sábado, 5 de dezembro de 2020

Uma Introdução à Filosofia da Mente 6 Consciência

Por Tony Cheng


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6.1 INTRODUÇÃO


O termo “consciência” é muito frequentemente, embora não sempre, intercambiável com o termo “consciência (awareness)”, o qual é mais coloquial para muitos ouvidos.1 Nós dizemos coisas como “você está ciente (aware) disso…” frequentemente. Algumas vezes nós dizemos “você notou (noticed) que …?” para expressar pensamentos semelhantes, e isso indica uma conexão estreita entre consciência e atenção (noticing), à qual nós retornaremos mais tarde neste capítulo. Ned Block, uma das figuras-chave nessa área, fornece uma caracterização útil do que ele chama de “consciência fenomenal”. Para ele, consciência fenomenal é experiência. Experiência envolve percepções, por exemplo, quando nós vemos, ouvimos, tocamos, cheiramos e provamos [com o paladar], nós tipicamente temos experiências como a visão de cores e o cheirar de odores. Ela também envolve consciência corporal (bodily awareness), por exemplo, nós tipicamente temos experiências de nossa própria temperatura corporal e posições dos membros. A consciência é, primariamente, relativa a esse aspecto experiencial de nossas vidas mentais.

A maior parte das discussões de filosofia da mente depende, em algum nível, da ideia de experiência consciente. Descartes relatou suas experiências conscientes em suas Meditations on First Philosophy. Elas figuraram centralmente em seus argumentos de que ele tem uma mente (Capítulo 1). Behaviorismo, materialismo, funcionalismo e dualismo de propriedade procuram explicar nossas vidas mentais, então eles necessitarão incluir a consciência como um dos elementos mais importantes da mentalidade (Capítulos 2, 3 e 4). Qualia e sensações brutas são uma maneira de entender a consciência; uma vez que eles já foram cobertos (Capítulo 5), nós não os discutiremos aqui. Conhecimento, crença e outros estados mentais são algumas vezes, embora não sempre, conscientes, então é importante entender a diferença entre (digamos) crenças conscientes e inconscientes. Isso também se aplica a conceitos e conteúdo (Capítulo 7). Se a liberdade de vontade e do eu requer consciência é altamente debatido (Capítulo 8). Dessa maneira, pode ser visto que a consciência tem um lugar central na filosofia da mente.


6.2 CONCEITOS DE CONSCIÊNCIA


Há muitos conceitos de consciência e, no geral, há duas abordagens. Primeiro, alguém pode inspecionar conceitos populares de consciência: como os leigos usam o termo, e como eles usam outros termos relacionados (por exemplo, consciência (awareness)) para se referirem a fenômenos similares. Segundo, alguém pode procurar conceitos úteis de consciência para explicar ou entender a mente. A primeira abordagem é conduzida em filosofia experimental, um ramo relativamente novo de filosofia, que invoca métodos experimentais para pesquisar os conceitos populares, incluindo aqueles que são de diversos contextos culturais e linguísticos. Neste capítulo, preferencialmente nos focaremos na segunda abordagem, a qual é tradicionalmente favorecida por filósofos da mente.

Filósofos têm diferentes maneiras de selecionar vários conceitos de consciência, e eles tendem a discordar fortemente entre si. Nenhuma divisão é inteiramente incontroversa. Contudo, há uma distinção que tende a ser o ponto de partida de discussões filosóficas sobre consciência; mesmo aqueles que discordam dessa maneira de estabelecer o território frequentemente começam por lá. É a distinção de Block (1995) entre consciência fenomenal e de acesso:


Consciência fenomenal [consciência-F] é experiência; o que torna um estado fenomenalmente consciente é que há alguma coisa que ‘é como (it is like)(Nagel 1974) estar naquele estado. (Block 1995, 225)

Um estado perceptual é consciência de acesso (access-conscious) [consciência-A], aproximadamente falando, se seu conteúdo – o qual é representado pelo estado perceptual – é processado através daquela função de processamento de informação, quer dizer, se seu conteúdo atinge o Sistema Executivo, por meio do qual pode ser usado para controlar o raciocínio e comportamento. (1995, 229)”2


Block também discute um terceiro conceito de consciência, chamado de “consciência de monitoração (1995, 235).3 A fim de permanecermos focados, nós necessitaremos restringir-nos à divisão entre consciência fenomenal e de acesso.

O ponto principal de Block é dissociar a consciência-F da consciência-A: ele busca fazer a conjectura de que os dois tipos de consciência são diferentes em natureza. A fim de fazer isso, ele primeiro tenta encontrar casos nos quais a consciência-F existe enquanto a consciência-A está ausente:


Suponha que você esteja envolvido em alguma intensa conversa quando, subitamente, ao meio-dia, você percebe que, exatamente do lado de fora de janela, há – e sempre houve por algum tempo – uma ensurdecedora broca pneumática escavando a rua. Você esteve ciente (aware) desse barulho durante todo o tempo, mas ao meio-dia você ficou conscientemente ciente (consciously aware) dele. Isto é, você esteve consciente-F do barulho durante todo esse tempo, mas ao meio-dia estava igualmente consciente-F e consciente-A dele. (1995, 234; ênfase original)


Para uma consciência-A sem uma consciência-F, Block argumenta que é difícil encontrar algum caso real, mas que é “conceitualmente possível” (1995, 233), significando que não há incoerência no cenário no qual uma consciência-A exista enquanto que uma consciência-F esteja ausente. Essa estratégia é efetiva uma vez que o que ele quer argumentar é que esses dois tipos de consciência são distintos: para esse propósito, não há necessidade de ter casos reais nos quais uma exista e a outra esteja ausente, embora casos reais ajudem visto que eles servem como provas existenciais.

Outra distinção que precisa estar no lugar é de David Chalmers (1995). Ele propõe um desafio aos pesquisados da consciência com a distinção entre os “problemas fáceis” e os “problemas difíceis” da consciência. De acordo com Chalmers,


Os problemas fáceis da consciência são aqueles que parecem diretamente suscetíveis aos métodos padrões da ciência cognitiva, através dos quais um fenômeno é explicado em termos de mecanismos computacionais ou neurais. Os problemas difíceis são aqueles que parecem resistir a esses métodos. (1995, 4)


Aqui estão alguns exemplos dos problemas fáceis que ele fornece:


A integração de informação por um sistema cognitivo;

A reportabilidade dos estados mentais;

A habilidade de um sistema para acessar seus próprios estados internos;

O foco da atenção (1995).”


Os problemas fáceis assim como os difíceis interessam aos filósofos. A discussão de Block da consciência-F e consciência-A pode ser vista como primariamente no território dos problemas fáceis, enquanto os Capítulos 1 a 5 deste livro podem ser vistos mais como relativos aos problemas difíceis.

Agora, com essas duas distinções básicas à mão, é hora de ver como filósofos e cientistas teorizam sobre os diferentes tipos de consciência, especialmente a consciência fenomenal.


6.3 TEORIAS DA CONSCIÊNCIA


Block busca dissociar a consciência-A da consciência-F. Ele tem várias linhas argumentativas; a mais relevante compreende que a consciência-F não pode ser explicada por conteúdos representacionais. Para entender ao que isso equivale, alguém precisa ter alguma compreensão básica do que são conteúdos representacionais. Novamente, exemplos ajudarão. Duas crenças são diferentes porque elas têm conteúdos representacionais diferentes: minha crença de que amanhã choverá e de que no dia depois de amanhã não choverá são crenças diferentes porque seus conteúdos – “amanhã choverá” e “no dia depois de amanhã não choverá”- são diferentes. Diz-se que esses conteúdos representam estados de coisas (states of affairs), incluindo reais e imaginários. Conteúdos podem ser verdadeiros ou falsos: minha crença de que amanhã choverá pode falhar em ser verdadeira simplesmente porque amanhã não choverá. Conteúdo representacional em si mesmo é um tópico complexo que não pode ser tratado neste capítulo; ele será o assunto do Capítulo 7. Podem haver muitas razões para acreditar que a consciência-F não pode ser explicada por conteúdos representacionais, uma sendo que uma experiência e uma crença podem compartilhar o mesmo conteúdo, mas ter fenomenologia diferente. Isso é discutível. Alguém argumentaria que experiências não têm conteúdo representacional.4

Agora, conteúdo e consciência são dois tópicos principais em filosofia da mente. Outra figura principal nesta área, Daniel Dennett, tem ambos como o título de seu primeiro livro (1969). Eles frequentemente são estudados separadamente, mas alguns filósofos tentaram invocar um para explicar o outro. A posição mais proeminente, exemplificada por Fred Dretske (1995), sustenta que o conteúdo representacional é relativamente mais fácil de entender, uma vez que pode ser explicado por noções naturalistas como informação; é naturalista no sentido de que as ciências naturais achariam essas noções cientificamente respeitáveis. Além disso, essa visão sustenta que a consciência deveria ser entendida através de conteúdo representacional, de modo que seja integralmente naturalizada. Essa visão é o representacionalismo. A declaração canônica dele é que “todos os fatos mentais são fatos representacionais” (Dretske 1995, xiii). Esse é o projeto de “naturalização da mente”. Agora, embora Block seja inteiramente pelo projeto naturalizante, ele contesta essa maneira específica de consciência naturalizante. A intuição básica é que o representacionalismo deixa de fora algo crucial: a condição de ser como (what-it-is-like-ness) da consciência. Isso é por que, por exemplo, crenças com conteúdos representacionais podem ser inconscientes. Ou novamente: alguém que sustente que experiências não têm conteúdo.

Embora Block e outros tenham sido resistentes ao representacionalismo, ele ainda é a visão mais proeminente nesta área. Presumivelmente isso seja porque ele oferece a linha mais promissora de naturalização da mente, de acordo com muitos. Isso é importante como um dos motivos principais da filosofia do século vinte é situar a mente no mundo físico (mais sobre isso nos Capítulos 1-5). Agora, essa teoria proeminente vem em várias formas, cada uma das quais as secções sumarizará.


6.3.1 REPRESENTACIONALISMO DE PRIMEIRA ORDEM


Essa é a visão de que o conteúdo representacional pode exclusivamente explicar a consciência fenomenal (Dretske 1995, Tye 1995). Argumenta-se que eles sejam idênticos, ou que a segunda sobrevenha ao primeiro. A superveniência é outro conceito técnico que pode ser visto em muitas áreas da filosofia. Suponha que A seja a base superveniente, e que se diga que B seja o superveniente. Nesse caso, se B tem alguma mudança, tem de ser por que houve alguma mudança em A. Mas o contrário não é verdadeiro: pode acontecer que B permaneça o mesmo enquanto A mude. Essa é uma maneira específica de explicar a relação de dependência. Ajudaria ver isso com um exemplo concreto. Em ética, tem sido argumentado que fatos na ética – por exemplo, que tortura é errado – tem status firme porque eles sobrevêm aos fatos na física. Nesse caso, se fatos éticos têm qualquer mudança, tem de ser por que houve algumas mudanças em fatos físicos. Mas o inverso não é verdadeiro: pode acontecer que fatos éticos permaneçam os mesmos enquanto fatos físicos mudem. A mesma atitude foi invocado para explicar fatos estéticos. Essa noção de superveniência parece capturar o que nós necessitamos para a relação de dependência: fatos físicos são os mais fundamentais, assim, se outros fatos mudam, tem de ser devido a mudanças em fatos físicos. Mas fatos físicos diferentes podem sustentar os mesmos fatos éticos, estéticos e mentais. Esse é um pensamento poderoso que está presente por trás do representacionalismo.


6.3.2 REPRESENTACIONALISMO DE ORDEM SUPERIOR


Teorias de ordem superior geralmente sustentam que um estado é consciente em virtude de estar acompanhado por outros estados. É claro, como caracterizar o sentido relevante de “acompanhar” é uma questão difícil e controversa (Rosenthal 2005). Uma motivação crucial para teorias de ordem superior é a observação de David Rosenthal de que “estados mentais são conscientes somente se alguém está consciente deles de alguma maneira” (2005, 4; minha ênfase). Ele chama isso de “princípio de transitividade”. Note que “somente se” significa uma relação lógica particular: “A somente se B” significa que B é necessária por causa de A. Assim, esse princípio diz que a consciência de alguém de alguns estados mentais é uma condição necessária para esses estados mentais serem conscientes.5

Teorias de ordem superior vêm em muitas variedades. A questão básica é sobre a natureza dos estados de ordem superior relevantes. Eles são concebidos ou como percepção ou pensamento. O primeiro pode ser encontrado em Armstrong (1968) e Lycan (1996), e é também chamado de “teoria do sentido interno (inner sense theory)”. A ideia é que, assim como percepções ordinárias (sentido externo), os estados internos constituidores da consciência também são perceptuais (sentido interno). O que é crucial aqui é que a percepção é um estado de nível inferior comparado ao pensamento. Um mérito dessa versão é que a percepção é mais primitiva do que pensamento, assim pode mais facilmente acomodar o caso de animais não linguísticos, uma vez que eles podem perceber mas não poderiam ser capazes de pensar.

A segunda das teorias de ordem superior do pensamento tem duas versões. Rosenthal (2005) sustenta que estados mentais fenomenalmente consciente são os objetos de pensamentos de ordem superior. Isso é atualismo. Carruthers (2005) sustenta que estados mentais fenomenalmente conscientes estão disponíveis para pensamentos de ordem superior. Isso é disposicionalismo. A distinção entre atual e disposicional também é importante em muitas áreas da filosofia. Pense sobre os documentos em seus laptop. Uma vez que você tenha as senhas relevantes, esses documentos estão acessíveis ou disponíveis para você, mas isso não significa que, em qualquer momento específico, você esteja acessando qualquer documento específico. Falando francamente, para o atualista, somente estados mentais que eu estou atualmente acessando em um dado momento são conscientes, enquanto que, para o disposicionalista, quaisquer estados mentais que eu poderia acessar em algum momento são conscientes. No geral, as explicações disposicionais são menos exigentes do que as atualistas, simplesmente porque noções disposicionais no geral são mais fracas. Mas todas essas teorias de ordem superior podem ser classificadas como versões do representacionalismo, uma vez que percepções assim como pensamentos possuem conteúdo, de acordo com a maioria das visões.


6.3.3 REPRESENTACIONALISMO REFLEXIVO


Esta visão poderia ser difícil de diferenciar das teorias de ordem superior. A ideia básica é que estados mentais fenomenalmente conscientes possuem eles mesmos conteúdos representacionais de ordem superior que representam os estados mesmos (Kriegel 2009). O mérito principal desta visão é que ela não duplica estados mentais: os conteúdos são partes dos estados conscientes relevantes. Por exemplo, minha experiência visual de ver o livro diante de mim tem alguma fenomenologia consciente específica, e também o conteúdo de que há um livro diante de mim. Esta visão diria que essa experiência visual tem a fenomenologia que tem devido ao conteúdo que ela possui. Esse grupo de ideias surge em tantas variedades que nós não podemos cobrir todas aqui, mas é digno de nota ter em mente que isso não deveria ser confundido com teorias de ordem superior.

É controverso se os próximos dois grupos deveriam ser classificados como representacionalismo. Este capítulo não toma uma posição com respeito a essa questão adicional.


6.3.4 TEORIAS COGNITIVAS


Este grupo de ideias invoca a cognição para entender a consciência. De uma maneira, é muito semelhante ao representacionalismo padrão, uma vez que conteúdos frequentemente são atribuídos a estados cognitivos tais como crenças. Contudo, eles são crucialmente diferentes naquilo que teorias cognitivas tipicamente não invocam conteúdo representacional, o que é primariamente uma noção da filosofia. A mais famosa teoria cognitiva foi proposta pelo cientista Bernard Baars (1988): de acordo com essa visão, a consciência emerge a partir de competições entre processadores e outputs por uma limitada capacidade de memória de trabalho que transmite informação para acesso em uma “área de trabalho global”. Alguém pode pensar nesse modelo com a analogia com computadores digitais. Isso é bem semelhante ao modelo de múltiplos esboços (multiple drafts model) de Dennet, de acordo com o qual diferentes inquéritos (probes) elicitariam diferentes respostas nos estados conscientes do sujeito (1991). Elas são semelhantes no sentido de que as duas teorias invocam noções cognitivas para explicar a consciência. Teorias cognitivas tendem a ser bem naturalistas, emboras elas não usem conteúdos representacionais para explicar a consciência. Blocke argumenta contra teorias cognitivas com razões similares [às utilizadas] contra as visões representacionais, ou seja, elas não capturam a condição de ser como (what-it-is-like-ness) da experiência.


6.3.5 TEORIA DA INTEGRAÇÃO DA INFORMAÇÃO


Muitos pesquisadores concordam que a informação precisa desempenhar algum papel na teoria completa da consciência, mas exatamente qual papel ela desempenha é controverso. A Teoria da Integração da Informação, ou TII, é uma visão que atribui um papel muito significante à informação e que foi proposta pelo neurocientista Giulio Tonomi (2008). Ele argumenta que o tipo relevante de integração de informação é necessário e suficiente para consciência. De acordo com essa visão, a consciência é uma propriedade puramente teórico-informacional de sistemas cognitivos, ou seja, nenhuma outra noção é mais fundamental a respeito disso. Os detalhes dessa teoria são bem técnicos, e necessitam ser desenvolvidos ulteriormente, visto que ela ainda é bem jovem. Alguns também a comparam ao panpsiquismo, a visão de que a consciência é uma das propriedades mais fundamentais do mundo (Chalmers 1996). Apenas nós precisamos ter em mente que cada teoria é distinta é precisa ser entendida em seus próprios termos.

Isso encerra nosso sumário de algumas das principais teorias da consciência. Não se pretendeu ser compreensivo, e cada teoria discutida acima possui muito mais detalhes que precisam ser tomados seriamente. Esse sumário, e este capítulo como um todo, serve somente como um ponto de partida para exploração adicional.


6.4 ATENÇÃO E CONSCIÊNCIA


No começo deste capítulo, nós vimos que há conexões potenciais entre atenção e consciência. Tipicamente, capítulos sobre consciência não discutem atenção. Desde de 2010 ou então, contudo, discussões filosóficas sobre atenção tornaram-se mais generalizadas, assim, faz sentido discutir sua relação com a consciência, mesmo se brevemente.

Antes dos anos 1990,consciênciaera um termo do qual os cientistas tentavam ficar longe. Era considerado como não científico, como se são houvesse maneira respeitável de dar-lhe uma definição operacional satisfatória, ou seja, era difícil dar uma definição que estivesse fundamentada em evidência empírica. Naquela época, os cientistas estudavam a atenção como alternativa, como se fosse mais fácil de a quantificar, ou assim parecia. Estudos empíricos da atenção tinham sido frutíferos desde os anos 1960. Agora, apesar de os cientistas tentarem duramente evitar falar explicitamente de consciência, não era possível ignorá-la inteiramente. Por exemplo, quando o psicólogo Max Coltheart define “persistência visível” (1980), é difícil entende o que nós deveríamos entender por “visível”, se é diferente de “conscientemente visto”, embora de fato possa haver outras interpretações, tais como “capaz de ser visto”. Mas alguém se pergunta se deveria significar “capaz de ser conscientemente visto”. É claro, há sutileza aqui, por exemplo, Block distingue ulteriormente entre persistência visível e persistência fenomenal, o que faz alguém se perguntar como entender exatamente a persistência visível. Mas, em qualquer caso, antes dos anos 1990 ou então, a atenção era intensamente estudada por cientistas e, de uma maneira, ela servia como um substituto para a consciência, visto que a atenção é mais cientificamente respeitável, segundo muitos.

A situação mudou dramaticamente. Atualmente, estudos sobre consciência são universais, não somente nas ciências mas também na filosofia. As razões para isso são complicadas; não é simplesmente porque hoje em dia a consciência pode ser melhor definida nas ciências. (Eu não deverei tocar nessa história complexa aqui.) Agora, a questão concernente à relação entre atenção e consciência surge: São elas idênticas? Se não, como elas relacionam-se uma com a outra? É difícil sustentar que elas sejam idênticas, visto que parecem haver casos claros nos quais um sujeito, não necessariamente um sujeito humano, pode focar sua atenção enquanto estando inconsciente do alvo. Talvez esse sujeito seja um simples organismo que não está consciente no sentido relevante, mas possivelmente possui certas capacidades atencionais básicas, ou seja, eles podem estender seus recursos cognitivos para se focar em alvos específicos. Normalmente a questão é mais sobre se a atenção é necessária ou suficiente para a consciência. Jesse Prinz (2012) argumenta em favor dessa visão forte, e algumas vezes ele aproxima-se da visão de identidade. Essa visão enfrenta dois desafios básicos: alguns argumentaram que a atenção não é necessária para a consciência; a visão do transbordamento fenomenológico (phenomenological overflow) sustentada por Block (2007) é uma de semelhantes visões. Alguns argumentaram que a atenção não é suficiente para a consciência; Robert Kentridge e colegas (1999) argumentaram que o caso de visão cega (blindsight) – pacientes que são cegos em certas partes de seus campos visuais devido a danos corticais – é atenção sem consciência (awareness), uma vez que esses pacientes mesmos também insistem em que eles estão inconscientes de partes relevantes dos campos visuais. Agora, tudo isso é altamente discutível e há espaço para discordar (Cheng 2017). A consciência bem como a atenção ainda são temas quentes hoje em dia, e continuarão a ser assim no futuro previsível.


REFERÊNCIAS


Armstrong, David. 1968. A Materialist Theory of the Mind. London: Routledge.

Baars, Bernard. 1988. A Cognitive Theory of Consciousness. Cambridge, UK: Cambridge University

Press.

Block, Ned. 1995. “On a Confusion about a Function of Consciousness.” Behavioral and Brain Sciences 18: 227-287.

Block, Ned. 2007. “Consciousness, Accessibility and the Mesh between Psychology and Neuroscience.” Behavioral and Brain Sciences 30: 481-548.

Carruthers, Peter. 2005. Consciousness: Essays from a Higher-Order Perspective. Oxford: Oxford University Press.

Chalmers, David. 1995. “Facing up to the Problem of Consciousness.” Journal of Consciousness Studies 2(3): 200-219.

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Cheng, Tony. 2017. “Iconic Memory and Attention in the Overflow Debate.” Cogent Psychology 4.

Coltheart, Max. 1980. “Iconic Memory and Visible Persistence.” Perception and Psychophysics 27(3):

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Dennett, Daniel. 1969. Content and Consciousness. Oxon: Routledge & Kegan Paul.

Dennett, Daniel. 1991. Consciousness Explained. New York: Little Brown & Co.

Dretske, Fred. 1995. Naturalizing the Mind. Cambridge, MA: MIT Press.

Kentridge, Robert et al. 1999. “Attention without Awareness in Blindsight.” Proceedings of the Royal Society of London (B) 266: 1805-1811.

Kriegel, Uriah. 2009. Subjective Consciousness: A Self-Representational Theory. Oxford: Oxford University

Press.

Lycan, William. 1996. Consciousness and Experience. Cambridge, MA: MIT Press.

Nagel, Thomas. 1974. “What is it like to be a Bat?” Philosophical Review 83: 435-450.

Prinz, Jesse. 2012. The Consciousness Brain: How Attention Engenders Experience. New York: Oxford

University Press.

Rosenthal, David. 2005. Consciousness and Mind. Oxford: Oxford University Press.

Tononi, Giulio. 2008. “Consciousness as Integrated Information: A Provisional Manifesto.” Biological

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Travis, Charles. 2004. “The Silence of the Senses.” Mind 113: 57-94.

Tye, Michael. 1995. Ten Problems of Consciousness: A Representational Theory of the Phenomenal Mind. Cambridge, MA: MIT Press.

Tye, Michael. 2003. Consciousness and Persons: Unity and Identity. Cambridge, MA: MIT Press.


LEITURA ADICIONAL


Blackmore, Susan and Emily Troscianko. 2018. Consciousness: An Introduction. Oxford: Routledge.

Churchland, Patricia. 1989. Neurophilosopy: Toward a Unified Science of the Mind-Brain. Cambridge, MA:MIT Press.

Hurley, Susan. 1998. Consciousness in Action. Cambridge, MA: MIT Press.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

CHENG, T. 6. Consciouness. In: SALAZAR, H. et all (Org.) Introduction to Philosophy: Philosophy of Mind. Rebus Community: 2019. Disponível em: <https://press.rebus.community/intro-to-phil-of-mind/chapter/consciousness/>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


1 NOTA DO TRADUTOR: quando no texto for indicado apenas “consciência” – ou seja, sem o original entre parênteseso termo é tradução deconsciousness” e é o equivalente mais próximo em português para a ideia de ser consciente de algo (de si mesmo ou outras coisas). Quando “consciência” for tradução de awarenesso original estará incluído entre parênteses ao lado do equivalente em português, exatamente como no período acima.

2 Para mais sobre representação e conteúdo, ver Capítulo 7.

3 Para mais conceitos de consciência, ver Tye (2003).

4 Ver Travis (2004), por exemplo.

5 Ver também Lycan (1996).

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