sábado, 31 de outubro de 2020

Elementos de Lógica - Livro III Sobre Falácias - §§12-13

Por Richard Whately


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[218]§12

Fallacia accidentis. O outro tipo de ambiguidade surgindo do contexto, e que é o último caso de Termo médio ambíguo que eu deverei considerar, é a “fallacia accidentis”; junto com sua contrária, “fallacia a dicte secundum quid ad dictum simpliciter”. Em cada uma delas [219]o Termo médio é usado, em uma das Premissas para significar alguma coisa considerada simplesmente, em si mesma, e quanto a sua essência; e na outra Premissa, de modo a implicar que seus Acidentes são levadas em consideração com ela: como no bem conhecido exemplo, “o que é comprado no mercado é comido; carne crua é comprada no mercado; portanto, carne crua é comida.” Aqui o Termo médio foi entendido em conjunção com ele, na Premissa maior, “quanto à sua substância meramente”: na menor, “quanto à sua condição e circunstâncias”.

Para esta categoria, talvez, assim como a qualquer uma, podem ser referidas as Falácias que são encontradas frequentemente em variações ocasionais, parciais e temporárias na acepção de algum Termo, surgindo de circunstâncias de pessoa, tempo e lugar, as quais ocasionaram alguma coisa a ser entendida em conjunção com ele além de sua estrita significação literal. Por exemplo, a palavra “lealdade (loyalty)”, a qual propriamente denota vinculação a governo legal (lawful), seja de um rei, presidente, senado, etc, de acordo com as respectivas instituições de cada nação, - tem sido frequentemente empregada para significar exclusivamente, vinculação a autoridade régia (regal); e isso mesmo quando levada além dos limites da lei (law). Assim, “reformador (reformer)” algumas vezes foi limitado aos reformadores protestantes da religião; algumas vezes, aos advogados (advocate) de alguma reforma parlamentar particular, etc. E sempre que qualquer frase deste tipo tornou-se um lema (watch-word) ou grito de reunião (gathering-cry) de um partido, o emprego dela comumente implicaria certos sentimentos não literalmente expressos pelas palavras. Portanto, assumir que alguém é amigável ou hostil a “Lealdade (Loyalty)” ou “Reforma (Reform)” em um sentido, pois ele declarou-se amigável ou hostil a ela em outro sentido, quando implicado e conectado com tal e tal sentimentos, é uma Falácia, tal como poderia justamente ser referida à presente categoria.


[220]§13

Sobre as Falácias não lógicas (ou materiais); e primeiro, “implorando a pergunta”; Petitio Principii.

Implorando a pergunta. A explicação indistinta e não filosófica que foi dada por escritores em Lógica para a Falácia de “non causa”, e aquela de “petitio principii” torna muito difícil verificar onde eles consideram-nas diferir, e o que eles entenderam ser a característica distintiva de ambas. Portanto, eu não deverei intentar conformar-me exatamente à linguagem deles, mas meramente a me expressar claramente, sem me afastar mais do que o necessário do uso estabelecido para esse propósito.

Então, que o nome de “petitio principii” (implorando a questão) seja confinado àqueles casos nos quais uma das Premissas ou é manifestamente a mesma na acepção da Conclusão, ou é realmente provada a partir dela, ou é tal como as pessoas às quais você está endereçando-se1 provavelmente não conhecem, ou admitem, exceto como uma inferência da Conclusão: como, por exemplo, se qualquer um devesse inferir a autenticidade de uma certa história, a partir de seu registro de tal e tal fatos, [quando] a realidade dos quais depende da evidência daquela história.

Todos os outros casos nos quais uma Premissa (quer uma expressa ou suprimida) não possuir alegação suficiente para ser admitida, eu deverei designar de “Falácia de suposição indevida de uma Premissa”.

Que seja observado, contudo, que em casos tais como esse (aparentemente), nós não devemos declarar tão precipitadamente o argumento falacioso; pois pode ser perfeitamente justo no começo de um [221]argumento assumir uma Premissa que não é mais evidente que a Conclusão, ou que seja mesmo muito paradoxal, desde que você siga adiante para provar justamente essa Premissa; e, de maneira semelhante, é igualmente comum e justo começar por deduzir sua Conclusão a partir de uma Premissa exatamente equivalente a ela; o que é meramente colocar a proposição em questão na forma na qual ela será mais convenientemente provada.

Argumentando em um Círculo. Argumentar em um círculo, contudo, precisa ser necessariamente injusto; embora seja frequentemente praticado involuntariamente; por exemplo, alguns Mecânicos (Mechanicians) tentam provar, (o que eles deveriam ter estabelecido como uma hipótese provável mas duvidosa,) que cada partícula de matéria gravita igualmente; “por quê?” pois aqueles corpos que contêm mais partículas sempre gravitam mais fortemente, quer dizer, são mais pesados: “mas (pode ser instigado) aqueles que são os mais pesados nem sempre são mais volumosos”; “não, mais ainda assim eles contêm mais partículas, embora mais proximamente condensadas;” “como você sabe disso?” “pois eles são mais pesados;” “como isso prova aquilo?” “pois todas as partículas de matéria gravitam igualmente, de modo que [dessa] massa, que é especificamente a mais pesada, precisa haver maior quantidade no mesmo espaço.”

É claro, quão mais estreito for o círculo, menos provável é escapar da detecção, seja do raciocinador mesmo (pois os homens frequentemente enganam a si mesmos desta maneira), ou de seus ouvintes. Quando há uma longa volta de muitas proposições intervenientes antes que você chegue à Conclusão original, frequentemente não será percebido que os argumentos realmente prosseguem em um “Círculo”: assim como quando alguém está avançando em linha reta (como nós estamos acostumados a falar) ao longo de um plano sobre a superfície desta Terra, escapa de nossa observação que nós estamos realmente nos movendo ao longo da circunferência de um Círculo (uma vez que a terra é um globo), e que, se nós pudéssemos prosseguir sem interrupção na mesma linha, [222]nós deveríamos chegar ao mesmo ponto de onde partimos. Mas isso nós percebemos prontamente quando estamos andando ao redor de uma pequena colina.

Por exemplo, se alguém argumentasse que você deveria submeter-se à orientação de si mesmo, de seu líder, ou de seu partido, etc, pois eles mantêm o que é o certo; e em seguida argumentasse que o que é assim mantido é o certo, pois é mantido pelas pessoas às quais você deveria submeter-se; e que esses são, a si mesmo e seu partido; ou novamente, se alguém sustentasse que assim e assim precisa ser uma coisa moralmente errada, pois é proibida pela parte moral da lei mosaica e, em seguida, que a proibição disso forma a parte moral (não a cerimonial, ou a civil) daquela Lei, pois é uma coisa moralmente errada. Qualquer um desses seria um Círculo muito estreito para escapar da detecção, a menos que vários passos intermediários fossem interpostos. E se a forma de expressão de cada proposição fosse variada a cada vez que ocorresse, - o sentido dela permanecendo o mesmo, - isso auxiliaria muito o engano.

É claro, a maneira de expor a Falácia é inverter esse procedimento: estreitar o Círculo, ao eliminar os passos intermediários; e exibir a mesma proposição, quando ela vem de volta (it comes round) a segunda vez, - nas mesmas palavras.

Obliquidade de expressão. Obliquidade e dissimilação sendo, é claro, muito importantes para o sucesso da petitio principii, assim como de outras Falácias, o Sofista no geral terá ou o recurso ao “Círculo”, ou senão, não se arriscará a declarar distintamente sua suposição do ponto em questão, mas, em vez disso, afirmará alguma outra proposição que a implica;2 desse modo, mantendo fora de vista (como um ladrão habilidoso que [223]rouba bens) o ponto em questão, no momento mesmo quando ele está tomando-a como certa. Consequentemente, a união frequente dessa Falácia com “ignoratio elenchi” [vide §15]. A língua inglesa é talvez a mais apropriada à Falácia de petitio principii, sendo formada a partir de duas línguas distintas, e, desse modo, abundando em expressões sinônimas, as quais não têm semelhança em som, e nenhuma conexão na etimologia; de modo que um Sofista poderia apresentar uma proposição expressa em palavras de origem saxônica, e dar como uma razão a mesma proposição expressa em palavras de origem normanda; por exemplo, “permitir a cada homem uma liberdade ilimitada de expressão deve sempre ser, no todo, vantajoso para o Estado; pois ela é altamente propícia aos interesses da Comunidade, que cada indivíduo deveria desfrutar de uma liberdade perfeitamente ilimitada, para expressar seus sentimentos.”


Próxima parte


ORIGINAL:

WHATELY, R. Elements of Logic. New Edition. Boston and Cambridge: James Munroe and Company, 1859. p.218-223. Disponível em: <https://archive.org/details/elementsoflogicc00whatuoft/page/218/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

1 Pois de duas proposições, uma pode ser mais evidente para alguns, e a outra, para outros.

2 Gibbon proporciona os mais notáveis exemplos desse tipo de estilo. Do que ele pretende realmente falar dificilmente alguma vez é feito o Assunto de sua Proposição. A maneira dele escrever lembra uma daquelas pessoas que nunca se atrevem a olhar você bem no rosto.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Uma Introdução à Filosofia da Mente 5 Qualia e Sensações Brutas

Por Henry Shevlin


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5.1 INTRODUÇÃO: O QUE SÃO QUALIA?


Enquanto eu sento-me para escrever esta sentença, eu estou experienciando uma riqueza de experiências. Diante de mim, o céu está cheio de matizes rosa e azul do pôr do sol que se aproxima salpicado com nuvens brancas. Pássaros tropicais tremem em trinados agudos, enquanto um par de cães soltam latidos guturais um para o outro. Minha pele alternadamente formiga com o último calor persistente do dia, interrompido pela frescura prazerosa de uma briza noturna.

A cena que eu descrevi há pouco é cheia de experiências com qualidades distintas – cores, sons e sensações físicas. Essas qualidades da experiência são conhecidas por filósofos da mente como qualia, um termo estranhamente obscuro para um aspecto de nossas vidas que escassamente poderia ser mais familiar para nós. Em cada momento desperto de nossas vidas, nós estamos experienciando vários qualia associados a visões, sons ou sentimentos. Algumas vezes, nós deliberadamente procuramos novos qualia, como quando nós pedimos um prato desconhecido em um restaurante, ansiosos para aprender qual o gosto. Em outras ocasiões, nós urgentemente procuramos pôr um fim em algum quale (o singular de “qualia”) ou outro; por exemplo, quando nós tomamos uma aspirina para aliviar a sensação latejante de uma dor de cabeça.

Os qualia têm sido o foco de interesse intenso em filosofia da mente e ciência cognitiva por várias décadas. Eles possuem várias características aparentes que os tornam igualmente fascinante e difíceis de explicar. Todas essas propriedades são controversas (ver seção 4 abaixo), mas elas certamente parecem capturar várias das características intuitivas dos qualia.

Primeiro, os qualia parecem ser privados: meus qualia são uma característica de minha experiência exclusiva, e você nunca poderá acessá-los diretamente. Você pode ter refletido no passado sobre se outras pessoas experienciam as cores da mesma maneira que você, ou se meu azul pode ser o seu verde. Essas questões surgem precisamente por causa da aparente privacidade dos qualia. Nós nunca podemos conhecer quais qualia as outras pessoas estão experienciando.

Segundo (e relacionado), os qualia são possivelmente inefáveis; quer dizer, eles não podem ser nitidamente postos em palavras. Imagine tentar explicar a uma pessoa que é cega como é o vermelho, ou (um exemplo menos extremo) transmitir a um vegetariano por toda a vida qual o gosto do atum. Embora nos dois casos nós poderíamos tentar usar metáforas (“o vermelho é como uma corneta”) para transmitir o carácter da experiência, nossas tentativas para o fazer inevitavelmente falharão em fazer justiça à sensação relevante.

Uma propriedade final alegada é que os qualia são imediata e completamente apreensíveis por nós apenas ao experienciá-los. Nesse respeito, eles são distintos dos objetos de nossa experiência. Imagine que você está deitado na cama à noite e ouve um baque suave. Você pode bem se perguntar o que foi o barulho: um objeto caindo, uma porta batendo ao vento, ou talvez seu companheiro de casa retornando ao lar. Sobre o que você não tem de especular, contudo, é como o barulho soou para você. Isso é algo que você apreende simplesmente ao ouvir. Mais forte e controvertidamente, alguns filósofos sugeriram que nós nunca podemos cometer erros de julgamento sobre nossos qualia. Se eu digo que algo é doloroso para mim, por exemplo, então é absurdo sugerir que eu poderia estar em erro.


5.2 OS QUALIA E O PROBLEMA MENTE-CORPO


Uma razão para os qualia terem fascinado tanto filósofos é que eles são possivelmente difíceis de explicar em termos científicos padrões. Muitos de nós provavelmente ouviram neurocientistas falando sobre coisas como sinapses, neurônios e diferentes regiões do cérebro. Talvez não seja tão difícil ver como esse tipo de abordagem científica poderia explicar vários aspectos de nosso comportamento. Nós poderíamos entender a percepção, por exemplo, em termos da transmissão de informação dos órgãos dos sentidos através de várias áreas de processamento do cérebro, ou a agressão incomum em termos da liberação de algum hormônio ou neurotransmissor. É muito mais difícil ver, contudo, como esses tipos de descrições científicas alguma vez poderiam dar-nos uma explicação satisfatória do por que o vermelho parece-se da maneira específica que ele parece, ou por que a canela tem o gosto disto e baunilha, daquilo.

O desafio aqui não é meramente explicar a neurociência de como a visão funciona ou como nossa língua refere informações de sabor ao cérebro. Importante progresso está sendo feito a cada dia no entendimento de questões como essas, embora a ciência ainda tenha um longo caminho a percorrer. Em vez disso, a dificuldade real é que, enquanto a ciência conta-nos como o cérebro funciona, ela parece ser incapaz de contar-nos como as experiências realmente são. Para ter uma ideia do problema, imagine uma pessoa que esteve completamente surda desde o nascimento que quer saber como soa Beethoven. Mesmo se nós tivéssemos escaneadores cerebrais perfeitos e pudéssemos mostrar exatamente o que acontece aos neurônios de alguém quando se ouve música, isso não parece como algo que poderia alguma vez transmitir apropriadamente a experiência subjetiva de ouvir as barras de abertura da Sinfonia Coral.

Isso cria um desafio aparente para uma visão de mundo científica. Se a ciência não puder explicar completamente os qualia, então se segue que a ciência somente pode oferecer-nos um entendimento parcial do universo? Mais fortemente, alguém poderia se perguntar se a aparente inexplicabilidade dos qualia em termos científicos mostra que o universo que nós habitamos não consiste somente em coisas como átomos, moléculas, forças e outros objetos do domínio da ciência, mas também contém fenômenos mentais distintos e irredutíveis.

O desafio é bem ilustrado por um famoso experimento de pensamento chamado de “Sala de Mary” desenvolvido pelo filósofo Frank Jackson (1982).1 Imagine uma mulher chamada de Mary que é uma cientista brilhante. Especificamente, é contado a nós que ela conhece todos os fatos físicos sobre a percepção da cor: ela conhece tudo sobre a física da luz, a biologia do olho e a neurociência do processamento da cor no cérebro. Contudo, Mary nunca viu cores ela mesma, tendo passado a vida numa sala preta e branca. Um dia, Mary deixa a sala e vê uma brilhante maçã vermelha pela primeira vez. “Uau!” ela pensa, “é assim que o vermelho se parece.”

O [argumento da] Sala de Mary tenta demonstrar que há certos fatos que não podem ser acessados pelo conhecimento científico apenas. Afinal, Mary já conhecia todos os fatos científicos sobre cor antes que ela deixasse sua sala. Do que ela carece, contudo, é do conhecimento dos qualia da cor; quer dizer, o que as cores realmente parecem. Ela somente ganha esse conhecimento quando ela deixa a sala e realmente vê cores ela mesma. Consequentemente, o argumento prossegue, há certo fatos que não podem ser explicados pela ciência, mas, em vez disso, dependem de experiência subjetiva. O argumento pode ser apresentando formalmente como se segue.


  1. Mary conhece todos os fatos científicos sobre cor antes de deixar sua sala.

  2. Mary aprende novos fatos (sobre o que cores parecem) quando ela deixa sua sala.

  3. Portanto, nem todos os fatos são fatos científicos.


O [argumento da] Sala de Mary é um dos mais famosos experimentos em toda a filosofia e tem gerado um grande número de respostas. A maioria deles desafia a premissa (2) acima, e argumenta que, de fato, Mary não aprende nada novo quando ela deixa sua sala.

Por exemplo, a hipótese da habilidade afirma que o que Mary ganha não é o conhecimento mas um novo conjunto de habilidades (Lewis 1990). Imagine que alguém conhece muito sobre música, mas não pode tocar nenhum instrumento. Contudo, após muita prática, ele aprende a tocar piano. A hipótese da habilidade sugere que alguma coisa semelhante a isso aplica-se a Mary. Antes de deixar sua sala, ela nunca viu objetos vermelhos, assim não poderia reconhecer um dado objeto como vermelho, ou imaginar ou lembrar-se da cor vermelha. Após deixar a sala, suas novas experiências do vermelho possibilitam-na fazer tudo isso. Nossa sensação de que ele ganha conhecimento, então, está mal colocada – o que ela ganha é um novo tipo de habilidade. Alguns filósofos duvidam de que isso adequadamente elimina nossa sensação de que Mary realmente ganha um novo tipo especial de conhecimento quando ela deixa sua sala preta e branca.

Outra importante abordagem nós podemos denominar de fato antigo, de nova visão do conhecimento.2 Imagine que alguém saiba que Istambul foi fundada em 330 AC. Ele então aprende separadamente que Constantinopla foi fundada em 330 AC. Assumindo que ele já não saiba que Istambul e Constantinopla são a mesma cidade, parece razoável dizer que a pessoa aprendeu algo novo quando ele ouviu a informação sobre Constantinopla. Certamente, ele têm um item de trivialidade à sua disposição que ele não tinha antes. Contudo, uma vez que “Constantinopla” de fato faz referência a mesma cidade que “Istambul”, nós também deveríamos dizer que estritamente ele não aprendeu nenhum fato novo sobre o universo, tendo em vez disso encontrado um fato que ele já sabia numa forma diferente. Aplicada ao caso de Mary, a ideia é que Mary realmente sabia de todos os fatos sobre cor antes que ela deixasse sua sala. Quando ela vê o vermelho pela primeira vez, ela simplesmente encontra esses mesmos fatos em uma nova maneira, a saber, através de sua própria visão de cor, em vez de através da linguagem teórica da ciência. Um desafio para essa visão é oferecer uma explicação desenvolvida, de maneira experiencial especial, de se ganhar conhecimento enquanto evitando apelar para quaisquer fatos ou propriedades não científicas ou não físicas.

Uma abordagem final adotada por alguns filósofos desafiadores é insistir que Mary não ganharia nenhum tipo de novo conhecimento ou habilidade relativamente ao mundo quando ela deixa a sala. Se ela realmente conhecia todos os fatos científicos sobre cores antes de deixar a sala, ela de fato já teria todo o conhecimento e habilidades associados à visão de cores, a despeito de nunca as ter visto (Dennett 2006). Isso poderia soar como uma negação rasa da intuição poderosa motivando esse experimento de pensamento. Uma maneira de tornar essa abordagem mais persuasiva, contudo, é focar na primeira premissa do argumento acima, que Mary conhece tudo pertinente aos fatos científicos. Isso é realmente algo que nós podemos imaginar facilmente? Afinal, a ciência atual ainda está incompleta e fica aquém de nos fornecer conhecimento de cada fato mesmo dentro de seu próprio domínio de explicação. Ademais, a maioria dos cientistas são tão especializados que eles conhecem somente uma pequena proporção dos fatos dentro de seu próprio campo. Mary, então, teria de ser mais como uma superinteligência de um futuro distante em vez de um humano normal. Dado isso, deveria ser dado muito peso as nossas intuições sobre o que nós podemos imaginar?

Essas respostas são somente uma fração das muitas abordagens do [argumento da] Sala de Mary adotada por filósofos. Embora considerando que progressos tenham sido feitos no desenvolvimento de refutações ao [argumento da] Sala de Mary, é provavelmente justo dizer que nenhuma resposta foi geralmente aceita como resolvendo o problema. O enigma dos qualia para a visão de mundo científica, então, permanece uma área central de pesquisa filosófica.


5.3 QUANTOS TIPOS DE QUALIA EXISTEM?


Um importante debate adicional sobre os qualia diz respeito a que tipos de estados mentais realmente os têm. Os exemplos comuns de qualia são coisas como visões, sons e sensações corporais. Mas alguns filósofos argumentam que há abundância de outros tipos de qualia além desses.

Alguns candidatos exemplares a esses qualia adicionais são coisas como emoções. Certamente parece como se houvesse um sentimento distinto (ou conjunto de sentimentos) associado a emoções poderosas como alegria, raiva, tristeza, por exemplo. Contudo, permanece controverso se esses sentimentos envolvem um tipo inteiramente especial de qualia por conta própria, ou, em vez disso, poderiam ser entendidos em termos de outros qualia, tais como, por exemplo, aqueles associados a sensações corporais, uma visão adotada por um dos fundadores da psicologia moderna, William James (1842-1910), em um famoso artigo (1884). Observe, por exemplo, as sensações físicas intensas que acompanham a emoção de excitação: nós podemos experienciar o sentimento de nossa frequência cardíaca acelerar, nossa boca secar e nossos músculos tensionarem-se. Poderiam semelhantes “qualia corporais” ser tudo o que há para os qualia de emoções? A questão permanece ardentemente debatida.

Outro debate importante diz respeito ao alcance ou tipo de qualia associados com percepção. Nós todos podemos concordar que há qualia associados a nossas experiências de cor e forma, por exemplo. Mas poderia haver tipos especiais de qualia envolvidos ao ver alguém parecendo amigável, por exemplo, ou em reconhecer um animal como um guaxinim? A ideia de que há semelhantes qualia de “alto nível” associados a propriedades além de coisas como cores, formas e movimento é algumas vezes chamada de visão de conteúdo rica (rich content view) (Siegel 2010). Uma maneira de motivar essa ideia surge de casos onde a característica de nossa experiência – em outras palavras, nossos qualia – parece mudar a despeito de não haver mudanças em como nós experienciamos as qualidades inferiores de cor, forma e assim por diante.

Considere, por exemplo, a famosa ilusão “pato-coelho” (Jastrow 1899) abaixo. Com um pouco de esforço mental, não podemos “mudar” de ver a figura como um pato para vê-la como um coelho, e possivelmente haja uma mudança na maneira como a figura parece. Contudo, está longe de ser claro que nossa experiência das características de baixo nível das imagens – as cores e formas – realmente mude. Se isso está certo, então poderia fornecer evidência de que há tipos especiais de qualia associados à visão da imagem como um pato e à visão dela como um coelho.

Um importante debate final diz respeito a se estados não perceptuais como pensamento e entendimento poderiam ter qualia especiais associados a eles. Por exemplo, rapidamente adicione os números 17 e 48 em sua cabeça, e ao fazê-lo, considere que sentimentos ou qualidades estão associados à experiência. Houve algum tipo distinto de sentimento que acompanhou seus pensamentos sobre os números? De fato, Alguns filósofos sugeriram que há um tipo de experiência especial associado ao pensamento e entendimento.3 Um argumento para esse tipo de “qualia cognitivos” (ou fenomenologia cognitiva, como também é conhecida) vem dos casos de se ouvir uma língua estrangeira. Imagine que Jack, um falante de inglês, e Jacques, um falante de francês, estão ambos ouvindo uma transmissão de rádio francesa. Jack não pode entender o que ele está ouvindo, mas Jacques pode. Intuitivamente, parece como se houvesse uma diferença na qualidade de suas duas experiências, surgindo das diferenças em seus entendimentos (ou da falta dele). Novamente, a existência desses qualia cognitivos é ardentemente contestada. Alguns filósofos afirmam, por exemplo, que as qualidades associadas a experiências como pensamento e entendimento podem ser entendidas somente em termos de qualia perceptuais regulares, como cores e formas, ocorrendo como imagens em nossas mentes. Consequentemente, talvez, quaisquer qualia que você experienciou, ao pensar no problema de matemática acima, foi somente uma questão de ver ou ouvir os números em seu “olho da mente”.


5.4 CETICISMO SOBRE OS QUALIA


Nós estivemos falando neste capítulo sobre os qualia como se a existência deles, pelo menos, fosse incontroversa. Em um sentido, isto certamente é verdadeiro: ninguém poderia negar que nós genuinamente experienciamos cores e gostos, por exemplo. Alguns filósofos permanecem céticos sobre os qualia, contudo, insistindo que a ideia mesma é confusa. O filósofo Daniel Dennett é um desses céticos famosos. Em um artigo clássico, “Quining Qualia”, ele dá um número de exemplos de casos nos quais a ideia dos qualia como usada por filósofos parece convidar a questões impossíveis e talvez sem sentido (1988). Considere, por exemplo, o caso de duas pessoas, uma das quais ama couve-flor, e a outra, que a despreza. Deveríamos dizer, em tal exemplo, portanto, que eles têm qualia diferentes quando provam o couve-flor, ou, em vez disso, dizer que têm diferentes reações aos mesmos qualia? Dennet ter-nos-ia a acreditar que semelhantes questões escassamente tem sentido.

Para ilustrar mais o ponto, ele convida-nos a imaginar que nós mesmos passamos de desprezar a couve-flor para a amar (uma experiência que muitos de nós teve com um item alimentar ou outro). Mesmo em tal caso, ele sugere, nós não somos capazes de dizer se nossos qualia mudaram ou nossas atitudes mudaram. Se isso está certo, então parece que algumas questões sobre os qualia não podem ser respondidas da perspectiva de primeira pessoa; mas, dado que os qualia são supostamente privados e inefáveis, pareceria seguir-se que eles não podem ser respondidos em absoluto! Em vez de abraçar tais entidades misteriosas, Dennett sugere, nós faríamos melhor ao abandonar a ideia mesma dos qualia como confusa.

Outro tipo de ceticismo sobre os qualia diz respeito à relação deles com objetos de nossa experiência. Por um longo tempo, muitos filósofos pensaram nos qualia como coisas que nós pudéssemos observar em nossa experiência por direito próprio, bem separados de nossa experiência no mundo (consequentemente o termo “sensações brutas” algumas vezes usado para descrevê-los). Outros filósofos, mais recentemente, têm desafiado essa ideia, afirmando ao invés que, enquanto de qualquer modo nos experienciamos os qualia, nós experienciamo-los como propriedades de objetos no mundo (Harman 1990). Esse é um debate complexo, mas em essência esses filósofos afirmam que, ao olhar para uma árvore verde, nós não experienciamos “verdor bruto”. Em vez disso, o que nós poderíamos chamar de “qualia do verdor” é realmente experienciado como propriedade de um objeto no mundo, a saber, a árvore mesma. Se essa tese de transparência está correta, então se sugere que mesmo se os qualia existem, eles poderiam ser simplesmente um aspecto de nossa consciência de objetos reais no mundo, em vez de alguma misteriosa “pintura mental” (Block 1996). Se assim, a ciência cognitiva poderia capacitar-nos a entender os qualia através do projeto científico e filosófico mais amplo de explicar como a percepção torna-nos cientes do mundo.


5.5 CONCLUSÃO


Os qualia permanecem um dos mais profundos quebra-cabeças em toda a filosofia, e este capítulo apenas ofereceu um exame superficial de alguns dos mais importantes debates no qual eles figuram. Mesmo enquanto a ciência deu-nos enormes conhecimentos novos sobre questões difíceis, como as origens do universo e o genoma humano, o problema de como explicar os qualia parece ainda estar tentadoramente fora do alcance da investigação científica padrão. A despeito de, ou talvez por causa disso, muitos filósofos e cientistas veem os qualia como uma fronteira nova e excitante para o entendimento humano.


REFERÊNCIAS


Block, Ned. 1996. “Mental Paint and Mental Latex.” Philosophical Issues 7(19).

Dennett, Daniel C. 2006. “What Robomary Knows.” In Phenomenal Concepts and Phenomenal Knowledge: New Essays on Consciousness and Physicalism, ed. Torin Alter and SvenWalter. Oxford: Oxford University Press.

Dennett, Daniel C. 1988. “Quining Qualia.” In Consciousness in Contemporary Science, 42-77. New York: Clarendon Press/Oxford University Press.

Harman, Gilbert. 1990. “The Intrinsic Quality of Experience.” Philosophical Perspectives 4: 31-52.

Jackson, Frank. 1982. “Epiphenomenal Qualia.” Philosophical Quarterly 32: 127-36.

Lewis, David. 1990. “What Experience Teaches.” In Mind and Cognition, ed. William G. Lycan, 29-57.

Oxford: Basil Blackwell.

James, William. 1884. “What Is an Emotion?” Mind 9(34): 188-205.

Jastrow, Joseph. 1899. The Mind’s Eye. Popular Science Monthly 54: 299-312.

Siegel, Susanna. 2010. The Contents of Visual Experience. Oxford: Oxford University Press.


LEITURA ADICIONAL


Alter, Torin and Robert J. Howell. 2009. A Dialogue on Consciousness. Oxford: Oxford University Press.

Blackmore, Susan. 2006. Conversations on Consciousness. New York/Oxford: Oxford University Press.

Chalmers, David J. 1998. The Conscious Mind: In Search of a Fundamental Theory. New York/Oxford:

Oxford University Press.

Dennett, Daniel C. 1991. Consciousness Explained. United States: Little, Brown and Co.

Montero, Barbara. 1999. “The Body Problem.” Noûs 33(2): 183-200.

Nagel, Thomas. 1974. “What is it Like to be a Bat?” Philosophical Review 83: 435-456.


Atribuições de Mídia


  • Ilustração Pato-Coelho (ou Ilusão de Óptica de um pato ou uma cabeça de coelho) por Ilustrador Anônimos © Domínio Público.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

SHEVLIN, H. 5. Qualia and Raw Feels. In: SALAZAR, H. et all (Org.) Introduction to Philosophy: Philosophy of Mind. Rebus Community: 2019. Disponível em: <https://press.rebus.community/intro-to-phil-of-mind/chapter/qualia-and-raw-feels/>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


1 O [argumento da] Sala de Mary é também discutido no Capítulo 4.

2 Ver, por exemplo, Michael Tye, Ten Problems of Consciousness, 171-77 (Cambridge, MA: MIT Press, 1995).

3 Ver Galen Strawson, Mental Reality (MIT Press, 1994), Ch.1.