erro. Quando um corpo se move, tudo que pode ser dito é que ele está em um lugar em um momento e em outro lugar em outro. Nós não temos de dizer que ele estará em um lugar vizinho no próximo instante, uma vez que não há próximo instante. Filósofos frequentemente falam que quando um corpo está em movimento, ele muda a sua posição dentro do instante. A essa visão, Zenão há muito tempo fez a réplica fatal de que cada corpo sempre está onde ele está: mas uma réplica tão simples e breve não devia ser o tipo de coisa à qual os filósofos estão acostumados a dar peso, e eles continuaram até o nosso próprio dia a repetir as mesmas frases que excitaram o destrutivo ardor eleata. Foi apenas recentemente que se tornou possível explicar o movimento em detalhe de acordo com franqueza de Zenão, e em oposição ao paradoxo do filósofo. Agora nós podemos nos satisfazer na crença confortável de que um corpo em movimento está tão verdadeiramente onde ele está quanto um corpo em repouso. O movimento consiste meramente no fato de que os corpos às vezes estão em um lugar e algumas vezes em outro, e que eles estão em lugares intermediários em tempos intermediários. Apenas aqueles quem têm patinhado através do atoleiro da especulação filosófica sobre esse assunto podem compreender que uma liberação dos prejuízos antigos está envolvida nesse lugar-comum simples e direto.

A filosofia do infinitesimal, como nós acabamos de ver, é principalmente negativa. As pessoas costumavam pensar nele, e agora elas descobriram o seu próprio erro. Por outro lado, a filosofia do infinito é inteiramente positiva. Antigamente se supunha que números infinitos, e o infinito matemático, de maneira geral, eram autocontraditórios. Mas, como era óbvio que havia infinitos – por exemplo, o número dos números – as contradições do infinito pareciam inevitáveis, e a filosofia parecia [85]ter errado para dentro de um “beco sem saída.” Essa dificuldade conduziu às antinomias de Kant e, consequentemente, mais ou menos indiretamente, a muito do método dialético de Hegel. Quase toda a filosofia corrente está desconcertada pelo fato (do qual muitos poucos filósofos ainda estão cientes) de que todas as contradições antigas e veneráveis na noção do infinito foram descartadas de uma vez por todas. O método pelo qual isso foi realizado é o mais interessante e instrutivo. Em primeiro lugar, embora as pessoas tenham falado fluentemente sobre infinidade desde os começos do pensamento grego, ninguém alguma vez pensou em perguntar, O que é infinidade? Se algum filósofo tivesse sido perguntado por uma definição de infinidade, ele poderia ter produzido alguma besteira ininteligível, mas, certamente, ele não teria sido capaz de dar uma definição que tivesse absolutamente qualquer significado. Há vinte anos, aproximadamente falando, Dedekind e Cantor fizeram essa pergunta, e, o que é mais notável, eles responderam-na. Quer dizer, eles descobriram uma definição perfeitamente precisa de número infinito ou uma infinita coleção de coisas. Esse foi o primeiro e, talvez, o maior passo. Então restou examinar as supostas contradições nessa noção. Aqui Cantor prosseguiu da única maneira apropriada. Ele pegou pares de proposições contraditórias, nas quais ambos os lados da contradição seriam usualmente considerados como demonstráveis, e ele examinou estritamente as supostas provas. Ele descobriu que todas as provas contrárias à infinidade envolviam um certo princípio, à primeira vista obviamente verdadeiro, mas destrutivo, em suas consequências, de quase toda a matemática. Por outro lado, as provas favoráveis à infinidades não tinham consequências ruins. Dessa maneira, parecia como se o senso comum tivesse permitido a si mesmo ser enganado por uma máxima capciosa e que, uma vez que essa máxima fosse rejeitada, tudo correu bem.

A máxima em questão é que, se uma coleção é parte [86]de outra, a primeira que é uma parte tem menos termos do que aquela da qual ela é parte. Essa máxima é verdadeira de números finitos. Por exemplo, ingleses são apenas alguns entre os europeus, e há menos ingleses do que europeus. Mas quando se chega a números infinitos, isso não é mais verdadeiro. Essa ruína da máxima concede-nos a definição precisa de infinidade. Uma coleção de termos é infinita quando ela contém como partes outras coleções que têm exatamente tantos termos quanto ela tem. Se você pode remover alguns dos termos de uma coleção, sem diminuir o número de termos, então há um número infinito de termos na coleção. Por exemplo, há exatamente tantos números pares quando há número de modo geral, uma vez que cada número pode ser dobrado. Isso pode ser visto colocando-se números ímpares e pares juntos em uma linha, e apenas números pares em uma linha abaixo:-


1, 2, 3, 4, 5. ad infinitum.

2, 4, 6, 8, 10. ad infinitum.


Obviamente, há exatamente tantos números na linha de baixo quanto na linha de cima, porque há um abaixo para cada um acima. Essa propriedade, a qual antigamente foi considerada ser uma contradição, está agora transformada em uma definição inofensiva de infinidade, e mostra, no caso acima, que o número de números finitos é infinito.

Mas o não iniciado pode surpreender-se de como é possível lidar com um número que não pode ser contado. É impossível contar todos os números, um por um, porque, por mais que nós possamos contar muitos, sempre há mais a seguir. O fato é que contagem é uma maneira muito vulgar e elementar de descobrir quantos tempos há em uma coleção. E, em qualquer caso, a contagem dá-nos o que os matemáticos chamam de o número ordinal dos nossos termos; quer dizer, ela arranja os nossos termos em uma ordem ou [87]série, e o seu resultado conta-nos que tipo de série resulta a partir dessa arranjo. Em outras palavras, é impossível contar coisas sem contar algumas primeiro e outras depois, de maneira que a contagem tem a ver com ordem. Agora, quando há apenas um número finito de termos, nós podemos contá-los em qualquer ordem que nós quisermos; mas, quando há um número infinito de termos, o que corresponde à contagem nos dará resultados bastante diferentes de acordo com a maneira pela qual nós levamos a operação a cabo. Dessa forma, o número ordinal, o qual resulta a partir do que, em um sentido geral, pode ser chamado de contagem, depende não apenas de quantos termos nós temos, mas também (onde o número de termos é infinito) da maneira pela qual os termos são arranjados.

Os números fundamentais infinitos não são ordinais, mas são o que é chamado de cardinal. Eles não são obtidos colocando os nossos termos em ordem e contando-os, mas através de um método diferente, o qual nos conta, para começar, se duas coleções têm o mesmo número de termos, ou, se não, qual é a maior.4 Ele não nos diz, da maneira que a contagem diz, que número de termos uma coleção tem; mas se nós definimos um número como o número de termos em uma coleção tal e tal, então esse método nos possibilita descobrir se alguma outra coleção que pode ser mencionada tem mais ou menos termos. Uma ilustração revelará como isso é feito. Se existisse algum país no qual, por uma razão ou outra, fosse impossível realizar um censo, mas no qual fosse conhecido que cada homem tinha uma esposa e cada mulher um marido, então (com a condição que a poligamia não fosse uma instituição nacional) nós deveríamos saber, sem contagem, que havia exatamente tantos homens quanto havia mulheres nesse país, nem mais nem [88]menos. Esse método pode ser aplicado de maneira geral. Se há alguma relação que, como o casamento, conecta as coisas em uma coleção cada uma com das coisas em outra coleção, e vice-versa, então as duas coleções têm exatamente o mesmo número de termos. Essa foi a maneira pela qual nós descobrimos que há tantos números pares quanto há números. Cada número pode ser duplicado, e cada número para pode ser dividido por dois, e cada processo dá exatamente um número correspondente àquele que é dobrado ou dividido por dois. E dessa maneira nós podemos descobrir qualquer número de coleções, cada uma das quais tem exatamente tantos termos quanto há números finitos. Se cada termo de uma coleção pode ser conectado com um número, e todos os números finitos são usados uma vez, e apenas uma vez, no processo, então a nossa coleção tem de ter exatamente tantos termos quanto há número finitos. Esse é o método geral pelo qual os números coleções são definidos.

Mas não se deve supor que todos os números infinitos sejam iguais. Pelo contrário, há infinitamente mais números infinitos do que finitos. Há mais maneiras de arranjar os números finitos em tipos diferentes de séries do que há números finitos. Provavelmente há mais pontos no espaço e mais momentos no tempo do que há números finitos. Há exatamente tanto frações quanto números inteiros, embora haja um número infinito de frações entre quaisquer dois números inteiros. Mas há mais números irracionais do que há números inteiros ou frações. Provavelmente há tantos pontos no espaço quanto há números irracionais, e exatamente tantos pontos em um milionésimo de uma polegada de comprimento quanto no todo do espaço infinito. Há um maior de todos os números infinitos, o qual é o número de coisas juntas, de cada classe e tipo. É óbvio que não pode haver um número maior do que esse, porque, [89]se tudo tem sido tomado, não há nada restando para acrescentar. Cantor provou que não há o maior número, e se essa prova fosse válida, as contradições do infinito reapareceriam em uma forma sublimada. Mas nesse ponto, o mestre tem sido culpado de uma falácia muito sútil, a qual eu espero explicar em algum trabalho futuro.5

Nós agora podemos entender porque Zenão acreditava que Aquiles não pode ultrapassar a tartaruga, e porque, como uma questão de fato, ele não pode ultrapassá-la. Nós deveremos ver que todas as pessoas que discordaram de Zenão não tinham nenhum direito para o fazer, porque todas elas aceitaram premissas a partir das quais a conclusão dele se seguiu. O argumento é este: Que Aquiles e a tartaruga partam ao longo de uma estrada ao mesmo tempo, a tartaruga (como apenas é justo) sendo permitida uma desvantagem. Que Aquiles vá duas vezes mais rápido do que a tartaruga, ou dez vezes, ou cem vezes mais rápido. Então ele nunca alcançará a tartaruga. Pois, em cada momento, a tartaruga está em algum lugar, e Aquiles está em algum lugar; e nenhum nunca está duas vezes no mesmo lugar enquanto a corrida está prosseguindo. Dessa maneira, a tartaruga vai para exatamente tantos lugares quanto Aquiles vai, porque cada um está em um lugar em um momento, e em outro lugar em outro momento. Mas se Aquiles devesse alcançar a tartaruga, os lugares onde a tartaruga teria estado seriam apenas parte dos lugares onde Aquiles teria estado. Aqui, nós podemos supor, Zenão apelou para a máxima de que o todo tem mais termos do que a parte.6 Dessa maneira, se Aquiles devesse [90]alcançar a tartaruga, ele teria estado em mais lugares que a tartaruga; mas nós vimos que, em qualquer período, ele tem de estar exatamente em tantos lugares quanto a tartaruga. Consequentemente, nós inferimos que ele nunca pode alcançar a tartaruga. Esse argumento está estritamente correto, se nós admitirmos o axioma de que o todo tem mais termos do que a parte. Como a conclusão é absurda, o axioma tem de ser rejeitado, e, então tudo segue bem. Mas não há boa palavra a ser dita para os filósofos dos últimos dois mil anos e mais, todos quem admitiram o axioma e negaram a conclusão.

A retenção desse axioma leva a contradições absolutas, enquanto que a sua rejeição leva apenas a estranhezas. Tem de ser confessado que algumas dessas estranhezas são muito estranhas. Uma delas, a qual eu chamo de paradoxo de Tristam Shandy, é o inverso do de Aquiles, e mostra que uma tartaruga, se você der tempo a ela, irá exatamente tão rápido quanto Aquiles. Como nós sabemos, Tristam Shandy empregou dois anos na crônica dos dois primeiros dias da vida dele, e lamentava que, nesse ritmo, o material acumular-se-ia mais rápido do que ele poderia lidar, de modo que, conforme os anos passavam, ele estaria mais e mais longe do fim da história dele. Agora, eu sustento que, se ele tivesse vivido para sempre, e não tivesse se cansado com a tarefa dele, então, mesmo se a vida dele tivesse continuado tão eventualmente quanto ela começou, nenhuma parte da biografia dele teria permanecido não escrita. Pois considere: o centésimo dia será descrito no centésimo ano, o milésimo no milésimo ano, e assim por diante. Qualquer dia que nós possamos escolher, tão longe no que ele não pode ter esperança de o alcançar, esse dia será descrito no ano correspondente. Dessa maneira, qualquer dia que possa ser mencionado será escrito mais cedo ou mais tarde, e, portanto, nenhuma parte da biografia dele permanecerá permanentemente não escrita. Essa proposição paradoxal, mas perfeitamente verdadeira, depende do fato [91]de que o número de dias no todo do tempo não é maior do que o número de anos.

Dessa forma, sobre o assunto da infinidade, é impossível evitar conclusões que, à primeira vista, parecem paradoxais, e essa é a razão pela qual tantos filósofos têm suposto que havia contradições inerentes no infinito. Mas um pouco de prática capacita alguém a apreender os princípios verdadeiros da doutrina de Cantor, e adquirir novos e melhores instintos quanto ao verdadeiro e ao falso. Portanto, as estranhezas não se tornam mais estranhas do que as pessoas nas antípodas, quem costumavam ser consideradas impossíveis, porque elas considerariam tão inconveniente erguerem-se sobre as cabeças delas.

A solução dos problemas relativos à infinidade também possibilitou a Cantor resolver os problemas da continuidade. Dessa, como da infinidade, ele deu uma definição perfeitamente precisa, e mostrou que não há contradições na noção assim definida. Mas esse assunto é tão técnico que é impossível dar qualquer explicação dele aqui.

A noção de continuidade depende daquela de ordem, uma vez que a continuidade é meramente um tipo particular de ordem. Em tempos modernos a matemática trouxe a ordem à proeminência maior e maior. Em dias antigos, era suposto (e filósofos ainda estão inclinados a supor) que a quantidade era a noção fundamental da matemática. Mas hoje dia a quantidade está inteiramente banida, exceto de um pequeno canto da geometria, enquanto que a ordem reina suprema mais e mais. A investigação dos diferentes tipos de séries e suas relações é agora uma parte muito grande da matemática, e tem sido considerado que essa investigação pode ser conduzida sem nenhuma referência à quantidade, e, pela maior parte, sem nenhuma referência ao número. Todos os tipos de séries são capazes de definição formal, e as propriedades delas podem ser deduzidas a partir dos princípios da lógica simbólica através da álgebra dos relativos. [92]A noção de limite, a qual é fundamental na maior parte da matemática superior, costumava ser definida através da quantidade, como um termo para o qual os termos de alguma série aproximavam-se tão por pouco quanto nos agradasse. Mas hoje em dia o limite é definido bastante diferentemente, e a série que ele limita não se aproxima dele de qualquer maneira. Esse aperfeiçoamento também é devido a Cantor, e é um que tem revolucionado a matemática. Agora apenas a ordem é relevante para os limites. Por exemplo, dessa forma o menor dos inteiros infinitos é o limite dos inteiros finitos, embora todos os inteiros finitos estejam a uma distância infinita dele. O estudo dos diferentes tipos de série é um assunto geral do qual o estudo dos números ordinais (mencionado acima) é um ramo especial e muito interessante. Mas as tecnicalidades inevitáveis desse assunto tornam-no impossível para explicar a qualquer um exceto os matemáticos declarados.

A geometria, como a aritmética, têm sido subsumida, em tempos recentes, sob o estudo geral da ordem. Era anteriormente suposto que a geometria era o estudo da natureza do espaço no qual nós vivemos, e, portanto, insistia-se, por aqueles que consideravam que o que existe apenas pode ser conhecido empiricamente, que a geometria deveria realmente ser considerada como pertencendo à matemática aplicada. Mas gradualmente apareceu, através do crescimento dos sistemas não euclidianos, que a geometria não lança mais luz sobre a natureza do espaço do que a aritmética lança sobre a população dos Estados Unidos. A geometria é uma inteira coleção de ciências dedutivas baseadas em uma coleção correspondente de conjuntos de axiomas. Um conjunto de axiomas é o de Euclides; outros conjuntos igualmente bons de axiomas levam a outros resultados. Se os axiomas de Euclides são verdadeiros é uma questão quanto à qual a matemática pura é indiferente; e, o que é mais, ela é uma questão que é teoricamente impossível para responder com certeza na afirmativa. Possivelmente poderia [93]ser revelado, através de mensurações cuidadosas, que os axiomas de Euclides são falsos; mas nenhuma mensuração alguma vez poderia assegurar-nos (devido aos erros de observação) que elas são exatamente verdadeiras. Dessa maneira, o geômetra deixa ao homem de ciência para decidir, como melhor ele puder, que axiomas são mais quase verdadeiros no mundo atual. O geômetra toma qualquer conjunto de axiomas que parecem interessantes e deduz suas consequências. Nesse sentido, o que define a geometria é que os axiomas têm de dar origem a uma série de mais de uma dimensão. E é dessa maneira que a geometria se torna um departamento no estudo da ordem.

Na geometria, como em outras partes da matemática, Peano e os seus discípulos têm realizado trabalho do maior mérito com respeito aos princípios. Anteriormente era considerado por filósofos e matemáticos igualmente que as provas em geometria dependiam da figura; hoje em dia, isso é conhecido ser falso. Nos melhores livros, não há figuras de qualquer maneira. O raciocínio prossegue através das regras estritas da lógica formal, a partir de um conjunto de axiomas estabelecido com o qual começar. Se uma figura é utilizada, todos os tipos de coisas parecem obviamente se seguir, o que nenhum raciocínio formal pode provar a partir de axiomas explícitos, e o que, como uma questão de fato, são aceitos apenas porque são óbvios. Banindo-se a figura, torna-se possível descobrir todos os axiomas que são necessários; e, dessa maneira, todos os tipos de possibilidades, as quais, de outra maneira, permaneceriam não detectadas, são trazidas à luz.

Um grande avanço, a partir do ponto de vista da correção, foi realizado através da introdução de pontos conforme eles são requeridos, e não começando, como era feito antigamente, pela suposição da totalidade do espaço. Esse método é devido em parte a Peano, em parte a outro italiano de nome Fano. Para aqueles desacostumados com isso, ele tem um ar de um pedantismo um pouco voluntarioso. Dessa maneira, nós começamos com os seguintes [94]axiomas: (1) Há uma classe de entidades chamadas de pontos. (2) Há, pelo menos, um ponto. (3) Se a for um ponto, há, pelo menos, outro ponto além de a. Então nós introduzimos a linha reta juntando dois pontos, e começamos novamente com (4), a saber, sobre a linha reta juntando a e b, há, pelo menos, outro ponto além de a e b. (5) Há, pelo menos, um ponto não na linha ab. E assim nós prosseguimos, até que nós tenhamos os meios de obter tantos pontos quando nós requeremos. Mas a palavra espaço, como Peano humorosamente observa, é uma para a qual a geometria não tem absolutamente nenhum uso.

Os métodos rígidos empregados pelos geômetras modernos depuseram Euclides do pináculo da correção. Até tempos recentes era considerado que, como o sir Henry Savile observou em 1621, havia apenas dois defeitos em Euclides, a teoria das paralelas e a teoria da proporção. Agora é sabido que esses são quase os únicos pontos no qual Euclides está livre de defeito. Erros sem conta estão envolvidos nas primeiras oito proposições dele. Quer dizer, não apenas é duvidoso se os axiomas dele são verdadeiros, o que é uma questão comparativamente trivial, mas é certo que as suas proposições não se seguem a partir dos axiomas que ele enuncia. Um número vastamente maior de axiomas, os quais Euclides emprega inconscientemente, é requerido para a prova das proposições dele. Mesmo na primeira proposição de todas, onde ele constrói um triângulo equilátero sobre uma base dada, ele usa dois círculos que são assumidos interseccionarem. Mas nenhum axioma explícito assegura-nos que eles o fazem, e em alguns tipos de espaços eles nem sempre interseccionaram. É bastante duvidoso se o nosso espaço pertence a um desses tipos ou não. Dessa maneira, Euclides falha inteiramente em provar o ponto dele exatamente na primeira proposição. Como ele certamente não é um autor fácil, e é terrivelmente prolixo, ele não tem mais nenhum interesse exceto histórico. Sob essas circunstâncias, não é nada menos do que um [95]escândalo que ele ainda deva ser ensinado a meninos na Inglaterra. Um livro deveria ter ou inteligibilidade ou correção; combinar os dois é impossível, mas carecer de ambos é ser indigno de um lugar tão grande como Euclides tem ocupado na educação.

O resultado mais notável dos métodos modernos na matemática está na importância da lógica simbólica do formalismo rígido. Matemáticos, sob a influência de Weierstrass, têm mostrado nos tempos modernos um cuidado pela precisão, e uma aversão a raciocínio desleixado, tal como não tem sido visto entre eles anterioremente desde o tempo dos gregos. As grandes invenções do século XVII – geometria analítica e cálculo infinitesimal – foram tão frutíferas em novos resultados que os matemáticos não tiveram nem tempo nem inclinação para examinar os fundamentos delas. Os filósofos, quem deveriam ter assumido a tarefa, tinham muito pouca habilidade matemática para inventarem os novos ramos da matemática que agora têm sido considerados necessários. Dessa maneira, os matemáticos apenas foram despertados do seus “sonos dogmáticos” quando Weierstrass e seus seguidores mostraram que, em geral, muitas das proposições mais queridas deles são falsas. Macaulay, contratando a certeza da matemática com a incerteza da filosofia, pergunta, quem alguma vez ouviu uma reação contra o teorema de Taylor? Se ele tivesse vivido agora, ele mesmo poderia ter ouvido uma semelhante reação, pois esse é precisamente um dos teoremas que as investigações modernas derrubaram. Tais choques rudes à fé matemática têm produzido aquele amor ao formalismo que parece, para os que são ignorantes do seu motivo, ser mero pedantismo revoltante.

[96]A prova de que toda a matemática pura, incluindo a geometria, não é nada senão lógica formal é um golpe fatal para a filosofia kantiana. Kant, corretamente percebendo que as proposições de Euclides não poderiam ser deduzidas a partir dos axiomas de Euclides sem a ajuda das figuras, inventou uma teoria do conhecimento para explicar esse fato; e explicou-o tão exitosamente que, quando o fato é mostrado ser um mero defeito de Euclides, e não um resultado da natureza do raciocínio geométrico, a teoria de Kant também tem de ser abandonada. A inteira doutrina das intuições a priori, pela qual Kant explicava a possibilidade da matemática pura, é inteiramente inaplicável à matemática em sua forma presente. As doutrinas aristotélicas dos escolásticos chegam mais perto em espírito das doutrinas que a matemática moderna inspira; mas os escolásticos foram embaraçados pelo fato de que a lógica formal deles era muito deficiente, e que a lógica filosófica baseada no silogismo revelou uma estreiteza correspondente. O que agora é requerido é dar o maior desenvolvimento possível à lógica matemática, permitir a importância completa das relações, e então, fundar sobre essa base segura, uma nova lógica filosófica, a qual pode esperar tomar emprestado a exatidão e certeza da sua fundação matemática. Se isso puder ser exitosamente alcançado, há toda razão para ter esperança de que o futuro próximo será uma época tão grande em filosofia pura quanto o passado imediato tem sido nos princípios da matemática. Grandes triunfos inspiram grandes esperanças; e o pensamento puro pode alcançar, dentro da nossa geração, resultados tão grandes que posicionarão a nossa época, nesse aspecto, em um nível com a maior época da Grécia.7


Próximo ensaio


ORIGINAL:

RUSSELL, B. Mathematics and the Metaphysicians. IN:______. Mysticism and Logic and Other Essays. London; Longmans, Green and Co. 1918. pp. 74-96. Disponível em: <https://archive.org/details/mysticismlogicot00russuoft/page/74/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1[76]No principal, esse assunto é devido ao sr. C. S. Peirce.

2[78]Eu devia ter acrescentado Frege, mas os escritos dele eram desconhecidos para mim quando este artigo foi escrito. [Nota acrescentada em 1917.]

3[80]Professor de matemática na Universidade de Berlin. Ele morreu em 1897.

4[87][Nota acrescentada em 1917.] Embora alguns números infinitos sejam maiores do que alguns outros, não pode ser provado que de quaisquer dois números infinitos um tenha de ser maior.

5[89]Cantor não é culpado de uma falácia neste ponto. A prova dele de que não há o maior número é válida. A solução do quebra-cabeça é complicada e depende da teoria dos tipos, a qual é explicada em Principia Mathematica, vol. I (Camb. Univ. Press, 1910). [Nota acrescentada em 1917].

6Isso não deve ser considerado como uma explicação historicamente correta do que Zenão efetivamente teve em mente. É um novo argumento para a conclusão dele, não o argumento que o influenciou. Sobre esse ponto, ver, por exemplo, C. D. Broad, “Note on Achilles and the Tortoise,” Mind, N.S., Vol. XXII, pp. 318-19. Trabalho muito valioso sobre a interpretação de Zenão tem sido realizado desde que esse artigo foi escrito. [Nota acrescentada e 1917.]

7[97]A maior época da Grécia foi trazida a um fim pela Guerra do Peloponeso. [Nota acrescentada em 1917.]