História das Ciências Indutivas, desde a Época mais Antiga à Atual
Por William Whewell
[5]A Sir John Frederick Willaim Herschel.
K. G. H.
Meu caro Herschel,
É com prazer incomum que eu tomo minha caneta para dedicar estes volumes a você. Eles são o resultado de linhas de pensamento que frequentemente foram o assunto de nossa conversação, e a origem das quais remonta ao período de nosso companheirismo inicial na universidade. E se alguma vez eu oscilei em meu propósito de combinar essas reflexões e pesquisas em um todo, eu devo ter derivado um impulso renovado e animação intensificada do seu delicioso discurso sobre um assunto aparentado. Pois eu não o consegui ler sem encontrar essa porção de filosofia investida com um charme fresco; e pensei que, embora eu poderia estar bem ciente de que não poderia aspirar àquela grande parte de popularidade com o seu trabalho tão justamente obtida, eu ainda deveria ter refletido que alguma coisa era devida ao assunto mesmo, e deveria ter esperado que meu próprio objetivo estivesse tão longe do seu para que a presente obra tivesse uma chance de excitar algum interesse em alguns dos seus leitores. Que ela interessará a você, eu absolutamente não hesito em acreditar.
Se você estivesse na Inglaterra, eu deveria parar aqui: mas quando um amigo está removido por anos para uma terra distante, nós parecemos adquirir um direito para falar abertamente das suas boas qualidades. Portanto, eu não consigo prevalecer sobre mim mesmo para guardar minha caneta sem aludir à admiração afeiçoada das suas excelências morais e sociais, assim como intelectuais, as quais brotam nos corações dos seus amigos, sempre que se pensa em você. Eles ficam muito encantados de olharem para o halo de fama merecida que folga ao redor da sua cabeça; mas ainda mais, de lembrarem, [6]como um deles disse, que a sua cabeça está longe de ser a melhor parte sobre você.
Possa a sua estada no hemisfério sul ser tão feliz e exitosa quanto o objeto dela é nobre e digno de você; e possa o seu retorno para casa serão tão rápido e prospero, tão logo o seu propósito seja atingido.
Sempre, meu caro Herschel, seu,
W. Whewell.
22 de março de 1837.
P.S. Assim eu escrevi, há quase dez anos, quando você estava no Cabo da Boa Esperança, empregado na sua grande tarefa de produzir uma análise padrão das nebulosas e estrelas duplas visíveis ao homem. Agora que você está, como eu confio, a umas poucas semanas de colocar a pedra de coroação sobre o edifício através da publicação das suas “Observations in the Southern Hemisphere,” eu não posso deixar de o congratular em consequência de ter sua vida enobrecida pela concepção e execução feliz de um tão grande projeto e, uma vez mais, oferecer a você meus desejos de que possa desfrutar por muito tempo a glória que tão bem conquistou.
W.W.
Trinity College, 22 de novembro de 1846.
[7]Prefácio à Terceira Edição
Nos prefácios às edições anteriores desta obra, várias observações foram feitas, as quais agora não é necessário repetir à mesma extensão. Que uma história das ciências, executada como esta é, tem algum valor aos olhos do público, está suficientemente provado pela circulação que ela tem obtido. Eu ainda sou capaz de dizer que não tenho visto nenhuma objeção urgida contra o plano da obra, e escassamente alguma contra os detalhes. A tentativa de lançar a história de cada ciência em Épocas nas quais alguma grande descoberta cardinal foi feita, e arranjar os eventos subordinados de cada história como pertencentes a Prelúdios e Sequências dessas Épocas, parece ter sido aceita, enquanto conveniente e justamente exibindo o progresso da verdade científica. Uma tal visão sendo assumida, visto que foi uma luz e guia constantes para o escritor em sua tarefa, eu acredito que ela também tornará a visão do leitor muito mais clara e compreensiva do que poderia ser de outra maneira. Com respeito à maneira pela qual esse plano foi levado a efeito com referência a escritores particulares e às pesquisas deles, como eu tenho dito, eu escassamente vi qualquer objeção feita. Como afirmei desde o princípio, eu estive ciente da dificuldade e delicadeza da tarefa que tinha empreendido; mas eu tive várias considerações para me encorajar a passar por isso; e eu tive uma confiança, a qual [8]até agora nada tive para perturbar, de que deveria ser capaz de falar imparcialmente dos grandes homens de ciência de todas as épocas, mesmo da nossa própria.
Eu já disse na introdução que a obra visou a ser não meramente uma narração dos fatos na história da ciência, mas uma base para a filosofia da ciência. Pareceu-me que o nosso estudo dos modos de descoberta deveria ser baseado sobre uma análise das verdades que foram descobertas. Assim formulada, essa máxima parece suficientemente autoevidente; todavia, mesmo até a época presente, raramente se tem agido sobre ele. Aqueles que discursam relativos à natureza da verdade e ao modo da sua descoberta, ainda, comumente, tomam a si mesmos como exemplos de verdades, as quais, pela maior parte, são completamente frívolas e insubstanciais (como na maioria dos tratados de lógica); ou senão eles escavam, de novo e de novo, o campo estreito e especial da verdade matemática, o qual certamente não pode por si mesmo exemplificar o modo geral pelo qual o homem tem atingido o vasto corpo de verdade certa que ele agora possui.
Contudo, não pode ser negado que as ideias que formam a base da verdade matemática são de interesse na verdade científica no geral; e discussões relativas a essas ideias de modo nenhum são necessariamente vazias de vantagem. Mas tem de ser tido em mente que, além dessas ideias, também há outras, as quais jazem na raiz da verdade científica; e relativo às quais tem havido, em vários períodos, discussões que têm tido uma influência importante sobre o progresso da verdade científica; - tais como discussões relativas à natureza e aos atributos necessários da matéria, da força, dos átomos, dos meios, dos tipos, da organização. As controvérsias que têm ocorrido relativas a essas têm um lugar importante na história da ciência natural na [9]sua acepção mais extensa. Contudo, pareceu conveniente prosseguir com a história da ciência, na medida que ela depende de observação, em uma linha separada daquelas discussões relativas a ideias. Portanto, a consideração dessas discussões e das controvérsias consequentes, embora ela seja completamente histórica, e, como me parece, uma história muito curiosa e interessante, está reservada para outra obra a Philosophy of the Inductive Sciences. Na verdade, uma tal história tem o seu lugar natural na filosofia da ciência; pois a filosofia da ciência no presente tem de conter o resultado e resumo de toda verdade que tenha sido desemaranhada de erro e confusão durante essas controvérsias passadas.
Eu fiz algumas poucas adições à presente edição; em parte, com uma visão de trazer a história, pelo menos de algumas das ciências, até o tempo presente, - até onde se diz respeito àquelas grandes características da história da ciência, apenas com as quais eu tenho de lidar aqui, - e também parcialmente, especialmente no primeiro volume, para retificar e alargar algumas das porções anteriores da história. Várias obras que têm aparecido recentemente sugeriram reconsideração de vários pontos; e eu esperava que meus leitores poderiam estar interessados nas reflexões assim sugeridas.
Eu acrescentarei umas poucas sentenças do prefácio da primeira edição.
“Como será facilmente suposto, eu tomei emprestado amplamente de outros escritores, tanto das histórias das ciências especiais quanto da filosofia no geral.1 Eu fiz isso sem [10]escrúpulos, uma vez que a novidade da minha obra foi intencionada para consistir não na sua superioridade como uma coleção de fatos, mas no ponto de vista no qual os fatos estavam posicionados. Todavia, em todos os casos, eu dei as referências para as minhas autoridades e há muito poucas instâncias nas quais eu não tenha verificado as referências de historiadores prévios e estudado os autores originais. De acordo com o plano que eu tenho seguido, a história de cada ciência forma um todo em si mesma, dividida em membros distintos mais conectados, pelas Épocas dos seus sucessivos avanços. Se eu satisfiz aos juízes competentes de cada ciência através da minha seleção dessas épocas, o esquema da obra tem de ser de valor permanente, por mais que imperfeita possa ser a execução de qualquer uma das suas porções.”
“Com todos esse fundamentos de esperança, ainda é impossível não ver que um empreendimento semelhante é, em nenhum grau pequeno, árduo, e a sua ocorrência, obscura. Mas todos quem se aventuram em tais tarefas têm de reunir confiança e encorajamento a partir de reflexões como aquelas pelas quais o seu grande precursor preparou a si mesmo para os seus empreendimentos; - lembrando-se de que eles estão visando aos melhores interesses e privilégios do homem; e que eles podem esperar que todos os melhores e mais sábios dos homens juntem-se a eles em suas aspirações e auxiliem-nos em seus labores.”
“‘Relativo a nós mesmos nós não falamos; mas no tocante à matéria que temos em mãos, isto nós pedimos – que os homens não a considerem ser o estabelecimento de uma opinião, mas a realização de uma obra; e que eles recebam isto como uma certeza – que nós não estamos estabelecendo os fundamentos de nenhum secto ou doutrina, mas do benefício e da dignidade do gênero humano: [11]ainda mais, que estando bem-dispostos ao que deverá ser vantajoso para eles mesmos, e deixando de lado facções e prejuízos, eles tomem conselho comum conosco, para o fim de que sendo por esses nossos auxílios e ferramentas livres e defendidos de devaneios e impedimentos, eles possam emprestar suas mãos também aos labores que restam a ser realizados: e ainda mais, que eles possam ser de boa esperança; nem simular nem imaginar para si mesmos esta nossa reforma como alguma coisa de dimensão infinita e além do alcance do homem mortal, quando, em verdade, ela é o fim e o limite verdadeiro do erro infinito; e de modo nenhum é esquecida da condição de mortalidade e humanidade, não confinando que uma tal coisa possa ser levada ao seu encerramento perfeito no espaço de um único dia, mas atribuindo-a como uma tarefa a uma sucessão de gerações’- Bacon – Instauratio Magna, Praef. ad fin.”
“‘Se há qualquer homem quem tem isto no coração, não meramente tomar posição sobre o que já foi descoberto, mas tirar proveito disso e avançar para alguma coisa além; não conquistar um adversário através de disputas, mas conquistar a natureza através de trabalho; não opinar provavel e belamente, mas conhecer certa e demonstrativamente; que esses, como sendo verdadeiros filhos da natureza (se eles consentirão em o fazer), juntarem-se a nós; de modo que, deixando o pórtico, através do qual as multidões sem fim têm caminhado por tanto tempo, nós finalmente possamos abrir um caminho para as suas cortes internas. E que nós possamos marcar dois caminhos, o antigo e o nosso novo, através de nomes familiares, nós temos estado acostumados a chamar um de a Antecipação da Mente, o outro, a Interpretação da Natureza.’ Inst. Mag. Praef. ad Part. ii.”
[13]Conteúdos do Primeiro Volume
Introduction. 41
Book I. History of the Greek School Philosophy, with Reference to Physical Science.
Chapter I. Prelude to the Greek School Philosophy. 55
Chapter II. The Greek School Philosophy. 60
Chapter III. Failure of the Physical Philosophy of the Greek Schools. 80
Book II. History of Physical Sciences in Ancient Greece.
Chapter I. Earliest Stages of Mechanics and Hydrostatics. 96
Chapter II. Earliest Stages of Optics. 100
Chapter III. Earliest Stages of Harmonics. 105
Book III. History of Greek Astronomy.
Chapter I. Earliest Stages of Astronomy. 112
Chapter II. Prelude to the Inductive Epoch of Hipparchus. 138
Chapter III. Inductive Epoch of Hipparchus. 145
Chapter IV. Sequel to the Inductive Epoch of Hipparchus. 157
Book IV. History of Physical Science in the Middle Ages.
Chapter I. On the Indistinctness of Ideas of the Middle Ages. 187
Chapter II. The Commentatorial Spirit of the Middle Ages. 201
Chapter III. Of the Mysticism of the Middle Ages. 211
Chapter IV. Of the Dogmatism of the Stationary Period. 228
Chapter V. Progress of the Arts in the Middle Ages. 239
Book V. History of Formal Astronomy after the Stationary Period.
Chapter I. Prelude to the Inductive Epoch of Copernicus. 257
Chapter II. Induction of Copernicus. The Heliocentric Theory Asserted on Formal Grounds. 262
Chapter III. Sequel to Corpenicus. The Reception and Development of the Corpernican Theory. 269
Chapter IV. Inductive Epoch of Kepler. 290
Chapter V. Sequel to the Epoch of Kepler. Reception, Verification, and Extension of the Elliptical Theory. 302
Book VI. History of Mechanics, including Fluid Mechanics.
Chapter I. Prelude to the Epoch of Galileo. 312
Chapter II. Inductive Epoch of Galileo. – Discovery of the Laws of Motion in Simple Cases. 322
Chapter III. Sequel to the Epoch of Galileo. – Period of Verification and Deduction. 340
Chapter IV. Discovery of the Mechanical Principles of Fluids. 345
Chapter V. Generalization of the Principles of Mechanics. 352
Chapter VI. Sequel to the Generalization of the Principles of Mechanics. – Period of Mathematical Deduction. – Analytical Mechanics. 362
Book VII. History of Physical Astronomy.
Chapter I. Prelude to the Inductive Epoch of Newton. 385
Chapter II. The Inductive Epoch of Newton. – Discovery of the Universal Gravitation of Matter, according to the Law of the Inverse Square of the Distance. 399
Chapter III. Sequel to the Epoch of Newton.- Reception of the Newtonian Theory. 420
Chapter IV. Sequel to the Epoch of Newton, continued. Verification and Completion of the Newtonian Theory. 433
Chapter V. Discoveries added to the Newtonian Theory. 462
Chapter VI. The Instruments and Aids of Astronomy during the Newtonian Period. 470
ORIGINAL:
WHEWELL, W. History of the Inductive Sciences, from the Earliest to the Present Time. The Third Edition, with Additions. In Two Volumes. Volume I. New York: D. Appleton and Company, 549 & 551 Broadway, 1875. p. 5-22. Disponível em: <https://archive.org/details/historyofinducti01whew/page/n10/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1 [9]Entre essas, eu posso mencionar como obras com as quais eu tenho obrigações peculiares: Geschichte der Philosophie, de Tennemann; Histoire Comparée des Systèmes de Philosophie, de Degerando; Histoire des Mathématiques, de Montucla, com a continuação dela por Delalande; Astronomie Ancienne, Astronomie du Moyen Age, Astronomie Moderne, and Astronomie du Dix-huitième Siècle, por Delambre; Histoire d'Astronomie Ancienne e Histoire d'Astronomie Moderne, por Bailly; Histoire [10]d'Astronomie, por Voiron (publicada como uma continuação de Bailly); Geschichte der Physik, por Fischer; Geschichte der Chemie, por Gmelin; History of Chemistry, por Thomson; History of Medicine, por Sprengel, sua History of Botany, e, em todos os ramos da história natural e da fisiologia, as obras de Cuvier; em seu histórico, como em todas as outras porções, muito admiráveis e instrutivas.
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