domingo, 2 de janeiro de 2022

Inferir e Explicar - Capítulo 15 Virtude Explanatória e Verdade (FINAL)

Inferir e Explicar


Por Jeffery L. Johnson


Capítulo anterior


[143]Capítulo 15

Virtude Explanatória

e Verdade


Sempre que nós investigamos qualquer coisa – buracos negros ou as causas da Primeira Guerra Mundial ou a demografia das Ilhas Cayman ou a ambiguidade da poesia de Yeats – nosso objetivo intrínseco é encontrar a verdade sobre alguma coisa. Se nós não tivéssemos esse objetivo, não estaríamos investigando.

Ronald Dworkin1


Dois Problemas Imensos


David H. Glass articula claramente os dois maiores desafios à inferência à explicação melhor:


A despeito de sua plausibilidade intuitiva, a IEM enfrenta dois desafios-chave. Primeiro, como exatamente a IEM deve ser entendida e tornada precisa? Há várias concepções da natureza da explicação, mas, assumir que alguma dessas seja adequada para a IEM ainda deixa a questão de como uma explicação deveria ser comparada contra outra para que a explicação melhor possa ser identificada. Segundo, qual é a conexão entre explicação e verdade? Há alguma razão para pensar que a explicação melhor é provável de ser verdadeira? Ou, para colocar de outra forma, a IEM segue a verdade? É claro, não deveria ser esperado que abordagem alguma conduzisse à verdade em todos os casos, mas, se a IEM deve ser aceita como um modo racional de inferência, precisa haver alguma razão para pensar que ela forneça uma boa estratégia para determinar a verdade.”2


A inferência à narrativa melhor (INM) herda esses mesmos problemas. Como uma narrativa deveria ser comparada contra outra para que a melhor narrativa possa ser identificada? E há alguma razão para pensar que é provável que a melhor narrativa [144]seja verdadeira? Ela fornece uma boa estratégia para determinar a verdade? Mas a inferência à narrativa melhor convida a um terceiro desafio. Faz sentido falar sobre verdade em contexto envolvendo ex-maridos violentos ou sucessos ou falhas constitucionais? Todos esses desafios devem ser encarados, se não definitivamente resolvidos.

Gilbert Harman previu o primeiro desafio de Glass em seu tratamento inicial da inferência à explicação melhor.


É claro, há um problema sobre como alguém deve julgar que uma hipótese é suficientemente melhor do que outra hipótese. Presumivelmente, um tal julgamento será baseado em considerações tais como qual hipótese é mais simples, qual é mais plausível, qual explica mais, qual é menos ad hoc, e assim por diante. Eu não desejo negar que haja um problema sobre a explicação da natureza exata dessas considerações; contudo, eu não direi nada mais sobre esse problema.”3


Alguém poderia perguntar, em primeiro lugar, por que há algum problema. Harman parece responder à sua própria questão sobre virtude explanatória. A explicação melhor deve ser determinada pelos padrões de simplicidade, plausibilidade, completude e não ser ad hoc. A resposta superficial é óbvia. A lista dele de virtudes explanatórias é incompleta (“e assim por diante”), as virtudes podem trabalhar uma contra a outra – a explicação mais simples pode não ser a mais completa – e cada uma é vaga e excessivamente geral. Exatamente como com a inferência à explicação melhor, nós encaramos a questão óbvia de quais são os critérios para uma narrativa ser melhor do que outra. Aqui, eu penso que o pequeno checklist de Harman, embora vago, é útil. A melhor narrativa será aquela que melhor exemplifique as seguintes características:


  • Tenderá a prover a história mais completa.

  • Tenderá a prover a história mais simples.

  • Proverá a história mais plausível.

  • Proverá a história menos ad hoc.


Mas desenvolver esses critérios para sucesso explanatório e narrativo, claramente, é tarefa inacabada na filosofia da ciência e na narratologia.

Tão sério quanto o problema claramente é, eu não penso que ele seja tão sério quanto os céticos fazem-no ser. Eu sei como falar, entender, ler e escrever em inglês. Eu sei que a sentença inglesa “Colorless green ideas sleep furiously,” embora sem sentido e provavelmente autocontraditória, está gramaticalmente correta. Segundo uma tradição dominante na epistemologia ocidental, se eu estou correto sobre minhas habilidades linguísticas, eu deveria ser capaz de articular claramente as regras que tenho usado para reconhecer a gramaticalidade da sentença das green ideias.


Obviamente, cada falante de uma linguagem dominou e internalizou uma gramática generativa que expressa o seu conhecimento de sua linguagem. Isso não quer dizer que ele esteja ciente das regras da gramática ou até que ele possa tornar-se ciente deles.”4


Chomsky concede que as regras dessa gramática generativa podem ser cognitivamente inacessíveis e certamente difíceis de articular. Jason Stanley objeta vigorosamente:


Saber como fazer alguma coisa é o mesmo que conhecer um fato. Segue-se que aprender como fazer alguma coisa é aprender um fato. Por exemplo, quando você aprende como nadar, o que acontece é que você aprendeu alguns fatos sobre natação … Você sabe como realizar [145]atividades unicamente em virtude de seu conhecimento de fatos sobre essas atividades.”5


Sócrates claramente articulou esse princípio epistemológico há 2500 anos – “e isso que nós conhecemos nós certamente devemos ser capazes de explicar.”6

Contudo, eu coloco-me do lado de Michael Polanyi quando ele diz, “Nós sabemos mais do que nos podemos explicar.”7 Ele usa um exemplo muito adequado:


Esse fato parece suficientemente óbvio; mas não é fácil dizer exatamente o que ele significa. Tome-se um exemplo. Nós conhecemos a face de uma pessoa e podemos reconhecê-la em meio a mil, de fato, em meio a um milhão. Contudo, nós usualmente não podemos explicar como nós reconhecemos uma face que nós conhecemos. Assim, a maior parte desse conhecimento não pode ser colocada em palavras.”8


Polanyi introduz o termo técnico conhecimento tácito para denominar o conhecimento ou as habilidades que “não podem ser colocados em palavras.” Polanyi certamente está engajado em hipérbole proposital. A maior parte das habilidades pode ser colocada em palavras, mas essas palavras são usualmente vagas e gerais, e, às vezes, as palavras são completamente enganadoras.

A essência do primeiro problema de Glass – “como uma explicação deveria ser comparada com outra para que a explicação melhor possa ser identificada” – é que a maioria dos defensores e críticos da inferência à explicação melhor parecem buscar algo que eu acredito ser inatingível. Eles parecem buscar um tipo de algoritmo mecânico que valide uma determinação objetiva de uma explicação ser superior a outra explicação. Talvez a maior tentação para insistir em uma lista de condições necessárias e suficientes para que a explicação ou história seja melhor (ou uma explicação ou história melhor) seja a ilusão persistente de que todas as coisas nas quais nós somos habilidosos possas ser articuladas em claras e concisas receitas ou fórmulas. Esse é precisamente o artigo de fé de Platão ou Stanley – “que o que nós conhecemos nós certamente devemos ser capazes de explicar.” Nós devemos saber que isso é um erro.

Considere quão notável é que rebatedores (hitters) da liga principal [de beisebol] possam acertar bolas rápidas (fastball) à [velocidade de] noventa e cinco milhas por hora.


Uma típica bola rápida (fastball) da liga principal [de beisebol] viaja aproximadamente 10 pés em apenas 75 milissegundos, o que é requerido para as células sensoriais na retina confirmarem que uma bola está na visão e para informação sobre a trajetória do voo e a velocidade da bola ser transmitida ao cérebro. O voo inteiro da bola, a partir da mão do arremessador (pitcher) à plate requer apenas 400 milissegundos. E porque se requer metade daquele tempo meramente para iniciar uma ação muscular, um rebatedor da liga principal tem de conhecer para onde ele está virando logo depois da bola deixar a mão do arremessador – bem antes até de que ele esteja a meio caminho da plate…. Um batedor (batter) também poderia fechar seus olhos uma vez que a bola estivesse a meio caminho para a home plate. Dadas a velocidade do arremesso (pitch) e as limitações de nossa fisiologia, parece ser um milagre que alguém de qualquer maneira acerte a bola.”9


Então, como eles fazem isso? Há os chavões – “Mantenha seu olho na bola,” “Não abra tão cedo,” e semelhantes. Mas esses não contam a você como isso é feito; eles são mnemônicos para ajudar rebatedores habilidosos a voltarem ao bom caminho quando eles estão em crises. Ninguém ainda articulou – e eu insisto, nunca articulará – critérios lógicos para a rebatida (hitting) bolas rápidas da liga principal. Contudo, isso enfaticamente não significa que a rebatida, não a descrição, não possa ser feita. Essa habilidade, como muitas outras, é um tipo de conhecimento tácito.

Meu mentor, Larry Wright, conta uma história importante:


[146]“Virtualmente qualquer um que tenha sobrevivido à infância passada tem um conjunto mais ou menos desenvolvido de habilidades perceptivas. Essas habilidades geralmente podem ser descritas como a habilidade para dizer o que está acontecendo (algumas vezes) simplesmente ao olhar … Essa habilidade diz o que está acontecendo – o que aconteceu – até quando nós não estamos confrontando diretamente. Frequentemente nós podemos dizer o que aconteceu a partir dos traços que foram deixados. Nós podemos contar que houve uma geada a partir das árvores danificadas; nós podemos dizer que choveu porque as montanhas estão verdes; nós podemos dizer que John teve algum problema a caminho de casa a partir da loja pelo para-choque amarrotado e farol quebrado. Nós reconstruímos o evento a partir de suas consequências reveladoras. É essa habilidade de diagnóstico que nós exploramos no tipo mais básico de argumentos indutivos; é o fundamento de nossa habilidade avaliar a evidência.”10


Essa habilidade quase perceptiva é que nos permite ver o que está acontecendo, o que é verdadeiro ou, pelo menos, qual é a melhor aposta dado o que nos conhecemos. E o fato de que se provou incrivelmente difícil de articular a natureza precisa dessa habilidade de maneira nenhuma conta contra sua existência e utilidade. Alguém seriamente pode duvidar de que Pete Rose sabia como rebater porque ele não podia dizer como ele era capaz de rebater?


Darwinismo Literário


Wright fala de uma “habilidade de diagnóstico,” “a habilidade de dizer o que está acontecendo.” Eu caracterizaria isso como uma habilidade para fazer sentido das coisas. Qual é a fonte dessa habilidade? A resposta a essa questão conduz-nos diretamente para a segunda preocupação de Glass – “A IEM segue a verdade?” É claro, eu estou comprometido com uma retumbante resposta afirmativa. Mas certamente eu devo à inferência-à-explicação-melhor e à inferência-à-narrativa-melhor pelo menos um esboço de “alguma razão para pensar que ela fornece uma boa estratégia para determinação da verdade.”

O que é algumas vezes chamado de darwinismo literário rastreia de volta a contação humana de histórias (human storytelling) às origens evolucionárias da moderna cognição humana.


Mentes existem para predizer o que acontecerá em seguida. Elas mineram o presente por pistas que elas podem refinar com a ajuda do passado – o passado evolucionário das espécies, o passado cultural da população, o passado experiencial do indivíduo – para antecipar o futuro imediato e guiar a ação. Para entender eventos como eles acontecem, com tempo, conhecimento e poder computacional limitado, a mentes evoluíram para registrar as regularidades pertinentes a espécies particulares e inferir de acordo com heurísticas imperfeitas.”11


Essa pequena narrativa presume que nós somos bons o bastante em “predizer o que acontecerá em seguida.” Mas ela explica muito mais do que a ubiquidade da narração humana de histórias; ela explica nossa habilidade geral para fazer sentido das coisas, para explicar o que está acontecendo.


Nós podemos contar histórias para explicar coisas, do mau humor de uma criança ou um país com ‘Ele começaram isso’ à razão do mundo ser como é de acordo com o mito ou ciência …. Por que a mais rica história explicativa de todas, a teoria da evolução por seleção natural, foi tão pouco usada para explicar o porque e como as histórias importam?”12


A inferência à explicação melhor (IEM) e a inferência à narrativa melhor (INM) seguem a verdade porque elas dependem, na base, de habilidades quase perceptivas que foram selecionadas precisamente para fazer esse trabalho.

Considere esta narrativa explanatória:


Bebês têm pouco controle sobre seus corpos, mas eles podem voluntariamente mover suas cabeças e olhos. E [147]para o que um bebê olha pode contar a você alguma coisa sobre como ele vê o mundo. Isso é porque bebês são como adultos em alguns aspectos. Se eles veem a mesma coisa repetidas vezes, eles entediam-se e olham para outro lado. Se eles veem alguma coisa nova e inesperada, eles olham por mais tempo. Dessa maneira, analisar o tempo da olhada pode dizer-nos o que os bebês pensam de ser ‘a mesma coisa,’ e o que eles veem como ‘novo e inesperado.’”13


A anterior inferência à explicação melhor em dois estágios – diferenciados tempos de olhada sendo explicados como aborrecimento ou surpresa e então como “mesmo” ou “novo” – é a pressuposição metodológica para uma legião de experimentos fascinantes no estudo do desenvolvimento cognitivo da criança. Paul Bloom fornece um belo sumário de alguns desses resultados:


  1. Coesão: se uma mão puxa um objeto, bebês esperam que o objeto inteiro vá com a mão; se ele fragmenta-se em pedaços, eles ficam surpresos, mostrando uma expectativa de que os objetos são coesos.

  2. Continuidade: Imagine um palco com duas barreiras verticais separadas no espaço. Um pequeno objeto, como uma caixa, vai para trás da barreira à esquerda, continua entre as barreiras, vai para trás da barreira à direta e sai do outro lado. Os adultos veem isso como um único objeto, os bebês também. Agora imagine que uma caixa vá para trás da barreira à esquerda, haja uma pausa, e então a caixa emerja no biombo à direita, nunca aparecendo no intervalo. Os adultos assumem que há duas caixas ali, não uma. Os bebês fazem a mesma suposição; eles esperam continuidade.14


Por que nós encontramos diferenciados tempos de olhada para a mão puxando o objeto e ele permanecendo inteiro, e a mão puxando o objeto e ele fragmentando-se em pedaços? Bebês esperam que os objetos sejam coesos. Por que a percepção de uma única caixa no primeiro cenário experimental com a caixa e as barreiras mas a percepção das duas caixas no segundo cenário? Bebês esperam continuidade. Mas de onde essas expectativas originam-se? A resposta de Bloom é a mistura clássica de natureza e criação.


Esses resultados mostram que, embora os bebês entrem no mundo com um entendimento fundacional do que são objetos e de como eles agem, ele é incompleto, e esse fundamento cresce. Algo do aperfeiçoamento poderia ser devido à maturação do cérebro – como o resto do corpo, o cérebro muda rapidamente nos primeiros anos de vida, e isso poderia causar aumento correspondente no conhecimento. Mas algo do aperfeiçoamento é simplesmente devido à experiência.”15


E finalmente, o que explica esse entendimento fundamental de objetos e de como eles agem? Esse conhecimento é claramente inato. A seleção natural tornara permanente (hardwired) que os cérebros de crianças esperem coesão e continuidade. É fácil ver o valor adaptativo para crianças terem entendimento rudimentar não apenas de objetos e “física popular (folk physics)” mas também de ação e relações sociais. Certamente, entendimento compartilhado de física popular, ação e relações sociais são os pilares do tipo de habilidade de explicação prática que teria valor nos tempos de caçador-coletor.


Sally e Ann


Deixe-me contar a você duas histórias sobre Sally e Ann. Sally estima sua escultura especial. Quando ela sai, ela sempre a coloca em uma cesta e cuidadosamente a cobre com uma manta macia. Ann esteve escondida e observando o pequeno ritual de Sally. Após Sally ter saído de casa para o almoço, Ann remove a escultura de Sally [148]de baixo da manta e esconde-a em uma caixa próxima. Sally retorna após o almoço e vai buscar a escultura dela. Ela vai diretamente à caixa e encontra-a ali! Por quê? Bem, porque era onde a escultura estava! A segunda história começa exatamente como a primeira, mas as coisas mudam de direção quando Sally retorna do almoço. Sally vai diretamente à sexta e fica inconsolável ao não encontrar sua escultura sob a manta. Por que ele faz isso? Bem, era onde ela lembra que colocou-a antes do almoço.

Quando expostas a uma versão em marionetes das duas histórias de Sally e Ann e então pedidas para predizer onde Sally procurará pela escultura dela, crianças com menos de quatro anos tipicamente predizem a caixa, porque eles sabem que é onde a escultura está. Mas entre quatro e cinto as predições das crianças mudam dramaticamente. Elas agora compreendem que Sally olhará no cesto porque é onde ela lembra-se de a ter colocado.

Por que as crianças cognitivamente mais maduras simplesmente reconhecem que a narrativa de que Sally-vai-à-cesta é significativamente melhor do que a de Sally-vai-à-caixa? Elas começaram a desenvolver o que frequentemente é chamado de uma “teoria da mente.”


A teoria da mente permite um entendimento muito mais preciso e de múltiplas perspectivas de eventos sociais. Porque nós entendemos as crenças como as bases para formação de desejos, objetivos e intenções, e porque nós entendemos as fontes da crença, nós automaticamente e sem esforço seguimos o que os outros poderiam conhecer sobre uma situação e, portanto, podemos entender os seus comportamentos mais finamente…. Quase automaticamente nós seguimos o que os outros podem conhecer, e isso faz toda a diferença para nossa capacidade de cooperar ou competir.”16


Mesmo de volta aos tempos de caçador-coletor, nossos ancestrais humanos eram explicadores sociais muito habilidosos. A ciência cognitiva contemporânea fornece uma explicação muito plausível das origens dessa habilidade.


[Leitura da mente] é usada por cientistas cognitivos, intercambiavelmente com ‘Teoria da Mente,’ para descrever nossa habilidade para explicarmos o comportamento das pessoas em termos de seus pensamentos, sentimentos, crenças e desejos…. Essa adaptação deve ter desenvolvido-se durante a ‘massiva evolução neurocognitiva’ que ocorreu durante o Pleistoceno (de 1,8 milhão a 10.000 anos atrás). A emergência de um ‘módulo’ de Teoria da Mente foi a resposta da evolução para ‘o desafio incrivelmente complexo encarado por nossos ancestrais, que necessitavam fazer sentido do comportamento de outras pessoas em seus grupos, os quais podiam incluir até 200 indivíduos.’”17


Se isso está correto, e eu certamente penso que está, sugere uma inversão um pouco surpreendente em nosso pensamento sobre explicação. Em vez de extrapolarmos a partir da noção mais “básica” de uma explicação causal para explicar nossas habilidades narrativas, na verdade poderia ser que nossa habilidade para construir narrativas sobre o comportamento e motivos daqueles em nossos grupos sociais seja o que conduz à habilidade mais ampla para construir narrativas científicas ou causais em situações onde agentes estão visivelmente ausentes.


Desacordo


Mas, espere um segundo, você pode explicar bem. Como eu posso alegar que nossas habilidades, tanto inatas quanto aprendidas, para explicar e fazer sentido das coisas, são fundamento suficientemente confiável para um procedimento lógico geral tal como a inferência à explicação melhor ou inferência à narrativa melhor? Claramente explicações rivais e narrativas rivais não são apenas possíveis, mas fortemente [149]endossadas por avaliadores de evidência igualmente inteligentes e reflexivos. O promotor e Abe sustentavam interpretações radicalmente diferentes relativas a Hamilton e ao assassinato. Eu acredito que Mary Ann e Wanda deveriam ter colocado mais confiança no sistema de justiça criminal e não assassinado Earl; elas viram as coisas muito diferentemente. O desacordo intelectual parece contar pesadamente contra minhas reivindicações para as habilidades explicativa e narrativa. Como podem os juízes as Suprema Corte Blackmun e Scalia serem habilidosos explicadores constitucionais e juízes de história quando eles veem as coisas tão diferentemente com respeito à pena de morte e à Constituição. Essas preocupações são legitimas e requerem atenção e soluções potenciais.

Uma grande parte da história a ser contada aqui é uma de simples modéstia intelectual. Alguém pode ser muito habilidoso em alguma coisa e, ao mesmo tempo, falhar espetacularmente em exercitar a habilidade. Nós somos habilidosos para reconhecer rostos. Mas nós ainda os percebemos mal todo o tempo – “Olá Joanie! Oh, desculpe-me, você parece-se exatamente como minha sogra.” Rebatedores da liga principal realizam um milagre menor ao rebaterem bolas rápidas a noventa e nove milhas por hora, mas viram-se selvagemente, erram, parecem tolos e, para que não esqueçamos, eles falham em conseguir rebatidas de base (base hits) entre dois terços e três quartos do tempo. Além do mais, as habilidades sobre as quais eu estou baseando meu argumento foram desenvolvidas, afiadas e testadas nos tempos de caçador-coletor. Elas apenas podem ser aplicadas a ciência e direito por extensão.


Humanos não se engajam prontamente [no raciocínio altamente abstrato requerido pela ciência, filosofia, governo, comércio e direito modernos]. Na maioria dos tempos, lugares e estágios de desenvolvimento consistem nas quantidades ‘um,’ ‘dois,’ e ‘muitos’…. A filosofia política deles é baseada em família (kin), clã, tribo e vendeta, não no contrato social … e a a moralidade deles é uma mistura de intuições de pureza, autoridade, lealdade, conformidade e reciprocidade, não noções generalizadas de equidade (fairness) e justiça …. Mesmo assim, alguns humanos foram capazes de inventar os diferentes componentes do conhecimento moderno, e todas são capazes de os aprender.”18


Por favor, não interprete mal meu propósito aqui. Eu sou muito bom em discernir minha sogra, fico maravilhado da destreza em rebater dos caras em meu time de fantasia e, como um professor, sei de primeira mão que estudantes, mesmo os medíocres, podem deixar de lado família, clã e vendeta e aprender a compreender o contrato a justiça e a igualdade sociais.


Verdade


Vejamos se nós podemos fazer um pouco melhor do que a definição trivial de “verdade” que eu ofereci no capítulo 3 – verdade =df não falso. A inferência à narrativa melhor é sem remorso sobre uma conexão estrita entre superioridade narrativa e verdade. A melhor história não garante a verdade, mas ela constitui evidência para o que a verdade é. Talvez haja uma história ainda melhor na qual ninguém pensou – esse certamente tem sido o caso em momentos específicos na história da ciência. Talvez, como eu acredito que frequentemente é o caso com muitas narrativas, a melhor história seja aquela que efetivamente combine elementos e intuições das narrativas concorrentes. Mas essa é a natureza da evidência em geral. Até a evidência mais fortes pode apontar na direção errada – evidência não é prova lógica. Mas nada disso implica que nós devamos ignorar a evidência. De fato, que escolha nós realmente temos senão basearmos todos os nossos julgamentos [150]considerados, não apenas em direito e academia, mas em cada aspecto de nossas vidas, no que a melhor evidência conta-nos ser provavelmente verdadeiro?

A verdade legal, constitucional e acadêmica, exatamente como a verdade em ciência e relativa a ex-maridos violentos, permanece filosoficamente problemática. Eu concordo com Peter Kosso de que o sentido mais intuitivo de verdade – pelo menos em contextos explicativos – é a teoria da correspondência, mas a correspondência precisa ser inferida a partir da coerência.


Embora a verdade seja correspondência com os fatos, ela não pode ser reconhecida por sua correspondência. Nós não podemos depender dos fatos para orientarem as provas de teorias científicas, uma vez que os fatos estão irremediavelmente no extremo exterior da relação de correspondência …. Assim, quaisquer indicadores de verdade precisam ser internos … O processo de justificação, então, é um processo de comparação de aspectos do sistema e a realização da justificação é a demonstração da coerência em meio aos aspectos.”19


Um semelhante modelo apreende as nossas intuições sobre o que realmente aconteceu a Nicole e Ron ou no recordo hop. Apenas não há histórias a serem contadas sobre esses acontecimentos, mas, claramente, algumas histórias são melhores do que outras – histórias que apontam para verdade. Nós acreditamos que há um mundo lá fora, embora nós nunca o vejamos a partir da perspectiva do olho de Deus, e, nesse mundo, coisas aconteceram envolvendo O. J., o namorado de Connie e o resto. Esses acontecimentos externos desempenham um papel significante no que conta como verdadeiro.

Contudo, as coisas tornam-se muito mais complicadas quando nós consideramos a narrativa melhor relativa a Brown v. Board of Education ou o dilema de Mary Ann e Ann. Nós ainda estamos confiantes em que haja uma história melhor ou, pelo menos, histórias que sejam significativamente melhores do que outras. Mas, para onde a superioridade narrativa aponta agora? Quais as questões jurisprudenciais padrões de como interpretar uma lei escrita, uma linha de precedente ou um texto constitucional? Ou até como interpretar os tristes acontecimentos confrontando Mary Ann e Wanda? Para reiterar nosso argumento anterior, eu alego que nesses casos nós contamos histórias que tentam fazer sentido dos textos e precedentes relevantes assim como do comportamento violento de Earl e a história de Geneva sobre Brown. Quando nós contamos essas histórias nós fazemo-lo com paixão e convicção. Nós estamos convencidos de que nossa história é a melhor ou, pelo menos, muito melhor do que as outras que estão ai. A inferência à narrativa melhor efetivamente não cria a verdade em vez de a descobrir? Isso seria uma compreensão descaracterizada. É claro, a compreensão é de que poucos de nós acreditamos que haja um céu platônico onde a verdade moral e interpretativa vive e para onde nós podemos retirarmo-nos para decidir sobre controvérsias envolvendo o assassinato de Earl ou como nós devemos entender Brown v. Board of Education. Mas está descaracterizada porque a verdade não está sendo criada da maneira que Derrick Bell foi capaz de criar sua história sobre crianças negras em idade escolar que desaparecem. Faz um sentido perfeitamente bom insistir em que haja uma narrativa “objetivamente” melhor, mesmo quando pessoas razoáveis discordam de qual ela seja. E que outro título laudatório nós concederíamos a uma semelhante narrativa superior senão o de “verdadeira”?


[151]Exercícios


  1. Como um rebatedor da liga principal pode rebater uma bola rápida à noventa e cinco milhas por hora se ele não pode dizer como ele faz isso?

  2. O que as duas histórias de Sally e Ann contam-nos sobre nossa habilidade de fazer sentido do que os outros fazem?

  3. Há alguma verdade objetiva sobre o que aconteceu à parceira de Hamilton? Há alguma verdade objetiva sobre o que Mary Ann e Wanda deviam fazer? Em primeiro lugar, o que tudo isso diz sobre a noção de verdade?


Questionário Quinze

Quais são os dois problemas para a inferência à explicação melhor (e para a inferência à narrativa melhor) que forma identificados por David H. Glass? Qual é minha solução proposta para esses dois problemas? Você acha que minha solução funciona? Por que, por que não?


FIM


ORIGINAL

Johnson, Jeffery L., “Inferring and Explaining” (2019). PDXOpen: Open Educational Resources. 23. p. 143-151. Disponível em:<https://pdxscholar.library.pdx.edu/pdxopen/23>.


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


Notas

1 Ronald Dworkin, Justice for Hedgehogs (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2011), 152.

2 David H. Glass, “Inference to the Best Explanation: Does It Track Truth?,” Synthese: An International Journal for Epistemology, Methodology and Philosophy of Science 185, no. 3 (2012): 411– 27.

3 Gilbert Harman, “The Inference to the Best Explanation,” Philosophical Review 74, no.1 (1965): 88– 89.

4 Noam Chomsky, Aspects of the Theory of Syntax (Cambridge, MA: MIT Press, 1956), 8.

5 Jason Stanley, Know How (Oxford: Oxford University Press, 2011), vii.

6 Plato, The Collected Dialogues of Plato (Princeton, NJ: Princeton University Press, 1961), 133.

7 Michael Polanyi, The Tacit Dimension (Chicago: University of Chicago Press, 1966), 4.

8 Polanyi, 4.

9 David Epstein, The Sports Gene (New York: Penguin, 2013), 4.

10 Larry Wright, Better Reasoning (New York: Holt, Rinehart, Winston, 1982), v.

11 Brian Boyd, On the Origin of Stories (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2009), 134.

12 Boyd, 1.

13 Paul Bloom, Descartes’ Baby (New York: Basic Books, 2004), 9– 10.

14 Bloom, 11-12.

15 Bloom, 13-14.

16 Boyd, Origin of Stories, 149.

17 Lisa Zunshine, Why We Read Fiction: Theory of Mind and the Novel (Columbus: Ohio University Press, 2006), 7.

18 Steven Pinker, Language, Cognition, and Human Nature (Oxford: Oxford University Press, 2013), 359.

19 Peter Kosso, Reading the Book of Nature (Cambridge: Cambridge University Press, 1992), 136.

Nenhum comentário:

Postar um comentário