sábado, 31 de maio de 2025

Filosofia Grega. Parte I: De Tales a Platão IV Os Pluralistas

Filosofia Grega. Parte I: De Tales a Platão


Por John Burnet


Prefácio e Conteúdos


Livro I O Mundo


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[69]Capítulo IV Os Pluralistas


§50 Apenas foi possível escapar das conclusões de Parmênides em duas condições. Em primeiro lugar, a crença de que tudo que é é um, a qual tinha sido sustentada desde os dias de Tales, tem de ser abandonada. Não havia razão pela qual Parmênides deveria ter negado o movimento exceto essa. Movimento no pleno é bastante concebível, embora não explicaria nada na suposição de unidade. Se qualquer parte do Um parmenediano devesse se mover, isso apenas poderia significar que o seu lugar foi imediatamente tomado por uma parte igual dele. Contudo, como essa parte seria precisamente a mesma que aquela que foi substituída, o resultado do movimento seria nulo, e não poderia ser distinguido do resto. Portanto, nós consideramos que tanto Empédocles quanto Anaxágoras, cujos sistemas nós agora temos de considerar, embora aceitando e insistindo na doutrina parmenidiana de que o real é sem começo e sem fim, também concordam em sustentar que há mais tipos de real do que um. O número que nós conhecemos poder ser explicado como devido à mistura e separação de um número de “elementos” primários. A palavra elementum é uma tradução latina do grego στοιχεἶον, o qual não ocorre nesse sentido até uma data posterior, embora a concepção de um elemento estivesse bastante claramente formada. Empédocles chamava os seus elementos de “raízes,” e Anaxágoras chamou os seus de “sementes,” mas eles dois queriam dizer alguma coisa eterna e irredutível a qualquer outra e sustentavam que as coisas que [70]nós percebemos pelos sentidos são combinações temporárias deles.

A segunda condição que tem de ser satisfeita, se o mundo deve ser explicado a despeito de Parmênides, é que alguma explicação tem de ser dada da origem ou fonte do movimento, o qual, até então, tinha sido aceito como certo, como alguma coisa inerente à natureza do corpo. Portanto, tanto Empédocles quanto Anaxágoras postulam causas do movimento, as quais o primeiro chama de Amor e Conflito, e o segundo chama de Mente (νοὖς). Obviamente, o que eles estavam tateando era a concepção física posterior de força, mas é igualmente claro que eles ainda eram incapazes de desenredar isso completamente daquela de corpo. Eles ambos usam linguagem com respeito às forças que eles assumem que torna claro que elas eram retratadas como alguma coisa corpórea, e isso será bastante inteligível se nós lembrarmos da parte desempenhada pelos “fluidos” na ciência de tempos bastante recentes. Deve ser observado ulteriormente que Empédocles se sentiu obrigado a assumir duas fontes de movimento, como a força de atração e a força de repulsão, ou as forças centrípeta e centrífuga de dias posteriores, enquanto Anaxágoras apenas requereu uma única força que era capaz de produzir rotação. O movimento rotatório mesmo poderia explicar o resto.

Tomando essas duas coisas juntas, nós podemos entender a doutrina que é comum a Empédocles e Anaxágoras, e a qual eles dois expressam em exatamente quase as mesmas palavras. Primeiramente, é que, na realidade, não há tal coisa como vir a ser (γένεσις) e deixar de ser (Φθορά). Isso tinha sido estabelecido por Parmênides. Mas, em segundo lugar, é óbvio que as coisas neste mundo vêm a ser e deixam de ser. Isso é provado pela evidência dos sentidos. A única maneira através da qual isso pode ser reconciliado é considerando o que é comumente chamado de vir a ser como mistura e o deixar de ser como separação. A partir disso se segue, em primeiro lugar, que o real tem de ser tal quanto a admitir mistura, ou, em outras palavras, que tem de haver [71]tipos diferentes de real; e, em segundo lugar, que tem de haver uma causa de mistura e separação.


Empédocles


§51 Empédocles foi um cidadão de Agrigento na Sicília, e ele desempenhou um papel considerável na sua cidade nata como um líder democrático.1 As suas datas são aproximadamente fixadas por nós através do fato bem atestado de que ele foi a Túrio logo após a sua fundação em 444/3 a.C. Provavelmente isso foi após o banimento da sua cidade nativa. Portanto, ele foi contemporâneo ao esplendor meridiano da era pericliana em Atenas, e ele deve ter encontrado Heródoto e Protágoras em Túrio. No caso dele, nós sabemos que ele combinou estudo científicos com uma religião mística de tipo órfico, mas ele diferiu de Pitágoras na direção que os seus estudos científicos tomaram. Nós sabemos que Pitágoras foi primeiro e principalmente um matemático, enquanto que Empédocles foi o fundador da escola siciliana de medicina. Isso explica o interesse fisiológico que marca suas especulações. É a mesma diferença que aquela entre Platão e Aristóteles em uma data posterior.

Aqui nós não estamos diretamente interessados no ensino religioso de Empédocles, embora nós possamos observar de passagem o seu horror de sacrifícios sangrentos, o qual ele justificava a partir da doutrina do renascimento ou transmigração. De fato, as suas “purificações” (Καθαρμοί), das quais restam uma parte considerável de fragmentos, são a nossa autoridade mais antiga e melhor para esse tipo de religião. Elas são escritas em hexâmetros e, dessa maneira, são o seu poema mais estritamente filosófico. Nessa questão ele imitou Parmênides, como está provado por eles às vezes reproduzir suas palavras atuais. A única diferença é que ele era um poeta real, e Parmênides não era.

§52 Como já indicado, Empédocles aceita sem reservas a doutrina de Parmênides de que “o que é” é [72]incriado e indestrutível, e ele apenas escapa das consequências adicionais do eleata introduzindo a teoria dos elementos ou “raízes.” Dessas, eles assumiu quatro – fogo, ar, terra e água – e, em alguns aspectos, isso foi um retorno às visões primitivas que os milesianos já tinham deixado para trás (§10). Em particular, foi reacionário colocar a terra no mesmo nível que os outros três. Contudo, deve ser observado que, ao mesmo tempo, Empédocles fez um avanço ao coordenar o ar com o fogo e a água, em vez de o identificar com vapor e considerá-lo como um estado transitório entre os dois. De fato, ele tinha descoberto que o que nós chamamos de ar atmosférico era um corpo, e que ele era bastante distinto do espaço vazio, por um lado, e do vapor ou névoa, pelo outro. Sem dúvida ele foi levado a essa descoberta pela polêmica de Parmênides contra a existência do espaço vazio. O homem simples pode imaginar que ele tem uma percepção direta disso, e foi necessário a Empédocles mostrar que ele estava errado. Isso ele fez através de um experimento com a klepysdra ou relógio de água. Ele mostrou que o ar poderia manter a água fora de um recipiente, e que a água apenas poderia entrar conforme o ar escapasse. Essa descoberta importante pesa mais que o erro dele ao considerar ar e água como elementos. Ele não teve meios de descobrir que eles não eram. Talvez ele poderia ter obtido uma pista da verdadeira natureza do fogo com Heráclito, mas aqui nós temos de lembrar que, enquanto acreditava-se que o sol e as estrelas consistissem em fogo, não é fácil discernir a verdade. Mesmo Aristóteles adotou os quatro elementos de Empédocles, embora Platão e seus amigos Pitagóricos tivessem declarado que, longe de serem “letras” (στοιχεἶα), eles nem mesmo eram sílabas.

§53 Além dessas quatro “raízes,” Empédocles postulou alguma coisa chamada de Amor (Φιλία), para explicar a atração das formas diferentes de matéria, e de alguma coisa chamada de Conflito (νεἶκος), para explicar a separação delas. Ele fala desses bastante distintamente como corpos. A maneira pela qual eles agem parece ter sido sugerida pelo experimento com a klepsydra já referido. Nós começamos com alguma coisa [73]como a esfera de Parmênides, na qual os quatro elementos estão misturados em um tipo de solução pelo Amor, enquanto o Conflito circunda a esfera por fora. Quando o Conflito começa a entrar na Esfera, o Amor é empurrado em direção ao centro dela, e os quatro elementos gradualmente são separados uns dos outros. Isso claramente é uma adaptação da ideia antiga da respiração do mundo. Contudo, Empédocles também sustentou que a respiração dependia da sístole e diástole do coração, e, portanto, nós descobrimos que, tão logo o Conflito tenha penetrado na parte mais baixa (ou mais central) da esfera, e o Amor esteja confinado ao meio mesmo dela, o processo inverso começa. O Amor expande-se e o Conflito é levado para fora, saindo da Esfera em proporção a conforme o Amor ocupa mais e mais dela, exatamente como o ar é expelido da klepsydra quando a água entra nela. De fato, Amor e Conflito são para o mundo o que sangue e ar são para o corpo. A analogia fisiológica naturalmente influenciou o fundador de uma escola médica, quem, pela primeira vez, formulou uma teoria do fluxo e refluxo do sangue de e para o coração. A concepção da força atrativa como o Amor é também, como Empédocles mesmo diz, de origem fisiológica. Ninguém tinha observado, ele conta a nós (fr. 17, 21-26) que exatamente a mesma força que os homens conhecem em seus corpos desempenha um papel na vida do grande mundo também. Ele não parece ter considerado necessário fornecer nenhuma explicação mecânica da sístole e diástole cósmicas. É apenas a vida do mundo.

§54 Um mundo de coisas perecíveis, tais como nós conhecemos, apenas pode existir quando tanto o Amor quanto o Conflito estão no mundo. Portanto, haverão dois nascimentos e dois falecimentos das coisas mortais (fr. 17, 3-5), um quando o Amor está aumentando e todos os elementos estão combinando-se em um, o outro quando o Conflito está reentrando na Esfera e os elementos estão sendo separados uma vez mais. Apenas os elementos são eternos; as coisas particulares que nós conhecemos são compostos instáveis, os quais vêm à existência conforme os elementos “penetram uns nos outros” em uma direção ou outra. Eles são mortais e perecíveis apenas porque [74]não têm substância (Φύσις) própria; apenas as “quatro raízes” têm. Portanto, não há fim para morte e destruição (fr. 8).2 O nascimento delas é uma mistura e a morte é apenas a separação do que foi misturado. Nada é imperecível exceto fogo, ar, terra e água, com as suas forças do Amor e Conflito.

Nós temos pouca explicação quanto a como Empédocles explicava a constituição das coisas particulares. Ele considerava os quatro elementos, os quais poderiam ser combinados em um número indefinido de proporções, como adequados para as explicar todas, e, em conexão a isso, ele referia-se à grande variedade que os pintores podem produzir com apenas quatro pigmentos (fr. 23). Contudo, ele viu que algumas combinações são possíveis e outras não. A água mistura-se facilmente com o vinho, mas não com o óleo (fr. 91). Isso ele explicava pela presença ou ausência de simetria nas “passagens” (πόροι) ou “poros” dos elementos que entram na mistura. É inútil inquirir como ele reconciliava essa visão com a negação do vazio que ele tinha adotado de Parmênides. Quanto ao resto, Aristóteles atribui grande importância à doutrina dele da “razão de mistura” (λόγος τἦς μείξεως), a qual muito certamente é uma adaptação da teoria pitagórica de “mistura” (κρἆσις) em razões (λόγοι) fixas. A corda afinada faz-se sentir uma vez mais.

§55 Os detalhes da cosmologia apresentam dificuldades consideráveis. É dito a nós que, quando os elementos primeiramente se separaram, o fogo ocupou o hemisfério superior e o ar, o inferior. Isso perturbou o equilíbrio da esfera e produziu a rotação diurna (δίνη) dos céus. Por sua vez, essa rotação mantém a terra no centro. A ideia era aparentemente que ela naturalmente cairia para o hemisfério inferior, mas é impedida de o fazer pelo hemisfério inferior constantemente se tornando o superior. Está claro que há uma grande confusão de pensamento aqui. Empédocles tinha retornado à ideia de um superior e inferior absolutos [75]no mundo, a qual Anaximandro já tinha descartado, e ele nem mesmo parece ter sido consistente nisso. O hemisfério ígneo é dia, e o hemisfério aéreo é noite. O Sol é apenas a luz do hemisfério ígneo refletida de volta a partir da Terra e reunida em um tipo de foco. Nós não temos meios de dizer como Empédocles fez sentido dessa teoria singular em detalhe. Nós apenas podemos dizer que ele foi primariamente um fisiologista, e que a astronomia não foi o seu ponto forte.

E certamente é o caso de que a fisiologia dele, embora suficientemente primitiva, causa uma impressão muito mais favorável. Nós vimos a importância que ela atribuiu à respiração, e como ele a conectava com a ação do coração. Portanto, era natural para ele considerar o sangue como “com o que nós pensamos” (Φρονοὖμεν),3 e fazer do coração o sensório central. Nisso ele distanciou-se da teoria de Alcmeão de Crotona, quem tinha descoberto a importância do cérebro para a percepção sensorial, mas ele adotou dele a explicação dos vários sentidos por “poros” ou passagens (πόροι). A sensação era produzida por “efluências” (ἀπορροαί) ajustando-se nesses. A origem das espécies era atribuída à ação crescente do Conflito. No começo deste mundo havia massas vivas não diferenciadas (οὐλοΦυεἶς τύποι), as quais foram gradualmente diferenciadas, as mais adaptadas sobrevivendo. Empédocles também descreveu como seres mortais surgiram no período quando o Amor estava ganhando maestria, e quando tudo aconteceu exatamente da maneira oposta que nós vemos no nosso mundo. Nesse caso, os membros e órgãos primeiro surgiram em separação, e foram combinados aleatoriamente, de modo que monstros foram produzidos, “bois com cabeças de homens e homens com cabeças de bois.” Essa imagem estranha de uma evolução invertida possivelmente pode ter sido sugerida pelos monumentos egípcios.


[76]Anaxágoras


§56 Anaxágoras de Clazômenas é dito por Aristóteles ter sido mais velho do que Empédocles, mas surgir “após ele em suas obras” (τοἶς δ᾽ ἔργοις ὕστερος).4 Não está claro se isso significa que ele escreveu depois de Empédocles ou se foi inferior a ele em sua realização. As suas datas são bastante incertas, mas nós sabemos que ele se estabeleceu em Atenas e desfrutou da amizade Péricles. Platão faz Sócrates atribuir a eloquência de Péricles a sua associação com Anaxágoras. Foi sem dúvida essa intimidade mesma que expôs Anaxágoras à acusação de irreligião (σέβεια) que foi trazida contra ele. Isso é usualmente dito ter acontecido exatamente antes da Guerra do Peloponeso, mas nós não sabemos realmente ou a data ou a natureza precisa da acusação. Deve ter sido alguma coisa mais definida do que suas especulações sobre o sol. Nós acontecemos de saber que mesmo Diágoras, o ateu típico daqueles dias, não foi julgado por suas opiniões, mas por ofensas em linguagem contra os templos e festivais.5 É um fato notável que Platão nunca fez Sócrates encontrá-lo, embora ele fosse interessado no sistema dele, isso por si mesmo sugere que a acusação por irreligião aconteceu em um data posterior àquela que usualmente é dada. Como um verdadeiro jônio, Anaxágoras escreveu em prosa, e fragmentos consideráveis do livro dele permanecem.

§57 Anaxágoras estabelece que os helenos estão errados ao falarem de vir a ser (γίνεσθαι) e de deixar de ser (ἀπόλλυσθαι). Eles deveriam chamar essas de “comistura” (συμμίσγεσθαι) e “decomposição” (διακρίνεσθαι) (fr. 17). Isso é quase em tantas palavras a doutrina de Empédocles, com a qual Anaxágoras certamente tinha sido familiarizado. Em qualquer caso, é certo [77]que ele começou, como Empédocles, a partir da explicação parmenidiana de “o que é.” Por outro lado, Anaxágoras era um jônio. Nós somos contados que ele tinha sido um proponente de “a filosofia de Anaxímenes,” e é evidente a partir dos detalhes da cosmologia dele que essa afirmação é correta. Portanto, nós devemos estar bem preparados para descobrir que ele começou a partir de pressuposições bastante diferentes, embora essas também fossem derivadas a partir de fontes médicas. A medicina era o grande interesse da época.

Como Empédocles, Anaxágoras postulava uma pluralidade de elementos independentes que ele chamava de “sementes.” Todavia, essas não eram as “quatro raízes,” fogo, ar, terra e água; pelo contrário, elas eram compostas. Por exemplo, Empédocles tinha suposto que ossos poderiam ser explicados como um composto dos elementos em uma certa proporção, mas isso não satisfez Anaxágoras. Ele indicava que a partir de pão e água surgem cabelo, veias, “artérias,”6 carne, músculos, ossos, e o resto, e ele perguntava “Como cabelo pode ser feito do que não é cabelo, e carne do que não é carne?” (fr. 10). Essas palavras certamente se leem como uma crítica direta a Empédocles.

Contudo, essa maneira de falar levou a um sério mau entendimento da teoria. Nos trabalhos biológicos de Aristóteles, os vários “tecidos,” alguns dos quais Anaxágoras enumera, são chamados de “homeomerias” (ὁμοιομερἦ), um termo que significa que todas as suas partes são similares ao todo. As partes do osso são osso, e as partes do sangue são sangue. Isso é apenas a distinção entre coisas tais como osso, carne e sangue, e “órgãos” como o coração ou os pulmões. Não há evidência de que Anaxágoras mesmo usasse essa terminologia e, de fato, é incrível que nenhum fragmento contendo isso deveria ter sido citado se ele tivesse. Contudo, os epicureus atribuem a ele, e eles também entenderam isso erradamente. Eles supuseram que isso significa que tem de haver partículas minúsculas no pão e na qual que [78]eram como as partículas de sangue, carne e ossos, e a adoção dessa interpretação por Lucrécio deu circulação a isso.

§58 Nós vimos que Anaxágoras tinha sido um defensor de “a filosofia de Anaxímenes,” e manteve-se tão perto dela quanto ele conseguiu nos detalhes da sua cosmologia. Ele não pôde dizer que tudo era “ar” mais ou menos rarefeito ou condensado, visão pela qual teria sido destruído por Parmênides. Se o mundo tivesse de ser explicado de qualquer maneira, uma pluralidade original tem de ser admitida. Portanto, ele substituiu pelo “ar” primário um estado no qual “todas as coisas (χρέματα) estavam juntas, infinitas tanto em quantidade quanto em pequeneza” (fr. 1). Isso é explicado para significar que a massa original era infinitamente divisível, mas que, por mais que a divisão fosse levada a cabo, cada parte dela ainda conteria todas as “coisas” (χρέματα) e, nesse aspecto, seria exatamente como o todo. Isso é o oposto mesmo da doutrina dos “elementos,” a qual parece ser expressamente negada pelo dito de que “as coisas que são em um mundo não estão separadas umas das outras ou cortadas com uma machadinha” (fr. 8). Qualquer coisa tem “porções” (μοἶραι) de tudo o mais nela.

Mas se isso fosse tudo, nós não deveríamos estar mais perto de uma explicação do mundo do que antes; pois nada haveria para distinguir uma “semente” de outra. A resposta para isso é que, embora cada uma tenha uma “porção” de tudo nela, por mais minusculamente que ela possa ser dividida, algumas têm mais de uma coisa e outras mais de outra. Isso já devia ser visto na massa original indiferenciada onde “todas as coisas estavam juntas”; pois ali porções de ar e “éter” (palavra pela qual Anaxágoras significa fogo) era muito mais numerosas do que outras, e, portanto, o todo tinha a aparência de ar e “éter.” Anaxágoras não poderia dizer que isso realmente fosse ar, como Anaxímenes tinha feito, porque ele tinha descoberto por si mesmo ou aprendido de Empédocles a existência corporal separada do ar atmosférico. Nós temos algumas referências para os experimentos pelos quais ele demonstrou isso. Ele usou peles infladas para o [79]propósito. Mesmo assim, o esforço para se afastar o mínimo possível da doutrina de Anaxímenes é aparente.

§59 Então nós vemos que as diferenças que existem no mundo como nós o conhecemos devem ser explicadas através da variação de proporções nas quais as porções estão misturadas. “Tudo é chamado daquilo que ele mais tem nele,” embora, como uma questão de fato, ele tenham tudo nele. Por exemplo, a neve é tão preta quanto branca,7 mas nós a chamamos de branca porque o branco excede em muito o preto. Como era natural, as “coisas” nas quais Anaxágoras pensava principalmente como contidas em cada “semente” eram os opostos tradicionais, quente e frio, úmido e seco, e assim por diante. É dessas que ele está expressamente falando quando ele diz que “as coisas em um mundo não são cortadas umas das outras por uma machadinha” (fr.8). Empédocles tinha feito de cada um desses quatro opostos uma “raiz” por si mesmo; cada uma das “sementes” de Anaxágoras contêm todas elas. Dessa maneira ele pensava que poderia explicar a nutrição e o crescimento; pois é claro que o produto de um número de “sementes” poderia apresentar uma proporção bastante diferente dos opostos do que qualquer uma delas se fossem tomadas separadamente.

§60 O outro problema, aquele da fonte do movimento, permanece. Como nós devemos passar do estado do mundo quando todas as coisas estavam juntas para a realidade múltipla que nós conhecemos? Como Empédocles, Anaxágoras olhou para o microcosmo para uma sugestão quanto à fonte de movimento, mas ele considerou suficiente uma única fonte para esse propósito. Ele chamou-a de Mente (νοὖς); pois que ela é a fonte de movimento assim como de conhecimento em nós. Contudo, ele não teve mais sucesso na formação da concepção de uma força incorpórea do que Empédocles tinha tido. Também para ele a causa de movimento é um tipo de “fluido.” É “a mais fina de todas as coisas” (fr. 12), e, acima de tudo, é “não misturada,” quer dizer, ela não tem porções de outras coisas nelas, e isso é o que a concede “maestria,” quer dizer, o poder tanto de conhecer quanto de mover as outras coisas. Além disso, ela entra em algumas coisas e não em outras, e isso explica a [80]distinção entre o animado e o inanimado. A forma pela qual ela separa e ordena as coisas é através da produção de um movimento rotatório (περιχώρησις), o qual começa no centro e difunde-se mais e mais. Isso é realmente tudo que Anaxágoras tem a dizer sobre isso, e no Phaedo, Platão faz Sócrates dizer que ele fez a Mente um mero deus ex machina (98 b). Como um verdadeiro jônio, ele tentou fornecer uma explicação mecânica de tudo que ele pôde, e, uma vez que ele tinha conseguido o movimento rotatório iniciado, ele poderia deixar isso para ordenar o resto do mundo.

§61 Contudo, é difícil de acreditar que Anaxágoras fosse inteiramente ignorante da ciência pitagórica. Enopides de Quios estava introduzindo uma geometria mais altamente desenvolvida na Jônia a partir do oeste, Anaxágoras mesmo é creditado com certas descobertas matemáticas. Ele também conhecia, embora certamente não descobriu, que o Sol é eclipsado pela interposição da Lua, e que a Lua brilha através da luz refletida a partir do Sol, mas ele pode não ter sido capaz de fornecer uma verdadeira explicação dos eclipses lunares, vendo que ele ou era ignorante de ou deliberadamente rejeitava a descoberta que a Terra fosse uma esfera. Também nesse aspecto ele aderiu à doutrina de Anaxímenes e considerou-a como um disco. Isso sendo assim, ele teve de assumir corpos escuros invisíveis para nós para explicar os eclipses da lua. Isso está provavelmente conectado com a teoria que mais parece ter impressionado seus contemporâneos. De alguma maneira, a sua atenção tinha sido dirigida para a imensa pedra meteórica que caiu em Egospótamo em 468/7 a.C., e isso sugeriu a ele que porções da Terra poderiam ser destacadas e arremessadas como a partir de uma funda pelo movimento rotatório. Uma vez esse tinha sido muito mais rápido que é agora, e assim o Sol, o qual é uma massa de ferro vermelho quente “maior do que o Peloponeso,” e a Lua, qual era feita de Terra, tinham alcançado os seus lugares presentes. Tudo isso parece suficientemente retrogrado quando nós comparamos com a ciência pitagórica. Ela foi uma coisa que os jônios nunca realmente poderiam assimilar. Mesmo Demócrito foi quase tão retrógrado nessas questões quanto Anaxágoras, [81]e Aristóteles mesmo não pôde apreender completamente a concepção pitagórica.

§62 Embora Empédocles tivesse distinguido Amor e Conflito como as causas de mistura e separação dos quatro elementos que são misturados e separados, ele continuava a chamar todos eles de “deuses” no sentido com o qual nós agora estamos familiares, e ele também dava o nome à Esfera na qual eles todos estavam misturados juntos. Anaxágoras parece ter dado o passo de chamar apenas a fonte de movimento de “deus.” Nesse sentido, e nessa extensão, não é incorreto chamá-lo de o fundador do teísmo. Por outro lado, parece ter sido precisamente por isso que os contemporâneos dele o chamavam de um ateu. Em seu desejo para exaltar o Nous, ele parece ter seguido a liderança de Xenófanes na negação da divindade de tudo o mais, e as afirmações dele sobre o Sol e a Lua são usualmente mencionados em conexão com a acusação de irreligião trazida contra ele, embora agora nós não possamos dizer o que ele se referisse, ou se a acusação era ou não bem fundamentada. Nós apenas podemos dizer que Péricles compartilhava do espírito secular dos jônios, e é bastante concebível que o seu círculo imediato pode ter ofendido as suscetibilidades religiosas dos atenienses antiquador ridicularizando cerimônias que ainda eram sagradas aos olhos deles.8


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ORIGINAL:

BURNET, J. Greek Philosophy. Part I Thales to Plato. London: MacMillan and Co., Limited, 1928. p. 69-81. Disponível em: <https://archive.org/details/greekphilosophyp0000burn/page/69/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1[71]Referências a autoridades são dadas em E. Gr. Ph.2 §§ 97 sqq. Para uma tradução dos fragmentos, ver ib. §105.

2[74]Eu adotei a interpretação desses versos sugerida por Lovejoy (Philosophical Review, xviii. pp. 371 sqq.).

3[75]Platão, Phaedo, 96 b.

4[76]Referências a autoridades são das em E. Gr. Ph.2 §§ 120 sqq.

5Ver o discurso contra Andócides preservado em meios às obras de Lísias (6.17).

6[77]A verdadeira distinção entre veias e artérias ainda não era conhecida. Era suposto que as artérias contivessem ar e estivessem conectadas com a passagem de ar (wind-pipe) ou traqueia (τραχεἶα, sc. ἀρτηρία).

7Sexto, Pyrrh. Hypot. I. 33.

8[81]A adoração do Sol e da Lua não era parte da religião ateniense, mas Anaxágoras poder ter ridicularizado pelos ἐξηγηταί sobre a ocasião do eclipse solar de 463 a.C. Sem dúvida, isso seria ἀσέβεια.

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