Misticismo e Lógica e Outros Ensaios
Por Bertrand Russell
[46]III A Veneração de um Homem Livre1
Ao dr. Fausto no escritório dele, Mefistófeles contou a história da criação, dizendo:
“Os louvores sem fim dos coros de anjos tinham começado a se tornar cansativos; pois, afinal, ele não merecia todo o louvor deles? Não tinha ele lhes concedido alegria sem fim? Não seria mais divertido obter louvor imerecido, ser adorado por seres a quem ele torturou? Ele sorriu interiormente, e resolveu que o grande drama deveria ser interpretado.”
“Por eras sem conta a nebulosa quente girou sem rumo através do espaço. Finalmente ela começou a tomar forma, a massa central expeliu planetas, os planetas esfriaram, mares ferventes e montanhas em chamas levantados e jogados, a partir de massas negras de nuvens pesadas de chuva inundavam a crosta escassamente sólida. E agora o primeiro germe de vida cresceu nas profundezas do oceano, e desenvolveu-se no calor frutífero das vastas árvores de florestas, imensas samambaias brotando do mofo úmido, monstros do mar reproduzindo-se, lutando, devorando e morrendo. E a partir dos monstros, conforme a peça desenrolava-se, o homem nasceu, com o poder do pensamento, o conhecimento do bom e do mau, e sede cruel por adoração. E o homem viu tudo o que estava se passando neste mundo louco, monstruoso, que tudo está lutando para arrebatar, a qualquer custo, uns poucos breves momentos de vida antes do decreto inexorável da morte. E [47]o Homem disse: ‘Há um propósito oculto, pudéssemos nós apenas o compreender, e o propósito é bom; pois nós temos de reverenciar alguma coisa, e neste mundo visível não há nada digno de reverência.’ E o homem colocou-se de lado do conflito, resolvendo que Deus intencionou a harmonia surgir a partir do caos pelos esforços humanos. E quando ele seguia os instintos que Deus tinha transmitido a ele a partir da sua ancestralidade dos animais de rapina, ele chamava isso de Pecado, e pedia a Deus para o perdoar. Mas ele duvidava de se poderia ser justamente perdoado, até que ele inventou um Plano divino pelo qual a ira de Deus devia ter sido apaziguada. E vendo que o presente era ruim, ele tornou-o ainda pior, para que, por esse meio, o futuro pudesse ser melhor. E ele agradeceu a Deus pela força que o possibilitou a renunciar mesmo às alegrias que eram possíveis. E Deus sorriu; e quando ele viu que o homem tinha se tornado perfeito em renúncia e adoração, ele enviou outro sol através do céu, o qual colidiu com o sol do homem; e tudo retornou novamente à nebulosa.”
“‘Sim,’ ele murmurou, ‘foi uma boa peça; eu a teria realizada novamente.’”
Tal, em linhas gerais, mas ainda mais sem propósito, mero vazio de sentido, é o mundo que a ciência apresenta para a nossa crença. No meio de um semelhante mundo, se em qualquer lugar, os nossos ideais, daqui em diante, têm de encontrar um lar. Que o homem é o produto de causas que não tinham conhecimento antecipado do fim que elas estavam realizando; que a origem dele, seu crescimento, suas esperanças e seus medos, seus amores e suas crenças, são apenas o resultado de colocações acidentais de átomos; que nenhum fogo, nenhum heroísmo, nenhuma intensidade de pensamento e sentimento, pode preservar uma vida individual além do túmulo; que todos labores das eras, toda devoção, toda inspiração, todo esplendor do meio-dia do gênio humano, estão destinados à extinção na vasta morte do sistema [48]solar, e que o inteiro tempo da realização do homem tem de inevitavelmente ser enterrado debaixo dos destroços de um universo em ruínas – todas essas coisas, se não bastante além de disputa, são, contudo, tão quase certas, que nenhuma filosofia que as rejeite pode ter esperança de ficar de pé. Apenas dentro do tablado dessas verdades, apenas sobre o fundamento firme do desespero inflexível, pode a habitação da alma doravante ser seguramente construída.
Como, em um mundo tão alheio e inumano, pode uma criatura tão sem poder como o homem preservar suas aspirações imaculadas? Um estranho mistério é a natureza, onipotente mas cega, nas revoluções das suas confusões seculares através dos abismos do espaço, finalmente trouxe à luz um filho, ainda sujeito ao seu poder, mas dotado com visão, com conhecimento do bem e do mal, com a capacidade para julgar todas as obra da sua mãe não pensante. A despeito da morte, a marca e o selo do controle materno, o homem ainda é livre, durante seus breves anos, para examinar, critica, conhecer e, na imaginação, criar. Apenas a ele, no mundo com o qual ele está familiarizado, essa liberdade pertence; e nisso jaz a superioridade dele sobre as forças inquietas que controlam a sua vida exterior.
O selvagem, como nós mesmos, sente a opressão da sua impotência diante dos poderes da Natureza; mas não tendo em si mesmo nada que ele respeite mais do que o Poder, ele está disposto a prostrar-se diante dos seus deuses sem inquirir se eles são dignos da sua veneração. Patética e muito terrível é a longa história de crueldade e tortura, de degradação e sacrifício humano, suportada na esperança do apaziguamento de deuses invejosos: certamente, o trêmulo crente pensa, quando o que é mais precioso foi livremente concedido, o desejo deles por sangue tem de ser apaziguado, e mais não será requerido. A religião de [49]Moloque – como tais credos podem ser genericamente chamados – é, em essência, a submissão adulante do escravo, quem não se atreve, mesmo no seu coração, a permitir o pensamento de que o seu mestre não merece adulação. Uma vez que a independência dos ideais ainda não é reconhecida, o Poder pode ser livremente venerado, e receber um respeito ilimitado, a despeito da sua inflição arbitrária de dor.
Mas gradualmente, conforme a moralidade se torna mais ousada, a reivindicação do mundo ideal começa a ser sentida; e a veneração, se ela não deve cessar, tem de ser concedida a deuses de outro tipo além daqueles criados pelo selvagem. Alguns, embora eles sintam as demandas do ideal, ainda conscientemente as rejeitaram, ainda insistindo que o Poder nu é digno de veneração. Tal é a atitude inculcada na resposta de Deus a Jó a partir do redemoinho: o poder e conhecimento divinos são alardeados, mas da bondade divina não há pista. Tal também é atitude daqueles que, em nosso próprio dia, baseiam a sua moralidade na luta pela sobrevivência, sustentando que os sobreviventes são necessariamente os mais aptos. Mas outros, não contentes com uma resposta tão repugnante ao sentido moral, adotarão a posição com a qual nos tornamos acostumados a considerar como especialmente religiosa, sustentando que, de alguma maneira oculta, o mundo dos fatos é realmente harmonioso com o mundo dos ideais. Dessa maneira, o homem cria Deus, onipotente e onibenevolente, a unidade mística do que é do que deveria ser.
Mas o mundo dos fatos, depois de tudo, não é bom; e, ao submetermos o nosso julgamento a ele, há um elemento de servilismo do qual os nossos pensamentos têm de ser purgados. Pois em todas as coisas é bom exaltar a dignidade do homem, livrando-o, tanto quanto possível, da tirania do poder não humano. Quando nós temos compreendido que o Poder é amplamente ruim, que o homem, com seu conhecimento do bem e do mal, é apenas um átomo indefeso em um mundo que não tem semelhante [50]conhecimento, a escolha é novamente apresentada a nós: devemos venerar a Força ou devemos venerar a Bondade? Deve nosso Deus existir e ser mal, ou deve ele ser reconhecido como a criação da nossa própria consciência?
A resposta para essa questão é muito importante e afeta profundamente a nossa inteira moralidade. A veneração da Força, à qual Carlyle e Nietzsche e o credo do militarismo têm nos acostumado, é o resultado de falha em sustentar os nossos próprios ideais contra um universo hostil: ela mesma é uma submissão prostrada ao mal, um sacrifício do nosso melhor a Moloque. Se a força de fato deve ser respeita, respeitemos antes a força daqueles que recusam esse falso “reconhecimento dos fatos” que falha em reconhecer que fatos são frequentemente maus. Admitamos que, no mundo que nós conhecemos, há muitas coisas que seriam melhores de outra maneira, e que os ideais aos quais nós aderimos e devemos aderir não são realizados no reino da matéria. Preservemos o nosso respeito pela verdade, pela beleza, pelo ideal de perfeição que a vida não nos permite alcançar, embora nenhuma dessas coisas corresponda à aprovação do universo inconsciente. Se o Poder é mau, como ele parece ser, rejeitemo-lo dos nossos corações. Nisso jaz a verdadeira liberdade do homem: na determinação de venerar apenas o Deus criado pelo seu próprio amor a verdade, para respeitar apenas o paraíso que inspira a intuição dos nossos melhores momentos. Na ação, no desejo, nós temos de nos submeter perpetuamente à tirania das forças exteriores; mas no pensamento, na aspiração, nós somos livres, livres de companheiros, livres do planeta insignificante sobre o qual os nossos corpos impotentemente rastejam, livres até, enquanto nós vivemos, da tirania da morte. Portanto, aprendamos que a energia da fé que nos possibilita a vier constantemente na visão do bem; e, na ação, desçamos ao mundo dos fato com essa visão sempre diante de nós.
[51]Quando inicialmente a oposição de fato e ideal torna-se completamente visível, um espírito de revolta feroz, de ódio ardente aos deuses, parece necessário à afirmação da liberdade. Desafiar com constância prometeica um universo hostil, manter o seu mau sempre em vista, sempre ativamente odiando, não recusar nenhuma dor que a malícia do Poder pode inventar, parecem ser o dever todos que não se curvarão diante do inevitável. Mas a indignação ainda é uma sujeição, pois ela compele os nossos pensamentos a serem ocupados por um mundo maligno; e na ferocidade do desejo a partir do qual a rebelião nasce há um tipo de egoísmo que é necessário ao sábio superar. A indignação é uma submissão dos nossos pensamentos, mas não dos nossos desejos; a liberdade estoica, na qual a sabedoria consiste, é encontrada na submissão dos nossos desejos, mas não dos nossos pensamentos. A partir da submissão dos nossos desejos nasce a virtude da resignação; a partir da liberdade dos nossos pensamentos nasce o inteiro mundo da arte e filosofia, e a visão da beleza pela qual, pelo menos, nós meio conquistamos o mundo relutante. Mas a visão da beleza é possível apenas para a contemplação irrestrita, para pensamentos não pesados pela carga de desejos ansiosos; e, dessa maneira, a liberdade chega apenas para aqueles que não mais pedem da vida que ela deva lhes conceder quaisquer dos bens pessoais que estão sujeitos às mutações do tempo.
Embora a necessidade de renúncia seja evidência da existência do mal, contudo, o cristianismo, ao pregá-la, tem revelado uma sabedoria que excede aquele da filosofia prometeica da rebelião. Tem de ser admitido que, das coisas que nós desejamos, algumas, embora elas provem-se impossíveis, ainda são bens reais; outras, contudo, tão ardentemente ansiadas, não formam parte de um ideal inteiramente purificado. A crença de que o que tem de ser renunciado é mau, embora algumas vezes falsa, é muito menos frequentemente falsa do que a paixão indomada supõe; e o credo da religião, ao fornecer uma razão [52]para provar que ele nunca é falso, tem sido o meio de purificação das nossas esperanças pela descoberta de muitas verdades austeras.
Mas há na resignação um adicional bom elemento: mesmo bens reais, quando eles são inalcançáveis, não deveriam ser irritadamente desejados. Para todo homem chegar, mais cedo ou mais tarde, a grande renúncia. Para o jovem, não há nada inalcançável; para eles, uma coisa boa desejada com a inteira força de uma vontade apaixonada e, contudo, impossível, não é crível. Contudo, por morte, por doença, por pobreza ou pela voz do dever, nós temos de aprender, cada um de nós, que o mundo não foi feito para nós, e que, por mais que belas possam ser as coisas que nós ansiamos, mesmo assim, o Destino pode proibi-las. É a parte da coragem, quando o infortúnio chega, suportar, sem lamentação, a ruína das nossas vidas, deslocar nossos pensamentos de arrependimentos vãos. Esse grau de submissão ao Poder não é apenas justo e correto: é o portão mesmo da sabedoria.
Mas renúncia passiva não é o todo da sabedoria; pois não é através da renúncia apenas que nós podemos construir um templo para a veneração dos nossos próprios ideais. Prenúncios assombrados do templo aparecem no reino da imaginação, na música, na arquitetura, no reino imperturbado da razão, e no dourado pôr do sol mágico da letra de música, onde a beleza brilha e cintila, distante do toque da tristeza, distante do medo da mudança, distante das falhas e dos desencantamentos do mundo dos fatos. Na contemplação dessas coisas a visão do paraíso dará forma a si mesma em nossos corações, concedendo ao mesmo tempo um critério para julgar o mundo a nossa volta, e uma inspiração através da qual dar forma às nossas necessidades de tudo que for capaz de servir como uma pedra no templo sagrado.
Exceto por aqueles raros espíritos que são nascidos sem pecado, há uma caverna de escuridão a ser atravessada antes que [53]se possa entrar no templo. O portão da caverna é o desespero, e o seu piso é pavimentado com as lápides das esperanças abandonadas. Ali o Eu tem de morrer; ali, a avidez, a ambição do desejo indomado, têm de ser mortas, pois apenas assim a alma pode ser liberta do império do destino. Mas, fora da caverna, o Portão da Renúncia conduz novamente à luz do dia da sabedoria, pela radiância da qual uma nova intuição, uma nova alegria, uma nova ternura, brilham adiante para alegrar o coração do peregrino.
Quando, sem a amargura da rebelião impotente, nós aprendemos tanto a nos resignar ao governo exterior do Destino quanto a reconhecer que o mundo não humano é indigno da nossa adoração, finalmente se torna possível transformar e remodelar o universo inconsciente, transmutá-lo no cadinho da imaginação, para que uma nova imagem de ouro brilhante substitua o antigo ídolo de barro. Em todos os fatos multiformes do mundo – nas formas visuais de árvores e montanhas e nuvens, nos eventos da vida do homem, mesmo na onipotência mesma da Morte – a intuição do idealismo criativo pode encontrar o reflexo de uma beleza que os seus próprios pensamentos primeiro construíram. Dessa maneira, a mente afirma a sua maestria sútil sobre as forças sem pensamento da natureza. Quanto mais mau o material com o qual ela lida, mais frustrante para o desejo destreinado, maior é a sua realização na indução da rocha relutante a fornecer seus tesouros ocultos, mais orgulhosa é a sua vitória em compelir as forças opostas a inchar o cortejo do seu triunfo. De todas as artes, a tragédia é a mais orgulhosa, a mais triunfante; pois ela constrói a sua cidadela brilhante no centro mesmo da região do inimigo, no cume mesmo da sua montanha mais elevada; a partir das suas torres de vigília inexpugnáveis, seus campos e arsenais, suas colunas e fortes, tudo é revelado; dentro das suas muralhas, a vida livre continua, enquanto as legiões da Morte e Dor e Desespero, e todos [54]os capitães servis do Destino tirano, proporcionam aos cidadãos daquela cidade destemida novos espetáculos de beleza. Felizes aquelas exuberâncias sagradas, três vezes felizes os habitantes daquela eminência onividente. Honra para aqueles bravos guerreiros que, através de eras sem conta de guerra, têm preservado para nós a herança sem preço da liberdade, e têm mantido imaculado por invasores sacrílegos o lar do insubmisso.
Mas a beleza da tragédia apenas torna visível uma qualidade que, em formas mais ou menos óbvias, está presente sempre e em todo lugar da vida. No espetáculo da Morte, na resistência à dor intolerável, e na irrevogabilidade de um passado desaparecido, há uma sacralidade, uma admiração avassaladora, um sentimento da vastidão, a profundidade, o mistério inesgotável da existência, na qual, como através de algum estranho casamento de dor, o sofredor está vinculado ao mundo pelas amarras da tristeza. Nesses momentos de intuição, nós perdemos toda ansiedade do desejo temporário, toda luta e todo esforço por fins mesquinhos, toda preocupação com pequenas coisas triviais que, para uma visão superficial, formam a vida comum do dia a dia; nós vemos, circundando a balsa estreita iluminada pela luz vacilante da camaradagem humana, o oceano escuro sobre as ondas rolantes do qual nos debatemos por uma breve hora; a partir da grande noite exterior, uma rajada de frio entra no nosso refúgio, com que coragem ela pode comandar, contra o inteiro peso de um universo que não se importa com suas esperanças e seus temores. Vitória, na sua luta com os poderes da escuridão, é o verdadeiro batismo na companhia gloriosa de heróis, a verdadeira iniciação na beleza dominante da existência humana. A partir desse encontro medonho da alma com o mundo externo, enunciação, sabedoria e caridade são nascidas; e com [55]o nascimento delas, uma nova vida começa. Para levar para dentro do santuário mais íntimo da alma as forças irresistíveis cujas marionetes nós parecemos ser – Morte e mudança, a irrevogabilidade do passado, e a impotência do homem diante da fúria cega do universo de vaidade a vaidade – sentir essas coisas e conhecê-las é conquistá-las.
Essa é a razão pela qual o passado tem um poder tão mágico. A beleza das suas imagens imóveis e silentes é como a pureza encantada do último outono, quando as folhas, embora uma respiração fá-las-ia cair, ainda brilham contra o céu em glória dourada. O passado não muda ou luta; como Duncan, depois da febre intermitente, ele dorme bem; o que era ansioso e ávido, o que era insignificante e transitório, desapareceu, as coisas que eram belas e eternas brilham a partir disso como estrelas no céu. A sua beleza, para uma alma indigna dela, é insuportável; mas, para uma alma que conquistou o Destino, ela é a chave da religião.
A vida do homem, vista externamente, é apenas uma pequena coisa em comparação com as forças da natureza. O escravo está condenado a adorar Tempo e Destino e Morte, porque eles são maiores do que qualquer coisa que ele encontra em si mesmo, e porque todos os pensamentos dele são de coisas que eles devoram. Mas, grandes como eles são, pensar nelas grandemente, sentir seu esplendor desapaixonado, é ainda maior. E semelhante pensamento torna-nos homens livre; nós não mais nos curvamos diante do inevitável, em sujeição oriental, mas nós o absorvemos, e tornamo-lo uma parte de nós mesmos. Abandonar a luta por felicidade privada, expulsar toda ansiedade do desejo temporário, arder com paixão por coisas eternas – isso é emancipação, e isso é a veneração do homem livre. E essa libertação é efetuada através de uma contemplação do Destino; pois o Destino mesmo é subjugado pela [56]mente que não deixa nada a ser purgado pelo fogo purificador do tempo.
Unido com os seus companheiros homens pela mais forte das ligações, o vínculo de um destino comum, o homem livre descobre que uma nova visão sempre está com eles, derramando sobre cada tarefa diária a luz do amor. A vida do homem é uma longa marcha através da noite, rodeada por inimigos invisíveis, torturada por cansaço e dor, na direção de um objetivo que pouco podem ter esperança de alcançar, e onde ninguém pode permanecer por muito tempo. Um a um, conforme eles marcham, os nossos camaradas desaparecem da nossa vista, capturados pelas ordens silenciosas da Morte onipotente. Muito pouco é o tempo no qual nós podemos ajudá-los, no qual a felicidade ou miséria dele é decidida. Esteja conosco verter luz do sol sobre o caminho deles, aliviar sua tristeza através do bálsamo da simpatia, conceder a pura alegria de uma afeição incansável, fortalecer a coragem decadente, instilar fé em horas de desespero. Que não pesemos em escalas de rancor seus méritos e deméritos, mas pensemos apenas na necessidade deles – nas tristezas, nas dificuldades, talvez na cegueira, que forma a miséria das vidas deles; lembremos que eles são nossos companheiros sofredores na mesma escuridão, atores na mesma tragédia que nós mesmos. E assim, quando o dia deles tiver terminado, quando o bem e o mal deles tiver tornado-se eterno através da imortalidade do passado, seja nós que sintamos que, onde eles sofreram, onde eles falharam, nenhum feito nosso foi a causa; mas sempre que uma centelha de fogo divino acender nos corações deles, nós estivemos prontos com encorajamento, com simpatia, com palavras corajosas, nos quais alta coragem brilhou.
Breve e sem poder é a vida do homem; sobre ele e toda a sua raça o destino lento, certo, cai impiedoso e escuro. Cega para bem e mal, descuidada de destruição, a matéria onipotente rola adiante em seu caminho implacável; para o Homem, condenado hoje a perder o que lhe é querido, amanhã ele mesmo condenado a atravessar [57]o portão da escuridão, resta apenas cuidar, porém antes que o golpe caia, dos pensamentos elevados que enobrecem o seu pequeno dia; desdenhando dos terrores covardes do escravo do Destino, para venerar no santuário que as suas próprias mãos construíram; imperturbável pelo império da mudança, para preservar uma mente livre da tirania arbitrária que governa a sua exterior; desafiador orgulhoso das forças irresistíveis que toleram, por um momento, o seu conhecimento e a sua condenação, para sustentar sozinho, um Atlas cansado mas obstinado, o mundo ao qual os seus próprios ideias deram forma a despeito da marcha pisoteadora do poder inconsciente.
ORIGINAL:
RUSSELL, B. A Free Man’s Worship. IN:______. Mysticism and Logic and Other Essays. London; Longmans, Green and Co. 1918. pp. 46-57. Disponível em: <https://archive.org/details/mysticismlogicot00russuoft/page/46/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1[46]Reimpresso de o Independent Review, dezembro de 1903.
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