domingo, 30 de abril de 2023

Perspectivas sobre o Humanismo Digital - Descolonizando Tecnologia e Sociedade: Uma Perspectiva a partir do Sul Global

Perspectivas sobre o Humanismo Digital


Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital


Parte II Participação e Democracia


Ensaio anterior


[61]Descolonizando Tecnologia e Sociedade: Uma Perspectiva a partir do Sul Global


por Anna Bon, Francis Dittoh, Gossa Lô, Mónica Pini, Robert Bwana, Cheah WaiShiang, Narayanan Kulathuramaiyer e André Baart


Resumo A despeito do grande impacto da tecnologia digital sobre as vidas e o futuro de todas as pessoas no planeta, muitas pessoas, especialmente no Sul Global, não estão incluídas nos debates sobre o futuro da sociedade digital. Essa desigualdade é um problema sistêmico que tem suas raízes no mundo real. Nós fazemos referência a esse problema como “colonialidade digital.” Nós argumentamos que, para alcançar uma sociadade global mais equitativa e inclusiva, o envolvimento ativo de partes interessadas das regiões pobres do mundo como copesquisadores, cocriadores e codesigners é requerido. Nós discutimos brevemente uns poucos projetos de desenvolvimento de tecnologia orientados a comunidade, colaborativos, como exemplos de produção transdisciplinar e de pesquisa de ação para uma sociedade digital mais inclusiva.


[62]1 Inclusão, Colonialidade e a Sociedade Digital


Pessoas de ambientes pobres, por exemplo, no Sul Global, frequentemente não são incluídas nos debates sobre a sociedade digital. Isso é surpreendente, visto que os impactos das tecnologias digitais têm consequências de longo alcance para as vidas e o futuro delas. Hoje em dia, a coevolução rápida de sociedade e tecnologia está exigindo reflexão, deliberação e ação responsável. Cientistas estão colocando a questão: “Nós humanos estão definindo a tecnologia ou a tecnologia está nos definindo?” (Lee 2020), mas quem são o “nós” nessa questão? Quem está definindo a tecnologia, e quem tem o conhecimento, os ativos e o poder de tomada de decisão?

Uma maneira de entender os impactos da transformação digital para as pessoas no Sul Global é observar a sociedade digital através de uma lente descolonial. Isso ajuda a entender os frequentemente tácitos padrões de poder no teciddo social e tecnológico. Se nós considerarmos a sociedade digital ser uma imagem do mundo físico, ela terá herdado, junto com outros aspectos, padrões históricos de desigualdade. Esses padrões são referidos como “colonialidade (coloniality)” (Mendoza 2021, pp. 46 – 54; Mignolo e Walsh 2018, pp. 1 – 12; Quijano 2016, pp. 15 – 18).

No momento da escrita, aproximadamente três bilhões de pessoas no mundo estão desconectadas da sociedade digitial – um fenômeno frequentemente chamado de exclusão digital (digital divide) – mas esse número está diminuindo rapidamente. Estar conectado, particularmente através da internet e web, é geralmente visto como a chave para uma vida melhor. Com o ritmo de tirar o fôlego no qual a internet é lançada mesmo nos cantos mais remotos do mundo, a conectividade universal, com o endosso completo das Nações Unidas,1 bem poderia ser completada em breve. A questão que se segue é: a conectividade onipresente trará justiça social, igualdade e mundo mais sustentável e próspero para mais perto de todos?

A World Wide Web, a espinha dorsal da sociedade digital, foi projetada, de acordo com o seu inventor, Tim Berners-Lee, como “uma plataforma aberta que permitiria a qualquer um, em qualquer lugar, compartilhar informação, oportunidades de acesso e colaborar através de fronteiras geográficas e culturais” (Berners-Lee 2017). Contudo, a despeito de ser um recurso comum (common) global, a ampla penetração da Web torna-a um padrão dominante. Através de sua ubiquidade, a Web exerce pressão na direção de absorção, mesmo se essa absorção pode ser prejudicial para o usuário individual. A alternativa – recusa a fazer parte dela – resulta em isolamento. Esse fenômeno, o qual é descrito por David Grewal como poder de rede (network power), é comum para padrões em rede (Grewal 2008, pp. 20-28). Ele torna a sociedade digital em um sistema hegemônico do qual – especialmente a partir da perspectiva do Sul Global – não há escapatória, a despeito do preço, usuários, comunidades e até países têm de pagar com seu dinheiro ou seus dados, para tornarem-se parte dela.

Quando nós observarmos a estrutura corrente da sociedade digital, nós percebemo-la fisica, economica e socialmente extremamente centralizada e concentrada no Norte Global, onde, até a data, os pioneiros de muitas inovações digitais residem. Por [63]exemplo, a “nuvem (cloud)” está concentrada em grandes centros de dados nos países ricos. A comercialização das TCIs, influenciada pela dita centralização, coloca mais um grande pedaço da riqueza reunida pelas inovações no Sul Global nas contas das grandes empresas de tecnologia (Zuboff 2019, pp. 63-96). A competição desigual em termos de armazenamento, conectividade, financiamento e adoção dificulta a inovação dirigida por startups no Sul Global.

Enquanto tecnologias digitais tais como telefones celulares estão tornando-se mais baratas e mais difundidadas em todos os cantos do mundo, o controle sobre o que pode ser instalado situa-se nas mãos de firmas de tecnologia proeminentes. A governança e tomada de decisão sobre a tecnologia estão nas mãos de firmas privadas de tecnologias e, na melhorar das hipóteses, são restritas por normas e regulamentos estabelecidos em países do Sul Global. E esses são apenas alguns exemplos da colonialidade tecnológica.

A colonialidade tecnológica pode ser observada em muitos setores da sociedade. Por exemplo, na Argentina, um país que carece de autonomia tecnológica, o mercado digital é dominado por empresas internacionais de tecnologia. Essas partes estão assumindo papéis e funções do Estado, por exemplo, na educação. Elas estão fornecendo – através de presentes filantrópicos no quadro da assim chamada de responsabilidade social corporativa – serviços digitais para institutos de educação superior em troca de penetração de mercado, isenção de impostos, promoção de marca e influência política. As atividades comerciais das grandes empresas de tecnologia estão tendo como alvo os jovens com mídias, música, vídeo, entretenimento e notícias falsas. Isso adicionalmente tira vantagem das tendências de privatização (Pini 2020, pp.37-40).

Com novas formas de comunicação digital e educação online, intensificadas em 2020 durante a pandemia de COVID-19, há uma evidência crescente de algoritmos sendo usados para vigilância do acesso, da produção e da circulação de informação, de bens e serviço na sociedade. Esses cenários são vistos em muitos países, Argentina inclusa. A internet “livre (free),” fornecida em troca de dados de usuários, é o modelo de negócios no qual os dados pessoais são explorados como materiais brutos (Zuboff 2019, pp. 70-73). Dados, conhecimento, perícia e infraestruturas de alta perfomance são mantidos e minerados por um número cada vez menor de corporações internacionais, usando tecnologias digitais altamente avançadas para extração de valor e lucro. Enquanto intervenções “livres de custos” e “conectividade gratuita na internet” são justificadas como benefícios sociais, a influência do setor privado de tecnologia em setores vitais da sociedade revela a colonialidade corporativa.

A colonialidade pode ser observada em muitas instâncias de tecnologia. Por exemplo, nos algoritmos de Inteligência Artificial (IA), os quais anteriormente eram considerados objetivos e livres de valores, vieses de discriminação têm sido descobertos (Mohamed et al. 2020, pp. 659-663). Há vários exemplos de IA discriminadoras, como um resultado de vieses que estão ocultos nos dados subjacentes: por exemplo, um algoritmo para autonomanente embranquecer rostos negros e asiáticos; uma aplicação, baseada em algoritmo de reconhecimento facial, que abre a porta de um escritório apenas para rostos brancos, mas falha em reconhecer rostos [64]negros.2 Esses exemplos tríviais revelam vieses embutidos em tecnologia aparentemente livre, nas quais padrões existentes são inconscientemente replicados. Esses vieses surgem inesperadamente em sistemas inteligentes autônomos e podem, intencionalmente ou não, exacerbar as desigualdades. A inteligência artificial é um domínio tecnológica que ugentemente tem de ser descolonizado.


2 Modelos Transdisciplinares, Orientados a Comunidade e Plataformas Inclusivas como Alternativa


No limiar de novos avanços tecnológicos, muitos cientistas, cientes de sua responsabilidade, propõem reunir as mentes mais brilhantes de vários setores e várias disciplinas para discutirem direções e proporem soluções para a sociedadde digital (por exemplo, Berners-Lee 2019). Os autores deste artigo enfatizam a importância de incluir, nessas plataformas importantes, também pessoas de regiões pobres, por exemplo, no Sul Global, e fazerem suas vozes serem ouvidas e suas perspectivas visíveis. Para fazer isso, nós propomos pesquisa orientada a comunidades e desenvolvimento colaborativo de tecnologia. Enquanto isso pode ramificar inovação em ambientes de poucos recursos de maneiras inesperadas, também pode ser uma fonte de inspiração por novas formas de produção de conhecimento transdisciplinar. Nós discutimos uns poucos exemplos.

Em ambientes de poucos recursos na África, muitas pessoas não têm acesso à informação que é relevante para o seu trabalho cotidiano. Por exemplo, pequenos fazendeiros necessitam de previsões climáticas locais, de dados sobre chuvas atuais e de informações sobre preços nos mercados locais, sobre o tratamento da saúde animal, sobre a qualidade da água em poços locais, etc. Contudo, o acesso à informação é atrapalhado não apenas devido a uma falta de acesso à internet: também existes fatores culturais e sociais, por exemplo, baixa alfabetização ou linguagem. Essas barreiras de acesso existem para a maioria das comunidades rurais na Região Norte de Gana.

Em resposta às necessidades locais, um projeto de pesquisa de ação científica de design exploratório apelidado de Tibaŋsim, foi levado a cabo no Norte de Gana, para desenvolver novos modos de acesso digital e compartilhamento digital para comunidades rurais. Tibaŋsim foi implantado em cinco comunidades do Distrito Oriental de Gonja Oriental da Região da Savana de Gana. Essas são comunidades tipicamente pequenas com aproximadamente 20 a 30 lares. Nesse projeto, o sistema de informação de Tibaŋsim foi desenvolvido, construído em iniciativas locais e adaptado às condições locais. Tibaŋsim fornece uma informação relacionada à agricultura que está sendo coletada, (re-)produzida, e entrou no sistema através dos membros mesmos da comunidade, de modo que ele pode ser localmente compartilhado. Ele usa apenas tecnologias que estão localmente disponível: telefonia móvel (GSM) baseada em voz e rádio da comunidade local. A informação é comunicada aos usuários em sua(s) própria(s) linguagem(ns) local(is)(Dittoh et al. 2021, pp. 1-23). Aqui, nós vemos que isso não é apenas sobre [65]conectividade ou acesso à plataforma como tal: o trabalho colaborativo sobre o conteúdo de informação relevante e adequado é, pelo menos, tão importante.

Iniciativas similares foram levadas a cabo em Mali, no período de 2011-2021. Diante da requisição da organização maliense AOPP3 de pequenos proprietários, uma plataforma digital foi desenvolvida para suportar os seus membros – pequenos proprietários de sementes de cerais – no comércio de sementes. Tão logo a primeira versão da plataforma de comércio de sementes baseado na web foi avaliada, tornou-se claro que os requerimentos locais e as barreiras contextuais foram negligenciados por desenvolvedores técnicos (Vos et al. 2020, pp.13-14). O sistema teve de ser adaptado e redesenhado em diálogo mais próximo com seus usuários. Essa segunda iteração resultou em uma interface móvel, de voz, falada na linguagem local bambara, como a ser útil para fazendeiros sem habilidades de alfabetização. Isso resultou em um conjunto complexo de requerimentos, visto que a plataforma deveria satisfazer os requerimentos do comércio de sementes local não digital legado, os requerimentos de linguagem e voz, assim como os desafios tecnológicos para o fazer funcionar na ausência de conectividade ubíqua na internet.

Em Sarawak, Maláisia, pesquisadores e comunidades indígenas têm trabalhado por mais de uma década na pesquisa de soluções sociotécnicas para problemas locais. Uma das iniciativas é o eBario,4 um projeto que teve como objetivo a conexão das vilas remotas e desconectadas de Bario à sociedade digital. A iniciativa consistiu em uma pareceria universidade-comunidade entre as minorias étnicas de Borneo, a comunidade Kelabit, e o Instituto de Informática Social e Inovações Tecnológicas da Universidade Malásia Sarawak. O projeto trouxe muitos subprodutos inesperados para a comunidade indígena, quem adotou a criação conjunta de conhecimento como um novo caminho. Os esforços conjuntos do projeto em um laborátorio vivo para inovações em assistência médica, preservação cultural local e agricultura. O modelo eBario tem sido replicado em seis locais: Grande Lamai e Ba’Kelalan em Sarawak, Pos Lenjang e Pos Sinderut em Pahang e Pos Gob e Pos Bala em Kelantan. Entre as suas realizações está o desenvolvimento de iniciativas de aprendizagem ao longo da vida, lideradas pela comunidade. Habilidades, rendas e comunicações melhoradas foram os resultados do projeto eBario para comunidades participantes. Em um nível nacional, o projeto tem influenciado a legislção para o desenvolvimento rural. Para acadêmicos, ele trouxe novas intuições sobre como realizar pesquisa ICT4D que também busca melhorar as vidas de comunidades marginalizadas e carentes (Harris et al. 2018, pp. 63-68). projetos tais como esses revelam que não é apenas sobre conectividade universal per se: esforço significante foi despendido para colaborativamente dar forma aos impactos sociais da conectividade como a chave para colher os benefíciso da digitalização.

O que nós apredemos a partir das iniciativas acima em ambientes de poucos recursos é que, enquanto a ciência da computação e inteligência artificial convencionais estão apenas se focando em sistemas de alta performance, computação de alto tecnologia, redes e dados massivos, também é cientificamente desafiador e socialmente relevante investigar como projetar [66]soluções em pequena escala, sistemas descentralizados e tecnologias verdes, energeticamente eficientes. Por exemplo, estudos recentes sobre aparelhos pequenos, econômicos, como a assim chamada de plataforma “Kasadaka”5 demonstraram o potencial das plataformas descentralizadas, econômicas, hospedadas localmente em hardware pequeno como plataformas inclusivas para comunidades locais em Mali, Burkina Fasso e Gana (Baart et al. 2019, pp. 202-2019).

Outro ponto importante nessa pesquisa é aquele de contextualização. Por exemplo, a implantação de inteligência artificial geralmente requer infraestruturas de alta performance. O ramo mais popular de inteligência artificial, a aprendizagem de máquina, usa computação pesada e necessita de armazenamento sustentável de dados para processar e armazenar grandes quantidade de dadas. Tal infraestrutura não está disponível em muitos países do Sul Global. Outra questão é relacionadao aos dados de usuários, a qual levanta problema de privacidade e segurança e requer estruturas regulatórias que, infelizmente, ainda estão na infância em muitos países africanos. Ainda assim, há formas alternativas de IA, por exemplo, sistemas de raciocínio baseado em conhecimento, que funcionarão melhor em circunstâncias de baixo recurso e podem rodar sobre sistemas locais descentralizados. Exemplos incluem engenharia de conhecimento para conhecimento indígena, coprojetada pelos fazendeiros locais e especialistas em IA, ou sistemas especialistas da tradicional medicina africana por local e especialistas e IA (Lô et al. 2017). Esses tópicos estão correntemente sendo usados em projetos de pesquisa pilotos baseados em campo.

Os exemplos acima são projetos de pesquisa do mundo real com um alcance modesto. A despeito do seu tamanho pequeno, esses projetos revelam a importância da transdisciplinaridade, envolvendo comunidades locais, não como sujeitos passivos, mas como copesquisadores e cocriadores. Esse modelo também é aplicável à educação acadêmica. Correntemente, currículos convencionais em Ciência da Computação e Inteligência Artificial introduzem os estudantes apenas aos domínios sofisticados da inovação tecnológica. Não muitos programas educacionais são dedicados ao desenvolvimento de tecnologia centrado em comunidades em ambientes de conceitos restritos. Contudo, os desafios da sociedade digital global também estão requerendo profissionai de TCI com conhecimento, habilidades e responsabilidade para lidar com esses desafios. Desenvolvimento colaborativo de tecnologia, reflexão e deliberação conjunta com respeito a ação e inovação locais podem abrir novas avenidas na direção de produção responsável e socialmente orientada de tecnologia e o desenvolvimento ético de tecnologia, esforçando-se por mais igualdade e menos colonialidade na sociedade (digital).


3 Conclusão


A partir das discussões acima, torna-se claro que a colonialidade também é uma realidade na sociedade digital. Conetividade universal à internet não necessariamente é igual à verdadeira conectividade inclusiva. De acordo com o filósofo afriacano Achille Mbembe, nós temos de compreender que colonialidade é mais do que discursos e representações acadêmicas (Mbembe 2001). É um problema sistemático, materializado no mundo real e sentido na [67]vida cotidiana por muitas pessoas. Se nós queremos construir uma sociedade digital centrada no humano, participativa e democrática – inclusive também para as comunidades vulneráreis – novas maneiras de colaboração, inovação e cocriação são necessárias. Neste capítulo, nós tentamos apresentar como isso poderia ser realizado.


Referências


Baart, A., Bon, A., De Boer, V., Dittoh, F., Tuijp, W. e Akkermans, H. (2019) “Affordable Voice Services to Bridge the Digital Divide – Presenting the Kasadaka Platform” in Escalona, M.J., Mayo, F.D., Majchrzak, T.A., Monfort, V. (eds) Web Information Systems and Technologies, LNBIP Book Series, Vol. 327, pp. 195-220. Berlin, Germany: Springer.

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Berners-Lee, T. (2019) The Web is under Threat. Join us and Fight for it. [Online] Disponível em: https://webfoundation.org/2018/03/web-birthday-29/ (Acessado: 1 de maio de 2021).

Dittoh, F., Akkermans, H. De Boer, V. Bon, A. Tuyp, W. e Baart, A. (2021) “Tibaŋsim: Information Access for Low-Resource Environments” in Yang, X.S., Sherratt, S., Dey, N., Joshi, A. (eds) Proceedings of the Sixth International Congress on Information and Communication Technology: ICICT 2021, London, UK, Vol. 1, Singapore: Springer. Disponível em: https://w4ra.org/wp-content/uploads/2014/02/ICICT_2021_paper_289.pdf (Acessado: 1 de maio de 2021).

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Harris, R., Ramaiyer, N.A.N.K. e Tarawe, J. (2018) “The eBario Story: ICTs for Rural Development” In International Conference on ICT for Rural Development (ICICTRuDev) pp. 63-68, IEEE.

Mignolo, W.D. and Walsh, C.E. (2018) On Decoloniality: Concepts, Analytics, Praxis. Durham, NC, USA: Duke University Press.

Mendoza, B. (2021) “Decolonial Theories in Comparison” in Shih S., Tsai, L. (eds) Indigenous Knowledge in Taiwan and Beyond. Sinophone and Taiwan Studies, Vol.1, pp. 249-271, Singapore: Springer.

Lô, G., de Boer, V., Schlobach, S. e Diallo, G. (2017) “Linking African Traditional Medicine Knowledge”. Semantic Web Applications and Tools for Healthcare and Life Sciences (SWAT4LS), Rome Italy. [Online] Disponível em: https://hal-archives-ouvertes.fr/hal-01804941/document (Acessado: 1 de maio de 2021).

Mohamed, S., Png, M.T. e Isaac, W. (2020) “Decolonial AI: Decolonial Theory as Sociotechnical Foresight in Arti fi cial Intelligence”. Philosophy & Technology, Vol. 33 No. 4, pp. 659-684.

Mbembe, A. (2001) On the Postcolony. Studies on the History of Society and Culture, Vol. 41, Los Angeles, USA: University of California Press.

[68]Pini, M.E. (2020) “Digital Inequality in Education in Argentina”. In Proceedings of the 12th ACM Conference on Web Science (WebSci ’ 20 Companion), 6 – 10 de julho de 2020, Southampton, UK, pp. 37-40, New York, NY, USA: ACM. Disponível em: https://doi.org/10.1145/3394332.3402827.

Quijano, A. (2016) “Bien Vivir – Between Development and the De/Coloniality of Power”. Alternautas (Re) Searching Development: The Abya Yala Chapter 3(1) pp. 10-23. [Online] Disponível em: http://www.alternautas.net/blog/2016/1/20/bien-vivir-between-development-and-the-decoloniality-of-power1 (Acessado: 1 de maio de 2021).

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Zuboff, S. (2019) The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power. London, UK: Profile Books.


Próximo ensaio


ORIGINAL:

BAART, A. et al. Decolonizing Technology and Society: A Perspective from Global South. In: GHEZZI, C. et al. (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p.61-68. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0

3 [65]https://aopp-mali.com/ (Acessado em 1 de maio de 2021)

5 [66]https://www.kasadaka.com/ (Acessado em 1 de maio de 2021) 

Perspectivas sobre o Humanismo Digital - Retorno à Liberdade: Governança de Ecossistemas Justos de Inovação

Perspectivas sobre o Humanismo Digital


Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital


Parte II Participação e Democracia


Ensaio anterior


[53]Retorno à Liberdade: Governança de Ecossistemas Justos de Inovação


por Hans Akkermans, Jaap Gordijn e Anna Bon


Resumo O Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital atribui grande importância ao processo de inovação na formação da sociedade digital. A questão de humanismo digital que nós colocamos neste capítulo é: se a inovação é uma força formadora, pode ela mesma ser formada por humanos e baseada nos valores humanos de uma sociedade justa e democrática? Hoje em dia, a inovação é comumente teorizada em política e pesquisa acadêmica em termos de ecossistemas. Embora essa estrutura abra espaço para múltiplas partes interessadas e sua interação, ela é limitada visto que ainda posiciona a inovação como um processo natural. Dessa maneira, ela subestima as dimensões do valor humano e do projeto social da inovação tecnossocial. Nós discutimos algumas ideias e propostas para a governança de ecossistemas de inovação digital de modo que eles sejam justos e equitativo. O design-para-equidade (design-for-fairness) tem como sua base uma concepção social justa e democrática de liberdade.


[54]1 O Manifesto de Viena e a Inovação


O Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital1 abre-se com uma citação de Tim Berners-Lee, o inventor da World Wide Web, na qual “o sistema está falhando” (Berners-Lee 2018). Em seguida, ele escreve que “embora a digitalização abra oportunidades sem precedentes, ela também levanta preocupações sérias. (…) Tecnologias digitais estão interferindo com sociedades e questionando o nosso entendimento do que significa ser humano. Os riscos são elevados, e os desafios de construir uma sociedade democrática e justa com humanos no centro do progresso tecnológico têm de ser tratados com determinação assim como com engenhosidade científica. A inovação tecnológica demanda inovação social, e a inovação social requer amplo engajamento social.”

O Manifesto de Viena enfatiza a importância de processos de inovação, visto que a inovação é vista como dando forma à sociedade digital emergente. Portanto, uma questão-chave humanista é: se a inovação é uma força formadora, ela mesma pode ser formada para o propósito de uma sociedade mais justa e democrática? Se sim, como?


2 Ecossistemas de Inovação


A visão política tradicional sobre inovação que tem sido dominante por décadas concebe a inovação primeiramente em termos de “invenção,” de subsequente “adoção” e de propagação de uma tecnologia inovadora. As edições antigas do texto altamente influente Diffusion of Innovations (2003), de Everett M. Rogers, refletem essa visão. O processo de inovação é compreendido em termos de uma metáfora emprestada da física. A difusão é interpretada (certamente onde ela diz respeito à visão recebida na legislação de alto nível) como um fenômeno relativamente determinista, mecanicista e unidirecional. A mesma metáfora da física também serve para estabelecer a ordem (para não dizer: hierarquia) no processo de pesquisa, começando a partir da pesquisa fundamental, então pesquisa aplicada, para pesquisa estratégica e, em última instância, desenvolvimento tecnológico.

Em anos recentes, tornou-se convencional conceber o processo de inovação nos diferentes termos de ecossistemas, tanto na literatura acadêmica (Oh et al. 2016) quanto na política (União Europeia 2020). Esse movimento incorpora uma mudança significativa da antiga política de estruturação da inovação. Contudo, ele também tem uma clara natureza metafórica, tomada não da física, mas da biologia. Essa mudança de metáfora tem consequências importantes de várias maneiras.

Primeiro, a imagem do processo, ou modelo empírico de alto nível, da inovação muda. Em vez de um processo mecanicista de difusão (com a famosa “curva-S” de adoção2), ela postula uma dinâmica interativa de múltiplas “espécies,” ou seja, os vários [55]atores-chave e as partes envolvidas no ambiente de inovação. Isso é comumente expresso como uma coevolução, uma noção também proeminente no Manifesto de Viena (cf. também Lee 2020; Nowotny et al. 2001). Além disso, é comum encontrar análises de processo não em termo de simples difusão unidimensional, mas, em vez disso, de sistemas adaptativos complexos não lineares; ver, por exemplo, Rogers et al. (2005) e Bon (2020).

Segundo, a nova metáfora do sistema também é um rompimento significante no sentido político. Ela aponta para relacionamentos simultaneamente competitivos e colaborativos em inovação, em contraste com as ideologias do livre mercado neoliberal que apenas conseguem ver competição empresarial no interior do seu horizonte. Ela reconhece que a inovação é um processo multiator que é não determinista e coevolucionário. Além disso, ela permite uma visão diferente sobre quem são as efetivas partes envolvidas em jogo. Isso muda a visão sobre o papel do governo como facilitador de inovação, mas ela também muda e estende o papel da sociedade civil e de outros jogadores que, até agora, tem sido ignorado ou menosprezado. O último ponto tem sido particularmente tornado explícito na literatura de ciência-e-sociedade e de política de ciência (Gibbons et al.1994; Etzkowitz e Leidesdorff 2000; Nowotny et al. 2001; Caranyannis e Campbell 2012) sobre os novos de produção de conhecimento e de organização da inovação em hélice (helix) tripla/quádrupla universidade-indústria-governo-sociedade cívil em nações, regiões e cidades (“inteligentes”).

Mesmo assim, a metáfora de ecossistemas como um caminho para entender a inovação tem limitações importantes. Embora mais flexível e aberta do que as outras metáforas físicas, ela ainda estrutura a inovação como algum tipo de processo natural (mas agora “ecológico” em vez de físico-mecanicista), o que, por sua vez, carrega consigo a (inválida) sugestão de que o seu curso esteja fora das mãos humanas e além do controle humano.

De fato, a literatura sobre negócios e gerenciamento da inovação tem dificuldade reconhecendo a implicação de que, como um resultado do fato de que humanos são parte da ecologia como atores e partes interessadas, a inovação é humano-projetável (pelo menos, em alguma extensão). Ela é muito fraca na discussão de aspectos normativos-chave de ecossistemas de inovação. Quem se posiciona para se beneficiar com inovação (disruptiva), e por quê? Quem está no controle, e para quais propósitos? Essas são questões importantes e inevitáveis (em um debate democrático, quer dizer) que são discutidas na literatura sobre inovação social, mas tipicamente a partir de outras disciplinas que não a economia e a pesquisa de negócio, como testemunha, por exemplo (Manzini 2015). Em outras palavras, o conceito de ecossistema de inovação tem de ser humanizado, e isso pode ser alcançao através da explicação da dimensão da governança das tecnologias digitais.


[56]3 Governança: Ecossistemas que são Justos


Como um corretivo para a “falha do sistema,” Berners-Lee (2018) requer uma “redecentralização” da Web. Em uma visão coevolucionária, isso pode envolver tanto ações sociais de tecnologia (por exemplo, SOLID3) e de não tecnologia. Jairam et al. (2021) faz uma distinção explícita entre uma tecnologia e como ela é controlada, assinalando que o nível de tecnologia e o nível da sua governança pode ter características muito diferentes. Por exemplo, as plataformas de grandes empresas de tecnologia (Big Tech) dependem de tecnologias “descentralizadas” de rede, mas, em contraste, o nível de governança delas é fortemente centralizado, mesmo monopolista. Esses autores investigam tecnologias de blockchain (tais como Bitcoin, Corda, Ethereum, Tezos) e suas aplicações industriais (por exemplo, cenários de energia inteligente, tais como comércio ponto-a-ponto de energia sustentável). Eles também mostram que existem muitas formas de governança, desde a altamente centralizada até a descentralizada (e, frequentemente, opaca).

O foco deste capítulo está na questão de como a governança de tecnologias pode ser descentralizada.4 Para esse fim, esses autores introduzem a noção de ecossistemas de inovação justa e propõem um conjunto de princípios de design para ecossistemas justos e equitativos. Ecossistemas descentralizados, como uma alternativa realista às plataformas de grandes empresas de tecnologia, têm uma distribuição justa do poder de governança, através da qual equidade (fairness) é definida o longo das seguintes linhas (Jairam et al. 2021):

  1. Participação. Governança justa assegura o envolvimento ativo no processo de tomada de decisão de todos que são afetados e de outras partes com um interesse em risco. Ela inclui todos os participantes interagindo através de democracia direta ou representativa. Os participantes deveriam ser capazes de fazer isso de uma maneira sem constrangimento e verdadeira, e eles deveriam estar bem informados e organizados quanto a participarem frutifera e construtivamente.

  2. Governo da lei. Equidade: todos os participantes têm oportunidades legítimas para melhorar e sustentar o seu bem-estar. Regras e estruturas acordadas, com princípios democráticos subjacentes, são aplicadas imparcilamente, enquanto garantindo os direitos das pessoas; nenhum participante está acima do governo da lei.

  3. Efetividade e eficiência. Governança justa satisfaz as necessidades sociais através da incorporação da efetividade enquanto utilizando eficientemente os recursos disponíveis. Governança efetiva assegura que os diferentes atores de governanaça satisfaçam as necessidades sociais. A utilização completa de recursos, sem serem desperdiçados ou subutilizados, assegura governança efetiva.

  4. Transparência. Infomação sobre questões que afetam participantes tem de ser livremente disponível e acessível. O processo de tomada de decisão é realizado de uma maneira que é clara para todos, seguindo regras e regulações. A transparência também [57]inclui que suficiente informação relevante seja fornecida e apresentada em formas ou mídias fáceis de entender.

  5. Responsividade. Uma estrutura de governança justa responsiva reage apropriadamente e dentro de um prazo razoável em relação aos seus participantes. Essa responsividade estimula os participantes a tomarem parte no processo de governança.

  6. Orientado a consenso. A governança justa considera os pontos de vista e interesses dos diferentes participantes. Tal governança é definida como orientada a consenso porque ela tem como objetivo alcançar um amplo consenso da comunidade. A fim de alcançar esse consenso amplo, uma estrutura de mediação firme, sem nenhum viés em relação aos participantes, deveria estar no lugar.

  7. Responsabilização. Responsabilização (Accountability) é definida como responsabilidade ou responsabilização (answerability) pelas ações de alguém. Tomadores de decisão, ou internos ou externos, são responsáveis por aqueles que são afetados por suas ações ou decisões. Esses tomadores de decisão estão moral ou legalmente obrigados a clarificarem as e serem responsabilizáveis pelas implicações e ações selecionadas tomadas em nome da comunidade.

Propostas tais como essa estabelecem um forte programa para o design-para-equidade de tecnologia digital e governança da sociedade. A equidade (fairness) inclui aspectos tanto de processo quanto de resultado. Como nós veremos abaixo, precursores interessantes e informativos também existem na sociedade não digital, incluindo os seus ecossistemas.


4 Governança e Conceitos de Liberdade


Vardi (2018) atribui a falha do sistema da internet a uma ingênua noção “hippie” de liberdade de informação.5 Nessa visão, a informação tem como um resultado se tonar um “recurso comum (commons), um recurso público compartilhado e não regulamentado,” o qual está sujeito a “A Tragédia dos Recursos Comuns” (Hardin 1968). A visão de Hardin era de que a governança de recursos comuns compartilhados está inevitavelmente condenada a falhar, deixando como alternativas apenas formas de governança de mercado e de estado. Ele derivou isso a partir da suposição teórica da economia neoclássica de que humanos agem como agentes individuais com interesse racional próprio. Esse argumento de arranjo anticoletivista foi bem recebido por economistas neoliberais que o empregavam para promoverem suas ideias sobre mercados livres como mecanismo-chave de governança.6

[58]O argumento de Hardin foi um teórico-geral. Contudo, Ostrom (1990, 2010) descontruiu-o e desmantelou-o de uma maneira baseada em evidência, através de um grande conjunto de estudos de casos empíricos detalhadas e extensa pesquisa de campo.7 O trabalho dela torna claro que recursos comuns exitosos estão difundidos mas não são absolutamente “desregulamentados” (ou livres) como um recurso compartilhado. Geralmente, eles são caracterizados por arranjos de governanças que consistem em um conjunto complexo de acordos participativos democráticos “de base (grassroots),” possivelmente misturados com mecanismos de mercado assim como com formas de regulação estatal. O trabalho de Ostrom deu origem a uma teoria do que ela chama de “governança policêntrica,” formulando um conjunto de condições gerais e princípios de design para arranjos de tipo de recursos comuns serem exitosos. Há muitos recursos comuns exitosos e de longa data também no mundo digital. Embora atenção devida deva ser dada ao fato de que recursos digitais têm diferenças importantes dos recursos naturais, há paralelos interessantes com propostas tais como aquelas acima relativas à governança de redes de tecnologia digital.

É intrigante observar que, em virtualmente todas as discussões de questões de governança, um conceito de liberdade está envolvido, embora diferentes e mesmo conflitantes, e frequentemente ocultos no pano de fundo.8 Seguindo De Dijn (2020), uma concepção predominante de liberdade hoje em dia, aceita por neoliberais, defensores do livre mercado (free marketeers) e libertários, é aquela do poder limitado do estado. Ela descreve isso como uma ruptura principal e deliberada com muita das antigas concepções de liberdade como desenvolvidas nas épocas do humanismo e iluminismo, onde a liberdade é um conceito coletivo e jaz na habilidade do povo para exercer controle sobre a maneira pela qual eles são governados – na raiz, uma concepção democrática e participativa de liberdade. Em contraste, ela rastreia as concepções individualizadas de liberdade, deixe-me-sozinho (leave-me-alone), eu-quero-fazer-o-que-eu-gosto (I-want-to-do-what-I-like), até as forças antidemocráticas e contrarrevolucionárias dos séculos XVII e XVIII.9

Uma concepção neoliberal de liberdade reduz humanos a agentes individuais, de interesse próprio, maximizadores de utilidade “livremente” comprando em um mercado. É muito uma concepção destrutiva e consumista: agentes de mercado adquirindo e consumindo serviços em plataformas digitais. De fato, essa noção neoliberal de “o-mundo-é-plano (the-world-is-flat)” é universal (“global”) mas de uma maneira completamente indiferenciada e uniforme (“plana”). Em contraste, a concepção sociedade de liberdade assinalada aqui é uma noção produtiva: é uma de cidadania (citizenship) que cocria a sociedade na qual nós vivemos (temos a esperança de viver). Ela é cosmopolita, mas reconhece que a liberdade é contextualizada (Harvey 2009; Stuurman, 2017), com o reconhecimento devido de muitas esferas e redes [59]diferentes e sobrepostas de atividades e relações humanas – incluindo a partir do ponto de vista do indivíduo e da sua identidade.

Na sociedade digital, a apropriada governança digital baseada em valor (União Europeia 2020) é um retorno à liberdade: a liberdade democrática e participativa do humanismo e iluminismo. Novamente, ciência e política de inovação avançaram, a partir da estrutura em hélice de ecossistema para uma política muito mais inclusiva de ecossistemas digitais justos. É tarefa urgente dos dias de hoje redesenhar a liberdade de uma maneira baseada em valores e colocá-la em ação para uma natureza humana da nossa sociedade digital.


Referências


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Bernal, J.D. (1958) World Without War. London, UK: Routledge & Kegan Paul. 2ª ed. 1961. ISBN 978-0-429-28245-4

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Bon, A. (2020) Intervention or Collaboration? Redesigning Information and Communication Technologies for Development. Amsterdam, The Netherlands: Pangea. ISBN 9789078289258. Open Access pdf version https://w4ra.org/publications/

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Gibbons, M., Limoges, C., Nowotny, H., Schwartzman, S., Scott, P. e Trow, M. (1994) The New Production of Knowledge: The Dynamics of Science and Research in Contemporary Societies. London, UK: Sage. ISBN 0-8039-7794-8

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Manzini, E. (2015) Design, When Everybody Designs: An Introduction to Design for Social Innovation. Cambridge, MA, USA: MIT Press. ISBN 9780262028608

[60]Nowotny, H., Scott, P. e Gibbons, P. (2001) Re-Thinking Science. Cambridge, UK: Polity Press. ISBN 0-7456-2608-4

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Ostrom, E. (1990) Governing the Commons: The Evolution of Institutions for Collective Action. Cambridge, UK: Cambridge University Press. ISBN 9780521405997

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Stuurman, S. (2017) The Invention of Humanity – Equality and Cultural Difference in World History. Cambridge, MA, USA: Harvard University Press. ISBN 9780674971967

Vardi, M.Y. (2018) How the Hippies Destroyed the Internet. Communications of the ACM Vol. 61 (No. 7, July 2018), p. 9


Próximo ensaio


ORIGINAL:

AKKERMANS, H., BON, A., e GORDIJN, J. et al. Return to Freedom: Governance of Fair Innovation Ecosystems. In: GHEZZI, C. et al. (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p.53-60. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


2 A curva-S (Rogers 2003, cap. 7) refere-se à função de distribuição cumulativa em forma de S da adoção de inovação. Ela pode ser matematicamente derivada a partir de um modelos simples de imitação para a proparação d euam inovação no interior de uam populaçaõ ou mercado.

3 [56]SOLID é um projeto de descentralização da web liderado por Berners-Lee, tendo como objetivo o desenvolvimento de uma plataforma de desenvolvimento para aplicações de Dados Sociais Ligados (Social Data Linked) que são completamente descentralizadas e estão completamente sob o controle dos usuários (https://inrupt.com/solid/).

4 A importância de boa governança é explicitamente reconhecida nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) (Sustainable Development Goals (SDGs)) das Nações Unidas e é o tópico central do ODS 16.

5 [57]Isso conduziu a muito debate nas Communications of the ACM. À luz da discussão acima e do restante do artigo, alguém talvez possa dizer que a ingenuidade hippie está assumindo que uma tecnologia descentralizada conduz sem esforço a um regime de governança que é similarmente descentralizado. Algo que não é verdade. Esse erro dirigido por tecnologia talvez seja mais compreensível em consequência de perceber que uma geração anterior de cientistas preocupados com os impactos sociais estavam lidando com tecnologias altamente centralizadas tais como a bomba atômica. Ver, por exemplo, Bernal (1939, 1958), professor de física no Birkbeck College em Londres e um pai-fundador do campo de estudo agora conhecido como Ciência, Tecnologia e Sociedade (Science, Technology, and Society (STS)).

6 Uma ironia interessante aqui é que o artigo de Harding geralmente tem sido recebido como suportando o mercado livre de ideias, mas, de fato, Hardin estava escrevendo sobre a superpopulação e argumentava em favor da necessidade de coerção [58]estatal, mesmo ao ponto de que ele suportava a política de um filho da China. Em termos da sociedade digital contemporânea, ele não estava argumentando em favor do capitalismo de vigilância, mas do estado de vigilância.

7 Elinor Ostrom recebeu o Prêmio Nobel de Economia pelo seu trabalho em 2009. Não apenas ela foi a primeira mulher a receber esse prêmio, era era uma cientista política em vez de uma economista, levando a uma supresa em certos setores economistas.

8 Como um interessante exemplo global, Sen (1999) descreve Development as Freedom. Em particular, o capítulo 5 desse livro revela que a concepção subjacente de liberdade reduz-se a uma de mercado neoliberal.

9 É tentador acrescentar que os monópolios de poder das grandes empresas de tecnologia dos dias de hoje demonstram que a concepção mesma neoliberal de liberdade revela-se ser o “estrada para a servidão (road to serfdom)” de Hayek.

sábado, 29 de abril de 2023

Perspectivas sobre o Humanismo Digital - A Internet está Morta: Longa Vida à Internet

Perspectivas sobre o Humanismo Digital


Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital


Parte II Participação e Democracia


Ensaio anterior


[47]A Internet está Morta: Longa Vida à Internet1


por George Zarkadakis


Resumo Exclusão social, exploração de dados, vigilância e desigualdade econômica na web são problemas principalmente tecnológicos. A atual web de nuvens de mídias sociais centralizadas entrega intencionalmente uma economia digital onde o vencedor leva tudo, a qual sufoca a inovação e exacerba as assimetrias de poder entre cidadãos, governos e oligopólios de tecnologia. Para consertar a economia digital, nós necessitamos de uma nova web, descentralizada, onde os cidadãos sejam empoderados a possuírem os seus dados, participarem em mercados ponto-a-ponto desintermediados e influenciarem decisões legislativas através de aplicações inovadoras de democracia participativa e deliberativa. Através da reimaginação da “web 3.0” como uma comunidade (commonwealth) na nuvem de máquinas virtuais tirando proveito de blockchains e compartilhando código, é possível projetar novos modelos de negócio digital onde todas as partes interessadas e participantes, incluindo os usuários, podem compartilhar justalmente a recompensa da Quarta Revolução Industrial.


A internet tem quase 50 anos de idade.2 Ela transformou o nosso mundo e forneceu novas e excitantes oportunidades para negócios, sociedade, ciência e indivíduos; mas ela também conduziu a uma era de maior desigualdade, vigilância, exclusão e injustiça. A primeira iteração da internet (“web 1.0”) foi uma rede de servidores de organizações onde os PCs eram conectados intermitentemente, via modems discados (dial-up). Isso evoluiu para a atual internet móvel (“web 2.0”) que consiste em muitas nuvens de redes sociais centralizadas que sugam dados de usuários como buracos negros. Como tal, a web 2.0 possibilitou os modelos de negócio de grilhagem de terra (land-grabbing) dos oligopólios das grandes empresas de tecnologia (Big Tech). Dessa maneira, [48]uma distribuição injusta de poder emergiu através de como os nossos dados são recolhidos, analisados e monetizadas por empresas privadas enquanto nós aceitamos com pressa cookies. A economia digital dos dias de hoje é o sonho molhado realizado de um rentista realizado. Nós nos tornamos servos nos feudos digitais de tecno-oligarcas, inquilinos, em vez de coproprietários, do enorme valor econômico que nós geramos atráves de nossos avatares digitais. Adicione a marcha dos sistemas de IA que automatizam nossos trabalhos, e o que você obtém é o contrato social da democracia liberal despedaçado. Se nós continuarmos como se nada estivesse acontecendo, o futuro será de desemprego massivo, desorganização e do fim dos sonhos. A Crise Financeira Global ofereceu-nos um vislumbre do que isso significa: populismo, desconfiança na democraia, teorias da conspiração, polarização, ódio, racismo e uma repetição sombria dos anos de 1930. A pandemia de COVID-19 exacerbou adicionalemtne as assimetrias políticas e econômicas de uma economia digital que funciona apenas para os poucos. “Trabalhar a partir de casa (Working from home)” soa bom até que você perceba que o seu trabalho pode ser terceirizado para qualquer lugar do mundo, a um custo muito menor. Virtualização do trabalho é igual a arbitragem trabalhista possibilitada pela web 2.0 e chamadas do Zoom.


1 Perigos de uma Abortagem de Ornitóptero


Deparadas com o perigo de sua obliteração histórica, as democracias estão equipando-se para uma luta. Propostas variam desde a fragmentação dos monopólios das empresas de tecnologia, maior taxação delas, expansão da prosperidade (welfare) para todo cidadão via uma renda básica universal (universal basic income) e a promulgação de mais rigorosas leis de privacidade de dados. A estratégia de defesa tem um propósito nobre: reduzir o poder e a influência dos tecno-oligarcas.

Mas os meios usuais de defesa da democracia através de legislação e regulamentação são insuficientes e ineficientes para lidar com a magnitude e natureza desse problema particular. Em vez de uma solução viável e sustentável, eles criaram novos gargalos, mais papelada, mais controle centralizado e mais brechas a serem exploradas pelos lobistas (lobbies) influentes e bem financiados. No final, a regulamentação desloca o poder para os governos, não os cidadãos. Nós, os cidadãos, trocaremos um mestre pelo outro. A estratégia de aumentar o poder do Estado a fim de lidar com a desigualdade na economia social é errada e falhará. O nosso problema é tecnológico, não regulatório. Como os aviadores iniciantes, nós estamos tentando deixar o solo usando asas que não podem voar. E tão exatamente como você não pode regular um ornitóptero a alcançar a estratosfera, assim é com a internet atual: para tornar a economia digital mais justa, confiável e inclusiva, nós necessitamos de uma tecnologia diferente, outro tipo de internet.

Mas com o que essa internet “alternativa” parecer-se-ia? E quais deveriam ser os blocos fundamentais dela? Talvez a melhor maneira de pensar sobre essas questões seja perguntar o que está errado com a tecnologia corrente. Eu gostaria de argumentar que há três principais áreas de problemas nas quais nós necessitamos nos focar a fim de reiventarmos a internet: propriedade de dados (e o seu corolário necessário, a identidade digital), segurança e desintermediação. Tomemos essas áreas uma de cada vez e examinemos adicionalmente.


2 Propriedade de Dados e a Necessidade de uma Identidade Digital


Propriedade de dados talvez seja o maior problema de todos. A propriedade vai além da autosoberania. Ela sugere direitos de propriedade sobre os dados, não apenas o direito de conceder permissão para o uso deles. Nós temos de possuir nossos dados pessoais, assim como os dados que nós geramos através de nossas interações sociais, ações e escolhas. Nossos dados são o recurso mais valioso na economia digital. Eles estão energizando os algoritmos de IA que animam as rodas das indústrias digitais. Quando esses algoritmos finalmente nos substituírem no local de trabalho, os nossos dados serão o único recurso valiosos através do qual nós podemos legitimamente reivindicar uma parte na recompensa da Quarta Revolução Industrial. Muitas iniciativas, tais como o projeto Inrupt (Lohr 2021) de Sir Tim Berners-Lee, estão tentado contornar a web atual e fornecer caminhos para algum grau de propriedade de dados, enquanto construindo sobre padrões existentes. Contudo, ao tratarem de apenas uma das três principais áreas de problemas, eles são apenas soluções parciais. Uma abordagem mais radical é necessária para estabelecer sistemas de identidade digital imutáveis, verificáveis como maneiras seguras e confiáveis para identificar cada ator conectado na internet, incluindo humanos, utensílios (appliances), sensores, robôs, IAs, etc. Dessa maneira, dados gerados por um ator estariam associados com a sua identidade digital e assim se estabeleceriam direitos de propriedade. Assim, se eu sou um habitante da internet alternativa, eu posso decidir quais fragmentos dos meus dados eu tornarei disponíveis, para quem e sob quais condições. Por exemplo, se eu preciso interagir com uma aplicação que requer minha idade, eu permitirei apenas que essa porção de dados esteja disponível para a aplicação, e nada mais. Eu também posso decidir sobre um preço para conceder acesso aos meus dados a um terceiro, digamos, a uma agência de propaganda ou a uma empresa farmacêutica interessada em usar meus registros de saúde para pesquisa médica. Ou eu posso decidir juntar-me a uma cooperativa de dados, ou a um guarda (trust) de dados (Zarkadakis 2020a), e acumular os meus dados com os dados de outras pessoas, talvez incluir dados de utensílios domésticos inteligentes e sensores urbanos inteligentes e, dessa maneira, aumentar exponencialmente o valor coletivo da cadeia de valor de dados “compartilhados (shared).” Identidades digitais podem possibilitar propriedade auditável de dados, a partir da qual nós poderíamos engendrar um renda equitativa para cidadãos em uma economia de abundância material empoderada por IA. Visto que nós procuramos financiamento sustentável e significante para uma renda básica universal, a propriedade de dados baseada em identidade digital pode ser a solução-chave. Uma “renda básica universal” que seja financiada por atividade econômica liberaria governos de terem de taxar e tomarem emprestado excessivamente. Talvez, mais importantemente, seria renda ganha, não “distribuída (handed out),” e, como tal, suportaria – em vez de rebaixar – a dignidade e o autorrespeito humanos.


3 Segurança


A internet atual é altamente suscetível a ciberataques – tais como Negação de Serviço (Denial of Service) (NdS (DoS)) – porque a sua arquitetura requer que as aplicações sejam centralizadas e os seus dados sejam transmitidos via servidores centrais, em vez de trocados diretamente entre aparelhos. Dessa maneira, servidores são pontos de falha e ataque que são doces para hackers [50]malévolos. A centralização de dados da internet atual também é causa de violações de dados, multas regulatórias, risco reputacional e desconfiança do consumidor. Dadas essas desvantagens inerentes, a corrida de armas da segurança cibernética é eternamente invencível. Na internet alternativa, as aplicações deveriam ser ponto-a-ponto, descentralizadas e comunicarem-se diretamente uma com as outras. Elas deveriam rodar em máquinas virtuais que usam um sistema operacional e protocolo de comunicação construídos sobre o fundamental protocolo TCP/IP e rodam em um aparelho individual, digamos um smartphone. Se elas falham ou são atacadas, o dano seria mínimo e restrito, em vez de se espalhar atráves da rede inteira. Além disso, um tal sistema operacional poderia transformar essa internet alternativa em um computador único, global, formado de bilhões de nós. Seria a realização do sonho original da internet: um rede global completamente descentralizada e segura, onde não pode haver vigilância


4 Desintermediação


Segurança não é o único resultado negativo da natureza centralizada da web 2.0. Por padrão, todos os serviços são atualmente intermediados, e isso inclue serviços essenciais tais como armazenamento de dados e recursos de computação. É por ess razão que apenas quatro companhias controlam 70% da infraestrutura de nuvem do mundo (Cohen 2021). Independentemente do que você possa pensar de Donald Trump, o fato de Twitter, uma empresa privada, possa silenciar o atual Presidente dos EUA deveria causar preocupação em qualquer um que se importe com liberdade de expressão. Como o Twitter, muitas outras plataformas privadas de mídias sociais, tais como o Facebook e o YouTube, assumiram o elevado cargo público de árbitros não eleitos do que é verdadeiro e permissível, ocupando o papel de legisladores, tribunais e governos. A intermediação também é responsável pelo fato de que o conteúdo na internet pode ser monetizado quase exclusivamente usando um modelo de negócios de propaganda, que é o que as plataformas de mídias sociais estão explorando para produzirem os seus bilhões. Se você é um criador de conteúdo hoje em dia, você tem de satisfazer anunciantes com grandes números de seguidores e sucessos (hits), o que tanto impacta o conteúdo que você pode criar quanto como você pode o transmitir. A minúscula minoria dos criadores de conteúdo individuais que alcançam essa combinação certa e conseguem ganhar alguma renda significante a partir do seu trabalho, em seguida, ficam sujeitos aos caprichos das plataformas de mídias sociais que hospedam o seu conteúdo. Nós precisamos desintermediar e descentralizar a internet, se nós queremos que a criatividde e inovação floresçam. Na internet alternativa, criadores de conteúdo não necessitam da indústria de propaganda para obter renda: eles podem monetizar o seu conteúdo em mercados desintermediado, ponto-a-ponto, através de micropagamentos pagos a eles diretamente pelos consumidores do conteúdo deles. Além disso, a infraestrutura também pode ser desintermediada, e cada nó na rede pode fornecer dados e serviços e recursos computacionais. Uma internet descentralizada em escala global fornecerá novas fontes de renda para bilhões de pessoas. Apenas imagine, qualquer um se conectando nessa internet via seu smartphone ou laptop e disponibilizando armazenamento e computação de dado como parte de umacomunidade (commonwealth) na nuvem.”


[51]5 A Ascensão de uma Nova Web Descentralizada


Nós já estamos testemunhando a origem da nova internet, frequentemente referida como “web 3.0.” Tecnologias distribuídas de livros de registro (ledger) estão proporcionando novas maneiras para estabelecer confiança desintermediada em mercados ponto-a-ponto, assim como novas maneiras de reimaginar o dinheiro e ativos financeiros. Contratos inteligentes automatizam transações e auditoria de providência em cadeias de suprimentos, bancos e seguros, enquanto token não fungíveis (non-fungible tokens (NFTs)) estão transformando a internet da informação na internet dos ativos e capacitando criadores de conteúdo e artistas digitais a venderem suas criações, exatamente como eles venderiam se elas fossem feitas de átomos em vez de bits.

Na web 3.0, os usuários individuais estão conectados diretamente, ponto-a-ponto, sem nuvens centralizadas. Eles podem trocar conteúdo e outros ativos digitais como NFTs que são aplicações executáveis. Para alcançar isso, nós temos de empoderar os usuários com computadores pessoais de nuvem (PC2), ou seja, computadores pessoais definidos por software, para armazenar e processar seus dados. Quando usuários estão prontos a trocar e comerciar os seus dados, eles podem compilar dados em cápsulas NFT (programas criptografados, autoextrativos, autoexecutantes que encapsulam os dados), muito como as pessoas geram arquivos PDF a partir de documentos Word hoje em dia. Em seguida, eles compartilharão essas cápsulas em uma rede de entrega de conteúdo rodando sobre uma blockchain e verificada por mineiros, em vez de servidos de nuvem centralizados. Com efeito, a web 3.0 será uma web ponto-a-ponto de computadores de nuvens pessoais.

Muitos engenheiros já estão trabalhando na realização da nova internet. Por exemplo, a Fundação Elastos está desenvolvendo uma gama completa de ferramentas e capacidades para desenvolvedores de web 3.0, de maneira que eles possam começar a codificar aplicações descentralizadas na nova web. Tudo isso está acontecendo em plataformas de código aberto no verdadeiro espírito de compartilhamento de conhecimento e colaboração em projetos. Exatamente isto é o que é diferente na mentalidade do novo mundo digital: sucesso, inovação e valor econômico podem ser derivados a partir de colaboração, não apenas competição, e a partir da cocriação de ecossistemas equitativos, não impondo oligopólios injustos.


6 Público Participativo e Governança Privada


Há um prêmio adicional a ser ganho na transição da web 2.0 para a web 3.0. Uma web descentralizada baseada em identidade digital, propriedade de dados e uma comunidade (commonwealth) na nuvem ponto-a-ponto trará novas possibilidades para modelos digitais de negócios que são inclusivos e democraticamente governados, muito como cooperativas de companias de propriedade mútua (mutual owenership). Ethereum foi a primeira a experimentar com “organizações autônomas descentralizadas (decentralized autonomous organizations) (OADs (DAOs))” que podem mesclar democracia direta e representacional em governança privada. Contudo, modelos similares de governança digital democrática também podem ser adotados no domínio público por uma cidade, um condado (county), uma região, ou um estado-nação ou em circunstâncias onde os cidadãos tenham de gerenciar recursos comuns (Zarakadakis 2020b, p.140).

[52]Em uma sociedade onde cada cidadão tem uma identidade digital verificável e descentralizada, não pode haver vigilância – estatal ou privada – apenas liberdade e responsabilidade pessoal. Cidadãos podem livremente se associar no ciberespaço, transacionar, criar, inovar, aprender e autodesenvolver. Porque a identidade deles é verificável e confiável, eles são incentivados na direção de comportamento socialmente responsável e consenso. A web 3.0 descentralizada pode ser o fundamento de uma “pólis” verdadeiramente digital no ciberspaço. Em uma semelhante pólis democrática, cidadãos livres possuem os seus dados e contribuem através de suas interações, seu conhecimento, suas habilidades, suas redes e suas escolhas para a criação de valor econômico em plataformas digitais inclusivas, valor que então é compartilhado justamente antre todos aqueles que contribuíram e na base de sua contribuição. Além disso, formas participativas de governança pública podem promulgadas ao institucionalizarem-se assembleias de cidadãos nas democracias liberais e incluírem-se visões e recomendações de cidadãos nos processos legislativos das legislaturas. O futuro não tem de ser uma distopia de opressão, vigilância, penúria endêmica, e dependêndia de controle e bem-estar do governo central. Uma nova internet de oportunidades equitativas pode ajudar-nos a superar os apuros da polarização social e injustiça e que a democracia, independência (freedom) e liberdade (liberty) reivindiquem a sua influência civilizadora sobre a natureza humana.


Referências


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Zarkadakis, G. (2020a) ‘Data Trusts could be the key to better AI’, Harvard Business Review, [online]. Disponível em: https://hbr.org/2020/11/data-trusts-could-be-the-key-to-better-ai (Acessado em 18 de maio de 2021)

Zarkadakis, G. (2020b) Cyber Republic: reinventing democracy in the age of intelligent machines, Cambridge: MIT Press.


Próximo ensaio


ORIGINAL:

ZARKADAKIS, G. The Internet Is Dead: Long Live the Internet. In: GHEZZI, C. et al. (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p.47-52. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


1 Por que nós necessitamos de uma nova internet para democratizar a economia digital e melhorar a governança participativa?

2 https://www.usg.edu/galileo/skills/unit07/internet07_02.phtml%23:~:text=January%201%2C%201983%20is%20considered,to%20communicate%20with%20each%20other.&text%C2%A0=%C2%A0ARPANET%20and%20the%20Defense%20Data,the%20birth%20of%20the%20Internet