terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Um Ensaio para Uma Nova Teoria da Visão [67-87]

Por George Berkeley


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[158]67. Há um fenômeno1 célebre, a solução do qual eu deverei tentar prover, pelos princípios que foram estabelecidos, em referência à maneira pela qual nós apreendemos pela vista a magnitude de objetos. - A magnitude aparente da lua, quando posicionada no horizonte, é muito maior do que quando ela está no meridiano, embora o ângulo sob o qual o diâmetro da lua é visto não seja observado maior no primeiro do que no segundo caso; e [159]a lua horizontal não apareça constantemente da mesma grandeza, mas, algumas vezes, pareça muito maior do que em outras.

68. Agora, a fim de explicar a razão do aparecimento da lua maior do que o ordinário no horizonte, precisa ser observado que as partículas que compõem nossa atmosfera interceptam os raios de luz procedentes de qualquer objeto para o olho; e, por quão muito maior for a porção da atmosfera intermediária entre o objeto e o olho, por tanto muito mais serão os raios interceptados, e, por consequência, o aparecimento do objeto tornar-se-á mais fraco – cada objeto aparecendo mais vigoroso ou mais fraco em proporção a como ele envia mais ou menos raios para o olho. Agora, entre o olho e a lua quando situada no horizonte, estende-se uma quantidade bastante maior de atmosfera do que quando a lua está no meridiano. Donde vem a ocorrer que o aparecimento da lua horizontal é mais fraco e, portanto, pela seção 56, ele deveria ser considerado maior naquela situação do que no meridiano, ou em qualquer outra elevação acima do horizonte.

69. Adicionalmente, o ar estando variadamente saturado, algumas vezes mais e algumas vezes menos, com vários vapores e exalações adequadas para atenuarem e interceptarem os raios de luz, segue-se que o aparecimento da lua horizontal nem sempre tenha igual fraqueza (faintness), e, por consequência, que o astro, embora na mesma exata situação, seja uma vez julgado maior do que em outra.

70. Que aqui nós fornecemos a verdadeira explicação do fenômeno da lua horizontal, ficará, eu suponho, adicionalmente evidente para qualquer um a partir das seguintes considerações: - Primeiro, é simples, que o que nesse caso sugere a ideia de magnitude maior precisa ser alguma coisa que é percebida por si mesma; pois, aquilo que está despercebido não pode sugerir a nossa percepção qualquer outra coisa2. Segundo, isso precisa ser alguma coisa que não constantemente permaneça a mesma, mas esteja sujeita a alguma mudança ou variação; uma vez que o aparecimento da lua horizontal varia, sendo maior em uma vez do que na outra. [Terceiro, isso não precisa estender-se aos objetos circunjacentes ou intermediários, tais como montanhas, casas, campos, etc; porque, quando todos aqueles objetos são [160]excluídos de vista, o aparecimento é tão grande quanto sempre3.] E ainda, terceiro4, isso não pode ser figura ou magnitude visível; uma vez que permanece o mesmo, ou é bastante menor, por quanto mais a lua esteja mais perto do horizonte. Permanece portanto, que a verdadeira causa é essa afetação ou alteração da aparência visível, a qual procede a partir da maior escassez de raios chegando ao olho, e a qual eu denomino de fraqueza (faintness): uma vez que ela responde a todas as condições supracitadas, e eu não estou consciente de nenhuma outra percepção que o faça.

71. Acrescente-se a isso o que no tempo nublado é uma observação comum, que o aparecimento da lua horizontal seja muito maior do que o usual, o que grandemente conspira com e fortalece nossa opinião. Nem se provaria no mínimo irreconciliável com o que nós dissemos, se a lua horizontal devesse algumas vezes aparecer aumentada além de sua extensão usual, mesmo em clima mais sereno. Pois, nós precisamos não apenas considerar a neblina que acontece de estar no lugar onde nós estamos; nós devemos também devemos levar em consideração a soma inteira de vapores exalações que se estendem entre o olho e a lua: tudo isso cooperando para tornar o aparecimento da lua mais fraco, e, portanto, aumentar sua magnitude, pode acontecer de aparecer maior do que ela usualmente faz até na posição horizontal, em um tempo quando, embora não haja névoa ou nebulosidade extraordinárias exatamente no local onde nós estejamos, contudo, o ar entre o olho e a lua, considerado no todo, pode estar carregado com uma quantidade maior de vapores e exalações intercaladas maios do que em outras vezes5.

72. Pode ser objetado que, em consequência de nosso princípio, a interposição de um corpo em algum grau opaco, o qual pode interceptar uma grande parte dos raios de luz, deveria tornar o aparecimento da lua no meridiano tão grande como quando ela é vista no horizonte. Ao que eu respondo, não é a fraqueza (faintness) de alguma maneira aplicada que sugere [161]magnitude maior; não havendo conexão necessária, mas apenas uma experiencial, entre essas duas coisas. Segue-se que a fraqueza (faintness) que amplia o aparecimento precisa ser aplicada de tal maneira, e com tais circunstâncias, como tem sido observada assistir a visão de grandes magnitudes. Quando, a partir de uma distância, nós contemplamos grandes objetos, as partículas de ar e vapores intermediários, que são eles mesmas imperceptíveis, interrompem os raios de luz e, portanto, tornam o aparecimento menos forte e vívido. Agora, a fraqueza (faintness) do aparecimento, causada dessa maneira, tem sido experienciada coexistir com grande magnitude. Mas, quando é causada pela interposição de corpo opaco sensível, essa circunstância altera o caso; de maneira que uma aparência fraca dessa maneira causada não sugere grande magnitude, porque não se experienciou coexistir com ela.

73. A fraqueza (faintness), assim como todas as outras ideias ou percepções que sugerem magnitude ou distância, fá-lo da mesma maneira que as palavras sugerem as noções às quais elas estão anexadas. Agora, é sabido que uma palavra pronunciada em certas circunstâncias, ou em um certo contexto com outras palavras, nem sempre tem a mesma importância ou significação que ela tem quando pronunciada em algumas outras circunstâncias, ou contexto diferente de palavras. A mesma aparência visível, quanto a fraqueza (faintness) e todos os outros aspectos, se posicionada acima, não deverá sugerir a mesma magnitude que ela sugeriria se fosse vista a uma distância igual no mesmo do olho. A razão do que é, que nós raramente estamos acostumados a ver objetos como uma grande altura; antes nossas preocupações estendem-se entre coisas situadas diante do que acima de nós; e portanto nossos olhos não estão posicionados no topo de nossas cabeças, mas em uma posição tal como é mais conveniente para que nós vejamos objetos distantes posicionados em nosso caminho. E, essa situação deles sendo uma circunstância que usualmente acompanha a visão de objetos distantes, nós podemos a partir daqui explicar (o que é comumente observado) o aparecimento de um objeto de magnitude diferente mesmo com respeito a sua extensão horizontal, no topo de um campanário, por exemplo, a uma altura de onze pés, para alguém de pé abaixo, em um nível com o olho. Pois, tendo sido demonstrado que o julgamento que nós fazemos sobre a magnitude de uma coisa depende não apenas da aparência visível, mas também de outras diversas circunstâncias, qualquer [162]uma das quais sendo omitida ou variada por ser suficiente para causar alguma alteração em nosso julgamento. Consequentemente, a circunstância de ver um objeto distante em uma tal situação como é usual e adequada a postura ordinária da cabeça e dos olhos, sendo omitida e, em vez disso, uma situação diferente do objeto, a qual requer uma postura diferente da cabeça, ocorrendo – não é de se maravilhar se a magnitude for julgada ser diferente. Mas, será perguntado, por que um objeto elevado deverá constantemente aparecer menor do que um equidistante objeto baixo das mesmas dimensões; pois assim é observado. De fato pode ser concedido que a variação de algumas circunstâncias pode variar o julgamento feito sobre a magnitude de objetos elevados, para os quais nós estamos menos acostumados a olhar; mas isso consequentemente não sugere por que eles deveriam ser julgados menores em vez de maiores? Eu respondo, que no caso da magnitude de objetos distantes foi sugerida pela extensão da sua aparência visível apenas, e considerada proporcional a ela, é certo que então eles deveriam ser julgados muito menores agora do que eles parecem ser. (Ver seção 7) Mas, várias circunstâncias concorrendo para formar o julgamento que nós fazemos sobre a magnitude de objetos distantes, através do que eles aparecem muito maiores do que outros que a aparência visível tem uma extensão igual ou até maior, segue-se que, com a mudança ou omissão de quaisquer daquelas circunstâncias que não se costuma acompanhar a visão de objetos distantes, e assim vem a influenciar os julgamentos feitos sobre a magnitude deles, eles deverão proporcionalmente aparecer menores do que de outra maneira eles deveriam aparecer. Pois, quaisquer daquelas coisas que causam um objeto sem considerado maior do que em proporção a sua extensão visível sendo omitidas, ou aplicadas sem as circunstâncias usuais, o julgamento depende mais inteiramente da extensão visível; e, consequentemente, o objeto deve ser julgado menor. Dessa maneira, no presente caso a situação da coisa vista sendo diferente daquela que usualmente está naqueles objetos que nós temos ocasião para ver, e cuja a magnitude nós observamos, segue-se que o mesmo objeto estando a uma altura de cem pés, deveria parecer menor do que se estivesse a cem pés distante, em (ou quase em) nível do olho. O que aqui foi estabelecido parece-me não ter pequena parte na contribuição para magnificar o aparecimento da lua horizontal, e merece não ser negligenciado na explicação dela.

[163]74. Se nós considerarmos atentamente o fenômeno diante de nós, nós deveremos descobrir o não discernente entre os objetos mediados e imediatos da vista ser a causa principal da dificuldade que ocorre na explicação dele. A magnitude da lua visível, ou isso que é o próprio e imediato objeto da visão6, não é maior quando a lua está no horizonte do que quando ela está no meridiano. Portanto, como ela vem a parecer maior em uma situação do que na outra? O que é que pode colocar esse engano no entendimento? Ele não tem outra percepção da lua senão a que recebe pela vista. E essa que é vista é da mesma extensão – eu digo, a aparência visível tem a mesma, ou antes uma menor, magnitude, quando a lua é vista na posição horizontal do que quando ela é vista na meridional. E, todavia, é estimada maior na primeira do que na segunda. Nisso consiste a dificuldade; a qual desaparece e admite a solução mais fácil, se nós considerarmos que a lua visível não é maior no horizonte do que no meridiano, assim, nem uma nem outra dever ser considerada sê-lo. Já foi revelado que, em qualquer ato de visão, o objeto visível absolutamente, ou em si mesmo, é pouco observado – a mente ainda portando sua visão a partir daquela de algumas ideias tangíveis, as quais foram observadas estar conectadas com ela, e por esse meio vir a ser sugeridas por ela. De modo que, quando se diz que uma coisa parece maior ou menor, ou qualquer que seja a estimativa feita da magnitude de qualquer coisa, isso não se pretende do objeto visível, mas do tangível. Isso devidamente considerado, não será questão difícil reconciliar a aparente contradição que há, que a lua deva aparecer de uma grandeza diferente, a magnitude da mesma permanecendo a mesma. Pois, pela seção 56, a mesma extensão visível, com uma diferente fraqueza, deverá sugerir uma diferente extensão tangível. Portanto, quando se diz que a lua horizontal parece maior do que a lua meridional, isso deve ser entendido, não de uma maior extensão visível, mas de uma maior extensão tangível, pela razão da maior do que ordinária fraqueza da aparência visível, é sugerida a mente junto com ela.

[164]75. Muitas tentativas têm sido feitas por homens instruídos para explicar essa aparência7. Gassendi8, Descartes9, Hobbes10, e vários outros empregaram seus pensamentos sobre essa matéria; mas quão infrutíferos e insatisfatórios seus esforços têm sido está suficientemente revelado nas Philosophical Transactions11 (Num. 187, p. 314), onde você pode ver suas várias opiniões, em geral, demonstradas e refutadas, não sem alguma surpresa diante dos enganos grosseiros aos quais homens engenhosos têm sido forçados ao tentarem reconciliar essa aparência com os princípios ordinários da óptica12. Desde o escrito que foi publicado em Transactions (Num. 187, p. 243) outro artigo relatando a mesma questão, pelo célebre Dr. Wallis, no qual ele tenta explicar esse fenômeno; o qual, embora não pareça conter coisa alguma nova, ou diferente do que fora dito antes por outros, eu mesmo assim deverei considerar neste lugar.

76. Em resumo, a opinião dele é esta: - Nós julgamos da magnitude de um objeto não apenas pelo ângulo óptico, mas pelo ângulo óptico em conjunção com a distância. Consequentemente, embora o ângulo permaneça o mesmo, ou até torne-se menor, contudo, se com isso a distância parece ter sido aumentada, o objeto deverá aparecer maior. Agora, uma maneira através da qual nós estimamos a distância de qualquer coisa é pelo número e extensão dos objetos intermediários. Portanto, quando a lua é vista no horizonte, a variedade de [165]campos, casas, etc, junto com o grande prospecto de amplos terra ou mar extensos que se estendem entre o olho e a borda extrema do horizonte, sugerem à mente a ideia de distância maior e, consequentemente, magnificam a aparência. E essa, de acordo com o Dr. Wallis, é a verdadeira explicação da grandeza extraordinária atribuída pela mente à lua horizontal, na ocasião quando o ângulo subtendido por seu diâmetro não é um mínimo maior do que costumava ser.

77. Com referência a essa opinião, para não repetir o que foi dito relativo à distância13, Eu somente deverei observar, primeiro, que se o prospecto de objetos interjacentes seja aquele que sugerem a ideia de maior distância, e essa ideia de distância maior seja a causa que traz à mente a ideia de magnitude maior, consequentemente deveria seguir-se que, se alguém examinasse a lua horizontal detrás de uma parede, ela não apareceria maior do que o ordinário. Pois, nesse caso, a parede interpondo-se remove todo aquele prospecto de mar e terra, etc, o qual de outra maneira poderia ter aumentado a distância aparente da lua. Nem será suficiente dizer, mesmo então a memória sugere toda aquela extensão de terra, etc, a qual se estende dentro do horizonte, a qual sugere ocasiões a um súbito julgamento de sentido, que a lua está mais distante e é maior do que o usual. Pois, pergunte a qualquer homem que, a partir de uma semelhante posição, contemplando a lua horizontal, deva considerá-la maior do que o usual, se ele tem às vezes em sua mente qualquer ideia dos objetos intermediários, ou longa extensão de terra que se estenda entre seu olho e a borda extrema do horizonte? E se é essa ideia que é a causa dele fazer o julgamento supracitado? Sem dúvida, ele responderá na negativa, e declarará que a lua horizontal deve parecer maior do que a meridional, embora ele nunca pense sobre todas ou qualquer dessas coias que se estendem entre ele e ela. [E, quanto à absurdidade da introdução de qualquer ideia na mente por outra, que ao mesmo tempo não seja ela mesma percebida, isso já caiu sob nossa observação, e é evidente demais para necessitar de qualquer ampliação a mais sobre isso14.] Segundo, parece impossível, por essa hipótese, explicar o aparecimento [166]da lua, na mesma situação, maior em uma vez do que em outra; o que, mesmo assim, foi revelado ser muito conforme aos princípios que nós estabelecemos, e recebe uma explicação mais fácil e natural a partir deles. [15Para o esclarecimento adicional desse ponto, deve ser observado, que o que nós imediata e propriamente vemos são apenas luzes e cores em situações e tons, e graus de fraqueza e clareza, confusão e distinção diversos. Todos os objetos os quais estão apenas na mente; nem eles sugerem nada externo16, quer distância ou magnitude, de outra maneira que pela conexão habitual, como as palavras fazem coisas. Nós também devemos observar, que além do esforço dos olhos, e além de vividez e fraqueza, as aparências distinta e confusa (o que, portando alguma proporção com linhas e ângulos, tem sido substituído em vez deles na parte deste Tratado acima mencionada), há outros meios que sugerem tanto distância quanto magnitude – particularmente a posição de pontos ou objetos visíveis, como acima ou abaixo; o primeiro sugerindo uma distância a mais e maior magnitude, o segundo uma distância mais próxima e menor magnitude – tudo isso como um efeito apenas de costume e experiência, nada realmente havendo de intermediário na linha de distância entre o mais alto e o mais baixo, os quais são ambos equidistantes, ou melhor, a distância alguma do olho; assim como não há nada acima ou abaixo que, por conexão necessária, devesse sugerir magnitude maior ou menor. Agora, como esses meios experimentais costumeiros de sugerir distância sugerem da mesma maneira magnitude, assim eles sugerem uma tão imediatamente quanto a outra. Eu digo, eles primeiramente não sugerem (ver seção 53) a distância, e então deixam a mente inferir ou computar a partir dai a magnitude, mas sugerem a magnitude tão imediata e diretamente como eles sugerem a distância.]

78. Esse fenômeno da lua horizontal é uma instância clara da ineficiência de linhas e ângulos para explicar a maneira pela qual a mente percebe e estima a distância de objetos exteriores. Mesmo assim, há um uso de computação para eles17 - para determinar a [167]magnitude aparente das coisas, até onde elas tenham uma conexão com e sejam proporcionais às verdadeiras e imediatas ocasiões que sugerem à mente a magnitude aparente das coisas. Mas em geral isso pode, eu penso, ser observado relativo à computação matemática na óptica – que ela nunca18 pode ser muito precisa e exata19, uma fez que os julgamentos que nós fazemos da magnitude de coisas exteriores frequentemente dependem de várias circunstâncias que não são proporcionais a ou capazes de serem definidas por linhas e ângulos.

79. A partir do que foi dito, nós seguramente podemos deduzir esta consequência, a saber, que um homem nascido cego, e feito ver, à primeira abertura de seus olhos, faria um julgamento muito diferente da magnitude dos objetos introduzida por eles do que os outros fazem. Ele não consideraria as ideias da vista com referência a, ou como tendo alguma conexão com, as ideias do toque. A sua visão deles estando inteiramente limitada dentro deles mesmos, ele não pode julga-las de nenhuma outra forma grandes ou pequenos senão conforme eles contenham um número maior ou menor de pontos visíveis. Agora, sendo certo que qualquer ponto visível pode cobrir ou excluir da vista apenas um outro ponto visível, segue-se que, qualquer objeto que intercepte a visão de outro, tem um número igual de pontos visíveis que ele; e, consequentemente, eles ambos deverão ser considerados por ele como tendo a mesma magnitude. Consequentemente, é evidente que alguém naquelas circunstâncias julgariam seu polegar, com o qual ele poderia esconder uma torre, ou ocultar seu ser visto, igual àquela torre; ou sua mão, a interposição da qual poderia ocultar o firmamento de sua visão, igual ao firmamento; tanto faz quão grande desigualdade possa haver, em nossas percepções, parece ficar entre aquelas duas coisas, por causa da conexão costumeira e estreita que cresceu em nossas mentes entre os objetos da vista e do toque, através da qual as ideias muito diferentes e distintas daqueles dois sentidos estão tão misturadas e confundidas como a ser confundidas como uma e mesma coisa – preconceito do qual nós não podemos livrarmo-nos facilmente.

[168]80. Para uma melhor explicação da natureza da visão, e estabelecimento da maneira pela qual nós percebemos magnitudes em uma luz apropriada, eu deverei proceder a fazer algumas observações concernentes a questões relativas a isso, das quais a carência de reflexão, e da devida separação entre ideias tangíveis e visíveis, está apta para criar em nós noções confusas e equivocadas. E primeiro eu deverei observar que o mínimo visível é exatamente igual em todos os seres como quer que eles sejam dotados de faculdade visiva20. Nenhuma formação esquisita do olho, nenhuma agudeza peculiar da vista, podem torná-lo menor em uma criatura do que outra; ela não sendo distinguível em partes, nem de qualquer maneira consistindo nelas, ela deve necessariamente ser a mesma para todos. Pois, suponha-a de outra maneira, e que o mínimo visível de um ácaro, por exemplo, seja menor do que o mínimo visível de um homem; o último portanto pode, pela depreciação de alguma parte, ser tornado igual ao primeiro. Portanto, ele consiste de partes, o que é inconsistente com a noção de um ponto ou mínimo visível.

81. Talvez, será objetado que o mínimo visível de um homem realmente e em si mesmo contenha partes por meio das quais ele supera o de um ácaro. A isso eu respondo, o mínimo visível (de maneira semelhante a todos os outros objetos próprios e imediatos da vista) tendo sido revelado não ter nenhuma existência fora da mente daquele que o vê, segue-se que não pode haver qualquer parte dele que não seja atualmente percebida e, portanto, visível. Agora, para qualquer objeto conter várias distintas [169]partes visíveis e, ao mesmo tempo, ser um mínimo visível, é uma contradição manifesta.

82. Daqueles pontos visíveis, nós vemos em todas as ocasiões um número igual. Cada partícula é tão grande quando nossa visão é contraída e confinada por objetos próximos como quando ela é estendida para os maiores e mais distantes. Pois, sendo impossível que um mínimo visível deva obscurecer ou manter fora da visão mais do que um outro, é uma consequência simples que, quando minha está em todos os lados confinada pelas paredes do meu escritório, eu veja tantos pontos visíveis como eu poderia no caso que, pela remoção das paredes do escritório e todas as outras obstruções, eu tivesse um prospecto completo dos circunjacentes campos, montanhas, mar e firmamento aberto. Pois, enquanto eu estou encerrado dentro das paredes, pela interposição delas cada ponto dos objetos externos está coberto de minha visão. Mas, cada ponto que é visto sendo capaz de cobrir ou excluir da visão somente um outro ponto correspondente, segue-se que, enquanto minha visão está confinada por essas estreitas paredes, eu veja tantos pontos, ou mínimos visíveis, quanto eu deveria estivessem essas paredes longe, ao olhar para todos os objetos externos cujo o prospecto é interceptado por elas. Portanto, sempre que nos é dito ter um prospecto maior em uma ocasião do que eme outra, isso precisa ser entendido com relação não aos objetos próprios e imediatos da visão, mas aos secundários e mediatos – os quais, como nós revelamos, pertencem propriamente ao toque.

83. A faculdade visiva, considerada com referência aos seus objetos imediatos, pode ser descoberta laborar em dois defeitos. Primeiro, com respeito à extensão ou ao número de pontos visíveis que são perceptíveis de uma vez, o qual é estreito e limitado a um certo grau. Ele pode tomar uma visão apenas um certo número determinado de visíveis mínimos, além do qual ele não pode estender seu prospecto. Segundo, nossa vista é defeituosa no que ela não é apenas estreita, mas também, pela maior parte, confusa. Daquelas coisas que nós tomamos em um prospecto, nós podemos ver apenas poucos de uma vez clara e sem confusão; e quanto mais nós fixarmos nossa vista em qualquer objeto, por tanto mais escuro e mais indistinto deverá o resto aparecer.

84. Correspondendo a esses dois defeitos da vista, nós podemos imaginar tantas imperfeições, a saber, 1º. Aquela de compreender em uma visão um grande número de pontos visíveis; [170]2º de ser capaz de os ver todos igualmente e de uma vez, com clareza e distinção máximas. Que essas imperfeições não estejam efetivamente em algumas inteligências de uma ordem e capacidade diferentes da nossa,é impossível para nós sabermos21.

85. Em nenhuma dessas duas manerias os microscópios contribuem para o aperfeiçoamento da vista. Pois, quando nós olhamos através do microscópio, nós nem vemos mais pontos visíveis, nem ficam os pontos colaterais mais distintos, do que quando nós olhamos com olhos para objetos posicionados à distância devida. Um microscópio traz-nos, por assim dizer, para um novo mundo. Mas nisso consiste a diferença mais notável, a saber, que, visto que os objetos percebidos pelo olho sozinho têm uma certa conexão com os objetos tangíveis, através da qual nós somos ensinados a prever o que acontecerá em consequência de nossa aproximação ou da aplicação dos objetos distantes às partes de nosso próprio corpo – o que muito conduz para sua preservação22 - não há conexão semelhante entre coisas tangíveis e aqueles objetos visíveis que são percebidos pela ajuda de um microscópio fino.

86. Consequentemente, é evidente que, houvessem nossos olhos tornado-se na natureza dos microscópios, nós não deveríamos ser muito beneficiados pela mudança. Nós deveríamos ser privados das vantagens mencionadas que nós atualmente recebemos pela faculdade visiva, e ter deixado-nos apenas com o vazio divertimento de ver, sem qualquer outro dos benefícios surgindo dele. Mas, nesse caso, talvez será dito, nossa vista seria dotada com uma agudeza e penetração bastante maiores do que tem agora. Mas eu me inclinaria a saber no que consiste essa agudeza que é estimada como uma excelência tão grande da vista. É certo, a partir do que nós já revelamos23, que o mínimo visível nunca é maior ou menor, mas, em todos os casos, constantemente o mesmo. E no caso dos olhos microscópicos, eu apenas vejo esta diferença, a saber, que e consequência da cessação de uma certa conexão observável entre as diversas percepções da vista e do toque, a qual antes nos capacitara a [171]regular nossas ações pelo olho, ele agora seria tornado completamente inutilizável para esse propósito.

87. No todo, parece que, se nós considerarmos o uso e objetivo da vista, junto com o estado e condições presentes de nosso ser, nós não devemos encontrar qualquer grande causa para nos queixarmos de qualquer defeito ou imperfeição nele, ou facilmente conceber como ele poderia ser corrigido. Com tal sabedoria é essa faculdade planejada, tanto para o prazer quanto para a conveniência da vida.


Próxima parte


ORIGINAL:

BERKELEY, G. An Essay towards a New Theory of Vision. First published in 1709. IN:______. The Works of George Berkeley. Oxford: Clarendon Press, 1901. p.158-171. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofberkeley01berkuoft/page/158/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1 [158]Nas seções 67-78, Berkeley tenta verificar a explicação acima mencionada dos sinais de Tamanho, aplicando-a para resolver um fenômeno, a causa do qual fora muito debatida entre os homens de ciência – a magnitude visível de corpos celestes quando vistos no horizonte.

2 [159]Cf. seção 10.

3 [160]Omitido na última edição pelo autor. Cf. seções 76, 77 – A explicação em questão é atribuída a Alhazém, e por Bacon a Ptolomeu, enquanto ela é sancionado por eminentes nomes científicos antes e depois de Berkeley.

4 ‘Quarto’ na segunda edição. Compare o que se segue com a seção 74. Por que ‘menor’?

5 Quando Berkeley, alguns anos mais tarde, visitou a Itália, ele observou que objetos distantes pareciam muito mais próximos do que eles realmente estavam – um fenômeno que ele atribuiu a comparativa pureza do ar do sul.

6 [163]Ou seja, a percepção original, independentemente de qualquer operação sintética de sugestão e pensamento inferencial, fundada em sinais visuais.

7 [164]Em Almagest, II. Lib. X. sect. 6. quest. 14, por Riccioli, nós temos uma explicação de muitas hipóteses então correntes, na explicação da aparente magnitude da lua horizontal.

8 ‘Epistolae quatuor de apparente magnitudine solis humilis et sublimis.’, de Gassendi – Opera, tom. III. pp. 420-470. Cf. apêndice deste Essay, p. 110.

9 Ver Dioptrique, VI.

10 Opera Latina, vol. I. p. 376, vol. II. pp. 26-62; English Works, vol. I. p. 462 (Edição de Molesworth.)

11 O artigo nas Transactions é de Molyneaux.

12 Ver Optics, pp. 64-67 e Remarks, pp. 48 etc, por Smith. Na p. 55 a New Theory de Berkely é referida e afirmada estar em desacordo com a experiência. Smith conclui dizendo que em ‘a segunda edição do Essay de Berkeley, e também em uma Vindicação e Explicação dele (chamado de a Linguagem Visual), muito recentemente publicada, o autor fez algumas adições a sua solução do dito fenômeno; mas vendo-a ainda envolver o princípio da fraqueza (faintness), eu posso deixar o resto dela para a consideração do leitor.’ Essa, que apareceu em 1738, é uma das muito poucas referências iniciais à New Theory of Vision Vindicated, de Berkeley.

13 [165]Seções 2-51.

14 Essa sentença está omitida na última edição do autor.

15 [166]O que se segue, até o fim desta seção, não está contido na primeira edição.

16 Ou seja, tangível.

17 Cf. seção 38; e Theory of Vision Vindicated, seção 31.

18 [167]‘Nunca’ – ‘dificilmente,’ na primeira edição.

19 Cf. Apêndice, p. 208. - Ver Optics, B. I ch. v, e Remarks, p. 56, por Smith, onde ele ‘deixa para ser considerado, se o dito fenômeno não é uma instância tão clara da insuficiência da fraqueza (faintness)’ como de computação matemática.

20 [168]Uma doutrina favorita de Berkeley, segundo a qual não pode haver magnitude visível absoluta, o mínimo sendo o menor que é perceptível de cada sujeito que vê e, dessa maneira, relativo à sua capacidade visual. Essa seção é criticada desta maneira, em janeiro de 1752, em uma carta assinada ‘Anti-Berkeley,’ em o Gent. Mag. (vol. XXII. p.12): ‘Sobre o que sua senhoria afirma com respeito ao mínimo visível, eu gostaria de observar que é certo que haja infinitos animais que sejam imperceptíveis ao olho nu, e não possam ser percebidos senão com a ajuda de um microscópio; consequentemente, há animais cujos corpos inteiros são muito menores do que o mínimo visível de um homem. Sem dúvida esses animais têm olhos, e, se o mínimo visível deles fosse igual àquele de um homem, seguir-se-ia que eles não poderiam perceber nada senão o que fosse muito mais lago do que o corpo inteiro deles; e, portanto, o corpo inteiro deles deveria ser invisível para eles, porque nós sabemos que eles são invisíveis aos homens, o mínimo visível de quem, é afirmado por vossa senhoria ser igual ao deles.’ Há algum equívoco nisso. Cf. Apêndice ao Essay, p. 209.

21 [170]Esses dois defeitos pertencem à consciência humana. Ver Essay, I. 10, por Locke, sobre os defeitos da memória humana. É essa imperfeição que torna o raciocínio necessário – para auxiliar a intuição finita. De uma vez só, o raciocínio é sinal de nossa dignidade e de nossa fraqueza.

22 Seção 59.

23 Seção 80-82.

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