Perspectivas sobre o Humanismo Digital
Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital
Parte I Inteligência Artificial, Humanos e Controle
[9]Robôs Sociais: Sua História e O que Eles podem fazer por Nós?
por Nadia Magnenat Thalmann
Resumo Desde a antiguidade até os dias de hoje, alguns cientistas, escritores e artistas são apaixonados pela representação de humanos não apenas como belas estátuas, mas como autômatos que podem realizar ações. Já na Grécia antiga, nós podemos encontrar alguns exemplos de autômatos que substituíam servos. Neste capítulo, nós examinamos o desenvolvimento dos robôs até os robôs sociais de hoje em dia. Nós descrevemos dois exemplos de robôs sociais, EVA e Nadine, com os quais nós estivemos trabalhando. Nós apresentamos dois estudos de caso, um em uma companhia de seguros e o outro em lar de idosos. Nós também mencionamos os limites do uso de robôs sociais, os seus perigos, e a importância de controlar suas ações através de comitês de ética.
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[9]Talos, o autômato gigante da Grécia |
[10]1 A História dos Robôs Humanos
O fascínio por automação não é nem novo nem moderno. Viver lado a lado com seres mecânicos, automatizados, que se parecem conosco e podem fazer coisas fantásticas ou nos proteger é um dos mais antigos sonhos da humanidade. Em 400 a.C. a mitologia grega já apresentava o conto de Talos, um autômato gigante de 10 metros feito de bronze. Ele foi trazido à vida pelos deuses para evitar piratas e invasores e manter vigilância para proteger a ilha. Algum tempo depois, em 250 a.C., um dispositivo automático semelhante a um humano, na forma de uma criada segurando um jarro de vinho em sua mão direita, foi construído. Quando alguém colocava um copo na palma da mão esquerda do autômato, ele automaticamente vertia vinho, inicialmente, e, em seguida, vertia água dentro do copo, misturando-os quando desejado (fig.1).
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[10]Fig. 1 Criada automática, construída por Filão de Bizâncio |
Essa criada automática pode ser vista no Museu da Tecnologia grega antiga em Katalo, na Grécia.
Leonardo Da Vinci, no final do século XV, criou desenhos técnicos que foram recentemente descobertos. Esses desenhos permitiram a criação de um autômato humanoide mecânico, um cavaleiro robótico que é capaz de movimento independente. Ele poderia ficar de pé, sentar-se, levantar o seu visor e manobrar os seus braços independentemente (fig. 2). Ele estava completamente construído, de acordo com os desenhos de Da Vinci, e estava inteiramente funcional.
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[11]Fig.2 Cavaleiro robótico |
Posteriormente, uma maravilha de autômatos foi produzida e exibida em 1775 em Londres. Os espectadores puderam ver três figuras humanas animadas criadas por Pierre e Henri Louis Droz, da Suíça. Esses autômatos eram autonomamente capazes de escrever, [11]de desenhar, ou de tocar um instrumento de teclado. Essa exibição no Covent Garden gerou muitas questões entre escritores famosos. Algumas peças imaginárias como, por exemplo, “Les Contes d’Hoffmann” foram produzidas. Hoffman é o autor de uma das obras-primas “The Sandman.” Nessa peça, ele conta a história de um jovem que se apaixonou pela autômata Olympia. Ela foi seguida pela ópera de Jasques Offenbach, “Les Contes d’Hoffman.” Essas obras de arte imaginárias, mesmo se elas não demonstram nenhum autômato técnico real, revelam como alguém pode ser enganado pela beleza e as ações de um autômato (fig. 3)
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[12]Fig. 3 Autômato suíço |
O desenvolvimento das automações criou outros interesses filosóficos. No século XVIII, o filósofo francês Denis Diderot refletiu sobre a possibilidade de modelar a inteligência. Nos seus Pensées Philosophiques, ele escreveu “Se eles encontrassem um papagaio capaz de responder a qualquer coisa, eu, sem hesitação, afirmá-lo-ia ser um ser inteligente.” Tão cedo quanto o século XVIII já havia muita discussão sobre o que é inteligência se ela poderia ser modelada para ser integrada no interior de máquinas.
Em 1950, Alan Turing desenvolvou o teste de Turing para testar a habilidade de uma máquina para exibir comportamente inteligente equivalente a, ou indistinguível de, aquele de um humano.1 Contudo, logo foi sentido que o teste de Turing não era suficiente. Conforme a teoria das noções de inteligência emocional e social crescia nos anos de 1980 e 1990, a inteligência humana era entendida não apenas como uma habilidade para responder a questões lógicas baseadas no raciocínio lógico, mas antes como uma habilidade para levar em conta o ambiente de alguém, o mundo real, as interações sociais e as emoções, e isso é algo que o teste de Turing não poderia mensurar. Isso pavimentou o caminho para novos desenvolvimentos tecnológicos na direção de robôs sociais inteligentes.
Ao lado das ciências sociais, também a ciência da computação desenvolveu-se através do tempo. Há sessenta anos, os computadores eram muito grandes e muito limitados. Hoje em dia, eles são muito menores, muito mais rápidos e muito mais poderosos e oferecem possibilidades incríveis de interagir com as pessoas através de sensores e atuadores. Agora nós temos muitas ferramentas de software e hardware que podem capturar, entender e analisar muitos sinais e significados. Nós podemos capturar fala, sons, gestos, formas, etc. Através da emergência dos dados massivos (big data) e da aprendizagem de máquina, nós podemos analisar os dados, encontrar correspondência e predizer padrões futuros.
[13]2 Os Desafios de Tornar-se Social
Um robô social é definido como “uma entidade autônoma que interage e se comunica com humanos ou outros agentes físicos autônomos seguindo comportamentos sociais e regras anexadas ao seu papel.”2 Robôs sociais interagem com pessoas em contextos sociais. Portanto, eles têm de entender o contexto social, ou seja, entender os comportamentos e as emoções dos usuários, e responder-lhes com gestos, expressões faciais e olhar apropriado. O desafio é fornecer algoritmos para sentir, analisar situações e intenções, e tomar decisões apropriadas.
O primeiro projeto de robô social do nosso laboratório na Suíça foi EVA (2008-2012), um tutor robótico (fig. 4). O objetivo geral desse projeto foi desenvolver uma estrutura de interação social de longo termo com um robô ou humano virtual semelhantes a humanos, modelar emoções, memória episódica e comportamento expressivo.
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[13]Fig. 4 EVA interagindo com um usuário |
EVA pode interagir com usuários reconhecendo e lembrando dos seus nomes e pode entender os estados emocionais dos usuários através do reconhecimento da expressão facial e fala. Baseada nas entradas de usuário e no seu modelo de personalidade, EVA produz respostas emocionais apropriadas e conserva a informação sobre a relações sociais de longo termo (Kasap e Magnenat Thalmann 2012). EVA interpretou um papel como uma atriz com atores reais no Roten Fabrik Theater em Zurique.
Dando esse passo adicional, em 2013, nós começamos, na NTU em Singapura, a trabalhar em Nadine, um robô socialmente inteligente com uma forte aparência humana, pele e cabelo de uma aparência natural, e mãos e corpo realistas. Uma das nossas motivações principais ao longo do tempo não é apenas produzir uma inovação técnica, mas também contribuir para a arte. Nadine tem sido reconhecida como bela escultura viva, uma peça de arte expressiva com uma interface humano-computador muito natural.3 Nós consideramos esse tipo de robôs realistas como o próximo passo na criação de esculturas vivas. Nadine é equipada com uma camera 3D e um microfone. Ela pode reconhecer pessoas, gestos e pistas de situações sociais e comportamento, assim como a fala, o que a possibilita entender situações sociais. Nadine tem um módulo emocional, uma memória e um modelo de atenção [14]social assim como um chatbot, o que significa que, dependendo da entrada, ela gerará a resposta emocional apropriada e lembrará da interações. Os controladores de Nadine controlam a sincronização dos lábios e o seu olhar, e possibilitam a Nadine adaptar suas expressões faciais a emoções básicas (fig. 5). Ela tem módulo de personalidade, de humor e de emoção e, dependendo da sua relação com um usuário, a sua resposta variará e adaptar-se-á a cada situação.
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[14]Fig. 5 Nadine e Nadia |
3 Estudos de Caso em uma Companhia de Seguro e em uma Casa para Idosos
Nós conduzimos um estudo com o robô social humanoide Nadine como um agente de serviço ao consumidor em Singapura, ao lodo de empregados humanos. Nadine estava acessível ao público, e o consumidor poderia fazer qualquer pergunta relativa a seguros. Como um agente de serviço ao consumidor, Nadine foi capaz de responder a consultas de consumidores e manter um comportamento cortês, profissional, durante a interação. Nosso objetivo foi estudar se um robô poderia lidar com situações sociais reais, ser os consumidores estavam dispostos a interagirem com robôs semelhantes a humanos, e estudar a utilidade de um robô humanoide [15]em um ambiente de seguros. Para consultas de consumidores, a companhia tinha fornecido várias perguntas frequentes a partir de suas interações com consumidores. Um chatbot separado foi treinado baseado nessas perguntas frequentes e integrado em Nadine, o que a permitiu lidar com consultas de consumidores.
A aparência do robô desempenhou um grande papel na maneira pela qual os consumidores perceberam o robô. Ao mesmo tempo a companhia treinou outro robô de nome Pepper. O estudo claramente mostrou que Nadine foi a preferida, visto que ela tinha uma aparência humana e era claramente mais confiável como um agente de consumidor do que o robô Pepper, que tinha uma aparência mais robótica. Pepper foi considerado como um robô extravagante com o qual brincar, mas não para responder e informar pessoas sobre como obter uma política de seguro. Nadine foi capaz de fornecer uma melhora experiência de interação com o consumidor (fig. 6).
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[15]Fig. 6 Nadine na AIA Insurance |
Com o efeito combinado de: crescentes tempos de vida, reduzidas taxas de mortalidade e o declínio das taxas de natalidade, o mundo está envelhecendo. Portanto, a necessidade de robôs sociais e assistentes tornar-se-á mais urgente do que nunca. Um relatório publicado pelo Fórum Econômico Mundial declara que “Projeções correntes já estimam que por 2050, o Japão terá 72 pessoas dependentes com mais de 65 anos para cada 100 trabalhadores. Para a Espanha, a Itália e a Alemanha esses números variam entre 60% e 70%.” Em tais contextos, robôs sociais serão um aliado necessário e vital no gerenciamento sustentável de uma sociedade que envelhece.
Há pouco nós completamos um estudo de 6 meses em Bright Hill Evergreen Home, um lar para idosos em Singapura, onde Nadine jogou bingo com os idosos e interagiu com eles sobre as demandas deles. A análise dos dados é muito positiva. Os pacientes preferem amplamente ter um robô social semelhante a humano para jogar bingo com eles em vez de um [16]terapeuta que tem pouco tempo. Nadine conseguiu repetir os números, mostrar resultados em várias telas, e ter termpo para parabenizar pessoas. Os pacientes também apreciaram muito a beleza natural semelhante à humana de Nadine.4
4 Questões Ética dos Robôs Sociais
A maior dos pesquisadores estão desenvolvendo robôs para uma melhor humanidade, e os exemplos citados acima se classficam nessa categoria. Outros fabricam robôs assassinos, robôs dominantes e biorobôs para usá-los contra seres humanos por lucro e propósitos odiosos. Afortunadamente, pesquisadores de áreas diversas estão começando a formular juntos questões éticas sobre o uso da tecnologia robótica e a sua implementação nas sociedades. Um relatório muito comum sobre ética da robótica foi publicado Comissão Mundial da Ética do Conchecimento Científico e da Tecnologia em 2017.5 Importantes comitês éticos estão acontecendo na IEEE, na ACM6 e em outras organizações profissionais. Mais importante, em pesquisa, qualquer projeto sobre robôs sociais interagindo com humanos necessita de uma aprovação de conselho de revisão (review boards) corporativos ou comitês éticos.
Eu gostaria de concluir com a seguinte citação de Aristóteles, quem especulou em sua Politics (ca. 332 a.C., livro 1, parte 4) que, algum dia, os autômatos poderia trazer a igualdade humana.
“Se, de uma maneira similar, a lançadeira (shuttle) pudesse tecer e a palheta (plectrum) tocar a lira sem uma mão para as guiar, chefes de trabalhadores não necessitariam de servos, nem mestres de escravos.”
Referência
Kasap, Z. e Magnenat Thalmann, N. (2012). Building Long-term Relationships with Virtual and Robotic Characters: The Role of Remembering, The Visual Computer, vol. 28, no. 1, pp. 87-97.
ORIGINAL:
THALMANN, N.M. Social Robots: Their History and What They Can Do for Us. In: GHEZZI, C. et al. (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p.7-17. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY 4.0
4 [16]Do Elderly enjoy playing Bing with a humanoid robot? Submetido à Conferência Ro-Man 2021, https://www.dropbox.com/s/fj7qdqm4a01ezhz/NT_Humanoid%20man%20vs%20robots%20Final%20reviewed_May%203.docx?dl=0
5 https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000253952 (Relatório sobre ética de robótica)
6 https://dl.acm.org/doi/10.1145/1167867.1164071 (Relatório sobre atos éticos em robótica)







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