domingo, 9 de junho de 2024

A Teoria dos Sentimentos Morais P1S2C4 Das Paixões Sociais

A Teoria dos Sentimentos Morais


Por Adam Smith


Parte I Da Propriedade da Ação


Seção II Dos Graus das Paixões Diferentes que são Consistentes com Propriedade


Capítulo anterior


[59]Capítulo IV Das Paixões Sociais


Como há uma simpatia dividida que torna o conjunto todo das paixões há pouco mencionadas, na maioria das ocasiões, tão deselegantes e desagradáveis; assim há outro conjunto oposto a essas, as quais uma simpatia redobrada torna quase sempre peculiarmente agradáveis e apropriadas. Generosidade, humanidade, gentileza, compaixão, amizade mútua e estima, todas afeições sociais e benevolentes, quando expressas no semblante ou comportamento, mesmo na direção daqueles que não estão peculiarmente conectados conosco mesmos, agradam o espectador indiferentes em quase qualquer ocasião. A simpatia dele com a pessoa que sente essas paixões coincide exatamente com o interesse dele pela pessoa que é o objeto delas. O interesse que, como um homem, ele é obrigado a ter na felicidade dessa última, anima a sua simpatia com os sentimentos da outra, cujas emoções estão empregadas ao redor do mesmo objeto. Portanto, nós sempre temos a disposição mais forte para simpatizar com as afeições benevolentes. Elas parecem agradáveis para nós em cada aspecto. Nós entramos na satisfação tanto da pessoa que as sente quanto da pessoa que é objeto delas. Pois, como o objeto de ódio e indignação fornece mais dor do que todo o mal que um homem bravo [60]pode temer a partir dos seus inimigos; assim há uma satisfação na consciência de ser amado, a qual, para uma pessoa de delicadeza e sensibilidade, é da maior importância para a felicidade do que toda a vantagem que ela pode esperara derivar dela. Que temperamento (character) é tão detestável quanto um que tem prazer em semear desentendimento entre amigos e transformar o amor mais terno deles em ódio mortal? Contudo, no que consiste a atrocidade dessa injúria tão muito abominada? Está em os privar dos frívolos bons cargos públicos, os quais, tivesse a amizade deles continuado, eles poderiam ter esperado uns dos outros? Está em os privar da amizade mesma, roubar deles as afeições de cada um dos outros, a partir da qual ambos derivavam tanta satisfação; está em perturbar a harmonia dos seus corações, e colocar um fim àquele comércio feliz que antes tinha subsistido entre eles. Essa afeições, essa harmonia, esse comércio, são sentidos não apenas pelo tenro e o delicado, mas pelo vulgo mais rude do gênero humano, serem de maior importância para a felicidade do que todos os pequenos serviços que poderiam ser esperados fluírem a partir deles.

Em si mesmo, o sentimento do amor é agradável para a pessoa que o sente. Ele suaviza e harmoniza o peito, parece favorecer o estado saudável da condição humana; ele é tornado ainda mais prazeroso pela consciência da gratidão e satisfação que ele tem de excitar naquele que é objeto dele. A consideração mútua torna-os felizes um no outro, e [61]a simpatia, com essa consideração mútua, torna-os agradáveis para qualquer outra pessoa. Com que prazer nós olhamos para uma família, através do todo da qual reina amor e estima mútuos, onde os pais e os filhos são companheiros uns dos outros, sem nenhuma outra diferença do que a que é produzida pela afeição respeitosa de um lado, e indulgência amável, de outro; onde liberdade e carinho, gracejo mútuo e gentileza mútua, mostram que nenhuma oposição de interesses divide os irmãos, nem nenhuma rivalidade de favor coloca as irmãs em desacordo, e onde cada coisa apresenta-nos uma ideia de paz, alegria, harmonia e contentamento? Pelo contrário, quão inquietos nós somos tornados quando nós entramos em uma casa na qual contenda discordante coloca uma metade daqueles que habitam nela contra a outra; onde, em meio a suavidade e complacência afetadas, olhares suspeitos e súbitos espasmos de paixões traem os ciúmes mútuos que ardem dentro deles, e os quais, a cada momento, estão prontos para irromper através de todas as restrições que a presença da companhia impõe?

Essas paixões amigáveis, mesmo quando elas são reconhecidas serem excessivas, nunca são consideradas com aversão. Há alguma coisa agradável mesmo na fraqueza de amizade e humanidade. A mãe tenra demais, o pai indulgente demais, o amigo generoso e afeiçoado demais, algumas vezes podem, talvez, por causa da suavidade das suas naturezas, ser considerados com uma espécie de pena, na qual, contudo, há uma mistura de amor, mas nunca podem ser considerados com ódio [62]e aversão, nem mesmo com desdém, a menos que pelo mais brutal e sem valor do gênero humano. É sempre com preocupação, com simpatia e gentileza que nós os culpamos pela extravagância dos seus apegos. Há um desamparo no caráter da humanidade extrema que mais do que qualquer coisa interessa à nossa piedade. Não há nada em si mesma que a torne ou desgraciosa ou desagradável. Nós apenas lamentamos que ela seja imprópria para o mundo, porque o mundo é indigno dela, e porque ela tem de expor a pessoa que é dotada dela como uma presa para a perfídia e ingratidão de falsidade insinuante, e a mil dores e inquietações, as quais, de todos os homens, aquele que menos merece sentir, e que geralmente também é, de todos os homens, o menos capaz de suportar. É bastante de outra maneira com ódio e ressentimento. Uma propensão muito violenta para essas paixões detestáveis torna uma pessoa o objeto de temor e aversão universais, quem, como uma besta selvagem, nós consideramos que deve ser caçada de toda a sociedade civil.


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ORIGINAL:

SMITH, A. The Theory of Moral Sentiments. IN:______. The Works of Adams Smith. In Five Volumes. Vol. I. London: Printed for T. Cadell and W. Davies … [at 16 others], 1812. pp. 59-62. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofadamsmith01smituoft/worksofadamsmith01smituoft/page/59/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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