O Manifesto Onlife: Sendo Humano em uma Era Hiperconectada
Parte I Comentários
[31]Comentário por Yiannis Laouris
por Yiannis Laouris
Trabalhar para este Manifesto tem sido uma experiência muito inspiradora; estando entre filósofos nesse laboratório de ideias, eu inicialmente fiquei um pouco cético quanto à viabilidade de cientistas de mentes tão diferentes, alguns com visões muito fortes, conseguirem convergir para um texto que satisfatoriamente chame atenção para os conceitos-chave que requerem reengenharia. Eu especialmente apreciei o fato de que, como os antigos antenienses, nós tratamos filosofia, ciência e polítca como disciplinas fortemente interconectadas. Mesmo se isso fosse tudo que eu aprendi desse trabalho, o mundo beneficiar-se-ia tremendamente!
O Manifesto reflete minhas visões pessoais, e é por isso que eu o endossei. Em meu capítulo, eu elaboro sobre a necessidade de reengendrar o conceito de vida e de como a imortalidade emergente dos artefatos e da informação exerce pressão sobre a obtenção da imortalidade da mente e/ou do humano; o obscurecimento de conceitos como “ser humano” ou “ser vivo.” Contudo, neste breve comentário, eu chamo atenção especial para os riscos criados pela viabilidade da democracia direta como encapsulada no §1.4 por causa da sua urgência:
§1.4 … abrindo novas possibilidades para democracia direta, as TCIs desestabilizam e demandam o repensamento das visões de mundo e metáforas subjacentes às estruturas políticas modernas.
Na seção dos capítulos, eu elaboro os requerimentos das tecnologias necessárias para reinventar a democracia na época digital, especialmente à luz da imortalidade virtual e abudância de informação, as quais, inevitavelmente resultam em sobrecarga cognitiva, como refletido aqui:
§2.3 A abundância de informação também pode resultar em sobrecarga cognitiva, distração …
Democracia, no século XXI, veio a referir-se quase exclusivamente ao direito de tomar parte no processo político, ou seja, ao direito de votar. Uma vez que as TCIs abrem possibilidades enormes para retroalimentação em tempo real (real-time feedback) e votações (polling) frequentes, nas mentes de muito, votações (voting) extras igualam mais democracia. “Democracia direta” é um termo cunhado [32]recentemente, referindo-se a um modelo específico (dentre muitos) de participação democrática, na qual todos os membros têm igualdade de acesso, voto e voz em cada questão. A adoção de uma abordagem semelhante na tomada de decisões políticas e de outros tipos, sem dúvida, causaria o caos. Portanto, isso deveria ser riogorosamente distinguido e diferenciado da massiva, mas autêntica, participação democrática. A última demanda que a todas as partes interessadas (stakeholders) relevantes seja dada a oportunidade para participarem e uma voz para argumentarem sobre as questões que influenciam as suas vidas. Os votos deveriam ser pesados de alguma maneira, para assegurar que as decisões tirem vantagem do que nós chamamos de “sabedoria coletiva (collective wisdom).” Esse não é um problema trivial para resolver. A identificação de quem são as partes interessadas “relevantes” e a decisão de quem deveria ter um voto (pesado) em quais assuntos são extremamente complexas. Mesmo quando os desafios teóricos são resolvidos, nós teremos de desenvolver sistemas que implementem a teoria.
Os atenienses da época dourada estavam engajados em coletivamente buscarem e cuidadosamente examinarem os significados e as alternativas através de um processo que eles chamavam de “deliberação.” Eles visavam ao entendimento completo dos problemas subjacentes, clarificando a situação em debate, e ao alcance do consenso. Mais de dois milênios depois, nós temos de reinventar a democracia de uma tal maneira que milhões possam participar efetivamente. Nós precisamos garantir que o indivíduo terá acesso a toda informação relevante, alternativas, argumentos e futuros preditos que poderiam emergir de acordo com as escolhas que ele / ela faz. Provavelmente, nós temos de inventar novas formas líquidas de democracia na qual as ideias possam fluir a partir das multidões (crowds) e receberem forma através de um processo de deliberação aberta. De alguma maneira, os cidadãos futuros devem tornar-se capazes de escolher alternativas ao coletarem sua inteligência e sabedoria coletivas em vez de permitir aos comportamentos patéticos de indivíduos prevalecerem no processo de tomada de decisão. Uma vez que a tecnologia será absolutamente essencial, a democratização do processo de design e desenvolvimento dessas novas tecnologias também de se tornar um requerimento fundamental. Adicionalmente, nós temos de garantir o acesso a e a simplicidade de interfaces.
Em suma, nós deveríamos projetar espaços e tecnologias e implementar políticas que respeitem as nossas restrições cognitivas, salvaguardem as nossas capacidades de atenção, e assegurem os nossos direitos humanos e liberdades individuais. Nós devemos desenvolver sistemas que garantam a participação autêntica daqueles cujas vidas poderiam ser influenciadas por qualquer decisão tomada. Cursos de ação deveriam ser escolhidos baseadas em sua capacidade para facilitar a mudança na direção de um ideal de estado futuro definido, desejado e concordado.
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ORIGINAL:
LAOURIS, Y. Commentary by Yiannis Laouris. In: FLORIDI, L. (Editor). The Onlife Manifesto: Being Human in a Hyperconnected Era. Spinger, 2015 (SpringerOpen). p.31-32. Disponível em: <https://www.springer.com/gp/book/9783319040929>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC 3.0
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