sábado, 1 de abril de 2023

O Manifesto Onlife - Introdução

O Manifesto Onlife: Sendo Humano em uma Era Hiperconectada


[1]Introdução


por Luciano Floridi


Em 8 de janeiro de 2013, O Manifesto Onlife1 foi lançado em um evento inaugural realizado em Bruxelas pelo DG Connect, o Diretorado-geral da Comissão Europeia para Comunicações, Redes, Conteúdo & Tecnologia.2

O Manifesto foi o resultado do trabalho de um grupo de estudiosos organizado pelo DG Connect, o qual eu tive o privilégio de conduzir: Stefana Broadbent, Nicole Dewandre, Charles Ess, Jean-Gabriel Ganascia, Mireille Hildebrandt, Yiannis Laouris, Claire Lobet-Maris, Sarah Oates, Ugo Pagallo, Judith Simon, May Thorseth e Peter-Paul Verbeek.

Durante o ano anterior, nós tínhamos trabalhado bastante intensamente em um projeto intitulado de A Iniciativa Onlife: reengenharia de conceito para repensamento de preocupações sociais na transição digital.3 Nós decidimos adotar o neologismo “onlife,” que eu tinha cunhado no passado, para nos referirmos à nova experiência de uma realidade hiperconectada no interior da qual não é mais sensato perguntar se alguém pode estar online ou offline. Também, graças a uma série de oficinas organizadas pelo DG Connect, nós tínhamos investigado os desafios causados pelas novas tecnologias. Nós tínhamos debatido o impacto que as TCIs estão tendo sobre a vida humana e, consequentemente, em como alguém pode reengendrar conceitos-chave – tais como atenção, propriedade, privacidade e responsabilidade – que são essenciais para obtermos uma estrutura relevante e adequada no interior da qual a nossa experiência onlife pode ser entendida e melhorada.

No curso das nossas investigações, logo nós compreendemos que o resultado dos nossos esforços teria sido mais frutífero resumindo-o em um breve documento – o qual logo se tornou conhecido como O Manifesto Onlife – e uma série de breves comentários [2](voluntariados por alguns de nós) e ensaios mais longos (contribuídos por cada um de nós) que explicariam e posicionariam O Manifesto no interior dos debates correntes sobre Tecnologias de Comunicação e Informação (TCIs).

O evento inaugural representou a abertura oficial da discussão pública do nosso trabalho. Muito mais encontros públicos e apresentações internacionais seguiram-se.4 Como um resultado, este livro é efetivamente uma síntese da pesquisa realizada em 2012 e do feedback recebido em 2013.

Este livro é organizado de uma maneira tal a conceder prioridade a O Manifesto Onlife. Ess é o documento em torno do qual o resto do livro gira. Ele é seguido por oito breves comentários por Ess, eu mesmo, Ganascia, Hildenbrandt, Laouris, Pagallo, Simon e Thorseth. O próximo capítulo é o documento de contexto. Esse contém o material que foi usado para iniciar e estruturar as conversas durante as fases iniciais do projeto. Ali se seguem 12 capítulos. Neles, os membros do grupo, eu mesmo incluso, apresentamos algumas das ideias que guiaram a nossa contribuição para o Manifesto. Embora cada capítulo possa ser lido independentemente do resto do livro, ele é uma parte modular dos andaimes que conduziram ao Manifesto. Uma breve conclusão, a qual é mais um “a ser continuado,” finaliza o livro. Em termos de autoria, qualquer material que não seja explicitamente atribuído a algum dos autores deve ser atribuído ao grupo todo, como um trabalho colaborativo, endossado por cada um de nós.

É o suficiente para o contorno do projeto. Eu não deverei acrescentar mais nenhum detalhe adicional porque esses podem ser encontradaos no documento de contexto. Em termos de uma visão geral dos conteúdos do livro, nós argumentamos nas páginas seguintes que o desenvolvimento e uso difundido das TCIs estão tendo um impacto radical sobre a condição humana. Mas especificamente, nós acreditamos (ver o prefácio que introduz O Manifesto) que as TCIs não são meras ferramentas, mas, em vez disso, forças ambientais que estão afetando crescentemente:

  1. a nossa autoconcepção (quem nós somos);

  2. as nossas interações mútuas (como nós nos socializamos);

  3. a nossa concepção de realidade (nossa metafísica); e

  4. as nossas interações com a realidade (nossa ação).

Em cada caso, as TCIs têm uma imensa significação ética, legal e política, todavia, uma com a qual nós começamos a entender-nos apenas recentemente.

Nós também estamos convencidos de que o supracitado impacto exercido pelas TCIs é devido a, pelo menos, quatro transformações principais:

  1. o ofuscamento da distinção entre realidade e virtualidade;

  2. o ofuscamento da distinção entre homem, máquina e natureza;

  3. a inversão da escassez de informação para a abundância de informação; e

  4. a mudança da primazia de coisas, propriedades e relações binárias independentes para a primazia de interações, processos e redes

O impacto sumarizado em (1)-(4) e as transformações por trás de tal impacto, listadas em (a)-(d), estão testando os fundamentos de nossa filosofia, na seguinte [3]acepção. A nossa percepção e o nosso entendimento das realidades circundando-nos são necessariamente mediadas por conceitos. Esses funcionam como interfaces através das quais nós experienciamos, interagimos com, e semantizamos (na acepção de fazer sentido de, e conceder significado a), o mundo. Em resumo, nós apreendemos a realidade através de conceitos, assim, quando a realidade muda muito rapida e dramaticamente, como está acontecendo atualmente por causa das TCIs, nós ficamos conceitualmente em desvantagem tática (wrong-footed). É uma impressão difundida que a nossa corrente caixa de ferramentas conceituais (conceptual toolbox) não é mais adequada para lidarmos com os novos desafios relacionados às TCIs. Isso não é apenas um problema em si mesmo. Também é um risco, porque a carência de uma clara apreensão conceitual da nossa época presente pode facilmente conduzir a projeções negativas sobre o futuro: nós tememos e rejeitamos aquilo que nós falhamos em semantizar. Portanto, o objetivo de O Manifesto, e do resto do livro que o contextualiza, é aquele de contribuição para atualização da nossa estrutura conceitual. Ele é um objetivo construtivo. Nós não pretendemos encorajar uma filosofia da desconfiança (mistrust). Pelo contrário, este livro pretendeu ser uma contribuição positiva para o repensamento da filosofia sobre a qual políticas são construídas em um mundo hiperconectado, de modo que nós possamos ter uma melhor chance de entendermos os nossos problemas relacionados a TCI e de os resolver satisfatoriamente. Redesenhar ou reengendrar a nossa hermenêutica, para o colocar mais dramaticamente, parece essencial, para termos uma boa chance de entendermos e lidarmos com as transformações em (a)-(b) e, consequentemente, dar forma da melhor maneira às novidades em (1)-(4). Isso é claramente uma tarefa enorme e ambiciosa, à qual este livro apenas pode esperar para contribuir.


Isenção de Responsabilidade Toda a informação e as visões publicadas neste livro são aquelas dos autores e não necessariamente refletem a opinião oficial da União Europeia. Nem as instituições e órgãos da União Europeia, nem qualquer pessoa agindo em seu nome, pode ser responsabilizada pelo uso que pode ser feito da informação contida aqui.


Reconhecimentos Pessoas demais nos ajudaram desde a formação do projeto para O Manifesto Onlife em 2011 para sermos capazes de as mencionar explicitamente aqui. Contudo, uns poucos indivíduos foram essenciais na realização deste livro, e para eles vai toda a nossa gratidão. Nós, como um grupo, gostaríamos de agradecer, dentro do DG Connect, Robert Madelin, Diretor-geral; Franco Accordino, Líder da Força-tarefa “Digital Futures”: Roua Abbas, Igor Caldeira, Orestis Kouloulas, Julia Molero-Maldonado e Nicole Zwaaneveld do Secretariado dos Assessores do Diretor-geral; e, dentro da Springer, Ties Nijssen, Editor de Publicação para História e Filosofia da Ciência & Lógica, e Lue Christi, Assistente Editoral para História e Filosofia da Ciência & Lógica. Meus agradecimentos pessoais para vão todos para os onlifers, como nós viemos a ser chamados, pelas suas contribuições maravilhosas e por tudo o que eu aprendi com eles, e para Penny Driscoll, minha PA, por sua ajuda indispensável na edição do volume.


Acesso Aberto Este capítulo é distribuído sobre os termos da Licença Creative Commons Attribution Noncommercial, a qual permite qualquer uso não-comercial, distribuição, e reprodução em qualquer meio, provido que o(s) autor(es) original(is) e a fonte sejam creditados.


O Manifesto Onlife


ORIGINAL:

FLORIDI, L. Introduction. In: FLORIDI, L. (Editor). The Onlife Manifesto: Being Human in a Hyperconnected Era. Spinger, 2015 (SpringerOpen). p.1-3. Disponível em: <https://www.springer.com/gp/book/9783319040929>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC 3.0


1 [1]Para a versão eletrônica em inglês e as traduções do Manifesto em francês, alemão e italiano, por favor, visitar http://ec.europa.eu/digital-agenda/en/onlife-manifesto.

2 O DG Connect gerencia The Digital Agenda da UE. Para informação adicional, ver http://ec.europa.eu/digital-agenda/en/inaugural-event.

3 O website do projeto está disponível em http://ec.europa.eu/digital-agenda/en/onlife-initiative.

4 [2]Para uma descrição, ver http://ec.europa.eu/digital-agenda/onlife-news. Outras reuniões estão listadas aqui: https://ec.europa.eu/digital-agenda/en/past-meetings.

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