domingo, 13 de dezembro de 2020

Uma Introdução à Filosofia da Mente 7 Conceitos e Conteúdo

Por Eran Asoulin


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7.1 INTRODUÇÃO


O problema da intencionalidade é o problema de como alguma entidade podem ser “sobre (about)” alguma coisa. Quer dizer, sentenças, pensamentos, ou conceitos, entre outros, exibem intencionalidade naquilo que eles são sobre alguma outra coisa; considera-se que eles sejam a representação de alguma coisa. A noção de intencionalidade pode rastreada de volta pelo menos até tão longe quanto Aristóteles (384-322AC), embora o filósofo alemão Franz Brentano (1838-1917) geralmente seja creditado com a introdução da noção na filosofia contemporânea do final do século XIX. O comentário frequentemente citado de Brentano é que “Cada fenômeno mental é caracterizado por … a inexistência intencional (ou mental) de um objeto” e “faz referência a um conteúdo, dirigido para um objeto”. Em outras palavras, “Cada fenômeno mental inclui algo como um objeto dentro de si mesmo, embora todos não o façam da mesma maneira. Na apresentação, algo é apresentado; no julgamento, algo é afirmado ou negado; no amor, amado; no ódio, odiado; no desejo, desejado e assim por diante” (Brentano [1874] 1995, 68). A maneira usual de conceber o problema da intencionalidade é em termos da noção de significado (meaning) ou conteúdo. Qual é o status do sentido de uma sentença além e acima de seus aspectos formais e sintéticos? O que faz com que seja o caso de que uma proposição particular tenha o conteúdo que tem? É o conteúdo apenas dependente das propriedades internas à mente? Ou nós precisamos fazer uso de fatores externos à mente tais como o contexto de expressão (utterance) ou a história social do falante a fim de determinar o conteúdo? Aqueles que argumentam que as propriedades relevantes e cientificamente interessantes que estão envolvidas com o conteúdo estão em sua grande maioria, embora não inteiramente, no interior da mente são referidos como internalistas. Por outro lado, externalistas argumentam que há algo mais para o conteúdo do que eventos meramente internos à mente e a conexão de causalidade deles com o mundo: os externalistas insistem em que os significados de nossas palavras (ou sentenças, ou os conteúdos de nossos pensamentos, etc.) dependem de alguma profunda conexão metafísica (talvez causal) entre a mente e outros objetos mundanos que sejam independentes da mente.

Os externalistas argumentam que uma teoria do conteúdo precisa fornecer uma explicação da relação entre expressões linguísticas e o que pode ser chamado de coisas no mundo. Em outras palavras, a reivindicação é que, a fim de explicar o conteúdo, nós precisamos fornecer uma explicação da relação entre as expressões linguísticas e as coisas sobre as quais elas podem ser usadas para falar. Ou, como Colin McGinn coloca: “O externalismo supõe que haja uma profunda conexão entre os estados da mente e as condições do mundo não mental. É a mente fundamentalmente autônoma com respeito ao mundo, ou o mundo entra na natureza mesma da mente?(McGinn 1989, 1). Além disso, ele observa que, de acordo com o externalismo, “Dessa maneira, o ambiente é considerado ser constitutivo da natureza mesma dos estados mentais, determinando o que eles são.” McGinn argumenta que o internalismo “insiste em … desenhar uma linha forte entre mente e mundo; mas o externalismo sustenta que a mente está impregnada pelo mundo, configurada por ele” (1989, 3). Dito isso, contudo, nós veremos que a principal força e substância da posição internalista não é exatamente uma imagem no espelho ou uma negação da posição externalista, pois o internalismo somente nega que haja uma profunda relação metafísica entre as coisas no mundo e as expressões linguísticas. Quer dizer, os internalistas disputam a reivindicação externalista de que as relações entre as expressões linguísticas e as coisas no mundo sejam desejáveis, ou mesmo tratáveis, numa teoria do conteúdo.

Este capítulo é estruturado como se segue. Primeiro, eu discuto a natureza dos conceitos. Em seguida, eu discuto o externalismo e a maneira pela qual ele explica a natureza dos conceitos e seu conteúdo. Eu discuto um dos maiores experimentos de pensamento que motivou muitos filósofos a adotarem a posição externalista. Então eu discuto a posição internalista, a qual não somente fornece objeções às principais reivindicações do externalismo, mas também fornece sua própria explicação positiva dos conceitos e do conteúdo deles.


7.2 O QUE É UM CONCEITO?


Em filosofia da mente, geralmente, entende-se que um conceito refere-se ao constituinte de um pensamento. Considere a proposição “John acha que o livro está sobre a mesa”. Seguindo Bertrand Russell (1872-1970), os filósofos falam em atitudes proposicionais, as quais incluem crenças, desejos, esperanças, medos, expectativas, e qualquer outra atitude que envolva uma proposição. Uma atitude proposicional da forma “X pensa que P” tem duas partes. A primeira constitui o verbo da descrição do estado psicológico e contém informação sobre o agente e o estado psicológico do agente. Quer dizer, a primeira parte dá informação sobre quem toma aquela atitude proposicional (por exemplo, “John pensa”). A segunda parte completa a descrição ao revelar o que é a proposição, ou ao que a atitude refere-se (por exemplo, “que o livro está sobre a mesa”). Diz-se que conceitos são os constituintes das proposições expressas por atitudes proposicionais (nesse caso, os conceitos são, aproximadamente, “livro”, “mesa” e “sobre”). Portanto, atitudes proposicionais e conceitos são usados em explicações do comportamento na psicologia popular (ou intencional).

O que se segue é um exemplo simples das explicações e predições que a psicologia popular possibilita. Suponha que você queira explicar por que Leila escolheu levar seu guarda-chuva com ela quando ela saiu hoje. Nós podemos fazer uso de algumas atitudes proposicionais e certas leis da psicologia popular para formular uma tal explicação. Por exemplo, Leila acredita que choverá hoje (talvez ela ouviu a previsão do tempo no rádio), Leila acredita que usar um guarda-chuva ajuda-la-á a buscar abrigo da chuva, Leila não deseja molhar-se hoje. Portanto, uma vez todas as coisas sendo iguais e humanos agindo de acordo com suas crenças e desejos, nós podemos explicar por que Leila levou seu guarda-chuva hoje. Em outras palavras, ela levou o guarda-chuva porque ela acreditava X e desejava Y, e acreditava que fazendo Z ela poderia acarretar Y (note que isso é um contrafactual, de modo que, se ela não acreditasse que X e não desejasse que Y, então ela não faria Z). Uma vez que crenças e desejos são partes integrais do pensamento humano, e uma vez que crenças, digamos, são consideradas como expressões de proposições, o papel central de conceitos em filosofia e psicologia é claro. Quer dizer, uma que os constituintes de proposições são conceitos, a necessidade de explicar a natureza de conceitos é inseparável da teoria de como a mente funciona.

Conceitos claramente são compartilhados entre diferentes pessoas, e a questão do que é que é compartilhado pode ser entendida como a questão do que é a natureza do conteúdo. Quer dizer, se John assim como Leila pensa que P, então eles dois compartilham o conteúdo inerente aos conceitos da proposição P. Ao que essa reivindicação equivale é explicado de maneiras muito diferentes por externalistas e internalistas, especialmente em termos de qual papel explanatório o conteúdo deve desempenhar. Os externalistas estão principalmente interessados em conceitos na medida em que eles figuram na explicação de comportamentos (linguísticos ou outros), ao passo que os internalistas estão interessados em conceitos na medida em que eles servem como significados de itens linguísticos. Portanto, um foco em semântica internalista é o mecanismo subjacente à estrutura conceitual em virtude da qual a produção e compreensão de linguagem é tornada possível. Vejamos agora ao que cada reivindicação equivale.


7.3 EXPLICAÇÕES EXTERNALISTAS DO CONTEÚDO


Desde os anos 1970 o externalismo tornou-se uma posição largamente sustentada na filosofia da mente. Os argumentos clássicos em favor do externalismo são encontrados em “The Meaning of ‘Meaning’” de Hilary Putnam (1926-2016), “Individualism and the Mental” de Tyler Burge, e Naming and Necessity de Saul Kripke. Putnam argumenta que “uma filosofia melhor e uma ciência melhor da linguagem” precisa abranger a “dimensão social da cognição” e a “contribuição do ambiente, das outras pessoas e do mundo” à semântica (Putnam 1975, 49). Burge argumenta contra qualquer teoria sobre a mente na qual “as naturezas mentais de todos os estados (e eventos) mentais de pessoas e animais sejam tais que não haja nenhuma relação necessária ou profundamente individuativa entre o ser do indívuo em estados daqueles tipos e a natureza do ambiente social ou físico do indivíduo” (Burge 1986, 3-4).

O experimento de pensamento da Terra Gêmea, de Putnam, é o mais famoso argumento em favor do externalismo; ele alega mostrar que dois sujeitos podem ter estados mentais psicológicos internos idênticos, mas que o conteúdo desses estados pode ser diferente devido a particular variações no ambiente. Putnam pede-nos para imaginar um mundo (Terra-gêmea) no qual a água não seja composta de H2O como no nosso mundo, mas sim de XYZ. Quando uma pessoa (chame-o de Oscar) diz “água” na Terra a palavra refere-se a H2O, mas quando uma pessoa diferente (chame-o de Oscar-gêmeo) diz “água” em um lugar diferente (na Terra-gêmea) a palavra refere-se a XYZ. Isso parece intuitivamente claro; a palavra “água” refere-se ao que a palavra diz respeito naquele ambiente particular (assim, quando Oscar diz “água” essa palavra diz respeito a H2O em seu ambiente). Putnam pergunta o que aconteceria se Oscar fosse transportado para a Terra-gêmea. A palavra “água” proferida por Oscar na Terra-gêmea agora se refere a H2O ou XYZ? Note que o experimento de pensamento determina que a única mudança que ocorra quando Oscar é transportado da Terra para a Terra-gêmea é a mudança de ambiente (ou seja, todos os estados psicológicos dele permanecem inalterados). Agora, Putnam raciocina que, se o conhecimento do significado de um termo é somente uma questão de estar em um certo estado psicológico, então o termo “água” na Terra-gêmea quando proferido por Oscar deveria referir-se a H2O e não a XYZ como nós poderíamos esperar. Isso é porque o estado psicológico de Oscar foi estabelecido na Terra, e, se o estado psicológico estabelece a referência, então “água” referir-se-á a H2O independentemente do ambiente no qual o sujeito está (Putnam 1975).

O que se segue é outra maneira de colocar o assunto: quando o Oscar-gêmeo na Terra-gêmea diz “água” enquanto aponta para um lago inteiramente composto de XYZ, visto que todas as coisas aquosas são compostas disso na Terra-gêmea, “águarefere-se a XYZ não a H2O. Mas, o argumento de Putnam reivindica, se o conhecimento do termo for apenas uma questão de estar em um certo estado psicológico, então “água” proferida na Terra-gêmea por Oscar transportado da Terra não pode significar XYZ e precisa significar H2O. Algo aqui parece estar errado. Se duas pessoas proferem a mesma palavra no mesmo ambiente nós esperamos que a palavra refira-se a mesma coisa. Desse modo, se nós queremos sustentar a pretensão de que o sentido de um termo determina sua referência ou extensão, o argumento reivindica, nós precisamos conceder que, como Putnam famosamente o colocou, “Corte a torta da maneira que quiser, ‘significados’ não estão apenas na cabeça!”(1975, 144). Quer dizer, a afirmação é que as propriedades internas à mente por si mesmas não podem estabelecer os significados das palavras ou ao que elas fazem referência.

O argumento de Putnam é dirigido aos significados de palavras, é claro, mas logo foi percebido, por Colin McGinn, Tyler Burge e outros que o mesmo argumento pode ser aplicado aos conteúdos de nossas atitudes proposicionais, consequentemente, aos conteúdos de nossos pensamentos. Então, a afirmação principal do externalismo é que, mesmo embora se considere que pensamentos estejam dentro da cabeça de uma pessoa, o conteúdo desse pensamentos sobrevém1 de fatores externos no ambiente da pessoa que os têm. Desse modo, como Ben-Menahem observa em relação a um dos exemplos de Putnam, “falar de mesas de café não é suficiente para nós meramente termos o conceito de uma mesa de café, mas nós precisamos estar em contato com mesas de café reais” (Ben-Menahem 2005, 10; ênfase no original).


7.4 SEMÂNTICA INTERNALISTA


Agora, poder ser objetado que o externalismo tem de estar certo: Como poderia o conteúdo não depender do mundo exterior? Certamente o significado da palavra “elefante” não pode ser devido apenas a propriedades internas à mente. A palavra diz respeito a elefantes, pode ser argumentado, que estão no mundo externo à mente, não dentro da mente. Como nós veremos agora, os internalistas argumentam que há boas razões para questionar a afirmação externalista de que conceitos estão conectados ao mundo na maneira pela qual os externalistas afirmam que eles estão. Em outras palavras, o internalismo não nega a ligação com o mundo mas, em vez disso, possui uma explicação diferente de como nossa mente gera e interpreta o conteúdo de nossos conceitos. O internalismo argumenta que, para os propósitos de investigação científica da linguagem e da mente, as propriedades internas da mente humana são o assunto mais relevante e frutífero. Desse modo construído, o internalismo não é tanto uma solução para os problemas com os quais os externalistas lutam. Em vez disso, como nós veremos abaixo, o internalismo é um programa de pesquisa diferente, e assim há uma diferença nas questões que o externalismo e o internalismo tentam responder.

Uma definição sucinta de internalismo é fornecida por Wolfram Hinzen:O internalismo é uma estratégia explanatória que torna a estrutura e constituição interna do organismo a base para a investigação de seu funcionamento externo e as maneiras pelas quais ele está estabelecido em um ambiente.(Hinzen 2006, 139) O internalismo estuda a estrutura e os mecanismos internos de um organismo; o ambiente externo entra em cena quando aos processos internos são atribuídos conteúdo pelo teórico, desse modo explicando como os mecanismos internos constituem um processo cognitivo em um ambiente particular. Essas atribuições de conteúdo, afirmam os internalistas, variam com os interesses e objetivos do teórico, mas o conteúdo e sua atribuição não são parte essencial da teoria mesma. Assim, por exemplo, o mecanismo que detecta linhas verticais no input visual estaria no escopo de uma teoria internalista, mas não o conteúdo representacional atribuído ao output desse mecanismo. O último poderia ser qualquer número de coisas (a linha vertical poderia representar a borda de um prédio ou ser a parte de uma representação maior de um rosto humano), mas o mecanismo subjacente permaneceria inalterado.

Em outras palavras, como discutido por Frances Egan em trabalho que se estende pelas últimas décadas, a reivindicação internalista é que a caracterização computacional de um mecanismo interno abstrai das específicas atribuições de conteúdo. Assim alguém pode separar o conteúdo de, digamos, um estado visual do mecanismo computacional em virtude da qual aquele conteúdo é tornado possível. Por exemplo, um mecanismo particular pode receber um input de um certo conjunto de parâmetros que requerem computação. O teórico então examina o output dessas computações. Alguém pode imaginar um mecanismo que está estabelecido no sistema visual e ao qual se está atribuindo conteúdos visuais adequados a teoria da visão. Contudo, o mesmo mecanismo pode estar estabelecido no sistema auditivo e desse modo pode-se atribuir-lhe conteúdos diferentes (auditivo) que são definidos não em termos de propriedades visuais mas sim em termos de propriedades acústicas. Em outras palavras, não há nada inerente às computações internalistas realizadas que as torne visuais ou auditivas. Como Egan discutiu, há um conjunto subjacente de computações que é requerido para o processamento visual assim como auditivo. O rótulo que nós damos ao output de semelhantes computações (o conteúdo que nós atribuímos a elas) depende de onde o input do mecanismo origina-se. Se o input é visual, então o teórico atribuirá ao output do mecanismo um conteúdo visual. Mas nada no mecanismo interno mesmo diz-nos o quê. O internalismo estuda o mecanismo interno em si, o qual permanece inalterado independentemente de se acontece de estar estabelecido em ou ser usado por, digamos, o sistema visual ou sistema auditivo.

Vamos explicar essas afirmações. Primeiro, note que a afirmação externalista de que estados de organismos individuais não podem ser entendidos em isolamento completo do ambiente no qual eles acontecem de estar não está em disputa. O argumento é sobre se o que acontece no ambiente deveria ser parte do que se supõe que a teoria deveria explicar. Então, qual é o problema que os internalistas veem com a relação dos externalistas entre as palavras e as coisas sobre as quais as palavras são usadas para falar? Em um artigo clássico que formou uma das fundações da semântica internalista, Jerrold Katz (1932-2002) e Jerry Fodor (1935-2017) discutiram essa questão (embora eles não a concebessem em termos de internalismo versus externalismo). Katz e Fodor pedem ao leitor para comparar as três sentenças seguintes:

(1) “Deveríamos levar (take) o júnior de volta ao jardim zoológico?”

(2)Deveríamos levar (take) o leão de volta ao jardim zoológico?

(3)Deveríamos tomar (take) o ônibus de volta para o jardim zoológico?

Então, eles observam que a informação que figura na escolha da correta interpretação de cada uma dessas sentenças inclui o fato que, digamos, leões, mas não criança ou ônibus, são frequentemente mantidos em jaulas. Quer dizer, diferente de (2), o sentido de (1) não pode ser que nós deveríamos levar um ser vivo de voltar para o jardim zoológico e colocá-lo em uma jaula. (1) significa que nós deveríamos pegar uma criança e mostrar a ela os animais por aí no zoológico. (3), por outro lado, não tem nenhuma dessas interpretações. (3) não pode significar que nós deveríamos levar (take) o ônibus para o zoológico e colocá-lo numa jaula, nem pode significar que nós deveríamos pegar (take) o ônibus e mostra-lhe os animais por aí no zoológico. A fim de decifrar esses sentidos alguém precisa conhecer certos fatos sobre o mundo; esses fatos não são fatos semânticos ou gramaticais (Katz e Fodor 1963).

Após listar um punhado de outros exemplos de qual informação é necessária para a interpretação, Katz e Fodor notam que o leitor considerará fácil construir uma sentença ambígua cuja resolução requeira a representação prévia de praticamente qualquer item de informação sobre o mundo. Isso é porque, a fim de resolver uma grande quantidade de sentenças ambíguas, alguém necessita ter certos fatos sobre o mundo sem os quais certas interpretações de sentenças estão indisponíveis. Por exemplo, considere a sentença “Eu vi o homem com os binóculos”. Se alguém não soubesse o que binóculos são, então a única interpretação disponível seria que uma pessoa viu um homem segurando um objeto que é chamado de “binóculos”. Contudo, uma vez que o conhecimento de mundo de alguém é expandido para incluir fatos sobre binóculos (a saber, que eles são usados para ver objetos muito distantes) então outras interpretações tornam-se disponíveis e depois a sentença torna-se ambígua. Quer dizer, a sentença então tem a interpretação adicional de que “Eu vi um homem e eu usei binóculos para ver aquele homem”. A afirmação de Katz e Fodor é que, a fim de desambiguar semelhantes sentenças, alguém precisa conhecer coisas que não são puramente semânticas (para o que binóculos são usados é um fato sobre o mundo e não um fato gramatical). O problema é que uma teoria do sentido que objetive incluir toda a informação relevante que é necessária a fim de desambiguar sentenças e determinar a interpretação correta incorrerá em grandes dificuldades, pois uma tal teoria não pode predizer que tipo de informação será necessária para a interpretação de sentenças.

O resultado é que uma teoria que insista (como o externalismo faz) em incluir as relações da mente com o mundo exterior em uma teoria da linguagem não pode ter esperança de encontrar relações confiáveis do tipo acima descrito (muito menos sistematizá-las em uma teoria explanatória fecunda). Contudo, em relação aos mecanismos subjacentes da mente em virtude dos quais a geração e interpretação de conteúdo é tornada possível, os internalistas afirmam que uma teoria explanatória fecunda é possível. O mais famoso proponente de semântica internalista é Noam Chomsky, e seu trabalho está em forte contraste com a semântica externalista de Hilary Putnam ou Donald Davidson (1917-2003). O trabalho recente de Paul Pietroski (2008, 2010) é um excelente exemplo de semântica internalista. Pietroski constrói sentido em termos de projetos (blueprints) que são usados pela faculdade da linguagem na mente a fim de construir conceitos. Isso é uma tentativa de explicar os mecanismos mentais subjacentes em virtude dos quais nós podemos gerar e interpretar conteúdos pensados. O sentido de uma palavra em semântica internalista é explicado não em termos de uma relação da palavra com o mundo exterior, mas em termos do papel interno da palavra na construção mental do conceito que tem o conteúdo requerido. Note a diferença aqui. A semântica internalista estuda os mecanismos na mente que constroem conceitos. Uma vez que esses conceitos são gerados, eles são transferidos da faculdade da linguagem para os sistemas internos à mente de pensamento e para o sistema perceptivo-articulatório.2 Esses sistemas então fazem uso desses conceitos para vários fins tais como pensamento e fala sobre o mundo.

Em outras palavras, a reivindicação do internalista é que a mente tem certos mecanismos que incluem instruções para construir conceitos, os quais, em seguida, fornecem os inputs para outros sistemas (internos à mente) que entram em várias atividades humanas, uma das quais é a comunicação. A semântica internalista, então, preocupa-se com a natureza dos mecanismos computacionais da faculdade da linguagem e a relação deles com os sistemas de pensamento; ela preocupa-se não com os conceitos mesmos, mas como os mecanismos que obtêm, constroem e combinam conceitos dentro da mente. Quer dizer, o internalismo está preocupado com os mecanismos internos à mente de criação e conceitos. É claro, isso está a bem distante do que a semântica externalista estuda, que são os conceitos mesmo, o papel deles no uso da linguagem, e a relação deles com o ambiente do falante.


7.5 CONCLUSÃO


A diferença entre as posições externalista e internalista em relação ao conteúdo mental é uma diferença no tipo de questões que cada um tenta responder. É uma diferença na maneira pela qual cada uma constrói o papel que o conteúdo desempenha na explicação da linguagem e da mente. O argumento em favor de cada abordagem para a ciência e a filosofia da linguagem e da mente, evidentemente, não é um argumento chocante, nem é garantia de que um lado virá a ser o caminho correto. Como Gabriel Segal observa corretamente, “O ponto é que nós não deveríamos esperar descobrir demais a partir da poltrona. Descobrir a verdadeira natureza do conteúdo deveria ser um empreendimento científico (quer nós o chamemos ou não de ‘filosófico’)(Segal 2000, 20).


REFERÊNCIAS


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LEITURA ADICIONAL


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Próximo capítulo


ORIGINAL:

ASOULIN, E. 7. Concepts and Content. In: SALAZAR, H. et all (Org.) Introduction to Philosophy: Philosophy of Mind. Rebus Community: 2019. Disponível em: <https://press.rebus.community/intro-to-phil-of-mind/chapter/concepts-and-content/>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


1 Aqui superveniência refere-se a um certo conjunto de propriedades em virtude das quais algum outro conjunto é tornado possível. Se A sobrevém a B, então mudar qualquer coisa em B também muda A. Assim, por exemplo, a cor azul sobrevém a um certo conjunto de propriedades físicas tais como o comprimento de onda da luz. O que se segue é que, se nós mudarmos o comprimento de onda da luz, então nós também mudaremos a cor. Com relação ao conteúdo, a afirmação externalista é que o conteúdo sobrevém ao que está na cabeça assim como o que está no ambiente. Segue-se, então, que, se nós mudarmos as características relevantes no ambiente, então o conteúdo também mudará. Os internalistas, é claro, rejeitam essa afirmação.

2 Esse é o sistema responsável pela externalização da linguagem via som e signo. A maneira pela qual uma palavra particular é pronunciada, por exemplo, será determinada pelo sistema perceptivo-aticulatório, ao passo que a significado de uma palavra será determinado pelos sistemas de pensamento (conhecidos como sistema intencional-conceitual).

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