terça-feira, 20 de setembro de 2022

Uma Introdução à Epistemologia 8 Epistemologias Feministas (FINAL)

Uma Introdução à Epistemologia


Capítulo 7


8 Epistemologias Feministas (FINAL)


Por Monica C. Poole


Resultados de Aprendizagem do Capítulo

Ao completar este capítulo, os leitores serão capazes de:

  1. Discutir conceitos importantes em epistemologias feministas, incluindo: ponto de vista, conhecimento situado, gaslightining, ignorância baseada em poder, vantagem epistêmica, injustiça epistêmica e epistemologias de resistência.

  2. Identificar algumas filósofas significantes contribuindo para epistemologias feministas.

  3. Contextualizar as epistemologias feministas em relação a outras conversas significantes em epistemologia.

  4. Aplicar conceitos de epistemologias feministas a situações de vida real (por exemplo, em eventos correntes, cultura pop e experiências vividas).


INTRODUÇÃO


O título deste capítulo é plural – epistemologias feministas – porque não há uma unificada epistemologia feminista. De fato, as epistemologias feministas valorizam a pluralidade: colaboração entre múltiplas perspectivas resulta em conhecimento mais completo conhecimento válido. Uma das mais significantes filósofas contemporâneas para as epistemologias feministas é Patricia Hill Collins. O trabalho de Collins estabeleceu um paradigma, pelos últimos trinta anos, da epistemologia feminista. Em Black Feminist Thought, Collins escreveu que a epistemologia “investiga os padrões usados para avaliar o conhecimento ou porque nós acreditamos no que nós acreditamos ser verdadeiro. Muito longe de ser o estudo apolítico da verdade, a epistemologia aponta para os caminhos nos quais as relações de poder dão forma a quem se acredita e porquê” ([1990] 2000, 252).


Patricia Hill Collins durante uma conferência no Brasil. Fotografia por Valter Campanato/Agência Brasil via Wikimedia Commons. Licença: CC BY 3.0 BR.

Algumas vezes essa abordagem tem sido criticada como uma “poluição” inapropriada da epistemologia por considerações políticas, especialmente quando praticada por filósofos que são pessoas de cor ou mulheres (ou ambas). Respondendo a algumas dessas críticas, Linda Martín Alcoff localizou as epistemologias feministas em uma longa história da epistemologia politicamente sintonizada. Ela identificou vários filósofos europeus masculinos, tradicionalmente ressaltados na história da epistemologia, tais como John Locke (1632-1704), Immanuel Kant (1724-1804) e Bertrand Russell, quem abertamente declararam os méritos políticos de suas posições epistemológicas (1999, 73-74). Em última análise, as epistemologias feministas não separam a epistemologia da ética ou política: investigações sobre o conhecimento são consideradas em relação a investigações sobre o certo e o errado, bem como o poder e a opressão.

O trabalho publicado em epistemologias feministas aumentou significativamente durante os seculos XX e XXI, e este capítulo focar-se-á no período contemporâneo. Todavia, as epistemologias feministas são antigas, exatamente como a epistemologia em geral. Algumas vezes, há uma percepção errônea de que filosofia feminista é uma relativa recém-chegada no interior da filosofia. Para que o foco contemporâneo deste capítulo não se arrisque a reforçar esse erro, façamos uma pausa para ressaltar umas poucas contribuições pré-modernas.1 Por exemplo, considere o texto do segundo século do mediterrâneo oriental conhecido como o Gospel of Mary, o qual se encaixa nas tradições filosóficas contemporâneas do cristianismo helenístico e gnóstico (King 2003). O Gospel de Mary engaja-se com temas familiares a filósofo(a)s trabalhando em epistemologias feministas hoje em dia, como o fazem as contribuidoras medievais e do começo da modernidade para o campo – por exemplo, Hildegard de Bingen (1098-1179), Mary Astell (1666-1731) e (mais significantemente) Juana Inés de la Cruz (ca. 1651-1695). Esses incluem os limites do conhecimento, as consequências da ignorância, o relacionamento entre as emoções e a credibilidade e, talvez mais agudamente, a refutação de oponentes que alegavam que a identidade de gênero dessas filósofas diminuía a autoridade dela como conhecedoras (knowers).


Retrato da Sorór Juana Inés de la Cruz, por Miguel Cabrera, via Wikimedia Commons. Essa obra está no domínio publico.

Embora uma ampla variedade de ideias possam ser incluídas sob o guarda-chuva de “epistemologias feministas,” há vários temas recorrentes que foram usados para estruturar este capítulo:

  • Todo conhecimento é conhecimento situado: o conhecimento não existe em um vácuo; todo conhecimento vem de alguém e de algum lugar, e de onde você vem (seu ponto de vista) dá forma a como você aborda o conhecimento.

  • Experiências vívidas são conhecimento: experiências da vida real, em primeira pessoa, contribuem para o conhecimento, validam a credibilidade de um conhecedor e dão forma ao seu ponto de vista.

  • O poder dá forma ao conhecimento; a posição relativa de um conhecedor em hierarquias de poder social contribui para maior conhecimento ou ignorância mais profunda.

  • Com o conhecimento vem a responsabilidade: o conhecimento que alguém constrói tem consequências reais para pessoas reais, e um conhecedor é pessoalmente responsável por uma ou mais comunidades, por como eles “produzem conhecimento”.

  • O conhecimento surge através de colaboração: o conhecimento mais completo é criado através de um diálogo e colaboração “caleidoscópicos,” refletindo múltiplos diferentes pontos de vista. Isso inclui diálogo em um sentido literal, interpessoal, mas incorpora um entendimento mais amplo de colaboração, onde não está limitado à interação social imediata, em tempo real.

Por fim, este capítulo se foca em epistemologias feministas, e isso inclui tópicos em epistemologias feministas que interceptam outras conversas em epistemologia tais como epistemologias queer, epistemologias aleijadas (crip)(da deficiência (disability)), epistemologias críticas da raça e epistemologias pós-coloniais. Para adaptar a máxima de Audre Lorde (1982), não há epistemologias de questão única (single-issue), porque nós não vivemos vidas de questão única (single-issue).


CONHECIMENTO SITUADO E PONTO DE VISTA (STANDPOINT)

CAIXA 1 Ceticismo sobre Objetividade

Juíza Associada da Suprema Corte Sonia Sotomayor, por Steve Petteway, a partir da Collection of the Supreme Court of the United States, via Wikimedia Commons. Esse trabalho está no domínio publico.

Quando Sonia Sotomayor foi nomeada para servir como um dos nove Ministros da Suprema Corte dos EUA em 2009, o diálogo público durante as audiências de confirmação focou-se em uma questão profundamente epistemológica: juízes podem – e deveriam – ser objetivos?

Em uma conferência em 2001 na Universidade da Califórnia em Berkeley, Sotomayor ressaltara o valor de uma “sábia mulher latina” os julgamentos de quem são informados pela “riqueza de suas experiências.” Sotomoayor observou: “As experiências pessoais afetam os fatos que os juízes escolher ver” (Sotomayor [2001] 2009). Essa fala ressurgiu durante suas audiências de confirmação em 2009. Os críticos objetaram que Juízes da Suprema Corte deveriam ser “objetivos” e “neutros.” Os defensores argumentaram que qualquer um interpreta fatos e observações através das “lentes” de suas próprias experiências, e ressaltaram o reconhecimento disso por Sotomayor como uma demonstração de honestidade e responsabilidade.

Esse foi um debate público sobre uma questão epistemológica: humanos podem conhecer objetivamente alguma coisa? Há uma “visão a partir de lugar nenhum (view from nowhere)” – você poderia perceber alguma coisa no mundo a partir de um ponto de vantagem perfeitamente neutro? Ou, deveriam reivindicações de “objetividade” ser vistas com suspeita?

No capítulo anterior, “Epistemologia Social,” você encontrou o conceito de conhecimento situado – conhecimento “situado” em relação ao ponto de vista do conhecedor (Haraway 1992, 313). Nas palavras de Paula Moya, “todo conhecimento é conhecimento situado”; ninguém pode “determinar verdades universais independentes de situação histórica e culturalmente específica” (2011, 80). Isso não significa que não existam verdades universais – apenas que nós humanos não podem as perceber com uma “visão a partir de lugar nenhum,” o tipo de perspectiva frequentemente descrita como “objetiva.”


Donna Haraway e seu cão Cayenne, por Rusten Hogness, via Wikimedia Commons. Licença: CC BY-SA 3.0.

O conhecimento situado é um conceito fundacional em epistemologias feministas. Há dois conceitos relacionados para entender: localização social e ponto de vista. A sua localização social é definida por como você experiencia misoginia, supremacia branca, imperialismo, perseguição religiosa, conflito de classe e outras dinâmicas de poder e opressão. O seu ponto de vista (standpoint) epistêmico é a perspectiva que você tem como um conhecedor, informado por sua localização social. Conhecimento situado significa que o conhecedor tem um ponto de vista. O ponto de vista de um conhecedor influencia como o que ele percebe, o que ele ignora e como ele interpreta informação. Filósofos frequentemente usam “dominantes” ou “dominantemente situados” para descrever conhecedores que controlam mais poder social e “marginalizados” ou “oprimidos” para descrever conhecedores que estão relativamente excluídos do poder.

CAIXA 2 Ponto de Vista

Ponto de vista (standpoint)” é um termo para um conceito abstrato, mas ele está enraizado em uma realidade muito concreta: a visão de que quando você se coloca aqui é diferente da visão de quando você se coloca ali.

Imagine que você e um amigo saem para assistir a um concerto ou evento esportivo. Está muito lotado para encontrarem dois assentos juntos, assim, vocês concordam em encontrarem um assento separado para cada um e depois se encontrarem para discutir a experiência. Quando se encontra com ele depois, você compreende que, embora os dois estivessem no mesmo evento, vocês entenderam-no diferentemente, dependendo que onde vocês estavam sentados. Talvez você esteja falando sobre um de seus momentos favoritos, mas seu amigo escassamente o notou, pois ele estava distante demais dele. Talvez você e seu amigo ambos discordem sobre como interpretar alguma coisa que os dois vocês viram: talvez, a partir de seu ângulo, o árbitro tenha tomado uma decisão (call) ruim, mas, a partir do ângulo do seu amigo, a decisão do árbitro pareceu perfeitamente justificada. O filme Rashomon (1950), de Akira Kurosawa, explorou essa multiplicidade de verdades de uma maneira crítica; algumas vezes, esse fenômeno geral é descrito como “o efeito Rashomon.”

É claro, em epistemologia, o ponto de vista torna-se mais complicado – especialmente porque você tem de considerar muitas camadas de dinâmicas de poder. Mas o centro dele é esta simples analogia: vocês dois estavam em um estádio, espectadores no mesmo evento, mas a visão a partir do seu assento era diferente da visão a partir do assento do seu amigo.

Questões epistemológicas são questões éticas: questões sobre conhecimento são inseparáveis de questões sobre justiça. O reconhecimento de seu ponto de vista por Sotomayor está em alinhamento com as epistemologias feministas. Como Patricia J. Williams escreve, abandonar o mito da objetividade e reconhecer o ponto de vista de alguém promove “responsabilidade legal e social,” porque “muito do que é falado em vozes assim chamadas de objetivas, não mediadas, está, de fato, atolado em subjetividades ocultas e alegações não examinadas” que desumanizam um outro (1991, 11). Uma “visão a partir de nenhum lugar” é impossível, aliás, esforçar-se por ela produz conhecimento não confiável poluído com vieses não reconhecidos. Contudo, reconhecer de onde você está vindo é epistemicamente virtuoso: o seu conhecimento está situado em um contexto, e você pode ser responsabilizado por ele.


MUDANDO O PONTO DE VISTA, MUDANDO O CONHECIMENTO


O ponto de vista e a experiência vivida são centrais em epistemologias feministas, e a conexão desses dois elementos conduziu epistemologias feministas a firmarem-se em outra questão vital: como o seu conhecimento muda quando o seu ponto de vista muda? Conforme você vive através de várias experiências ao longo do curso de sua vida, o seu ponto de vista muda – certamente de maneiras pequenas, algumas vezes de maneiras grandes. Explorar algumas opiniões de poucos filósofos sobre como mudanças em pontos de vista se relacionam a mudanças em conhecimento aprofundará e melhora nossa aplicação no mundo real das teorias de pontos de vista.


A. Gênero

Uma perspectiva importante é oferecida por Veronica Ivy (anteriormente conhecida como Rachel McKinnon). Ivy é uma professora de filosofia trabalhando em epistemologias feministas; ela também é uma mulher transgênero. Em um artigo recente, ela inquiriu: o que acontece epistemicamente quando você passa por uma transição de gênero?

CAIXA 3 – Clarificando Conceitos de Gênero

Talvez você seja novo em falar sobre experiências transgênero, então, clarifiquemos alguns conceitos: Ivy é uma mulher. Ivy é uma mulher transgênero: ela é uma mulher que foi “designada como masculina no nascimento” – eles disseram “é um menino” quando Ivy nasceu, e ela foi criada como um menino. (“Cisgênero” ou “Cis” descreveria uma mulher que foi “designada como feminina no nascimento”: eles teriam dito, “é uma menina,” e ela teria sido criada como uma menina.) As experiências de Ivy incluem; ser designada como masculina no nascimento, ser criada como um menino e a transição (transitioning). Isso não torna Ivy, uma mulher trans, nada “menos” mulher; mulheres têm uma variedade imensa de experiências de vida, e uma experiência que algumas mulheres têm é a experiência da transição.

Nesse artigo, Ivy está focando-se em uma mudança no conhecimento dela que ocorreu através de uma mudança na identidade social que ela ocupa no mundo – não como ela entende a si mesma, mas como outras pessoas interagem com ela, e como ela aprende a navegar nas normas sociais que os outros aplicam a ela. Isso é diferente do conhecimento dela mesma como uma mulher, o qual – para Ivy e muitas mulheres trans – aconteceu muito antes que outras pessoas a reconhecessem como uma mulher e interagissem com ela usando normas e “roteiros (scripts)” para interagir com mulheres.

Após você transitar (transition), as pessoas tratam você de acordo com normas de gênero que diferem daquelas com as quais esteve socializado a alinhar-se enquanto estava crescendo. O espaço social que você ocupa é diferente de antes da transição (transitioning), e Ivy argumenta que isso resulta em um ponto de vista epistêmico diferente em situações familiares. Você poderia ter acesso a alguns novos tipos de conhecimento; você também poderia ser bloqueado ou impedido de acessar outros tipos de conhecimento que antes você era capaz de acessar facilmente (2015, 436). Considere o excerto seguinte do artigo de Ivy (Caixa 4).

CAIXA 4 – Veronica Ivy sobre Conhecimento & Experiencia de “Como-É-Ser (What-It’s-Like)”

Veronica Ivy (anteriormente conhecida como Rachel McKinnon), por Veronica Ivy, via Wikimedia Commons. Licença CC BY 3.0

Voltando-me para um exemplo do mundo real, muitos homens estão, pelo menos, um pouco cientes de que as mulheres frequentemente se sentem inseguras caminhando para casa sozinhas à noite, particularmente após escurecer. Eles até podem ter algum entendimento de porque as mulheres experienciam esse medo. Mas eles tendem a carecer da experiência de “como-é-ser (what-it’s-like)” que as mulheres tendem a ter. E o carecimento de “como-é-ser” tem efeitos epistêmicos. Por exemplo, muitos homens não estão cientes de que muitas mulheres escolhem usar calçados, em caminhadas à noite, nos quais elas podem mais facilmente correr se elas precisarem.

Agora, considere uma mulher trans que faça a transição na casa dos vinte. Eu falei com muitas mulheres que fizeram a transição nas casas dos vinte ou trinta, quem tiveram a experiência onde, pré-transição, elas não tinham nenhuma preocupação real sobre caminhar para casa em uma rota particular à noite. Mas, pós-transição, elas ficaram extremamente temerosas dessa mesma rota e mudaram seus comportamentos de acordo O que foi aceito ser conhecido – que mulheres experienciam temor e preocupação sobre caminharem para casa sozinhas no escuro – tomou uma nova profundidade de entendimento quando o mesmo agente ocupou a identidade e posição sociais de uma mulher sendo confrontada com caminhar para casa sozinha no escuro. (Ivy [anteriormente, McKinnon] 2015, 436).

Ivy descreveu a mudança de perspectiva dela sobre misoginia pré-e-pós-transição:Mudar minha identidade e localização sociais para ser uma mulher mudou minha situacionalidade (situatedness) e mudou como eu luto contra as formas sutis de misoginia e sexismo. Isso mudou e começou a aperfeiçoar até minha habilidade para perceber tais instâncias como instâncias de sexismo” (2015, 436). Há uma clara diferença entre ouvir sobre uma experiência “de segunda mão” e experienciá-la você mesmo. Ivy experiencia “como-é-ser” ser tratada como as mulheres são tratadas em espaços sociais – uma experiência que ela não tinha tido pré-transição – e isso a conduziu a uma percepção mais aguda de misoginia, sexismo e violência contra mulheres. Isso fala a múltiplos tópicos em epistemologias feministas, incluindo ponto de vista, experiência vivida, e um tópico que nós discutiremos neste capítulo: ignorância baseada em poder (power-based ignorance).


B. Deficiência (Disability)

Enquanto a experiência de Ivy poderia parecer não familiar para alguns, experienciar uma mudança de capacidade (ability) é quase universal: como Rosemarie Garland-Thomson escreveu, “a maioria de nós move-se para dentro e para fora da deficiência (disability) durante nossas vidas,” através de doença, machucado ou simplesmente envelhecimento (2016). Epistemologias feministas da deficiência oferecem outra janela para as mudanças em ponto de vista, as quais iluminam adicionalmente o conceito de ponto de vista.

Aimi Hamraie descreveu como o ambiente construído reflete um “modelo padronizado (normate)” de design. Quão elevada é o vão da porta? Quão larga é a cadeira? Quão brilhantes são as luzes? Para prédios, vestimenta, mobília, e muitas outras coisas, projetistas visualizam um tipo específico de corpo (e mente) como “normal.” O modelo padronizado reforça um “tamanho único (one-size-fits-all).” No artigo de Hamraie, ela analisa como isso é sustentado pela ilusão de “que padronizados são os corpos normais, médios e da maioria” (2013). Essa ilusão ressoa com o conceito da “forma mítica” (1984, 116), de Audre Lorde.

Um tamanho não se ajusta a tudo. Se vãos de portas, cadeiras e níveis de luz “ajustam-se” a você, você poderia desenvolver uma falsa crença de que eles se ajustam a todo mundo. Contudo, quando eles não são um bom ajuste para você, você fica extremamente ciente de que está em um espaço construído para se ajustar a alguém – e que esse alguém não é você. Como Hamraie coloca, “o desajuste emigalha a ilusão” do modelo padronizado, e significa a sua falha para refletir as realidades de muitos humanos (2013).

O ajuste (fitting) é impermanente: como Garland-Thomson observa, “qualquer um de nós pode ajustar-se (fit) aqui, hoje, e desajustar-se (misfit) ali, amanhã” (2011). Conforme seu corpo muda, uma pessoa que está acostumada a “ajustar-se (fitting)” poderia, novamente, experienciar “o desajuste (misfitting).” Essa mudança através do tempo poderia, da mesma maneira, esmigalhar a ilusão de “normal” e expandir seus recursos epistêmicos pessoais.

Esta seção se foca em um específico aspecto epistêmico da deficiência; lamentavelmente, uma consideração completa das epistemologias da incapacidade (disability) e epistemologias aleijadas (crip) está fora do escopo deste capítulo. Leitores ansiosos para aprenderem mais são encorajados a consultar o artigo da Stanford Encyclopedia of Philosophy sobre “Critical Disability Theory” (Hall 2019) para uma visão geral, assim como entrevistas recentes na série Dialogues in Disability, de Shelley Treman, apresentando Laura Cupples (2020) e Nathan Moore (2020).


VANTAGEM EPISTÊMICA


Enquanto o seu ponto de vista muda conforme suas experiências mudam, em qualquer dado momento você tem um ponto de vista distinto. Seguindo Williams, “possuir (owning)” honestamente o seu ponto de vista torna você mais confiável como um conhecedor do que alguém que reivindica uma objetividade falsa. Contudo, são todos os pontos de vista igualmente valiosos? Retornando à nossa analogia sobre um estádio: você poderia ter uma “visão melhor” da ação a partir de um ponto de vista do que de outro?

Uma intuição-chave das epistemologias feministas é a ideia de que grupos oprimidos ou marginalizados podem manter uma “vantagem epistêmica.” No interior das epistemologias feministas, perspectivas sobre a natureza dessa ideia variam.


Gloria Evangelina Anzaldúa em 1990, em Smith College. Fotografia por K. Kendall, via Flickr. Licença: CC BY 2.0


Um ponto de vista imagina isso como um conhecimento dual, de maneira que está em diálogo com a “consciência mestiça,” discutida por Gloria Anzaldúa (1942-2004), e a “consciência dupla” negra, discutida por W. E. B. Bois (1868-1963). Quando uma sociedade é estruturada para favorecer um grupo dominante – posicionando o conhecimento, as práticas e as normas deles no centro – as pessoas de fora desse grupo dominante tipicamente necessitam adquirir fluência no conhecimento, nas práticas e nas normas do grupo dominante a fim de funcionarem no interior da sociedade. A pessoa comparativamente marginalizada precisa aprender o conhecimento do grupo dominantemente situado em adição ao seu próprio – mas não o contrário.


William Edward Burghardt Du Bois em 1918. Fotografia por Cornelius Marion Battey, via Wikimedia Commons. Esse trabalho está no domínio publico.


A aprendizagem da linguagem em um contexto (pós-)colonial frequentemente é usada para ilustrar essa disparidade. O Império Britânico colonizou muitos lugares ao redor do mundo com ricas heranças linguísticas e literárias – muitos dos quais são agora lugares onde o inglês é uma língua importante de educação formal e comércio. Consequentemente, muitos dos fluentes falantes de inglês no mundo não falantes nativos de idiomas tais como o bengali, o irlandês ou o shona. Por outro lado, entre os fluentes falantes de inglês no mundo, muitos daqueles que falam inglês como sua primeira língua são monolíngues e assim permanecem. Além disso: quando falantes nativos monolíngues de inglês aprendem um segundo idioma para progredirem no mundo dos negócios ou educacional, quão provável é que ela deva ser o bengali, o irlandês ou o shona?

Outro argumento central é que a vantagem epistêmica do ponto de vista feminista surge a partir da experiência de viver como uma mulher em uma sociedade misógina e o desenvolvimento de uma “consciência crítica sobre a natureza de nossa localização social” (Wylie 2003, 31). Paulette Nardal (1896-1985) foi uma figura fundacional no estabelecimento dessa ideia ([1932] 2002). Nardal formulou-a como parte de comentário sobre a acuidade epistêmica das mulheres estudantes antilhanas em Paris no começo do século XX. Como Nardal escreveu, “As mulheres de cor vivendo sozinhas na metrópole,” quem eram “menos favorecidas do que seus compatriotas masculinos,” chegaram mais rapidamente ao que Nardal descreveu como “o despertar da consciência de raça” ([1932] 2002, 122).2 Subsequentemente, enraizada em teorias marxianas sobre outros pontos de vista, Nancy Hartsock (1983) definiu o “ponto de vista feminista” como uma realização epistêmica que surge através de conflito e análise, estabelecendo o vocabulário de “ponto de vista” para caracterizar essa ideia em epistemologias feministas.


Paulette Nardal, via Wikimedia Commons. Esse trabalho está no domínio publico.


Outra ideia importante – também remontando a Nardal – localiza a significância da vantagem epistêmica na atividade em duas partes de (a) crítica dos limites ou erros no conhecimento fornecido pelas estruturas dominantes, convencionais e (b) construção dos recursos de conhecimento que mitigam essas falhas. Por exemplo, suponha que o currículo da escola pública de seu filho narre a história nacional de uma maneira que negligencia a história de nossas ancestrais no interior dessa nação. Para preencher as lacunas do currículo da escola, você procura outros recursos tais como livros, documentários e atividade online. Algumas vezes, não há recurso amigável a crianças, assim você produz o seu próprio. Primeiro, com efeito, o conhecedor reconhece criticamente que o conteúdo e as estruturas “predefinidos (default)” para o conhecimento foram construídos para refletirem a experiência de outro – não a sua própria.3 Em seguida, percebendo as inadequações dos recursos epistêmicos existentes, um conhecedor marginalizado contribui para a construção de recursos epistêmicos alternativos que são “ricos em experiência” e mais compreensivos do que os recursos epistêmicos convencionais. Frequentemente, isso ocorre em uma comunidade de conhecedores marginalizados.

A vantagem epistêmica é uma ideia poderosa que deveria ser aplicada com cuidado. Em um artigo fundacional em epistemologias feministas, Uma Narayan identificou alguns dos perigos de como filósofas feministas “ocidentais” (frequentemente, brancos) aplicaram a ideia de vantagem epistêmica grosseira e ingenuamente demais a mulheres em contextos “não ocidentais” (1989). Notavelmente, Narayan ressaltou o fato de que simplesmente ter acesso a conjuntos diferentes de conhecimento e maneiras de conhecer não é garantia de intuições críticas profundas – o que importa é o que você faz com esse conhecimento. Igualmente importante, Narayan adverte aos leitores para se recordarem de que uma posição de vantagem epistêmica não é necessariamente confortável, segura ou satisfatória para habitar. Narayan aconselhou as filósofas feministas “ocidentais” para verificarem a suposição de que as feministas não ocidentais “expressariam entusiasmo não qualificado sobre os benefícios de permanecerem indecisas em uma multiplicidade de contextos” (221). Narayan sublinhou o desconforto da perpétuo exterioridade (outsiderness), desenraizamento (rootlessnes) ou falta de um espaço para se sentir completamente relaxada e “em casa.”4 Como Narayan escreveu, “a decisão de habitar criticamente dois contextos, embora ela possa conduzir a uma ‘vantagem epistêmica,’ é provável de exigir um certo preço” (222). Como a bicultural filósofa Sor Juana Inés de la Cruz explorou no século XVII, tal conhecimento pode trazer consequencias para o bem-estar de alguém: “Pois tudo que eu acrescento ao discurso/eu usurpo tanto de meus anos” (2014, 13-14).


IGNORÂNCIA BASEADA EM PODER


Exatamente como a opressão pode dar forma ao conhecimento de uma pessoa, estar em uma posição de poder social pode produzir ignorância. José Medina (2013) refere-se a isso como estadno epistemicamente “estragado (spoiled).” Como crianças mimadas (coddled children), pessoas em uma posição “dominantemente situada” de poder e privilégio sociais podem ser “estragadas” epistemicamente porque elas raramente têm de se adaptar a epistemologias não familiares. Quando o mundo é construído para se adequar às suas experiências e maneiras de conhecer, por que elas se incomodariam em aprender quaisquer outras?

Na prática, um conhecedor raramente está 100% dominantemente situado, mas a maior parte dos conhecedores estão dominantemente situados em, pelo menos, um contexto. Portanto, pode ser frutífero discutir formas diferentes de ignorância que seguem formas diferentes de poder social. Epistemologias da ignorância tratam de várias formas do que nós poderíamos chamar de ignorância baseada em poder (power-based ignorance) – incluindo ignorância de brancos, ignorância masculina, ignorância heterossexual, ignorância de rico e ignorância de capaz (abled). A ignorância baseada em poder reflete uma preguiça (laziness) brotando a partir do “privilégio de não conhecer e não precisar conhecer” (Medina 2013, 32). As epistemologias feministas da ignorância exploraram como ser ignorante de certos tópicos é normalizado em uma cultura dominante, patriarcal. Esses tópicos incluem assédio sexual, menstruação, orgasmo clitoriano, gaslighting por supostos aliados e esterilização forçada (Tuana 2004, 2006; Tuana e Sullivan 2006; Fricker 2007; McWhorter 2009; e Ivy [McKinnon] 2017). Como a maioria dos pontos em epistemologia, esse pode ser explorado em muitos níveis. Por exemplo, considere como a vida pessoal e em família é impactada quando é normalizado para os homens serem ignorantes dos básicos do cuidado menstrual. Ou, considere como muitos assuntos de significância política são relegados como “problemas de mulheres.”

As epistemologias feministas da ignorância também consideram criticamente a ignorância entre feministas. Em artigo fundacional, Mariana Ortega discutiu “a ignorância conhecedora, amadora” como um atributo das mulheres brancas respondendo às mulheres de cor (2006). Mulheres feministas brancas demonstraram uma “ignorância do pensamento e da experiência das mulheres de cor que é acompanhada igualmente por um alegado amor e um alegado conhecimento sobre eles” (57). A ignorância está muito longe de ser inocente: como Ortega indicou, a produção de conhecimento feminista branco pode rejeitar a responsabilidade e adotar uma “percepção arrogante” que prejudica as mulheres de cor.

Construindo sobre essa ideia, Medina explora os riscos (stakes) da ignorância para a epistemologia e para a ética. Medina discutiu a responsabilidade de um conhecedor para remediar sua ignorância: “A ignorância coletiva pode não ser da escolha de alguém,” ela pode ser herdada ou normalizada na criação (upbringing) de alguém, mas isso não é uma desculpa. Um conhecedor tem de fazer um esforço para combater a sua ignorância. Caso contrário, “a desatenção de alguém da ignorância na qual esse alguém toma parte se torna cumplicidade e participação ativa” (2013, 140). Combater a ignorância baseada em poder de alguém é igualmente uma responsabilidade moral e epistêmica.


CONSTRUINDO IGNORÂNCIA: ESCOLHAS, CONTROLADORES DE ACESSO (GATEKEEPERS) E RESPONSABILIDADE (ACCOUNTABILITY)


A discussão de Medina provoca uma consideração mais ampla de responsabilidade. Enquanto muitos fatores contribuem para padrões de ignorância, eles não “apenas acontecem.” Pessoas fazem escolhas. Nas palavras de Heidi Grasswick, “ignorância não é o resultado de uma lacuna benigna em nosso conhecimento, mas de escolhas deliberadas para buscar certos tipos de conhecimento enquanto ignorando outros,” e nós temos de ser responsabilizados por essas escolhas (2011, xvii). A educação formal reflete muitas de tais escolhas: quando uma faculdade (college) tem um currículo que é formado por “cursos centrais,” exigidos de todos os estudantes, e “eletivos,” que são opcionais, alguém no comando tomou uma decisão sobre quais cursos seriam “centrais” e quais seriam “eletivos.” Considere o provérbio contemporâneo pelo estudioso e educador Ozy Aloziem: “Privilégio branco é sua história sendo ensinada como parte do currículo central, enquanto a minha sendo oferecida como uma eletiva.”

Quem faz essas “escolhas deliberadas”? Algumas vezes, eles são descritos como Controladores de acesso (gatekeepers) do conhecimento. Na vida acadêmica, professores, bibliotecários e editores (publishers) estão entre esses controladores de acess: eles determinam o que conta como uma “fonte confiável,” o que é uma “questão significante” em um campo de estudo, o que é um requerimento “central” – para resumir, eles definem o conhecimento “convencional (mainstream),” dominantemente situado. Um estudante individual também poderia ter escolhas – por exemplo, ele poderia escolher um entre os vários cursos que podem satisfazer um particular requerimento de grau acadêmico (degree) – mas a maioria (the lion’s share) da responsabilidade nesse caso descansa nas mãos das pessoas que definiram esses requerimentos de grau.

Recursos epistêmicos valiosos desenvolvidos por pessoas marginalizadas frequentemente são recebidos com resistência a partir de conhecedores dominantemente situados, pessoas que estão em posições de relativamente alto poder social – especialmente na acadêmia. Decolonizing Methodologies: Research and Indigenous Peoples (1999), de Linda Tuhiwai Smith, é um trabalho fundacional sublinhando vitais recursos epistêmicos que a maioria dos acadêmicos tinha ignorado.5 Mais recentemente, considere a conversa acadêmica em torno da política de citação e inclusão/exclusão estrutural: Sara Ahmed (2013), Jenn M. Jackson (2018) e Kecia Ali (2019) sãos três contribuintes importantes.


Professora Linda Tuhiwai Smith, depois de sua investidura como Companion of the New Zealand Order of Merit pelo Governador-geral, Sir Jerry Mateparay, em 08 de maio de 2013. Fotografia pelo New Zealand Government, Office of the Governor-General, via Wikimedia Commons. Licença: CC BY 4.0


Como Gaile Pohelhaus discutiu, conhecedores dominantemente situados não são incapazes de entender estruturas desenvolvidos por conhecedores que estão relativamente marginalizados. Todavia, eles não são socialmente penalizados por sua falta de familiaridade com recursos epistêmicos relativamente marginalizados, e eles têm poucos incentivos para construírem suas capacidades. De fato, o conhecedor dominantemente situado pode descobrir que o conhecimento marginalizado poderia revelar vantagens não merecidas que os mantêm em suas posições de pode (Pohlhaus 2012, 721). Por outro lado, a ignorância voluntária pode proteger o poder deles.


METAIGNORÂNCIA


A ignorância tem um inerente ciclo de retroalimentação (feedback loop): alguém pode ser ignorante de sua própria ignorante. Medina chama isso de metaignorância. Como Kristie Dotson observou, “Convencer as pessoas que elas estão deixando escapar alguma coisa integral quando, de fato, elas não podem detectar tais deficiências, não é tarefa fácil” (2014, 14). Ao encontrar conceitos como “encontro de estupro (date rape),” “privilégio de branco,” e “cis-heteronormatividade,” um conhecedor ignorante das experiências a partir das quais esses conceitos são construídos poderia perceber isso como “criando algo a partir de nada (making something out of nothing).”

A filosofia é tão suscetível a isso quanto qualquer outro campo de estudo – de fato, talvez ainda mais. Por exemplo, Pohlhaus identificou que a epistemologia convencional inicialmente desprezou a ideia do “conhecimento situado” (2012, 722). Dotson e muitos outros criticaram a metaignorância e o controle de acesso (gatekeeping) irresponsável normalizados por colegas na filosofia acadêmica (Dotson 2013, Dabashi 2013, Park 2014). A epistemologia feminista não está isenta disso; notavelmente, como discutido por Ortega e outros, mulheres brancas na epistemologia feminista muito frequentemente ignoram o trabalho de colegas que são mulheres de cor. Quando nós responsabilizamos conhecedores poderosos por ignorância, nós também precisamos voltar o espelho para nós mesmos.


INJUSTIÇA EPISTÊMICA


Miranda Fricker (2007) definiu um vocabulário de injustiça epistêmica que tem sido amplamente adotado para descrever como o poder interfere com o conhecimento. O desenvolvimento desses conceitos foi empreendido principalmente por muitas filósofas anteriores (incluindo Patricia Hill Collins e Mariana Ortega, discutidas acima). Dito isso, o vocabulário de Fricker desempenhou um papel importante na definição dessa conversação na epistemologia como um todo. Fricker distinguiu dois tipos de injustiça epistêmica:

  • Injustiça testemunhal: relacionado à credibilidade e validação.

  • Injustiça hermenêutica: relacionado aos recursos para construção do entendimento.

Miranda Fricker, por Edmond J. Safra Center for Ethics. Licença: CC BY 2.0


A. Credibilidade

Os conhecedores dominantemente situados não apenas têm o poder de ignorar; eles também têm o poder da desacreditar. De fato, ignorar e desacreditar ocorrem de mãos dadas. Como observado acima, conhecedores dominantemente situados poderiam alegar que conhecedores marginalmente situados estão “criando algo a partir de nada (making something out of nothing)” e desacreditar o conhecimento deles como exagerado, irrelevante ou não confiável.

Em epistemologia, o “testemunho” não se refere apenas ao testemunho em um tribunal de justiça: se você conhece alguma coisa porque você a leu em um livro, ou a ouviu de outra pessoa, ou a procurou online, você está dependendo de testemunho. Mas como você decide em quais testemunhos deveria acreditar? Como você avalia se uma fonte é crível?6

Como Lorraine Code (1995) observou, julgamentos sobre credibilidade são aplicados “desigualmente” através das localizações sociais. Um recebedor de conhecimento poderia “descontar” ou “desinflar” a credibilidade que ele atribue a um conhecedor (ou fonte de conhecimento) baseado em vieses sociais injustos da parte do recebedor. O desconto na credibilidade poderia refletir muitos ângulos diferentes de vieses, incluindo gênero, raça, educação, idade, físico e linguagem. Por exemplo, considere a análise de Tina Sock de como fornecedores de serviços de saúde (healthcare providers) falham em levar a sério mulheres negras como “testemunha(s) críveis de [suas] próprias condições” (2019, 49). A credibilidade também pode ser “inflada” de acordo com distribuições injustas de poder social, concedendo a algumas pessoas mais credibilidade do que elas justamente mereceram. Notavelmente, Audrey Yap (2017) analisou excesso de credibilidade em casos de abuso sexual (sexual assault). Nessas formas de injustiça testemunhal, o conhecimento de uma pessoa não é avaliado em seus próprios méritos, mas é descontado ou inflado de acordo com hierarquias sociais.

A inflação / desinflação de credibilidade é ordenada de muitas maneiras. Para tomar um exemplo, expressão emocional frequentemente é usada para desacreditar as pessoas; de fato, a palavra mesma “histérico (hysterical)” foi desenvolvida para desacreditar algumas mulheres como conhecedoras. Ademais, se um recebedor de conhecimento desacredita um conhecedor como “emocional demais,” isso em si mesmo poderia provocar emoção forte – raiva, desapontamento, sofrimento, etc. - no conhecedor. O recebedor pode usar a emoção como munição adicional para desacreditar o conhecedor, em um círculo (loop) vicioso que Veronica Ivy (2017) chamou de “círculo de injustiça epistêmica do inferno” (169).

O gaslighting é provavelmente é provavelmente o problema mais amplamente reconhecido de injustiça testemunhal. Parar para considerar o gaslighting pode iluminar adicionalmente essas questões de credibilidade e injustiça testemunhal.

Você está exagerando (overreacting).

Está tudo na sua cabeça.”

Ai vai você novamente.”

Não crie uma grande questão a partir de nada.”

Essas frases frequentemente são associadas com gaslighting – o enfraquecimento da confiança de alguém em sua própria credibilidade, em particular, o enfraquecimento de sua confiança em suas próprias percepções de realidade. O gaslighting pode ocorrer como parte de dano interpessoal em privado ou violência estrutural ao nível social. Em cada caso, o gaslighting frequentemente reencena (re-enacts) injustiças sistemáticas, tais como supremacia branca, misoginia, e cis-heteronormatividade.

No uso popular, gaslighting pode ser usado para descrever muitas formas de dúvida ou desacreditação. Contudo, quando nós estamos fazendo filosofia, definições mais precisas de termos são necessárias.

Primeiro, o gaslighting é diferente de simplesmente questionar, refutar ou corrigir uma percepção: se eu estou gaslighting uma pessoa (ou um grupo de pessoas) eu estou tentando fazer com que elas duvidem de suas percepções em geral ou de sua capacidade para percepção precisa. Essa amplidão é importante: lançar dúvida sobre a credibilidade ou capacidade para a percepção precisa de alguém no geral é muito diferente de colocar em questão uma percepção específica desse alguém, que pode ser errônea, ou compartilhar de sua própria percepção discordante de alguma coisa específica.

Adicionalmente, o gaslighting é diferente de contradizer, repudiar ou desacreditar alguém. Se eu estou gaslighting você, eu não necessariamente estou comunicando que “Eu não acredito em você,” nem necessariamente eu estou aconselhando a um terceiro que ele não deveria acreditar em você. Embora o gaslighting frequentemente esteja combinado igualmente com essas formas de deflação de credibilidade, o elemento definidor do gaslighting é que ele enfraquece a sua confiança em si mesmo como um conhecedor: não “Eu não acredito em você,” mas “você não deveria acreditar em si mesmo.” Na análise de Kate Abramason, a rejeição (dismissal) simplesmente falha em levar o outro a sério como um interlocutor, ao passo que o gaslighting está visando fazer o outro não tomar a si mesmo seriamente como um interlocutor” (2014, 2).

Finalmente, o gaslighting é direcionado: ele não é sobre lançar dúvida sobre a credibilidade do conhecimento humano no geral, mas sobre um indivíduo, grupo ou categoria particulares. Se eu estou gaslighting você, eu estou tentando persuadir você de que as suas percepções são particularmente indignas de confiança, mais ainda do que as das pessoas em geral. Frequentemente, mas não sempre, isso pode incluir persuadir você de que você deveria acreditar em minhas percepções de sua experiência mais do que nas suas.7


B. Recurso Hermenêuticos Coletivos

Hermenêutica é o processo de entendimento e ser entendido; é como nós transformarmos os “dados brutos” de informação em conhecimento que tem sentido. Para Fricker, a injustiça hermenêutica ocorre quando uma lacuna (gap) nos recursos do entendimento permite um abuso de poder.

CAIXA 5 – Lacuna Hermenêutica

Imagine que você ouviu alguém dizer: “Ela é uma Slytherin” ou “Essa é uma clássica resposta Gryffindor.” Isso pareceria tolice – a menos que você fosse familiar com o universo de Harry Potter. Slytherin e Gryffindor são duas das quatro “Casas” às quais os estudantes pertencem em Hogwarts, a escola onde os romances de Harry Potter ocorrem; cada casa é associada com atributos de personalidade e carácter. As Casas de Hogwarts são, de uma maneira, uma “hermenêutica” – uma estrutura para a construção do entendimento.

Quando nós consideramos a injustiça hermenêutica, frequentemente nós estamos explorando as deficiências de uma hermenêutica. Considere as quatro Casas de Hogwarts – ou o Tipo de Inventório de Myers-Briggs, ou o Eneagrama, ou qualquer outra estrutura categorizando personalidades. O que dizer de uma pessoa que tem atributos de duas categorias diferentes? Ou, o que dizer de uma pessoa que não parece se encaixar em quaisquer das categorias? Onde eles se encaixam? A consideração dessas questões revelam uma lacuna hermenêutica – uma lacuna nos recursos que uma estrutura particular oferece para a construção do entendimento. Frequentemente, uma questão de injustiça hermenêutica é identificada pela exploração de uma lacuna hermenêutica.

Chefes molestaram (harassed) os empregados muito antes que o termo “assédio sexual (sexual harassment)” fosse desenvolvido, mas, de acordo com Fricker, empregados vitimizados careciam de conhecimento para nomearem as suas experiências e acusarem seus chefes. Fricker define isso como uma lacuna nos “recursos hermenêuticos coletivos,” e argumenta que isso foi parte da injustiça feita aos empregados vitimizados pelo assédio sexual.8

Pausemos para considerar essa ideia. Filósofos constroem conhecimento através de crítica colegial, e colegas identificaram algumas fraquezas no argumento de Fricker. Você consegue identificar alguma?

Talvez você esteja ponderando: uma lacuna para quem? Quem carece desses recursos? Afinal, uma lacuna hermenêutica para alguém não é necessariamente uma lacuna hermenêutica para todos. Quem deve dizer que haveria um conjunto de tamanho único (one-size-fits-all) de recursos hermenêuticos coletivos?

Kristie Dotson foi uma das mais significantes contribuidoras para essa conversa. Para Dotson, a categorização dos recursos hermenêuticos coletivos por Fricker “falha em levar em conta as epistemologias alternativas … que existem nas comunidades hermeneuticamente marginalizadas” (2012, 31). Enquanto alguns conhecedores poderiam ter uma lacuna em seu conhecimento, isso não é uma lacuna no conhecimento. Retornando à ideia de ignorância baseada em poder, conhecedores dominantemente situados podem ser desconhecedores do conhecimento desenvolvido por pessoas marginalizadas. Isso não é uma carência no conhecimento coletivo ou nos recursos coletivos da humanidade – apenas uma falta de conhecimento ou de recursos hermenêuticos entre algumas pessoas no poder.

CAIXA 6 – Uma Lacuna para Alguns Não é uma Lacuna para Tods

Apenas porque a corrente principal (mainstream) não conhece alguma coisa isso não significa que essa coisa não seja conhecida. Por exemplo, considere como as comunidades lésbicas e queer têm linguagens definindo uma panóplia das formas de masculinidade (por exemplo, butch, stud, boi, masc-of-center). Para alguns, esses vocabulários descrevem masculinidades femininas.

Esses vocabulários conceituais evoluíram através das gerações, e continuam a evoluir hoje em dia. Eles refletem distinções precisas e interseccionam maneiras complexas, matizadas, com as identidades trans e não binárias9 assim como outras identidades, incluindo classe, raça e idade. Entrementes, conhecedores dominantemente situados na cultura “convencional” poderiam carecer mesmo da ideia básica de masculinidade feminina.

Dotson ressaltou a significância epistêmica dos recursos hermenêuticos desenvolvidos por pessoas marginalizadas. Enquanto recursos hermenêuticos dominantes poderiam ser inadequadas em fazer sentido de certas experiências de injustiça, recursos hermenêuticos “feitos em casa (homegrown)” em comunidades marginalizadas provam-se mais úteis. Pessoas marginalizadas criam, valorizam e usam esses recursos e conhecimento, se ou não pessoas dominantemente situadas os reconhecem (2012, 2014).


EPISTEMOLOGIAS CALEIDOSCÓPICAS: JUNTOS, NÓS CONHECEMOS MELHOR


Se o poder pode conduzir à ignorância, e a opressão pode conduzir à vantagem epistêmica, isso significa que os conhecedores mais oprimidos sempre conhecem melhor? Não: isso não é assim tão simples. O relacionamento entre conhecimento e poder é uma questão epistemológica vital com a qual os filósofos continuam a lutar. Todavia, embora haja muitas perspectivas sobre como o poder e o conhecimento se relacionam um com o outro, nenhuma delas propõe uma equação simplista onde o valor do conhecimento de alguém aumentaria conforme ser poder decrescesse.

As epistemologias feministas valorizam a construção colaborativa de conhecimento, integrando perspectivas múltiplas em um todo compreensivo. Collins definira esse paradigma como se segue: múltiplos grupos de conhecedores com distintos pontos de vista compartilham seu conhecimento uns com os outros, com cada grupo usando suas únicas abordagens epistemológicas e admitindo seu ponto de vista distinto. Cada grupo compartilha seu próprio “conhecimento situado, parcial.” Reconhecer abertamente seus pontos de vista não diminui um conhecimento ou seu conhecimento: de fato, situar o seu conhecimento é um critério para credibilidade. Uma vez que cada um “percebe sua própria verdade como parcial” ele reconhece sua interdependência com outros conhecedores. “Cada grupo torna-se melhor ao considerar pontos de vista de outros grupos sem renunciar à singularidade de seu próprio ponto de vista ou suprimir as perspectivas parciais de outros grupos” (Colline [1990] 2000, 270). Cada um possui uma peça de um quebra-cabeça maior: sua peça é valiosa, como a de seu vizinho, e eles conhecem melhor quando eles colocam essas peças juntas.10

O mais recente trabalho em epistemologia enriqueceu esses pontos. De fato, a crítica acima mencionada de Fricker por Dotson refletiu a teorização de Dotson sobre a pluralidade dos recursos hermenêuticos coletivos, a qual, em si mesma, construiu sobre Collins. José Medina (2011, 2013) defendeu uma abordagem “caleidoscópica” caracterizada por “pluralismo de guerrilha” e uma “fricção epistêmica construtiva.” Silvia Rivera Cusicanqui descreveu a construção de conhecimento de acordo com o conceito Aymara de “ch’ixi,” entrelaçabil-idade (interwoven-ness) de múltiplas linhas, a “coexistência paralela de múltiplas diferenças culturais” (2012, 105). Embora haja diferenças importantes nos detalhes das estruturas filosóficas fornecidas por Collins, Dotson, Medina e Rivera Cusicanqui, uma linha [de pensamento] comum é a geração de conhecimento através do posicionamento de múltiplos pontos de vista e recursos de conhecimento em diálogo como um todo integrado. Se ele é um caleidoscópio, uma tapeçaria, ou quaisquer uma das muitas metáforas usadas para o descrever, um compromisso com a pluralidade e o diálogo é uma pedra angular das epistemologias feministas.


Silvia Rivera Cusicanqui, por LizChezca, via Wikimedia Commons. Licença: CC BY-SA 3.0


INTERCONEXÕES


Uma Narayan refletiu que a epistemologia feminista “assemelha-se aos esforços de muitos grupos oprimidos para reclamarem por si mesmos o valor de sua própria experiência” (2004, 214). De fato, as epistemologias feministas necessariamente estão interconectadas com epistemologias críticas da raça, epistemologias pós-coloniais, epistemologias da incapacidade (disability), epistemologias queer e mais. Como discutido acima, nós não vivemos vidas de questão única (single-issues) e nós não temos epistemologias de questão única.


Kimberlé Crenshaw, por Heinrich-Böll-Stiftung, via Wikimedia Commons. Licença: CC BY-SA 4.0

Frequentemente, essa interconectibilidade (interconnectedness), no feminismo (e epistemologias feministas) é descrita como “interseccionalidade (intersectionality),” alargando uma estrutura e vocabulário conceituais criados por Kimberlé Crenshaw (1988, 1991). Por exemplo, considere os trabalhos de Jasmin Zine (2004) e Farhana Rahman (2018), os quais ilustram uma intersecção de, pelo menos, três elementos: epistemologia específica de religião, epistemologia antirracista e epistemologia feminista. Rahman ilumina a resiliência de mulheres muçulmanas estudiosas em reposta a duas formas de marginalização: (1) epistemologias acadêmicas islâmicas frequentemente patriarcais; e (2) epistemologias feministas acadêmicas, brancas, frequentemente, anti-islâmicas.

O trabalho de José Medina sobre epistemologias de resistência (2013) é significante em parte porque ele integra poderosamente várias conversas no interior da epistemologia com uma forte ênfase sobre as possibilidades que a interconectibilidade oferece para igualdade e justiça em um sentido social mais amplo. Junto com o desmantelamento de sistemas epistêmicos historicamente empoderados, as epistemologias de resistência constroem maneiras responsáveis de conhecimento, enraizadas em conhecimento historicamente marginalizado, para transformação social e pessoal. Uma voz importante nisso é a epistemologia indígena feminista queer da filósofa Michi Saagiig Nishnaabeg Leanne Betasamosake Simpson. Simpson contrasta suas formas Nishnaabeg de inteligência, processo de educação e maneiras de construção de conhecimento com as epistemologias dominantes “ocidentais” características do colonialismo de colono. Para Simpson, erguer (lifting up) a epistemologia Nishnaabeg é parte de um processo maior de ressurgimento entre os povos indígenas. Agora, como sempre, a epistemologia não está isolada das realidades humanas, vivas – incluindo realidades “políticas.”

CAIXA 7 – Leanner Betasamosake Simpson: Teoria com Ressonância Viva

Leanne Betasamosake Simpson, por Bull-Doser, via Wikimedia Commons. Essa imagem está no domínio publico.


Para mim, isto é como se parece alcançar a sabedoria no interior de uma epistemologia Michi Saagiig Nishnaaber – ocorre no contexto da família, da comunidade e das relações. Carece de coerção e autoridade evidentes, valores tão normalizados no interior da pedagogia ocidental convencional que eles raramente são criticados. A terra, aqui, é igualmente contexto e processo. O processo de vir a conhecer (comingo to know) é conduzido pelo aprendente (learner-led) e profundamente espiritual em natureza ….

A “teoria” é gerada e regenerada continuamente através de prática encarnada e no interior de cada família, comunidade e geração de pessoas. A “teoria” não é apenas uma busca intelectual – ela está entrelaçada (woven) dentro da presença e emoção, espirituais e cinéticas; ela é contextual e relacional. Ela é intima e pessoal, com os indivíduos mesmos responsabilizando-se por encontrar e gerar significado no interior de suas vidas. Mais importantemente, a “teoria” não é apenas para acadêmicos; é para todos… teoria, neste contexto, é gerada a partir do solo para cima (ground up), e o seu poder brota a partir de sua ressonância viva no interior de indivíduos e coletivos. (2014, 7)

Alguém poderia ponderar: com toda essa interconectibilidade, este ainda é um capítulo sobre epistemologias feministas? Sim. Como Mariana Ortega memoravelmente o coloca, a despeito do discurso sobre crescimento e inclusão e justiça, “a escrita que vem da mão feminina branca” ainda é tratada como mais importante no interior da filosofia feminista, mesmo enquanto o feminismo “empurra a filosofia e os outros a enxergarem além, a entenderem mais” (Ortega 2014, 186). Este capítulo tenta evitar apresentar desproporcionalmente o trabalho de filósofas mulheres brancas, cis, heteras, não deficientes em sua discussão das epistemologias feministas.

O campo de estudo da epistemologia inclui muitos epistemólogos que podem ser agrupados como “alternativos” ou “marginais.”11 As epistemologias feministas estão entre essas, assim como as epistemologias críticas da raça, as epistemologias queer, as epistemologias trans as epistemologias aleijadas (crip) (da incapacidade (disability)), epistemologias indigenas, epistemologias específicas de religião – a lista prossegue. As epistemologias feministas frequentemente têm sido as assim chamadas epistemologias “alternativas” que os estudiosos da epistemologia convencional mais prontamente incluem em discussões da epistemologia como um todo, e este livro-texto não é exceção; explorando as razões por trás disso está além da capacidade deste capítulo. Contudo, é importante reconhecer que a discussão relativamente interconectada deste capítulo de epistemologia feminista não é substituto para se engajar completamente com qualquer uma das epistemologias acima mencionadas. Cada uma das epistemologias acima mencionadas poderia encher um capítulo dedicado para si mesma em um livro-texto de epistemologia. Os leitores são encorajados a explorá-las ulteriormente através dos recursos listados na bibliografia e na seção “Leitura Adicional.”


QUESTÕES PARA REFLEXÃO


  1. Tente aplicar a ideia de Paula Moya de que “todo conhecimento é conhecimento situado.” Pense em uma ocasião quando alguém disse que sabia que alguma coisa era “objetivamente” verdadeira. Qual era o ponto de vista dele? Como era o conhecimento dele conhecimento situado?

  2. Assista ao filme Rashomon (1950) ou outro filme que usa uma maneira similarmente multifacetada de contação de história. Como você aplica os conceitos de ponto de vista e conhecimento situado ao filme?

  3. Provavelmente, você está lendo este capítulo como parte de um curso de faculdade. Revisite a seção “Construindo Ignorância.” Considere a ideia dos conhecedores fazendo “escolhas deliberadas” sobre qual conhecimento priorizar e a dinâmica do “Controle de acesso (gatekeeping).” Quem são os controladores de acesso (gatekeepers) em sua escola? Quais são algumas das “escolhas deliberadas” que eles parecem ter feito sobre qual conhecimento priorizar? Quais valores essas escolhas revelam? Em particular, como você vê essas dinâmicas em ação no campo acadêmico da filosofia?

  4. Revisite a seção “Credibilidade.” Pense em um exemplo a partir da cultura pop ou de eventos correntes onde a credibilidade de alguém foi injustamente desinflda (deflated) ou inflada. Quais estratégias as pessoas usaram para inflar ou desinflar a credibilidade dessa pessoa. Como essas estratégias se relacionam aos padrões mais amplos de poder social?

  5. Você consegue pensar em um exemplo onde o pensamento convencional (mainstream) poderia dizer que há uma “lacuna (gap) hermenêutica,” mas onde você sabe que há importantes recursos hermenêuticos coletivos que não são levados a sério por esse mesmo pensamento? Como você poderia aplicar os conceitos de ignorância baseada em poder e recursos hermenêuticos a esse exemplo?

  6. Como José Medina argumentou, uma pessoa tem uma responsabilidade ética de remediar a sua própria ignorância, especialmente a ignorância que contribui para desigualdade e injustiça. Como você poderia aplicar essa ideia na prática? Brainstorm: Quais algumas das estratégias que você poderia usar para avaliar suas próprias áreas de ignorância, especialmente, suas áreas de ignorância baseada em poder? Quais algumas das estratégias que você poderia usar para remediar a sua ignorância?


LEITURA ADICIONAL


Artigos, Postagens em Blogs e Livros

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Crenshaw, Kimberlé. 2016. “The Urgency of Intersectionality.” TED video, 18:40. October 2016.

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Cupples, Laura. 2020. “Dialogues on Disability: Shelley Tremain Interviews Laura Cupples.” Biopolitical Philosophy (blog). By Shelley Tremain. December 16, 2020. https://biopoliticalphilosophy.com/2020/12/16/dialogues-on-disability-shelley-tremain-interviews-laura-cupples/

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REFERÊNCIAS


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FIM


ORIGINAL:

POOLE, M.C. Feminist Epistemology. In. BARNETT, B.C. Introduction to Philosophy: Epistemology. Rebus Community: 2021. Disponível em: <https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/chapter/feminist-epistemologies/>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


1 Historiadores da filosofia convencionalmente aplicam termos modernos para descrever abordagens filosóficas que precederam à invenção dos termos. Filósofos da história debatem essa escolha: essa é uma ferramenta válida para tornar o passado inteligível pelas pessoas do presente, ou ela arrisca-se impor categorias conceituais do presente ao passado? Nós não temos espaço para explorarmos essa questão mais ampla aqui. Neste capítulo, eu aplico o termo “feminista” para descrever filósofos que se encaixam na descrição mesmo que eles não definam a si mesmos como “feministas,” exatamente como colegas neste volume aplicam “racionalista” e “empirista” a filósofos que não se definiram com esses termos.

2O trabalho de Nardal tornar-se-ia central no movimento internacional Négritude, significante na filosofia do século XX. Ver Sharpley-Whiting (2000) e Jeffers (2016) para mais informação.

3 Isso é semelhante à ideia de reconhecer o “desajustamento (misfitting)” de corpos deficientes no ambiente construído, como discutido por Hamraie, acima.

4 Maria Ortega exploraria os riscos epistêmicos de “entri-dade (in-betweenness)” em profundidade maior em “Hometactics: Slef-Mapping, Belonging, and the Home Question,” em Living Alterities: Phenomenology, Embodiment, and Race, ed. Emily S. Lee, SUNY Press, 173-88.

5 Para uma breve visão geral do livro, checar Stahelin (2000).

6 Esse tópico também é discutido no capítulo 7 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/chapter/social-epistemology/), “Epistemologia Social,” por William D. Rowley.

7 Duas contribuições recentes à literatura filosófica sobre o gaslighting são Ruiz (2020) e Berenstain (2020). O artigo de Berenstain toma um aspecto específico do trabalho de Fricker como um estudo de caso do gaslighting feminista branco.

8 Ver Berenstain (2020), para uma crítica necessária desse argumento específico em Fricker.

9 Robin Dembroff (2018) discute identidades não binárias a partir da perspectiva delas como um filósofo.

10 Epistemologias feministas frequentemente descrevem isso como “diálogo” e “colaboração,” o que pode conjurar imagens de um grupo de pessoas juntas em uma sala, discutindo para lá e para cá em tempo real. Essa é uma maneira, mas, certamente, não é a única maneira – e, de fato, se essa fosse a única maneira, muitas epistemólogas feministas seriam rápidas para criticar como isso limita o acesso e favorece alguns conhecedores sobre outros. A discussão em grupo favorece extrovertidos, aprendentes sociais, pessoas que são boas em se ajustar rapidadmente (thinking on their feet), pessoas socialmente competentes, pessoas que preferem a comunicação falar/ouvir, pessoas cujos os corpos aderem a socialmente aceitáveis normas dos capacitados (ableist). Antes, nós consideramos o diálogo e a colaboração de uma maneira mais ampla: comentários em mídia social, cartas, escrever artigos que respondem uns aos outros (tal como a crítica entre filósofos discutidas neste capítulo). A criação de arte em resposta ao trabalho de outro artista, a leitura de um livro e a reflexão sobre ele em relação a sua própria perspectiva – até experiências contemplativas que são tipicamente descritas como solitárias podem ser parte da construção colaborativa de conhecimento.

11 Muitos, incluindo a presente autora, preferem evitar esse agrupamento, acreditando que ele reforça uma versão errônea da história da filosofia: o mito de que um punhado de filósofos, principalmente homens da Europa, representa o centro ou pensamento princpial (mainstream) da filosofia, em relação aos quais tudo o mais é “marginal” ou “alternativo.”