sábado, 29 de janeiro de 2022

Um Ensaio para Uma Nova Teoria da Visão [88-120]

Por George Berkeley


Parte anterior


[171]88. Tendo concluído o que eu pretendia dizer sobre a Distância e Magnitude de objetos, eu agora venho tratar da maneira pela qual a mente percebe a Posição1 deles pela vista. Entre as descobertas da última época, não é considerada como das menores que o uso da visão tenha sido mais claramente explicado do que alguma vez tinha sido. Não há, nesta época, ninguém ignorante de que as imagens dos objetos exteriores são pintados na retina ou no fundo do olho; que nós não podemos ver nada que não esteja assim pintado; e que, de acordo com que a imagem seja mais distinto ou confuso, também assim é a percepção que nós temos do objeto2. Mas então, nessa explicação da visão, ali ocorre uma poderosa dificuldade, a saber, os objetos são pintados em uma ordem invertida na base do olho: a parte superior de qualquer objeto sendo pintada na parte inferior do olho, e a parte inferior do objeto na parte superior do olho; e assim também quanto à direita e esquerda. Portanto, uma vez que as imagens estão dessa maneira invertidos, é perguntado, como acontece que nós vejamos os objetos eretos e em sua postura natural?

89. Em resposta a essa dificuldade, explica-se a nós que a mente, percebendo o impulso de um raio de luz na parte superior do olho, considera esse raio como vindo em uma linha direta da parte inferior do objeto; e, da mesma maneira, traçando o raio que atinge a parte inferior do olho, é dirigido da parte superior do objeto. Dessa maneira, na figura adjacente, C, o ponto inferior do objeto ABC, é projetado em c, a parte superior do olho. Da mesma forma, o ponto mais elevado A é projetado em a, a parte mais baixa do olho; o que torna a representação cba invertida. Mas a mente – considerando [172]a marca que é feita em c como vindo na linha reta Cc a partir da extremidade inferior do objeto; e a marca ou impulso em a, como vindo na Aa da extremidade superior do objeto – é dirigida a fazer um julgamento correto da posição do objeto ABC, a despeito da imagem dele estar invertida.

Além disso, isso é ilustrado ao conceber-se um homem cego, quem, segurando em suas mãos dois bastões que cruzam um ao outro, toca com eles as extremidades de um objeto, posicionado em uma posição perpendicular3. É certo que esse homem julgará que a parte superior do objeto que ele toca com o bastão mantém-se na mão mais baixa, e que deve ser a parte mais baixa do objeto que ele toca com o bastão em sua mão mais alta. Essa é a explicação comum da aparência ereta de objetos, a qual é geralmente recebida e aquiescida, sendo (como o Sr. Molyneuz explica-nos, Diopt. Part ii. ch. vii. p. 289) ‘considerada por todos os homens como satisfatória.’

90. Mas essa explicação para mim não parece verdadeira em qualquer grau. Houvesse eu percebido aqueles impulsos, intersecções e direções dos raios de luz, de maneira semelhante a como foram estabelecidos, então, de fato, não seriam à primeira vista vazias de probabilidade. E poderia haver alguma simulação para a comparação do cego e seus bastões cruzados. Mas o caso é muito diferente. Eu conheço muito bem que eu não percebo semelhante coisa. E, por consequência, eu não posso por esse meio fazer uma estimativa da posição de objetos. Além disso, eu apelo à experiência de qualquer um, quer ele esteja consciente de si mesmo para que ele pense na intersecção formado pelos lápis em circunferência, quer busque os impulsos que eles dão em linhas retas, quando que ele percebe pela vista a posição de [173]qualquer objeto? Para mim parece evidente que o cruzamento e traçado dos raios, etc, nunca são considerados por crianças, idiotas, ou, verdadeiramente, por qualquer outro, salvo apenas por aqueles que se aplicaram ao estudo da ótica. E para a mente julgar da posição de objetos por aquelas coisas sem as perceber, ou percebê-las sem conhecê-la4, escolha o que te agrada, está perfeitamente além da minha compreensão. Acrescente a isso, que a explicação do uso da visão pelo exemplo dos bastões cruzados, e a caçada do objeto ao longo dos eixos dos lápis em circunferência, supõem que os objetos próprios da vista sejam percebidos à distância de nós, contrariamente ao que tem sido demonstrado5. [Portanto, nós podemos aventurarmo-nos a declarar essa opinião, relativa à maneira pela qual a mente percebe a aparência ereta de objetos, ser uma parte daqueles outros dogmas de escritores em óptica, os quais, nas partes anteriores deste tratado, nós tivemos ocasião de examinar e refutar6.]

91. Portanto, resta que examinemos outra explicação para essa dificuldade. E eu acredito que não seja impossível encontrar uma, se nós a examinarmos até a base, e cuidadosamente distinguirmos entre as ideias da vista e do toque; o que não pode ser tão frequentemente inculcado ao tratar da visão7. Mas, mais especificamente do começo ao fim da consideração desse assunto, nós devemos levar essa distinção em nossos pensamentos; pois a dificuldade da explicação da visão ereta parece surgir principalmente dessa carência de um entendimento correto da mesma.

92. Para desembaraçar nossas mentes de quaisquer prejuízos que nós possamos acolher com relação ao assunto à mão, nada parece mais apropriado do que a tomada em nossos pensamentos do caso de alguém cego de nascença, e, mais tarde, feito ver. E – embora talvez essa possa não ser uma tarefa inteiramente fácil e familiar para nós, despojar-nos inteiramente das experiências recebidas da vista, para sermos capazes de colocar nossos pensamentos exatamente na postura de um semelhante alguém – nós devemos, não obstante, tanto quanto possível, tentar formar verdadeiras concepções do que razoavelmente poderia ser suposto passar em sua mente8.

[174]93. É certo que um homem realmente cego, quem continuara assim desde o seu nascimento, conseguiria, pelo sentido do tato, ter ideias de alto e baixo. Pelo movimento de sua mão, ele poderia discernir a posição de qualquer objeto tangível dentro de seu alcance. Aquela parte sobre a qual ele se sentisse suportado, ou na direção da qual ele percebesse seu corpo gravitar, ele denominaria de baixo, e a contrária dessa, de alto; e consequentemente denominaria quaisquer objetos que ele tocasse.

94. Mas então, quaisquer julgamentos que ele faça concernentes à posição de objetos estão confinados somente àqueles que são percebidos pelo toque. Todas aquelas coisas que são intangíveis, e de uma natureza espiritual – seus pensamentos e desejos, suas paixões e, em geral, todas das modificações de sua alma – a esses ele nunca aplicaria os termos de alto e baixo, exceto apenas um sentido metafórico. Talvez ele possa, por meio de alusão, falar de pensamentos altos ou baixos: mas aqueles termos, em sua significação própria nunca seriam aplicados a qualquer coisa que não fosse concebida existir fora da mente. Pois, um homem cego de nascença, e permanecendo no mesmo estado, não poderia significar nada mais pelas palavras alto e baixo do que uma distância maior ou menos da terra; distância a qual ele mediria pelo movimento de aplicação de sua mão, ou alguma outra parte de seu corpo. Portanto, é evidente que todas essas coisas que, com respeito uma a outra, seriam por ele consideradas altas ou baixas, devem ser tal como se fossem concebidas existir fora da mente, no espaço ambiente9.

95. De onde simplesmente se segue que um tal alguém, se nós supusemos ele feito enxergar, à primeira vista, não consideraria que nada do que ele visse seria alto ou baixo, ereto ou invertido. Pois, já tendo sido demonstrado na seção 41, que ele não consideraria as coisas que ele percebesse pela vista estarem a qualquer distância dele, ou fora da mente. Os objetos aos quais até então ele estivesse acostumado a aplicar os termos para cima e para baixo, alto e baixo, eram assim apenas enquanto afetassem, ou fossem de alguma maneira percebidos por, seu toque. Mas os objetos [175]próprios da visão formam um novo conjunto de ideias, perfeitamente distintas e diferentes do anterior, e que não podem de jeito nenhum se tornarem percebidas pelo toque. Portanto, não há absolutamente nada que poderia induzir-lhe a considerar aqueles termos aplicáveis a eles. Nem ele nunca pensaria nisso, até tal ocasião quando ele observasse a conexão deles com objetos tangíveis, e o mesmo prejuízo10 começasse a insinuar-se em seu entendimento, o qual, desde a infância deles, crescera nos entendimentos de outros homens.

96. Para colocar essa questão em uma luz mais clara, eu deverei fazer uso de um exemplo. Suponha que a pessoa cega acima mencionada, pelo seu toque, perceba um homem ficar de pé ereto. Investiguemos o modo disso. Pela aplicação de sua mão em várias partes de um corpo humano, ele percebera diferentes ideias tangíveis; as quais, sendo coletados em diversas complexas11, têm nomes distintos anexados a elas. Dessa maneira, uma combinação de uma certa figura tangível, volume e consistência de partes é chamada de cabeça; outra, de mão; uma terceira, de pé, e assim quanto ao resto – ideias complexas todas as quais poderiam, no entendimento dele, ser formadas apenas de ideias percebidas pelo toque. Ele também obtivera, pelo seu toque, uma ideia de terra ou solo, na direção do qual ele percebe que as partes de seu corpo ter uma tendência natural. Agora – por ereto nada mais sendo significado do que a posição perpendicular de um homem na qual os seus pés estão o mais próximo possível da terra – se a pessoa cega, movendo sua mão sobre as partes do homem que está de pé diante ele, percebe ideias tangíveis que compõem a cabeça estarem o mais distante de, e aquelas que compõem os pés o mais próximo de, essa outra combinação de ideias tangíveis, que ele chama de terra, ele denominará esse homem de ereto. Mas, se supusermos que ele de repente recebe sua vista, e que ele contempla o homem de pé diante dele, é evidente, nesse caso, que ele nem julgaria o homem que ele vê estar ereto nem invertido; pois ele, nunca tento conhecido esses termos aplicados a quaisquer outras senão coisas tangíveis, ou que existissem no espaço fora dele, e que ele não vê nem sendo tangível, nem percebidas como existindo fora, ele não poderia [176]saber, na propriedade da linguagem, se eles seriam aplicadas a isso.

97. Depois disso, quando, ao virar sua cabeça ou olhos para cima e para baixo, para a direita e a esquerda, ele deverá observar os objetos visíveis mudarem, e também deverá chegar a saber que eles são chamados pelos mesmos nomes, e conectados com os objetos percebidos pelo toque; então, de fato, ele chegará a falar deles e da posição deles nos mesmos termos que ele estava acostumado a aplicar a coisas tangíveis: e essas que ele percebe ao virar os olhos para cima ele chamara de mais altas, e aquelas que ele perceber virando os olhos para baixo ele chamará de mais baixas.

98. E essa parece-me ser a verdadeira razão pela qual ele deveria considerar aqueles objetos mais altos que estão pintados na parte inferior de seu olho. Pois, ao virar o olho para cima eles deveriam ser distintamente vistos; como da mesma forma eles que estão pintados na parte mais elevada do olho deverão ser distintamente vistos ao virar o olho para baixo, e são por essa razão estimados os mais baixos. Pois nós revelamos que, aos objetos imediatos da vista, considerados neles mesmos, nós não atribuiríamos os termos de alto e baixo. Portanto, deve ser por causa de algumas circunstâncias que são observadas acompanhando-os. E essas, é simples, são as ações de virar o olho para cima e para baixo, o que sugere uma razão muito óbvia pela qual a mente deveria denominar os objetos da vista adequadamente de alto e baixo. E sem esse movimento do olho – esse virar para cima e para baixo a fim de discernir diferentes objetos – sem dúvida ereto, inverso, e outros termos semelhantes à posição de objetos tangíveis, nunca teriam sido transferidos, ou, em qualquer grau, apreendidos pertencer, às ideias da vista, o mero ato da visão nada incluindo nele quanto a esse propósito; visto que as diferentes posições do olho naturalmente dirigem a mente para fazer um julgamento adequado da posição de objetos intrometidos por ele12.

99. Adicionalmente, quando ele tivesse apreendido por experiência a conexão que existe entre as várias ideias da vista e do toque, ele será capaz, pela percepção que ele tem da posição das coisas visíveis com respeito umas às outras, de fazer uma súbita e verdadeira estimativa da posição das coisas tangíveis exteriores correspondentes a elas. E dessa maneira [177]é que ele deverá perceber13 pela vista a posição dos objetos externos14, a qual propriamente não cai sob esse sentido.

100. Eu sei que nós estamos muito propensos a pensar que, se apenas fôssemos feitos ver, nós deveríamos julgar a posição das coisas visíveis como nós agora fazemos. Mas, também nós estamos tão inclinados a pensar que, à primeira vista, nós deveríamos da mesma maneira apreender a distância e magnitude de objetos, como nós agora fazemos; o que foi revelado ser uma crença (persuasion) falsa e infundada. E, por razões semelhantes, a mesma censura pode ser transferida para a certeza positiva que a maioria dos homens, antes que eles tenham pensado suficientemente sobre o assunto, poderia ter de eles serem capazes de determinar pelo olho, à primeira vista, se os objetos estão eretos ou invertidos.

101. Talvez será objetado contra nossa opinião, que um homem, por exemplo, sendo considerado ereto quando seus pés estão próximos à terra, e invertido quando sua cabeça está próxima à terra, consequentemente se segue que, pelo mero ato de visão, sem qualquer experiência ou alteração da posição do olho, nós deveríamos ter determinado ser ele estava ereto ou invertido. Pois, tanto a terra mesma, quanto os membros do homem que está de pé sobre ela, sendo igualmente percebidos pela vista, alguém não pode escolher ver que parte do homem está mais próxima da terra e que parte está mais distante dela, ou seja, se ele está ereto ou invertido.

102. Ao que eu respondo, as ideias que constituem a terra e o homem tangíveis são inteiramente diferentes daquelas que constituem a terra e o homem visíveis. Nem era possível, em virtude da faculdade visiva sozinha, sem adicionar em excesso qualquer experiência de toque, ou alterar a posição do olho, alguma vez ter conhecido, ou tanto quanto ter suspeitado, que houvesse qualquer relação ou conexão entre elas. Consequentemente, à primeira vista um homem não denominaria coisa alguma que ele visse, terra, ou cabeça, ou ; e consequentemente, ele não poderia dizer, pelo mero ato de visão, se a cabeça ou os pés estavam mais perto da terra. Nem, de fato, ele teria por esse meio qualquer pensamento de terra ou homem, ereto ou inverso, de qualquer maneira – o que, todavia, seria tornado [178]mais evidente, se nós observássemos satisfatoriamente, as ideias de ambos os sentidos.

103. Que isso que eu vejo é apenas variedade de luz e cores. Que isso que eu sinto é duro ou macio, quente ou frio, áspero ou liso. Que semelhança, que conexão, têm as primeiras ideias com as segundas? Ou, como é possível que qualquer um veja razão para dar um e o mesmo nome15 para combinações de ideias tão diferentes, antes que ele tenha experienciado a coexistência delas? Nós não descobrimos existir qualquer conexão desta ou daquela qualidade tangível e qualquer cor que seja. E algumas vezes nós podemos perceber cores onde não haja nada a ser sentido. Tudo isso torna manifesto que nenhum homem, à primeira recepção de sua vista16, saberia haver qualquer acordo entre este ou aquele objeto particular de sua vista e qualquer objeto de toque com o qual ele já estivesse familiarizado. Portanto, as cores da cabeça não mais lhe sugeririam a ideia de cabeça17 do que elas sugeririam a ideia de pés.

104. Adicionalmente, nós em geral revelamos (ver seções 63 e 64) que não há conexão necessária descobrível entre qualquer magnitude visível dada e qualquer magnitude tangível particular; mas que isso é inteiramente o resultado de costume e experiência, e depende de circunstâncias acidentais e externas, que nós podemos, pela percepção da extensão visível, informar a nós mesmos de qual pode ser a extensão de qualquer objeto tangível conectado com ela. Consequentemente, é certo que nem a magnitude visível da cabeça ou do pé conjugariam na mente, ao primeiro abrir dos olhos, as respectivas magnitudes tangíveis dessas partes.

105. Pela seção anterior, está claro que a figura visível de qualquer parte do corpo não tem conexão necessária com a figura tangível do mesmo, assim como a sugeri-la, à primeira vista, à mente. Pois, figura é o limite (termination) da magnitude. De onde se segue que nenhuma magnitude visível tendo em sua própria natureza uma aptidão para sugerir qualquer magnitude tangível particular, assim, nem pode qualquer figura visível estar inseparavelmente conectada com sua correspondente figura tangível, assim como a si mesma, e em uma maneira anterior a experiência, ela poderia sugeri-la [179]ao entendimento. Isso será ainda mais evidente, se nós considerarmos que o que parece liso e redondo ao toque, pode, à vista, se visto através de um microscópio, parecer bem diferente.

106. A partir de tudo isso, estabelecido junto e devidamente considerado, nós claramente podemos deduzir esta inferência: - no primeiro ato de visão, nenhuma ideia entrando pelo olho teria uma conexão perceptível com as ideias às quais os nomes de terra, homem, cabeça, pé, etc, foram anexados no entendimento de uma pessoa cega desde seu nascimento; assim como em qualquer tipo para as introduzir na mente dela, ou fazê-las ser chamadas pelos mesmos nomes, e consideradas as mesmas coisas com eles, como mais tarde elas vêm a ser.

107. Mesmo assim, aqui permanece uma dificuldade, que para alguns pode parecer pressionar duramente nossa opinião e não merecer ser transmitida. Pois, embora seja concedido que nem a cor, tamanho, nem figura dos pés visíveis tenham qualquer conexão necessária com as ideias que compõem os pés tangíveis, assim como a trazê-las à mente à primeira vista, ou colocar-me em perigo de as confundir, antes que eu tenha acostumado a e por algum tempo experienciado a conexão delas; todavia, dessa maneira parece inegável, a saber, que o número de pés visíveis sendo o mesmo que aqueles de pés tangíveis, consequentemente eu possa, sem qualquer experiência de vista, razoavelmente concluir que eles representam ou estão conectados aos pés em vez da cabeça. Eu digo, parece que a ideia de dois pés visíveis mais cedo sugerirá à mente a ideia de dois pés tangíveis do que a de uma cabeça – de maneira que o cego, à primeira recepção da faculdade visiva, poderia conhecer quais eram os pés ou dois, e qual era a cabeça, ou um.

108. Para clarear essa aparente dificuldade, nós apenas devemos observar que a diversidade de objetos visíveis não necessariamente implica a diversidade de objetos tangíveis a eles correspondentes. Uma imagem pintada com grande variedade de cores afeta o toque de uma maneira uniforme; portanto, é evidente que eu não julgo, por qualquer consequência necessária, independentemente de experiência, do número de coisas tangíveis a partir do número de coisas visíveis. Portanto, eu não deveria, à primeira abertura de meu olhos, concluir que, porque eu vejo dois, eu deverei sentir dois. Portanto, como posso eu, antes que a experiência ensine-me, conhecer que as pernas visíveis, porque [180]duas, estão conectadas com as pernas tangíveis; ou a cabeça visível, porque uma, está conectada com a cabeça tangível? A verdade é; as coisas que eu vejo são tão diferentes e heterogêneas das coisas que eu sinto, que a percepção de uma nunca teria sugerido a outra aos meus pensamentos, ou capacitado-me a avançar o menor julgamento sobre ela, até que eu tivesse experienciado a conexão18 delas.

109. Mas, para uma ilustração mais completa dessa questão, deve ser considerado que o número (por mais que alguns considerem-no entre as qualidades primárias19) não é fixo e estabelecido, realmente existente nas coisas em si mesmas. É inteiramente criatura da mente, considerando quer uma ideia simples por si mesma, quer qualquer combinação de ideias simples à qual é dada um nome, e assim a faz passar por uma unidade. Conforme a mente variadamente combina suas ideias, a unidade varia; e, como a unidade, assim o número, o qual é apenas uma coleção de unidade, também varia. Nós chamamos uma janela de uma, uma chaminé de uma; e, todavia, uma casa, na qual há muitas janelas e muitas chaminés, tem um direito igual a ser chamada de uma; e muitas casas prosseguem para formar uma cidade. Nessas instâncias e em semelhantes, é evidente que a unidade constantemente se relaciona aos esboços particulares que a mente faz de suas ideias, aos quais ela afixa nomes, e nos quais ela [181]inclui mais ou menos, como melhor adequa-se aos seus próprios fins e propósito. Portanto, o que quer que a mente considere como um, isso é uma unidade. Cada combinação de ideias é considerada como uma coisa pela mente, e no sinal dessa é marcada por um nome. Agora, esse nome e combinação de ideias é perfeitamente arbitrário, e feito pela mente de tal forma como a experiência revela a ela ser a mais conveniente – sem o que nossas ideias nunca teriam sido coletadas em combinações tão variadamente diversas quanto elas agora são.

110. Consequentemente, segue-se que um homem cego de nascença, e mais tarde, quando crescido, feito enxergar, não dividiria, ao primeiro ato de visão, as ideias da vista nas mesmas coleções distintas que outros que têm experienciado quais regularmente coexistem e são adequadas para serem empacotadas juntas sob um nome. Por exemplo, ele não criaria uma ideia complexa e desse modo consideraria e uniria todas aquelas ideias particulares que constituem a cabeça ou pé visíveis. Pois, não pode haver nenhuma razão atribuída de porque ele deveria fazê-lo, apenas diante de sua visão de um homem ficar de pé diante dele. Ali se amontoariam em sua mente as ideias que compõem o homem visível, em companhia de todas as outras ideias da vista percebidas ao mesmo tempo. Mas, todas essas ideias oferecidas de uma vez à sua vista ele não distribuiria em diversas combinações distintas, até uma ocasião tal como, observando o movimento das partes do homem e outras experiências, ele chegasse a conhecer quais deveriam ser separadas e quais deveriam ser recolhidas juntas20.

111. A partir do que tem sido pressuposto, é simples que os objetos da vista e do toque formam, se eu posso dizê-lo, dois conjuntos de ideias, os quais são amplamente diferentes um do outro. Aos objetos de cada tipo, nós indiferentemente atribuímos os termos de alto e baixo, direita e esquerda, e semelhantes, denotando a posição ou posição das coisas; mas então nós precisamos observar bem que a posição de cada objeto é determinada com respeito apenas aos objetos do mesmo sentido. Nós dizemos que qualquer objeto do toque é alto ou baixo, de acordo com que ele esteja mais ou menos distante da terra tangível: e de maneira similar nós [182]denominamos qualquer objeto da vista ou do toque de alto ou baixo, em proporção a como ele esteja mais ou menos distante da terra visível. Mas, para definir a posição das coisas visíveis com relação à distância que elas comportam de qualquer coisa tangível, ou vice-versa, isso seria absurdo ou perfeitamente ininteligível. Pois todas as coisas visíveis estão igualmente na mente, e não ocupam nenhuma parte no espaço externo; e, consequentemente, são equidistantes de qualquer coisa tangível que exista fora da mente21.

112. Ou antes, para falar verdadeiramente, os objetos próprios da vista não estão à distância, nem próximos, nem longe de qualquer coisa tangível. Pois, se nós inquirirmos rigorosamente a questão, nós deveremos encontrar que aquelas coisas somente são comparadas juntas com respeito à distância que existe segundo a mesma maneira, ou são próprios de um mesmo sentido. Pois, pela distância entre dois pontos quaisquer, nada mais é significado do que o número de pontos intermediários. Se os pontos dados são visíveis, a distância entre eles é marcada pelo número de ponto interjacentes visíveis; se eles são tangíveis, a distância entre eles é uma linha consistindo em pontos tangíveis; mas, se eles são um tangível e o outro visível, a distância entre eles nem consiste em pontos perceptíveis pela vista nem pelo toque, ou seja, ela é completamente inconcebível22. Talvez isso não será uma admissão fácil no entendimento de todos os homens. Contudo, eu de bom grado deveria ser informado se isso não fosse verdadeiro, por qualquer um que estará na dificuldade de refletir um pouco, e usá-lo em casa para seus pensamentos.

113. A não observação do que foi transmitido nas duas últimas seções, parece ter ocasionado uma parte não pequena da dificuldade que ocorre no assunto das aparências diretas. A cabeça, a qual está pintada o mais próximo da terra parece ficar o mais longe dela; e, por outro lado, os pés, que estão pintados o mais distante da terra, são considerados os mais próximos dela. Aqui jaz a dificuldade, a qual desaparece ser nós expressarmos a coisa mais claramente e livre de ambiguidade, de desta maneira: - Como se chega que, para o olho, a cabeça visível, a qual está mais perto da terra tangível, pareça mais longe da terra; e os pés visíveis, os quais estão o mais distante da terra tangível, pareçam os mais próximos da [183]terra? A questão proposta dessa maneira, quem não vê que a dificuldade é encontrada na suposição de que o olho ou faculdade visiva, ou antes a alma por meio dela, deveria julgar da posição dos objetos visíveis com referência à distância deles da terra tangível? Considerando que, é evidente que a terra tangível não é percebida pela vista. E foi revelado, nas duas últimas seções anteriores, que a localização dos objetos visíveis é determinada apenas pela distância que eles comportam para com o outro, e que é sem sentido falar de distância, grande ou próxima, entre uma coisa visível e tangível.

114. Se nós confinarmos nossos pensamentos aos próprios objetos da vista, o todo é simples e fácil. A cabeça está pintada o mais longe de, e os pés o mais perto de, a terra visível; e assim e assim elas parecem estar. O que é estranho ou incompreensível nisso? Suponhamos que as imagens no fundo do olho sejam os objetos imediatos da vista23. A consequência é que as coisas deveriam aparecer na mesma postura na qual elas estão pintadas; e não é assim? A cabeça que é vista parece o mais distante da terra que é vista; e o pés que são vistos parecem o mais distante da terra que é vista. E assim mesmo eles estão pintados.

115. Mas, diz você, a imagem do homem está invertida e, contudo, a aparência está ereta. Eu pergunto, o que você quer dizer pela imagem do homem, ou, o que é a mesma coisa, o homem visível estar invertido? Você explica-me que está invertido, porque os calcanhares estão para cima e a cabeça para baixo? Explique-me isso. Você diz que pela cabeça estando para baixo você quer dizer que ela está o mais próximo da terra; e, pelos calcanhares estando para cima, que eles estão os mais distante da terra. Eu pergunto novamente, a que terra você refere-se? Você não pode querer dizer a terra que está pintada no olho ou a terra visível – pois a imagem da cabeça está o mais distante da imagem da terra, e a imagem dos pés o mais próximo da imagem da terra; e portanto, a cabeça visível está o mais distante da terra visível, e os pés visíveis o mais próximo dela. Portanto, resta que você queira dizer a terra tangível; e assim determinar a posição de coisas visíveis com respeito a coisas tangíveis – contrário ao que foi demonstrado nas seções 111 e 112. As duas [184]províncias distantes da vista e do toque devem ser consideradas separadas, e como se os objetos delas não tivessem ligação, nem modo de relação, um com o outro, no ponto de distância ou posição24.

116. Adicionalmente, o que grandemente contribui para nos fazer enganar nesse assunto é que, quando nós pensamos nas imagens no fundo do olho, nós imaginamos a nós mesmos olhando no fundo do olho de outro, ou outro olhando no fundo de nosso próprio olho, e contemplando as imagens pintadas ali. Suponha dois olhos, A e B. A olhando de alguma distância para as imagens de B enxerga-las invertidas e, por essa razão, conclui que elas estão invertidas em B. Mas isso está errado. Ali elas estão projetadas em escala pequena na base de A as imagens de imagens e, supõem-se, homem, terra, etc, as quais estão pintadas em B. E, além dessas, do olho B mesmo, e dos objetos que o cercam, junto com outra terra, são projetadas em tamanho maior em A. Agora, pelo olho A essas imagens maiores são consideradas os verdadeiros objetos, e as menores apenas imagens em miniatura. E é com respeito àquelas imagens maiores que ele determina a posição das imagens menores; de modo que, comparando o pequeno homem com o a grande terra, A julga-lhe invertido, ou que os pés estão o mais distante de e a cabeça o mais perto da grande terra. Considerando que, se A compara o pequeno homem com a pequena terra, então ele aparecerá ereto, ou seja, sua cabeça deverá aparecer o mais distante e seus pés o mais próximo da pequena terra. Mas nós precisamos considerar que B não vê duas terras como A vê. Ele vê apenas o que está representado pelas pequenas imagens em A e, consequentemente, deverá julgar o homem ereto. Pois, em verdade, o homem em B não está invertido, pois ali os pés estão próximos à terra; mas é a representação dele em A que está invertida, pois ali a cabeça da representação da imagem em B está próxima da terra, e os pés, o mais distantes da terra – significando que a terra que está fora da representação das imagens em B. Pois, se você tomar as pequenas imagens das imagens em B, e considerá-las por elas mesmas, e com respeito apenas uma a outra, elas estão todas eretas em suas posturas naturais.

[185]117. Adicionalmente, aqui jaz um erro em nossa imaginação que as imagens de objetos externos25 estão pintadas na base do olho. Foi revelado que não há semelhança entre as ideias da vista e as coisas tangíveis. Da mesma forma, foi demonstrado26 que os objetos próprios da vista não existem fora da mente. De onde claramente se segue que as imagens na base do olho não são as imagens de objetos externos27. Que qualquer um consulte seus próprios pensamentos, e então me conte, que afinidade, que semelhança, há entre certa variedade e disposição de cores que constituem o homem visível, ou a imagem de um homem, e aquela outra combinação de ideias muitos diferentes sensíveis ao toque, que compõem o homem tangível. Mas, se esse for o caso, como elas chegam a ser consideradas pinturas ou imagens, uma vez que se supõe que elas copiem ou representem alguns originais ou outros?

118. Ao que eu respondo – na instância supracitada, o olho A toma as pequenas imagens, incluídas na representação do outro olho B, para ser imagens ou cópias, das quais os arquétipos não são coisas existindo fora28, mas as imagens29 maiores projetadas em seu próprio fundo; e as quais por A não são consideradas imagens, mas as coisas originais ou verdadeiras mesmas. Embora se nós supusermos um terceiro olho C, a partir de uma distância devida, observar o fundo de A, então, de fato, as coisas projetadas sobre ele deverão, para C, parecer imagens ou imagens, no mesmo sentido que aquelas projetadas sobre B fazem para A.

119. Para conceber corretamente o negócio à mão, nós devemos distinguir cuidadosamente entre as ideias da vista e do toque, entre o olho visível e o tangível; pois certamente, no olho tangível, nada está ou parece esta pintado. Novamente, o olho visível, assim como todos os outros objetos visíveis, foi revelado existir apenas na mente30; a qual, percebendo suas próprias ideias, e comparando-as juntas, chama algumas de imagens com respeito a outras. O que foi dito, sendo corretamente compreendido e estabelecidos conjuntamente, eu penso, proporciona uma explicação completa e genuína da aparência ereta de objetos – fenômeno que, eu devo [186]confessar, eu não vejo como pode ser explicado por quais teorias da visão até então tornadas públicas.

120. Ao tratar dessas coisas, o uso da linguagem está inclinado para ocasionar alguma obscuridade e confusão, e criar em nós ideias erradas. Pois, a linguagem estando acomodada às noções e prejuízos comuns dos homens, é escassamente possível transmitir a verdade nua e precisa, sem grande circunlóquio, impropriedade e (para qualquer leitor incauto) contradições aparentes. Portanto, de uma vez por todas, eu desejo que seja quem for que considere valer o seu tempo entender o que eu escrevi concernente à visão, que ele não se fixe nesta ou naquela frase ou forma de expressão, mas francamente colete meu sentido a partir da soma e teor inteiros de meu discurso, e, deixando de lado as palavras31 tanto quanto possível, considere as noções nuas elas mesmas, e então julgue se elas são conforme a verdade e sua própria experiência ou não.


Próxima parte


ORIGINAL:

BERKELEY, G. An Essay towards a New Theory of Vision. First published in 1709. IN:______. The Works of George Berkeley. Oxford: Clarendon Press, 1901. p.171-186. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofberkeley01berkuoft/page/171/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1 [171]As seções de 88-119 relacionam-se à natureza, invisibilidade e aos sinais arbitrários da Posição, ou das localidades das coisas tangíveis. Cf. Theory of Vision Vindicated, sect. 44-53.

2 Cf. seções 2, 114, 116, 118.

3 [172]Esta ilustração é tirada de Descartes. Ver Apêndice.

4 [173]Seções 10 e 19.

5 Seções 2-51.

6 Omitido na última edição do autor.

7 Essa é a solução universal por Berkeley das dificuldades psicológicas envolvidas na percepção visual.

8 Cf. seções 103, 106, 110, 128, etc. [174]Berkeley trata desse caso hipoteticamente no Ensaio, em falta de experimentos reais sobre os cegos de nascença, desde então acumulados a partir de Cheselden adiante. Ver contudo o Apêndice, e Theory of Vision Vindicated, seção 71.

9 Ou seja, coisas tangíveis. Cf. Princípios, seção 44.

10 [175]O ‘prejuízo,’ a saber, que Berkeley dissolver através de sua análise introspectiva da visão. Cf. Theory of Vision Vindicated, seção 35.

11 Dessa maneira formando coisas concretas individuais a partir do que é percebido separadamente através de diferentes sentidos.

12 [176]Em resumo, essa é a solução de Berkeley para ‘a dificuldade das imagens invertidas,’ a qual há muito confundia os homens de ciência.

13 [177]Ou seja, perceber mediatamente – objetos visíveis, per se, não tendo nenhuma situação tátil. A visão pura, ele diria, não tem nada a ver com ‘alto’ e ‘baixo,’ ‘grande’ e ‘invertido,’ no sentido real ou tátil desses termos.

14 Ou seja, tangíveis.

15 [178]Ou seja, ‘extensão,’ a qual, de acordo com Berkeley, é um termo equívoco, comum (em seus significados diferentes) para visibilia e tangibilia. Cf. seções 139, 140.

16 Cf. seções 93, 106, 110, 128.

17Ou seja, cabeça real ou tangível.

18 [180]Cf. seções 140, 143. Na Gent. Mag. (vol. XXII, p. 12), o ‘Antiberkeley’ argumenta desta maneira no caso de alguém cego de nascença. ‘Esse homem,’ ele acrescenta, ‘estando acostumado a sentir a mão de alguém com a outra, teria percebido que a extremidade da mão estava dividida em dedos – que as extremidades desses dedos eram distinguidas por certas superfícies duras, lisas, de uma textura diferente do resto dos dedos – e que cada dedo tem certas juntas ou curvaturas. Agora, se esse homem fosse restaurado à vista, e imediatamente visse sua mão antes que ele tocasse-a novamente, é manifesto que as divisões da extremidade da mão em dedos seriam visivelmente percebidas. Ele também notaria os pequenos espaços na extremidade de cada dedo, os quais afetariam sua visão diferentemente do resto dos dedos; ao mover os dedos ele veria as juntas. Embora, portanto, através desse sentido de visão tardiamente adquirido, o objeto afetou sua mente de uma maneira nova e diferente do que antes fizera, todavia, como através do toque ele adquirira o conhecimento dessas várias divisões, marcas e distinções da mão e, como o novo objeto da vista parecia ser divido, marcado e distinguido de uma maneira similar, eu penso que ele certamente concluiria, antes que ele tocasse sua mão, que a coisa que ele agora via era a mesma que ele sentira antes e chamara de mão.’

19 Locke, Essay, II. 8, 16. Aristóteles considera o número como um Sensível Comum. - De Anima, II. 6, II. 1.

20 [181]‘Se a aparência visível de dois xelins foi considerada conectada desde o começo com a ideia de um xelim, essa aparência tão natural e prontamente teria significado a unidade do objeto (tangivel) como ela agora significa sua duplicidade.’ Reid, Inquiry, VI. ii.

21 [182]Novamente se note aqui a reticência inconveniente de Berkeley de sua completa teoria da matéria, como dependente da vida percipiente para sua realidade. Entretanto, concede-se que coisas tangíveis sejam reais ‘fora da mente.’ Cf. Princípios, seções 43, 44. ‘Fora da mente’ – em contraste com o fenômeno apenas sensível.

22 Cf. seção 131.

23 [183]Seções 2, 88, 116, 116.

24 [184]Para resumir, nós vemos apenas quantidade de cor – os reais ou táteis distância, tamanho, forma, localização, cima e baixo, direita e esquerda, etc, sendo gradualmente associadas às várias modificações visíveis de cor.

25 [185]Ou seja, tangíveis.

26 Seções 41-44.

27 Ou seja, tangíveis.

28 Ou seja, coisas tangíveis.

29 Ou seja, visíveis.

30 Cf. seções 41-44. Os ‘olhos’ – visíveis e tangíveis – são eles mesmos objetos dos sentidos.

31 [186]Cf. Princípios, Introdução, seções 21-25.

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Um Tratado a respeito dos Princípios do Conhecimento Humano [16-33]

Por George Berkeley


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[266]16. Mas examinemos um pouco a opinião recebida. É dito que a extensão é um modo ou acidente da Matéria, e que a Matéria é o substratum que a suporta. Agora eu desejo que você explique para mim o que significa a Matéria suportante da extensão. Você diz, eu não tenho nenhuma ideia de Matéria e, portanto, eu não posso explicá-la. Eu respondo, embora você não tenha nenhuma positiva, todavia, se você tem algum significado em absoluto, você deve pelo menos ter uma ideia relativa de Matéria; embora você não saiba o que ela é, contudo, supõe-se que você deva saber que relação ela comporta com os acidentes, e que significava ela suportando-os. É evidente que aqui suportar não pode ser tomado por seu sentido usual ou literal, como quando nós dizemos que os pilares suportam uma construção. Portanto, em que sentido eles deve ser tomado? [1Por minha parte, eu não sou capaz de descobrir absolutamente nenhum sentido que possa ser aplicável a ele.]

17. Se nós investigássemos o que os mais exatos filósofos declaram-se significar por substância material, nós devemos descobrir-lhes reconhecer que eles não têm outro sentido anexado àqueles sons senão a ideia de Ser em geral, junto com a noção relativa de seu suporte de acidentes. A ideia geral de Ser parece-me a mais abstrata e incompreensível de todas; e quanto a seu suportar de acidentes, isso, como nós há pouco observamos, não pode ser entendido no sentido comum dessas palavras: portanto, ele precisa ser tomado em algum outro sentido, mas, qual seja esse, eles não explicam. De modo que, quando eu considero as duas partes ou ramos que formam a significação das palavras substância material, eu estou convencido de que não há sentido distinto anexado a elas. Mas por que nós deveríamos inquietarmo-nos ainda mais, discutindo esse substratum material ou suporte de figura e movimento e outras qualidades sensíveis? Isso não supõe que elas tenham uma existência fora da mente? E não é isso uma repugnância direta e completamente inconcebível?

18. Mas, embora fosse impossível que substâncias sólidas, figuradas, móveis possam existir fora da mente, correspondendo às ideias que nós temos de corpos, todavia, como é possível para nós conhecer isso? Nós devemos conhecê-lo ou por Sentido ou por Razão2. Quanto aos nossos sentidos, por eles nós [267]temos o conhecimento apenas de nossas sensações, ideias ou outras coisas que são imediatamente percebidas pelo sentido, chame-as do que você quiser: mas elas não nos informam de coisas que existem fora da mente, ou não percebidas, como aquelas que são percebidas. Isso os materialistas mesmos reconhecem. - Portanto, resta que se nós tivéssemos absolutamente qualquer conhecimento de coisas exteriores, ele precisa ser através da razão inferindo a existência delas a partir do que é imediatamente percebido pelo sentido. Mas (3eu não vejo) que razão possa induzirmos a acreditar na existência de corpos fora da mente, a partir do que nós percebemos, uma vez que os patronos mesmos da Matéria não pretendem que haja qualquer conexão necessária entre eles e nossas ideias? Eu digo isto que é concedido por todos os lados (e o que acontece em sonhos, frenesis e semelhantes, coloca-o além de disputa) que é possível que nós possamos ser afetados com todas as ideias que nós temos agora, embora nenhum corpo exista assemelhando-se a elas4. Consequentemente é evidente que a suposição de corpos externos5 não é necessária para a produção de nossas ideias; uma vez que é concedido que elas algumas vezes são produzidas, e possivelmente poderiam ser sempre produzidas, na mesma ordem que nós vemo-las no presente, sem o concurso daqueles.

19. Mas, embora nós possivelmente pudéssemos ter todas as nossas sensações sem eles, todavia, talvez, possa ser considerado mais fácil conceber e explicar o modo de produção delas, supondo corpos exteriores à sua semelhança do que de outra maneira; e assim poderia ser pelo menos provável que haja coisas semelhantes a corpos que excitem as ideias deles em nossas mentes. Pois, embora nós concedamos aos materialistas seus corpos externos, eles, pela própria confissão deles, nunca ficarão mais próximos de conhecer como nossas ideias são produzidas; uma vez que eles próprios são incapazes de compreender de que maneira o corpo pode agir sobre o espírito, ou como é possível que ele deva imprimir qualquer ideia na mente6. Consequentemente [268]é evidente que a produção de ideias ou sensações em nossas mentes7, não pode ser razão nenhuma para supor a Matéria ou substâncias corporais8; uma vez que é reconhecido permanecer igualmente inexplicável com ou sem sua suposição. Portanto, se fosse possível para os corpos existirem fora da mente, todavia, considerá-los assim deveria ser uma opinião muito precária; uma vez que se supõe, sem absolutamente qualquer razão, que Deus tenha criado inumeráveis seres que são inteiramente inúteis e para não servem a nenhum uso de propósito.

20. Em resumo, se existissem quaisquer corpos exteriores9, é impossível que nós alguma vez venhamos a conhecê-los; e se não existissem, nos poderíamos ter as mesmas razões para pensar que existem que nós agora temos. Suponha – o que ninguém pode negar possível – uma inteligência, sem a ajuda de corpos exteriores10, ser afetada pelo mesmo cortejo de sensações ou ideias que você é [afetado], impressa na mesma ordem e com semelhante vividez em sua mente. Eu pergunto se essa inteligência não tem toda a razão para acreditar na existência de Substâncias Corporais, representadas por suas ideias, e excitando-as em sua mente, que você possivelmente tem para acreditar na mesma coisa? Quanto a isso não pode haver nenhuma questão. Consideração que seria suficiente para fazer qualquer pessoa razoável suspeitar a força de seja qual for argumento que ele possa pensar em ter para a existência de corpos fora da mente.

21. Fosse necessário adicionar qualquer prova a mais contra a existência de Matéria11, após o que foi dito, eu poderia exemplificar vários daqueles erros e dificuldades (para não mencionar as impiedades) que se originaram desse dogma. Ele ocasionou controvérsias e disputas sem número em filosofia, e não poucas de muito maior importância em religião. Mas eu não deverei entrar em detalhes sobre elas neste lugar, como eu penso que argumentos a posteriori sejam desnecessários para confirmar o que já foi, se eu não me engano, [269]suficientemente demonstrado a priori, tanto assim porque eu deverei daqui em diante falar um pouco deles.

22. Eu temo que possa ter dado causa para pensar que eu seja desnecessariamente prolixo ao lidar com esse assunto. Pois, para que propósito dilatar-se sobre o que pode ser demonstrado com a máxima evidência em uma linha ou duas, para qualquer um que seja capaz de reflexão mínima? É apenas olhar para seus próprios pensamentos, e assim experimentar se você pode conceber ser possível para um som, ou figura, ou movimento, ou cor existir fora da mente ou não percebido. Essa experiência12 fácil talvez possa fazer você perceber que isso pelo que você disputa é uma franca contradição. Tanto que eu estou contente de colocar tudo sobre esta questão: - se você apenas puder conceber ser possível para uma substância extensa móvel, ou, em geral, para qualquer ideia, ou qualquer coisa semelhante a uma ideia, existir de outra maneira que em uma mente percebendo-a13, eu prontamente deverei desistir da causa. E, quanto a todas aquelas estruturas de corpos externos pelas quais você disputa, eu deverei conceder-lhe a existência delas, embora eu não possa quer dar qualquer razão pela qual você acredita que elas existam, quer atribuir qualquer uso a elas quando se supõe que elas existam. Eu digo, a simples possibilidade de que suas opiniões sejam verdadeiras deverá ser suficiente para um argumento de que elas assim sejam.

23. Mas, diz você, certamente não há nada mais fácil do que imaginar árvores, por exemplo, em um parque, ou livros existindo em um escritório, e ninguém por perto para os perceber. Eu respondo, você pode, não há dificuldade nisso. Mas o que é tudo isso, eu imploro a você, mais do que formar em sua mente certas ideias que você chama de livros e árvores, e, ao mesmo tempo, omitir formar a ideia de qualquer um que possa percebê-las? Mas você mesmo não as percebe ou pensa nelas o tempo todo? Portanto, isso não é nada para o propósito: isso apenas revela que você tem o poder de imaginar, ou de formar, ideias em sua mente; mas isso não mostra que você pode conceber ser possível que os objetos em seu pensamento possam existir fora da mente14. Para conseguir isso, é necessário que [270]você conceba-os existindo não concebidos ou impensados; o que é uma repugnância manifesta. Quando nos fazemos o nosso máximo para conceber a existência de corpos externos15, nós estamos o tempo todo apenas contemplando nossas próprias ideias. Mas a mente, não observando a si mesma, é iludida para pensar que pode e que concebe corpos existindo impensados, ou fora da mente, embora, ao mesmo tempo, elas sejam apreendidos por, ou existem em, si mesmos. Um pouco de atenção descobrirá para qualquer um a verdade e evidência do que é dito aqui, e torna desnecessário insistir em quaisquer outras provas contra a existência da substância material.

24. [16Pudessem os homens apenas se absterem de se entreter com palavras, nós logo deveríamos, eu acredito, chegar a um acordo nesse ponto.] É muito óbvio, a partir da menor investigação em seus próprios pensamentos, saber se é possível para nós entendermos o que se quis dizer com a existência absoluta de objetos sensíveis neles mesmos, ou fora da mente17. Para mim, é evidente que aquelas palavras marcam ou uma contradição direta, ou, senão, nada em absoluto. E, para convencer outros disso, eu não conheço maneira mais justa ou mais apta do que suplicar que eles deveriam calmamente observar seus próprios pensamentos; e, se por essa atenção o vazio ou repugnância daquelas expressões aparecer, certamente nada mais é requisito para a convicção deles. Portanto, é nisto que eu insisto, a saber, que a existência absoluta de coisas impensadas são palavras sem sentidos, ou que incluem uma contradição. Isso é o que eu repito e inculco, e sinceramente recomendo aos pensamentos atentos do leitor.

25. Todas as nossas ideias, sensações, noções18, ou as coisas que nós percebemos, por quaisquer nomes que elas possam ser distinguídas, são visivelmente inativas: não há nada de poder ou atividade (agency) [271]incluída nelas. De maneira que nenhuma ideia ou objeto de pensamento pode produzir ou marcar qualquer alteração em outro19. Para ficar satisfeito com a verdade disso, não há nada mais como requisito senão a observação simples de nossas ideias. Pois, uma vez que eles, e cada parte deles, existem apenas na mente, segue-se que não há nada neles senão o que é percebido: mas, quem quer que deva atentar para suas próprias ideias, quer do sentido ou da reflexão, não perceberá nelas qualquer poder ou atividade; portanto, não há tal coisa contida nelas. Um pouco de atenção descobrirá em nós que o ser mesmo de uma ideia implica passividade e inatividade nela; tanto que é impossível para uma ideia fazer qualquer coisa, ou, falando estritamente, ser a causa de qualquer coisa: nem pode ela ser a semelhança ou o padrão de qualquer ser ativo, como é evidente a partir da seção 8. De onde se segue simplesmente que extensão, figura e movimento não podem ser a causa de nossas sensações. Portanto, dizer que eles são os efeitos de poderes resultantes da configuração, do número, do movimento e tamanhos de corpúsculo20, precisa ser certamente falso.

26. Nós percebemos uma sucessão contínua de ideias; algumas são excitadas mais uma vez, outas são mudadas ou desaparecem totalmente. Portanto, há alguma causa dessas ideias, da qual elas dependem, e a qual as produz e muda21. Que essa causa não pode ser qualquer qualidade ou ideia ou combinação de ideias, está claro a partir da seção precedente. Portanto, ela precisa ser uma substância; mas foi revelado que não há substância corporal ou material: portanto, resta que a causa das ideias seja uma incorpórea substância ativa ou Espírito22.

[272]27. Um Espírito é um ser simples, indiviso, ativo – enquanto ele percebe ideias ele é chamado de entendimento, e enquanto ele produz ou, de outro modo, opera sobre elas ele é chamado de vontade. Consequentemente, não pode haver ideia formada de uma alma ou espírito; pois todas as ideias, sejam quais forem, sendo passivas e inertes (veja a seção 25), elas não podem representar para nós, por meio de imagem ou semelhança, aquilo que age. Um pouco de atenção tornará isto claro para qualquer um, que ter uma ideia que deverá ser semelhante àquele Princípio de movimento e mudança de ideias é absolutamente impossível. Tal é a natureza do Espírito, ou daquilo que age, que ele não pode ser percebido por si mesmo, mas apenas pelos efeitos que ele produz23. Se qualquer homem duvidar da verdade do que aqui é proferido, que ele deva apenas refletir e experimentar se ele pode formar a ideia de qualquer poder ou ser ativo; e se ele tem ideias dos dois principais poderes, marcados pelos nomes de vontade e entendimento, distintos um do outro, assim como de uma terceira ideia de Substância ou Ser em geral, com uma noção relativa de seu suportar ou ser o sujeito dos poderes supracitados – a qual é significado pelo nome de alma ou espírito. Isso é o que alguns sustentam; mais até onde eu posso ver, as palavras vontade, [24entendimento, mente,] alma, espírito, não significam ideias diferentes, ou, em verdade, não significam nenhuma ideia de maneira nenhuma, mas alguma coisa que é muito diferente de ideias, e que, sendo um agente, não pode ser semelhante a, ou ser representado por, qualquer ideia de jeito nenhum. [25Embora deva ao mesmo tempo ser confessado, que nós temos uma noção de alma, espírito, e das operações da mente, tais como desejar, amar, odiar – visto que nós conhecemos ou entendemos o significado dessas palavras.]

28. Eu considero que eu posso excitar ideias26 em minha mente à vontade, e variar e mudar a cena tão frequentemente eu considerar adequado. Não é mais do que desejar, e, imediatamente, essa ou aquela ideia surge em minha imaginação; e pelo mesmo poder ela é obliterada e [273]abre caminho para outra. Essa produção e destruição de ideias muito apropriadamente denominam a mente de ativa. Tanto assim é certo e fundamentado na experiência: mas quando nós falamos de agentes não pensantes, ou ideias excitantes exclusivas de volição, nós apenas nos divertimos com palavras27.

29. Mas, qualquer que seja o poder que eu possa ter sobre meus próprios pensamentos, eu descubro que as ideias efetivamente percebidas pelo Sentido não têm uma dependência semelhante da minha vontade. Quando, em plena luz do dia, eu abro meus olhos, não está em meu poder escolher se eu deverei ver ou não, ou determinar que objetos particulares deverão apresentar à minha visão: e assim, da mesma maneira, para a audição e outros sentidos; as ideias impressas neles não são criaturas da minha vontade28. Portanto, há alguma outra Vontade ou Espírito que as produz.

30. As ideias do Sentido são mais fortes, vívidas e distintas do que aquelas da Imaginação29; da mesma maneira, elas têm uma firmeza, ordem e coerência que não são excitadas aleatoriamente, como aquelas que são os efeitos das vontades humanas frequentemente são, mas em um fluxo ou série regular – a conexão admirável da qual suficientemente testemunha a sabedoria e benevolência de seu Autor. Agora, as regras, ou métodos, estabelecidos, pelos quais a Mente da qual nós dependemos excita em nós as ideias do Sentido, são chamadas de as Leis da Natureza; e essas nós aprendemos por experiência, a qual nos ensina que tais e tais ideias são acompanhadas de tais e tais outras ideias, no curso ordinário das coisas.

31. Isso concede-nos um tipo de previsão, a qual nos capacita a regular nossas ações em benefício da vida. E sem isso nós deveríamos ficar eternamente perdidos: nós não poderíamos saber [274]como representar coisa alguma que pudesse obter-nos o menor prazer, ou remover a menor dor do sentido. Que a comida nutre, o sono revigora, e o fogo aquece-nos; que semear na época da semeadura é maneira de colher na colheita; e, em geral, que, para obter tais e tais fins, tais e tais meios são propícios – tudo isso nós conhecemos, não pela descoberta de qualquer conexão necessária entre nossas ideias, mas apenas pela observação das leis estabelecidas da natureza; sem as quais nós deveríamos estar completamente em incerteza e confusão, e um homem crescido não mais saberia como conduzir a si mesmo nos assuntos da vida do que um infante recém-nascido30.

32. E todavia, esse consistente funcionamento uniforme, que tão evidentemente exibe a bondade e a Sabedoria do Espírito Governante cuja Vontade constitui as leis da natureza, está tão longe de conduzir nossos pensamentos a Ele, que antes os envia atrás de causas segundas31. Pois, quando nós percebemos certas ideias do Sentido constantemente seguidas por outras ideias, e nós sabemos que isso não é obra nossa, nós sem demora atribuímos poder e atividade às ideias mesmas, e fazemos de uma causa de outra, do que nada pode ser mais absurdo e ininteligível. Dessa maneira, por exemplo, tendo observado que, quando nós percebemos pela vista uma certa figura luminosa circular, nós, ao mesmo tempo, percebemos pelo toque a ideia ou sensação chamada de calor, nós, consequentemente concluímos ser o sol a causa do calor. E, de maneira semelhante percebendo o movimento e a colisão de corpos ser acompanhada de som, nós estamos inclinados a pensar o segundo ser o efeito dos primeiros32.

33. As ideias impressas nos sentidos pelo Autor da natureza são chamadas de coisas reais: e aquelas excitadas na imaginação, sendo menos regulares, vívidas e constantes, são mais propriamente denominadas de ideias ou imagens de coisas, as quais [275]elas copiam ou representam. Mas então nossas sensações, sejam elas nunca tão vívidas e distintas são, mesmo assim, ideias33: quer dizer, elas existem na mente, ou são percebidas por ela, tão verdadeiramente como as ideias de sua própria formação. As ideias do Sentido são reconhecidas ter mais realidade34 nelas, quer dizer, ser mais fortes, ordenadas e coerentes do que as criaturas da mente; mas isso não é argumento para que elas existam fora da mente. Também elas são menos dependentes do espírito ou substância que as percebe, no que elas são excitadas pela vontade de outro e mais poderoso Espírito: todavia, elas ainda são ideias: e certamente nenhuma ideia, quer fraca ou forte, pode existir de outra maneira que em uma mente percebendo35.


Próxima parte


ORIGINAL:

BERKELEY, G. A Treatise concerning the Principles of Human Knowledge [Part I]. First published in 1710. IN:______. The Works of George Berkeley. Oxford: Clarendon Press, 1901. p.266-275. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofberkeley01berkuoft/page/266/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1 [266]Esta sentença está omitida na segunda edição.

2 ‘razão,’ ou seja, raciocínio. Argumenta-se, nesta e na seção seguinte, que uma realidade não realizada na experiência percipiente não pode ser provada, [267]quer por nossos sentidos, quer por nosso raciocínio.

3 Omitida na segunda edição, e a sentença convertida em uma questão.

4 Mas as ideias das quais nós somos conhecedores em sonhos acordados, e sonhos de sono, diferenciam-se em importantes características das ideias externas das quais nós somos percipientes no sentido. Cf. seções 29, 33.

5 corpos externos,ou seja, corpos que se supõem serem reais independentemente de todos os percipientes no universo.

6 Ou seja, eles não podem revelar como sua hipótese ininteligível de [268]Matéria explica a experiência que nós temos, ou esperamos ter; ou a qual nós acreditamos que outras pessoas têm, ou estão prestes a ter.

7 ‘a produção,’ etc, ou seja, o fato de que nós e outros temos experiência percipiente.

8 Matéria dependente da mente ele não apenas admite existir, mas sustenta a realidade dela ser intuitivamente evidente.

9 Ou seja, corpos existindo em abstração de vivos espíritos percipientes.

10 [Nota do Tradutor: o conteúdo desta nota é o mesmo da nota anterior]

11 ‘Matéria,’ ou seja, Matéria abstrata, não percebida em inteligência senciente.

12 [269]O apelo aqui e em outros lugares é à consciência – diretamente, a cada experiência pessoal, e indiretamente, àquela de outros.

13 Ou seja, de outra maneira que não na forma de uma ideia ou aparência atual apresentada a nossos sentidos.

14 Isso implica que o mundo material pode ser percebido na imaginação assim como na percepção sensível, mas em um grau menor de realidade; pois realidade, ele assume, admite em graus.

15 [270]‘conceber a existência de corpos externos,’ ou seja, conceber corpos que não são concebidos – que não são ideias de maneira alguma, mas que existem em abstração. Supor que nós concebamos ser não concebido, é supor uma contradição.

16 Esta sentença está omitida na segunda edição.

17 ‘A existência de coisas fora da mente,’ ou em ausência de toda a vida espiritual e percepção, é contra o que argumenta Berkeley, como sem sentido, se não contraditório; não a existência de um mundo material, quando isso significa a ordem percebida da natureza, regulada independentemente de vontade individual, e à qual nossas ações precisam conformar-se se nós devemos evitar dor física.

18 Novamente aqui, noção não é distinguida de ideia.

19 [271]Esta e as três seções seguintes argumentam pela essencial impotência da matéria, e que, até onde nos diz respeito, as assim chamadas ‘causas naturais’ são apenas sinais que predizem o aparecimento de seus assim chamados efeitos. O mundo material é apresentado a nossos sentidos como um cortejo de ordenados, e portanto interpretáveis, todavia em si mesmos impotentes, ideias ou fenômenos; o movimento é sempre um efeito, nunca uma causa originante ativa.

20 Como Locke sugere.

21 Isso tacitamente pressupõe a necessidade na razão do Princípio de Causalidade, ou a necessidade derradeira de uma causa eficiente para cada mudança. Determinar o tipo de Causação que constitui e permeia o universo é o objetivo de sua filosofia.

22 Em outras palavras, o mundo material não é apenas real em e através de um espírito percipiente, mas as formas mutantes que seus fenômenos assumem, na evolução natural, são a questão da atividade perpétua do Espírito permanentemente presente (in-dwelling). O argumento desta seção requer uma crítica mais profunda de suas premissas.

23 [272]Em outras palavras, um agente não pode, como tal, ser percebido ou imaginado, embora seus efeitos possam. O termo espiritual agente não é sem sentido; todavia nós não temos ideia sensível de seu significado.

24 Omitido na segunda edição.

25 Esta sentença não está contida na primeira edição. É notável para a primeira introdução do termo noção, significar significado sem ideia, como nas palavras alma, poder ativo, etc. Aqui ele diz que ‘as operações da mente’ pertencem a noções, enquanto, na seção 1, ele fala de ‘ideias percebidas pelo acompanhamento de “operações” da mente.’

26 ‘ideias,’ ou seja, fantasias da imaginação; enquanto distintas das ideias ou fenômenos mais reais que se apresentam objetivamente a nossos sentidos.

27 [273]Com Berkeley o mundo de ideias externas é distinguido do Espírito por sua passividade essencial. O poder ativo está com ela, a essência da Mente, distinguindo-me das ideias mutantes das quais eu sou percipiente. Nós não devemos atribuir ação livre aos fenômenos apresentados a nossos sentidos.

28 Nesta e nas quatro seções seguintes, Berkeley menciona as marcas pelas quais as ideias ou fenômenos que se apresentam aos sentidos podem ser distinguidas de todas as outras ideias, em consequência das quais elas podem ser denominadas ‘externas,’ enquanto aquelas da sensação e imaginação são inteiramente subjetivas ou individuais.

29 Esta marca – a força e vivacidade superiores das ideias ou fenômenos que se apresentam aos sentidos – foi depois notada por Hume. Ver Inquiry concerning Human Understanding, seção II.

30 [274]Berkeley aqui e sempre insiste na característica arbitrária das ‘leis estabelecidas’ de mudança no mundo, enquanto contrastadas com as ‘conexões necessárias’ descoberta na matemática. Dessa maneira, o mundo material é virtualmente uma linguagem natural interpretada, constituída pelo que, em nosso ponto de vista, é arbitrariedade ou contingência.

31 Sob essa concepção do universo, ‘causas segundas’ são sinais divinamente estabelecidos de mudanças iminentes e são apenas metaforicamente chamadas de ‘causas.’

32 Assim como Schiller, em Don Carlos, Ato III, onde ele representa os céticos como falhando em ver o Deus que Se oculta em leis eternas. Mas, em verdade, Deus é lei ou ordem eterna vitalizada e moralizada.

33 [275]sensações,’ com Berkeley, não são meros sentimentos, mas, em um sentido, aparências externas.

34mais realidade.’ Isso implica que a realidade admite graus, e que a diferença entre os fenômenos apresentados aos sentidos e aqueles que são apenas imaginados é uma diferença em graus de realidade.

35 Nas seções precedentes, duas relações deveriam ser cuidadosamente distinguidas – aquela do mundo material para a mente percipiente, na qual ele torna-se real; e aquela entre mudanças no mundo e ação espiritual. Esses são os dois princípios condutores de Berkeley. O primeiro conduz a e justifica o segundo – inadequadamente, contudo, à parte da explicação de sua raiz na razão moral. O primeiro dá uma relação sui generis. O segundo dá nosso único exemplo de causalidade ativa – a ordem natural de fenômenos sendo o resultado da energia causal da Vontade planejante.