segunda-feira, 26 de julho de 2021

A Revolução Científica Revisitada 5 A Revolução Científica: A Grande Imagem

Por Mikuláš Teich


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[83]A ciência nasceu / foi inventada e, se sim, quando?


Não há tal coisa como a Revolução Científica e este livro é sobre isso.’1 Com essa sentença um pouco desconcertante Steven Shapin começa seu escrutínio do movimento que, como eu argumento, surgiu por si mesmo em certo países da Europa nos séculos XVI e XVII. Quer dizer, um modo universal de produção de conhecimento natural materializado, um que antes não existia em parte alguma e que ainda hoje é praticado. Ele merece ser designado como a Revolução Científica.

Minha abordagem para essa coisa chamada de ‘Revolução Científica’ não é parte da historiografia convencional. De fato, desde os anos de 1980, uma visão tem ganhado terreno de que o efeito de que o conceito mesmo deveria ser apagado completamente da paisagem historiográfica. Essa é certamente a mensagem transmitida por Andrew Cunningham e Perry Williams em um artigo cuidadosamente revisionista que funciona a partir do princípio incontestável, desenvolvido na primeira sentença, de que ‘Goste ou não, uma grande imagem da história da ciência é alguma coisa que nós não podemos evitar’.2 O ponto merece ser assumido.

O conceito da assim chamada ‘revolução científica’ [sic], os autores contendem, provou-se de dois gumes. Foi exitoso, antes e depois da Segunda Guerra Mundial, na medida em que se tornou um conceito unificador na história da ciência, e ajudou [84]a estabelecer o assunto como uma disciplina academicamente independente e de ensino. Mas ele tornou-se obsoleto na medida em que promovia uma grande imagem da ciência que ancorava as origens da ciência moderna no século XVII – como distinta da ciência medieval e antiga. Embora concedendo que ‘não haja razão porque a ciência não devia ter originado-se àquela época’, ele acreditam, ‘isso não acontece de ser o caso’. Em vez disso, eles sugerem que ‘o período 1760-1848 é um lugar muito mais convincente para localizar a invenção da ciência’.

Ao preferirem o período entre 1760-1848, os autores reconhecem que eles foram influenciados por The Age of Revolution: 1789-1848 (1962) de E. J. Hobsbawn. Esse livro trata da transformação do mundo impelida pela Revolução Francesa e a contemporânea Revolução Industrial (britânica). Cunningham e Williams expandem a narrativa ao adicionar uma dimensão alemã que ele chamam de ‘revolução intelectual pós-kantiana’. Como um resultado dessas três revoluções simultâneas e vinculadas, eles argumentam, ‘uma classe média foi constituída empunhando o poder político, industrial e intelectual’. É a essas transformações sociais, como um aspecto da Era das Revoluções, que Cunningham e Williams traçam as origens da ciência – ‘com a Inglaterra como exceção parcial, no que as mudanças lá ocorreram depois e mais gradualmente do que na Europa Continental’. Para resumir, eles declaram:


relações históricas durante os últimos vinte anos capacitam-nos a identificar a Era das Revoluções como o período que viu a origem de muito bem cada característica que é considerada como essencial e definidora do empreendimento da ciência: seu nome, seu objetivo (secular enquanto distinto do conhecimento religioso do mundo natural), seus valores (os valores ‘liberais’ da livre investigação, governo especialista meritocrático e progresso material), e sua história.”


O sumário da tese de Cunningham e William levanta questões que precisam ser buscadas mais além. Ainda mais porque eles justificam ‘a invenção da ciência’ no período entre 1760-1848 como se segue:


O termo ‘invenção’, o qual é nosso termo preferido, ajuda a fixar a visão revisada de ciência como uma atividade contingente, temporal e culturalmente específica, como somente uma entre as muitas maneiras de conhecer que existiram, atualmente existem, ou poderiam existir; e por essa razão a expressão que nós propomos para as mudanças fundamentais que ocorreram nesse período é ‘a invenção da ciência’. É claro, nós podemos agora abandonar o qualificador ‘moderno’, uma vez que o termo ciência apenas pode ser apropriadamente aplicado em nosso tempo, a era moderna. Portanto, do que nós estamos falando é, não das origens da ciência moderna, mas das origens modernas da ciência.”


[85]‘Filosofia natural’ e ‘ciência’: o que está no nome?


A história da ciência não é nada se não for sobre como nosso conhecimento da natureza (variadamente denominado) veio a ser o que hoje é.3 No contexto inglês a substituição de ‘ciência’ por ‘filosofia natural’, ocorrida por volta de 1800, não deveria obscurecer o fato de que os termos cobrem atividades semelhantes.4

Tome-se o antitrinitário Newton, profundamente preocupado com Deus, e seu grande sucessor P.-S. Laplace, quem (supostamente) dispensava-O peremptoriamente. Quaisquer que sejam os fundamentos e impulsos para suas buscas, piedosos ou ímpios, os dois inquiridores estavam engajados no mesmo empreendimento: a compreensão e explicação de fenômenos naturais. A implicação da proposição de Cunningham e Williams é que o trabalho de Newton não foi nem ‘moderno’ nem ‘científico’. Evidentemente, isso é problemático, uma vez que a teoria de Newton, na notável frase de John North, ‘mesmo em uma escala cosmológica… ainda não está esgotada’.5

Distinguir entre ‘filosofia natural’ e ‘ciência’ ao longo das linhas ‘religiosa’ e ‘secular’ é adotar um ponto de vista estreito. Em 1931, o físico soviético Boris M. Hessen (1893-1936), inspirado pela abordagem marxista da história, primeiro sugeriu que, para entender o trabalho e visão de mundo de Newton, requeria-se de alguém os ver como o produto de um período específico. Ele caracterizou esse momento histórico como o período de desintegração da economia feudal, de desenvolvimento do capital mercantil, de relações marítimas internacionais e indústria (mineração) pesada. Hessen expôs suas ideias em um artigo, apresentado no 2º Congresso Internacional da História da Ciência e Tecnologia [86]em Londres (1931). Contencioso desde o começo, ele provou-se ser altamente influente.6 Ele deu ao estudo da vida e obra de Newton um twist que eventualmente trouxe à luz um Newton semelhante a um Jano, engajado em atividades ‘científicas’ e ‘não científicas’. Essa contradição aparente ainda fornece alimento a ser digerido pela ‘indústria Newton’.

O artigo efetivamente lançou o debate persistente relativo ao ‘externalismo’ e ‘internalismo’ na história da ciência. Como se revelou, um jovem bioquímico histórica e filosoficamente inclinado participou do Congresso e tornou-se um participante controverso no debate. Ele era Joseph Needham, quem, quarenta anos depois, reafirmou sua aderência às seminais ideias de Hesse como se segue:


O toque de trombeta de Hessen pode … ainda tem grande valor para orientar as mentes de jovens estudiosos em uma direção frutífera para análises históricas ainda por vir, e pode levar a uma era de entendimento mais profundo das forças diretivas da, e obstáculos à, ciência, no Oriente e no Ocidente, muito mais sútil e sofisticado do que ele mesmo poderia ter a esperança de esperar ser.7


As duas ‘Grandes Questões’ de Needham


Para parafrasear Cunningham e Williamns: goste ou não, uma grande imagem da história da ciência não pode evitar as duas ‘Grandes Questões’ de Needham. Isso não quer dizer que eles ignoram o ‘Grande Projeto’ de Needham, Science and Civilisation in China (1954-), mas que eles erram ao atribuir a ele, por exemplo, a visão reducionista de ‘que ciência era [sic] civilização humana’.8 A oposição de Needham ao reducionismo em massa emerge de uma peça autobiográfica (1972) na qual ele claramente declara que, após muitos esforços intelectuais, ele alcançou a convicção de que a vida consiste em várias


formas ou modos irredutíveis de expressão. Alguém poderia distinguir a forma filosófica ou metafísica, a forma científica, a forma histórica, a forma estética e a forma religiosa, cada uma sendo irredutível a quaisquer das [87]outras, mas todas sendo interpretáveis por cada uma das outras, embora às vezes de maneiras categoricamente contraditórias.9


E um ano depois, ele afirma não menos claramente:


Por mim mesmo, eu quero dizer que não perdi a fé na ciência como uma parte [MT] da civilização mais elevada, e no seu desenvolvimento como uma única história épica para toda a humanidade.10


Embora o Grande Projeto tenha sido amplamente aclamado, a abordagem de Needham tem sido criticada se não rejeitada. Tanto a relevância da questão histórica, primeiramente motivada por Needham, quanto a maneira que ele propôs lidar com ela foram criticadas. No curso de seu livro, Needham descobriu que efetivamente haviam duas questões a serem respondidas. Isto foi o que ele escreveu, um quartel de século ou aproximadamente antes ele formasse a ideia do que se tornou Science and Civilisation in China:


Eu considerei o problema essencial como aquele do porque a ciência moderna (como nós conhecemo-la desde o século XVII d.C., o tempo de Galileu) não se desenvolvera na civilização chinesa (ou indiana), mas apenas na Europa. Conforme os anos passavam-se, e conforme eu começava a descobrir pelo menos alguma coisa sobre a ciência e sociedade chinesa, eu cheguei a compreender que há uma segunda questão pelo menos igualmente importante, a saber, por que, entre os séculos I a.C e XV d.C., a civilização chinesa foi muito mais eficiente do que a ocidental em aplicar conhecimento natural humano às necessidades práticas humanas?

A resposta a todas essas questões jaz, eu agora acredito, primariamente [MT] nas estruturas sociais, intelectuais e econômicas das diferentes civilizações.11


[88]Aqui, para o propósito deste livro, nós devemos considerar porque o caso de Needham para a Revolução Científica ocorrendo na Europa, e não na China, não deveria ser excluído de um debate sério sobre a composição da Revolução. A preparação do capítulo e área de interesse podem colocar-se como uma desculpa para o número e extensão das citações. Censuras vagas e asserções de antagonismo generalizado, nascidas de política e ideologia, não deveriam passar despercebidas tampouco.


Nathan Sivin


Entre as críticas à abordagem de Needham, o ensaio ‘Why the Scientific Revolution Did Not Take Place in China – or Didn’t It?’, de Nathan Sivin, atraiu atenção particular por razões compreensíveis.12 Sivin trabalhara com Needham, quem o considerava em alta conta, chamando-o de ‘um brilhante investigador da astronomia e alquimia medievais chinesas’.13

Até onde eu posso discernir, o nome de Needham aparece duas vezes no texto. Primeiro, no parágrafo introdutório no qual ele declara que ‘Joseph Needham deu ao “problema da Revolução Científica” sua formulação clássica’.14 Segundo, na quarta seção do ensaio (Falácias), no contexto da discussão de Needham do Book of Changes, contendo um sistema classificado de símbolos explicando todos os processos naturais. Em geral, Sivin prefere referir-se a Needam nas notas. ‘Por causa de seu conhecimento das ciências chinesas e a amplitude de suas hipóteses,’ nós lemos, ‘[a posição de] Needham é a primeira discussão do problema da Revolução Científica que ainda exige atenção, e ainda é a melhor’.15

Esse comentário está em forte contraste com o que nós encontramos no texto. Verdadeiro, Needham não é nomeado, mas pode haver dúvida de que sua abordagem é o alvo de inconfundível desaprovação se não de rejeição16:


Por que os chineses não superaram os europeus quanto à Revolução Científica? - acontece de ser uma das poucas questões que as pessoas frequentemente perguntam publicamente sobre o porque alguma coisa não ocorreu na história. É análoga à questão de porque seu nome não apareceu na página 3 do periódico de hoje. Ela pertence a um conjunto infinito de questões em torno das quais os historiadores não organizam programas de pesquisa porque elas não têm respostas diretas.”


[89]

Fig. 12 Uma página de Song Dynasty (960-1279), livro impresso do I Ching (Yi Jing), Classic of Changes ou Book of Changes. Biblioteca Central Nacional, Cidade de Taipei, Taiwan. Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:I_Ching_Song_Dynasty_print.jpg


Embora o objeto não seja explicitamente identificado no texto, o ensaio constitui um ataque massivo à abordagem de Needham para a história da ciência e tecnologia na China. De fato, de autoria de um estudioso líder na área, é frequentemente citado como uma crítica válida à resposta de Needham a essas duas questões.

A questão aqui não é questionar a inquestionável especialidade sinológica de Sivin. O que está aberto à discussão é sua crença de que a distinção entre fatores externos e internos não tem realidade objetiva, mas existe apenas como alguma coisa percebida subjetivamente por historiadores.

Coloco-o em questão à luz de meu prolongado interesse na história da fermentação, possivelmente o mais primitivo processo bioquímico usado pelo homem na vida diária. O que emergiu do estudo histórico do fenômeno da fermentação é que ela pertence tanto à história da bioquímica (e outras ciências) quanto à história tecnológica e econômica de várias indústrias. Outra característica da história da fermentação é que ela esteve [90]intimamente conectada aos esforços para responder à questão perene da origem da matéria viva e à natureza do processo subjazendo-a. Um tratamento histórico completo da conexão entre influências extra e intracientíficas sobre a teoria e prática da fermentação requereria, por exemplo, uma consideração do patriotismo. O sentimento nacional certamente incitou o trabalho de L. Pasteur (1822-1895) com cerveja após a derrota da França pela Prússia na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871).

Isso não significa que a busca de aspectos ‘externos’ e ‘internos’ da história das ciências seja respectivamente sem sentido. Ambos são justificados desde que nós entendamos que as questões perguntadas e as respostas dadas são, por sua própria natureza, parciais e limitadas. O ponto em questão para um historiador é como os amalgamar, porque a história é em realidade um processo integral, não dividido em compartimentos ‘externos’ e ‘internos’, mas governado por uma multitude de circunstâncias derivando de, e pertencendo inseparavelmente a, esferas ‘exterior’ e ‘interior’ da ciência.17

A linha tomada por Sivin conforma-se à observação convincente de Steven Shapin em relação à questão externalismo-internalismo: ‘Em vez de clarificar e envolver-se com a problemática, eu penso que, ao longo dos últimos dez ou quinze anos, nós preferencialmente viramos nossas costas a ela e desejamo-la passada.18


A.C. Graham


O sinólogo A.C. Graham também indaga a relevância de perguntar porque um evento tal como a Revolução Científica não aconteceu na China. Embora expressando a mais alta admiração por Needham, Graham não pode resistir de revelar que sua proficiência na língua chinesa não é a esperada.19

O alvo de Graham é o pecado historiográfico original de Needham. Quer dizer, a assunção de Graham de que a ausência ou presença de um conjunto de condições – a ascensão do capitalismo – subjaz à gênese ou não gênese da ciência moderna na Europa ou China do século XVII, respectivamente. Dentre as [91]muitas características do capitalismo, Graham escolhe o lucro capitalista como ‘o único objetivo consciente que alguém foi capaz de encontrar no processo social que levou à ciência moderna’.20 Quaisquer que sejam os erros historiográficos que Needham pode ter cometido, a ausência de lucro capitalista não foi central para sua análise dos fatores que inibiram a ascensão da ciência moderna na China. A versão de Graham da ênfase geral de Needham nos fatores sociais e econômicos grandemente simplifica a abordagem do último para a história.

O ponto de partida razoável de Sivin e Graham é que historiadores têm o suficiente em seu prato sem se focarem em eventos que nem mesmo aconteceram. Mesmo assim, como o grande historiador Eric Hobsbawm observa:


História conjectural tem um lugar em nossa disciplina, mesmo embora seu valor principal seja o de nos ajudar a avaliar as possibilidades do presente e futuro, em vez das do passado, onde seu lugar é tomado pela história comparativa; mas a história real é o que nós precisamos explicar. O possível desenvolvimento ou não desenvolvimento do capitalismo na China imperial é relevante para nós na medida em que ajuda a explicar o fato efetivo desse tipo de economia desenvolveu-se inteiramente, pelo menos para começar, em uma e somente uma região do mundo. Isso, por sua vez, pode ser utilmente contrastado (novamente, à luz de modelos gerais) com a tendência para outros sistemas de relações sociais – por exemplo, o amplamente feudal – para se desenvolver muito mais frequentemente e em um maior número de áreas. Dessa maneira, a história da sociedade é uma colaboração entre modelos gerais de estrutura e mudança sociais e o conjunto específico de fenômenos que efetivamente ocorreram. Isso é verdadeiro qualquer que seja a escala geográfica ou cronológica de nossas investigações.21


Usando critérios intelectuais convencionais, Sivin sugere que a China teve sua própria revolução científica (letra minúscula!) no século XVII. Isso é intrigante em três relatos. Primeiro, Sivin baseia sua sugestão no mesmo tipo de comparação que Needham, quem é criticado por esperar a China seguir a mesma rota que a Europa. Segundo, o termo revolução científica / Revolução Científica é comumente associado a transformação radical na percepção dos movimentos dos corpos celestes e terrestres no contexto de uma teoria unificada. Mas Sivin limita o sentido do termo a mudanças equivalendo a uma revolução conceitual na astronomia. Por último, mas não menos importante, Sivin ainda admite:


Que revolução não gera o mesmo tom de mudança que o que estava acontecendo na Europa ao mesmo tempo. Ela não entrou em erupção como uma reorientação [92]fundamental do pensamento sobre a Natureza. Ela não lançou dúvida sobre todas as ideias tradicionais do que constitui um problema astronômico, e que significado a predição astronômica pode ter para a compreensão final da Natureza e da relação homem com ela.

Mas importante, ela não estendeu o domínio do número e medida na astronomia até que ele englobasse cada fenômeno terrestre (os Jesuítas foram obrigados a esconder do Chinês o desenvolvimento na Europa). O que aconteceu na China guarda comparação com a revolução conservadora de Copérnico em vez da matematização radical das hipóteses que Galileu precipitou.22


Consequentemente, eu diria que os dois movimentos são bestas diferentes.


H. Floris Cohen


É notável como autores que saem de seu caminho para cantar os elogios de Needham também ficam em dificuldades para demonstrar as falhas em sua abordagem para a história da ciência. Um exemplar revelador é o tratamento ambivalente de H. Floris Cohen da resposta de Needham a sua própria grande questão. A este tema, Cohen dedica setenta páginas (de 662) em uma historiografia da Revolução Científica estimulante não menos por seu estilo combativo. Combativo no sentido de que, embora desejando ser justo e conceder o que é devido a estudiosos de A(iton) a Z(ilsel), Cohen é implacável com censuras indiscriminadamente. Isso dá a impressão de que Cohen tem um ponto de vista sobre Needham e a Grande Questão. Lamentavelmente, esse não é o caso: o que ele oferece ´é um esboço altamente provisório’ no último capítulo do livro:


Chegou o tempo para responder à Grande Questão? Eu não levantaria tão facilmente a questão há pouco colocada, a qual no fim eu não estou qualificado para responder, se, com efeito, ela não tivesse sido perguntada por alguns dos críticos mais inteligentes de Needham. Embora eles não tenham dito assim, em exatamente tantas palavras, tem sido sugerido por Nakayama e Sivin em particular (e muito em nossa explicação anterior tende a suportar uma tal sugestão) que quase tudo que Needham alguma vez escreveu para responde a sua Grande Questão deveria ser considerado como uma projeção gigante das preconcepções reunidas de Joseph Needham sobre a sociedade e mundo de pensamento chineses.23


[93]Quando tudo está dito e feito, o que separa Needham de Sivin, Graham e outros críticos (de quem Cohen desenvolve) é o peso que ele dá à parte desempenhada por fatores sociais e econômicos na geração da Revolução Científica na Europa:


Quaisquer que sejam os fatores ideológicos inibidores no mundo de pensamento chinês possam revelar-se ter sido, a certeza sempre permanece de que as específicas características sociais e econômicas da China tradicional estão conectados com eles. Eles claramente eram parte daquele padrão particular, e nessas questões alguém sempre tem de pensar em termos de um pacote. Exatamente da mesma maneira, é claro, é impossível separar as realizações científicas dos gregos antigos do fato de que eles desenvolveram-se em uma democracia mercantil, marítima e de cidade-estado… Pode ser que, embora diferenças ideológicas, filosóficas e teológicas nunca devam ser subvalorizadas, o que importou na maioria das vezes foram as pressões facilitadoras da transição do feudalismo para o capitalismo mercantil e industrial, pressões que efetivamente não operaram em qualquer outra cultura que não a Europa ocidental, franca.24


Robert Finlay


Por último mas não menos importante, voltemo-nos ao retrato de Robert Finlay da percepção de Needham da Revolução Científica. O qual emerge no contexto da apresentação de Finlay da perspectiva de Needham sobre as celebradas viagens marítimas que ocorreram durante os primeiros anos da dinastia Ming (1368-1644).25

Entre 1405-1433, sete vastas frotas navegaram o Oceano Índico e alcançaram as costas orientais da África. Cada frota compreendia mais de 200 veleiros com aproximadamente 27,000 homens a bordo. Algumas dessas embarcações eram os mais longos navios de madeira jamais construídos (117 – 134 m de comprimento).26


[94]

Fig. 13 Navio do Tesouro de Zheng He. Modelo no Museu de Ciência de Hong Kong. Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Zheng_He%27s_Treasure_Ship_1.jpg


Tanto o propósito das viagens dirigidas pelo estado, sob o comando do eunuco Zheng He (Chêng Ho) (1371-1433), quanto a razão pela qual elas foram encerradas têm sido muito debatidas no Ocidente. De fato, Finlay declara, elas são


agora famosas no Ocidente precisamente porque Needham tornou-as conhecidas para uma ampla audiência pela primeira vez. O seu contraste dramático dessas expedições Ming com aquelas dos portugueses no começo do século XVI capturou a imaginação dos leitores dele. Raramente um estudo histórico foi tão amplamente aplaudido e universalmente aceito. Ele foi integrado em interpretações influentes da história mundial … Mas o contexto que Needham estabelece para as viagens e a parte que elas desempenham em sua concepção de mundo permanecem desconhecidos.27


A intenção de Finlay é estabelecer o registro corretamente. A primeira ofensa de Needham é que ‘[ele] considera o motivo “protocientífico” como o mais significante … brotando de sua determinação de apresentar as expedições Ming como encarnação das virtudes da China em contraste com os vícios do Ocidente’.28

A afirmação de Finlay não é suportada pela lista de motivos que Needham nomeia um por um. Lá a busca de conhecimento natural e médico ocupa o quinto lugar entre sete.29

De fato, a visão de Needham do propósito das viagens, declarada em 1970, concorda com o sumário de Mirsky do ‘estado de arte’ 37 anos depois:


[95]Embora seja verdade que Zheng He trouxe de volta, para uso exclusivo da casa Ming, leões, leopardos, avestruzes e girafas, pimentas e minerais – suas embarcações maiores eram chamadas de Navios de Tesouro – o propósito das viagens, como as principais autoridades agora concordam, era envolver governantes distantes, alguns dos quais enviaram seus emissários para a China nos navios de Zheng He, no antigo ‘sistema tributário’ chinês. De acordo com essa tradição, o Imperador, governando do centro do mundo, por sua virtude e esplendor atraia estrangeiros a sua Corte. Lá eles presenteavam-no com seus bens, considerados ser ‘tributos’ e realizavam reverência.30


A apresentação falha da posição de Needham por Finlay sobre os propósitos das viagens não é um erro isolado. Sua explicação abunda com imprecisões. Algumas são triviais, tais como culpar Needham de escalar Zheng He como o ‘Vasco da Gama’ da China. De fato, Needham atribui essa designação a Frank Debenham, o autor de Discovery and Exploration: An Atlas of Man’s Journey into the Unknown (1960). Mais séria é a asserção de Finlay de que ‘Science and Civilisation é um produto da Guerra Fria’, concebido ‘quando a República Popular foi proclamada’. Estranhamente, Finlay contradiz-se porque umas poucas páginas antes ele escreve:


Liberado por sua exposição à cultura chinesa em 1937, Needham primeiro concebeu escrever um livro sobre ciência e tecnologia chinesas em 1942, após completar Biochemistry and Morphogenesis e antes de partir para a China.31


Como acontece, nós podemos datar mais precisamente o anúncio de Needham, no ensaio ‘On Science and Social Change’, de sua intenção de investigar, após a guerra, a falha da ciência


em surgir na China [o que é] um dos maiores problemas na história da civilização, uma vez que nenhuma outra cultura, assumida a indiana, iguala aquela do Oeste em escopo e complexidade mais de perto do que aquela da China.32


Esse ensaio foi composto em setembro de 1944, quando Needham encontrava-se


em um vácuo no interior de um vácuo, isolado de toda comunicação com o mundo exterior por deslizamentos de terra e quedas de rochas, sem telégrafo ou telefone, esperando a limpeza da estrada.33


[96]Ostensivamente escrito para uma coleção sobre organização social, o ensaio é sobre muitas coisas: ciência, filosofia, religião, ordens sociais, sua história no Ocidente e na China. Mais especificamente, é sobre a incompatibilidade intrínseca com o Nazismo e Shinto-fascismo por causa da natureza inerentemente democrática da ciência. Needham então descreve a democracia como ‘aquela prática de cuja a ciência é a teoria’.34

Finlay refere-se a esse ensaio várias vezes sem o cuidado devido com a cronologia. Quer dizer, sem notar que Needham então estava limpando sua mente para a composição de Science and Civilisation, enquanto esperando para a limpeza da estrada para Burma. O tema da correlação entre ciência e democracia veio à tona no trabalho histórico anterior de Needham, incluindo The Levellers and the English Revolution (1939), publicado sob o pseudônimo de Henry Holorenshaw (com o prefácio dele mesmo).35 Ao longo das linhas discutidas acima, Needham observa em 1944 que a ascensão da classe mercantil ao poder, com seu slogan pela democracia, foi o acompanhamento indispensável e sine qua non da ascensão da ciência moderna no Ocidente. Mas na China o erudito de pequena nobreza e seu sistema feudal burocrático sempre efetivamente preveniram a ascensão ou apreensão do Estado pela classe mercantil, como aconteceu em outro lugar.36

Essa abordagem é anátema para Finlay. Ele preocupa-se com que


a concepção de história mundial de Needham permaneceu despercebida, e a maioria dos leitores certamente não estavam conscientes de um esquema de larga escala informando o massivo detalhe de Science and Civilisation.37


Na missão incessante de alertar e iluminar o leitor ignorante, Finlay, como outros críticos, condena com elogio fraco.38

Finlay e Needham têm diferentes abordagens sobre a China, o Ocidente e história mundial. Mas isso não o justifica em interpretar mal a visão de Needham [97]de História. Needham acreditava que a ascensão da ciência moderna estava conectada com a ascensão do capitalismo mercantil na Europa, constituindo um aspecto da transição do feudalismo ao capitalismo. Isso não autoriza a atribuição a Needham por Finlay da visão de mundo redutiva que


a ascensão da ciência moderna na Europa não foi meramente o resultado de desenvolvimentos no interior da civilização ocidental, mas um resultado direto da difusão de tecnologia chinesa; consequentemente, se a China não deu à luz a Revolução Científica, foi ao menos responsável por sua concepção. Em outras palavras, a transição para a modernidade brotou da influência de longa distância da China sobre o Ocidente.39


É digno de nota que Finlay detém-se de citar qualquer outro dos escritos de Needham como suporte para essa declaração – embora ele refira-se a eles copiosamente.


Sociedade, agricultura e progresso técnico chineses


A ênfase de Needham na divergência da Revolução Científica na Europa e na China conecta com questões mais amplas.

Era devido a ideias marxianas que Needham considerava a Revolução Científica como um aspecto da transição do feudalismo ao capitalismo na Europa. Ele sustentava que o fato de que ‘o desenvolvimento da ciência moderna ocorreu na Europa e em nenhum outro lugar’ é parte e parcela da singularidade histórica da Europa.40 Essa perspectiva tem sido recentemente encarada pelo distinto [98]historiador social austríaco Michael Mitterauer, quem aponta para contemporâneos de Max Weber (sua grande inspiração) reconhecendo como ciência ‘válida’ apenas aquela desenvolvida no Ocidente.41

Mitterauter não se preocupa nem com a Revolução Científica ou a transição do feudalismo ao capitalismo. Mesmo assim, o que emerge de sua explicação é que a cadeia de fatores operando no interior do feudalismo franco (agricultura e inovações técnicas, sistema senhorial / estado, comércio, cruzadas, imprensa) geraram, por volta dos séculos XIV e XV, circunstâncias propicias à ascensão do capitalismo em algumas cidades italianas e flamengas. Impulsionados pela incipiente economia de mercado mundial, esses fatores podem ser (seguindo Marx) identificados: crescimento do comércio, emprego de trabalho livre em mineração e manufatura, separação do campesinato da terra, e acumulação coerciva de excedentes (‘acumulação primitiva de capital’.)

A China medieval não participou da florescente economia de mercado global, associada à expansão global do comércio pelos poderes europeus.42 Isso teve alguma coisa a ver com sua subdesenvolvida economia de dinheiro e a não maturação de suas relações capitalistas, dois lados da mesma moeda. Além disso, o tamanho do país e sua população valorizavam a autossuficiência em produção de comida, exigindo tanto extensão da terra cultivada quanto agricultura intensiva; essas, por sua vez, requeriam mais trabalho. Isso é onde, nos termos de Needham, o ‘sistema estatal feudal burocrático’ distinguiu-se ao não retirar os produtores agrícolas da terra. Essa intensificação da agricultura, sem dúvida, estimulou invenções, tais como o motor de sopro [99]movido à água para o molde de instrumentos agrícolas de ferro. A tendência de depender da autossuficiência encorajou desenvolvimentos técnicos, mas também derivou ímpeto deles.

Antes do impacto da microeletrônica, pode ser dito que a maquinaria essencialmente consistia de três elementos: a condução (driving), a transmissão e a efetivo mecanismo operacional. À luz dessa ordenação, a característica das conquistas chinesas, tais como a roda de engrenagem (gear-wheel), a manivela (crank), a haste de pistão (piston-rod) e o método de interconversão do movimento rotativo e longitudinal, pertencem à categoria do mecanismo de transmissão. Mudanças revolucionárias na produção, no contexto europeu de transição do feudalismo ao capitalismo de qualquer maneira, parecem ter estado conectado com o elemento de funcionamento da maquinaria, a qual substituíra operações manuais nos processos produtivos. A lançadeira voadora (flying shuttle) e a jenny girante (spinning jenny) precederam o motor a vapor de Watt, mas elas eram operadas à mão.

Invenções chinesas, tais como o humilde carrinho de mão (wheel barrow), eram poupadoras de trabalho em uma sociedade agrária que necessitava de trabalho para produzir comida a fim de satisfazer os requerimentos básicos de uma população muito considerável; mas elas dificilmente poderiam tornar-se pontos de partida de mudanças radicais em produção, uma vez que, paradoxalmente, nenhum excedente de trabalho existia. Dado que na China o sistema monetário era subdesenvolvido, a organização estatal feudal burocrática coletava impostos e pagava seu aparato em bens, mas provou-se ser incompatível com a criação de capital excedente. Isso então reforçava a imobilidade na sociedade agrária, impedindo sua estratificação social e, a despeito da existência de tremendo reservatório de habilidade técnica, retardou o estímulo à comercialização da agricultura e ao desenvolvimento das forças produtivas.


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ORIGINAL:

Teich, Mikuláš, The Scientific Revolution Revisited. Cambridge, UK: Open Book Publishers, 2015. p.83-99. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.11647/OBP.0054>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


1 S. Shapin, The Scientific Revolution (Chicago, IL and London: University of Chicago Press, 1998), p. 1.

2A. Cunningham and P. Williams, ‘De-centring the ‘Big Picture’: The Origins of Modern Science and The Modern Origins of Science’, The British Journal for the History of Science, 26/4 (1993), 407. Para as citações que se seguem, ver 409-10, 412, 425, 427-28.

3Eu desenvolvo a partir da tese de Eric Hobsbawn de ‘que a história está engajada em um coerente projeto intelectual, e tem feito progresso no entendimento de como o mundo veio a ser da maneria que ele é.’ Ver E. Hobsbawn, On History (London: Weidenfeld & Nicolson, 1997), p. x.

4De acordo com o Oxford English Dictionary, o uso de ‘ciência (science)’ na língua inglesa retrocede ao século XV. Por volta de 1830, quando Charles Babbage (1792-1871) publica o seu altamente crítico Reflections on the Decline of Science and on Some of its Causes, a palavra veio a significar o que ela significa hoje. De acordo com a mesma fonte, o ‘cultor de ciência’ tornou-se um ‘cientista’, graças a W. Whewell, em 1840. Babbage desempenhou um grande papel na fundação da British Association of Science (1830). Ele tomou sua deixa da anual Versammlung Deutscher Naturforscher und Ärzte (Assembleia dos Naturalistas e Médicos Alemães). Note que a tradução literal de ‘Naturfoscher’ é mais como ‘investigador’ ou ‘explorador’ da natureza. ‘Naturwissenschaftler’ como um equivalente ao ‘cientista (scientist)’ em inglês é de uma data posterior. Para uma detalhada ‘Nota sobre “Ciência (Science)”’, ver o informativo D. E. Harkness, The Jewel House: Elizabethan London and the Scientific Revolution (New Haven, CT and London: Yale University Press, 2007), pp. xv-xviii.

5J. North, Cosmos: An Illustrated History of Astronomy (Chicago, IL and London: University of Chicago Press, 2008), p. 417.

6B. Hessen, ‘The Social and Economic Roots of Newton’s “Principia”’, em Science at the Cross Roads, 2nd ed. (London: Cass, 1971), pp. 151-212. Para reavaliações relativamente recentes de Hessen e do Congresso, ver C. A. J. Chilvers, ‘The Dilemmas of Seditious Men: The Crowther-Hessen Correspondence in the 1930s’, The British Journal for the History of Science, 36 (2003), 417-35; idem, ‘La signification historique de Boris Hessen’, em S. Gerout (ed.), Les Racines sociales et économiques des Principia de Newton (Paris: Vuibert, 2006), pp. 179-206; G. Freudenthal, ‘The Hessen–Grossman Thesis: An Attempt at Rehabilitation’, Perspectives on Science, 13/2 (Summer 2005), 166-93.

7Needham, Science at the Cross Roads, p. ix.

8Cunningham and Williams, ‘De-centring’, p. 412.

9H. Holorenshaw [J. Needham], ‘The Making of an Honorary Taoist’, em M. Teich e R. Young (eds.), Changing Perspectives in the History of Science (London: Heinemann Educational Books, 1973), p. 7.

10‘An Eastern Perspective on Western Anti-science (1974)’, em J. Needham, Moulds of Understanding a Pattern of Natural Philosophy, ed. por G. Werskey (London: Allen and Unwin, 1976), p. 297.

11J. Needham, ‘Science and Society in East and West’, in M. Goldsmith and A. Mackay (eds.), The Science of Science Society in Technological Age (London: Souvenir Press, 1964), pp. 127-28. Estou referenciando essa publicação não porque originou-se como uma carta mara mim, mas porque ela contém o que é considerada como a clássica formulação por Needham de sua Grande Questão. De fato a versão alemã, ‘Wissenschaft und Gesellschaft in Ost und West’, encabeça a coleção que Needham sancionou de seus próprios ensaios: J. Needham, Wissenschaftlicher Universalismus Über Bedeutung und Besonderheit der chinesischen Wissenschaft, ed. e trad. por T. Spengler (Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1979), pp. 61-86. Posteriormente Needham reitera que não havia uma questão mas duas: ‘Não somente porque a ciência moderna originou-se na Europa apenas, mas porque, durante os quinze séculos anteriores, a China foi muito mais avançada em ciência e tecnologia do que as culturas do ocidente’. Ver ‘Man and His Situation (1970)’, in Needham, Moulds, p. 282.

12N. Sivin, ‘Why the Scientific Revolution Did Not Take Place in China – or Didn’t It?’, em E. Mendelsohn (ed.), Transformation and Tradition in the Sciences: Essays in Honor of I. Bernard Cohen (Cambridge: Cambridge University Press, 1984), pp. 531-54.

13Needham, Moulds, p. 283.

14Sivin, ‘Why’, p. 531.

15Ibid., p. 552, n. 7.

16Para os parágrafos seguintes, ver ibid. p. 536-37, 539, 540, 543.

17M. Teich com Dorothy M. Needham, A Documentary History of Biochemistry, 1770-1940 (Leicester and London: Leicester University Press, 1992), pp. xxii-xxv.

18S. Shapin, ‘Discipline and Bounding: The History and Sociology of Science Seen through the Externalism-Internalism Debate’, History of Science, 30 (1992), 333-69 (p. 334).

19A. C. Graham, ‘China, Europe, and the Origins of Modern Science: Needham’s The Grand Titration’, em Nakayama e Sivin (eds.), Chinese Science: Explorations of an Ancient Tradition (Cambridge, MA: MIT Press, 1973), p. 46, n. 2.

20Ibid., p. 67.

21Hobsbawm, On History, p. 80.

22Sivin, ‘Why’, p. 540.

23Ver H. F. Cohen, The Scientific Revolution: A Historiographical Inquiry (Chicago, IL and London: University of Chicago Press, 1994), p. 471.

24Needham, Moulds, pp. 285-87.

25R. Finlay, ‘China, the West, and World History in Joseph Needham’s Science and Civilisation in China’, Journal of World History, 11 (2000), 265-303. Ver J. Needham com Wang Ling e Lu Gwei-Djen, Science and Civilisation in China, Vol. 4/3: ‘Civil Engineering and Nautics’ (Cambridge: Cambridge University Press, 1971), pp. 487-535. Para uma coleção conveniente (também referida por Finlay), ver J. Needham, ‘Abstract of Material Presented to the International Maritime History Commission at Beirut’, em M. Mollat (ed.), Sociétés et Compagnies de Commerce en Orient et dans L’Océan Indien (Paris: S.E.V.P.E.N, 1970), pp. 139-65 (pp. 146-54).

26Para uma explicação aclamada, ver E. L. Dreyer, Zheng He: China and the Oceans in the Early Ming Dynasty (New York and London: Pearson Longman, 2007). ‘Será’, assim o bem informado Jonathan Mirsky afirma, ‘a última palavra por algum tempo vindouro’. Ver sua análise ‘Tribute, Trade and Some Eunuchs’, The Times Literary Supplement, 26 January 2007, 11.

27Finlay, ‘China’, 269.

28Ibid., 293, 299.

29Needham, ‘Abstract’, 147.

30Mirsky, ‘Tribute’.

31Finlay, ‘China’, 301, 273-74.

32‘On Science and Social Change’, em J. Needham, The Grand Titration: Science and Society in East and West (London: Allen & Unwin, 1969), pp. 123-54 (p. 148). O ensaio apareceu primeiro em Science and Society, 10 (1946), 225-51.

33Ibid., p. 123.

34Ibid., p. 145.

35Eu concordo com Finlay que não havia intenção de enganar ao apresentar ‘Henry Holorenshaw’ como o autor de ‘The Making of an Honorary Taoist’, em Teich e Young (eds.), Changing Perspectives in the History of Science. Originalmente, os editores esperavam que eu escrevesse sobre Needham. Após considerar a ideia, ocorreu-me que uma contribuição pelo alter ego de Needham seria de interesse maior. Considerando a sugestão intrigante, Needham aceitou o convite para contribuir.

36Needham, Titration, p. 150.

37 Finlay, ‘China’, 267.

38Por exemplo: ‘Mesmo embora ele empregue muitos conceitos desatualizados e faça incontáveis afirmações sem suporte, sua visão da história mundial é notável por sua visão sinóptica’; ‘Embora não sem coerência interna e um grão de verdade, sua representação da história europeia corresponde a pouco mais do que uma aplicação mecânica de clichés marxistas que já estavam superado antes que o primeiro volume de Science and Civilisation aparecesse’. Ibid., 268, 301.

39 Ibid., 281-82.

40Needham, Titration, p. 193. Para uma recente reavaliação séria da posição ‘estabelecida / antiquada’ de Needham, ver P. K. O’Brien, ‘The Needham Question Updated: A Historiographical Survey and Elaboration’, History of Technology, 29 (2009), 7-28. O’Brien considera intacto o ponto de Needham sobre as atitudes divergentes entre a filosofia natural chinesa e europeia sobre ‘leis da natureza’. No topo da agenda para pesquisa histórica, ele conclui,

precisa ser a instância chinesa de incredulidade em relação ao paradigma que compreendera a imaginação da filosofia natural europeia, a saber, que todos os fenômenos naturais, incluindo os do corpo humanos, poderiam ser investigados, compreendidos e interrogados como casos ou instâncias de leis universais da natureza. Ademais, essas leis (as quais explicam como e porque as coisas operavam como elas faziam) eram as manifestações do design inteligente de um criador divino. Elas poderiam ser expostas por métodos experimentais transparentes e rigorosamente explicadas em linguagem matemática. Leis naturais que poderiam ser representadas como divinas em origem proveram o Ocidente com uma cosmologia e uma cultura para elites de aristocratas, mercadores, industrialistas e artesões que dependiam de uma aceitável, improvável, mas, em última instância, progressiva suposição de que Deus criou um mundo natural que era racional e explicável, que suas tendências para afligir as [vidas] das pessoas em todos os lugares poderiam ser consertadas ou aperfeiçoadas e que a matéria poderia ser manipulada para prover tecnologias para elevar as produtividades do trabalho.

A cosmologia nem reprimia nem promovia a interrogação da natureza ou a busca por soluções tecnológicas para os problemas de produção. O que ela não fornecia, mesmo durante o continuado avanço econômico do império Qing, era aquela poderosa confiança promocional que entrou nas culturas das elites ocidentais de um mundo natural que era trabalho racional e explicável do Deus deles. Como Needham observou, ‘não havia confiança alguma de que os códigos da natureza poderiam ser lidos, porque não havia segurança de que um ser divino formulara um código capaz de ser lido’. Seu ponto está intacto e permanece aberto para pesquisa e discussão.’

41M. Mitterauer, Why Europe? The Medieval Origin of its Special Path (Chicago, IL and London: University of Chicago Press, 2010), p. xx.

42O que se segue deriva-se de meus comentários no manuscrito de uma palestra pública por J. Needham na Universidade de Hong Kong em 30 de abril de 1974. Ver J. Needham and R. Huang (Huang Jen-Yü), ‘The Nature of Chinese Society – A Technical Interpretation’, Journal of Oriental Studies, reimpresso de Vol. 12/1 e 2 (1974), 1-16. Ver também J. Needham, com Wang Ling, Science and Civilisation in China, Vol. 4/2 (Cambridge: Cambridge University Press, 1965), p. 262.