domingo, 24 de agosto de 2025

Elementos de Lógica - Livro II - Capítulo I Das Operações da Mente e dos Termos

Elementos de Lógica


Por Richard Whately


Anúncio, Dedicatória, Prefácio e Conteúdos


Livro I


Livro II Compêndio Sintético


[60]Capítulo I Das Operações da Mente e dos Termos


§1


Há três operações [ou estados] da mente que dizem imediatamente respeito a argumentos; os quais são chamados por escritores em lógica – 1º Apreensão simples; 2º Julgamento; 3º Discurso ou raciocínio.1

1º Apreensão simples eles definem ser aquele ato ou condição da mente na qual ela recebe uma noção de algum objeto; e a qual é análoga à percepção dos sentidos. Ela é ou simples [61]ou complexa:2 a apreensão simples é de um objeto, ou de vários, sem nenhuma relação sendo percebida entre eles, como de “um homem,” “um cavalo,” “cartões:” Complexa é de vários com uma tal relação, como de “um homem sobre um cavalo,” “um pacote de cartões.”

2º Julgamento é a comparação na mente de duas noções [ou ideias] que são os objetos da apreensão, quer complexa ou simples, e pronunciando que elas concordam ou discordam uma com a outra; [ou que uma delas pertence ou não pertence à outra.] Portanto, o julgamento é ou afirmativo ou negativo.

3º Raciocínio [ou “discurso”] é o ato de prosseguir a partir de certos julgamentos para outro fundando sobre eles, [ou o resultado deles.]


§2


A linguagem fornece os signos através dos quais essas operações da mente são não apenas expressas e comunicadas para outros, mas até, pela maior parte, levadas a cabo por nós mesmos. A noção obtida em um ato de apreensão é chamada, quando expressa em linguagem, um termo; um ato de julgamento é expresso por uma proposição; um ato de raciocínio, por um argumento; (o qual, quando regularmente expresso, é um silogismo;) como, por exemplo


Toda dispensação da Providência é benéfica;

Aflições são dispensações da Providência,

Portanto, elas são benéficas.”


[62]é um silogismo; o ato de raciocínio sendo indicado pela palavra “portanto (therefore).” Ele consiste em três proposições, cada uma das quais tem (necessariamente) dois termos, como “benéfico,” “dispensação da Providência,” etc.

Introduzindo a menção à linguagem anteriormente para a definição de lógica, eu afastei-me da prática estabelecida para que possa ser claramente entendido que a lógica está inteiramente relacionada com a linguagem. Se qualquer processo de raciocínio pode ocorrer na mente, sem emprego algum de linguagem, oralmente ou mentalmente, (uma questão metafísica que eu não deverei discutir aqui), um tal processo não entra na província da ciência aqui tratada.3 Essa verdade, a maioria dos escritores sobre o assunto, se de fato eles mesmos estavam completamente cientes dela, certamente não têm tomado o cuidado devido para a imprimir nos seus leitores.

A linguagem é empregada para vários propósitos. Por exemplo, ela é a província do historiador para transmitir informação através da linguagem, - do poeta, para proporcionar um certo tipo de gratificação, - do orador, para persuadir, etc, etc.; enquanto ela pertence ao escritor ou orador argumentativo como tal, para convencer o entendimento. E como a gramática está relacionada com a linguagem de maneira universal, para qualquer propósito que ela seja empregada, assim, enquanto ela for empregada para esse último propósito, a saber, esse de raciocínio, é que ela cai sob o conhecimento da lógica.

E considerando que, no raciocínio, os termos estão sujeitos a serem indistintos, (ou seja, sem nenhum significado determinado,) as proposições e serem falsas e os argumentos, inconclusivos, a lógica tenta, direta e completamente, guardar-se contra esse último defeito, e, [63]incidentalmente, e em um certo grau, contra os outros, até onde pode ser feito pelo uso apropriado da linguagem. Portanto, (quando considerada como uma arte,) ela é “a arte de empregar a linguagem apropriadamente para o propósito do raciocínio; e de distinguir o que é própria e verdadeiramente um argumento de imitações espúrias dele.” Ninguém que não tenha considerado longa e atentamente quanto nossos pensamentos são influenciados por expressões, e quanto erro, perplexidade e labor são ocasionados por um uso deficiente da linguagem, pode estimar corretamente a importância desse estudo; e muitos que não estão cientes disso, ainda têm falhado em observar que “signos” (tais como a linguagem fornece) são um instrumento indispensável de todo raciocínio, estritamente assim chamado.

Contudo, em referência aos defeitos acima, duas distinções importantes devem ser observadas. 1ª Deve ser lembrado que o que é realmente um termo pode ser apreendido indistintamente pela pessoa empregando-o, ou pelo seu ouvinte; e também assim, uma proposição que é falsa não é menos uma proposição real: mas, por outro lado, qualquer expressão ou afirmação que não realmente prove alguma coisa não é, realmente, um argumento de qualquer maneira, embora ela possa ser apresentada e passar-se por tal.

2ª Deve ser observada que (como é evidente a partir do que anteriormente foi dito) nenhuma regra pode ser divisada que protegerá igualmente contra todos os três dos defeitos acima mencionados.

Chegar a uma apreensão distinta de qualquer coisa que possa ser expressa por qualquer termo que seja, e, novamente, determinar a verdade ou a falsidade de cada proposição concebível, está manifestamente além do alcance de qualquer sistema de regras. Mas, por outro lado, é possível exibir qualquer pretenso argumento [64]que seja em uma forma quanto a ser capaz de se pronunciar decisivamente sobre a sua validade ou falaciosidade.

De modo que, o último dos três defeitos aludidos (embora não os dois primeiros) pode ser direta e completamente evitado através da aplicação de regras adequadas. Mas pode-se guardar contra os outros dois defeitos (como será mostrado em breve) apenas indiretamente, e a um certo grau.

Em outras palavras, regras poderão ser estruturadas que nos possibilitarão a decidir o que é realmente ou não um “termo,” - realmente, uma “proposição” – ou realmente, um “argumento:” e fazer isso é se guardar completamente contra o defeito da inconclusividade; uma vez que nada que seja inconclusivo realmente é um “argumento;” embora possa haver realmente um “termo” do qual você não apreende distintamente o significado; e aquilo que é realmente umaproposição” pode ser uma proposição falsa.

Como dito anteriormente, um silogismo sendo resolvível em três proposições, e cada proposição contendo dois termos; desses termos, aquele do qual se fala é chamado de o sujeito; aquele que é dito dele, o predicado; e, logicamente, esses dois são chamados de os termos [ou extremos] porque o sujeito é colocado primeiro, e o predicado, por último;4 e, no meio, a cópula, a qual indica o ato de julgamento, visto que através dela o predicado é afirmado ou negado do sujeito. A cópula tem de ser é ou não é; expressões que indicam simplesmente que você afirma ou nega o predicado do sujeito. O verbo-substantivo é o único verbo reconhecido pela lógica; na medida que todos os outros são compostos; sendo resolvíveis, [65]através do verbo “ser” e de um particípio ou adjetivo; por exemplo, “os romanos conquistaram;” a palavra conquistada é tanto cópula quanto predicado, sendo equivalente a “foram (cópula) vitoriosos (predicado).”

É apropriado observar que a cópula como tal não tem relação com o tempo; mas meramente expressa o acordo ou desacordo de dois termos dados: consequentemente, se qualquer outro tempo do verbo-substantivo além do presente é usado, ou ele é entendido como o mesmo no sentido, (a diferença de tempo sendo considerada apenas como uma questão de propriedade gramatical;) ou senão, se a circunstância de tempo realmente modifica o sentido da proposição inteira, de modo a tornar algo essencial o uso desse tempo, então a circunstância deve ser considerada como parte de um dos termos: “àquele momento,” ou alguma expressão similar sendo entendida; como “este homem foi honesto;” ou seja, “ele é alguém anteriormente honesto.” Nesses casos, uma ênfase, acompanhada por um tom particular, usualmente é colocada sobre o verbo-substantivo.5

Algumas vezes o verbo-substantivo é tanto cópula quanto predicado; por exemplo, onde apenas a existência é predicada; por exemplo, Deus est, “há um Deus.” “Um dos filhos de Jacob não é.” E observe que a cópula, meramente como tal, não implica existência real; por exemplo, “um homem sem falta é um ser simulado pelos estoicos, e que alguém não deve esperar encontrar.


[66]§3


É evidente que um termo pode consistir ou em uma ou em várias palavras; e que é evidente que nem toda palavra é categoremática, ou seja, capaz de ser empregada por si mesma como um termo. Advérbios, preposições, etc, e também substantivos em qualquer outro caso além do nominativo são sincategoremáticos, ou seja, eles apenas podem formar parte de um termo. Um substantivo nominativo pode por si mesmo ser um termo. Um verbo (todos exceto o verbo-substantivo usado como a cópula) é uma palavra mista, sendo resolvível na cópula e no predicado, aos quais ele é equivalente: e, de fato, frequentemente é assim resolvível na mera tradução de uma linguagem para outra; como “ipse adest,” “ele está presente.” Contudo, deve ser observado que no “verbo” nós não incluímos o infinitivo, o qual é apropriadamente um substantivo-nome, não o particípio, o que é um adjetivo-nome. Eles são verbais; estando relacionado aos seus respectivos verbos no aspecto de as coisas que eles significam; visto que eles diferem inteiramente no seu modo de significação. Vale a pena observar que um infinitivo (embora ele frequentemente venha por último na sentença) nunca é o predicativo, exceto quando outro infinito é o sujeito, por exemplo:


Eu espero ter sucesso (I hope to succeed):” ou seja, “suceder (to succeed)}(sujeito) é o que eu espero (what I hope)}(predicativo).” “Não avançar é recuar (Not to advance is to fall back).”


Também deve ser observado que, em inglês, há dois infinitivos, um em “ing,” o mesmo no som e escrita que o presente particípio; a partir do qual, contudo, ele deveria ser cuidadosamente distinguido; por exemplo, “levantar cedo é saudável (rising early is healthful)” e “É saudável levantar cedo (it is healthful to rise early)” são equivalentes.

[67]Os gramáticos têm produzido muita complexidade desnecessária falando do particípio em ing,” sendo empregado assim e assim; quando é manifesto que o emprego mesmo da palavra constitui, para todos os intentos e propósitos, um infinitivo e não um particípio.

A vantagem do infinito em ing é que ele pode ser usado ou no nominativo ou em qualquer caso oblíquo; não (como alguns supõem) que ele necessariamente implique hábito; por exemplo, “Ver é crer (Seeing is believing):” “há glória em morrer pelo próprio país (there is glory in dying for one’s country):” “um hábito de observar (a habit of observing),” etc.

Se eu digo “ele está cavalgando (he is riding),” e novamente “cavalgar é agradável (riding is pleasant),” na primeira sentença “cavalgando (riding)” é um adjetivo e é o predicado; na segunda sentença, é um substantivo e é o sujeito; a sentença sendo equivalente a “é agradável cavalgar (it is pleasant to ride).”

Nesse e em muitos outros casos, a palavra inglesa It serve como um representante do sujeito quando ela é colocada por último.


Deve ser esperado (to be hoped)}(predicativo) que nós devemos (we shall)}(sujeito) ter sucesso.”


Um adjetivo (incluindo particípios) não pode por si mesmo ser tornado sujeito de uma proposição; mas ele é frequentemente empregado como um predicado: como “Crassus era rico (Crassus was rich);” embora alguns escolham considerar algum substantivo como sendo entendido em cada caso, (por exemplo, homem rico) e, consequentemente, não reconhecem os adjetivos em meio aos termos simples; [ou seja, palavras que sozinhas são capazes de ser empregadas como termos.] Contudo, isso é uma questão de nenhuma consequência prática; mas eu tenho considerado melhor aderir ao modo de afirmação de Aristóteles (Ver as Categorias dele.)

Portanto, dos termos simples, (os quais são aqueles dos quais trata a primeira parte da lógica) há muitas divisões; das quais, contudo, uma será suficiente para o propósito presente; a saber, entre singular e comum; [68]porque, embora qualquer termo que seja pode ser um sujeito, nenhum, exceto um termo comum, pode ser afirmativamente predicado de vários outros. Um termo singular equivale a um indivíduo, como “César,” “o Tâmisa:” esses, é evidente, não podem ser ditos [predicados] afirmativamente de nada exceto desses indivíduos respectivamente. Um termo comum é um que pode equivaler a um número indefinido de indivíduos, os quais são chamados dos seus significados, ou seja, pode ser aplicado a qualquer um deles, enquanto compreendendo-os em sua significação única; como “homem,” “rio,” “grande.”


O estudante que passou pelo Esboço Analítico, agora estará capacitado para prosseguir para os capítulos segundo e terceiro ou com ou sem o estudo do que usualmente é colocado no primeiro capítulo, mas que eu anexei como um suplemento. Ver cap. v.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

WHATELY, R., Elements of Logic. Comprising the Substance of the Article in the Encyclopedia Metropolitana with Additions, &c. New Edition, Revised by the Author. Boston and Cambridge: James Munroe and Company, 1859. p. 60-68. Disponível em: <https://archive.org/details/elementsoflogicc00whatuoft/page/60/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

1[60]Geralmente escritores sobre lógica têm começado estabelecendo que no todo há três operações da mente: (in universum tres) uma afirmação de maneira nenhuma sem controvérsias, e que, se admitida, nada é para o propósito presente. O nosso negócio é com argumentação, expressa em palavras, e as operações da mente implicadas por essa; que outras pode haver, se alguma, são questões irrelevantes.

A abertura de um tratado com uma afirmação relativa às operações da mente de modo universal tende a estimular o erro predominante (do qual, provavelmente, as mentes dos escritores não estavam isentas) da suposição de que lógica professa ensinar “o uso das faculdades mentais de maneira geral;”- o “uso correto da razão,” de acordo com Watts.

2[61]Com respeito aos termos técnicos empregados nesta obra, ver o Prefácio.

3[62]Ver Introdução, §5.

4[64]Muito frequentemente, em grego e em latim, e não infrequentemente, em inglês, o predicado é realmente colocado primeiro; como “grande é Diana dos efésios (great is Diana of the Ephesians).”

5[65]É estranho dizer que há pessoas que entendem desta maneira a declaração do Nosso Senhor a Pilatos: “meu reino não é deste mundo (my kingdom is not of this world);” a saber, “agora (now);” significando (secretamente) que ele se devia se tornar isso SUBSEQUENTEMENTE, quando os seus seguidores deveriam ter alcançado força maior! Quais podem ser os sentimentos morais daqueles que acreditam assim ter estado o sentido secreto das palavras de um mensageiro divino que deve ser o nosso modelo de verdade e de toda virtude!

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