Por George Berkeley
[152]52. Agora, eu terminei com a Distância e prossegui para revelar como é que nós percebemos a Magnitude de objetos1 pela vista. É opinião de alguns que nós fazemo-lo por meio de ângulos, ou por ângulos em conjunção com distância. Mas, nem ângulos nem distância sendo perceptíveis pela vista2, e as coisas que nós vemos verdadeiramente [não estando] há nenhuma distância de nós3, segue-se que, como nós revelamos, linhas e ângulos não são o meio do qual a mente faz uso na apreensão da posição aparente, assim nem são eles o meio pelo qual ela apreende a magnitude aparente de objetos.
53. É bem conhecido que a mesma extensão a uma distância próxima deve subtender um ângulo maior, e, a uma distância maior, um ângulo menor. E através desse princípio (conta-se a nós) a mente estima a magnitude de um objeto4, comparando o ângulo sob o qual ele é visto com sua distância, e daí inferindo a magnitude dele. O que inclina os homens a esse erro (além do humor de fazer alguém ver através de geometria) é, que as mesmas percepções ou ideias que sugerem distância também sugerem magnitude. Mas, se examinarmos, nós deveremos descobrir que elas sugerem a segunda tão imediatamente quanto a primeira. Eu digo, elas não sugerem primeiro a distância e depois deixam-na ao julgamento para a usar como um meio através do qual captar a magnitude; mas elas têm uma conexão tão próxima e imediata com a magnitude quanto com a distância; e sugerem a magnitude como independentemente da distância, como elas sugerem a distância independentemente da magnitude. Tudo que será evidente para quem quer que considere o que já foi dito e o que se segue.
54. Foi revelado que há dois tipos de objetos apreendidos pela vista, cada qual tem sua distinta magnitude, ou extensão – uma, propriamente tangível, isto é, a ser percebida e medida pelo toque, e não caindo imediatamente sob o sentido da visão; a outra, propria e imediatamente visível, pela mediação da qual a primeira é trazida à vista. Cada uma dessas magnitudes são maiores ou [153]menores, de acordo com que elas contenham nelas mais ou menos pontos, elas sendo formadas de pontos ou mínimos. Pois, o que quer que possa ser dito da extensão sensível em abstrato5, certa extensão não é infinitamente divisível6. Há um tangível mínimo, e um visível mínimo, além do qual o sentido não pode perceber. Isso a experiência de cada um informar-lhe-á.
55. A magnitude de um objeto que existe fora da mente, e está à distância, continua sempre invariavelmente a mesma: mas, o objeto visível ainda mudando conforme você aproxima-se ou recua do objeto tangível, ele não tem grandeza fixa e determinada. Portanto, sempre que nós falamos da magnitude de qualquer coisa, por exemplo, de uma árvore ou uma casa, nós precisamos querer dizer a magnitude tangível; caso contrário, não pode haver nada firme e livre de ambiguidade dito dela7. Agora, embora a magnitude tangível e visível verdadeiramente pertençam a dois objetos8 distintos, ainda assim, eu deverei (especialmente uma vez que aqueles objetos são chamados pelo mesmo e observados coexistir9), para evitar enfado e excentricidade no falar, algumas vezes falar deles como pertencendo a uma e mesma coisa.
56. Agora, a fim de descobrir por qual meio a magnitude de objetos tangíveis é percebida pela vista, eu apenas necessito refletir sobre o que se passa na minha própria mente, e observar quais são aquelas coisas pelas quais eu introduzo as ideias de maior ou menor em meus pensamentos quando eu olho para qualquer objeto. E essas eu descubro ser, primeiro, a magnitude ou extensão do objeto visível, a qual, sendo imediatamente percebida pela vista, está conectado com aquela outra que é tangível e está posicionada à distância; segundo, a confusão ou distinção: e terceiro, o vigor ou fraqueza da aparência visível [154]acima mencionada. Caeteris paribus, por quão maior ou menor o objeto visível está, por tanto maior ou menor eu concluo o objeto tangível ser. Mas, seja a ideia imediatamente percebida pela vista nunca tão grande, todavia, se ela for ao mesmo tempo confusa, eu julgo a magnitude da coisa ser apenas pequena. Se ela for distinta e clara, eu julgo-a maior. E, se ela for fraca, eu aprendo-a ser ainda maior. O que aqui se quis dizer por confusão e fraqueza foi explicado na seção 35.
57. Além disso, os julgamentos que nós fazemos da grandeza, de maneira semelhante àqueles da distância, dependem da disposição do olho; também da figura, número e situação10 do objetos intermediários, e outras circunstâncias que tem sido observadas assistirem grandes ou pequenas magnitudes tangíveis. Dessa maneira, por exemplo, exatamente a mesma quantidade de extensão visível que, na figura de uma torre, sugere a ideia de grande magnitude deverá, na figura de um homem, sugerir a ideia de magnitude muito menor. Que isso é devido à experiência que nós temos tido da usual grandeza (bigness) de uma torre e um homem, ninguém, eu suponho, necessita ser informado.
58. Também é evidente que confusão ou fraqueza não têm conexão mais necessária com magnitude grande ou pequena do que elas têm distância pequena ou grande. Como elas sugerem as segundas, assim elas sugerem as primeiras a nossas mentes. E, por consequência, se não fosse por experiência, nós não julgaríamos mais um aparecimento fraco ou confuso estar conectado a uma magnitude grande ou pequena do que nós julgaríamos de que ele está conectado a uma distância grande ou pequena.
59. Nem será constatado que magnitude visível grande ou pequena tem qualquer conexão necessária com magnitude tangível grande ou pequena – de maneira que uma possa certa e infalivelmente ser inferida a partir da outra. Mas, antes que nós cheguemos à prova disso, é apropriado considerarmos a diferença que há entre a extensão e figura que são os objetos próprios do toque e aquelas outras que são denominadas de visível; e como as primeiras são principalmente, embora não imediatamente, observadas quando nós olhamos para qualquer objeto. Isso já foi mencionado11 antes, mas nós deveremos aqui inquirir sobre a causa disso. Nós consideramos os objetos que nos cercam em proporção a como eles estão adaptados a beneficiar ou prejudicar nossos próprios [155]corpos, e, portanto, a produzirem em nossas mentes as sensações de prazer ou dor. Agora, corpos operando sobre nossos órgãos por uma aplicação imediata, e o dano ou vantagem surgindo disso dependendo completamente das qualidades tangíveis e, em absoluto, não visíveis de qualquer objeto – isso é uma razão simples para que aqueles devessem ser considerados por nós muito mais do que esses. E para esse fim [principalmente12] o sentido visivo parece ter sido concedido aos animais, a saber, que, pela percepção de ideias visíveis (as quais em si mesmas não são capazes de afetar ou de maneira alguma alterar a estrutura de nossos corpos), elas podem ser capazes de prever (foresee) 13(a partir da experiência que elas tem tido de que ideias tangíveis estão conectadas com tais e tais ideias visíveis) o dano ou benefício que é provável de suceder diante da aplicação de seus próprios corpos a este ou àquele corpo que está à distância. Previsão essa que, quão necessária é para a preservação de um animal, a experiência de cada um pode informar-lhe. Consequentemente é que, quando nós olhamos para um objeto a figura tangível e extensão estão principalmente assistidas; ao passo que pequena atenção é prestada à figura visível e magnitude, as quais, embora mais imediatamente percebidas, menos sensivelmente nos afetam, e não são adequadas para produzirem qualquer alteração em nossos corpos.
60. Que a questão de fato é verdadeiro para qualquer um quem considere que um homem posicionado a dez pés de distância é considerado tão grande como se ele estivesse posicionado a apenas cinco pés; o que é verdadeiro, não com relação à grandeza visível, mas à tangível do objeto: a magnitude sendo muito maior em uma posição do que na outra.
61. Polegadas (inches), pés (feet), etc., são comprimentos estabelecidos, especificados, por meio dos quais nós medimos objetos e estimamos as magnitudes deles. Por exemplo, nós dizemos que um objeto parece ter seis polegados, ou ter seis pés de comprimento. Agora, que isso não pode ser pretendido de polegadas visíveis, etc, é evidente, porque uma polegada visível não é em si mesma magnitude14 determinada constante, e, portanto, não pode servir para estabelecer os limites e determinar a magnitude de qualquer [156]outra coisa. Tome uma polegada marcada sobre uma régua; veja-a sucessivamente, à distância de meio pé, de um pé, de um pé e meio, etc, a partir do olho: em cada uma das quais, e em todas as distâncias intermediárias, a polegada deverá ter uma diferente extensão visível, isto é, deverá haver mais ou menos pontos discernidos nela. Agora, eu pergunto; qual dentre todas essas várias extensões é aquela determinada estabelecida que é concordada como a mediada comum de outras magnitudes? Nenhuma razão pode ser atribuída porque nós deveríamos escolher uma mais do que a outra. E, exceto haja alguma extensão determinada invariável fixada para ser marcada pela palavra polegada, é simples que ela pode ser usada para pouco propósito; e, dizer que uma coisa contém este ou aquele número de polegas, não deveria implicar mais do que [dizer] que é extensa, sem trazer qualquer ideia particular daquela extensão para dentro da mente. Adicionalmente, uma polegada e um pé, a partir de distâncias diferentes, ambos deverão exibir a mesma magnitude visível, e contudo, ao mesmo tempo, você deverá dizer que um parece várias vezes maior do que o outro. De tudo isto está manifesto que os julgamentos que nós fazemos da magnitude de objetos pela vista são completamente em referência às extensões tangíveis deles. Sempre que nós dizemos que um objeto é grande ou pequeno, nessa ou naquela medida determinada, eu digo, precisa ser pretendido da tangível e não da extensão15 visível, a qual, embora imediatamente percebida, não obstante, é pouco notada.
62. Agora, que não há conexão necessária entre essas duas extensões distintas é evidente a partir disto – porque nossos olhos poderiam ter sido estruturados de uma maneira tal como a ser capazes de ver nada senão o que fosse menos do que o mínimo tangível. Caso no qual não é impossível que nós pudéssemos ter percebido todos os objetos imediatos da vista da exata mesma maneira que nós vemos agora; mas aquelas aparências visíveis não teriam estado conectadas àquelas diferentes magnitudes visíveis que agora estão. O que revela que os julgamentos que nós fazemos da magnitude de coisas posicionadas a uma distância, a partir das várias grandezas dos objetos imediatos da vista, não [157]surgem a partir de qualquer ligação essencial ou necessária, mas uma apenas costumeira, a qual tem sido observada entre eles.
63. Além disso, não é apenas certo que qualquer ideia da vista poderia ser conectada com esta ou aquela ideia do toque nós observamos acompanhá-la, mas também que as maiores magnitudes visíveis poderiam ter estado conectadas com e introduzir em nossas mentes menores magnitudes tangíveis, e as menores magnitudes visíveis, as maiores magnitudes tangíveis. Ou melhor, de que atualmente é assim, nós temos experiência diária – que o objeto que faz um aparecimento forte e grande não parece de perto tão grande como outro de magnitude visível do qual é muito menor, mas mais fraco,16 e o aparecimento mais alto, ou o que é a mesma coisa, pintado mais baixo na retina, cuja a fraqueza e situação sugerem tanto magnitude maior quanto distância maior.
64. A partir do que, e a partir das seções 57 e 58, é manifesto que, como nós não percebemos a magnitude de objetos imediatamente pela vista, assim nenhum de nós percebe-os pela mediação de qualquer coisa que tem uma conexão necessária com eles. Aquelas ideias que agora sugerem-nos as várias magnitudes de objetos externos antes que nós toquemo-los não poderiam, possivelmente, ter sugerido uma tal coisa; ou elas poderiam ter significado-os em maneira diretamente contrária, de maneira que as mesmas ideais sobre a percepção das quais nós julgamos um objeto ser pequeno também nos serviram para conclui-lo grande; - aquelas ideias sendo por sua própria natureza igualmente aptas a trazerem para dentro de nossas mentes a ideia de pequeno ou grande, ou de absolutamente nenhum tamanho, de objetos externos17, exatamente como as palavras de qualquer linguagem são, pela própria natureza delas, indiferentes para significarem essa ou aquela coisa, ou absolutamente nada.
65. Como nós vemos a distância assim nós vemos a magnitude. E nós vemos ambas da mesma maneira que nós vemos vergonha e raiva na expressão de um homem. Aquelas paixões são elas mesmas invisíveis; no entanto, elas são deixadas entrar pelo olho junto com as cores e alterações de semblante que são o objeto imediato da visão, e que lhes significam por nenhuma outra razão senão que, por muito pouco, elas tem sido observadas acompanhando-os. Sem essa experiência não deveríamos [158]mais tomar o rubor por um sinal de vergonha do que de alegria.
66. No entanto, nós estamos excessivamente propensos a imaginarmos aquelas coisas que apenas são percebidas pela mediação de outras serem elas mesmas os objetos imediatos da vista, ou, pelo menos, ter na própria natureza delas uma aptidão para serem sugeridas por elas antes mesmo que elas tenham sido experienciadas coexistir com elas. A partir do preconceito do qual cada um talvez não considerará fácil emancipar-se, por qualquer uma das mais claras convicções da razão. E há alguns fundamentos para pensar que, se houvesse apenas uma única linguagem invariável e universal no mundo, e que os homens nascessem com a faculdade de falá-la, seria a opinião de alguns, que as ideias nas mentes de outros homens seriam propriamente percebidas pelo ouvido, ou, pelo menos, teriam uma necessária e inseparável ligação som os sons que fossem afixados a elas. Tudo isso parece surgir a partir do desejo de uma aplicação devida de nossa faculdade de discernimento, para assim distinguir entre as ideias que estão em nossos entendimentos, e considerá-las separadas umas das outras; o que nos preservaria de confundir aquelas que são diferentes, e far-nos-ia ver que ideias incluem-se em ou implicam, ou não se incluem nem implicam, essa ou aquela outra ideia18.
ORIGINAL:
BERKELEY, G. An Essay towards a New Theory of Vision. First published in 1709. IN:______. The Works of George Berkeley. Oxford: Clarendon Press, 1901. p.152-158. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofberkeley01berkuoft/page/152/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1[152]As seções 52-87 tratam da invisibilidade da magnitude real, a saber, tátil. Cf. Theory of Vision Vindicated, seções 54-61.
2Seções 8-15.
3Seções 41, etc.
4Ver Treatise on Dioptrics, B. I. prop. 28, de Molyneux.
5[153]Ver seções 122-126.
6Em resumo, há um ponto no qual, com nosso sentido limitado, nós cessamos de ser perceptivos de cor, na visão; e de resistência, na locomoção. Embora Berkeley considerasse toda as extensões visíveis como sensíveis, e portanto dependentes de serem realizadas pela mente senciente para a realidade delas, ele não quer dizer que a mente ou consciência é extensa. Com ele, a extensão, embora ela exista apenas na mente, - ou seja, como uma ideia vista, no caso da extensão visível, e como uma ideia tocada, no caso da extensão tangível, - todavia, não é uma propriedade da mente. A mente pode existir sem ser percipiente da extensão, embora a extensão não possa ser realizada sem a mente.
7 Mas isso é verdadeiro, embora menos obviamente, dos objetos tangíveis assim como dos visíveis.
8 Seção 49.
9 Cf. seções 139, 140, etc.
10 [154]‘situação’ – não presente em edições anteriores.
11 Seção 55.
12 [155]Omitido pelo autor na última edição.
13 A vista ordinária é virtualmente previsão (foresight). Cf. seção 85 – Ver também Malebranche sobre os sentidos externos como concebidos primariamente para as necessidades urgentes da vida corporificada, não imediatamente para transmitir conhecimento científico, Recherche, Liv. I. ch. 5, 6, 9, etc.
14 Seção 44 – ver também a seção 55 e a nota.
15 [156]Isso supõe tangibilia ‘estabelecidos,’ mas não visibilia ‘estabelecidos.’ Todavia, a extensão visível dada na experiência de toque e locomotiva também é relativa – um objeto sendo sentido tão maior ou menos de acordo com o estado do organismo, e as outras condições de nossa percepção corporificada.
16 [157]O que se segue, até o final da seção 63, foi adicionado pelo autor na última edição.
17 ‘Objetos externos,’ ou seja, objetos dos quais nós somos percipientes na experiência tátil, tomados neste Ensaios provisoriamente como os objetos exteriores reais. Ver Princípios, seção 44.
18 [158]Cf. seção 144. Note-se, nesta e nas três seções anteriores, a ênfase colocada na arbitrariedade da conexão entre os sinais que sugerem magnitudes, ou outros modos de extensão, e os seus significados. Esse é o fundamento da Nova Teoria; a qual, dessa maneira, resolve a causalidade física em uma relação de sinais com o que eles significam e predizem – análoga à relação entre palavras e seus significados aceitos.
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