sexta-feira, 7 de abril de 2023

O Manifesto Onlife - Comentário sobre O Manifesto Onlife

O Manifesto Onlife: Sendo Humano em uma Era Hiperconectada


O Manifesto Onlife


Parte I Comentários


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[25]Comentário sobre O Manifesto Onlife


por Jean-Gabriel Ganascia


§1.1. Uma atenção cuidadosa com alguns aspectos da sociedade atual mostra que a maior parte dos impactos concretos da era computacional sobre o espaço público têm sido inesperados. Isso não apenas significa que os computadores e as redes tenham proliferado mais rapidamente do que antes imaginado, mas também que o tipo de consequências sociais desses desenvolvimentos – por exemplo, redes sociais, microblogging, wikis, negogiações (trading) de alta frequência – muito frequentemente, têm estado muito longe das concepções que muitas pessoas informadas antes tinham. Como uma consequência, os legisladores precisam não apenas estarem abertos para desenvolvimentos futuros das tecnologias e dos seus efeitos, mas também se preparem para ser surpreendidos pelo futuro.

§1.2. Indubitavelmente a modernidade está enraizada na “Era Moderna”, mesmo se essa fosse muito mais do que uma época temporal. Como tal, ela começa no fim da “Idade Média,” o qual corresponde ou a 1453, com a conquista de Constantinopla, ou a 1492, com a primeira visita de Colombo às Américas. Além disso, a modernidade também se relaciona com a filosofia do Iluminismo, desde o final do século XVI, o qual coloca mais ênfase sobre os resultados das ciências experimentais do que no respeito à autoridade tradicional. Por último, a modernidade corresponde a esse desenvolvimento social e industrial que se originou no século XVIII na Europa ocidental, especialmente na Grã-Bretranha, e que foi caracterizado pela racionalização dos processos de produção. A partir desse aspecto, o fim da modernidade que nós afirmamos neste manifesto corresponde simultaneamente ao fim de um período da história, o qual foi centrado na Europa ocidental e nas Américas, e ao fim de um tipo de filosofia, ao fim de um ambiente social e econômico que foi caracterizado pela ilusão de que o conhecimento por si mesmo poderia conduzir a um controle perfeito e total da natureza. Isso significa que nós estamos entrando em uma época que alguns dos filósofos dos anos oitenta e noventa, como Jean-François Lyotard (1979) e Jen Baudrillard, qualificaram como “pós-modernidade”? Essa é uma questão em aberto que certamente merece uma atenção cuidadosa e algumas discussões extensas, as quais vão além do propósito deste manifesto.

[26]§2.3. Nós dissemos: É digno de nota que a dúvida cartesiana, e as suspeitas relacionadas sobre o que é percebido pelos sentidos humanos, conduziram a uma dependência cada vez mais maior de controle em todas as suas formas. Obviamente, isso não é jogar o bebê fora com a água da banheira. A dúvida, como introduzida por Descartes, e todas as suspeitas sobre o que é percebido, contribuíram para construir e pensar o “eu consciente (conscious self)”. Por exemplo, a fenomenologia husserliana está enraizada em uma semelhante dúvida, a qual corresponde a um momento crucial na reflexão. Isso não está diretamente relacionado com a “a dependência cada vez maior de controle,” a qual é uma consequência da racionalização do processo de produção na modernidade no século XIX. Para tratar desse ponto, nós temos de distinguir a partir do que Horkheimer chama, no Eclipse of Reason, da “razão instrumental,” a qual é caracterizada como “meio para um fim” e que conduz a razão ao colapso na irracionalidade (1947).

§4.2 Nós acreditamos que é hora de afirmar, em termos políticos, que os nossos eus são igualmente livres e sociais. Isso é obviamente verdadeiro, mas, em si mesmo, essa ideia não é nova. Por exemplo, durante a Revolução francesa, a oposição entre os Montanhistas (Montagnards), cujos os representantes mais prestigiosos forma Marat, Danton e Robespierre, e os Girondinos (Girondins), corresponde exatamente à tensão entre uma aspiração ao social, por um lado, e a uma aspiração à liberdade e ao desenvolvimento econômico, no outro. Contudo, a forma que essa tensão entre liberdade e fraternidade é resolvida depende dos artefatos tecnológicos que medeiam as nossas interações, o que explica o sua distorção particular no mundo presente.


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Referências


Horkheimer, M. 1947. Eclipse of reason. New York: Oxford University Press. (Reprint Continuum International Publishing Group, 2004).

Lyotard, J.-F. 1979. La Condition postmoderne: rapport sur le savoir. Paris: Minuit.


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ORIGINAL:

GANASCIA, J.-G. Commentary on The Onlife Manifesto. In: FLORIDI, L. (Editor). The Onlife Manifesto: Being Human in a Hyperconnected Era. Spinger, 2015 (SpringerOpen). p.25-26. Disponível em: <https://www.springer.com/gp/book/9783319040929>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC 3.0

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