Perspectivas sobre o Humanismo Digital
Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital
Parte II Participação e Democracia
[47]A Internet está Morta: Longa Vida à Internet1
por George Zarkadakis
Resumo Exclusão social, exploração de dados, vigilância e desigualdade econômica na web são problemas principalmente tecnológicos. A atual web de nuvens de mídias sociais centralizadas entrega intencionalmente uma economia digital onde o vencedor leva tudo, a qual sufoca a inovação e exacerba as assimetrias de poder entre cidadãos, governos e oligopólios de tecnologia. Para consertar a economia digital, nós necessitamos de uma nova web, descentralizada, onde os cidadãos sejam empoderados a possuírem os seus dados, participarem em mercados ponto-a-ponto desintermediados e influenciarem decisões legislativas através de aplicações inovadoras de democracia participativa e deliberativa. Através da reimaginação da “web 3.0” como uma comunidade (commonwealth) na nuvem de máquinas virtuais tirando proveito de blockchains e compartilhando código, é possível projetar novos modelos de negócio digital onde todas as partes interessadas e participantes, incluindo os usuários, podem compartilhar justalmente a recompensa da Quarta Revolução Industrial.
A internet tem quase 50 anos de idade.2 Ela transformou o nosso mundo e forneceu novas e excitantes oportunidades para negócios, sociedade, ciência e indivíduos; mas ela também conduziu a uma era de maior desigualdade, vigilância, exclusão e injustiça. A primeira iteração da internet (“web 1.0”) foi uma rede de servidores de organizações onde os PCs eram conectados intermitentemente, via modems discados (dial-up). Isso evoluiu para a atual internet móvel (“web 2.0”) que consiste em muitas nuvens de redes sociais centralizadas que sugam dados de usuários como buracos negros. Como tal, a web 2.0 possibilitou os modelos de negócio de grilhagem de terra (land-grabbing) dos oligopólios das grandes empresas de tecnologia (Big Tech). Dessa maneira, [48]uma distribuição injusta de poder emergiu através de como os nossos dados são recolhidos, analisados e monetizadas por empresas privadas enquanto nós aceitamos com pressa cookies. A economia digital dos dias de hoje é o sonho molhado realizado de um rentista realizado. Nós nos tornamos servos nos feudos digitais de tecno-oligarcas, inquilinos, em vez de coproprietários, do enorme valor econômico que nós geramos atráves de nossos avatares digitais. Adicione a marcha dos sistemas de IA que automatizam nossos trabalhos, e o que você obtém é o contrato social da democracia liberal despedaçado. Se nós continuarmos como se nada estivesse acontecendo, o futuro será de desemprego massivo, desorganização e do fim dos sonhos. A Crise Financeira Global ofereceu-nos um vislumbre do que isso significa: populismo, desconfiança na democraia, teorias da conspiração, polarização, ódio, racismo e uma repetição sombria dos anos de 1930. A pandemia de COVID-19 exacerbou adicionalemtne as assimetrias políticas e econômicas de uma economia digital que funciona apenas para os poucos. “Trabalhar a partir de casa (Working from home)” soa bom até que você perceba que o seu trabalho pode ser terceirizado para qualquer lugar do mundo, a um custo muito menor. Virtualização do trabalho é igual a arbitragem trabalhista possibilitada pela web 2.0 e chamadas do Zoom.
1 Perigos de uma Abortagem de Ornitóptero
Deparadas com o perigo de sua obliteração histórica, as democracias estão equipando-se para uma luta. Propostas variam desde a fragmentação dos monopólios das empresas de tecnologia, maior taxação delas, expansão da prosperidade (welfare) para todo cidadão via uma renda básica universal (universal basic income) e a promulgação de mais rigorosas leis de privacidade de dados. A estratégia de defesa tem um propósito nobre: reduzir o poder e a influência dos tecno-oligarcas.
Mas os meios usuais de defesa da democracia através de legislação e regulamentação são insuficientes e ineficientes para lidar com a magnitude e natureza desse problema particular. Em vez de uma solução viável e sustentável, eles criaram novos gargalos, mais papelada, mais controle centralizado e mais brechas a serem exploradas pelos lobistas (lobbies) influentes e bem financiados. No final, a regulamentação desloca o poder para os governos, não os cidadãos. Nós, os cidadãos, trocaremos um mestre pelo outro. A estratégia de aumentar o poder do Estado a fim de lidar com a desigualdade na economia social é errada e falhará. O nosso problema é tecnológico, não regulatório. Como os aviadores iniciantes, nós estamos tentando deixar o solo usando asas que não podem voar. E tão exatamente como você não pode regular um ornitóptero a alcançar a estratosfera, assim é com a internet atual: para tornar a economia digital mais justa, confiável e inclusiva, nós necessitamos de uma tecnologia diferente, outro tipo de internet.
Mas com o que essa internet “alternativa” parecer-se-ia? E quais deveriam ser os blocos fundamentais dela? Talvez a melhor maneira de pensar sobre essas questões seja perguntar o que está errado com a tecnologia corrente. Eu gostaria de argumentar que há três principais áreas de problemas nas quais nós necessitamos nos focar a fim de reiventarmos a internet: propriedade de dados (e o seu corolário necessário, a identidade digital), segurança e desintermediação. Tomemos essas áreas uma de cada vez e examinemos adicionalmente.
2 Propriedade de Dados e a Necessidade de uma Identidade Digital
Propriedade de dados talvez seja o maior problema de todos. A propriedade vai além da autosoberania. Ela sugere direitos de propriedade sobre os dados, não apenas o direito de conceder permissão para o uso deles. Nós temos de possuir nossos dados pessoais, assim como os dados que nós geramos através de nossas interações sociais, ações e escolhas. Nossos dados são o recurso mais valioso na economia digital. Eles estão energizando os algoritmos de IA que animam as rodas das indústrias digitais. Quando esses algoritmos finalmente nos substituírem no local de trabalho, os nossos dados serão o único recurso valiosos através do qual nós podemos legitimamente reivindicar uma parte na recompensa da Quarta Revolução Industrial. Muitas iniciativas, tais como o projeto Inrupt (Lohr 2021) de Sir Tim Berners-Lee, estão tentado contornar a web atual e fornecer caminhos para algum grau de propriedade de dados, enquanto construindo sobre padrões existentes. Contudo, ao tratarem de apenas uma das três principais áreas de problemas, eles são apenas soluções parciais. Uma abordagem mais radical é necessária para estabelecer sistemas de identidade digital imutáveis, verificáveis como maneiras seguras e confiáveis para identificar cada ator conectado na internet, incluindo humanos, utensílios (appliances), sensores, robôs, IAs, etc. Dessa maneira, dados gerados por um ator estariam associados com a sua identidade digital e assim se estabeleceriam direitos de propriedade. Assim, se eu sou um habitante da internet alternativa, eu posso decidir quais fragmentos dos meus dados eu tornarei disponíveis, para quem e sob quais condições. Por exemplo, se eu preciso interagir com uma aplicação que requer minha idade, eu permitirei apenas que essa porção de dados esteja disponível para a aplicação, e nada mais. Eu também posso decidir sobre um preço para conceder acesso aos meus dados a um terceiro, digamos, a uma agência de propaganda ou a uma empresa farmacêutica interessada em usar meus registros de saúde para pesquisa médica. Ou eu posso decidir juntar-me a uma cooperativa de dados, ou a um guarda (trust) de dados (Zarkadakis 2020a), e acumular os meus dados com os dados de outras pessoas, talvez incluir dados de utensílios domésticos inteligentes e sensores urbanos inteligentes e, dessa maneira, aumentar exponencialmente o valor coletivo da cadeia de valor de dados “compartilhados (shared).” Identidades digitais podem possibilitar propriedade auditável de dados, a partir da qual nós poderíamos engendrar um renda equitativa para cidadãos em uma economia de abundância material empoderada por IA. Visto que nós procuramos financiamento sustentável e significante para uma renda básica universal, a propriedade de dados baseada em identidade digital pode ser a solução-chave. Uma “renda básica universal” que seja financiada por atividade econômica liberaria governos de terem de taxar e tomarem emprestado excessivamente. Talvez, mais importantemente, seria renda ganha, não “distribuída (handed out),” e, como tal, suportaria – em vez de rebaixar – a dignidade e o autorrespeito humanos.
3 Segurança
A internet atual é altamente suscetível a ciberataques – tais como Negação de Serviço (Denial of Service) (NdS (DoS)) – porque a sua arquitetura requer que as aplicações sejam centralizadas e os seus dados sejam transmitidos via servidores centrais, em vez de trocados diretamente entre aparelhos. Dessa maneira, servidores são pontos de falha e ataque que são doces para hackers [50]malévolos. A centralização de dados da internet atual também é causa de violações de dados, multas regulatórias, risco reputacional e desconfiança do consumidor. Dadas essas desvantagens inerentes, a corrida de armas da segurança cibernética é eternamente invencível. Na internet alternativa, as aplicações deveriam ser ponto-a-ponto, descentralizadas e comunicarem-se diretamente uma com as outras. Elas deveriam rodar em máquinas virtuais que usam um sistema operacional e protocolo de comunicação construídos sobre o fundamental protocolo TCP/IP e rodam em um aparelho individual, digamos um smartphone. Se elas falham ou são atacadas, o dano seria mínimo e restrito, em vez de se espalhar atráves da rede inteira. Além disso, um tal sistema operacional poderia transformar essa internet alternativa em um computador único, global, formado de bilhões de nós. Seria a realização do sonho original da internet: um rede global completamente descentralizada e segura, onde não pode haver vigilância
4 Desintermediação
Segurança não é o único resultado negativo da natureza centralizada da web 2.0. Por padrão, todos os serviços são atualmente intermediados, e isso inclue serviços essenciais tais como armazenamento de dados e recursos de computação. É por ess razão que apenas quatro companhias controlam 70% da infraestrutura de nuvem do mundo (Cohen 2021). Independentemente do que você possa pensar de Donald Trump, o fato de Twitter, uma empresa privada, possa silenciar o atual Presidente dos EUA deveria causar preocupação em qualquer um que se importe com liberdade de expressão. Como o Twitter, muitas outras plataformas privadas de mídias sociais, tais como o Facebook e o YouTube, assumiram o elevado cargo público de árbitros não eleitos do que é verdadeiro e permissível, ocupando o papel de legisladores, tribunais e governos. A intermediação também é responsável pelo fato de que o conteúdo na internet pode ser monetizado quase exclusivamente usando um modelo de negócios de propaganda, que é o que as plataformas de mídias sociais estão explorando para produzirem os seus bilhões. Se você é um criador de conteúdo hoje em dia, você tem de satisfazer anunciantes com grandes números de seguidores e sucessos (hits), o que tanto impacta o conteúdo que você pode criar quanto como você pode o transmitir. A minúscula minoria dos criadores de conteúdo individuais que alcançam essa combinação certa e conseguem ganhar alguma renda significante a partir do seu trabalho, em seguida, ficam sujeitos aos caprichos das plataformas de mídias sociais que hospedam o seu conteúdo. Nós precisamos desintermediar e descentralizar a internet, se nós queremos que a criatividde e inovação floresçam. Na internet alternativa, criadores de conteúdo não necessitam da indústria de propaganda para obter renda: eles podem monetizar o seu conteúdo em mercados desintermediado, ponto-a-ponto, através de micropagamentos pagos a eles diretamente pelos consumidores do conteúdo deles. Além disso, a infraestrutura também pode ser desintermediada, e cada nó na rede pode fornecer dados e serviços e recursos computacionais. Uma internet descentralizada em escala global fornecerá novas fontes de renda para bilhões de pessoas. Apenas imagine, qualquer um se conectando nessa internet via seu smartphone ou laptop e disponibilizando armazenamento e computação de dado como parte de uma “comunidade (commonwealth) na nuvem.”
[51]5 A Ascensão de uma Nova Web Descentralizada
Nós já estamos testemunhando a origem da nova internet, frequentemente referida como “web 3.0.” Tecnologias distribuídas de livros de registro (ledger) estão proporcionando novas maneiras para estabelecer confiança desintermediada em mercados ponto-a-ponto, assim como novas maneiras de reimaginar o dinheiro e ativos financeiros. Contratos inteligentes automatizam transações e auditoria de providência em cadeias de suprimentos, bancos e seguros, enquanto token não fungíveis (non-fungible tokens (NFTs)) estão transformando a internet da informação na internet dos ativos e capacitando criadores de conteúdo e artistas digitais a venderem suas criações, exatamente como eles venderiam se elas fossem feitas de átomos em vez de bits.
Na web 3.0, os usuários individuais estão conectados diretamente, ponto-a-ponto, sem nuvens centralizadas. Eles podem trocar conteúdo e outros ativos digitais como NFTs que são aplicações executáveis. Para alcançar isso, nós temos de empoderar os usuários com computadores pessoais de nuvem (PC2), ou seja, computadores pessoais definidos por software, para armazenar e processar seus dados. Quando usuários estão prontos a trocar e comerciar os seus dados, eles podem compilar dados em cápsulas NFT (programas criptografados, autoextrativos, autoexecutantes que encapsulam os dados), muito como as pessoas geram arquivos PDF a partir de documentos Word hoje em dia. Em seguida, eles compartilharão essas cápsulas em uma rede de entrega de conteúdo rodando sobre uma blockchain e verificada por mineiros, em vez de servidos de nuvem centralizados. Com efeito, a web 3.0 será uma web ponto-a-ponto de computadores de nuvens pessoais.
Muitos engenheiros já estão trabalhando na realização da nova internet. Por exemplo, a Fundação Elastos está desenvolvendo uma gama completa de ferramentas e capacidades para desenvolvedores de web 3.0, de maneira que eles possam começar a codificar aplicações descentralizadas na nova web. Tudo isso está acontecendo em plataformas de código aberto no verdadeiro espírito de compartilhamento de conhecimento e colaboração em projetos. Exatamente isto é o que é diferente na mentalidade do novo mundo digital: sucesso, inovação e valor econômico podem ser derivados a partir de colaboração, não apenas competição, e a partir da cocriação de ecossistemas equitativos, não impondo oligopólios injustos.
6 Público Participativo e Governança Privada
Há um prêmio adicional a ser ganho na transição da web 2.0 para a web 3.0. Uma web descentralizada baseada em identidade digital, propriedade de dados e uma comunidade (commonwealth) na nuvem ponto-a-ponto trará novas possibilidades para modelos digitais de negócios que são inclusivos e democraticamente governados, muito como cooperativas de companias de propriedade mútua (mutual owenership). Ethereum foi a primeira a experimentar com “organizações autônomas descentralizadas (decentralized autonomous organizations) (OADs (DAOs))” que podem mesclar democracia direta e representacional em governança privada. Contudo, modelos similares de governança digital democrática também podem ser adotados no domínio público por uma cidade, um condado (county), uma região, ou um estado-nação ou em circunstâncias onde os cidadãos tenham de gerenciar recursos comuns (Zarakadakis 2020b, p.140).
[52]Em uma sociedade onde cada cidadão tem uma identidade digital verificável e descentralizada, não pode haver vigilância – estatal ou privada – apenas liberdade e responsabilidade pessoal. Cidadãos podem livremente se associar no ciberespaço, transacionar, criar, inovar, aprender e autodesenvolver. Porque a identidade deles é verificável e confiável, eles são incentivados na direção de comportamento socialmente responsável e consenso. A web 3.0 descentralizada pode ser o fundamento de uma “pólis” verdadeiramente digital no ciberspaço. Em uma semelhante pólis democrática, cidadãos livres possuem os seus dados e contribuem através de suas interações, seu conhecimento, suas habilidades, suas redes e suas escolhas para a criação de valor econômico em plataformas digitais inclusivas, valor que então é compartilhado justamente antre todos aqueles que contribuíram e na base de sua contribuição. Além disso, formas participativas de governança pública podem promulgadas ao institucionalizarem-se assembleias de cidadãos nas democracias liberais e incluírem-se visões e recomendações de cidadãos nos processos legislativos das legislaturas. O futuro não tem de ser uma distopia de opressão, vigilância, penúria endêmica, e dependêndia de controle e bem-estar do governo central. Uma nova internet de oportunidades equitativas pode ajudar-nos a superar os apuros da polarização social e injustiça e que a democracia, independência (freedom) e liberdade (liberty) reivindiquem a sua influência civilizadora sobre a natureza humana.
Referências
Cohen J. (2021) ‘Four Companies control 67% of the world’s cloud infrastructure’, PC Magazine, [online]. Disponível em: https://uk.pcmag.com/old-cloud-infrastructure/131713/four-companies-control-67-of-the-worlds-cloud-infrastructure (Acessado em: 18 de maio de 2021)
Lohr, S. (2021) ‘He created the internet. Now he’s out to remake the digital world’, New York Times, [online]. Disponível em: https://www.nytimes.com/2021/01/10/technology/tim-berners-lee-privacy-internet.html (Acessado em: 18 de maior de 2021)
Zarkadakis, G. (2020a) ‘Data Trusts could be the key to better AI’, Harvard Business Review, [online]. Disponível em: https://hbr.org/2020/11/data-trusts-could-be-the-key-to-better-ai (Acessado em 18 de maio de 2021)
Zarkadakis, G. (2020b) Cyber Republic: reinventing democracy in the age of intelligent machines, Cambridge: MIT Press.
ORIGINAL:
ZARKADAKIS, G. The Internet Is Dead: Long Live the Internet. In: GHEZZI, C. et al. (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p.47-52. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY 4.0
1 Por que nós necessitamos de uma nova internet para democratizar a economia digital e melhorar a governança participativa?
2 https://www.usg.edu/galileo/skills/unit07/internet07_02.phtml%23:~:text=January%201%2C%201983%20is%20considered,to%20communicate%20with%20each%20other.&text%C2%A0=%C2%A0ARPANET%20and%20the%20Defense%20Data,the%20birth%20of%20the%20Internet
Nenhum comentário:
Postar um comentário