O Manifesto Onlife: Sendo Humano em uma Era Hiperconectada
Parte I Comentários
[17]Charles Ess – Comentário sobre O Manifesto Onlife
por Charles Ess
§1.1. Eu examino muitos desses desafios e recentemente desenvolvi alternativas – incluindo a fenomenologia, a ética das virtudes, o papel da incorporação (embodiment) em nosso conhecimento do, e navegação no, mundo e a individualidade relacional (relational selfhood) – em meu capítulo neste volume.
§1.3. Como um resultado, a ética era uma questão de sujeitos autônomos desincorporados (disembodied), em vez de uma questão de seres sociais.
Para expandir levemente sobre isso: desse modo, a ética na modernidade ocidental tem sido dominada pelas tradições da deontologia (afiliada a Kant e predominante em países germânicos); do utilitarismo (iniciando-se com Bentham e Mill, e predominante em países falantes de inglês) e do moralismo francês (representado por Montaigne e Ricoeur: Stahl 2004, p. 17).
Como discutido em meu capítulo, o deslocamento na direção de entendimentos mais relacionais de individualidade (ressaltados no §4.2 – ver abaixo também) implica mais um deslocamento na direção da ética das virtudes. Ver mais: Ess (2013), pp.238-243, junto com aplicações de amostra da ética das virtudes a mídia social (pp. 243-245) e “Noções emergentes de individualidade social e moralidade distribuída” (pp. 259-263).
§3.6. … a distinção [público/privada] quando expressa em termos espaciais e dualistas. A internet é uma extensão importante do espaço público, mesmo quando operada e controlada por atores privados. As noções de públicos fragmentados, de espaços culturalmente indistintos (third spaces), e de bens comuns (commons) e o foco intensificado no uso à custa da propriedade, tudo desafia o nosso entendimento corrente da distinção público-privado (Ênfase adicionada, CE)
Para detalhes adicionais sobre como a “privacidade” é recontextualizada à luz dessas transformações (mais centralmente, o deslocamento da concepção mais individual na direção da concepção mais relacional de individualidade) – incluindo, mais importantemente, a teoria da privacidade como “integridade contextual” (2010) de Helen Nissenbaum – ver minha contribuição para este volume, e Ess e Fossheim (2013).
O texto que eu ressaltei aponta na direção de uma área cada vez mais urgente de análise e debate – a saber, as oportunidades e riscos novos para os processos, [18]normas e direitos democráticos, começando com a liberdade de expressão, como aceita em nossas esferas públicas onlife, onde, cada vez mais, essas esferas públicas são controladas por corporações. Esses riscos incluem a “censura corporativa (corporate censorship)” – ou seja, limitações na expressão online como, por exemplo, impostas por Apple, Facebook, Google e outros proprietários principais do que, cada vez mais, são os nossos espaços públicos. Essa censura é tanto estética – por exemplo, as alergias do Facebook e da Apple aos seios de mulheres (percebido como puritanismo centrado nos EUA, em muito do resto do mundo) quanto política (por exemplo, Hestres 2013). Além disso, como relevações recentes do programa PRISMA da Agência de Segurança Nacional dos EUA dramaticamente ressaltam, essas e outras corporações raramente resistem a requisições governamentais de quantidade massiva dos “nossos” dados que elas possuem e processam.
§4.2 Eu relacional (Relational self). Dar forma a políticas no escopo da experiência onlife significa resistir à suposição de um eu desincorporado racional, e, em vez disso, estabelecer uma concepção política do eu como um eu inerentemente relacional livre.
Novamente, o eu incorporado e relacional é um foco central da minha contribuição a este volume. Mais recentemente, Elaine Yuan (2013) desenvolveu o que, para o meu conhecimento, é a crítica mais extensa e matizada do que ela chama de uma abordagem “culturalista” para os estudos da Internet – ou seja, o campo de investigação radicalmente interdisciplinar e intercultural de nossas vidas onlife – onde uma tal abordagem “culturalista” depende precisamente da suposição da alta modernidade de um agente moral individual radicalmente autônomo. Yuan examina sociedades do leste asiático, incluindo a China, como, desse modo, exemplificando as realidades concretas da individualidade relacional – especialmente como formada pela tradição confuciana – como alternativas contemporâneas. A análise e as descobertas de Yuan importantemente corroboram e estendem a minha discussão do eu relacional e das sociedades confucianas na 4ª seção da minha contribuição a este volume.
§4.3. Sociedade digitalmente alfabetizada (literate): O endosso da responsabilidade em uma realidade hiperconectada requer o reconhecimento de como as nossas ações, percepções, moralidade e mesmo corporalidade estão entrelaçadas com tecnologias de maneira geral e, em particular, com as TCIs (Ênfase adicionada, CE).
Como eu busco argumentar na minha contribuição, nós deveríamos ser cuidadosos para não sermos enganados pelo termo “digital” na frase “sociedade digitalmente alfabetizada.” Em vez disso, como a fenomenologia e a neurociência articulam, nós permanecemos incorporados e, por esse meio, criaturas análogas de maneiras que são importantemente distintas de “o digital.” Em particular, eu insisto em que a nossa atenção com “alfabetizações digitais (digital literacies)” – o que, em teoria da mídia, é articulado em termos de oralidade secundária das “mídias elétricas (eletric media),” incluindo os nossos ambientes de mídia/digital – seja balanceada pela atenção contínua com habilidade e capacidades afiliadas com alfabetização impressa (literacy-print), começando com a escrita (writing) como um “tecnologia do eu,” significando o eu individual-autonônomo requerido para sociedades democráticas robustas.
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[19]Referências
Ess, Charles. 2013. Digital media ethics. 2nd ed. Cambridge: Polity Press.
Ess, Charles, e Hallvard Fossheim. 2013. Personal data: Changing selves, changing privacies. In The digital enlightenment yearbook 2013: The value of personal data, eds. Mireille Hildebrandt, Kieron O’Hara, and Michael Waidner, 40–55. Amsterdam: IOS Amsterdam.
Hestres, Luis. E. 2013. App neutrality: Apple’s app store and freedom of expression online. International Journal of Communication 7: 1265–1280.
Nissenbaum, Helen. 2010. Privacy in context: technology, policy, and the integrity of social life. Palo Alto: Stanford University Press.
Stahl, Bernd Carsten. 2004. Responsible management of information systems. Hershey: Idea Group.
Yuan, Elaine J. 2013. A culturalist critique of ‘online community’ in new media studies. New Media & Society 15 (5): 665–679.
ORIGINAL:
ESS, C. Charles Ess – Commentary on The Onlife Manifesto. In: FLORIDI, L. (Editor). The Onlife Manifesto: Being Human in a Hyperconnected Era. Spinger, 2015 (SpringerOpen). p.17-19. Disponível em: <https://www.springer.com/gp/book/9783319040929>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC 3.0
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