sábado, 1 de abril de 2023

O Manifesto Onlife - Luciano Floridi – Comentário sobre O Manifesto Onlife

O Manifesto Onlife: Sendo Humano em uma Era Hiperconectada


O Manifesto Onlife


Parte I Comentários


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[21]Luciano Floridi – Comentário sobre O Manifesto Onlife


por Luciabo Floridi


§1.1 As transformações mencionadas neste parágrafo podem ser entendidas nos termos de uma quarta revolução (Floridi 2012; Floridi, prestes a ser publicado) em nossa antropologia filosófica. Depois de Copérnico, Darwin, e Freud (ou a neurociência, se alguém prefere), as TCIs (quer dizer, Turing) estão lançando nova luz sobre o nosso autoentendimento. Pode ser preferível falar em uma era informacional em vez de uma computacional, porque é o cada vez mais universal, e ainda mais importante, o ciclo de vida da informação (desde a criação através do manejo, ao uso e consumo, ver (Floridi 2010)), o qual afeta profundamente tanto o bem-estar individual quanto o social. Em um sentido técnico, os computadores e a computação são apenas uma pequena parte de fenômeno mais amplo.

§1.2 Há intepretações muito mais matizadas e balanceadas da Modernidade, como um fenômeno histórico e cultural, mas o ponto aqui não é oferecer uma interpretação erudita de um estágio na história das ideias. Em vez disso, eu entendo a palavra “modernidade” como uma portmanteau (ou mistura linguística) que combina em uma palavra o pacote de conceitos/fenômenos discutidos nesta e nas seções seguintes.

§1.3 Paradoxalmente, quanto mais as TCIs avançam, mais a humanidade parece responsável por como as coisas caminham no mundo (incluindo em termos de previsão e prevenção de consequências e eventos futuros), e todavia, mais difícil se torna identificar fontes específicas de responsabilidade. Níveis crescentes de responsabilidade e corresponsabilidade estão gerando novos desafios. Claramente, há muita necessidade de entendimento do novo fenômeno da assim chamada de “moralidade distrubuída” (Floridi 2013a, b).

§2.1 A modernidade também é um projeto pedagógico: a ideia intelectualista (como no intelectualismo socrático: a visão de que as pessoas cometem erros porque elas não conhecem melhor) de que mais informação (de todos os tipos, teórica, tecnológica, prática, etc, ver o projeto editorial da Encyclopédie) conduzirá a mais conhecimento (learning), o qual, por sua vez, conduzirá a escolhas aperfeiçoadas e, consequentemente, a uma melhoria progressiva da condição humana.

[22]§3.1 O que parece estar faltando, em sociedades afluentes, é o comprometimento fundamental com o projeto humano: a quantidade crescente de tempo livre parece encontrar a nossa cultura despreparada. É como se, tendo trabalhado duro para obter o direito de estar de férias, nessa altura, a humanidade poderia estar acriticamente despreparada para tirar o máximo proveito do seu recurso mais preciso, o tempo. Inicialmente, as tecnologias são usada para economizar tempo e, em seguida, para o matar. Dessa maneira, uma das questões políticas urgentes que nós estamos enfrentando em avançadas sociedades da informação é: em qual tipo de projeto humano nós estamos trabalhando?

§3.2 O leitor interessado em conhecer mais sobre a ideia de onlife pode desejar consultar (Floridi 2007).

§3.6 A distinção entre público e privado provavelmente terá de ser reconceitualizada, porque as estruturas baseadas em fronteiras físicas (a sempre universal analogia de invasão (trespassing)) e posse (as igualmente universais analogias de propriedade (ownership) e roubo (theft)) são modelos antiquados, na medida que eles estão ligados a uma metafísica moderna ou “newtoniana” baseada em coisas inertes e interações mecânicas.

§4.1 O leitor interessado em conhecer mais sobre a ideia do eu relacional pode desejar consultar (Floridi 2011).

§4.4 Eu sugeri a frase “Construindo a jangada enquanto boiando” para enfatizar a natureza radical da tarefa filosófica diante de nós, em vez de enfatizar qualquer filosofia antifundacionalista. O entendimento da filosofia como design conceitual não significa abrir mão de sua vocação fundacionalista, mas, em vez disso, na possibilidade de terceirizar a sua tarefa para qualquer combinação de abordagens lógico-matemáticas empíricas. Essa não foi a intenção de Neurath quando ele inicialmente introduziu a metáfora da jangada nos anos de 1930. Como ele escreveu (Neurath 1959, p.201): “Ná há forma de aceitar puras sentenças protocolares conclusivamente estabelecidas como o ponto de partida das ciências. Não existe tabula rasa. Nós somos como marinheiros que precisam reconstruir o barco em mar aberto, nunca capazes de o desmontar em uma doca seca e de o reconstruir lá a partir dos melhores materiais. Vagas conglomerações linguísticas sempre permanecem, de uma maneira ou de outra, como componentes do barco.”

§4.5 O repensamento e desenvolvimento de novas formas de educação certamente estão entre os desafios mais excitantes da nossa época. Há grandes oportunidades, mas também a grandes riscos de as deixar escapar. Da mesma maneira como nós carecemos de uma maneira pós-vestifaliana de abordar a política, da mesma maneira, nós ainda estamos deixando escapar uma maneira pós-gutenberguiana de abordar a pedagogia. A dificuldade é mais exacerbada pela restrição mental imposta pela presença dominadora do livro por tantos séculos, a qual torna difícil considerar formas alternativas de educação (pense-se, por exemplo, no processo da avaliação escrita): e pela onipresença das TCIs, as quais, constantemente, distraem a nossa reflexão para acreditarmos que o problema real diz respeito a quais soluções técnicas são ou serão mais viáveis para manejar os processos de aprendizagem digital envolvendo os nativos digitias, quando, de fato, o problema fundamental não é do como mas do que: que tipo de conhecimento será requerido e experando quando vivendo onlife.

§4.6 Em última instância, o que é finito, precioso, não renovável e incompartilhável é efetivamente o tempo. Quando falando sobre recursos atencionais finitos, nós também deveríamos estar preocupados com tempo de atenção (attention-time) dedicado a alguma coisa, porque ele não é nem sem limites nem substituível.


[23]Acesso Aberto Este capítulo é distribuído sobre os termos da Licença Creative Commons Attribution Noncommercial, a qual permite qualquer uso não-comercial, distribuição, e reprodução em qualquer meio, provido que o(s) autor(es) original(is) e a fonte sejam creditados.


References


Floridi, L. 2007. A look into the future impact of ICT on our lives. The Information Society 23 (1): 59–64.

Floridi, L. 2010. Information—a very short introduction. Oxford: Oxford University Press.

Floridi, L. 2011. The informational nature of personal identity. Minds and Machines 21 (4): 549–566.

Floridi, L. 2012. Turing’s three philosophical lessons and the philosophy of information. Philosophical Transactions A (370):3536–3542.

Floridi, L. 2013a. Distributed morality in an information society. Science and Engineering Ethics 19 (3): 727–743.

Floridi, L. 2013b. The ethics of information. Oxford: Oxford University Press.

Floridi, L. Prestes a ser publicado. The fourth revolution—the impact of information and communication technologies on our lives. Oxford: Oxford University Press.

Neurath, O. 1959. Protocol sentences. In Logical positivism, ed. A. J. Ayer, 199–208. Glencoe: The Free Press.


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ORIGINAL:

FLORIDI, F. Luciano Floridi – Commentary on The Onlife Manifesto. In: FLORIDI, L. (Editor). The Onlife Manifesto: Being Human in a Hyperconnected Era. Spinger, 2015 (SpringerOpen). p.21-23. Disponível em: <https://www.springer.com/gp/book/9783319040929>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC 3.0 

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